04/10/2019

[Alinhavando] "What do guinea pigs do?!"

Como o mundo está cheio de sinais e maravilhas que vêm e vão,
 se você tiver sorte, talvez os veja.
- Helen Macdonald
Fotógrafo: Pentti Sammallahti
Com o breve Opening a Gate (2001), John Berger me apresentou ao fotógrafo finlandês
Pentti Sammallahti, cuja obra é marcada por uma bela peculiaridade: onipresentes cachorros, em parceria com a peculiar luz captada pelas lentes do artista, aparentam oferecer ao observador a chave que abre o portal de acesso a um lugar fora e além. Nossa rotina é feita de trocas diárias com aquilo que nos cerca, de modo que o que vemos nos confirma, porém Berger assegura que a ordem costumeiramente captada por nossos olhos não é única; ela coexiste com outras ordens invisíveis à visão humana. Ainda na opinião dele, os cães - com suas patas bem adaptadas à corrida, o faro aguçado e a boa memória para sons - são experts das fronteiras naturais dos interstícios e, se prestarmos atenção, é possível reparar nos olhos deles não apenas uma sintonia com a ordem humana, mas também com outras ordens visíveis no mundo. Nesse contexto, Berger confabula que foi provavelmente um cachorro que atraiu Sammallahti para o local e instante de captura de suas imagens, nas quais a ordem humana parece desvanecer da posição central, enquanto os interstícios se abrem. Ao googlar as fotos do finlandês, descobri que outros animais aparecem como via de acesso às ordens que escapam do nosso alcance sensorial. Contudo, de fato o crítico já tinha admitido em suas divagações que talvez a parte do visível não destinada a nossos olhos esteja reservada aos pássaros noturnos, alces, furões, baleias... Escolho outras duas fotos do Sammallahti para ilustrar:
Pentti Sammallahti
🐶

Durante a leitura de uma coletânea de poemas do Rainer Maria Rilke, esbarrei com a Oitava Elegia (integra o Elegias Duinenses), que é praticamente a versão versificada daquele texto escrito por Berger. Colo aqui a foto de uma parte do poema, traduzido por José Paulo Paes (Companhia das Letras):

Então o "lugar fora e além" mencionado por Berger, cujo acesso é guardado pelos animais, transforma-se, no idioleto Rilkiano, em "o Aberto". Percebe-se que Rilke concorda com Berger quanto à possibilidade de captar, nos olhos do animal, uma sintonia com ordens múltiplas, não restritas àquela tipicamente humana:

"pelo semblante do animal; desde pequenina,
obrigamos a criança a voltar-se e ver, atrás,
só o Aparente, não o Aberto, que 
na cara do animal é tão profundo. Isento de morte."

Felizmente não passarei vergonha expondo minha interpretação do poema, pois José Paulo Paes oferece no livro uma concisa, porém excelente, análise. Ele diz que, na Oitava Elegia, Rilke contrasta o modo humano de ser do homem com o modo animal. Como seres conscientes nos quais sujeito e objeto estão separados, estamos sempre "de frente" para o mundo e não mais dentro dele. Nossa consciência da mortalidade cria a chatinha (o adjetivo é por minha conta) concepção de tempo, o que nos afasta da vida na imediatez. Os animais, por sua vez, não se distinguem do mundo em que estão imersos, vivendo na plenitude do presente = na eternidade. O curioso é que, para Rilke, só vislumbramos o Aberto (a "totalidade  intemporal") quando nos aproximamos da morte, ou enquanto amantes (← essa eu curti). Ótimo, no entanto o que questiono é: não seria igualmente possível ao menos triscar o Aberto mediante a observação de animais? Não me refiro a vê-los displicentemente como meras atrações de um circo, zoológico ou documentário; mas sim à observação, digamos, neutra, despida da tentativa de humanizá-los, possivelmente até reverenciosa (dado que partiria de uma assumida ignorância). A ideia que me vem à mente, inclusive, é arriscar uma quase fusão com o animal, visando efetivamente apreender outras ordens. 
🐒

Encontrei confirmação de parte de meus devaneios no livro da Helen Macdonald chamado F de Falcão (Tradução: Maria Carmelita Dias), ao qual recorri deliberadamente em busca de apoio, quiçá mais perguntas. A obra tem uma interessante forma híbrida (boa mistureba de ensaio, memórias, crítica literária, biografia, elaboração do luto...), porém, para este post, o que me interessa é o que a autora, experiente praticante de falcoaria, compartilha a respeito da relação que estabelece com o açor que treinava.                                                                                                                                                                                      Minha vacilante proposta de um tipo especial de observação, aquilo que arrisquei nomear como uma quase  "fusão" momentânea com o animal, aparentemente se sustenta com o relato de Macdonald. Aprendi com a inglesa que, para treinar um falcão, deve-se observá-lo como um falcão, de tal modo que o bom falcoeiro gradativamente não mais precisará interpretar a linguagem corporal do animal, posto que logo sentirá o que o animal sente, notará o que o animal nota, ou seja, a apreensão do falcão será a dele. Ela emenda dizendo que a falcoaria permite exercitar a qualidade camaleônica definida por Keats, a habilidade de "tolerar uma perda de si mesmo e uma perda de racionalidade por confiar na capacidade de se recriar em outro personagem ou outro ambiente." Macdonald chega mesmo a usar uma expressão preciosa para minhas reflexões (grifo meu): "Eu me colocara na mente selvagem do açor, (...) minha humanidade se desintegrava." O ser humano, egocêntrico e vaidoso que só ele, usualmente não está disposto a perder uma parte de si, muito menos tem coragem de abrir mão da única ordem "confortável" com a qual está familiarizado, do que resulta a dificuldade de pôr em prática o tipo de observação sobre a qual reflito neste post. Embora árdua, sinto-me tentada a arriscar, principalmente por me agradar demais a chance de desintegrar minha humanidade

Em concordância com a Oitava Elegia, o açor de Macdonald vive na totalidade intemporal: "Não podia haver arrependimento nem luto em Mabel. Nem passado nem futuro. Ela vivia somente o presente, e esse era meu refúgio." Sim, acho que essa noção de refúgio, essa promessa de viver uma ordem diferente da minha é o que tanto está me atraindo ao tema. Aliás, no filme Kes (Ken Loach, 1969), ao qual assisti recentemente, um falcão também aparece como o refúgio de alguém, especificamente de um garoto pobre pertencente à classe operária inglesa. Macdonald usava seu açor para fugir dos dolorosos sentimentos relacionados à morte do pai; Billy, por sua vez, recorria a um falcão para fugir da família desestruturada, da escola opressora e do sistema econômico que pretendia empregá-lo, ainda criança, em trabalhos insalubres. 
Na cena ilustrada acima, o diálogo entre o garoto e o professor é fascinante. Eles comentam que os falcões nos fazem sentir estranhos; quando voam, tudo fica quieto, somos invadidos por um súbito silêncio ("It's as if they're flying in a pocket of silence. / É como se voassem em um bolso de silêncio").    O professor repara que, sem perceber, os dois estavam ali falando mais baixinho, quase sussurrando tal qual ocorre quando, em uma missa, receamos elevar o tom da voz. Ele atribui tal reação ao respeito instintivo do homem perante a imagem do animal. Billy concorda e reconhece que o falcão o faz um favor ao permitir que o observe. (Ok, naquela condição de cativeiro, o bicho meio que não tem escolha, né?, entretanto pulemos a problematização pertinente, para que a matilha prossiga, beleza? rs, jizuis...)

🐦

Por falar em filme, uma linda animação croata em stop motion intitulada Imbued Life (Ivana Bosnjak, Thomas Johnson - 2019) também ampliou esses ecos que reverberavam em minha mente. Antes de tentar elaborar, através da escrita, um resumo tosco da história, colarei o print de quatro cenas que guardei no lado esquerdo do peito na minha pastinha virtual:


Para facilitar a proposta de uma interpretação para o curta, associarei às imagens uma estrofe extraída de um poema (They are the last - 2001) do Berger que, puxa vida, ainda era poeta. Nem sabia. Enfim, seguem os versos:

Now that they have gone
it is their endurance we miss
Unlike the tree
the river or the cloud
the animals had eyes
and in their glance
was permanence.
            - John Berger 

Na Oitava Elegia, Rilke havia dito que é apenas pelo semblante do animal que sabemos o que há fora; o que Berger chama aí de permanência identificada no olhar. Quando os animais morrem, perdemos o elo com o Aberto. Pois a animação de Bosnjak propõe um arrebatador exercício de imaginação: e se pudéssemos coletar, a partir dos cérebros de animais mortos (por causas naturais, é lógico), filmes fotográficos contendo o registro visual da realidade capturada, em vida, pelos olhos deles? Como seria afinal conseguir enxergar o que os animais enxergam? Efetivamente ver através dos olhos dos animais? Bem, a taxidermista de Imbued Life realiza precisamente isso. Ouso dizer que o final do curta trabalha com a possibilidade daquela tal fusão que venho martelando; talvez até extrapolando-a, uma vez que a narrativa me parece sugerir o restabelecimento de uma plena conexão humana à natureza. Em idioleto rilkiano, equivale dizer que a taxidermista sai da frente do mundo, para finalmente entrar nele.

🐳

Retornou-me à memória aquela música do Damon Albarn chamada Mr. Tembo, a qual narra a história do elefantinho órfão Mr. Tembo, um dos moradores de um parque nacional da Tanzânia. Antes de prosseguir, um play rapidinho: (*com a participação da Pentecostal CityMission Church Choir - Leytonstone, Londres)


Uma vez tomada pelos pensamentos que ora compartilho, estes versos passaram a me inquietar:
Mr. Tembo is on his way up the hill                /    Sr. Tembo está a caminho do topo da montanha
With only this song to tell you how he feels    /   Tendo apenas esta canção para expressar o que sente

E aí? Será mesmo que o senhor Tembo é incapaz de expressar seus sentimentos sem a ajuda do Damon Albarn? Sem essa música, o elefante não comunica nadinha aos seres humanos? Um tanto pretensioso, não? Falta-lhe o domínio da linguagem humana, de nossa língua falada (ou cantada, que seja), contudo será mesmo que qualquer tentativa de captar o que o animal (certamente?) comunica está fadada ao fracasso? É, por certo, uma empreitada complexa (despir-se de parte de nossa humanidade para recriar-se como um elefante?! por onde começar?! como perceber o que não se vê?), ok; mas aí já é outra história. A deficiência deve ser nossa, visto que permanecemos reféns da palavra, em cuja onipotência somos crentes fervorosos. Aproveitarei para jogar um poema da Orides Fontela que, a meu ver, expressa muito melhor a complicação que identifico no produto "palavra  x  animais":

Cisne
Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?

Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
                                 e sangue.

                                 E
                                 resta
não o cisne: a
                                 palavra

- a palavra mesmo
                                cisne.

                          - Orides Fontela

Para não correr o risco de sugerir amargura por uma música tão singela, digo estar de total acordo e disposta a ajudar Mr. Tembo, com muito carinho, com o que ele porventura necessite. No mais, claro, cabe recordar que comecei esse post com uma fotografia. Depois parti para um poema, e depois para um livro, daí filme e agora uma música. ARTE! Obviamente Berger entra em cena (The White Bird, 1985) para assinalar que a arte não imita a natureza; ela imita a criação, às vezes para propor um mundo alternativo, noutras vezes para amplificar, confirmar, tornar social a breve esperança oferecida pela natureza. Ainda que eu tenha encasquetado com aqueles versinhos do Albarn, sua música, enquanto arte, oferece uma resposta organizada àquilo que a natureza apenas ocasionalmente nos permite vislumbrar. Ele certamente conseguiu ver algo especial no senhor Tembo, e essa música foi a resposta.

🐘

Também me peguei fazendo novas ruminações a respeito de uma notável prévia leitura. Trata-se do livro Turtle Diary, uma pequena preciosidade escrita em 1975 por Russell Hoban (e já transformada em filme). 

Na ocasião em que o li, fiquei atordoada com o efeito especular produzido, uma vez que ele me colocou diante de duas personagens solitárias e infelizes que nutriam um fascínio mal explicado por tartarugas marinhas. Como era possível?! A obra de Hoban me fez crer que a Biblioteca de Babel tem ao menos um livro escrito especialmente para cada um de nós, inspirado em nossas experiências neste mundo. Com sorte, o encontramos enquanto vivos.

Meu resgate da obra decorre de marcantes lembranças acerca das reflexões que as personagens embarcam enquanto, no aquário* da cidade, observam tartarugas marinhas. Aqui, contudo, há uma observação unidirecional, digo, as personagens não conseguem quebrar a estranheza evocada pelo animal, provavelmente porque o observam segundo a ordem humana visível. Quer dizer, caem na armadilha da humanização. No livro de Hoban, a observação das tartarugas marinhas aproxima-se mais de um exercício de autoconhecimento, de processamento de confusos sentimentos pessoais. É como se, através do olhar direcionado às tartarugas, as personagens buscassem encontrar sentido para as próprias vidas, uma resposta. Enquanto as observam, os dois protagonistas sentem-se desnorteados por conta da incapacidade de compreender como, a despeito de todos os desafios, aqueles animais mantêm-se firmes e resolutos no longo nado que os leva de volta à praia em que nasceram, a fim de procriar. Por que as tartarugas marinhas não desistem? A presença dos tubarões não causa-lhes medo? Elas pensam nos tubarões? O que as motiva? Elas precisam de motivação? No meio do percurso, elas cogitam desistir? Na realidade em que vivia, o casal sentia-se incapaz de achar razão para “prosseguir nadando”. Sim, é o "endurance" daqueles animais - PAUSA: Como traduzir "endurance" para o português? Não achei nenhuma palavra que pareça "boa o suficiente". Penso no combo resiliência + resistência + persistência - VOLTANDO: Sim, é o "endurance" daqueles animais, conforme dito por Berger, o que desconcerta as protagonistas do livro. De qualquer forma, tais questionamentos fazem-nas crer numa realidade, numa ordem melhor do que aquela habitualmente enxergada. Se isso não representar um alento, o que mais representaria?
"The mistery of turtles and their secret navigation is a magical reality, juice of life in a world gone dry. When I think of the turtles going into the ocean I think of it happening in that place that so badly needs a new reality."
                                                                                                 - Russell Hoban, Turtle Diary. 

Para possivelmente comprovar que meus devaneios fogem daquela simplória observação objetificadora e humanizante que tipicamente transcorre em zoológicos, vale registrar que as personagens de Turtle Diary se unem exatamente para libertar as tartarugas dos limites do vidro e devolvê-las ao mar. Noutro texto (Why Look at Animals? - 1977), Berger me ajudou a entender por que resisto em aceitar zoológicos como locais nos quais eu poderia conduzir o tipo de observação que almejo. O crítico defende que, em tais espaços, a visão surge sempre errada, como uma imagem fora de foco. A imposição do isolamento e dependência condiciona a resposta do animal a ponto de fazê-los julgar qualquer evento como marginal. Quando olhamos para o animal do zoológico, estamos sozinhos, pois o bicho marginalizado é incapaz de nos olhar de volta, de retribuir nossa mirada repleta de incompreensão.

A propósito, por fim encontrei em outro textinho do Berger (The White Bird - 1985) uma descrição satisfatória dos sentimentos que me invadem quando meus olhos avistam uma tartaruga marinha nadando em alto-mar: "For an instant, the energy of one's perception becomes inseparable from the energy of the creation." Aquele silêncio provocado pela presença de um animal, aludido pelo professor do Billy, deve resultar disso, do contato com a energia criadora. Aquela metáfora com a missa ficou ainda mais curiosa. 
🐢

Nesta postagem, subverti a premissa de que “o começo” é o ponto de partida de uma história, então retrocederei a fim de contar que todos esses desvarios começaram com a leitura do livro The Wall (1968), escrito pela austríaca Marlen Haushofer (tradução para o inglês: Shaun Whiteside). Até certo ponto, é possível alegar que a história de Haushofer integra o conjunto das narrativas robinsonianas*: da noite pro dia (literalmente), uma mulher que passava um fim de semana numa cabana localizada nas montanhas austríacas (The Alm) vê-se isolada por um muro “transparente”, visível apenas ao toque.     Do lado de lá do muro, a protagonista narradora só enxerga eventuais corpos humanos paralisados sem qualquer sinal de vida; enquanto do lado de cá, resta apenas ela, um cachorro, um gato e uma vaca. (*é esse o termo usado pela Academia?!)

A obra de Haushofer, no entanto, me proporcionou algo que nenhuma prévia narrativa robinsoniana alcançou: a experiência sensorial de encostar noutras ordens. A essa altura do meu campeonato, a frase “há outras realidades possíveis...” é chavão dito da boca pra fora, posto que, na prática, enfrento imensas dificuldades de perceber essas outras realidades. Desejo fervorosamente enxergá-las, entretanto isso não é suficiente. Embora sinta-me incapaz de sair da frente do mundo, a vertigem que senti lendo The Wall prova que, por breves instantes, o portal do interstício se abriu pra mim e, como não sou boba, entrei. E não me arrependi. Comparativamente às demais narrativas robinsonianas, teorizei que esse “êxito” do livro decorreu sobretudo das recorrentes e estimulantes reflexões que a protagonista narradora conduz a partir da observação dos animais com quem convivia. Não falo de qualquer observação, mas daquela experiência camaleônica descrita por Keats, conforme aprendi com a Macdonald. Quero dizer, nesse livro, a personagem se recria no ambiente (com o provável empurrão da experiência distópica). Partindo-se dessa hipótese, me joguei em divagações e, quando soterrada nelas, um livro providencial do John Berger materializou-se durante minhas navegações na internet: Why Look at Animals?** Era o acaso me informando que eu estava no caminho correto. (**Todos os textos do Berger previamente citados neste post fazem parte desse livro.)


Para não estender ainda mais meu lenga-lenga, apenas pontuarei alguns elementos da narrativa de Haushofer que considero mais significativos e que podem complementar/confirmar o que discuti até aqui. (Mas esse livro bem mereceria um post inteirinho dedicado a ele.)

     🐄  Retornando à musica do Damon Albarn (- não é pessoal, Albarn; juro que gosto de você e da música) a protagonista narradora de The Wall me chamou atenção para o fato de que minha pirraça precisava dar um passo pra trás: não basta perguntar se Tembo precisa do Albarn; cabe questionar se Albarn genuinamente conhece os íntimos sentimentos do elefantinho. Quem me garante que ele está certo? A personagem de Haushofer é mais humilde (?), pois confessa não ter como saber (não com certeza) o que se passava no mundo interior de seus companheiros.
(Falando de Bella, a vaquinha:) "I know nothing of how she feels. (...) I'm warm and alive, and she senses that I mean her well. We will never know anything about each other." 
Berger comenta que o olhar recíproco dos bichos é simultaneamente familiar e distinto, não se confundindo com o do homem que, observado de volta pelo animal, não se sente reconhecido (positiva ou negativamente). Esse olhar ocorre através de um abismo de incompreensão que não pode ser superado pela ponte de uma linguagem comum. 

       🐜 Também aqui repete-se a estranheza despertada notadamente pelo "endurance" percebido nos animais que vivem na eternidade. Insisto nesse tema sobretudo por conta das boas ramificações que ele gera, tal como reflexões sobre como nós lidamos com a morte e com a noção de liberdade. Pressinto haver nesse caminho a promessa de um relacionamento mais sereno com a árdua tarefa de estar viva no mundo. (Tradução minha, do inglês:)
"Eu estava simplesmente seguindo um instinto que tinha sido implantado em mim e contra o qual eu não poderia lutar, caso não quisesse me destruir. (…) Liberdade exterior talvez nunca tenha existido, (…) eu não sei o que pode haver de desonroso em suportar e persistir, tal como fazem todos os animais.
(…)
Talvez animais passem toda a vida em um mundo de terror e deleite. Eles não podem escapar e precisam suportar a realidade que lhes é apresentada, até que deixem de existir. Mesmo a morte deles é desprovida de consolo e esperança, uma morte real.”

O trecho em que ela fala das formigas é engraçado. Diante da determinação daqueles robôzinhos destemidos que nunca se distraem do trabalho, ela refere sentir uma mistura de admiração, medo e pena. Entretanto ela logo emenda sabiamente: "Só porque as observo com um olhar humano, é claro." Envolta nesses pensamentos, a "náufraga" percebe que a existência dos seres humanos é definida por um fardo singular:
"A única criatura da floresta que pode fazer o certo ou o errado sou eu. Sou a única capaz de mostrar misericórdia. Às vezes desejo que o peso da decisão não tivesse sido colocado sobre mim. Mas sou humana e só posso agir e pensar como ser humana.” 
É aquilo que bem sabemos: a consciência é simultaneamente nossa desgraça e fortuna.

Para fechar esse tema, quero incluir um trecho que muito me impressionou; é aquele em que a personagem fala de um "bizarro" corvo branco que era condenado ao ostracismo pelo bando de "normais" corvos negros. Trata-se de uma observação que a faz ponderar que nem os animais estariam livres de sensações de estranhamento. Com isso, atentei que os animais não são capazes de enxergar todas as ordens visíveis do mundo. É como se a natureza conferisse a cada animal (inclusive a nós, humanos?) o arsenal necessário para a percepção de uma única ordem (um punhado?), de modo que qualquer ameaça de ruptura nela é instintivamente rejeitada. Não sei.

         🐈 Por fim, há uma linda passagem no livro que, na minha opinião, é quase uma tradução das citadas cenas finais da animação Imbued Life. (Tradução e grifo meus:)
"Mas a floresta lida bem com a minha confusão. (...) Mesmo que eu destrua a urtiga cem vezes, ainda assim ela sobreviverá. Ela têm muito mais tempo que eu. Um dia eu deixarei de existir, (...) e a floresta avançará para além do muro e retomará o que o homem lhe roubou. Às vezes meus pensamentos se confundem, e é como se a floresta tivesse se enraizado em mim, pensando seus antigos e eternos pensamentos através de meu cérebro. E a floresta não quer que os seres humanos retornem."

Ah..., tinha tantas coisas mais pra falar... Porém chega, né? 

🐍

Puxa, dessa vez minhas bobajadas me permitiram contemplar uma conclusão: o Hot Priest e o Sérgio Chapelin são pessoas que fazem as perguntas que devem ser feitas. Para a turma da internet que fica aí tirando sarro dos dois (sim, tô no bolo), recordo que, nas peças do Shakespeare, o bobo da corte costuma ser o sábio detentor da razão. #micdrop 🎤

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