18/07/2022

[alinhavando] mas, vovó, eu sei tão pouquinho...

Recentemente assisti pela primeira vez ao filme Yi yi (Edward Yang, 2000), e duas tocantes passagens dialogaram com elementos marcantes de dois livros lidos ano passado. A propósito, a surpresa de reencontrar essas questões na obra de Yang me ajudou a melhor assimilar minhas reações. Tentarei um breve registro desses paralelos. [*Spoilers, etc.]


(1) No filme Yi yi, a Vovó da família Jian acidenta-se, evoluindo para coma. Quando o médico dá alta hospitalar à paciente, transferindo-a aos cuidados domiciliares, recomenda que sempre conversem com a Vovó — mesmo que ela não responda —, a fim de estimular o sensório da idosa. Assim, diligentemente seguindo tais recomendações médicas, os amorosos familiares alternam lugar como interlocutores diários de conversas unilaterais com a Vovó comatosa.

Na cena capturada pela imagem colada acima, vemos Min-Min ao final de mais um papo com a mãe, momento em que colapsa em lágrimas, desabafando para o marido:
"Não tenho nada a dizer pra mamãe. Repito as mesmas coisas todos os dias. O que eu fiz de manhã, à tarde, à noite... Leva só um minuto. Não aguento isso. Eu tenho tão pouco! Como pode ser tão pouco? Minha vida é um vazio! Todo dia... todo dia pareço uma boba! O que eu faço todo dia? Se um dia eu ficar como ela..."

Quem não viu o filme possivelmente suspeitaria que o desabafo de Min-Min é consequência da exaustão relacionada aos cuidados de um parente idoso e doente, porém este não parece ser o caso — vale acrescentar que eles podiam contar com o auxílio de serviços de enfermagem. Assistindo ao trecho (e ao desenrolar da vida da personagem), a impressão é que a exigência de conversar todos os dias com a mãe, a qual era implementada mediante o artifício da narrativa em voz alta da própria rotina, obriga Min-Min a reconhecer e encarar aquilo que já estava consumindo-a intimamente. De certo modo, a circunstância parece se aproximar à experiência de uma sessão de terapia, dado que a verbalização dos pensamentos — a transformação das inquietações em palavras orais — forçou a personagem a constatar e compreender seus sentimentos. Com intuito de confortar a esposa, o marido decide que a enfermeira passaria a ler o jornal à Vovó, na esperança de que continuariam cumprindo a prescrição médica. Além disso, Min-Min resolve partir para uma espécie de retiro budista nas montanhas.

Enquanto via essa sequência, a lembrança de Miss Jean Hawkins, a protagonista do livro A Five Year Sentence (1978), escrito por Bernice Rubens, voltou-me à memória. Fui apresentada à senhorita Hawkins no instante em que ela saía de casa para o último dia de trabalho na fábrica de doces onde trabalhara por 46 anos. Por sinal, ela partia decidida a se suicidar, quando retornasse da festa de despedida. Os planos da futura aposentada são, contudo, frustrados pelo presente recebido dos colegas: um caderno cuja capa de couro preto traz, grafado em letras douradas, a frase "O Diário de Cinco Anos da Senhorita Hawkins". Considerando-se que a personagem sempre viveu a obedecer ordens — uma vida solitária de dois ciclos: infância no orfanato de freiras  → fábrica de doces —, aquele caderno representou o incontestável comando de ter de viver por mais cinco anos; a tal sentença de cinco anos expressa no título do livro de Rubens. 

O início da batalha travada com o caderno remete bastante à situação de Min-Min, pois, durante a primeira semana, Hawkins decide ali anotar o que faz a cada intervalo de tempo. Quer dizer, Min-Min vê-se obrigada a narrar a vida a partir da palavra falada; Miss Hawkins, da palavra escrita. Uma conversa com uma idosa em coma; a outra, com um caderno — e assim, em certa medida, ambas se veem obrigadas a conversar consigo mesmas. Eis a primeira entrada (*tradução livre minha):

"Segunda. Levantei às 8h30, tomei banho, me vesti, tomei café. Às 13h, almocei. Tomei chá às quatro da tarde. Janta às 19h. Não aconteceu nada."

                                                                                     — Bernice Rubens, A Five Year Sentence. 

Com essa estratégia de escrita, Hawkins constata que a entrada da terça-feira é igualzinha à da segunda, bem como a da quarta-feira, com exceção da omissão das refeições. As páginas são repetidamente tomadas pelo "nada aconteceu". O desânimo para prosseguir escrevendo "nada aconteceu" gera páginas em branco; e o retiro budista nas montanhas ao qual Min-Min apela é, aqui, trocado por dias de cama em casa.

No filme de Yang, essa premissa não é desenvolvida para além deste ponto (até porque Min-Min não é protagonista); enquanto o livro de Bernice Rubens não se acanha em explorá-la por meios assombrosos. Após aquela semana acamada, Hawkins retorna ao caderno e, de impulso, escreve "Saí para comprar comida", daí se veste e sai para cumprir o escrito. Aos poucos, portanto, a personagem aprende a usar o caderno como nova fonte de ordens a serem obedecidas, dessa maneira subvertendo o tempo dos diários, visto que o passado passa a representar o futuro. A medida que a narrativa evolui, as ordens inseridas no caderno tornam-se cada vez mais específicas e audaciosas; e Hawkins sente enorme prazer em cumpri-las, sobretudo em riscá-las da página com aquele check! de missão cumprida. No mais, a relação da personagem com o caderno logo se aproxima àquela de um dependente de substâncias psicoativas, pois ela é tomada por intensa ansiedade, quando percebe ter saído de casa sem um comando. Não demora, também, para que ela alcance o ponto em que sequer recorda-se de ter escrito a ordem que lê na página. [Confabulei que o caderno vira quase uma materialização externa do Id da personagem, sei lá.] Após dois anos desse experimento forçado, Hawkins perde a vontade de prosseguir com o plano suicida, pois o diário havia lhe ensinado a não ter vergonha de buscar ativamente prazer na vida. Ao mesmo tempo, porém, a personagem teme o que aconteceria quando o caderno acabasse. Compraria outro? Conseguiria prosseguir sem a autoridade de um diário? Embora pareça que a história afinal segue um rumo feliz e edificante, asseguro que tal dedução não procede em absoluto — na verdade, a história degringola de um jeito assustador; mas manterei a descoberta dos pormenores a eventuais futuros leitores.

Eis aí por que eu, que não sou boba (ok, talvez um pouco), mantenho este blog diarinho conduzido por um fio temático alheio à minha vida. Fora deste espaço virtual, também escrevo num caderno, no entanto sou adepta do Commonplace Book**, e não de diários ou bullet journals. Se eu escrevesse, sobre minha vida, as postagens não seriam tão diferentes daquela segunda-feira vivida pela senhorita Hawkins, e eu não daria conta de padecer de crises diárias como aquela da Min-Min. 

[**: Em resumo, são espaços onde anotamos aquilo que cruza nosso caminho e nos interessa; portanto vale tudo: citações de livros, letras de músicas, diálogos de filmes, desenhos, poemas, conversas, pensamentos, reflexões, pesquisas realizadas, trechos de artigos... Eu, porém, uso fichários tamanho ≈ A5.]


(2) O garotinho da imagem acima é Yang-Yang. Nessa passagem final do filme, ele se despede para sempre de sua avó, explicando-lhe por que não pôde conversar com ela durante o coma [*detalhe importante para o alinhavo desta postagem: a criança lê as palavras que ela mesma escrevera em seu caderno; ou seja, com a ajuda do caderno, ficou mais fácil conversar com a Vovó]:
"(...) tudo que eu podia te contar, você já devia saber (...) 
vovó, eu sei tão pouquinho."
Dentre as coisas tão lindas ditas por Yang-Yang, há a menção de lembrar-se da avó, quando ele olha o primo recém-nascido. O garoto fala que a avó, com frequência, dizia sentir-se velha; e agora ele próprio queria dizer que sente-se velho, quando vê o priminho que nem sequer tem um nome.
"Vovó, sinto saudade de você, especialmente quando vejo meu priminho que ainda não tem nome, porque me lembro que você sempre dizia que se sentia velha. Aí quero dizer pra ele que me sinto velho também." 
Quando ouvi essas últimas palavras de Yang-Yang, o Asher Lev, protagonista do livro Meu Nome é Asher Lev (1972), escrito por Chaim Potok, voltou a me fazer companhia. Asher Lev é um garoto judeu nova-iorquino, filho da união de duas importantes genealogias do movimento chassidista de Ladov. O pai de Asher, Aryev Lev, chegou à Nova York quando tinha quatorze anos, partindo da Rússia com a família. Aryev formara-se na yeshiva ladoviana, diplomara-se em ciências políticas pela Universidade de NY e trabalha para o Rebbe, sobretudo no auxílio a judeus perseguidos pelo regime stalinista russo. Por causa desse trabalho do pai, Asher teve de conviver com histórias de judeus perseguidos, violentados e torturados (por mais que os pais tentassem protegê-lo). Para além disso, desde muito cedo ele precisou encarar o embate entre sua religião e sua vocação artística para a pintura. Durante a semana em que passei ao lado de Asher, costumava me sobressaltar quando ele dizia (tradução: Attílio Cancian):
"(...) não é um mundo agradável; (...) não é um mundo bonito. (...) 
Eu estava cansado, e muito cansado mesmo."

                                                                                             — Chaim Potok, Meu nome é Asher Lev

Uma criança de 08 anos sentindo-se velha; outra de 10 anos já sentindo-se tão cansada... É, Asher, o mundo às vezes não é exatamente agradável; no entanto, conforme reconheceu Yang-Yang, nós sabemos tão pouquinho, não é mesmo? Quem haveria de entender o que isso tudo significa? Yang-Yang disse que a Vovó sabe muitas coisas; então, quando eu chegar lá no lugar para onde ela foi, lhe perguntarei. A julgar por quão cansada e velha me sinto, devo chegar logo, logo.