19/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #03

💀 "No quise ir a Cuba por sus playas ni para visitar la Revolución o ver Playa Girón. No fui a buscar el Caribe (...) ni a confirmar el malo o bueno, óptimo o pésimo funcionamiento de la utopía socialista. Fui a ver mi banda favorita: Manic Street Preachers."                                                                                                                                                                                                       — Mariana Enriquez

Essa maravilhosa declaração que abre as anotações da viagem à Cuba me ajudou a elaborar uma teoria sobre o que exatamente me atrai ao texto de Enriquez. [Por favor, claro que não é porque sou fã de Manic Street Preachers (MSP) — na real, essa é outra banda que posiciono na coluna do meio: não amo nem odeio. No entanto, comparativamente a Joy Division, MSP pende um bocado mais para "odeio".] Bom, ao resgatar minhas memórias de leitura do As coisas que perdemos no fogo e combiná-las à maior intimidade que nós duas estamos construindo durante a viagem juntas, me peguei matutando que Enriquez desponta como uma autora que se alimenta bastante das referências da adolescência. Não estou querendo dizer que a prosa dela é juvenil ou imatura, mas sim que ela é capaz de usar, de forma astuta, as referências/marcas/cicatrizes da adolescência (tão determinantes para a adulta na qual nos tornamos), a fim de refletir acerca do momento presente, de elaborar um outro instante. Não sei se faz sentido, porém deixo aí o devaneio. 

P.S.: enquanto escrevo, escuto a playlist This is Manic Street Preachers, para que eu consiga escolher a música que arrematará este post; pois, de cabeça, não consegui cantarolar nadinha. [— Por favor, continue sendo minha amiga, Enriquez.]

💀 Agora, a pergunta que importa: COMO ASSIM, MANIC STREET PREACHERS TOCOU  EM CUBA?! Mas gente, eu estava por fora desse insólito acontecimento musical. Eis que, em 2001, os caras tocaram no Teatro Karl Max para um público seleto formado por estudantes, trabalhadores, pessoal da cultura, além da imprensa internacional. Ah, e para o próprio Fidel Castro, é lógico. Pera, é lógico? Eu sei lá; essa história é tão maluca, que sigo desnorteada. Depois dessa informação, nem quis mais saber de cemitério nenhum: a Enriquez foi visitar o cemitério de Colón, enquanto eu fiquei lendo textos a respeito desse bendito show.

Com o breve artigo que Oliver Burkeman escreveu para o Guardian, me deparei com esta pérola de pronunciamento dos integrantes da banda (lanço uma tradução mequetrefe):
"Cuba é exemplo de que nem tudo precisa ser americanizado", disse o vocalista James Dean Bradfield. O guitarrista Nicky Wire insistiu que "a visita não é daquele tipo do estudante que vai atrás do Che Guevara - é que, pra mim, Cuba é o último maior símbolo que realmente luta contra a americanização do mundo."
Veja bem, recentemente eu mesma andei esbravejando que é preciso barrar a influência da pernóstica moral americana e do american way of life sobre o resto do mundo, MÃS essa fala aí dos moços da banda, naquela circunstância (após vinte anos, uma banda britânica indo tocar em Cuba), é praticamente o roteiro pronto para um quadro do Monty Python ou do A Bit of Fry & Laurie. Perdão, não dá; é muita parvoíce. O Burkeman, inclusive, escolheu não perder a piada, pois encerrou o artigo tascando este comentário do universitário cubano que esteve no show:
"Espero que mais bandas venham pra cá, tipo o Oasis."                                                                                                      — Michel Hernandez, cubano, 20 anos (em 2001)

É, MSP, Cuba pode até resistir à americanização, porém, aparentemente, deseja uma britanização (musical, que seja), sobretudo depois da visita de vocês. Mas sabemos que os britânicos não têm nada a ver com os EUA; é outra parada, outro lance. 

💀 Depois dos vampiros, descubro que Enriquez também curte caras cuja beleza segue a estética de anime japonês. AMEI. (Se bem que: personagem de anime japonês ⇆ vampiro, qual a diferença, né?)
"Y, además, Richey. El guitarrista de Manic Street Preachers —una de esas bellezas delicadas, suicidas, demasiado refinado para ser varón— desapareció em 1995. (...) Richey mira a la cámara con ojos redondos, como de ánime japonés,..."

                                                                                                            — Mariana Enriquez 


💀 Ok; terminei de ouvir a playlist e, conforme antecipava, o som do Manic Street Preachers não é mesmo pra mim [Desculpa, Enriquez. (Falando baixinho, para que ela não escute: acho até várias músicas um tanto, err, farofas)]; porém acabei resgatando do passado uma danada que ouvi muito... no final dos anos 90?  A melodia tocada antes/depois do vocal me faz atravessar o túnel do tempo —inclusive, acredito que só curto mesmo esse trecho. Enfim, solta a Everything Must Go, Dj!

Três menções honrosas que valem o registro: The secret he had missed (feat. Julia Cumming), Orwellian e International Blue.

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