05/01/2020

[DROPS] Childhood (The Copenhagen Trilogy - 01) - Tove Ditlevsen

Para registrar mais um* marcante trecho sobre infância, escrito pela autora dinamarquesa Tove Ditlevsen, apronto uma gambiarra: (xexelenta) tradução da (ótima) tradução Dinamarquês → Inglês feita pela Tiina Nunnally (Edição Penguin Classics, 2019):

"A infância é longa e estreita como um caixão, do qual você não consegue sair por conta própria. (...) Você não pode escapar da infância, que gruda em você feito um mau cheiro. É possível reconhecê-la em outras crianças - cada infância tem seu cheiro. Você não sente seu próprio cheiro e às vezes teme que ele seja pior que o das outras crianças. Você conversa de frente para uma garota cuja infância cheira a carvão e cinzas e, de repente, ela dá um passo pra trás, porque sentiu o terrível fedor da sua infância. De soslaio, você observa os adultos cujas infâncias permanecem dentro deles, rasgadas e cheias de buracos feito um tapete velho comido pelas traças, sobre o qual ninguém mais pensa ou para o qual ninguém mais tem serventia. Não se pode dizer que eles tiveram infância apenas observando-os e você não ousa perguntar-lhes como sobreviveram sem que seus rostos tenham ficado cheios de marcas e profundas cicatrizes. Você suspeita de que eles tomaram algum atalho secreto, assumindo a forma adulta com muitos anos de antecedência. Eles o fizeram num dia em que estavam sozinhos em casa e suas infâncias assentavam feito três anéis de ferro em torno do coração, como João de Ferro no conto de fadas dos irmãos Grimm (...) Mas se você não conhece um atalho, a infância tem de ser suportada e carregada hora a hora, ao longo de um número absolutamente interminável de anos. Apenas a morte pode libertá-lo dela; então você pensa muito na morte e a imagina como um anjo amigo, vestido de túnica branca, que em alguma noite beijará suas pálpebras, de modo que elas nunca mais se abrirão novamente."

[*Junto-o àquela entrada do book journal, de 2019:]
[É curioso o quanto a narrativa da Ditlevsen se distancia dessas visões mais romantizadas do Bergman e Tarkovsky, aproximando-se (pouco) mais da Varda.]

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