16/06/2021

A vida modo de usar - Georges Perec

Tradução: Ivo Barroso

CADERNOS, 1
Tentativa de inventário de algumas das coisas
que passaram por minha cabeça ao longo da leitura
do livro A Vida Modo de Usar, de Georges Perec.
Anotações de leitura. As da Daniela. Ruminações triviais:

São muitos os objetos citados e descritos em A Vida Modo de Usar, porém a recorrência de três chama atenção, dentre os quais registro estes aqui: livros (dãh). Seja sobre uma mesa de cabeceira, numa estante, sobre uma cama ou até largado no chão, não importa; sempre se encontra ao menos um livro em quaisquer dos ambientes do edifício da Rua Simon-Crubellier. Além disso, facilmente percebe-se haver ali um tipo de livro que (quase) aceita o adjetivo "onipresente": romances policiais. A constatação é divertida, pois eu mesma não tenho nenhum na estante, visto que não curto a leitura; embora deva ressaltar que, de fato, tenho pouquíssima familiaridade com o gênero. Agatha Christie? Nunca li. Conan Doyle? Piorou. Uma vez que esses livros agradam a tantos leitores, é claro que me instiga compreender o porquê do meu desinteresse. Uma de minhas teorias atribui certa culpa ao incômodo gerado pela sensação de estar num jogo no qual tenho de vencer o autor; quero dizer, quando leio romances policiais, sinto que pre-ci-so — atenção, Bartlebooth — DESVENDAR O QUEBRA-CABEÇA. Portanto, a encrenca que se apresenta é: não gosto de romances policiais, pois me sinto montando um quebra-cabeça ⇆ Perec escreve um livro sobre um edifício empestado de romances policiais, no qual há um morador (Bartlebooth) que gasta vinte anos da vida montando quebra-cabeças. ?! Fiquei tão estupefata com as conexões, que saquei pra ler um breve texto teórico acerca de histórias de detetive, escrito por Todorov*; por meio do qual fui apresentada à sétima regra dos romances policiais, conforme elaborada por S. S. Van Dine, em 1928. Falo da regra relacionada à seguinte analogia a ser respeitada: Autor : Leitor = Assassino : Detetive. Não falei?! Em princípio, não me interessam experiências de leitura em que o autor/a autora surge como um adversário(a) a ser derrotado(a); mas, sim, aquelas em que ele/ela assume o papel de quem elimina minhas certezas, me traz mais perguntas e me ajuda a enxergar as próprias peças do quebra-cabeça que, sozinha, sequer consigo enxergar. No geral, busco livros em que os autores são parceiros de contemplação/reflexão; não adversários que pretendem me ludibriar. Além do mais, devo admitir (um tanto envergonhada) minha resistência à terceira regra de Van Dine: não há espaço para amor em histórias de detetive. [* = título (em inglês): The Tipology of Detective Fiction (Tzvetan Todorov); encontrado no livro Modern Criticism and Theory, a Reader; 2a ed.]

É; mas sigo ressabiada; refletindo sobre tudo isso (= 💩). Numa entrevista a Osvaldo Ferrari, Borges comenta que, em romances policiais, o crime em si não é o mais importante, mas sim sua função de pretexto para o que realmente importa: a investigação e a descoberta do enigma. Em A Vida Modo de Usar, Bartlebooth decide, por livre e espontânea vontade, dedicar vinte anos à tarefa de resolver quebra-cabeças (parte do projeto de 50 anos). Por quê? Sim, sei que ele me daria a mesma resposta que deu a Valène — "Por que não?" —, porém meu questionamento volta-se mais para o seguinte raciocínio: eu não sinto prazer em ler um mísero livro cujo mote principal é a solução de um enigma (conforme dito por Borges) — algo que me tomaria apenas poucas horas —, enquanto o Bartlebooth decide ficar nesse ciclo de investigação-solução por vinte anos da vida. Como pode? Sou obrigada a supor que algum prazer, alguma satisfação ele (e, por extensão, também os leitores de romances policiais) tirava disso; o que, claro, me leva a outra pergunta: por que eu não?! Ainda naquela mesma entrevista, Borges ressalta que o conto policial é um gênero lógico no qual tudo tem uma explicação; com princípio, meio e fim — inclusive, é a quinta regra do Van Dine: 5. tudo deve ser explicado racionalmente, não se admitindo o fantástico. Pronto, com essa informação elaborei a hipótese de que Bartlebooth/Leitores de romances policiais encontram refúgio nesse universo lógico em que tudo tem uma solução (por mais complexo que seja; certo, Senhor Winckler?), enquanto eu já estaria tão convicta e conformada com a incongruência da vida, que não consigo embarcar no tipo lógico de pacto ficcional proposto pelos autores de romances policiais. Será isso? Hum, se bem que, talvez, eu só tenha é preguiça de fritar os neurônios com a investigação ou, se panz, trata-se apenas do medo de descobrir que sou ainda mais burra do que suponho, de que o mundo nem é tão complexo, eu é que não estou capacitada para desvendá-lo. Caramba, que puxa.

Poderia ter acalmado minhas inquietações aqui, não tivesse caído na arapuca em forma de artigo escrito por Claudia Amigo Pino, intitulado O espaço modo de usar: Georges Perec. Trago pra cá o mesmo trecho escrito por Perec e destacado por Pino no paper:
J’écris: j’habite ma feuille de papier, je l’investis, je la parcours.
Je suscite des blancs, des espaces (sauts dans le sens: discontinuités, passages, transitions).

                                                                                - Georges Perec, Espèces d’espaces

Então, para Perec, a produção da página é a produção do espaço em branco. Nesse sentido, Claudia Pino afirma que Perec escreve para que o leitor escreva. Ainda segundo as reflexões de Pino, em A Vida Modo de Usar, os leitores convivem com a noção de incompletude e com o fato de que nós mesmos temos de completar a maior parte do jogo, ou seja, somos nós que temos de escrever a história. Não é que é?! Pois agora ouso afirmar que, em certa medida, A Vida Modo de Usar é um romance policial (!!!!) onde o enigma é a própria história que euzinha escrevi (a investigação!) a partir das peças fornecidas por Perec. EITA! Por sinal, vale retornar àquele texto de Todorov, no qual o teórico menciona que já houve tentativas editoriais/autorais de eliminar a segunda história que formalmente compõe as narrativas clássicas de detetive (do tipo "quem cometeu o crime?"), a qual corresponde àquela meramente intermediária, por meio da qual o leitor toma conhecimento do crime/da investigação — é a narrativa do Watson, por exemplo, no caso de Sherlock Holmes. Dessa maneira, para eliminar essa segunda história, editoras simplesmente publicavam uma caixa (opa, Bartlebooth) contendo inquéritos policiais, interrogatórios, laudos periciais, fotografias, mechas de cabelo, impressões digitais, enfim; todos os elementos investigativos para que o leitor se virasse, a fim de desvendar o assassinato (logo, sem Watson para nos dizer como Sherlock desvendou o mistério). Aos pouco perspicazes, era generosamente incluída, na última página, um envelope selado contendo a solução do crime, usualmente na forma da sentença judicial prolatada. Puxa, mas é exatamente isso que Perec fez! (Exceto pelo envelope no final; Bartlebooth que o diga.)

Meu descaralhamento prossegue, pois Claudia Pino (naquele mesmo artigo) me revelou que Perec escreveu A Vida Modo de Usar partindo de páginas manuscritas em cadernos, as quais consistiam basicamente em listas. E se eu disser que, ao longo da leitura, eu mesma fui montando a minha lista, na tentativa de solucionar o quebra-cabeça proposto por Perec?! Eu não costumo fazer isso quando leio; foi um ímpeto natural, provocado especialmente por esse livro. Incluo, a seguir, imagem de uma das páginas do Perec ao lado das minhas páginas (sem o verso) — aparecem até os mesmos quadrados que delimitam as palavras + os espaços em branco:
Ah!, o quanto fiquei contente com essa descoberta, com essa coincidência. Sem nem perceber, aceitei o convite de Perec; embarquei numa investigação que não pretendeu solucionar um crime (ainda que algumas peças correspondam a crimes), mas, sim, uma história. Não, nunca tomei o autor como um adversário e nunca me senti na posição da detetive que precisa desvendar o mistério bolado pelo francês metido a sabichão das palavras. Nessa leitura, Perec e eu fomos parceiros na observação das peças, ambos tentando encaixá-las no lugar correto, a fim de finalmente compreender cada uma delas. [O "detalhe" é que, assim como Bartlebooth, terminei o livro segurando na mão uma peça em forma de W, com um vazio final em forma de X a ser preenchido.] Perec escreveu uma narrativa de detetive chutando as regras clássicas (sobretudo a sétima, de Van Dine; e também a terceira, destaco); e não é que eu gostei?! Ora, ora, temos uma Xeroque Rolmes aqui, pessoal! (...) O quê? Se eu pesquei os movimentos de xadrez e matemáticos de Perec? Pff, claro que não.

Como groselhei demais; tentarei continuar numa próxima postagem, pois sinto que esse livro ainda me pede alguns devaneios e anotações. Até mais. (ou não rs)

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