16/09/2021

[OFF-TOPIC] Here I am now, entertain me; a denial, a k-drama


Venho por meio deste
confessar que me meti com drogas pesadas: dramas coreanos. Na tentativa de ilustrar o efeito nefasto da experiência, repasso os cálculos aproximados: no período de 07 dias (dos quais quatro foram dias úteis de trabalho), assisti a insanos 36 episódios; do que resulta um total de +- 46 horas vendo k-drama — MEU.DEUS. O potencial aditivo dessas tranqueiras é tão alto que, no futuro, evitarei começar um possível novo draminha no meio de uma semana normal. Dada a singularidade do fenômeno, anotarei neste post alguns comentários sobre as séries a que assisti: Pousando no Amor e Vincenzo. Exceto por duas prévias investidas frustradas, este foi meu primeiro contato com k-dramas, portanto obviamente não sou expert no assunto — ou seja, dificilmente escreverei alguma novidade para quem manja do tema. Bora lá!

📺 Primeiro, delato a culpada pela minha derrocada (rimou!): uma amiga disse ter visto Pousando no Amor e se lembrado de mim. Quando li a mensagem, pensei (admito envergonhada) "como assim um troço com esse título brega remete à minha pessoa?". Superada a momentânea crise identitária, e considerando-se que a amiga é querida e me conhece bem, dei uma chance pra série e, já no primeiro episódio, fui fisgada. Então, ficou a lição: amiga que traz recomendações certeiras é coisa pra se guardar dentro do coração. (De verdade, a lembrança dela me deixou bastante feliz; e já agradeci-lhe efusivamente.) No entanto, ressalto que Vincenzo foi escolha minha (creio que ela jamais veria, mas insistirei), e: QUE CAZZO, É MELHOR AINDA!!!!!!!

📺 Essas produções são empestadas de clichês e fan services, mas os roteiristas os usam de um jeito super esperto, sem se levarem muito a sério (rolam diversas piadas meta no Pousando no Amor) e sem fazer com que eu me sinta uma tonta (ok, talvez um pouquinho). Houve várias cenas em que eu conseguia enxergar os roteiristas piscando pra mim; de modo que adoraria conhecer o processo criativo deles — tipo, de onde desencavaram a ideia de bolar um John Wick mafioso, ítalo-coreano, com cara de bebê, que xinga em italiano, veste ternos impecáveis e é aporrinhado por um pombo?! (Vincenzo) Gênios! [*Compartilho que, num vídeo com o roteirista e a diretora de Vincenzo - link aqui -, obtive informações valiosas.] No mais, vale destacar que esses k-dramas também parecem adotar uns tropes algo específicos, que despontam reiteradamente, o que me faz suspeitar da existência de um check-list de cenas que sempre devem constar em qualquer trama coreana. Ah, e teorizo existir esta regra de ouro: não importa qual seja a história, sempre deve haver ao menos um romance. Vou reclamar? Claro que não. (**Contudo, fiquei apoquentada quando o roteirista de Vincenzo me lembrou que ele é um homem hétero de ~40 anos?, casado, escrevendo romance para uma série de TV. Oh, boy; que cazzo.) Dito isso, registro uma importante crítica negativa: a criatividade e engenhosidade dos roteiristas se sustentam apenas durante +- a primeira metade das séries, enquanto os episódios restantes são pura encheção de linguiça recheada com um loop de reciclados expedientes narrativos do início. Por exemplo, Pousando no Amor é, nos primeiros ~8 episódios, uma comédia romântica gostosinha e divertida de ver, daí a narrativa descamba para um romance dramalhão com muita choradeira, e fica difícil suportar (o casal secundário salvou minha vida). Tanto é que, embora eu tenha começado Pousando no Amor super animada, concluí a série com certa birra e uma sentimento amargo no cuore. No fim das contas, persiste-se assistindo no esquema de maratona simplesmente por causa da enorme curiosidade para saber como as sandices acabam; não importando que seja fácil imaginar como será.

📺 Finalmente entendo melhor os ânimos exaltados das fãs da BTS, pois me dei conta de que os coreanos, quando inventam ser bonitos, não brincam em serviço. Poxa, lembrei agora que minha mãe, vendo comigo o filme Parasita, até comentou o quanto o Sun-kyun Lee é charmoso (lembra, mãe?). Enfim, não nego que me agarrei nesses dois k-dramas sobretudo porque queria continuar olhando os rostos perfeitos dos dois galãs. Na moralzinha, espie estes dois tontos — Hyun Bin (esq) e Song Joong-ki (dir):
Um dos tropes reiterados, inclusive, é o de fazer as próprias personagens da série falarem toda.fucking.hora o quanto esses caras são bonitos. Até a câmera se apaixona por eles, dados os inúmeros e generosos close-ups de seus rostos. Uma vez que a beleza dos atores é óbvia (ninguém em sã consciência precisa ser convencida desse fato); não entendo por que recorrem tanto a isso — irrita um bocadinho, pessoal. Suspeito tratar-se de mais uma situação em que os roteiristas nos dão uma piscadela (e riem da gente!), pois sabem que estamos suspirando por esses palhaços. O Song Joong-Ki, em particular, me deixou desconfortável, porque achei que estava hipnotizada por um moleque de aparentes 22 anos, no entanto o sujeito tem inacreditáveis 36 anos. OI? O Hyun Bin, para quem eu dava uns 28 anos, tem 39. É possível notar que os atores usam base iluminadora (bb cream?), corretivo, hidrante labial (gloss incolor?), marcam a sobrancelha etc; o que, porém, não desfaz o impacto dessa genética. Jesus, multiplicai esses genes pelo mundo, é o que peço. E me ajudai a esquecer o Song Joong-ki, por favor, pois, conforme dito pela atriz Jeon Yeo-bin, o rosto dele é uma escultura. [*Tentarei desenhá-lo, sim ou com certeza? A ver como me sairei — se conseguir, aparecerá no blog.]

📺  A presença de um núcleo forte para alívio cômico das tramas é aparentemente mandatória. O problema é que o roteiro, diversas vezes, pesa demais a mão nesse recurso. Não foram poucos os momentos em que me senti assistindo a um filme dos Trapalhões ou a um episódio do Chaves — Pousando no Amor se destaca a passos largos nesse vacilo. E o estranho (que até reforça a hipótese do check-list de roteiro) é que há typecasting, quero dizer, um mesmo ator aparece em séries distintas interpretando uma personagem "engraçadinha" com as mesmíssimas características. Achei tão embaraçoso, que me consolei acelerando a velocidade de exibição (usei sem dó em Pousando no Amor). Para não soar tão amarga, afirmo haver diversos momentos em que o humor é excelente; principalmente quando usado com parcimônia, em momentos breves e criativos. As inesperadas piadinhas com o próprio país, aliás, são ótimas. Rolou imitação de cena do filme Parasita, protagonista gritando "Coreia de Merda!", um ítalo-coreano (acostumado com euro) tirando sarro de ali existir cédula única no valor de 50.000 e a formidável fala "...o Bong Joon-ho e a BTS se esforçaram tanto pela nossa imagem, daí vem canalhas como esses arruinar nossa reputação."  (Todos exemplos citados são de Vincenzo.)

📺 Voltando aos onipresentes romances: dá para acreditar que, numa série intitulada Pousando no Amor, rolam, em 16 episódios, somente quatro selinhos entre o casal protagonista? As personagens passam o tempo inteiro a se encarar e a chorar. Sexo, então, não deve surgir de jeito nenhum em k-dramas, nem mesmo a mera sugestão. Ainda ignoro se trata-se de uma escolha deliberada de roteiro, em face do perfil da audiência, ou se há algum tipo de censura televisiva. Porém, destaco que Vincenzo conta com uma bela cena de beijo que me pegou totalmente desprevenida, a qual garantiu um lugarzinho no meu cânone pessoal. P.S.: ao recordar que, neste ano, vi numa série da HBO (= White Lotustotalmente excelente) um ator enfiar majestosamente a cara na bunda do coleguinha de cena, caí na gargalhada. Como pode, né? Eita, lembrei que, em série britânica (Cucumber), vi até close-up de pênis. É, agora sei que não posso esperar esse tipo de coisa dos k-dramas; e tudo bem. Hum, mas será que todos seguem realmente o esquema "para toda a família"? A pesquisar. Acrescento que, numa entrevista, o Song Joon-ki me chamou atenção para o fato de que, em Vincenzo, é a mina quem toma a iniciativa, o que, segundo ele, não é comum nas séries coreanas. Intrigante.

📺 Palavrão coreano também não rola (acho que, no máximo, ouvi um "merda"); o que me fez questionar se sabem o que, afinal, é dito em italiano (na série Vincenzo).

📺 Correndo o risco de bancar a chata, denuncio que as músicas usadas na trilha sonora de Pousando no Amor são absurdamente cafonas — chuto ser regra em doramas de romance (caí num pleonasmo?). Bastava soar as primeiras notas musicais, e eu queria me enfiar debaixo da mesa, tamanho era o constrangimento. Vincenzo, por sua vez, usa uma trilha instrumental muito legal, feita especialmente pra série, que em nada ofende os ouvidos. Aproveito para, novamente, firmar um paralelo com White Lotus (é, não a superei), série que brilhantemente usa a trilha sonora quase como uma personagem, quiçá como a própria narradora da história. Enfim, tudo isso para mandar um recado aos produtores: valorizem as trilhas sonoras e deem-lhe a devida atenção, pois ela fará ou destruirá seus trabalhos. 

📺 As múltiplas publicidades inseridas em cenas aleatórias são surreais e embaraçosas. [É comum em séries gerais da Netflix? Não sei dizer.] Alguém já viu uma CEO milionária lanchando no Subway?! Ora, nem eu, pé-rapado que sou, como no Subway, gente. E mafioso europeu rico — italiano, ainda mais! —  bebendo café instantâneo, alguém já viu? Ah, e o tanto de frango frito que comem não pode ser normal (além do mais: tenham pena dos bichos, pessoal!) Dá vontade de socar a fuça dos atores, a cada cena de publi; não minto. No entanto, me esforço para relevar, visto que essas produções coreanas, inegavelmente caprichadas, aparentam ter custo elevado.

📺  Um estranho trope reiterado, e que talvez revele algo acerca da cultura coreana (bastante capitalista?), são cenas de makeover, nas quais a personagem sai triunfalmente de um provador de loja chique. Não entendo o porquê dessa bobagem. Do que eu preciso é de mais cenas em que personagens saem arrasadas de um provador, abaladas pela experiência traumatizante, isto sim. 

📺 Esses dois k-dramas se lambuzam daquele clichê do Vilãozão mala que enche o saco a série inteira, o qual considero um porre gigantesco. Entretanto reconheço que a vilã* secundária de Vincenzo é bem interessante, possivelmente porque as decisões dela não são motivadas por simplórios sentimentos de inveja/rancor/birra direcionados ao protagonista herói/anti-herói. Bom, tomara que esse clichê não seja outra regra dos k-dramas (porém desconfio que seja).

* Dúvida: será mesmo que, na Coreia, é permitido atuar como promotor de justiça e, simultaneamente, exercer  a advocacia?! Se for, revejam aí, coreanos. 

📺 A propósito, as cenas de luta em Vincenzo são espetaculares! Fiquei impressionada. 

📺 Os espaços e paisagens da Coreia aparecem pouco em cena (detalhe: em Vincenzo, descobri que houve intenso uso de CGI, inclusive para reproduzir os cenários da Itália), no entanto essa impressão pode simplesmente resultar do fato de que Seul é uma cidade modernosa com muito concreto, sem destacada personalidade. [*Perdão, Coreia, mas é o que pareceu.] Para aproveitar a rivalidade Japão X Coreia (esses k-dramas apontam que a treta segue firme e forte), digo que, nessas duas séries, não surgiram os belos cenários que habitualmente vejo em produções gravadas no Japão. Em outras palavras, os dois draminhas não me deixaram com vontade de visitar a Coreia. [Não que eu tenha condições de ir pra lá assim tão facilmente, veja bem. Fiz o registro apenas porque, quando vejo séries ambientadas em outros países (fora do eixo EUA/UK), adoro reparar no cenário local, do que costumeiramente resulta a vontade de conhecer o lugar. Por exemplo, depois de Shtisel, decidi que me esforçarei para conhecer Israel antes de morrer.]

📺 A língua, por sua vez, me intriga; e me interessa bastante entender como funciona. A partir das intensas 46 horas durante às quais expus meus ouvidos ao coreano (a propósito, a sonoridade do idioma me agrada), consegui captar que ele teoricamente adota uma sintaxe particular (predicados / complementos / adjuntos iniciam as frases?) e não fui sequer capaz de identificar como falam o Bom dia, Boa noite, Obrigada. Sendo honesta, mal compreendo a pronúncia dos nomes das personagens (não é exatamente como lemos em português). A única palavra que aprendi e que ficou gravada na cabeça foi, inesperadamente, 엄마 (Eomma) - Mãe. Se isso reflete algo sobre o país, é a pergunta que fica. 

E surpreendeu reparar que, ao que parece (não tenho certeza), eles têm dificuldade para falar inglês, o que reforçaria uma suposta peculiaridade do coreano em relação a outros idiomas. Antes dessa experiência, eu chutaria, sem pestanejar, que a Coreia seria como países nórdicos, onde virtualmente todos falam inglês fluentemente, porém identifiquei indícios de que estou enganada. 

📺 Considerando-se o que escrevi, talvez esteja difícil entender por que curti tanto assistir a essas duas séries. Em linhas gerais, atribuo o sucesso ao mencionado uso astuto dos clichês de gênero, de forma que, mesmo quando o roteiro desanda, a narrativa tende a invadir a categoria "tão ruim, que fica divertido". Restou a sensação de que os k-dramas serão magníficas opções para os dias em que eu queira ver uma série leve sem grandes pretensões, um romancinho clichezento bem feito, um ator bonito ou engatar uma maratona viciante. 

📺 Para fechar, colo a página que Vincenzo e o pombinho Inzaghi ganharam no journal; acompanhados de um trecho do belo livro A Praça do Diamante, da autora catalã Mercè Rodoreda. Em Vincenzo, o pombo funciona como surreal elemento cômico, enquanto Rodoreda disse ter recorrido aos pombos para conferir à sua narrativa um clima kafkiano asfixiante — no livro, em consonância com o contexto histórico da trama (Guerra Civil Espanhola), os pombos não são, de fato, tão engraçados. Fascinada com o potencial narrativo desses bichinhos. 

É isso. Se panz, esta postagem terá uma segunda parte, com novos k-dramas. Tchau!

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