16/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #01


💀 Não faço ideia do que estou fazendo ao lado de uma catadora de cementerios. Nunca tive fase gótica, não curto ficção do gênero terror/horror e sequer ligo pra cemitérios (mas a Enriquez está virando, com folga, esse jogo). Acho que é sina; encasquetar com minas que são bem mais cool do que eu —  além disso: o que eu faria na companhia de gente sem graça?!  A ressalva reforça que, em vez de perder tempo lendo as breves abobrinhas que registrarei no blog — as quais provavelmente nem terão lá muito a ver com cemitérios —, talvez seja melhor ler o livro da Mariana Enriquez.  [*Aqui é assim: saboto meu blog logo na largada.]

💀 Se Enriquez foi parar em Gênova, é claro que ela visitou o Cemitério de Staglieno, famoso por ilustrar capas de discos do Joy Division. Daí, meu primeiro susto: ela não gosta de Joy Division. Bicho, mas eu pudia jurar que Joy Division era unanimidade irrefutável entre os membros da Cool Society. Realmente abestalhada com a novidade. Euzinha não amo nem odeio a banda (acho legal e paro aí); mas eu não sou cool, então meu sentimento sempre me pareceu condizente. Por fim, registro a coincidência de que, na minha futura playlist As Mais Tocadas em 2021, constará uma inesperada música do Joy Division (Atmosphere): [— Não precisa dar play, Enriquez.]


💀 E não é que Enriquez curte um vampirão?! Pera, pensando melhor, isso não deveria surpreender. Putz, me identifiquei um bocado; sobretudo se pensarmos nas imagens de vampiros caracterizadas por uma androginia angelical. No entanto, a predileção estética dela aparenta ser efeito colateral (em parte) de uma juventude passada ao lado dos livros da Anne Rice (suspeita minha a partir do que conversamos sobre a Rice; pois Enriquez não afirma isso explicitamente), enquanto o meu caso é consequência da Buffy (! - nessa altura do blog, vergonha pra quê, não é mesmo? Cada uma tem as referências que merece; so it goes.). Poxa, pior que nunca li Anne Rice. Talvez possa ser divertido ler enquanto vovó; pensarei nisso. [UPDATE: The Lost Boys!, Putz, não poderia deixar de registrar essa referência; meu esquecimento é imperdoável. Aliás, planejando rever, porém medo de dar ruim.]
"Enzo era la criatura más hermosa que yo había visto... para mi idea de belleza, que es turbia y pálida y elástica, oscura y azul, un poco moribunda, pero alegre, más atardecer que noche. (...) Estaba frío por debajo de la camisa fina. Frío y pálido. Como un vampiro, como uma estatua. Como el chico más lindo del mundo."

                                                                                                         — Mariana Enriquez 

A mãe da Enriquez, por sua vez, arranca nossa fantasia pela raiz, sem piedade: "esse moço tem cara de drogado." Vampiro/Drogado, Potato/Patato? É, talvez seja sutil de fato; é preciso estar esperta.

💀 Quando morrer, a autora deseja que suas cinzas sejam lançadas no Cemitério da Recoleta; especificamente, no túmulo de Mendoza Paz, fundador da Sociedade Protetora dos Animais.
"Es una aguda pirámide sin cruces ni ningún símbolo cristiano. 
Dice:《 aquí no hay nada. Solo polvo y huesos. Nada.》"

Esse epitáfio é maravilhoso. Nada; só pó e ossos. Acredito que acaba funcionando nestes termos: sigam em frente, necroturistas intelectuais®, pois não há nada pra ver aqui. [®: expressão registrada por Valeria Luiselli]


💀 Pra fechar, trago fotos de duas esculturas que vimos em Staglieno.

*O detalhe das mãos nesta Dança Macabra é fabuloso. A mão da morte repousando serena — em total domínio e controle — sobre o punho da mulher cuja mão se contorce em vão. O Diabo  A Morte está nos detalhes.



— Enriquez, já que falamos de música, bora ouvir a PJ? Não sei se vc curte e tals (é som de punk rocker??), mas essa bela Dança Macabra me deixou com vontade de ouvir The Dancer. Suspeito que conheça a letra, porém a colo neste post, para melhor embalar a dança do nosso macabro casal de Staglieno. 😉
He came riding fast like a phoenix out of fire flames
He came dressed in black with a cross bearing my name
He came bathed in light and splendor and glory
I can't believe what the lord has finally sent me

He said, "Dance for me, fanciulla gentile"
He said, "Laugh awhile, I can make your heart feel"
He said, "Fly with me, touch the face of the true god
And then cry with joy at the depth of my love"

'Cause I've prayed days, I've prayed nights
For the lord just to send me home some sign
I've looked long, I've looked far
To bring peace to my black and empty heart

💀 [Pergunta: será que quero transar num cemitério?]

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