26/03/2020

[autoficções] And I draw a line to your heart today #01

To your heart from mine
A line to keep us safe
- PJ Harvey
[PREÂMBULO]
Então é isto; mantenho um blog diarinho em 2020 (quando já estou waaaay too old for this shit) e, ainda por cimapublico postagens com preâmbulos. Se apelo ao recurso piegas, é porque sinto que, neste momento, não devo postar groselhas enquanto finjo que nada acontece no país, no mundo. Eu, provavelmente como muitos, estou bastante estressada, ansiosa e preocupada por causa do que acontece e acontecerá nos próximos meses. O elefante sentou de novo no peito. Contudo, visto que boa parte do futuro escapa do meu controle direto (acho), solicitei ao juiz esta breve pausa na partida.

Busy, busy, busy.      So it goes.
     Kurt Vonnegut


Em fevereiro deste ano, me matriculei em um minicurso presencial de desenho. Confesso que temi ser a tiazona da turma (que besteira), porém a faixa etária é, na verdade, bem variada - a pessoa mais nova deve ter uns 19 anos; a mais velha, uns 42. Após cerca de seis aulas (atualmente suspensas), reconheço que a metodologia aplicada não é muito proveitosa em termos práticos, contudo, apesar das limitações técnicas, os encontros me proporcionaram um ânimo jamais antecipado. Indo embora da primeira aula, eu era a própria Frances Ha dando piruetas pela rua, ao som de Modern Love, do David Bowie. Senti um enorme prazer por sair de casa para interagir com outras pessoas (hã?!) também empolgadas para aprender a desenhar; todos compartilhando processos, experiências e inspirações. Fiquei tão impressionada com o bem que essas aulas me fizeram, que hoje penso que esse tipo de atividade (não apenas desenho, mas qualquer investida artística, praticada em grupo) deveria sempre ser incluída em programas e políticas públicas de saúde mental. Chuto que a mera oferta de espaços públicos, destinados a tal fim, já seria proveitosa. Meu curso, por exemplo, é uma iniciativa do governo do estado, pela qual agradeço.

Tudo muito bom, tudo muito bem? Err, mais ou menos. É massa fazer os exercícios nas duas aulas presenciais da semana; porém, se eu não praticar depois, morrerei na praia. Para me estimular a desenhar em casa, busquei na internet um desses desafios temáticos de desenhos em 30 dias. Visto que, por enquanto, filmes são minha maior inspiração (há vários rabiscos desse tipo espalhados pelo blog), busquei no Google uma versão com o tema Cinema e achei esta: (link)  (*sem pânico, não sou cinéfila.)
Esse desafio é voltado para ilustradores, dado que estimula o desenhista a criar personagens e situações. No entanto, como mal sei desenhar a partir de observação, adaptei alguns temas. Neste post, publicarei os dez primeiros desenhos (comecei no início de março), anotando devaneios sobre a empreitada. A postagem no blog, por sinal, é outra tática para que eu permaneça praticando.

P.S.: o amado programa Portrait Artist of the Year 2020 (uma competição de retratistas; falei dele em alguma autoficção anterior) está no ar e é outro tremendo estímulo para desenhar, pintar. Assisto no You Tube, no ótimo canal do Cherzo. P.S. do P.S.: o programa de cerâmica, igualmente disponibilizado pelo Cherzo, é outra maravilha da TV britânica.

Sem querer ficar na defensiva, mas já ficando:
 Estou aprendendo, caramba; é óbvio que meus desenhos são ruins. Sem contar que o Portrait Artist of the Year me reforçou que, num retrato pintado/desenhado, por exemplo, não se espera que o resultado seja uma xerox da pessoa retratada; tá, meu bem? "Basta" que a obra capte um je ne sais quoi do retratado, ora. Por outro lado, minhas peripécias rendem boas risadas. Além do mais, se eu tiver sorte (e desde que mantenha a disciplina de estudos), as publicações registrarão uma melhora. É o que espero. Justamente por isso, resisti à tentação de hoje mexer nos desenhos pra dar retoques marotos. Do jeito que ficaram, vieram pra cá, exceto pelos ajustes na própria foto. 

 Não tenho pretensão de fazer desenhos ultrarrealistas; nem agora, nem nunca. Definitivamente careço da paciência e disposição necessárias. Aliás: que fetiche é esse com desenho realista? Não entendo. O que eu gostaria, isto sim, é de um dia conseguir desenhar/pintar o que vejo abaixo da superfície, traduzir, através do meu traço, aquilo que enxergo; quiçá desenhar a partir da imaginação, e não apenas da observação. Vejamos se meu hipotético talento dormente despertará.

 Não fiz exatamente um desenho a cada dia, pois a rotina não permite, sobretudo porque gasto cerca de quatro a cinco horas (!) pra concluir um mísero desenho tosco. E há outra questão: quando me forço a desenhar quando não estou afim, o desenho sempre fica uma bosta completa (sim, existe bosta parcial). 


01
Comecei esse primeiro desenho com a certeza de que falharia, tanto é que escolhi usar um papel sulfite xexelento; contudo não é que ficou bom? Curti bastante o resultado. Creio que animação foi um tema bacana para o primeiro dia do desafio, visto tratar-se de uma imagem estilizada. E achei curioso como, sem querer, meu traço imprimiu um aspecto mais feminino nas feições das personagens. De modo geral, percebo que prefiro desenhar mulheres. E aqui temos a prova da minha preguiça com detalhes: quem disse que eu estava disposta a encarar todos os recortes na tampa do bueiro? Ain't nobody got time for that. Quando passo muito tempo em um único projeto, perco a paciência, mas sei que preciso trabalhar isso.

02
PQP, esse desenho ficou HOR-RÍ-VEL! Desse aí, não salvo nada, nadinha. Pera, talvez a boca. Quando percebi que ele não tinha mais salvação, chutei o balde com força, de modo que dá pra perceber o absoluto desleixo com o pescoço e cabelo. Uma teoria que comecei a elaborar, a partir desse projeto, é que desenhar mulher bonita é uma praga. A merda é que só quero desenhar mulheres bonitas. ¯\_(ツ)_/¯

- Monica Vitti, não desisti de você. Hei de desenhá-la (bem), custe o que custar.

03
Terror é complicado, pois não assisto nada desse gênero; porém o atual fascínio pela Florence Pugh (que atriz fabulosa) me fez lembrar de Midsommar. De que maneira resistir a essa imagem?! As flores estão pedindo pra ser desenhadas. Quanto ao desenho: concordamos que fiz o Steve Buscemi em Midsommar? Concordamos. (*sou muito má comigo mesma, poxa vida.*) Piada à parte, aaaaaacho que ficou ~aceitável~. E adorei a mistura do grafite com o lápis de cor. Nos próximos desenhos, tentarei brincar com outros materiais, fazer uma coisa mais free style, tá ligado? Uma parada meio David Hockney, sabe? *- Percebe, Ivair, a petulância da garota?*

04
Na moral? Esse ficou honesto, vai? Sério, acho que está num nível ligeiramente acima do "aceitável". Engraçado que, apenas na hora de postar os desenhos, me dei conta de ter escolhido dois filmes do Wes Anderson. Alerto prontamente que não faço parte da turma dos fãs chatos do Anderson, mas é inegável que os filmes dele tem diversas cenas lindas (as cores!) que eu adoraria desenhar. E é outro caso em que fingi não ter visto os detalhes. Até parece que eu desenharia cada uma daquelas perolazinhas. A estampa? Bitch, please. (Tenho de resolver isso.)

05
A pessoa escolhe Pacific Rim para o tema de cena de luta e não desenha os robôs jaegers. Francamente, no que eu não estava pensando? Em minha defesa, pergunto: e a trabalheira que seria desenhar aquelas torradeiras bípedes?! Ah, não. Quem acompanha o blog (= ninguém) facilmente deduz que o real motivo é que eu shippo esse casal. ¯\_(ツ)_/¯  E, bicho, espie aí essa anatomia perfeita. Ó lá a bundinha do Hunnam. Pô, serve até para os estudos dos alunos de faculdades de ciências médicas. P.S.: pé é uma praga pior que mão; inacreditável.

06
Ok, muita calma nessa hora. Comecemos pela parte boa: no meu desenho, claramente percebe-se 1. que é uma mulher japonesa, e 2. que é uma imagem com ares da década de 50. Certo? Certo, beleza. De resto, tá uma bosta. Claramente número dois: essa aí que desenhei não é a Hara, confere? Outra coisa que me deixou encafifada é que a moça do meu desenho parece feliz, sendo que, na foto de referência, Hara está com feições serenas, meio melancólicas (?). Teorizo que, como a Hara é famosa por ter um dos sorrisos mais lindos do cinema, a mão reproduziu o que estava na memória. Enfim, outro caso de mulher bonita que quebrou meu traço. Ah, e rosto em perfil é o CÃO pra desenhar. ↦ Começo a suspeitar de que tudo é o cão pra desenhar.

07
Ao que me parece, tem muita gente que não suporta o Jared Leto (sou meio indiferente, na real), mas minha memória diz que a performance dele nesse filme me agradou e acho que ele ficou super charmoso de maquiagem. Quanto ao desenho, logo que o terminei, supus ter acertado na mosca, entretanto noto, agora, que transformei o Leto num alienígena. A droga é que eu medi as proporções, sim, senhora. A propósito, a experiência de observar o próprio desenho em posições diferentes, dias diferentes, em mídias diferentes é impressionante. Às vezes, basta deixar o projeto de molho por algumas horas, ou mesmo levantar da cadeira para tomar uma distância, e o que está errado se materializa de modo cristalino na sua frente. Platão deve estar certo, de fato. Olhando pro computador, vejo que precisaria diminuir olhos e boca (o Leto tem olhos esbugalhados, mas dei uma bela aloprada), e esfumar melhor a sombra/blush do maxilar à direita. Nem falemos do pescoço, por favor.

08
Adorei a escolha que fiz pra esse tema (qual a melhor tradução de sidekick?). Sendo gentil comigo mesma, digo ter ficado contente com o resultado. Talvez os olhos estejam ligeiramente wibbly wobbly, mas olho é o quê? Exato. Olho é o cão pra desenhar. Pô, especialmente desse jeito, de perfil. 

09
Outra escolha que me deixou satisfeita. Se eu não dissesse nada, desavisados nem imaginariam tratar-se de uma cena de morte, mas as coisas funcionam assim no universo do Kurosawa. Ficou legalzinho, até. Talvez a proporção do corpo esteja um pouco off. Dei sorte porque, quando fiz esse desenho, já havia desembolsado grana pra comprar a borracha em caneta da Tombow, aquela ultrafina de 2,3 mm. A bicha é cara, porém extremamente útil. Como estava barato, também comprei o lápis borracha da Faber-Castell (aquele amarelo) que, embora péssimo pra apagar, é eficiente para esfumar e simultaneamente reduzir o tom da sombra (remover um pouco o grafite) - e sem manchar.

Já que falei de materiais, ressalto outro item, recomendado pela professora, que mudou minha vida de artista wannabe: a prancheta tamanho A3. Valeu muito a pena. O próximo passo será um cavalete para pintura. MoMA, aqui vou eu!

10
Sem exagero, estimo ter feito dez tentativas completas, antes de me conformar com essa versão e jogar a toalha branca. Este desenho está ruim, porém os anteriores estavam medonhos. Sei que eu deveria ter trocado de escolha (afinal, o que não falta é filme triste na lista de vistos), no entanto, uma vez que assisti ao Quando voam as cegonhas há só algumas semanas, persisto perdidamente apaixonada pela Samoylova. E mulher apaixonada (eu, pelo menos) é tonta feito uma porta. O que mais me deu ódio nesse processo foi a dificuldade de reproduzir os olhos (belíssimos) da atriz. Fora o rosto de perfil, claro. Certeza de que medi o rosto da Samoylova inteirinho, e mesmo assim o resultado ficou essa porcaria. Oh well. Em suma, atriz talentosa e linda demais. Tenho outras fotos dela nesse filme e, se panz, arriscarei novamente. 

Até os próximos desenhos. (*não sei quando virão, mas espero que logo.)

P.S.: antes de encerrar o post, devo agradecer a todos os artistas que disponibilizam vídeos de aulas e dicas no You Tube. Não os nomeio porque são realmente vários. A todos eles: muito obrigada.

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