17/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #02


— Agora vamos para a Austrália?! Mas o que a gente vai fazer lá? Quando penso na Austrália, surgem imagens de praias, do (deserto) Outback, de animais "estranhos"...; mas não de cemitérios.

— Meu noivo é australiano; irei visitá-lo. Além disto, você está ciente de que fez uma pergunta tola, não é? Estamos sempre caminhando sobre túmulos; não importa onde estejamos.


 Puxa, tem toda razão; falei uma tremenda bobagem; principalmente se lembrarmos da violência histórica cometida contra os aborígenes daquele país. A propósito, minha memória calhou de me trazer de volta uma cena do livro A Lua e as Fogueiras — li dia desses —, de Cesare Pavese; na qual um camponês de Gaminella — norte da Itália, perto de Gênova, por onde acabamos de passar — encontra, enquanto destoca um terreno, os corpos de dois espiões repubblichini, com as cabeças esmagadas e sem sapatos. O romance de Pavese nos rememora os inúmeros corpos não identificados, vítimas da guerra, que estão embaixo do solo italiano; restando subentendido que praticamente espelham (de forma cruel) a escolha da Itália de empurrar o passado para debaixo do tapete. Curiosamente (ou não), o protagonista do livro passa um tempo nos EUA (Califórnia), e o medo, despertado nele, por aquela "planície desértica, ensanguentada pela luz vermelha da lua" (sim, o trecho remete bastante ao livro Meridiano de Sangue, do McCarthy) evidencia que a personagem está ciente de que, também nos EUA, ela caminha sobre corpos. Recentemente, no Rio de Janeiro, recordo que a a expansão do VLT revelou um dos primeiros cemitérios para africanos recém-chegados. Enfim, é como você mesma disse: não importa onde estejamos.

Exato. Todos nós, em todas os lugares, caminhamos sobre uma quantidade maior ou menor de mortos; afinal, há bem mais mortos que vivos, e todos eles terminam virando terra. Aliás, visitaremos o Cemitério Aborígene de Rottnet Island que, até pouco mais de vinte anos atrás, era um espaço de lazer (acampamento) para famílias e adolescentes, durante o verão. Acredita-se que, naquele local, foram enterrados cerca de 370 a 400 aborígenes. Por muito tempo o governo australiano tentou ocultar a existência desse cemitério; e, nos anos 90, líderes aborígenes exigiram que aquela terra fosse reconhecida e demarcada. Conforme me informaram, não houve exumações exploratórias e o lugar é, hoje, considerado sagrado. 

— Desconhecia esses fatos. Inclusive, Enriquez, estou lendo aqui o A Cor na Arte, de John Gage e, coincidentemente, descobri que a tradicional arte aborígene é super valorizada (não sabia!; banquei a tonta de novo). Gage afirma haver, porém, certa controvérsia relacionada às transformações pelas quais a arte deles tem passado por conta de influências externas. Como o livro trata de cores, o autor comenta, em especial, acerca da paleta e vocabulário cromáticos tradicionalmente restritos dos aborígenes (paleta de 4 cores (sem azul ou verde); nem por isso menos rica — justamente o contrário), a qual cede cada vez mais espaço para tintas sintéticas, com sua ampla gama de cores. Olhe o quanto são maravilhosos estes quadros de Ginger Riley Munduwalawala e de Albert Namatjira (*não tradicionais):


Fiquei encantada e ansiosa para conhecer melhor a arte aborígene australiana. Mas, me diga, não haveria algum túmulo específico que você planeja visitar enquanto estivermos lá?

— Sim; desejo ver o túmulo de Bon Scott, primeiro vocalista do AC/DC, que está enterrado em Fremantle. Disseram-me que todo 19/02 — data em que o encontraram morto — há peregrinação de londrinos pra lá. Ah, e um detalhe relevante: ficaremos hospedadas num albergue.

— O quê?! Nãããããaãããooooooo. 

— Eu sei, lamento. Segundo Paul (meu noivo), os albergues da Austrália são os improvisados hospitais psiquiátricos do país.

— Ora, só da Austrália? Ok; na real, albergues nem são tão ruins (na última viagem que fiz, inclusive, fiquei em albergue), mas acho que já tô velha demais... Mas enfim, beleza. (...) Ãin, estou louca pra ver os tais quokkas.

— Provavelmente veremos um desses minicangurus, porém a maioria é bastante judiada, porque brigam muito entre si.

— Ué, aquela carinha sorridente é fachada para uma personalidade marrenta?! Caramba.

Pois é. Bom, vejamos se sobrará tempo para visitarmos o túmulo de Bon Scott. 


💀 E não sobrou. Só restou um horário à noite, e Enriquez — acredita quem quiser — teve medo da escuridão e do silêncio suburbano do local. Por correio, o cunhado mandou vídeo/foto da visita que fez por nós.
"... aparece la verdad: la placa es una más entre varias, no se destaca, tiene más flores que sus compañeras, pero es notable cómo pasa inadvertida. (...) primero vieron el banco de cemento donado por la familia para que los fans se sienten y tomen una cerveza con Bon. (...) Esperaban, creo, algo más. Algo alusivo, grafitis, fans congregados, algo. Pero no. solo la plaquita y las rosas rojas."

                                                                                                          — Mariana Enriquez 

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