06/12/2020

Othello, The Moor of Venice - Shakespeare

Estava de boas revendo Buffy (pretendo incluir um breve post sobre a experiência de rever a série, tantos anos depois), quando a querida slayer me aparece mandando altas análises sobre Othello (ok; ela estava trapaceando, mas quem liga?), e simplesmente boiei, pois nunca li/vi a peça. Inaceitável, é o que tenho a dizer. Portanto, voltemos ao Bardo, para remediar essa palhaçada. Repetirei a forma de registro que usei com Romeu e Julieta, na qual anoto minhas impressões, à medida que a leitura progride. Bora!

ATO I

CENA I

➽ Mal comecei, isto é dito a respeito de Othello: (↣ "the thick-lips" = "o beiçudo"):

you'll have your daughter cover'd with a Barbary
horse; you have your nephews neigh to you

E pensar que cheguei a aventar a possibilidade de que uma tal abordagem do racismo nessa peça resultasse de interpretação contemporânea forçada.


➽ Duas falas despontam como chaves potenciais de um hipotético tema central (destacarei em vermelho os trechos que considero chave):

Iago: "I am not what I am"* 

Brabantio: "Fathers, from hence trust not your daughters' minds
                    By what you see them act.-

Viajaremos pelas veredas do 'quem vê cara, não vê coração', aparentemente. Entendi - acho.

* = Que fala incrível, por sinal. Deixe-me refletir por um instante. > Se não sou o que sou, o que ~diabos~ sou? Sou o que o outro queira que eu seja? Sou o que for mais vantajoso em determinada circunstância? Ou: não sou; ponto final? (...) E se Deus diz "Eu sou o que sou", enquanto Iago diz "Eu não sou o que sou", posso concluir, pela oposição estabelecida, que Iago é o Diabo?! EITA!


CENA II
➽ They draw their swords  >> Minha parte favorita sempre; YAY!


➽ Damned as thou art, thou hast enchanted her!
For I’ll refer me to all things of sense,
If she in chains of magic were not bound,
Whether a maid so tender, fair, and happy,
So opposite to marriage that she shunned
The wealthy curlèd darlings of our nation,

O pai de Desdemona acusa Othello de feitiçaria, pois se a filha se apaixona pelo negro, só pode ter sido obra de vudu, macumba, magia negra... - o velho (mais velho do que eu supunha, pelo visto) preconceito religioso? Será? Anacrônico? 

Entretanto há uma informação interessante aqui: Desdemona, até então, não queria saber de casamento e já tinha esnobado um punhado de pretendentes, dentre eles o Roderigo. Estou curiosa para saber mais dessa Desdemona, sobretudo porque, por enquanto, a construção da personagem se faz apenas mediante a fala dos homens, digo, os homens falam por ela. 


➽ OTHELLO
But that I love the gentle Desdemona,
I would not my unhousèd free condition
Put into circumscription and confine
For the sea’s worth.

Othello relaciona casamento à perda de liberdade, fixando-o como a prova cabal do amor > quem ama está disposto a abrir mão da liberdade, portanto disposto a se casar. Não boto fé nisso, Othello.


CENA III
➽ Fui surpreendida, pois o Bardo traz o tal quem vê cara, não vê coração até para o contexto da tática de guerra! Dá para julgar as intenções do inimigo, a partir de suas movimentações aparentes? Ora, ora.


➽ BRABANTIO
My daughter! Oh, my daughter!
ALL
Dead?

É pior do que ter morrido, pessoal: a filha se casou com um negro. Quer dizer, acho que é esse o problema para Brabantio.


➽ I do beseech you,
Send for the lady to the Sagittary
And let her speak of me before her father.
 
É o que eu acabei de escrever: a mulher não fala? Boa, Othello.


➽ Opa, então Othello realmente enfeitiçou Desdemona; mas não com poções mágicas, e sim com histórias, com narrativas! , Desdemona é a mulher que se apaixona pelo contador de histórias. Shakespeare bancando o Gary Stu, veja só. Isso me trouxe à memória o lindo filme Asas do Desejo, do Wim Wenders: "Tell me of the men, women, and children who will look for me - me, their storyteller, their bard, their choirmaster - because they need me more than anything in the world. We have embarked.

She wished she had not heard it, yet she wished
That heaven had made her such a man.

Por outro lado, parece que Desdemona tem um pouco de Dorothea Brooks (Middlemarch - que saudades de você, Dodo!) - digo, seria o contrário, já que Desdemona chegou primeiro, né? Enfim; na impossibilidade de viver grandes aventuras, visto que são mulheres, elas as vivem através das histórias vividas e contadas pelo homem com quem se casam.

She loved me for the dangers I had passed,
And I loved her that she did pity them.
This only is the witchcraft I have used.


➽ Hoje, a gente diz "Pimenta no cu dos outros é refresco", mas no século XVII a galera dizia
"He bears the sentence well that nothing bears
But the free comfort which from thence he hears." 

And I think it's beautiful. 


➽ O duque tá praticamente falando: "PQP; os turcos tão aí batendo na porta, seus putos; eu caguei para onde essa mulher vai ficar." haha Perdão; é que, para uma tonta feito eu, o subtexto das peças do Shakespeare é a melhor parte.


➽ Duke: If virtue no delighted beauty lack,
                Your son-in-law is far more fair than black.

Quem diria que é possível elogiar uma pessoa e, no processo, bancar o racista, hein? Não há limites para a proeza humana.


➽ BRABANTIO
Look to her, Moor, if thou hast eyes to see.
She has deceived her father, and may thee.

Em "bom português": - Tu fica esperto, Otão, qui'ssaí é duas cara, mêrmão. Pô, será que eu não poderia ganhar uma grana adaptando as peças do Shakespeare para o português moderno, o português vivo, suingado? Nah, outro tonto deve ter chegado antes de mim, certeza. 


➽ IAGO: 
Tis in ourselves that we are thus or thus. Our bodies are our gardens, to the which our wills are gardeners. (...) the power and corrigible authority of this lies in our wills. If the balance of our lives had not one scale of reason to poise another of sensuality, the blood and baseness of our natures would conduct us to most prepost'rous conclusions. But we have reason to cool our raging motions, our carnal stings, our unbitted lusts.

Outra fala crucial, na continuidade do discurso acerca de identidade, de quem somos e como agimos. Nessa peça, parece-me que Shakespeare refutará a ideia de uma natureza humana que escapa de nosso controle, a fim de afirmar que somos responsáveis por nossos próprios atos, sentimentos; responsáveis por quem somos e como agimos. Até onde eu me lembre (posso estar errada), a narrativa de King Lear defendia o contrário, digo, defendia (até certo ponto) que há uma natureza soberana que nos governaria para além de nosso controle. Mas talvez esse seja o pulo do gato, nessa fala de Iago: ele é um fdp que age como um fdp; essa é a natureza dele. Bom, acompanhemos o desenrolar dessa treta.

ATO II

CENA I

➽ IAGO
Come on, come on. You are pictures out of door, bells in your parlors, wild-cats in your kitchens, saints in your injuries, devils being offended, players in your housewifery, and housewives in your beds.

E segue o barco de que as mulheres, no que se refere a tipos duas caras, são a pior raça. Não é legal que isso seja dito justamente por Iago? Não dá pra ficar mais óbvio que isso.


➽ Interessante ver que, para seguir em frente com seu ~plano maquiavélico~, Iago inventa (e força-se a acreditar) a fantasia de que sua esposa o traiu com Othello e Cassio - um motivo mais honrado, digamos, que ele concede a si mesmo. Quem sabe exista uma fagulha moral dentro dele, ainda que seja menor que uma semente de morango. Por ora, pelo menos, é a leitura que faço dessa peculiar informação.


CENA III
➽ CASSIO
O thou invisible spirit of wine, if thou hast no name to be known by, let us call thee devil! God, that men should put an enemy in their mouths to steal aay their brains!

Cassio se lasca por causa de álcool, a grande arma secreta do vilãozão Iago. Francamente, pessoal. Bem que eu escrevi no blog, dia desses, que esse negócio de álcool não tá com nada.


 CASSIO

Reputation, reputation, reputation! Oh, I have lost my reputation! I have lost the immortal part of myself, and what remains is bestial. My reputation, Iago, my reputation!

A recorrência desse papo da reputação é marcante. Desconfortável pensar que o bem mais valioso para essas pessoas correspondia a algo tão etéreo e subjetivo.


➽ IAGO
How am I then a villain
To counsel Cassio to this parallel course,
Directly to his good? Divinity of hell!


Iago, acho que a sua pergunta é pertinente. Afinal, quem é o vilão dessa história? Há um vilão? A impressão que tenho é que as personagens se deixarão trair por suas próprias fraquezas, de modo que Iago é apenas a perspicaz figura que as identifica e as usa a seu favor. Isso faz dele o único vilão? E quanto à responsabilidade das demais personagens? 


ATO III

CENA III
➽ IAGO:
Oh, beware, my lord, of jealousy!
It is the green-eyed monster which doth mock
The meat it feeds on.

Tá vendo? O Iago bem que deu uma chance pro Othello, mas nãããão, Othello tinha que insistir. 


➽ OTHELLO
   I’ll know thy thoughts.
IAGO
You cannot, if my heart were in your hand,
Nor shall not, whilst ’tis in my custody


Pronto, esse é o problema. Quem vê cara não vê coração, todo mundo sabe, mas o que fazer, já que não é possível enxergar o coração de ninguém? Ora, mal conseguimos enxergar nossos próprios corações, imagine o do outro. Não adianta, a cara é a mísera orientação com a qual podemos contar. (Será que a origem da expressão tem alguma relação com essa peça???) 

E começo a pensar que Othello cada vez mais se complica na história. Poxa, o que as ações de Desdemona sugerem até aquele ponto? A mulher abandonou pai e pátria para ficar com ele, e ainda assim ele acreditará que ela o trai com Cassio? 


Look to your wife, observe her well with Cassio.
Wear your eyes thus, not jealous nor secure.


O lance é como enxergar as ações, ou seja, é preciso sabedoria e maturidade para interpretá-las com a menor margem de erro possível, teorizo. Por exemplo, eu acabei de escrever que o que Desdemona fez para ficar com Othello a favoreceria aos olhos do esposo, enquanto Iago usa esse mesmíssimo argumento para envenená-lo. No fim das contas, é tudo narrativa, e cada um escolhe a que melhor lhe convém. Eeeeeeepa, acho que comecei a captar O grande tema dessa peça.


➽ Oh, curse of marriage
That we can call these delicate creatures ours
And not their appetites!

Poxa, é bem chato que o casamento não seja uma transação comercial, né? Você pagou, mas não levou, Othello.


➽ I had rather be a toad
And live upon the vapor of a dungeon
Than keep a corner in the thing I love
For others' uses. Yet ’tis the plague to great ones,
Prerogatived are they less than the base.
'Tis destiny unshunnable, like death.
Even then this forkèd plague is fated to us
When we do quicken. Look where she comes.

Othello has 99 problems, but low self-steem ain't one. De onde ele tirou esse tal destino dos grandes? Sei lá, acho que chifre não respeita envergadura.


➽ OTHELLO
I have a pain upon my forehead, here.

E esse é o grande escritor que desvendou toda a natureza humana em sua obra. Gênio, sem dúvida alguma.


➽ The Moor already changes with my poison.
Dangerous conceits are in their natures poisons
Which at the first are scarce found to distaste,
But with a little act upon the blood
Burn like the mines of sulfur.

Acho que rola aqui outro jogo de opostos. Desdemona se apaixona por causa das narrativas de Othello que, por sua vez, enlouquece de ciúme por causa das narrativas de Iago. A peça retrata o quanto histórias são capazes de despertar as paixões humanas, para o bem ou para o mal; assevera que as narrativas são o motor da vida humana. >> Ok, fecharei a conta: narrativa/história é o tema central da peça; ciúme é só a superfície. A peça é meta, confere?


CENA IV
➽ EMILIA
Is he not jealous?
DESDEMONA
Who, he? I think the sun where he was born
Drew all such humors from him.

Isso que dá se apaixonar por um contador de histórias, Desdemona. Suspeito de que você confundiu autor X narrativa. Não pode, mulher.


➽ DESDEMONA
Alas the day! I never gave him cause
EMILIA
But jealous souls will not be answered so.
They are not ever jealous for the cause,
But jealous for they’re jealous. It is a monster
Begot upon itself, born on itself.

Intrigante tese. De um jeito ou de outro, o ciumento bola para si uma historinha convincente para justificar o ciúme. Pode ser, vai saber?

ATO IV

CENA I
➽ OTHELLO
It is not words that shake me thus.
IAGO
Work on, My medicine, work!

Ah, sim, outra importante extensão do tema das narrativas. A palavra é o ingrediente maior das poções narrativas que nos enfeitiçam e despertam sentimentos avassaladores. Ficção é o que move as paixões humanas; vivemos no transe da ficção construída por meio das palavras. Estou me repetindo, porém é que, quanto antes a gente se dá conta disso, melhor.


➽ Bicho, o Othello convulsionou de ciúme!! LITERALMENTE. Imagina isso no palco?! 

Pessoalmente, é tudo muito estranho; digo, eu não tenho familiaridade alguma com ciúmes; de verdade. A partir dos elementos dessa peça, cheguei à hipótese de que talvez o ciúme seja um sentimento comum às pessoas que dependem demais da frágil convicção de que elas próprias são incríveis ou, nas palavras de Othello, de que são The Great Ones. É provável que a traição do amado/da amada seja interpretada pelo ego como o indício de que não existe em si uma grandeza inigualável e insubstituível. E como poderia o ego com delírios de superioridade continuar vivendo assim? Só lhe restaria eliminar esse um/uma que arranhou a ilusão de grandeza; ou eliminar a si mesmo. Será esse o destino de Othello? 


➽ OTHELLO
(striking her) Devil!

Caramba, ele bateu na Desdemona. Quero mais é que se lasque, agora. Esse paspalho vai matá-la, é?! 


➽ LODOVICO
Is this the noble Moor whom our full senate
Call all in all sufficient?
Is this the nature
Whom passion could not shake? Whose solid virtue
The shot of accident nor dart of chance
Could neither graze nor pierce?

Outra narrativa colocada à prova, a partir de uma nova circunstância. Quem seria Othello? O que se narrava a respeito dele não bate com os novos fatos, portanto como voltar a defini-lo? Simples: uma nova história é necessária. Isso sinaliza que até nossa identidade não passa de mera construção narrativa. É tudo uma ilusão, essa merda. 😁


➽ IAGO
He’s that he is.

Novo paralelo com a frase inicial de Iago, dita a respeito de Othello. Acredito que Buffy possa usá-la para sustentar sua leitura de que Iago é a versão má de Othello; o duplo Othello-Iago. Particularmente, não curto essa teoria, nem acho que faça tanto sentido. Quer dizer, é possível que faça mais sentido se focarmos naqueles termos borgianos do herói x traidor, pois persisto questionando o papel de um suposto vilão nessa peça. Como nos contos de Borges, a narrativa de Shakespeare deixa claro (acho) que as figuras do herói e do vilão são obras do acaso, de determinada fugaz circunstância; nada é fixo.


CENA II
➽ OTHELLO
  Why, what art thou?
DESDEMONA
Am I that name, Iago?
Such as she says my lord did say I was.

É; a questão da identidade segue forte. Essa sequência é boa, pois aborda aquelas situações em que nós mesmos ficamos confusos a respeito de quem somos, por conta das múltiplas narrativas que se criam a nosso respeito. 

E chama muita atenção o peso que se dá à injúria de chamar uma mulher de puta. Por várias falas, restou demonstrada a grande valoração da reputação que, no caso da mulher, depende de como ela conduz sua sexualidade.


CENA III
➽ EMILIA
Let husbands know
Their wives have sense like them.

No discurso de Emilia, até o conceito de certo X errado aparece como uma questão de perspectiva, narrativa, ponto de vista, contexto; como queira. Estamos sempre correndo atrás de conceitos absolutos que simplesmente não existem.

ATO V

CENA I
➽ Agora que atinei para registrar o seguinte: como é tonto esse recurso narrativo do vilão que conversa consigo mesmo; espécie de fala através da qual o autor explica ao espectador o que está acontecendo. Tenho a sensação de que torna o "vilão" menos aterrorizante. Novamente me pergunto como fazem isso no palco. O ator fica falando de frente para o público? Rola uma quebra parcial de parede? Terei de arrumar uma montagem, pra ver depois.


➽ Se a gente ganhasse £1,00 a cada vez que a palavra strumpet/whore é dita nessa peça, hein?


➽ O plano do Iago está tomando rumos tão intricados, que falarei a verdade: não sei se estou sacando tudo que tá rolando, não. O cara quer matar todo mundo; é isso? É o que dá, se meter com o capiroto.


➽ OTHELLO
Yet she must die, else she’ll betray more men.

Esse maluco tá de sacanagem comigo, não é possível um troço desse. Ele matará mesmo a Desdemona... Gente...

And mak’st me call what I intend to do
A murder, which I thought a sacrifice!

As mulheres têm uma carga pesada de culpa para expiar, a depender da narrativa masculina da vida. 


➽ IAGO
I told him what I thought, and told no more
Than what he found himself was apt and true.

Ele tá mentindo? Tá mentindo?! Eu acho que não. Reitero: possivelmente há um duplo Othello-Iago, contudo os papéis que as duas personagens assumem são bem embaçados. 


➽ Duplo feminicídio... Caraca. Se Othello e Iago não se matarem e partirem juntos pro inferno, será o fim de nossa relação, Shakespeare.


➽ When you shall these unlucky deeds relate,
Speak of me as I am. Nothing extenuate,
Nor set down aught in malice. Then must you speak
Of one that loved not wisely, but too well

Stabs himself

Ok, Shakespeare, aceito esse final. / Pelo visto, minha teoria sobre os ciumentos se encaixou super bem na peça; ou quase, dado que uma só morte não foi suficiente para apaziguar o ego de Othello.


➽ Myself will straight aboard, and to the state
This heavy act with heavy heart relate.


Que beleza! Então, o que a personagem fará no desfecho da peça? Ela partirá para contar toooooda aquela historinha para seus pares. Não disse que o grande tema dessa peça são histórias, narrativas? Lodovico assumirá o papel do contador de histórias e a narrativa continuará, ou seja, a vida prosseguirá.

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