26/03/2020

[DROPS] And I draw a line to your heart today

To your heart from mine
A line to keep us safe
- PJ Harvey

[ATUALIZAÇÃO EM 17/05/2020:] Excluí parte do conteúdo deste post, pois acho que compartilharei minhas aventuras como inaplicada desenhista aprendiz somente no Instagram mesmo - @dani.x.ela. No entanto, talvez eu ainda inclua alguns rabiscos feios nas postagens do blog. "Decidido".

***
[POST ORIGINAL EDITADO ⬇]

[PREÂMBULO]
Então é isto; mantenho um blog diarinho em 2020 (quando já estou waaaay too old for this shit) e, ainda por cimapublico postagens com preâmbulos. Apelo ao recurso piegas porque sinto que, neste momento, não devo postar groselhas enquanto finjo que nada acontece no país, no mundo. Eu, provavelmente como muitos, estou bastante estressada, ansiosa e preocupada por causa do que acontece e acontecerá nos próximos meses. Contudo, visto que boa parte do futuro escapa do meu controle direto (acho), solicitei ao juiz esta breve pausa na partida (enquanto possível).
Busy, busy, busy.      So it goes.
     Kurt Vonnegut


Em fevereiro deste ano, me matriculei em um minicurso presencial de desenho. Confesso que temi ser a tiazona da turma (que besteira), porém a faixa etária é, na verdade, bem variada - a pessoa mais nova deve ter uns 19 anos; a mais velha, uns 42. Após cerca de seis aulas (atualmente suspensas), reconheço que a metodologia aplicada não é muito proveitosa em termos práticos, contudo, apesar das limitações técnicas, os encontros me proporcionaram um ânimo jamais antecipado. Indo embora da primeira aula, eu era a própria Frances Ha dando piruetas pela rua, ao som de Modern Love, do David Bowie. Senti um enorme prazer por sair de casa para interagir com outras pessoas (hã?!) também empolgadas para aprender a desenhar; todos compartilhando processos, experiências e inspirações. Fiquei tão impressionada com o bem que essas aulas me fizeram, que hoje penso que esse tipo de atividade (não apenas desenho, mas qualquer investida artística, praticada em grupo) deveria sempre ser incluída em programas e políticas públicas de saúde mental. Chuto que a mera oferta de espaços públicos, destinados a tal fim, já seria proveitosa. 

Tudo muito bom, tudo muito bem? Err, mais ou menos. É massa fazer os exercícios nas duas aulas presenciais da semana; porém, se eu não praticar depois, morrerei na praia. Então, para me estimular a desenhar em casa, busquei na internet um desses desafios temáticos de desenhos em 30 dias. Visto que, por enquanto, filmes* são minha maior inspiração (há vários rabiscos desse tipo espalhados pelo blog), googlei uma versão com o tema Cinema e achei esta: link  (*sem pânico, não sou cinéfila.)

Neste post [após atualização:] No Instagram (@dani.x.ela), publicarei alguns desenhos como tática para que eu permaneça praticando.

P.S.: o amado programa Portrait Artist of the Year 2020 (uma competição de retratistas; falei dele em alguma autoficção anterior) está no ar e é outro tremendo estímulo para desenhar, pintar. Assisto no You Tube, no ótimo canal do Cherzo. P.S. do P.S.: o programa de cerâmica, igualmente disponibilizado pelo Cherzo, é outra maravilha da TV britânica.

03/03/2020

[alinhavando] Immerse your Soul in Love #01


Era uma vez... — um príncipe e uma princesa que, perdidamente apaixonados, casaram-se e viveram felizes para sempre? Pff, claro que não. Era uma vez um amável final de semana cujo sentido ainda está por vir. Podemos começar a contar essa história a partir das entradas do diário de nossa heroína.


Sábado de manhã
Ao retomar a leitura da coletânea de contos do Tchekov, me deparei com um conto intitulado "Do amor". Prontamente escapou da minha boca um "eita, isso não vai dar certo", pois sei que as histórias de amor escritas pelo contista russo não são, digamos assim, dignas de comédias românticas hollywoodianas. Não; em matéria de amor, os contos de Tchekov matam na unha — ou com uma torta na cara. 

Logo na primeira página, tive uma encantadora surpresa:
"- Até hoje, sobre o amor, só foi dita uma única verdade indiscutível, a saber: que "grande é o seu mistério",
(...)
- Nós, russos respeitáveis, nutrimos uma predileção por estas questões que permanecem sem solução."                                          
 
                                                                                - Do Amor, Tchekov (Tradução: Tatiana Belinky)

Com essa leve rasteira, Tchekov me arrancou um sorrisinho maroto e fez desabar a guarda erguida com esmero. Quando me dei conta, eu tinha sido trucidada por uma narrativa sobre o amor, construída a partir do não dito — gestos, olhares. No arremate apoteótico do conto, o mocinho corre para se despedir da amada no vagão de trem que a levará pra longe & pra sempre e, ainda que o casal nunca tivesse trocado uma única palavra sobre seus sentimentos até aquele instante (os dois sempre muito formais e socialmente irrepreensíveis, sobretudo porque a mulher era casada), é isto que acontece:
"Quando, ali na cabina, os nossos olhos se encontraram, as forças espirituais abandonaram-nos a ambos, eu a tomei nos braços, ela apertou o rosto contra meu peito, e as lágrimas correram dos seus olhos; (...)"
                                                                                   - Do Amor, Tchekov (Tradução: Tatiana Belinky) 

Sendo discípula de Anna Akhmátova, entrei nesse conto com a partida já perdida:
     E, no entanto, meu coração nunca esquecera
     quem deu a própria vida por um único olhar.

Sábado à tarde
Retornou-me à memória uma outra cena de amantes se despedindo numa estação de trem; especificamente aquela incluída na novelinha turca (vejo, não nego etc ®) a qual assistira na Netflix uns anos atrás. Bateu vontade de rever alguns episódios, e em consequência uma familiar pulguinha reapareceu atrás da minha orelha; por sinal uma pulga que sussurra nos ouvidos mistérios relacionados a determinados olhares dos quais - aprendi com a leitura da manhã - Tchekov manja bem.

A história de amor em Kurt Seyit ve Şura é daquelas que desanda de um jeito pavoroso, tal qual o meme "os dois a 80km/h" e a tal ponto que o "antes e depois" dos olhares do mocinho pra mocinha é este:
Como é possível? Que dinâmica é essa; segundo a qual um rapaz então super apaixonado por uma moça pode, após o mísero intervalo de alguns anos, olhá-la com o evidente desejo de agarrá-la pela cabeça e arremessá-la contra a parede? Suponho que os russos estejam realmente corretos: amor, como é grande seu mistério. A menos que... Sim!; pois, se o amor é um mistério, como posso garantir que essa novela turca corresponde a uma história de amor?

Sábado à noite
Dado o perfil das histórias que marcaram meu dia, é justo que o título A Man in Love tenha saltado-me aos olhos no instante em que espiei o índice do meu novo livro de contos da Leonora Carrington.

Logo no início da leitura, fiquei abobalhada com um elemento compartilhado pelas narrativas de Tchekov (Do Amor) e Carrington (A Man in Love): os respectivos protagonistas (e narradores) são homens apaixonados tomados pela premente necessidade de contar as histórias de amor que viveram. O autor russo escreveu "Parecia que ele queria contar alguma coisa.", enquanto a autora inglesa escolheu "I want to talk, I want to tell my story." Não é curioso?

O conto de Carrington lembrou-me demais o segundo episódio da primeira temporada da série de TV Hannibal, no qual o assassino da vez enterra as vítimas vivas (não me pergunte), a fim de servirem de adubo para uma plantação de cogumelos (repito: é inútil me perguntar). Em A Man in Love, a amada do narrador encontra-se deitada numa cama, sem se mexer, falar ou comer há 40 anos; de modo que o cara não sabe se a mulher está viva ou morta, especialmente porque o corpo permanece quente - o homem até choca uns ovos sob o corpo dela. Quando a ouvinte da história bate o olho na sujeita largada na cama, ela sugere ao leitor que ali jaz uma defunta. O narrador do causo, na dúvida, diz que rega diariamente a graminha que brota por todo o leito onde repousa a amada. Maluco & Macabro? Bom, no universo surreal da Carrington, as coisas (des-?)funcionam desse jeito mesmo; tudo normal. Acrescento apenas que aquele singelo panfletinho de rua, que certa vez cruzara meu caminho, adquiriu novos significados (nem tão singelos) depois dessa narrativa da Carrington.

*

                                                                   - Chimamanda Ngozi Adichie (falando sobre Americanah)

Domingo de manhã
Dia de ver o filme novo do Adam Driver na Netflix. (Não curto muito o diretor, contudo:) Yay! 2 horas e 17 minutos depois, esta cena permaneceu aporrinhando meu juízo:
Em menos de 24 horas, tive de encarar a reprise daquele olhar tenebroso (versão "depois") do protagonista turco; dessa vez, no entanto, acompanhado da verbalização de seu significado: quero que você morra! Beleza. Se a Scarlett morrer, o Adam regará o leito dela por quarenta anos, assim como fez o protagonista da Carrington? E é sempre o homem que, em dado ponto da relação, comporta-se dessa maneira, é? Sei, sei. Digo, não sei p* nenhuma. Apelei para entrevistas do Noah Baumbach no You Tube (sobretudo por conta dos sabidos elementos autobiográficos), e o camarada está afirmando que o filme é uma história de amor contada a partir da narrativa do divórcio. Ao mesmo tempo que compreendo a proposta, não consigo apaziguar o desassossego que ela provoca.

Domingo à tarde
Assisti ao filme Cold War (Pawel Pawlikowski, 2018), crente que era apenas mais um filminho sobre a Guerra Fria. Que tonta. Na real, é uma história de amor (é?) em que o casal vive o dilema "ruim juntos, pior separados", o qual é levado às últimas consequências. O amor precisa ser tão complicado? O excesso de complicação pode ser usado como critério de exclusão para diagnóstico de amor? 

No mais, o filme firmou diálogo com aquele conto da Carrington. Antes de cair no estado de morta-viva/viva-morta, a mocinha de A Man in Love declamara ao amado "I love you so much I live only for you", enquanto a protagonista polonesa de Cold War promete ao amante algo bastante próximo:
Percebo que os romances do fim de semana estabeleceram um outro paralelo sinistro. De um lado, homens "apaixonados" (pero no mucho más) querem que a amada morra; do outro, mulheres apaixonadas fazem juras de viver e morrer eternamente pelos respectivos amados. Inegavelmente rola aí uma harmonização de intenções, porém, se amar for isso, náh, acho que prefiro ficar fora da brincadeira. Acho. Pô, eu seria a parte que morre na história!

Domingo à noite
Assisti ao penúltimo episódio da série Watchmen. Perto do final, após Angela dizer que não começaria um relacionamento sabidamente fadado à desgraceira, o Azulão a confronta com esta pergunta:
Hum, os romances ficcionais que cruzaram meu caminho neste fim de semana de fato acabaram +- em tragédia; mas por que todo relacionamento precisa terminar em tragédia, meu deus? E, depois da tragédia, parece que sobra uma doce memória que fomentará uma história da carochinha pra contar, conforme sugerido pelos contos de Tchekov e Carrington. Prêmio de consolação, aparentemente. Ok, né?

P.S.: mas então todas as obras do Lindelof falam de amor? Sei que The Leftovers (melhor série, forever and ever, amen) é uma delicada história de amor, e Watchmen agora sinaliza seguir o mesmo caminho. Daí Lost, no frigir das fumaças negras e ursos polares de ilhas tropicais, é mesmo uma história sobre o amor, né? Caramba, hein. Bem que a Chimamanda disse: toda literatura (eu: - ficção) é sobre o amor. 

- Lindelof, meu caro, eu nunca falei mal do final de Lost. [*Narrador em off*: - a safada mente] Se depender de mim, sua carreira continuará gloriosa.


Por ora, a história termina aqui. Com sorte, algum sentido será revelado nos próximos capítulos, mediante ajuda de um punhado de livros selecionados para compor a pilha Immerse your Soul in Love:
- All About Love, Bell Hooks; ✅ *lido*
- Fragmentos de um Discurso Amoroso, Roland Barthes;
- O Banquete, Platão; ✅ *lido*
- Fedro, Platão
- Love (Coleção Oxford - A Very Short Introduction), Ronald de Sousa;
- Agonia do Eros, Byung-Chul Han
- Amores & Arte de Amar, Ovídio;
- Eros the Bittersweet, Anne Carson;
- Do Amor, Stendhal;
- Essays in Love, Alain de Botton;
- Diálogo do Amor; Plutarco.

Até um *possível* próximo post desta série. 🥰