31/12/2019

Biblio Journal - 2019

- Natalia Ginzburg x Angélica Freitas x Lichtenstein (11/2019)
- Mario Levrero  x @casatorquato x teias de aranha (10/2019)
- Florbela Espanca x Roberto Arlt x Carier-Bresson x Melodia da Chuva (10/2019)
 - Anna Akhmátova  x  Nathan Isaevich Altman  (24/08/2019)
- Keanu Reeves  x  Morte  x  Ricardo Piglia (07/07/2019)
- Infância  x  Piglia  x  Tarkosvky  x  Bergman  x  Varda (22/06/2019)
- (Brincando de Aquarela:) Visages Villages; JR + Agnés Varda  (22/06/2019)
- Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)  x  Keanu Reeves  x  Dr. Manhattan  x  badbadnotgood (13/06/2019)
- Thomas Mann  x  Ezra Koenig (Vampire Weekend)  x  Hiroshige x Kurt Vonnegut (07/06/2019)
- Kafka  x  Alejandra Pizarnik (10/05/2019)
Leu Feu Follet  x  Cléo de 5 à 7 (05/03/2019)
Paterson  x  Roma  x  Água (04/03/2019)
"Desenhando" cenas de filmes/TV (Therapy Time!) - Cléo Victoire, Queen Amidala, Elena Greco, Betty/Diane Selwyn, Maude Lebowski (28/02/2019)
Rachel Weisz (🖤) em The Favourite x Minha Ilustração (24/02/2019)
Don DeLillo  x  Mona Lisa  x  Beyoncé & Jay Z (29/01/2019)
Georgia O'Keeffe  x  Junichiro Tanizaki (22/01/2019)
The Sopranos  x  Ernest Hemingway  x  Edward Hopper (20/01/2019)
Shirley Hazzard x Aline Bei (10/01/2019)

23/12/2019

Alejandra Pizarnik; Diarios [#03]

* Proposta do post: (1) anotar trechos particularmente tocantes, (2) devanear a partir das entradas de Pizarnik, (3) dar pitacos inúteis sobre o que ela discorre e/ou (4) estabelecer conexões.

 Postagens anteriores: #01, #02
 Texto sinalizado com [📔, em verde + itálico] entradas originais de Alejandra Pizarnik.

Cuaderno del 19 al 31 de julio de 1955

📔 "No tengo ni idea del argumento de la novela. Sólo se me ocurre decir que «la vida es una miseria». Alguien podría decir que tal vez sólo «mi vida es una miseria», pero da lo mismo…"

Por mais que a Pizarnik de 19 anos matute um bom tema para o romance que pretende escrever, ela acaba sempre retornando ao fatídico "a vida é uma miséria". E tá errada? 

Lembrei de um episódio do podcast Escritores Leitores, no qual Evandro Affonso Pereira compartilha, com um suspeito orgulho implícito, que um amigo havia reparado que nada dá certo para as personagens dos livros de Pereira. O autor confirma só escrever personagens desvalidas, para quem nada dá certo. Na ocasião em que ouvi isso, retruquei sozinha, em voz alta: - Mas, meu amigo, quase todas as grandes obras da literatura tratam justamente disso. 

Uns quatro dias atrás, assisti ao último episódio (IX) de Star Wars, o que me faz pescar no vácuo qualquer desculpa esfarrapada para falar do filme; portanto tomarei essa entrada da Pizarnik para registrar uma fala especial do C-3PO (puxando de minha incompetente memória):

- Essa agonia não acaba nunca?!

Não, C-3PO, a agonia só termina quando rolam os créditos finais. Antes disso, nada feito. Citando Vonnegut: "Everything was beautiful and nothing hurt." Epa, pera (...); o quê?! Xi; volta, que a escolha da citação deu ruim?


📔 "No estoy de acuerdo con Clara Silva en lo referente a las influencias nocivas de un Proust, Gide o Baudelaire. No creo que estrellen la fe innata e inocente de nuestra alma con una violenta y angustiosa voluptuosidad. Si es que leo a Proust, es porque yo elijo a Proust y porque mi estructura se identifica con él y elige su obra y no cualquier otra. Mis angustias no nacen al contacto de las líneas, sino que se limitan a asentir familiarmente y a reconocerlas como cosas ya experimentadas."

O que até então era só mais um clichê dito por pessoas pouco inspiradas virou, após colocado na boca do Dr. Manhattan, drops de elevada sabedoria divina. Assim sendo, peço que o próprio Zeus dos Smurfs expresse o lugar-comum que sumariza o núcleo da pendenga de que fala Pizarnik:  
É a nefasta gangue literária Proust, Gide, Baudelaire & Cia quem destrói a inocência de nossas pobres almas leitoras, ou a obra dessa turma, conforme prévia defesa de Stendhal, apenas reflete a lama que já existe ~em nosso âmago~? Bem, fecho com a mesma conclusão de Dr. Manhattan (= são ambas as coisas), complementando-a com a de Pizarnik: "Leio Proust porque minha essência se identifica com a obra dele, e com a de mais ninguém. Minhas angústias não nascem do contato com as linhas, mas tão somente limitam-se a reconhecer ali familiaridade." 


📔 "Cuando leo a Proust y atiendo su forma y fondo, me creo capaz de escribir un libro tal como él lo ha hecho; en cambio, no podría concebir nunca un relato como Bonjour, tristesse o Gigi. ¿Será mi profundidad de espíritu?, ¿o mi falta de, digamos, objetividad?, ¿o de simpleza?"

Já escrevi algo similar nos posts sobre os diários da Susan Sontag e terei de me repetir: euzinha, com dezenove anos, nem sonhava em ler Proust; e suspeito, inclusive, de que sequer sabia "o que diabos seria um Proust". Aos dezenove anos, somente os livros da faculdade (nada a ver com literatura) dominavam minhas leituras (o horror!).

O repeteco dessa percepção me obriga a rever uma velha premissa. Hoje, quando cruzo com mocinhas de dezenove anos, frequentemente fico estupefata ao constatar o quanto elas são mais inteligentes e antenadas do que eu jamais fui na mesma idade. Por muito tempo, joguei a culpa na internet: essas moças são nativas digitais e têm acesso, desde muito cedo, a um universo inteiro de informações, enquanto eu tive de contentar-me em viver numa minúscula bolha infrutífera. No entanto, agora que esbarro com os exemplos das jovens Sontag e Pizarnik, inevitavelmente preciso reconhecer que devo ter sido, isto sim, uma jovem desinteressante que escolheu manter a curiosidade pelo mundo trancafiada no calabouço. (- putz, toca o mini-violino pra mim, dj!)


📔 "Creo que mi feminidad consiste en no poder «vivir» sin la seguridad de un hombre a mi lado. En los períodos (¡actualmente tan escasos!) de ausencia de flirts, me siento terriblemente árida. Inútil. Como si estaría [sic] malgastando mi juventud. Y cuando estoy segura, es decir, cuando camino junto a un hombre que guía mi cuerpo, me siento traidora. Traiciono a ese llamado cercano que me planta junto a la mesita y me ordena: ¡estudia y escribe, Alejandra! Entonces ya no grito «¡me muero de inmanencia!». ¡No! Entonces, me siento ser. Me siento vibrar ante algo elevado que me asciende junto a sí. Esta dualidad me rebela. ¿No han de ser compatibles en forma alguna? Buscar ejemplos. ¡Sí! La foto de Daphne du Maurier junto a su aristocrático marido; lord…, tomados amorosamente de la mano. Simone de Beauvoir sonriendo junto a Sartre (no hay que fiarse del periodismo). Katherine Mansfield junto al buen mozo de J. Middleton Murry (pero sus tareas eran análogas y la mayor parte del tiempo estaban separados). Carmen Laforet con sus dos niñas (su mejor novela la escribió en estado de angustia y soledad). ¡Pero también están las otras! («galeotes dramáticos, galeotes dramáticos»). ¡Qué me dices de las hermanas Brontë, de Clara Silva, de G. Mistral (aridez sublimada), de Colette (en los primeros tiempos), de Mary Webb, de Edna Millay, de Alfonsina Storni, de Safo (¡de Safo!), de C. Espina, Es irremediable. ¡Es dramático! Una aspira a realizarse. Yo aspiro a realizarme. Cuento para ello con mis dotes literarias. Pero… ¿y si no serían [sic] notables? ¿Si no son más que producto de mi mente confusa y de mi experiencia promiscua? ¿Si no son más que elementos extraídos de mi ser semiarruinado, gastado, que resultan sorprendentes debido a mi edad física? Entonces no sólo erré la elección sino que no me realizaré por el camino más natural y sencillo de toda mujer: ¡los hijos! ¡Entonces sería más que frustrada! ¡Sería un ser arrojado para estorbar los pasos productivos de los demás! ¡Ocuparía un espacio inmerecido! Mi vida habría sido en vano. ¡Toda la voluptuosidad que exhalo y desato en mis sucesivos compañeros y luego enaltezco en los escritos habrá sido sólo farsa! Entonces… ¿qué? Entonces… estar y esperar. ¡Esperar a que todo venga espontáneamente! ¡No! Lo único que ha de venir espontáneamente es la muerte. ¡Al diablo!

No quiero amantes (pues desordenarían las horas de estudio). ¡Al diablo! ¡Tendrían que crearse burdeles especiales para mujeres-artistas! Pero no los hay… ¡y es tan trágica la visión de una mujer madura sorbiéndose el cuerpo en la aridez de la noche! Y eso es lo que me espera. Esa imagen destruye todas las embriagueces sagradas. Desmalezar los conceptos turbios."

O registro dessa reflexão da Pizarnik é precioso, e basta lembrar dos conflitos de Lenu, na Tetralogia Napolitana de Ferrante, para demonstrar o quanto essa questão segue atual e sem solução inconteste. De que modo uma mulher consegue conciliar seu trabalho artístico com as demandas sociais de uma vida doméstica? Como o papel de artista convive com o papel de esposa, de mãe? É possível exercê-los bem (segundo a expectativa individual) sem que um atrapalhe o outro? As ponderações de Pizarnik ainda podem ser consideradas um tanto mais extremas, visto que ela conjectura que até um mero relacionamento amoroso poderia desvirtuá-la dos estudos e da escrita. Recordei do exemplo de Natalia Ginzburg que, no ensaio "O meu ofício", assevera sem titubear: "E depois nasceram meus filhos e, de início, quando eles eram muito pequenos, eu não conseguia entender como era possível escrever tendo filhos. (...) As crianças me pareciam algo muito importante para que eu me desviasse atrás de estúpidas histórias e de estúpidas personagens embalsamadas."

Sempre que me deparo com essa discussão, recordo-me desta reveladora fala de Josélia Aguiar, concedida em entrevista ao canal Bondelê, a respeito de seu trabalho como curadora da Flip"Muitas autoras mulheres não viajam mesmo. Eu senti isso, percebi isso. (...) Eu entendi que em outras áreas (mesmo fora da literatura), de fato, as mulheres também pensam mais antes de tomar certas decisões que envolvam mudança na hierarquia, viagem para o exterior. (para elas) É mais difícil que a carreira seja tocada com decisões rápidas, porque elas já têm filhos; se mais velhas, têm netos. É o oposto quando você faz um convite para um homem. Eles sempre respondem mais rápido; vêm e topam. É mesmo uma questão cultural. Eles estão mais acostumados a se expor, têm mais segurança para falar. Eles ocupam esse lugar há muito mais tempo."


📔 "Conversaciones con mi madre. Hallo buena voluntad. Le muestro las reproducciones de Gauguin y Van Gogh. Le gustan. Sonríe ante los pechos descubiertos de las tahitianas. Acepta al arte y a los artistas, pero siempre que se den en otro planeta. Es decir, que no admite la posibilidad de mi realización literaria. ¡No! Son caprichos, vuelcos juveniles que ya pasarán cuando la experiencia nos traiga la expresión serena."

E a mãe de Pizarnik não aceitava muito bem as aspirações artísticas da filha. Disappointed, but not surprised®.


📔 "Un día, A. Cuadrado me dijo que cada vez que muere un poeta, lee o relee toda su obra. Espléndido homenaje."

Em entrevista ao podcast Expresso Ilustrada (Folha de São Paulo), Fernand Diamant, atual curadora da Flip, comenta (claramente pisando em ovos, coitada) que a escolha de Elizabeth Bishop como homenageada da Flip 2020 relacionou-se (dentre outras coisas) à sua convicção de que deveria escolher uma autora com a qual ela própria, Diamant, já tivesse uma história pessoal literária consolidada. Se entendi direito, Diamant só toparia homenagear uma autora de quem ela mesma fosse admiradora, e de cuja obra ela fosse íntima. Assim que escutei o comentário, fiquei confusa. O ponto é que eu, numa hipotética curadoria, jamais escolheria um autor/autora que especialmente admiro para ser o/a "homenageado/a" de um evento desses, pois que raios de homenagem é essa? Ainda tomada pela vibe de meu último post-alinhavo, recorri ao dicionário para averiguar a definição da palavra "homenagem". O que significa homenagear alguém? Minha dúvida decorre da sensação de que a tal "homenagem" da Flip assemelha-se muito mais a um tribunal em que o acusado (mortinho da silva) não tem direito a contraditório ou ampla defesa. Sei lá, ainda que não se trate disso e que eu esteja exagerando (é só um espaço para a troca saudável de pontos de vistas distintos?), não consigo me desvencilhar de uma certa aversão à proposta de homenagear um escritor num evento literário. Creio que o amigo de Pizarnik encontrou a única notável maneira de se homenagear uma escritora querida: lendo a obra. 

[Sobre a treta em si, bateu vontade de lacrar resgatar esta frase de Tolstói (o reacinha russo? rs):
"A responsabilidade é representada como maior ou menor conforme o maior ou menor conhecimento das condições em que se encontrava a pessoa cujo ato está em julgamento, conforme o maior ou menor intervalo de tempo entre a execução do ato e seu julgamento, e conforme a maior ou menor compreensão das causas do ato." ]


📔 "digo a Luisa que leo En busca del tiempo perdido. La distinguida estudiante de filosofía se ríe y me dice «el día que lo encuentres, ¡avisá!». (Merde! Merde! Merde!)"



📔 "Quisiera estar en un convento religioso (como santa Teresa). Tendría que haber conventos psicoanalíticos. (...) El doctor B. hablando de adquirir «elegancia psíquica»."

Convento psicanalítico?! nem f*endo eu iria para um troço desse, Pizarnik.

Adquirir elegância psíquica? Ah, dessa, eu já gostei. Onde vende?!! É no convento psicanalítico, né? Merda.

(Aos 19 anos, Pizarnik já se submetia à psicanálise, convicta de que padecia de grave neurose.)


📔  
"¡Emocionada! Acabo de ver en la televisión un maravilloso conjunto de ballet interpretando la 7.ª sinf. de Beethoven. Cada vez que aparecía el pequeño fauno, sentía extraños anhelos. Adoro el ballet. Adoro los cuerpos de los bailarines. Me gustan más los hombres. Es un éxtasis ver una foto de S. Lifar en maillot. Qué bien que está esa frase de Heine: «Donde mueren las palabras… comienza la música»."

📔 "Leo la Historia del surrealismo. Al llegar al capítulo dedicado al marxismo y a la situación social, económica, etc., de nuestra época, cierro violentamente el libro y lo guardo. Me horrorizo de mi falta de interés. ¡No puedo remediarlo! ¡Denme al Hombre, no a las masas!"

Xi, olha aí. Sigo cada vez mais desconfiada de que, se a Pizarnik fosse escolhida como homenageada da Flip, ela seria trucidada em mil pedacinhos pela galera literária que curte discutir as massas num lugar aonde as massas não chegam. (tá, pronto; já parei. 😬)


📔 "Ya aprendí cabalmente que soy distinta de la mayoría de la gente. Que ellos piensan y yo no porque no puedo, porque me ocurre algo, porque estoy enferma. Sí. Estoy enferma. Me pregunto si a todos los neuróticos les ocurre lo mismo."

De minha parte, enquanto neurótica, digo que as coisas também funcionam mais ou menos assim. 


📔 "De mis papeles. Algún día van a estar en el museo (de algún instituto psiquiátrico). A su lado habrá un cartel: Poemas de una enferma de diecinueve años. Imposibilidad de razonar. Nunca meditó. Jamás reflexionó. Ninguna vez pensó. Parece ser que es sensible. Propensión a considerarse genial. Agresiva. Acomplejada. Viciosa. No muerde."

Por vezes, a Pizarnik é cruel demais consigo mesma. Nunca pensou ou refletiu?! Poxa vida.

Contudo gostei dessa espécie de exercício de escrita criativa. Caso, em um futuro distante, os textos deste bloguito aportassem em um museu, o que estaria escrito na plaquinha de descrição da peça? Hum, deixe-me ver...: "Diário virtual de uma retardada social, considerado raro material da segunda década do século 21, época  na qual ninguém mais lia blogs. A leitura revela textos marcados por platitudes, piadas sem graça e perguntas que sequer triscam arremedos de resposta."


📔 "¡Adoro mi poesía! ¡Es la única que me gusta! Imitando la de Vallejo, en la que se nota mis influencias de la primera época (año 1930)."

É aquilo: primeiro ela bate, depois ela assopra. Numa entrada, a baixa autoestima/insegurança massacra; na outra, o ego/confiança assume as rédeas. 


📔 "Lloro. ¡Tengo tanto miedo! Cierro los ojos. Era necesario. ¡Quiero escribir! ¿Qué? Aún no sé… Necesito ordenar mis ideas. Lavar mi frivolidad, pues aún quedan restos. Por más tenaz que sea cada poema en asegurarme que no escribo bien, que no tengo condiciones para ello, persisto. Persisto pues es lo último que me queda. Persisto pues si no escribo, soy un ser reventado. Escribo por exigencia vital."

22/12/2019

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #05 - biografia de tadeo isidoro cruz (1829-74)

(Sinopse, info, etc: link / Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre biografia de tadeo isidoro cruz: link 2
- Minhas postagens anteriores:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa.

** RISCO DE SPOILERS **
[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Na coletânea de diálogos entre Borges e Osvaldo Ferrari, me deparei com esta fala do autor argentino acerca de esquecimento criativo e memória criativa:
"Ou seja, é o mesmo conto e eu vou ensaiando variações. Mas, talvez, a literatura universal seja uma série de variações sobre o mesmo tema, (...)"
                                                                                                       - Jorge Luis Borges

Borges reconhece que, em sua obra, ele costuma repetir o mesmo conceito sob diferentes formas. É ele quem está falando, hein, não sou eu. Incluí o comentário porque tomo o conto biografia de tadeo isidoro cruz (BTIC) como uma variação de temas presentes nos contos anteriores de O Aleph, já lidos e comentados por mim no blog. Em BTIC, ressurge de forma mais pronunciada (deduzo) sobretudo a ideia de eventos que se repetem de modo circular e do duplo (Tadeo Isidoro x Martín Fierro). Visto que groselhei o suficiente a respeito dessas temáticas nas postagens anteriores, aproveitarei o ensejo muito mais para sondar intrepidamente certos pontos da narrativa que me conduziram a correlações algo estapafúrdias (os acadêmicos que fiquem com a parte chata 😁).

*
Suponho que esta passagem destaca-se como forte candidata ao papel de chave principal da leitura:
"Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta na realidade de um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é."
                                                                                                          - Jorge Luis Borges, BTIC.

Associando esse trecho à tríade* de principais e recorrentes questões borgianas conforme previamente comentada por Aimée, tendo a concluir que a noção de identidade é o foco de BTIC. (* = identidade, universo, tempo) Pra mim, pelo menos, é. Suspeito de que psicólogos e psicanalistas gozam um orgasmo literário (existe, né?) ao se depararem com a ousadia borgiana de afirmar que nossas histórias pessoais resumem-se simplesmente ao instante em que descobrimos quem somos. Isso deve apaziguar os ânimos daqueles que investem anos e anos de suas vidas em infinitas sessões de análise e terapia, no esforço hercúleo para descobrir quem são afinal. Se bem que o texto de Borges sinaliza que os livros, espie só, costumam guardar a solução desse grande enigma. Seria esse o próprio sentido da vida? Vai saber.

Em relação à ~vida real~, senti uma pitadinha de resistência para assimilar essa premissa de Borges; contudo, quando a extrapolei para a realidade ficcional, a apreensão de sua pertinência assentou de maneira mais fácil. Aproveitando que hoje não penso noutra coisa, senão no episódio IX de Star Wars, o último da nova trilogia (ele é tão ruim, que faz a curva e fica divertido), vale devanear que o único arco narrativo que me interessa no filme (= a díade da Força: Rey/Kylo Ben) se apoia fundamentalmente nesse ponto de BTIC; confere? Sinto-me tentada a teorizar que a essência de todas as grandes narrativas repousa em uma única fase da famigerada jornada do herói; aquela que, sozinha, basta para contar uma boa história: revelação e transformação. Uma particularidade um tanto paradoxal garante a diversão da teoria, dado que, nela, as personagens são confrontadas com suas verdadeiras identidades, a fim de transformarem-se naquilo que efetivamente já são (porém ainda não sabem etc). Transformar-se naquilo que se é... Que maluquice. Mas quem tem segurança para garantir que há incoerência nisso? Voltando a Star Wars: Kylo, após bendita epifania identitária ou, nas palavras de Borges, após o momento em que sabe para sempre quem é, abandona de vez o subterfúgio da máscara cafona e ~segue seu destino~. *Drama intensifies*

Também me peguei presa no emaranhado simbólico que essa chave interpretativa estabelece quando conectada à epígrafe escolhida por Borges para BTIC:

I'm looking for the face I had
Before the world was made.
- W. B. Yeats

Esses versos elevam a busca pela identidade a patamares ainda mais complexos, que me fascinam demais. A partir deles, conhecer a si mesmo apenas em termos psíquicos não mais garante contentamento. Com as palavras de Yeats, a parada alcança a metafísica, a transcendência; quiçá a cosmogonia! (haha) [Hum, A Paixão Segundo G.H. é uma narrativa que condensa essas duas chaves, não?]

Bom, essas duas chaves me trouxeram à memória o filme Os Olhos Sem Rosto (Les Yeux Sans Visage, Georges Franju - 1960), baseado no romance de Jean Redon. A metáfora encerrada na palavra "face", escolhida por Yeats (rima! rs), fez com que eu prontamente correlacionasse a descrição do instante de compreensão de Tadeu Isidoro Cruz àquele de Edna Grüber. Mesclando as duas narrativas (Borges + Redon/Franju), arrisco esta peripécia:
A moça, enquanto combatia na escuridão, começou a compreender. Compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem toda mulher deve acatar o que traz dentro de si. Compreendeu que as divisas e o uniforme o que as cirurgias e o confinamento a estorvavam. Compreendeu seu íntimo destino de lobo pássaro livre, não de cão gregário pássaro engaiolado; compreendeu que o outro era ele quem ela era, e que já tinha um rosto. 

[Anexo: enquanto lia, de boas, a coletânea de poemas da Sophia de Mello Breyner Andresen, esbarrei com uma estrofe que, com somente três linhas, resume todo meu lero-lero:
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.]

Por sinal, é curioso que essas compreensões ocorram durante a noite, e não de dia, via luz. Apelando ao Borges Babilônico (organização de Jorge Schwartz), percebi que a escolha parece amparar-se nas narrativas islâmicas; tendo sido lembrada de que "Entre os muçulmanos, a Noite do Poder (Laylat al-qadr) é a noite em que o Alcorão desceu do céu e se revelou a Maomé. Contam que, enquanto o Profeta do islã dormia em uma caverna no monte Hira, o anjo Gabriel o visitou e lhe disse que ele, Maomé, era o escolhido para receber e difundir pelo mundo a palavra de Alá." (- Dylan Frontana)

Ah, e, no fim das contas, Borges meio que facilita o trabalho dos biógrafos, né? Ora, segundo o raciocínio de BTIC, a escrita de uma biografia resume-se em narrar A noite do biografado. Aguardo a minha noite ansiosamente. Com sorte, ocorrerá através do próximo livro?

**
Por fim, há a presença do gaúcho simbolizado pelo duplo Isidoro Cruz-Martín Ferro (personagens originalmente criadas por José Hernández), entretanto, uma vez que acho esse papo chato (¯\_(ツ)_/¯), destaco somente que isso parece conceder relevância ao espaço em que vivemos, reconhecendo-o como um dos inevitáveis alicerces de nossas identidades. Osvaldo Ferrari, em uma de suas perguntas a Borges, menciona esta frase de Martinez Estrada que melhor explica o que contemplo: "(...) o espírito da terra, o que ele chamava o espírito do pampa, era o que conformava nossa substância, a substância da nossa personalidade".

Pronto; encerro minhas abobrinhas aqui. Bora ver o vídeo da Aimée. 

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]

[Comentários pessoais pós-vídeo:]
Eita, banquei a palerma achando que o conto era só mais do mesmo, e muita coisa legal voou sobre minha cabeça. Bem feito, sabidona.

Montando uma listinha de destaques:
➭ Aimée alude à questão da equivalência dos destinos, confrontando-a à intervenção do acaso nos papéis que desempenhamos em vida (perseguidor/perseguido, heroi/traidor), e me impressionou um bocado que eu tenha ignorado essa palavra que aparece explicitamente no texto (identidade / personalidade, por sua vez, não aparecem). Pressinto que isso ocorreu porque não gosto dessa palavra - destino - e prefiro não acreditar nela, possivelmente por temê-la.

O melhor, entretanto, é que ela acaba reforçando minha destemperada associação [Borges X Star Wars].

➭ Borges tomou emprestadas não apenas as personagens de José Hernández, mas inclusive trechos inteiros. Aimée diz que aquele lance do lobo x cão gregário, por exemplo, aparece igualzinho no poema épico de Hernández. Nesse sentido, ela chama atenção ao fato de que a citação de Coríntios (Bíblia), incluída por Borges no texto, se aplica àquilo que o próprio conto BTIC representa: "(...) num livro cuja matéria pode ser tudo para todos (1 Coríntios 9,22), pois é capaz de quase inesgotáveis repetições, versões, perversões."

➭ Levei tão a sério a assertiva de Borges de que a noite das compreensões era a única que importava, que nem me toquei de que há, na verdade, não uma, mas quatro noites críticas na vida de Isidoro Cruz. E na de Martín Fierro, claro.

➭ Também não notei conscientemente o espalhamento entre os detalhes que compõem as narrativas de Isidoro Cruz e Martín Fierro. E por falar em espelhar: o conto de Borges como espelho da obra de José Hernández (duplo).

➭ Contudo o espelhamento mais pitoresco, que me escapou completamente, é este: os gritos; sejam do pai, sejam do chajá. Pô, o déjà-vu de Isidoro Cruz é uma resposta ao grito do tal chajá! Que coisa.

*PAUSA*: qual é a aparência de um chajá? Como soa seu grito? Que bicho é esse?! YouTube, ajude aí:

 ➭ E curti esta classificação do conto: é um Mito de Origem.

- Mais uma vez, Aimée, muito obrigada!