16/09/2021

[OFF-TOPIC] Here I am now, entertain me; a denial, a k-drama


Venho por meio deste
confessar que me meti com drogas pesadas: dramas coreanos. Na tentativa de ilustrar o efeito nefasto da experiência, repasso os cálculos aproximados: no período de 07 dias (dos quais quatro foram dias úteis de trabalho), assisti a insanos 36 episódios; do que resulta um total de +- 46 horas vendo k-drama — MEU.DEUS. O potencial aditivo dessas tranqueiras é tão alto que, no futuro, evitarei começar um possível novo draminha no meio de uma semana normal. Dada a singularidade do fenômeno, anotarei neste post alguns comentários sobre as séries a que assisti: Pousando no Amor e Vincenzo. Exceto por duas prévias investidas frustradas, este foi meu primeiro contato com k-dramas, portanto obviamente não sou expert no assunto — ou seja, dificilmente escreverei alguma novidade para quem manja do tema. Bora lá!

📺 Primeiro, delato a culpada pela minha derrocada (rimou!): uma amiga disse ter visto Pousando no Amor e se lembrado de mim. Quando li a mensagem, pensei (admito envergonhada) "como assim um troço com esse título brega remete à minha pessoa?". Superada a momentânea crise identitária, e considerando-se que a amiga é querida e me conhece bem, dei uma chance pra série e, já no primeiro episódio, fui fisgada. Então, ficou a lição: amiga que traz recomendações certeiras é coisa pra se guardar dentro do coração. (De verdade, a lembrança dela me deixou bastante feliz; e já agradeci-lhe efusivamente.) No entanto, ressalto que Vincenzo foi escolha minha (creio que ela jamais veria, mas insistirei), e: QUE CAZZO, É MELHOR AINDA!!!!!!!

📺 Essas produções são empestadas de clichês e fan services, mas os roteiristas os usam de um jeito super esperto, sem se levarem muito a sério (rolam diversas piadas meta no Pousando no Amor) e sem fazer com que eu me sinta uma tonta (ok, talvez um pouquinho). Houve várias cenas em que eu conseguia enxergar os roteiristas piscando pra mim; de modo que adoraria conhecer o processo criativo deles — tipo, de onde desencavaram a ideia de bolar um John Wick mafioso, ítalo-coreano, com cara de bebê, que xinga em italiano, veste ternos impecáveis e é aporrinhado por um pombo?! (Vincenzo) Gênios! [*Compartilho que, num vídeo com o roteirista e a diretora de Vincenzo - link aqui -, obtive informações valiosas.] No mais, vale destacar que esses k-dramas também parecem adotar uns tropes algo específicos, que despontam reiteradamente, o que me faz suspeitar da existência de um check-list de cenas que sempre devem constar em qualquer trama coreana. Ah, e teorizo existir esta regra de ouro: não importa qual seja a história, sempre deve haver ao menos um romance. Vou reclamar? Claro que não. (**Contudo, fiquei apoquentada quando o roteirista de Vincenzo me lembrou que ele é um homem hétero de ~40 anos?, casado, escrevendo romance para uma série de TV. Oh, boy; que cazzo.) Dito isso, registro uma importante crítica negativa: a criatividade e engenhosidade dos roteiristas se sustentam apenas durante +- a primeira metade das séries, enquanto os episódios restantes são pura encheção de linguiça recheada com um loop de reciclados expedientes narrativos do início. Por exemplo, Pousando no Amor é, nos primeiros ~8 episódios, uma comédia romântica gostosinha e divertida de ver, daí a narrativa descamba para um romance dramalhão com muita choradeira, e fica difícil suportar (o casal secundário salvou minha vida). Tanto é que, embora eu tenha começado Pousando no Amor super animada, concluí a série com certa birra e uma sentimento amargo no cuore. No fim das contas, persiste-se assistindo no esquema de maratona simplesmente por causa da enorme curiosidade para saber como as sandices acabam; não importando que seja fácil imaginar como será.

📺 Finalmente entendo melhor os ânimos exaltados das fãs da BTS, pois me dei conta de que os coreanos, quando inventam ser bonitos, não brincam em serviço. Poxa, lembrei agora que minha mãe, vendo comigo o filme Parasita, até comentou o quanto o Sun-kyun Lee é charmoso (lembra, mãe?). Enfim, não nego que me agarrei nesses dois k-dramas sobretudo porque queria continuar olhando os rostos perfeitos dos dois galãs. Na moralzinha, espie estes dois tontos — Hyun Bin (esq) e Song Joong-ki (dir):
Um dos tropes reiterados, inclusive, é o de fazer as próprias personagens da série falarem toda.fucking.hora o quanto esses caras são bonitos. Até a câmera se apaixona por eles, dados os inúmeros e generosos close-ups de seus rostos. Uma vez que a beleza dos atores é óbvia (ninguém em sã consciência precisa ser convencida desse fato); não entendo por que recorrem tanto a isso — irrita um bocadinho, pessoal. Suspeito tratar-se de mais uma situação em que os roteiristas nos dão uma piscadela (e riem da gente!), pois sabem que estamos suspirando por esses palhaços. O Song Joong-Ki, em particular, me deixou desconfortável, porque achei que estava hipnotizada por um moleque de aparentes 22 anos, no entanto o sujeito tem inacreditáveis 36 anos. OI? O Hyun Bin, para quem eu dava uns 28 anos, tem 39. É possível notar que os atores usam base iluminadora (bb cream?), corretivo, hidrante labial (gloss incolor?), marcam a sobrancelha etc; o que, porém, não desfaz o impacto dessa genética. Jesus, multiplicai esses genes pelo mundo, é o que peço. E me ajudai a esquecer o Song Joong-ki, por favor, pois, conforme dito pela atriz Jeon Yeo-bin, o rosto dele é uma escultura. [*Tentarei desenhá-lo, sim ou com certeza? A ver como me sairei — se conseguir, aparecerá no blog.]

📺  A presença de um núcleo forte para alívio cômico das tramas é aparentemente mandatória. O problema é que o roteiro, diversas vezes, pesa demais a mão nesse recurso. Não foram poucos os momentos em que me senti assistindo a um filme dos Trapalhões ou a um episódio do Chaves — Pousando no Amor se destaca a passos largos nesse vacilo. E o estranho (que até reforça a hipótese do check-list de roteiro) é que há typecasting, quero dizer, um mesmo ator aparece em séries distintas interpretando uma personagem "engraçadinha" com as mesmíssimas características. Achei tão embaraçoso, que me consolei acelerando a velocidade de exibição (usei sem dó em Pousando no Amor). Para não soar tão amarga, afirmo haver diversos momentos em que o humor é excelente; principalmente quando usado com parcimônia, em momentos breves e criativos. As inesperadas piadinhas com o próprio país, aliás, são ótimas. Rolou imitação de cena do filme Parasita, protagonista gritando "Coreia de Merda!", um ítalo-coreano (acostumado com euro) tirando sarro de ali existir cédula única no valor de 50.000 e a formidável fala "...o Bong Joon-ho e a BTS se esforçaram tanto pela nossa imagem, daí vem canalhas como esses arruinar nossa reputação."  (Todos exemplos citados são de Vincenzo.)

📺 Voltando aos onipresentes romances: dá para acreditar que, numa série intitulada Pousando no Amor, rolam, em 16 episódios, somente quatro selinhos entre o casal protagonista? As personagens passam o tempo inteiro a se encarar e a chorar. Sexo, então, não deve surgir de jeito nenhum em k-dramas, nem mesmo a mera sugestão. Ainda ignoro se trata-se de uma escolha deliberada de roteiro, em face do perfil da audiência, ou se há algum tipo de censura televisiva. Porém, destaco que Vincenzo conta com uma bela cena de beijo que me pegou totalmente desprevenida, a qual garantiu um lugarzinho no meu cânone pessoal. P.S.: ao recordar que, neste ano, vi numa série da HBO (= White Lotustotalmente excelente) um ator enfiar majestosamente a cara na bunda do coleguinha de cena, caí na gargalhada. Como pode, né? Eita, lembrei que, em série britânica (Cucumber), vi até close-up de pênis. É, agora sei que não posso esperar esse tipo de coisa dos k-dramas; e tudo bem. Hum, mas será que todos seguem realmente o esquema "para toda a família"? A pesquisar. Acrescento que, numa entrevista, o Song Joon-ki me chamou atenção para o fato de que, em Vincenzo, é a mina quem toma a iniciativa, o que, segundo ele, não é comum nas séries coreanas. Intrigante.

📺 Palavrão coreano também não rola (acho que, no máximo, ouvi um "merda"); o que me fez questionar se sabem o que, afinal, é dito em italiano (na série Vincenzo).

📺 Correndo o risco de bancar a chata, denuncio que as músicas usadas na trilha sonora de Pousando no Amor são absurdamente cafonas — chuto ser regra em doramas de romance (caí num pleonasmo?). Bastava soar as primeiras notas musicais, e eu queria me enfiar debaixo da mesa, tamanho era o constrangimento. Vincenzo, por sua vez, usa uma trilha instrumental muito legal, feita especialmente pra série, que em nada ofende os ouvidos. Aproveito para, novamente, firmar um paralelo com White Lotus (é, não a superei), série que brilhantemente usa a trilha sonora quase como uma personagem, quiçá como a própria narradora da história. Enfim, tudo isso para mandar um recado aos produtores: valorizem as trilhas sonoras e deem-lhe a devida atenção, pois ela fará ou destruirá seus trabalhos. 

📺 As múltiplas publicidades inseridas em cenas aleatórias são surreais e embaraçosas. [É comum em séries gerais da Netflix? Não sei dizer.] Alguém já viu uma CEO milionária lanchando no Subway?! Ora, nem eu, pé-rapado que sou, como no Subway, gente. E mafioso europeu rico — italiano, ainda mais! —  bebendo café instantâneo, alguém já viu? Ah, e o tanto de frango frito que comem não pode ser normal (além do mais: tenham pena dos bichos, pessoal!) Dá vontade de socar a fuça dos atores, a cada cena de publi; não minto. No entanto, me esforço para relevar, visto que essas produções coreanas, inegavelmente caprichadas, aparentam ter custo elevado.

📺  Um estranho trope reiterado, e que talvez revele algo acerca da cultura coreana (bastante capitalista?), são cenas de makeover, nas quais a personagem sai triunfalmente de um provador de loja chique. Não entendo o porquê dessa bobagem. Do que eu preciso é de mais cenas em que personagens saem arrasadas de um provador, abaladas pela experiência traumatizante, isto sim. 

📺 Esses dois k-dramas se lambuzam daquele clichê do Vilãozão mala que enche o saco a série inteira, o qual considero um porre gigantesco. Entretanto reconheço que a vilã* secundária de Vincenzo é bem interessante, possivelmente porque as decisões dela não são motivadas por simplórios sentimentos de inveja/rancor/birra direcionados ao protagonista herói/anti-herói. Bom, tomara que esse clichê não seja outra regra dos k-dramas (porém desconfio que seja).

* Dúvida: será mesmo que, na Coreia, é permitido atuar como promotor de justiça e, simultaneamente, exercer  a advocacia?! Se for, revejam aí, coreanos. 

📺 A propósito, as cenas de luta em Vincenzo são espetaculares! Fiquei impressionada. 

📺 Os espaços e paisagens da Coreia aparecem pouco em cena (detalhe: em Vincenzo, descobri que houve intenso uso de CGI, inclusive para reproduzir os cenários da Itália), no entanto essa impressão pode simplesmente resultar do fato de que Seul é uma cidade modernosa com muito concreto, sem destacada personalidade. [*Perdão, Coreia, mas é o que pareceu.] Para aproveitar a rivalidade Japão X Coreia (esses k-dramas apontam que a treta segue firme e forte), digo que, nessas duas séries, não surgiram os belos cenários que habitualmente vejo em produções gravadas no Japão. Em outras palavras, os dois draminhas não me deixaram com vontade de visitar a Coreia. [Não que eu tenha condições de ir pra lá assim tão facilmente, veja bem. Fiz o registro apenas porque, quando vejo séries ambientadas em outros países (fora do eixo EUA/UK), adoro reparar no cenário local, do que costumeiramente resulta a vontade de conhecer o lugar. Por exemplo, depois de Shtisel, decidi que me esforçarei para conhecer Israel antes de morrer.]

📺 A língua, por sua vez, me intriga; e me interessa bastante entender como funciona. A partir das intensas 46 horas durante às quais expus meus ouvidos ao coreano (a propósito, a sonoridade do idioma me agrada), consegui captar que ele teoricamente adota uma sintaxe particular (predicados / complementos / adjuntos iniciam as frases?) e não fui sequer capaz de identificar como falam o Bom dia, Boa noite, Obrigada. Sendo honesta, mal compreendo a pronúncia dos nomes das personagens (não é exatamente como lemos em português). A única palavra que aprendi e que ficou gravada na cabeça foi, inesperadamente, 엄마 (Eomma) - Mãe. Se isso reflete algo sobre o país, é a pergunta que fica. 

E surpreendeu reparar que, ao que parece (não tenho certeza), eles têm dificuldade para falar inglês, o que reforçaria uma suposta peculiaridade do coreano em relação a outros idiomas. Antes dessa experiência, eu chutaria, sem pestanejar, que a Coreia seria como países nórdicos, onde virtualmente todos falam inglês fluentemente, porém identifiquei indícios de que estou enganada. 

📺 Considerando-se o que escrevi, talvez esteja difícil entender por que curti tanto assistir a essas duas séries. Em linhas gerais, atribuo o sucesso ao mencionado uso astuto dos clichês de gênero, de forma que, mesmo quando o roteiro desanda, a narrativa tende a invadir a categoria "tão ruim, que fica divertido". Restou a sensação de que os k-dramas serão magníficas opções para os dias em que eu queira ver uma série leve sem grandes pretensões, um romancinho clichezento bem feito, um ator bonito ou engatar uma maratona viciante. 

📺 Para fechar, colo a página que Vincenzo e o pombinho Inzaghi ganharam no journal; acompanhados de um trecho do belo livro A Praça do Diamante, da autora catalã Mercè Rodoreda. Em Vincenzo, o pombo funciona como surreal elemento cômico, enquanto Rodoreda disse ter recorrido aos pombos para conferir à sua narrativa um clima kafkiano asfixiante — no livro, em consonância com o contexto histórico da trama (Guerra Civil Espanhola), os pombos não são, de fato, tão engraçados. Fascinada com o potencial narrativo desses bichinhos. 

É isso. Se panz, esta postagem terá uma segunda parte, com novos k-dramas. Tchau!

22/08/2021

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #06 - Emma Zunz

 (Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, disponibilizou resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre emma zunz: link 2

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

A primeira leitura de Emma Zunz me deixou no vácuo, causando-me a sensação de um ponto fora da curva borgiana (daquela que ora conheço; claro). Daí, optei por deixar o conto encostado, relendo-o vez ou outra, na esperança de que meu inconsciente o digerisse e me regurgitasse algo — ou, como habitualmente ocorre, na esperança de que eu esbarrasse numa obra que me ajudasse a melhor compreendê-lo. Hoje me dou conta de que um ano e meio já se passaram (!) e: nada. Ou quase nada. Não nego persistir um bocado encafifada com Emma Zunz, mas decidi que é hora de embarcar no esforço de organizar as ideias, sobretudo porque as recentes leituras/reflexões que fiz acerca de romances policiais (ajuda recebida de Georges Perec + Todorov) me sopraram que os paralelos que costurei, desde a primeira leitura, com outros dois romances é um ponto de partida bastante legítimo. 

Não sei se a ausência de romances policiais/thrillers entre minhas leituras justifica, mas é fato que não costumo me deparar com passagens literárias que descrevem personagens executando o plano de assassinato de outro ser humano. Possivelmente por isso — também não sei se justifica — certas imagens de Lolita e Ruído Branco, relativas exatamente a tais descrições, ficaram gravadas em minha memória, feito cicatriz. Logo, não me surpreendeu ser transportada de volta, pelas mãos de Emma Zunz, aos instantes nos quais Humbert assassina Clare Quilty e Jack (quase) assassina Mink. Dessa maneira, refleti em conjunto as experiências dessas três personagens e, a seguir, listarei algumas questões relevantes que pude identificar. [Disclaimer: faz muito tempo que li Lolita e Ruído Branco; portanto, ao apelar às minhas lembranças, é possível que eu incorra em imprecisões.]

(1) Os momentos preliminares, que prenunciam o bote
Chama atenção o quanto os autores investem na longa descrição — minuciosa, sem pressa; em flagrante oposição ao estado psíquico da/o assassina/o — daqueles instantes que antecedem o assassinato; resultando numa dramaticidade e suspense que, comicamente, me remetem à forma com que documentários sobre animais narram, sei lá, o leão se preparando para matar a zebra. Ora, o conto de Borges, sendo um tanto estrita, constrói-se apenas mediante tal artifício descritivo. Aliás, é muito provável que esse aspecto formal — do qual resultam imagens tão cinematográficas e vinculadas a sentimentos de intensa excitação — seja o efetivo responsável pela marcação das cenas de Lolita e Ruído Branco em minha memória de leitora. Além disso, é curioso que Nabokov tenha escolhido o período diurno para ambientar a preparação de Humbert, pois a noite, escolhida por Borges e DeLillo, aparenta ser um momento mais seguro para que o autor consiga provocar no leitor a almejada tensão/expectativa.

Outra noção marcante dessas descrições corresponde ao perfil dos caminhos por onde as personagens passam antes de proferir o golpe final; espécies de labirintos oníricos escondidos nos espaços urbanos. No livro Crime Fiction (The Cambridge Companion), Laura Marcus comenta que, segundo Chesterton (queridinho de Borges, por sinal), a ficção detetivesca é a poesia da cidade inscrita em hieróglifos urbanos; o que, na opinião de Marcus, abriria esse gênero na direção de duas ordens: aquela em que razão e lei prevalecem e, em oposição, aquela marcada pelo enigma e o fantástico. No conto de Borges, Emma Zunz serpenteia pelo porto [lembrei da segunda temporada de The Wire (HBO), ambientada no porto de Baltimore! coincidência? duvido], por bares e vielas; Jack (Ruído Branco) dirige por vias escuras, desérticas, locais que, dada a descrição de DeLillo, sequer lembram este mundo. Opa!, fisgarei essa deixa para lançar uma pergunta: o plano de assassinato exige que as personagens adentrem noutra realidade?? Ou mesmo que construam outra realidade na qual entrar? Suponho ser exatamente isso. O crítico Floyd Merrell explana bem o processo de construção da nova realidade, no qual incorre Emma Zunz (traduzo livremente):
"... Emma Zunz é bastante pragmática. Ela reconstrói sua realidade de modo que passe a atender a seus propósitos. Ela deseja vingar o pai, cuja morte decorreu largamente das ações exploradoras e repressoras do chefe. Então ela perde a virgindade para um marinheiro e, depois, atira no chefe do pai, contando à polícia que o morto a havia estuprado e que, portanto, ela meramente se defendeu. A realidade de Emma é dolorosamente real, (...) ela usa seu mundo da melhor forma que conhece, conformando-se a ele, ao mesmo tempo em que rebela-se contra suas injustiças, a fim de atingir seu objetivo."

                                            — Floyd Merrell; The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges 

É importante ressaltar que, conforme a leitura desse trecho crítico aponta, os assassinos são sujeitos ativos nesse processo de remodelação da realidade; quero dizer, são eles próprios quem deformam a realidade (ou: constroem a nova realidade), para que ela passe a se alinhar aos seus interesses prementes naquele instante específico — que, no caso dessas três personagens, relaciona-se ao ímpeto da vingança. E, como estamos falando de Borges, é óbvio que esta nova realidade pertence, igualmente, a um Tempo diverso: "Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes,...".

Acrescento que, ao folhear Ruído Branco antes de escrever este post (o li em 2019), reencontrei uma passagem que me fez reparar noutro aspecto peculiar: esses assassinatos ocorrem em espaços fechados; digo, Emma, Humbert e Jack entram (ou invadem, como queira) uma casa, a fim de cometer o planejado assassinato. Esse movimento de passagem, do aberto para o fechado, também me parece significativo para a hipótese de transição entre realidades distintas. Transcrevo o intrigante trecho de Ruído Branco ao qual me refiro:
"By coming in here, you agree to a certain behavior," Mink said.

"What behavior?"

"Room behavior. The point of rooms is that they're inside. No one should go into a room unless he understands this. People behave one way in rooms, another way in streets, parks and airports. To enter a room is to agree to a certain kind of behavior. It follows that this would be the kind of behavior that takes place in rooms.

                                                                         — Don DeLillo; White Noise (Ruído Branco) 

Ou seja, a narrativa de DeLillo, mediante essa fala de Mink, propõe que entrar num quarto, um espaço fechado, implica assumir um comportamento diferente daquele em espaços abertos. Então, ao penetrar nesses espaços, as personagens assassinas continuam a ser a mesma pessoa? Estaríamos falando, assim, de outra realidade E de outra identidade? Opa!, agarro essa segunda deixa para fixar o próximo item desta lista.

(2) "(...) quem sabe; já era a que seria." — Borges; Emma Zunz.
Quando Humbert confronta Quilty, ele se apresenta como o pai de Dolores, acusando-o de tê-la raptado e estuprado; em outras palavras, Quilty torna-se o único responsável pela desgraça que ocorrera na vida de Lolita. Humbert, naquele instante, deixa de ser Humbert; não tem mais culpa de coisa nenhuma, passando a ser apenas um papai que sofre e vinga a violência cometida contra a filha amada. Acredito que Humbert e Quilty se aproximam a um Duplo, porém com a notável ressalva de que é Humbert quem força esse Duplo ao se posicionar artificiosamente no polo oposto ao de Quilty, na tentativa de que deixem de corresponder a uma identidade em tudo equivalente. 

Minha leitura de Emma Zunz seguiu caminhos similares àqueles que percorri a partir da cena de Nabokov. Embora a narrativa de Borges não permita acessar o íntimo de Emma, teorizei, mediante os subsídios textuais fornecidos, que a notícia do falecimento do pai inundou a personagem de sentimentos de culpa: se Emma tivesse revelado a verdade acerca do crime pelo qual o pai fora injustamente acusado, será que ele teria se suicidado? Quer dizer, penso que a personagem entrou na paranoia de questionar se ela poderia ter evitado a morte do pai. Seguindo esse raciocínio, especulo que, para matar Loewenthal, Emma precisa projetar toda essa culpa nele — à semelhança do que fez Humbert. Inclusive, antes de efetivamente apertar o gatilho, ela já está convicta de que fora Lowenthal quem a estuprara, no entanto o leitor sabe que a decisão de transar com o marinheiro foi única e exclusivamente dela.

"Diante de Aaron Lowenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje por ela sofrido."

A assertiva destacada acima, ao mesmo tempo em que força a pergunta, lança a resposta óbvia: e como, com que recurso esses assassinos conseguem remodelar a realidade e a identidade; passando a experimentar um outro tempo? Elementar, meu caro Uátson: via relato, narrativa, ficção. [Vale lembrar que Humbert, "convenientemente", é um tonto das letras, não é?]
"Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação quase desacreditada por quem a executava, como recuperar aquele breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde?"
Eu sei, eu sei; ninguém aguenta mais esse papo de narrativa, mas suspeito de que o fastio geral é mera decorrência da plena ciência de estarmos diante de um fato incontornável da vida humana (e inumana até). O crítico Roberto González Echevarría discute diretamente a confluência entre crime e narrativa, na obra de Borges (traduzo livremente): "Tanto no crime quanto na ficção há um esforço para esconder os mecanismos da mentira que, com todas suas conotações morais, funciona como o incentivo. Emma executa o que acredita ser um crime perfeito, do mesmo modo que um escritor busca escrever uma história perfeita." (The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges)

Persistindo nessa reflexão, esta frase do conto borgiano me atrai em particular:

'...e o singular alívio de estar afinal naquele dia. Já não tinha de tramar e imaginar, dali a algumas horas chegaria à simplicidade dos fatos."
Quer dizer, esse processo de elaboração, via narrativa, de uma outra realidade e identidade é exasperante, não é algo que ocorre facilmente, sem dor alguma. — Escritores que o digam, imagino. — A propósito, o momento do assassinato faz com que o leitor compartilhe com a personagem assassina do mesmo alívio: a vítima morreu, encerrou o suspense e tensão, o fim da história chegou e, assim, ninguém precisa sofrer acompanhando/elaborando uma narrativa. Entretanto a cena de Ruído Branco subverte, até certo ponto, precisamente isso e, na verdade, é o que mais me marcou. Explico: disparados os tiros, ao ver o corpo ensanguentado à sua frente, Jack parece ser lançado para fora da realidade e identidade que construíra a fim de conseguir matar Mink. Em outras palavras, os disparos não trazem a Jack o alívio, mas sim o desespero de perceber que acabara de atirar contra um ser humano que, em consequência, morreria rapidamente, caso ele não fizesse algo para ajudar. Essa súbita mudança de chave no comportamento de Jack me surpreendeu bastante. 

Na sequência, cabe colar o trecho final de Emma Zunz:
"Com efeito, a história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios."
Considerando-se o estereótipo do judeu religioso e avarento ao qual recorre Borges no conto*, talvez parecerá provocação minha trazer Amós Oz para esta conversa, no entanto não é (acho). Em Os Judeus e as Palavras, Amós e Fania, ao comentar a eterna discussão acerca da veracidade do que está escrito nos textos bíblicos, escrevem algo de tocante perspicácia, que dialoga demais com o parágrafo final de Emma Zunz, transcrito acima:
"Mas os autores existiram, e sua linguagem existiu. Quem inspirou essas histórias? De onde vieram os heróis e heroínas, os enredos e fábulas, os diálogos e expressões? Da vida real, foi daí que vieram. De linhas de textos.
Um arqueólogo poderá se preocupar com o fato de os relatos bíblicos serem mera "ficção", mas nós viemos de um lugar diferente. "Ficção" não nos assusta. Como leitores, sabemos que ela transmite verdades."
 
                         — Amós Oz, Fania Oz-Salzberger; Os Judeus e as Palavras (Tradução: George Schlesinger)

Ou seja, toda ficção se sustenta numa verdade.
 
* [ADENDO] A caracterização de Loewenthal me intrigou e incomodou e, de fato, não consegui atinar por que Borges fez essa escolha narrativa. Questiono se esse artifício inadvertidamente (?) denuncia o antissemitismo disseminado, uma vez que me parece restar subentendido que o fato de Loewenthal ser um judeu avarento, quem sabe até criminoso, funciona como elemento que, para muitos (lamentável e infelizmente), torna a história verossímil, real. Sei lá, foi o máximo que consegui concatenar a respeito disso.

Pronto; encerro minhas groselhas aqui. Hora de dar play no vídeo da Aimée.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Opa, esse meu diálogo com Aimée ficou interessante, pois acabamos seguindo caminhos um tanto diferentes, ainda que tenhamos tocado em pontos comuns: em meus comentários, persegui muito mais os aspectos formais, numa reflexão a partir de romances policiais — em paralelo com outros dois romances—; enquanto Aimée destacou sobretudo os fundamentos psicanalíticos de Emma Zunz. Confesso que, embora seja impossível deixar de franzir a testa durante a leitura do trecho "Pensou (não pôde não pensar) que seu pai fizera com sua mãe a coisa horrível que agora lhe faziam.", esse lado psicanalítico e a sexualidade aparentemente mal resolvida de Emma Zunz não me instigaram durante (ou após) a leitura. Quer dizer, justamente num conto "de personagem", conforme disse Aimée, eu persisti focando nos elementos da engrenagem ficcional. ¯\_(ツ)_/¯

Elenco, a seguir, algumas novas reflexões proporcionadas pelo vídeo da Aimée:

⇰ Todo esse papo psicanalítico me fez perceber que deixei de mencionar outra conexão evidente entre Emma Zunz, Humbert e Jack: essas três personagens não apenas executam planos de vingança, como também se vingam de violências de natureza sexual. A distinção evidente é que, no caso de Emma, ela assume, simultaneamente, os papéis de "vítima" (questionável, eu sei) e vingadora — os outros dois vingam uma mulher (o caso de Humbert, então, nem se fala: na real, pensando nesses termos, o tonto deveria ter atirado nele mesmo);

⇰ Aimée questiona os motivos que fizeram Zunz submeter o próprio corpo àquela violência, e acredito que meus prévios comentários trataram disso: porque foi o artifício encontrado para cometer o crime perfeito, para montar a genial narrativa que evitaria sua prisão pelo assassinato de Loewenthal. Considerando-se os elementos textuais relacionados à sexualidade da personagem, não surpreende que esse tenha sido o caminho vislumbrado — conforme escreveu o crítico Floyd Merrell naquela passagem que transcrevi: "ela usa seu mundo da melhor forma que conhece."  No mais, quando Aimée comentou que teve a impressão de que Emma não julgava que a honra do pai seria motivo suficiente para matar Loewenthal, sendo necessário criar um outro; fui catapultada para o que eu escrevi em meus comentários sobre a peça Othello, de Shakespeare! É que, naquele post, escrevi justamente que, sob uma perspectiva moral, Iago parecia se sentir desconfortável por fazer tudo aquilo contra Othello motivado apenas por suas ambições, de modo que ele inventa (e força-se a nela crer) a história esfarrapada de que sua mulher o havia traído com Othello. Legal; amei essa conexão.

⇰ E eu que, inadvertidamente, mergulhei na aparente paranoia de Emma, pois nunca duvidei do suicídio do pai dela? Ai, jizuiz... Veja, "tomar por engano uma forte dose de Veronal" (veronal  = sedativo barbitúrico) não é uma descrição que sustenta bem a versão de morte acidental. (rimou!) O mais provável, diante dessa informação, é que ou o pai dela foi assassinado (um boa noite, Cinderela fatal) ou se suicidou. Contudo, reconheço que complica demais quando o narrador nos diz que "Emma leu..."; digo, entre o que ela leu e o que efetivamente estava escrito pode haver uma grande diferença realmente. No entanto, pensando com mais cuidado agora, a descrição da carta fala um bocado a favor de que o pai dela foi assassinado, hein. Se duvidar, é o próprio assassino quem redigiu a carta. EITA!


Curti essa experiência de leitura compartilhada; achei que ficou bastante rica. Mais uma vez, valeu, Aimée.

19/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #03

💀 "No quise ir a Cuba por sus playas ni para visitar la Revolución o ver Playa Girón. No fui a buscar el Caribe (...) ni a confirmar el malo o bueno, óptimo o pésimo funcionamiento de la utopía socialista. Fui a ver mi banda favorita: Manic Street Preachers."                                                                                                                                                                                                       — Mariana Enriquez

Essa maravilhosa declaração que abre as anotações da viagem à Cuba me ajudou a elaborar uma teoria sobre o que exatamente me atrai ao texto de Enriquez. [Por favor, claro que não é porque sou fã de Manic Street Preachers (MSP) — na real, essa é outra banda que posiciono na coluna do meio: não amo nem odeio. No entanto, comparativamente a Joy Division, MSP pende um bocado mais para "odeio".] Bom, ao resgatar minhas memórias de leitura do As coisas que perdemos no fogo e combiná-las à maior intimidade que nós duas estamos construindo durante a viagem juntas, me peguei matutando que Enriquez desponta como uma autora que se alimenta bastante das referências da adolescência. Não estou querendo dizer que a prosa dela é juvenil ou imatura, mas sim que ela é capaz de usar, de forma astuta, as referências/marcas/cicatrizes da adolescência (tão determinantes para a adulta na qual nos tornamos), a fim de refletir acerca do momento presente, de elaborar um outro instante. Não sei se faz sentido, porém deixo aí o devaneio. 

P.S.: enquanto escrevo, escuto a playlist This is Manic Street Preachers, para que eu consiga escolher a música que arrematará este post; pois, de cabeça, não consegui cantarolar nadinha. [— Por favor, continue sendo minha amiga, Enriquez.]

💀 Agora, a pergunta que importa: COMO ASSIM, MANIC STREET PREACHERS TOCOU  EM CUBA?! Mas gente, eu estava por fora desse insólito acontecimento musical. Eis que, em 2001, os caras tocaram no Teatro Karl Max para um público seleto formado por estudantes, trabalhadores, pessoal da cultura, além da imprensa internacional. Ah, e para o próprio Fidel Castro, é lógico. Pera, é lógico? Eu sei lá; essa história é tão maluca, que sigo desnorteada. Depois dessa informação, nem quis mais saber de cemitério nenhum: a Enriquez foi visitar o cemitério de Colón, enquanto eu fiquei lendo textos a respeito desse bendito show.

Com o breve artigo que Oliver Burkeman escreveu para o Guardian, me deparei com esta pérola de pronunciamento dos integrantes da banda (lanço uma tradução mequetrefe):
"Cuba é exemplo de que nem tudo precisa ser americanizado", disse o vocalista James Dean Bradfield. O guitarrista Nicky Wire insistiu que "a visita não é daquele tipo do estudante que vai atrás do Che Guevara - é que, pra mim, Cuba é o último maior símbolo que realmente luta contra a americanização do mundo."
Veja bem, recentemente eu mesma andei esbravejando que é preciso barrar a influência da pernóstica moral americana e do american way of life sobre o resto do mundo, MÃS essa fala aí dos moços da banda, naquela circunstância (após vinte anos, uma banda britânica indo tocar em Cuba), é praticamente o roteiro pronto para um quadro do Monty Python ou do A Bit of Fry & Laurie. Perdão, não dá; é muita parvoíce. O Burkeman, inclusive, escolheu não perder a piada, pois encerrou o artigo tascando este comentário do universitário cubano que esteve no show:
"Espero que mais bandas venham pra cá, tipo o Oasis."                                                                                                      — Michel Hernandez, cubano, 20 anos (em 2001)

É, MSP, Cuba pode até resistir à americanização, porém, aparentemente, deseja uma britanização (musical, que seja), sobretudo depois da visita de vocês. Mas sabemos que os britânicos não têm nada a ver com os EUA; é outra parada, outro lance. 

💀 Depois dos vampiros, descubro que Enriquez também curte caras cuja beleza segue a estética de anime japonês. AMEI. (Se bem que: personagem de anime japonês ⇆ vampiro, qual a diferença, né?)
"Y, además, Richey. El guitarrista de Manic Street Preachers —una de esas bellezas delicadas, suicidas, demasiado refinado para ser varón— desapareció em 1995. (...) Richey mira a la cámara con ojos redondos, como de ánime japonés,..."

                                                                                                            — Mariana Enriquez 


💀 Ok; terminei de ouvir a playlist e, conforme antecipava, o som do Manic Street Preachers não é mesmo pra mim [Desculpa, Enriquez. (Falando baixinho, para que ela não escute: acho até várias músicas um tanto, err, farofas)]; porém acabei resgatando do passado uma danada que ouvi muito... no final dos anos 90?  A melodia tocada antes/depois do vocal me faz atravessar o túnel do tempo —inclusive, acredito que só curto mesmo esse trecho. Enfim, solta a Everything Must Go, Dj!

Três menções honrosas que valem o registro: The secret he had missed (feat. Julia Cumming), Orwellian e International Blue.

17/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #02


— Agora vamos para a Austrália?! Mas o que a gente vai fazer lá? Quando penso na Austrália, surgem imagens de praias, do (deserto) Outback, de animais "estranhos"...; mas não de cemitérios.

— Meu noivo é australiano; irei visitá-lo. Além disto, você está ciente de que fez uma pergunta tola, não é? Estamos sempre caminhando sobre túmulos; não importa onde estejamos.


 Puxa, tem toda razão; falei uma tremenda bobagem; principalmente se lembrarmos da violência histórica cometida contra os aborígenes daquele país. A propósito, minha memória calhou de me trazer de volta uma cena do livro A Lua e as Fogueiras — li dia desses —, de Cesare Pavese; na qual um camponês de Gaminella — norte da Itália, perto de Gênova, por onde acabamos de passar — encontra, enquanto destoca um terreno, os corpos de dois espiões repubblichini, com as cabeças esmagadas e sem sapatos. O romance de Pavese nos rememora os inúmeros corpos não identificados, vítimas da guerra, que estão embaixo do solo italiano; restando subentendido que praticamente espelham (de forma cruel) a escolha da Itália de empurrar o passado para debaixo do tapete. Curiosamente (ou não), o protagonista do livro passa um tempo nos EUA (Califórnia), e o medo, despertado nele, por aquela "planície desértica, ensanguentada pela luz vermelha da lua" (sim, o trecho remete bastante ao livro Meridiano de Sangue, do McCarthy) evidencia que a personagem está ciente de que, também nos EUA, ela caminha sobre corpos. Recentemente, no Rio de Janeiro, recordo que a a expansão do VLT revelou um dos primeiros cemitérios para africanos recém-chegados. Enfim, é como você mesma disse: não importa onde estejamos.

Exato. Todos nós, em todas os lugares, caminhamos sobre uma quantidade maior ou menor de mortos; afinal, há bem mais mortos que vivos, e todos eles terminam virando terra. Aliás, visitaremos o Cemitério Aborígene de Rottnet Island que, até pouco mais de vinte anos atrás, era um espaço de lazer (acampamento) para famílias e adolescentes, durante o verão. Acredita-se que, naquele local, foram enterrados cerca de 370 a 400 aborígenes. Por muito tempo o governo australiano tentou ocultar a existência desse cemitério; e, nos anos 90, líderes aborígenes exigiram que aquela terra fosse reconhecida e demarcada. Conforme me informaram, não houve exumações exploratórias e o lugar é, hoje, considerado sagrado. 

— Desconhecia esses fatos. Inclusive, Enriquez, estou lendo aqui o A Cor na Arte, de John Gage e, coincidentemente, descobri que a tradicional arte aborígene é super valorizada (não sabia!; banquei a tonta de novo). Gage afirma haver, porém, certa controvérsia relacionada às transformações pelas quais a arte deles tem passado por conta de influências externas. Como o livro trata de cores, o autor comenta, em especial, acerca da paleta e vocabulário cromáticos tradicionalmente restritos dos aborígenes (paleta de 4 cores (sem azul ou verde); nem por isso menos rica — justamente o contrário), a qual cede cada vez mais espaço para tintas sintéticas, com sua ampla gama de cores. Olhe o quanto são maravilhosos estes quadros de Ginger Riley Munduwalawala e de Albert Namatjira (*não tradicionais):


Fiquei encantada e ansiosa para conhecer melhor a arte aborígene australiana. Mas, me diga, não haveria algum túmulo específico que você planeja visitar enquanto estivermos lá?

— Sim; desejo ver o túmulo de Bon Scott, primeiro vocalista do AC/DC, que está enterrado em Fremantle. Disseram-me que todo 19/02 — data em que o encontraram morto — há peregrinação de londrinos pra lá. Ah, e um detalhe relevante: ficaremos hospedadas num albergue.

— O quê?! Nãããããaãããooooooo. 

— Eu sei, lamento. Segundo Paul (meu noivo), os albergues da Austrália são os improvisados hospitais psiquiátricos do país.

— Ora, só da Austrália? Ok; na real, albergues nem são tão ruins (na última viagem que fiz, inclusive, fiquei em albergue), mas acho que já tô velha demais... Mas enfim, beleza. (...) Ãin, estou louca pra ver os tais quokkas.

— Provavelmente veremos um desses minicangurus, porém a maioria é bastante judiada, porque brigam muito entre si.

— Ué, aquela carinha sorridente é fachada para uma personalidade marrenta?! Caramba.

Pois é. Bom, vejamos se sobrará tempo para visitarmos o túmulo de Bon Scott. 


💀 E não sobrou. Só restou um horário à noite, e Enriquez — acredita quem quiser — teve medo da escuridão e do silêncio suburbano do local. Por correio, o cunhado mandou vídeo/foto da visita que fez por nós.
"... aparece la verdad: la placa es una más entre varias, no se destaca, tiene más flores que sus compañeras, pero es notable cómo pasa inadvertida. (...) primero vieron el banco de cemento donado por la familia para que los fans se sienten y tomen una cerveza con Bon. (...) Esperaban, creo, algo más. Algo alusivo, grafitis, fans congregados, algo. Pero no. solo la plaquita y las rosas rojas."

                                                                                                          — Mariana Enriquez 

16/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #01


💀 Não faço ideia do que estou fazendo ao lado de uma catadora de cementerios. Nunca tive fase gótica, não curto ficção do gênero terror/horror e sequer ligo pra cemitérios (mas a Enriquez está virando, com folga, esse jogo). Acho que é sina; encasquetar com minas que são bem mais cool do que eu —  além disso: o que eu faria na companhia de gente sem graça?!  A ressalva reforça que, em vez de perder tempo lendo as breves abobrinhas que registrarei no blog — as quais provavelmente nem terão lá muito a ver com cemitérios —, talvez seja melhor ler o livro da Mariana Enriquez.  [*Aqui é assim: saboto meu blog logo na largada.]

💀 Se Enriquez foi parar em Gênova, é claro que ela visitou o Cemitério de Staglieno, famoso por ilustrar capas de discos do Joy Division. Daí, meu primeiro susto: ela não gosta de Joy Division. Bicho, mas eu pudia jurar que Joy Division era unanimidade irrefutável entre os membros da Cool Society. Realmente abestalhada com a novidade. Euzinha não amo nem odeio a banda (acho legal e paro aí); mas eu não sou cool, então meu sentimento sempre me pareceu condizente. Por fim, registro a coincidência de que, na minha futura playlist As Mais Tocadas em 2021, constará uma inesperada música do Joy Division (Atmosphere): [— Não precisa dar play, Enriquez.]


💀 E não é que Enriquez curte um vampirão?! Pera, pensando melhor, isso não deveria surpreender. Putz, me identifiquei um bocado; sobretudo se pensarmos nas imagens de vampiros caracterizadas por uma androginia angelical. No entanto, a predileção estética dela aparenta ser efeito colateral (em parte) de uma juventude passada ao lado dos livros da Anne Rice (suspeita minha a partir do que conversamos sobre a Rice; pois Enriquez não afirma isso explicitamente), enquanto o meu caso é consequência da Buffy (! - nessa altura do blog, vergonha pra quê, não é mesmo? Cada uma tem as referências que merece; so it goes.). Poxa, pior que nunca li Anne Rice. Talvez possa ser divertido ler enquanto vovó; pensarei nisso. [UPDATE: The Lost Boys!, Putz, não poderia deixar de registrar essa referência; meu esquecimento é imperdoável. Aliás, planejando rever, porém medo de dar ruim.]
"Enzo era la criatura más hermosa que yo había visto... para mi idea de belleza, que es turbia y pálida y elástica, oscura y azul, un poco moribunda, pero alegre, más atardecer que noche. (...) Estaba frío por debajo de la camisa fina. Frío y pálido. Como un vampiro, como uma estatua. Como el chico más lindo del mundo."

                                                                                                         — Mariana Enriquez 

A mãe da Enriquez, por sua vez, arranca nossa fantasia pela raiz, sem piedade: "esse moço tem cara de drogado." Vampiro/Drogado, Potato/Patato? É, talvez seja sutil de fato; é preciso estar esperta.

💀 Quando morrer, a autora deseja que suas cinzas sejam lançadas no Cemitério da Recoleta; especificamente, no túmulo de Mendoza Paz, fundador da Sociedade Protetora dos Animais.
"Es una aguda pirámide sin cruces ni ningún símbolo cristiano. 
Dice:《 aquí no hay nada. Solo polvo y huesos. Nada.》"

Esse epitáfio é maravilhoso. Nada; só pó e ossos. Acredito que acaba funcionando nestes termos: sigam em frente, necroturistas intelectuais®, pois não há nada pra ver aqui. [®: expressão registrada por Valeria Luiselli]


💀 Pra fechar, trago fotos de duas esculturas que vimos em Staglieno.

*O detalhe das mãos nesta Dança Macabra é fabuloso. A mão da morte repousando serena — em total domínio e controle — sobre o punho da mulher cuja mão se contorce em vão. O Diabo  A Morte está nos detalhes.



— Enriquez, já que falamos de música, bora ouvir a PJ? Não sei se vc curte e tals (é som de punk rocker??), mas essa bela Dança Macabra me deixou com vontade de ouvir The Dancer. Suspeito que conheça a letra, porém a colo neste post, para melhor embalar a dança do nosso macabro casal de Staglieno. 😉
He came riding fast like a phoenix out of fire flames
He came dressed in black with a cross bearing my name
He came bathed in light and splendor and glory
I can't believe what the lord has finally sent me

He said, "Dance for me, fanciulla gentile"
He said, "Laugh awhile, I can make your heart feel"
He said, "Fly with me, touch the face of the true god
And then cry with joy at the depth of my love"

'Cause I've prayed days, I've prayed nights
For the lord just to send me home some sign
I've looked long, I've looked far
To bring peace to my black and empty heart

💀 [Pergunta: será que quero transar num cemitério?]

15/08/2021

And I draw a line to your heart today #04

Apesar das dores chatas que tenho sentido (pescoço, ombro), consegui fazer novos desenhos feios; oba! Antes de mostrá-los (~suspense~), anoto pra mim (e compartilho com quem porventura caia aqui) três encontros legais relacionados ao tema. Bora lá!

🎨 Em 2021, assisti pela primeira vez ao O Gosto do Chá (2004), do diretor Katsuhito Ishii, e esse bendito filme tem uma das mais lindas cenas finais que já vi. Colo abaixo um vídeo com a respectiva passagem que, em resumo, corresponde ao momento em que a família, ao entrar no puxadinho onde o "excêntrico" vovô recém-falecido vivia, descobre os flipbooks — cadernos com desenhos animados / em movimento — que ele desenhara pra cada um deles. O momento guarda uma delicadeza tão tocante, que chorei feito uma desgraçada, sobretudo por conta do que significa, no contexto da história, o desenho feito para a garotinha. Aliás, se eu fosse cineasta, esse é totalmente o tipo de filme que gostaria de fazer: sem pé nem cabeça e, por isso mesmo, com todos os pés e cabeças que realmente importam. (*Quem assistiu pescou a sacadinha. Hi5!)


🎨 Fiquei fascinada com os quadros que a artista Helga Roht Poznanski faz com aquarela. São deslumbrantes. Eu brinco com aquarela por ser uma tinta prática e relativamente barata, no entanto, pra ser honesta, sempre acreditei tratar-se de um material incapaz de render imagens expressivas; quero dizer, imagens que não sejam kitschy ou (como diriam os britânicos) meio twee. E o pior é que, conforme a própria artista afirma no vídeo abaixo, a aquarela é bem ardilosa de se usar, em especial por usualmente não admitir erros. Dito isso, eis que Helga Roht Poznanski surgiu no meu caminho para dizer que eu é que não tenho talento para aquarela, pois o material pode, sim, render bons trabalhos. Também destaco o instigante processo criativo compartilhado por Poznanski neste vídeo, o qual super me deu ideias para arriscar o voo da minha imaginação, ainda que eu não domine os fundamentos técnicos do desenho: partir de colagens para, a seguir, desenhá-las/pintá-las. Talvez funcione. Ah, e experimentar o uso da tinta menos diluída em água, para obter cores mais intensas e interessantes. Por fim, a própria Poznanski me pareceu uma mulher incrível; fiquei feliz por tê-la conhecido.
"Nunca digo que sou artista. Eu sou pintora. Porque o mundo é arte; tudo é arte e, se não houvesse arte, não existiria vida." 
                                                                           -  Helga Roht Poznanski

🎨 Dada minha suposição de que, para tentar contornar a terra arrasada na qual a internet tem se transformado, é importante ajudar a impulsionar aquilo que estimamos, registro o canal recém descoberto da artista Valerie Lin. Ainda o estou explorando (esbarrei nele ontem), mas os vídeos que vi me inspiraram a prosseguir aprontando. E acho massa que ela more em Berlim, incluindo nos vídeos imagens dos passeios que faz por aquela cidade deliciosamente maluca. Incluo o último upload de Lin no You Tube: (*Instagram: @itsvalerielin)


🎨 Para finalizar, estes foram os desenhos com os quais brinquei nos últimos meses:


Não sei onde eu estava com a cabeça ao tentar pintar essa cena (as sombras, as luzes, aaahhh), visto que minha habilidade obviamente não está à altura de tamanha empreitada. Contudo, a despeito dos diversos erros, admito estar bem contente com o resultado final. A inspiração veio de um mini vídeo (com tantos elementos que me são caros: bichinho, janela, dança, noite, gaze) postado no Instagram por @mignonettetakespictures (fonte original: @dincerisgel), link: X. (*material: aquarela e um peteleco de caneta nanquim)


Suei, mas a Buffy do Wishverse finalmente saiu (ou algo parecido — nem queiram ver como ficou a versão em aquarela. Spoiler: horrível). Conforme comentei no post a respeito de minha experiência revendo Buffy em 2020/2021, espanta saber que, caso a série fosse criada hoje, essa daí, com absoluta certeza, seria a Buffy do Universo Canon, enquanto a Buffy que conhecemos é quem pertenceria a um mundo paralelo distópico. Que instigante, o quanto uma sociedade é capaz de mudar, em tão pouco tempo. (*material: lápis de cor + giz pastel seco)


Esse danadinho me deu um baita trabalho; especificamente, o próprio rascunho: o que é a cabeça desse bicho, afinal? Que crânio é esse? E o olho?! A patinha?! Mas estou curtindo bastante desenhar animais e já salvei várias fotografias para referência, vejamos se conseguirei executar algumas delas. 

A inspiração desse desenho veio de uma foto postada, no Instagram, pela conta @zildafariass, link: X. A Zilda Farias posta tantas fotos lindas do tio que mora no interior de Pernambuco, que talvez eu traga outros desenhos inspirados vc pelas imagens que ela compartilha. (*material: lápis de cor)


Pintura inspirada numa cena do lindo filme A Cor da Romã (1969), de Sergei Parajanov. Scorsese é provavelmente um boomer a quem devemos dar ouvidos, hein. Galera perdendo tempo com filmeco enlatado de super-herói, enquanto uma preciosidade dessa existe no mundo; lastimável. (*material: aquarela + um tico de lápis de cor) 
"Watching [The Color of Pomegranates] is like opening a door and walking into another dimension, where time has stopped and beauty has been unleashed…. Before all else it's a cinematic experience, and you come away remembering images, repeated expressive movements, costumes, objects, compositions, colours"

                                                                                                         - Martin Scorsese 

[Atualização em 23/08/2021: o comentário da Maria Eduarda (abaixo) me fez perceber que, neste mesmo post, eu incluí um desenho da minha querida super-heroína - Buffy! hahahahaha, Jizuiz! Bom, aproveitarei para colar aqui a resposta: Essa é uma das diversões de manter um blog: descobrir, compreender e fazer as pazes com minhas contradições. Enfim, nem se trata de deixar de curtir os filmes de super-heroínas(heróis) mas, sei lá, de ter um pouco mais de curiosidade para outras coisas, acho. É, acho que foi isso que quis dizer...?]

Veja bem, as proporções dessa pintura estão absolutamente cagadas, a Tilda Swinton está parecendo uma alienígena (se bem que: será que não é?) e, mesmo assim, creio ser minha obra-prima. As risadas, ao menos, já a fizeram valer a pena. Além do mais, estou mega orgulhosa da solução que encontrei para pintar com aquarela a maldita camisa do Bill Murray. 

Para não desperdiçar o meme: quem é o Correndo entre Livros nesta foto? Bem, este blog adoraria ser uma mistura de Anderson com Swinton, mas ele só dá conta de bancar o combo Chalamet & Murray.  E olhe lá. ¯\_(ツ)_/¯  [*material: aquarela + colagem marota (*balcão com a logo do festival)]

16/07/2021

[alinhavando] Tables only turn when tables learn

Há algum tempo sinto comichão para devanear a respeito de mesas e, se não o fiz antes, é porque a suposta excepcionalidade do tema me refreava. Tonta que sou, esqueci de que uma das maiores satisfações de manter um blog diarinho em 2021 é dispor da liberdade para escrever qualquer bobagem que me apeteça. Ora, e mesas sequer são meras bobagens; não, senhor. Pois falemos de mesas.

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Reparei que não existe emoji de mesa. Está errado, pessoal; está errado.

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Visto que não encontrei na internet (!), não sei mais se existiu ou não; mas sabe (?) quando empresas de colchões tentavam nos convencer a investir uma fortuna em seus produtos, mediante o argumento de que dormimos sobre eles durante cerca de oito horas diárias? Bom, com o atual trabalho remoto / distanciamento social, atinei que, no quesito tempo de uso, minha mesa sobrepujou em importância — e muito  minha cama. Sem qualquer exagero, este é o número entregue por meus cálculos: ~ 11-14 horas/dia sentada à mesa. [Eita; depois reclamo de que estou torta e com dor no pescoço, ombro, coxas, punho, dedos... Talvez eu deva mudar o nome deste blog para Sentada (e travada) entre Livros.)

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A propósito, preciso especificar de que mesa estou falando, afinal. Citei trabalho, no entanto não é a esse tipo de mesa, exclusivamente, que me refiro. Poderia tratar-se da estimada mesa à qual sentamos pra comer, compartilhando refeições com quem amamos; mas não. [Puxa, perdi uma boa oportunidade pra fazer média com o crush chef de cozinha, especialmente porque ele curte montar a comida diretaço sobre a mesa, sem prato nem nada. É, ele aprovaria um post desses.] Poderia ser a mesa de cabeceira, outro prezado objeto. Enfim, diversas mesas passam por nossas vidas; porém, aqui, eu falo da mesa... xi, como adjetivá-la? No meu caso, é a mesa à qual: trabalho, escrevo as groselhas deste blog, vasculho a internet, leio livros, estudo, pinto desenhos feios, escrevo em cadernos, vejo episódios de séries de tv enquanto como lanchinhos, planejo viagens... Ou seja, escrevo acerca da mesa comparsa de todos os dias, um (quase) parque de diversões de quatro pernas.

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Virginia Woolf está certa ao afirmar que precisamos de um quarto todo nosso, mas, se esse quarto não tiver uma mesa, nossa vida continuará um tanto complicada. Não ouso dizer que tal teto seria inútil porque, quando li o livro O Reino, aprendi que, naquela época de Cristo, os romanos pouco usavam mesas, preferindo fazer tudo deitados (dormir, comer, escrever). Espie a cena que o Emmanuel Carrère me pediu pra imaginar: "Vamos supor que Lucas, como Proust, tenha escrito seu livro na cama." Os caras escreveram aqueles evangelhos sem a ajuda de uma mesa amiga?! Fiquei abestalhada pensando nisso. Quanto ao Proust, eu também não estava ligada. Além do mais, sei que, mesmo hoje, há pessoas que, infelizmente, não têm uma mesa toda sua. [Confesso: ainda não li esse livro da Woolf. Será que ela fala de mesas? Tomara que sim.]
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Numa das edições da newsletter Tá Todo Mundo Tentando, Gaía Passarelli compartilha sua mesa parceira; herança do avô. Achei a danada bem ostentosa, e o texto super ajudou a me convencer de que não é tão absurdo querer groselhar sobre mesas. [*Ok; nesta economia, nesta pandemia e com este Executivo, talvez até seja meio absurdo sim, porém insistirei: ter um blog desprestigiado serve justamente pra isso.]

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Tive o prazer de conhecer a querida Alice Secco e, acompanhando a conta no Instagram mantida pela mãe dela (a fotógrafa Morgana Secco), percebi que, puxa, mesas são amigas que nos acompanham da infância à velhice. Lembro com bastante carinho, em especial, da mesa que tive na adolescência. Se falassem, certamente seriam capazes de narrar toda a nossa história (e até a de nossas gerações, pensando no exemplo de Passarelli). 

Agora me diga se aguento a Alice na mesa dela? Meu coração explode pela boca. Aliás, a Alice me ensinou que eu posso usar minha mesa pra brincar de cozinhar cogumelos na manteiga (link aqui)! — Massa demais, Alice!

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O que, de fato, me fez observar minha mesa com novos olhos foi a série Dickinson. Obviamente eu conhecia Emily Dickinson, entretanto não fazia ideia de que ela escrevera seus lindos poemas nesta mesa miudinha. É fascinante pensar que seus milhares poemas, usualmente escritos em minúsculos pedaços de papel, também tenham sido concebidos numa mesa tão pequena. Assistindo à série, não tive dúvidas de que essa mesa é uma das protagonistas da história; tamanha é a presença que ela emana. (Tentei achar algum poema de Dickinson sobre ela, porém não tive sorte. Será que não rolou nada?! Desejo muito vê-la pessoalmente um dia, no museu da poeta.) 

É possível que a constatação dessa mesinha na jornada de Emily Dickinson tenha me tocado porque, até então, eu supunha que, quando eu tivesse uma mesa maior, ah! minha escrita e meus desenhos voariam. Quer dizer, meu problema seria apenas a mesa pequena. Eis que, com a mudança de apartamento, arrumei uma mesa pebinha de madeira pinus, com nada menos que 1,70 m de comprimento, e atesto que meus textos e desenhos continuam uma porcaria. Dickinson prova que nem só de grandes mesas se fazem grandes artistas; e, com minha própria experiência, comprovei que ela está certa. Poxa, até os evangelistas já tinham me garantido que, para que seu texto faça parte da História, um escritor sequer depende de mesa. Por que mesmo eu decidi escrever sobre mesas, hein?!

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Outra escritora que não teve uma mesa enorme é a russa Teffi. Imagine meu entusiasmo quando me dei conta de que, no primeiro texto do livro Tolstoy, Rasputin, Others and Me (nyrb), Teffi descreveria a mesa de que dispunha na pequena pensão onde morou em Paris, após o exílio em decorrência da Revolução Russa. Exato; a autora narra seus encontros com Tolstói, Lenin e Rasputin (!); e o que mais me empolga de verdade é o que ela tem a dizer quanto a uma mesa. Tal qual a minha, a mesa de Teffi era multifuncional: servia para escrever, jantar, se maquiar/pentear, costurar. Uma vez que consistia em apenas um metro de comprimento, Teffi explica que precisava ser criteriosa com o que mantinha ali à mão. No entanto, ela brinca que os objetos sempre acabavam formando verdadeiras camadas geológicas sobre a mesa, bastando que uma rajada de vento derrubasse tudo e a fizesse desenterrar dos escombros itens há muito dados por perdidos. No arremate do texto, tive a sensação de que Teffi viajou de 1916 para falar especialmente comigo, em 2021:
"I'm not planning to write anything at all big. I think you'll understand why.
We must wait for a big table. And if we wait in vaintant pis."  
("Não planejo escrever nada grande. Acho que você entenderá por quê. Precisamos esperar por uma mesa grande. E se esperarmos em vãonão faz mal.")

                             - Teffi; How I live and work (tradução para o inglês: Robert e Elizabeth Chandler)

É possível que eu tenha chorado; mas só um pouquinho.

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Então a mesma pessoa que dia desses compartilhou ter lido um livro do Perec surge "subitamente" escrevendo sobre mesas? Não escondo: tem o dedo do autor nesta minha nova presepada. Em A Vida Modo de Usar, há uma passagem relacionada a mesas que me comoveu um bocado; aquela que aborda a grande mesa de trabalho, diante da janela, da miniaturista Marguerite. O narrador nos diz que, embora Marguerite fosse uma artista bastante precisa e meticulosa, reinava em sua mesa uma desordem completa:
"(...) uma eterna babel, sempre atravancada por uma quantidade de material inútil, um amontoado de objetos heteróclitos, um desalinho sem par cuja invasão precisava constantemente deter, antes de começar qualquer trabalho; (...)

                                             - Georges Perec; A vida modo de usar (tradução: Ivo Barroso)

[*Por sinal, é o que verifiquei após arrumar uma mesa maior: a sensação de falta de espaço é intransponível, pois, quanto maior a mesa, maior a quantidade de objetos desencavados para pôr sobre ela.] Perec descreve, é lógico, cada um dos diversos objetos que Marguerite deixava em cima da mesa, o que nos permite vislumbrar toda uma vida; é incrível. Quando a personagem morre, seu marido (o notável Winckler) passa o inverno sentado à mesa da esposa, apertando na mão cada um dos objetos que ela havia tocado, olhado, admirado. Depois, um dia, ele atira tudo fora e a queima.

É, cada vez mais convicta de que Perec foi um cara que (*alerta de sacadinha*:) sabia das coisas. Tanto sabia, que — descobri ao acaso recentemente, para minha felicidade — até escreveu um breve ensaio intitulado Notes concernant les objets qui sont sur ma table de travail (integra o livro Penser/Classer) / Notas relacionadas aos objetos que estão sobre minha mesa de trabalho. A partir das reflexões de Perec — principalmente quando ele discorre acerca da transitoriedade dos objetos mantidos sobre a mesa e da falta de lógica/razão objetiva para cada objeto que ali é encontrado a cada momento — pude compreender que olhar para nossas mesas equivale a olhar-se num espelho mágico, capaz de mostrar muito além do nosso exterior, e muito além de nosso tempo presente. Acredito que o tocante parágrafo final do ensaio resume bem o que Perec efetivamente pretendeu quando decidiu classificar/listar/pensar sobre os objetos dispostos em sua mesa de trabalho, assim como o que eu mesma quis dizer quando cedi ao meu desejo de escrever sobre este tema (grifos meus):
"Ainsi, une certaine histoire de mes goûts (leur permanence, leur évolution, leurs phases) viendra s’inscrire dans ce projet. Plus précisément, ce sera, une fois encore, une manière de marquer mon espace, une approche un peu oblique de ma pratique quotidienne, une façon de parler de mon travail, de mon histoire, de mes préoccupations, un effort pour saisir quelque chose qui appartient à mon expérience, non pas au niveau de ses réflexions lointaines, mais au coeur de son émergence."

                         - George Perec; Notes concernant les objets qui sont sur ma table de travail

Embora meu francês seja mega capenga, arriscarei registrar uma tradução da passagem (*com ajuda de tradutor on-line):
"Assim, uma certa história de meus gostos (suas permanências, evoluções, fases) fará parte deste projeto. Mais precisamente, será, mais uma vez, uma forma de marcar o meu espaço, uma abordagem um pouco oblíqua da minha prática diária, uma maneira de falar sobre o meu trabalho, minha história, minhas preocupações, um esforço para apreender algo que pertence à minha experiência, não ao nível de seus reflexos distantes, mas no cerne de seu surgimento."

                        - George Perec; Notas relacionadas aos objetos que estão sobre minha mesa de trabalho

🖎 

Chegado o fim deste post, sei que deveria incluir uma foto da minha própria mesa, porém as palavras de Perec deixam claro o quanto esse objeto é íntimo e revelador, portanto peço desculpas pelo vacilo da omissão. (Aliás: por que os caras mandam fotos de pintos, quando poderiam mandar fotos das mesas? Francamente.) Como substitutos, escalo uns versinhos extraídos de um poema de Nicanor Parra, intitulado Sigmund Freud. Sim, pois é claro (?) que Freud teria algo a dizer a respeito desse papo de mesa pra cá, mesa pra lá, né?

Sigmund Freud

Pássaros com as penas na boca
Já não se pode mais com o psiquiatra:
Tudo ele relaciona com o sexo.
(...)

(...)
Onde nós enxergamos artefatos
Por exemplo, lâmpadas ou mesas
O psiquiatra vê pênis e vaginas.

 Nicanor Parra (tradução: Joana Barossi e Cide Piquet)


[Será que este post realmente tratou de mesas? Questões.]