29/11/2023

Immerse your soul in love #03 - Roland Barthes x K-POP

É, ainda estou nessa de K-pop. Inclusive, mês passado estive no meu primeiro show  k-poper (!da minha banda favorita: SHINee!) e, por ora, fiquemos assim: uma coisa é saber que se assistirá a uma apresentação musical sem banda no palco e sem música tocada/cantada ao vivo, outra coisa beeeeeeeeem diferente é testemunhar isso. Mas esse sequer é o assunto deste post que, na verdade, continuará aquele papo de Maio/22, ocasião na qual organizei observações a respeito do discurso de Idols durante lives. Meus devaneios a respeito da linguagem nesse universo continuam a todo vapor, e agora preciso conversar sobre o tópico que, naquela prévia postagem, restou identificado pela expressão Love Bombing / Bombardeio de Amor

Em 2023, o bombardeio amoroso tomou proporções descomunais, provavelmente porque o Idol de quem sou fã retornou do serviço militar obrigatório, não sei bem [e comecei a frequentar o reddit, diga-se]. Ocorre uma constante e intensa troca de declarações amorosas entre artistas e fãs; um verdadeiro Discurso Amoroso K-poper. Para ilustrar, breves exemplos:

1. O cara canta uma música que não é baladinha, daí as fãs coreanas cantam junto, num coro uníssono (traduzindo para português): NÓS TE AMAMOS, NÓS TE AMAMOS,....♫

2. Regressando das trincheiras dois anos depois, o Idol grava um vídeo para responder perguntas das fãs, dentre as quais consta esta inesperada pérola: "Ei, o que é o amor, hein?" A resposta sugere que ele, profissional experiente (quinze anos de carreira), sabe bem por que elas perguntaram isso; em outras palavras, ele sabe bem a resposta que elas desejavam ouvir:

3. Soltam vídeo com bastidores da gravação do último MV, o qual inclui uma passagem na qual a diretora manda o rapaz fingir que está falando. Adivinhe o que ele fala?
R- ~ÃIN, EU AMO MINHAS FÃS~        [— ah má VSF]

 Fonte: twitter @Loya_Taemint 

4. A conta de fã posta uma foto do Idol, vem o comentário: "amor da minha vida toda". (Hein?!) A legenda? I love you. O Idol posta uma foto, vem a fã comentar linhas e mais linhas a fim de dizer o quanto ela o ama. Etc etc...

5. Isto 👇 é uma ordem?
(*a conexão estava ruim, daí ele apelou para esse tipo de comunicação)

Enfim, deu pra ter uma ideia ao que me refiro, não é? Até porque isso está presente na maioria dos fandoms; não é exclusividade k-poper — embora o k-pop tenha, sim, diversas particularidades. Por exemplo, neste ano calhei de assistir ao Eurovision e, já imersa nestes desvarios, não pude deixar de reparar que todos os cantores concorrentes mandaram um "I love you!" no final de suas apresentações. Então pergunto: o que diabo é isso? Putz, eu não entendo. Eu me desassossego porque sinto não dispor das ferramentas linguísticas necessárias para compreender o que esse povo tanto fala, eu não consigo entrar nesse sistema. Foi nessa toada, portanto, que pedi ajuda ao Roland Barthes, finalmente sacando da estante o Fragmentos de um Discurso Amoroso (Tradução: Hortênsia dos Santos).


ELUCIDAÇÕES GERAIS PRELIMINARES

💖 Barthes esfregou na minha cara o óbvio que eu não enxergava: ora, nada mais natural que um blog diarinho literário devaneando a respeito de apaixonamentos. Sempre encarei esta minha série Immerse your Soul in Love uma pieguice despropositada, porém, após papear com Barthes, sinto-me um tanto orgulhosa de minha iniciativa. 

Veja bem, apaixonar-se:   
  é o mesmo que afogar-se em linguagem, 
  é ser consumido por uma energia linguística, 
  é a loucura da linguagem,
  é um delírio constante da Imaginação,
  é entregar-se à produção obsessiva de ficções e fantasias;
  é um braseiro do sentido;
  Apaixonar-se É Literatura! → Calma, essa fui eu que mandei e não é pra tanto. [Ou é?]
**Acredita quem quiser, mas afirmo: enquanto escrevia este post, o Spotify soltou esta música inédita pra mim: You are my literature, da coreana Park So Eun. Parece que é pra tanto, sim. 

💖 Lembra quando escrevi no blog (em 2020) "...acumulo assustadores indícios de que possivelmente eu seja a reencarnação do Werther no século XXI."? Rememorei a declaração porque Barthes demonstra, neste livro, que Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, é a ficção onde o discurso amoroso surge em sua plenitude. Werther é o perfeito arquétipo da figura apaixonada. Jesus, Maria e José, por favor me acudam. 

💖 Barthes aliviou minha barra:
É claro que a senhora não está entendendo, pois, passada a primeira confissão, "eu te amo" não quer dizer mais nada. 

Eu-te-amo:
- não tem empregos, é uma palavra que se desloca socialmente; 
- não tem nuances, não tem outro referente a não ser seu proferimento: é um performativo;
- não é uma frase, não transmite um sentido;
- não é da ordem nem da linguística nem da semiologia, mas da musical (!): dizer eu-te-amo é um gozo apenas. 

Barthes ressalta que não há um sistema de amor, não há um lugar que lhe responda — então como eu poderia entendê-lo? [Bell Hooks já tinha me dado esse toque.] Quer dizer, não há uma filosofia que compreenda e recolha a figura apaixonada. Aliás, o apaixonado é compreendido somente por aqueles que falam sua língua, ou seja, por outros enamorados; razão por que, suponho, os fóruns sobre K-pop (no twiter, reddit, discord...) juntam muitas pessoas, fomentando várias e acaloradas discussões. 

Além disso, saliento novamente que as declarações no k-pop percorrem uma via de mão dupla, o que implica dizer que os Idols não negam às fãs aquilo que uma apaixonada espera ao proferir o eu-te-amo: eles infalivelmente respondem mediante igual proferimento, quase simultaneamente. Isso é importante, pois a pronúncia da palavra-frase eu-te-amo vem para que o outro responda e, no Kpop, a resposta perfeita sempre vem para os dois lados.

Embora Barthes use o exemplo do idioma húngaro (em contrapartida ao francês / português/ inglês), suspeito que também o coreano seja uma língua que aglutina a palavra-frase eu-te-amo, adiantando o "trabalho" de tomar a expressão por uma palavra, burlando nossa sintaxe. Ainda que eu esteja errada, colo a descoberta recente de que os fandoms e artistas apelam para outras sintaxes e neologismos que permitam expressar o tal sentido que o eu-te-amo/amo-você (사랑해 - saranghae) aparentemente não dá conta. Transcrevo comentários de fãs:
- "exo's saranghaja, it means 'let's love!'"
- "Onewe's Kanghyun says saranghaengseong which is saranghae combined with the word for planet"
- Horanghae was Hoshi+Saranghae??
- "think that BTS uses Borahae, which means I purple you"
- "Doahae - Dokyeom
   Wooahae - Woozi
   Mianhae - Minghao"
- "I don't know if this counts but Eric (The Boyz) says "Always remember Eric loves you"
- "Mamamoo use “saranghanu” It’s just a cuter way to say “saranghae”

💖A parte mais legal da leitura foi quando Barthes disse na lata que esse meu papo de que quero investigar é lorota, pois meu grito não é de interpretação, mas de amor. É próprio do apaixonado esse movimento de querer entender o que se passa consigo, sobretudo porque ele encontra-se no exaustivo estado em que tudo é signo a ser decodificado.
"Ninguém tem vontade de falar de amor se não for para alguém."  
Portanto, fica o alerta: Barthes atira na cara; desdenhando sem piedade dos sentimentos da pobre leitora. 

ELUCIDAÇÕES OBJETIVAS

💖 "O coração se constitui em objeto de dom (..) é o órgão do desejo (dilata, falha como o sexo) tal como ele é retido, encantado, no campo do Imaginário."
Não minto: o coraçãozinho com os dedos sempre testou minha tolerância à estupidez. Porém Barthes entrou em cena e comecei a pira de achar que esse gesto merece ser levado a sério. Quero dizer, oferecer o coração para alguém não deveria ser pouca coisa. Viajei? O problema é que fazem coraçãozinho toda hora, daí o delicado gesto banaliza feito o eu-te-amo; de forma que o coraçãozinho irritante também não diz nada. 

💖 "A identidade fatal do enamorado não é outra senão: sou aquele que espera."
Embora o discurso amoroso k-poper prossiga por via dupla, não se pode negar que quem o controla é o Idol. Quem espera é a fã e, conforme pontua Barthes, fazer esperar é prerrogativa de todo poder. "Estou apaixonado? - Sim, pois espero."  O outro não espera nunca. Às vezes, contudo, o apaixonado consegue suportar bem a ausência, o que não é outra coisa senão o esquecimento, incorre-se numa infidelidade. Por outro lado, o enamorado que não esquece de vez em quando morre por excesso, cansaço e tensão de memória. Cientes disso, os Idols não abusam e aparecem sempre que possível, seja numa live/fan-meeting, fan-sign, show, Buble, vídeo no You tube, post no Instagram [sério, não há um dia sem alguma novidade, é impressionante]. Antes de afastar-se para o serviço militar obrigatório, o Idol de quem sou fã, por exemplo, implorou para que as fãs não o esquecessem e não o traíssem, em tom algo debochado.

💖 "Não significa nada para você ser a festa de alguém?"
Ser a festa de alguém... Bonito, né? Na relação de fã e Idol, a festa máxima, o grande encontro, seria o show, certo? E há quem questione se os shows valem todo o dinheiro e perrengue. Quem pergunta isso está mais perdido do que eu.

💖 "Desacreditada pela opinião moderna, a sentimentalidade do amor deve ser assumida (...) como uma transgressão (...)"
Teorizo que o discurso amoroso k-poper tem um duplo exemplar: as falas que ironizam e menosprezam as fãs. — Qualquer outro desejo que não o meu não é louco? — Nos grupos do reddit, de vez em quando aparece alguém comentando que o namorado (claro) ou parentes tiram sarro, ou que a pessoa tem medo de que descubram no trabalho [a propósito, há uma série coreana sobre esse tema: Her Private Life - abandonei após o primeiro episódio]. Conforme assevera Barthes, há um desprezo sobre todo o páthos, uma vez que o delírio do enamorado é tolo, trata-se efetivamente de um discurso vazio. O paralelo que o autor faz com um tenor de ópera me pareceu formidável, porque dá o tom preciso de como os não enamorados percebem as manifestações de fãs, proferidas em meio público:
"Sou esse tenor: como um grande animal, obsceno e estúpido, fortemente iluminado por uma luz de vitrine, declamo uma ária muito codificada, sem olhar quem amo e a quem supostamente me dirijo."

O linguajar da fã enamorada é realmente ridículo e é impossível contradizê-lo, pois, quando o discurso supera o limite da língua e o obsceno torna-se dizível, significa que o apaixonado está recuperado, deixou de sê-lo. Por outro lado, a chacota pública não seria menos estúpida. A quem não está tomado pela febre linguística amorosa, cabe discernir que o amor não é dialético. Gostaria de saber: qual o propósito de discutir com uma pessoa que teima, que recusa aprendizados, cujo discurso é irrefletido e incapaz de conceber pontos de vista? Como argumentar com uma pessoa que se encontra nesse estado dramático? Não adianta, não tem jeito. A menos que a enamorada esteja em perigo, deixar e ficar quieto parece ser a melhor estratégia.

Neste livro originalmente publicado em 1977, Barthes menciona uma inversão histórica: não é o sexual que é indecente, é o sentimental - censurado em nome do que no fundo é apenas uma outra moral. No entanto, a julgar pelo que observo nas falas das fãs de k-pop (maioria na faixa de 15-30 anos, calculo), resta-me a impressão de que a atual jovem geração se esforça para reverter a inversão mencionada por Barthes em 77, a fim de restabelecer uma moral que censure o sexual. Percebo uma dissonância: de um lado há Idols jovens, lindos e sexys cantando músicas de leve duplo sentido e dançando coreografias sensuais; do outro lado há fãs rechaçando veementemente discursos com subtextos eróticos. Ao mero sinal de que esses artistas estejam sendo sexualmente objetificados pela via do discurso, pode ter certeza de que elas reagirão mediante enérgica censura. Logo no início do livro, há uma frase que me pareceu descrever bem a situação das fãs de kpop: (...) uma criança com tesão retesando seu arco: como o jovem Eros. A maioria segue uma premissa discursiva bastante pueril que nega a lógica do desejo; enquanto os artistas, cientes disso, devolvem discursos ora infantis, ora transbordantes de Eros. [Claro, há exceções - fanfics, fotos eróticas via IA, ships homoeróticos entre Idols - porém, ao menos no contexto público, prevalece a má fama dessas iniciativas.] Esse é um ponto que me provoca muita estranheza nesse diálogo, pois os eu-te-amo's (do Idol e da fã) claramente partem de lugares e intenções comunicativas distintas e, a despeito disso, se encontram num ponto que garante a eficácia comunicativa. É o verdadeiro prodígio linguístico k-poper.

💖 "A cada instante do encontro, descubro no outro um outro eu mesmo (...)"
Dia desses esbarrei num debate no qual algumas fãs reclamavam e tripudiavam dos incessantes eu-te-amo's durante lives e fan calls. Houve quem se colocasse num aparente patamar superior por preferir investir o tempo numa conversa mais, digamos, produtiva e intelectual com o Idol, perguntando o que eles estão assistindo, informações sobre os conceitos das músicas, seus gostos etc. Tadinhas, mal sabem (ou sabem) que incorrem no mesmo discurso amoroso, considerando-se que o balanço de seus gostos comuns é uma verdadeira cena de amor. Fã e idol não se conhecem e precisam se contar: Eis o que sou. É o gozo narrativo. Tanto é verdade que, basta o Idol soltar um gosto que não bate com o delas, e prontamente o discurso amoroso dá lugar àquele do desconforto, da estranheza. Por falar nisso, vale registrar que, conforme Barthes, o apaixonado é um ouvinte monstruoso, o que resulta numa trabalheira danada aos Idols. Talvez explique porque eles prefiram restringir a conversa com as fãs aos eu-te-amos, pois quem cancelaria um amor por causa de um eu-te-amo? 

💖 "(...) amamos primeiro um quadro"
Considerando-se a enorme quantidade de Idols, costuma vir-me a pergunta: por que essa mina ama esse/essa, e não aquele/aquela? Aliás, por que ela ama? Barthes me esclareceu tratar-se simplesmente de um arrebatamento, é um detalhe da imagem que arrebata, alguma coisa se ajusta exatamente ao desejo da pessoa — é a voz, a queda dos ombros, a silhueta esbelta, o jeito de sorrir. Nem sempre o quadro é visual, mas sonoro: pode ser um verso cantado, uma frase dita ou uma construção sintática que morará na pessoa como uma lembrança (com alguma vergonha, assumo que esse foi meu caso). No entanto, antes disso é preciso estar disponível, estar propícia ao rapto, pois ninguém se apaixona sem que o tenha desejado. Isto posto, não surpreende que as empresas de K-pop invistam pesado na estética visual e sonora, sempre atentas à direção por onde caminha o desejo da maioria. A existência dos tais "concepts" — o conceito, o tema e as características estéticas do conjunto visual de cada novo lançamento — demonstra bem isso; quer dizer, a estética dos grupos não fica congelada no tempo, mas tenta se moldar aos desejos flutuantes. Outro aspecto significativo nesse processo é que o ser amado é desejado porque um outro ou outros mostraram que ele é desejável, o que implica dizer, teorizo, que quanto maior o apelo/sucesso de um Idol, maiores as chances dele seguir arrebatando mais e mais corações - numa progressão geométrica, talvez. A cultura de massa é uma máquina que mostra o desejo: eis o que deve lhe interessar. Poxa, eu mesma investi no K-pop apenas porque não parava de ouvir uma galera legal martelar sobre as maravilhas desse universo. 

Durante a pesquisa de campo, me espantei ao deparar-me com o discurso da deliberação, mediante o qual a pessoa decide se amará ou não um Idol — é a fase durante a qual escrutinam todo o passado, presente e futuro do artista, num verdadeiro teste de qualidade artística e, pasmem, moral. Aliás, a expressão "tornar-se fã/to become a fan" não dá conta de expressar a intensidade da relação, de modo que adotam o verbo "to stan". Elas deliberam se irão "stan" o Idol. Uso a palavra em inglês porque, para além de não saber se existe equivalência exata em nossa língua, ainda não entendi o que exatamente significa "to stan" um Idol. Captei tratar-se de algo bastante sério, um quase voto eterno de máxima devoção, fidelidade e amor. [O papo lembra muito a deliberação que antecede uma conversão religiosa que, uma vez feita, não costuma ter volta.] Embora eu ache essa postura estranhíssima, os fragmentos de Barthes comentam haver um tanto de mito na ideia de amor à primeira vista: "Depois de tê-la olhado por muito tempo, decidiu-se a amá-la. O quê? Vou deliberar se devo ficar louco (o amor seria essa loucura que eu quero)?" Para muitas fãs de kpop, a resposta é sim, elas querem e escolhem a loucura. 

💖 "Quando a imagem se altera, o invólucro da devoção se rasga, um tremor revira minha própria linguagem."
Conforme adiantei, as fãs são ouvintes monstruosos e, via de regra, a imagem do Idol se altera diante delas pela via da linguagem — porém suspeito que isso vale sobretudo para as fãs ditas internacionais, visto que as fãs coreanas parecem responder mais às rupturas visuais (flagras, notícias com fotos). Caso o Idol diga uma palavra diferente do roteiro ou emita uma opinião que não casa com a moral da fã, com a fantasia construída, então elas ouvem rugir de modo ameaçador todo um outro mundo, que é o mundo do outro — a apaixonada recusa-se a reconhecer a divisão de imagens, a alteridade do outro. É uma contradição perturbadora: ao mesmo tempo que as fãs recepcionam passivamente as narrativas professadas pelo Idol amado (ou pelas próprias empresas), também trata-se de uma devoção suave que se rasga facilmente diante de ínfimos indícios de alteração na imagem fantasiada. Eu observo esse comportamento discursivo e fico besta que alguns Idols tenham coragem de dizer qualquer coisa que não seja o bendito eu-te-amo (tão seguro, pois tão vazio). A demanda exige-lhes treino, e as empresas se encarregam disso. É outro ligeiro paradoxo linguístico: o diálogo frequente precisa ocorrer a fim de preservar o elo do desejo, contudo é por meio dele que tudo pode ruir. 

💖 "Solicitada a definir o objeto amado, e sofrendo as incertezas dessa definição, a máquina de linguagem fabrica sua cadeia de adjetivos." 
Esse foi um trecho de grande argúcia do Barthes, dado ser certeiro em relação aos discursos das fãs no espaço público; o qual transborda de adjetivos que não informam nada para quem está fora do sistema amoroso. Inclusive, há um fragmento intitulado "Adorável" — "(...) palavra tola. (...) não abriga nenhuma qualidade, a não ser o tudo do afeto. Ao mesmo tempo que diz tudo, diz também o que falta ao tudo." —, que é uma espécie de bordão do meu Idol favorito. Desconheço o contexto, mas creio que resultou das frequentes menções dessa palavra pelas fãs anglófonas (Adorable), e também porque o som em inglês soa engraçado para ele, aparentemente remetendo ao som da expressão coreana que designa mau cheiro. [P.S.: já que estou falando sobre linguagem, acrescento que me chama atenção o quanto coreanos acham engraçadas certas sonoridades da língua inglesa].

💖 "O incidente é fútil (é sempre fútil), mas atrai para ele toda a minha linguagem."
Durante minhas andanças pelo reddit, me desconcerta a seriedade com que a galera conversa sobre k-pop, provocando-me a sensação de que discutem, sei lá, física quântica. Qualquer mínima banalidade desencadeia discussões, teorias, definições, conceitos, regras. — Tudo é solene: não tenho noção das proporções. — Fico fascinada e gasto horas lendo os papos da galera.

💖 "Quero ser o outro, quero que ele seja eu, como se estivéssemos unidos, (...)"
Pincei esse fragmento porque, dentre as passagens no livro de Barthes, é o que desponta como possível resposta às intrigantes perguntas:
1. Por que as fãs investem tanto tempo e dinheiro comprando tudo que lançam? E acredite: as empresas de k-pop lançam coisas todos.os.meses, sejam álbuns, merchandising, shows, fan-meetings, fan-signs, fan-calls, produtos de publicidade. Caso a mina seja fã de mais de um grupo, o risco de ruína financeira é real. Li discussões em que elas assumem reservar mensalmente parte dos salários para estes gastos (e não é pouco). Eu mesma fico abestalhada com o dinheiro que já soltei para esses caras. Ah, e também acredite [*vi com meus próprios olhos, no show ao qual fui]: elas compram tudo mesmo
2. Por que as fãs se preocupam tanto com o sucesso dos idols? Ao que parece, muitas recusam ser fã de um grupo "flopado", de pouco sucesso. Seria a lógica "se os outros não desejam, eu também não desejo"? Amar um flopado significaria que elas próprias seriam flopadas?  Elas são obcecadas com charts, números de vendas, número de visualizações dos vídeos, número de seguidores; é quase como se o sucesso do Idol representasse o sucesso delas mesmas. É muito doido. 

💖 "A figura visa à dialética da carta de amor, ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (cheia de vontade de significar o desejo)"
Dia desses uma fã perguntou se era possível enviar uma carta ao Idol e queria saber se funcionários da empresa liam as cartas antes de repassá-las aos artistas. Assim, pode ser excesso de cinismo de minha parte, porém afirmaria com tranquilidade: é óbvio que esses Idols não leem essas cartas, gente. Quando Idols aparecem em aeroportos, sempre tem um punhado de fãs entregando cartinhas pra eles (eita, será que tem grana dentro?). O fragmento me fez lembrar daquelas cartas em rolo, com quilômetros de papel no qual a pobre fã escreveu à mão inúmeros eu-te-amo's. Ainda escrevem esse tipo de carta? Nas imagens de k-pop, nunca vi. Ah, como também nunca vi a performance do choro.

💖 "A fofoca reduz o outro a ele/ela, e essa redução me é insuportável."
Xi, nem pense em fofocar na frente das fãs — na verdade, elas são mais afeitas à palavra "especular". Desencoraja-se com rigor qualquer tipo de especulação — e a margem é estreita —, o que é ótimo para as empresas, pois significa que a maioria das fãs toma por lei tudo o que os Idols dizem e o que não dizem. Nesse sentido, questionamentos em fóruns de discussão costumam ser rejeitados, dado representarem blasfêmias que meramente escondem a dúvida e críticas ao Idol amado. À figura amada, só cabem adjetivos elogiosos, uma vez que perfeita. 

💖 "Lufada de linguagem durante a qual (...) é o amor que o sujeito ama, não o objeto."
Este é outro fragmento no qual sinto Barthes denotar extrema agudeza. Neste ano, paguei para assistir ao streaming de um dos tais "fan-meetings" [evento onde rola uma ou outra performance musical, entremeada por muito papo furado e supostas palhaçadas fofinhas] e acho prudente evitar discorrer sobre o tópico, pois certeza de que eu soaria feito uma velha amarga. Digo apenas que aquilo que vi provocou a forte impressão de um encontro no qual Idol e fã celebram o amor mútuo. Sim, achei tudo bizarro.

💖 O assunto rende, porém encerrarei o post aqui. No entanto, visto que prosseguirei a pesquisa de campo, o tema poderá retornar ao blog. No mais, colarei abaixo o print de uma postagem fabulosa do reddit que ajuda a desconstruir o mito de que fãs de k-pop são todas mocinhas ingênuas, enganadas pelo sistema: 
Traduzindo +-: "A maioria dos Idols pode ser considerada falsa (fake), mas desde que façam isso direito, eu não me importo." Ou seja, talvez prevaleça nos fandoms o mais puro espírito Blanche Dubois: não queremos realidade, queremos fantasia

 — Ah, Barthes, obrigada e: 사랑해 ♥︎.

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