Mostrando postagens com marcador abbas kiarostami. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador abbas kiarostami. Mostrar todas as postagens

06/10/2022

[alinhavando] He'll make a tree from me


Em um grupo de pessoas vestidas de luto
um garoto
olha encantado um pé de caqui.
— Abbas Kiarostami
(Tradutor: Pedro Fonseca)

Assistindo a um vlog de viagem no You Tube (despretensioso, feito por quem não é influenciadora), fui surpreendida pela seguinte confidência da turista: "Estou fascinada pelas árvores daqui. Vou mostrar minha árvore favorita." Sem exagero, afirmo ter sido uma das coisas mais delicadas que já ouvi — num vídeo de viagem, ao menos. Nos dias seguintes, o comentário da vlogueira persistiu ecoando na cabeça e me vi consumida pela triste constatação de que não tenho uma árvore favorita. Por que e como isso aconteceu? Não sei; no entanto fui tomada pela certeza de que preciso encontrar minha árvore favorita. Desse modo, durante as caminhadas no parque, resolvi parar de observar os passarinhos (é um observatório fabuloso), a fim de reparar nas árvores. A dificuldade da empreitada logo superou a prevista, sobretudo porque atinei que sequer sei o que procurar ou registrar, durante a observação. Em outras palavras: o que torna uma árvore a favorita de alguém?

Calculei que seria um bom momento para ler Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos (não, nunca tinha lido), contudo a obra só me deixou mais confusa. Para começo de conversa, Zezé não exatamente escolhe o pé de laranja lima como seu favorito. Na narrativa, o processo corresponde a um feliz encontro resultado do acaso: a família se muda de casa, cada irmãozinho escolhe uma árvore para chamar de sua e, a Zezé, sobra aquele pequenino pé de laranja lima. Descobri, também, que eu não apenas necessito encontrar minha árvore favorita, como terei de nomeá-la. Zezé, por exemplo, batiza sua plantinha de Minguinho, com direito ao apelido carinhoso de Xuxuruca. E até seu amigo português (um adulto) tem uma árvore favorita chamada Rainha Carlota, ainda que ele sempre a trate por Majestade. — Então é isto: todo mundo tem uma árvore favorita, menos eu. Ah, pronto. — Puxa vida, mas como eu poderia nomear uma árvore? Aquelas do parque se apresentam a mim tão imponentes e majestosas que, estou segura, jamais aceitariam ser nomeadas por uma humana. A propósito, o pé de laranja lima de Zezé fala (oh yeah), portanto teorizo que, na verdade, tenho de ouvir o nome das árvores, que elas próprias me dirão. Bom, nem preciso contar que não consegui ouvir nada, preciso? Para ouvi-las, possivelmente tenho de pedir a Deus meu passarinho de volta; aquele passarinho que, segundo o tio de Zezé, eu teria devolvido ao chegar (supostamente) na idade da razão.

Retornando ao vídeo da vlogueira para checar se ela explica o motivo daquela danada ser sua favorita, me deparei com isto: "Minha árvore favorita, ali está ele. Ou ela. Ele/Ela tem um certo ar que impressiona." Ah, pois é, outro problema a sanar: qual será o gênero da minha árvore favorita? Que imbróglio. Enfim, ao prestar melhor atenção nas árvores, sinto, conforme adiantei, uma presença bastante grandiosa, o tal ar que impressiona dito pela youtuber, porém isso se aplica a todas elas. Por outro lado, notei que cada uma emana, de fato, certa particularidade cuja percepção exige sensibilidade do observador. No ótimo livro Lembranças do Porvir, escrito pela mexicana Elena Garro, há uma passagem que aborda, de um jeito engraçado e preciso, essa questão à qual me refiro. A costureira Blandina vai até a casa dos Moncada, para preparar o enxoval dos filhos da família que partiriam em breve, e informa que, para trabalhar, não pode ficar entre paredes, sendo necessário que ela veja folhas. O detalhe é que não pode ser qualquer folha: 

"—Aqui está bem, dona Blandina?
— Não, não, não! Vamos para lá, em frente às tulipas... estas samambaias são muito intrigantes...!"

Colocada de frente às tulipas, nova queixa:
Muito vistosos! Muito vistosos! - disse com desgosto. Se não se incomodam prefiro estar em frente às magnólias."

Posicionada então diante das magnólias, outra reclamação:
"São muito solenes e me deixam triste."

Após testar a paciência da família, aqui está o ângulo da varanda no qual Blandina se encontra (grifo meu):
"— Daqui só vejo a folhagem; o alheio se perde entre o verde."

                                                                — Elena Garro, Lembranças do Porvir (Tradução: Iara Tizzot)


Quer dizer, umas são intrigantes, outras vistosas e algumas solenes. Por sinal, lembro que a série Dickinson também explora brevemente esse mesmo ponto, mediante esta personagem* que atesta a impossibilidade de paz, quando estamos sentados ao lado de uma roseira:  
(* = Ninguém menos que Frederick Law Olmsted, o paisagista responsável pelo projeto do Central Park.)

No meu caso, porém, o que prevalece durante as caminhadas é a forte sensação de ser observada atentamente pelas árvores. Por alguma razão que não sei explicar, inclusive, sinto que elas me observam a partir de suas cascas. É provável que isso decorra do simples fato de que as cascas estão facilmente à mostra, logo na altura de meus olhos, refletindo meu próprio olhar. Além disso, admito que a casca é o que mais tem chamado minha atenção; e fico apalermada diante da encantadora variedade de formas, cores, texturas, desenhos — a imagem no início do post são algumas cascas fotografadas durante recentes andanças. Dessa maneira, conjecturei que encontraria minha árvore favorita, caso seguisse as pistas das cascas. Assim, lembrei que o filósofo Georges Didi-Huberman escreveu um livro intitulado Cascas, o qual saquei para imediata leitura. Tal qual Meu Pé de Laranja Lima, o livro de Didi-Huberman não me ajudou tanto, visto que a obra realmente concentra-se na reflexão filosófica acerca de como recordar/ler o passado do holocausto; quer dizer, como construir e preservar essa memória para efeitos no presente. Simultaneamente, porém, foi bastante intrigante constatar que, durante a visita ao campo de concentração Birkenau, o filósofo foi tomado pela urgência exata de arrancar lascas de cascas das Bétulas que povoam o bosque daquele local. Nas palavras do autor (tradução: André Telles): "(...) três lascas de tempo. Meu próprio tempo em lascas: um pedaço de memória, essa coisa não escrita que tento ler; um pedaço de presente aqui, sob meus olhos, sobre a branca página; (...)". Ao descrever as Bétulas que testemunharam o horror ali cometido contra os judeus, Didi-Huberman diz que seus troncos possuem uma enorme força visual que chega até a tornar discreto o arame farpado, os postes de cimento e os fios eletrificados do campo. Ainda segundo o autor, as Bétulas transmitem uma paradoxal serenidade verdejante, com toda a delicada beleza dos troncos brancos com suas manchas, que evocam resquícios de alguma partitura musical. Em consequência, ele me ajudou a perceber que os relevos de um dos troncos que avistei remete a caixinhas de música (!).  Ao contrário de Zezé, quem sabe eu precise estar atenta para ouvir não a fala verbal, mas sim a música das árvores...? Melhor: tocá-las para ouvi-las? [Vixe, neste ritmo, logo virarei a louca que abraça árvores.]


Didi-Huberman assegura que a casca das árvores não exatamente equivale àquela mera superfície que esconde a verdadeira essência das coisas; afirmando que as árvores se exprimem pela casca; ou que, em todo caso, elas se oferecem ao exterior mediante as cascas. Esse pressuposto é usado pelo autor como metáfora para fundamentar a necessidade de olharmos feito arqueólogos o espaço soterrado do campo de concentração, a fim de localizar elementos que ajudarão a firmar a memória daquele evento histórico. Embora a fundamentação faça sentido, não nego que ela acabou por estremecer minha impressão de que as árvores estariam me encarando de volta a partir de suas cascas; quero dizer, a palavra "superfície" permaneceu piscando pra mim. Para piorar, durante a rápida pesquisa feita objetivando rememorar informações biológicas sobre cascas, esbarrei com o óbvio: essa é a parte morta da árvore, logo como elas poderiam estar me enxergando pela casca?! Felizmente, entretanto, meu sentimento de estupidez se esvaiu quando minha memória catapultou à superfície (😉) um trecho do ensaio The Naive Reader, no qual a poeta dinamarquesa Inger Christensen escreve (tradução dinamarquês ➝ inglês: Susanna Nied; inglês ➝ português: minha):
"Eu consigo enxergar uma árvore, enquanto a árvore presumivelmente não consegue me enxergar. Mas o que significa "enxergar"? Isso é linguagem humana. É claro que é correto dizer que uma árvore não enxergou nada, porém, à sua maneira, a árvore me enxergou. Ela registrou presença humana, nem que tenha sido nada além da poluição do ar. (...)"

                                                                           — Inger Christensen, The Naive Reader 

Certo; reescreverei, portanto, minha declaração: as árvores do parque registram minha presença. O curioso é que, naquela mesma pesquisa, o Google acidentalmente (?) me mostrou um artigo que aborda a possibilidade de avaliar a qualidade do ar a partir do estudo da casca das árvores. (Link: X)

Ao revisar os procedimentos desta busca, aventei a possibilidade de que talvez eu não esteja observando direito; falha que potencialmente possa ser corrigida, caso eu me dedique ao desenho e à pintura das árvores do parque. Essa hipótese me foi soprada ao ouvido pelo pintor David Hockney que, no livro A Bigger Message, explica a Martin Gayford que desenhar nos permite ver melhor e cada vez mais claro, nos permite enxergar o mundo com maior intensidade. Na ocasião em que tivera essa conversa com Gayford, a obra de Hockney estava marcada pela presença de árvores que, na opinião do pintor, são a maior manifestação de força vital que testemunhamos, cada uma única — e Gayford complementa (no que Blandina concordaria): gigantes vegetais, algumas heroicas, algumas elegantes, outras sinistras. Fiquei aliviada quando Hockney acrescenta que árvores não são fáceis de desenhar, especialmente a folhagem — "não parecem seguir as leis da perspectiva, com linhas seguindo em todas as direções" — porque eu mesma enfrento muita dificuldade ao tentar desenhá-las. Das pinturas que já fiz, gosto desta onde, sem surpresas, predominam tronco e casca:


O que ocupa minha mente nos momentos em que contemplo as várias árvores do parque, em especial agora que sinto e vejo incontestáveis sinais de envelhecimento em meu corpo, é sobretudo o verso de Tom Waits usado para intitular esta postagem: He'll make a tree from me / ~Ele fará, de mim, uma árvore  (música Green Grass voltando ao blog). Ou seja, é o pensamento de que se aproxima a hora em que cederei todos os meus átomos para a eventual constituição de uma daquelas (ou outras) árvores. Nem de longe trata-se de um sentimento mórbido ou pesaroso. Juan Ramón Jimenez, no lindo livro Platero e Eu, escreveu de modo muito mais bonito e certeiro o que tento expressar. Colarei o trecho aqui, extraído do breve poema em prosa no qual o autor nos diz o que percorre seus pensamentos, quando ele avista o pinheiro no alto da montanha da cidade espanhola de Moguer (grifo meu):
"Quando, no vaguear de meus pensamentos, as imagens arbitrárias se colocam onde querem, ou nos instantes em que há coisas que se veem como numa segunda visão e à parte do que é distinto, o pinheiro do Alto da Montanha, transfigurado como que num quadro de eternidade, surge-me mais eloquente e mais gigantesco ainda, na dúvida, chamando-me para descansar em sua paz, como o término verdadeiro e eterno de minha viagem pela vida."

                                                 — Juan Ramón Jiménez; Platero e Eu (Tradução: Monica Stahel)


Por ora, sou obrigada a encerrar esta postagem sem que eu tenha encontrado minha árvore favorita. Acredito que seja uma questão de acaso realmente. Ou talvez eu não esteja pronta. Não chegou a hora? Falta a vivência de uma história, que construirá uma memória afetiva? No máximo, tenho uma árvore que já há algum tempo me é muito querida: um ipê amarelo localizado em frente à rodoviária de Brasília. Quando está todo florido, esse ipê vive rodeado por pessoas tirando fotos; porém basta que suas flores amarelas caiam e seus galhos sejam tomados por abundantes folhas verdes, para que todos esqueçam dele. Desde que notei isso, faço questão de travar um diálogo silencioso com o Ipezinho da rodoviária, sempre que passo por ele durante trajetos de ônibus: "Olá, Ipezinho, estou te vendo e você segue bonito como sempre." Ao mesmo tempo, que sei eu daquele Ipezinho? É possível que ele nem curta a badalação e prefira não ser importunado. Sua voz ou sua música, nunca consegui ouvir, então eu não saberia dizer. De qualquer forma, ressaltarei que estas duas do parque em que caminho, que aparentam se abraçar (brigar por espaço?! xi), aos poucos me fazem sorrir:

11/05/2021

[alinhavando] sobre janelas, bicicletas e gagueiras

Às vezes fico preocupada com o quanto você olha por essa janela
, comentou, certa vez, minha mãe. Noutra ocasião, o desassossego a fez perguntar: no que tanto você pensa aí, afinal? Confrontada pela direta pergunta, me dei conta de que, na verdade, não penso em nada quando estou à janela. Por outro lado, é possível que eu esteja tão profundamente imersa em pensamentos que, ao ser chamada, perco o fio da meada, tal qual um mergulhador que emerge sem a adequada descompressão. No livro Des Histoires Vraies, Sophie Calle compartilha uma foto da vista de sua janela, explicando que aquela é a imagem mais fotografada por seus olhos, ou seja, é a imagem da vida dela. Talvez seja isso; digo, a cada volta à casa dos pais, descubro que alguma coisa da suposta imagem de minha vida (infância, adolescência) não está mais lá, foi substituída por algo novo que preciso assimilar, o que requer longos períodos contemplativos. Uma teoria, apenas. 

No primeiro episódio da série Joe Pera Talks with You, o singelo protagonista fala que jamais poderia vender a casa em que mora, pois ela tem os melhores lugares para pensar, dentre os quais inclui-se o lado da cama de onde é possível observar a vista da janela. Sendo um homem solitário habitante de um lugar frio, Joe reconhece ter bastante tempo livre para pensar em questões urgentes como "Qual o futuro dos jantares casuais?", portanto é essencial que a casa dele tenha um lugar perfeito para pensar. Suspeito de que Joe não ficaria intrigado com o tempo que passo à janela.

Esses devaneios sobre janelas retornaram-me devido ao recente vídeo em que Gilberto Gil exibe as lindas janelas de seu novo apartamento. Sem exagero, quando meus olhos capturaram aqueles janelões lindos, de frente para o mar de Copacabana, quase chorei. No breve vídeo, o músico diz algo que definitivamente atesta sua larga experiência de janeleiro: abrir uma janela não significa apenas deixar o exterior entrar, mas também abrir-se para si próprio. Gil ressalta que a janela dá o poder da interioridade exteriorizar, ou seja, a janela não apenas traz o exterior pra dentro, como também leva o interior pra fora. É, creio que Gil é mais um que não ficaria intrigado com o tempo que passo à janela.

A todas as pequenas desvantagens de meu novo apartamento (registrei algumas em post anterior), acrescento agora a ausência de uma janela perfeita para pensar em nada. Localizando-se de frente para a outra torre do condomínio, meu novo lar assemelha-se ao apartamento onde Valeria Luiselli morou em Nova York, conforme ela descreve no livro Papeles Falsos: de dia, as paredes e janelas dos vizinhos dominam a vista; de noite, os vidros das janelas refletem o interior do próprio apartamento. A autora defende que essa impossibilidade de ver o mundo externo, substituída, à noite, por nosso próprio reflexo nos vidros, corresponde a uma estratégia arquitetônica que pretende criar a ilusão de privacidade em cidades onde, efetivamente, as vistas são um constante convite à bisbilhotagem. Embora ciente de que espiar a vida dos outros é sempre arriscado, uma vez que as posses e felicidades alheias podem resultar, pelo irresistível ato da mera comparação, numa onda de tristeza; a autora se arrisca e depara-se com uma realidade amarga: os vizinhos levam vidas tão chatas quanto a dela. A parte mais divertida, achei, é quando ela teoriza que nada acontece na janela alheia porque todos têm um computador/celular. Para Luiselli, a invasão de nossas casas por esses aparelhos implicou na impossibilidade de vidas interessantes o suficiente para satisfazer um vizinho voyeur. Ela não toca no assunto, porém o faço eu: os malditos celulares tornaram-se nossas janelas pro mundo, e isso me entristece um bocado (em postagem prévia, tangenciei o tema, ao comparar nossa situação atual a uma cena do livro Frankenstein, alinhavando-a ao livro The Lonely City, de Olivia Laing). A propósito, Luiselli me fez perceber que, se duvidar, só mantenho a cortina fechada para que o vizinho não descubra que passo até doze horas do meu dia diante do computador. Que deprimente. [P.S.: por razões óbvias, evito manjadas ironias com o filme Janela Indiscreta.]

Sendo um pouquinho mais grata por aquilo que tenho, devo reconhecer que a janela do banheiro me oferece uma vista bastante digna. No livro Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki destaca os prazeres das antigas latrinas em estilo japonês, ao ar livre, considerando indescritível a sensação de contemplar o jardim pela janela e se perder em pensamentos. Então, enquanto cagavam e apreciavam o luar, poetas japoneses vislumbraram temas para seus haicais*; eu, enquanto tomo banho e aprecio as luzes da cidade, confabularei novas groselhas para este blog. [* = foi Tanizak quem escreveu, tenho nada a ver com isso.]

🚴


Valeria Luiselli exerceu grande papel na conversão desta corredora/andarilha que ora escreve numa ciclista mequetrefe. Destaco que não houve apostasia, pois todo dia ainda é um bom dia para correr/caminhar. Por sinal, essa historinha também começa com a bendita mudança de apartamento. Durante a separação dos itens para doação, a velha bicicleta que viveu encostada por dez anos na parede da cozinha pediu piedade: — Dani, me dá uma chance, confia em mim. Enquanto ponderava com a empoeirada magrela, lancei mão do manifesto de Luiselli a favor das bicicletas.

Luiselli alega que, ao contrário de caminhantes e corredores, o ciclista não está preso ao ritmo e modulações de mais ninguém, estando livre para entregar-se plenamente à solitude e ao doce fluxo dos próprios pensamentos. — Ressalto que ela parece ignorar que, em cidades brasileiras, um ciclista, mesmo trafegando numa ciclovia, corre o risco de ser assassinado por um motorista. Será que as coisas são diferentes no México? Acredito que ela tenha em mente cidades europeias; não sei. — Bom, ressalva feita, afirmo que os argumentos dela sobre o quanto o ciclismo pode ser generoso com o ato de pensar me convenceram em definitivo e fizeram a velha bicicleta sobreviver às doações. Sobre duas rodas, Luiselli me garantiu que o ciclista consegue encontrar o ritmo perfeito para observar a cidade, pondo-se na posição simultânea de testemunha e agente. Lendo as palavras da autora, tive a impressão de que a bicicleta poderia me proporcionar prazer semelhante àquele de olhar por uma bela janela. Hoje, após alguns bons passeios, confirmo que Luiselli está certa: aquele que descobre o ciclismo como uma atividade sem finalidade específica sabe possuir uma estranha forma de liberdade comparável apenas àquela do pensamento ou da escrita. Quem não tem janela, pensa com bicicleta. So it goes. [P.S.: quanto tempo até que eu apareça no blog, escrevendo que caí da bike e quebrei todos os dentes? Se eu continuar procurando passarinhos; logo, logo.]

Para fechar esse ponto do alinhavo, uma última nota. Ignoro se atualmente ainda ocorre entre europeus, mas fiquei encantada quando li, no livro da dinamarquesa Inger Christensen e no do francês Raymond Radiguet, relatos de famílias que, na primeira metade do século XX, fizeram viagens intermunicipais de bicicleta. Ok, talvez não seja tão glamoroso quanto eu esteja idealizando (a canseira; o "detalhe" da 2a. Guerra), porém imagine a vista dessas janelas itinerantes?! 

🍃

No último post sobre os diários de Alejandra Pizarnik, escrevi que a descoberta de uma suposta gagueira da poeta me pôs num estado reflexivo, e a razão, em parte, recai sobre uma passagem do livro de Luiselli. Antes, contudo, quero registrar uma cena do filme visto hoje, o Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami; a qual resgatou estes desvarios gagos. Numa conversa com o ("futuro") marido, a personagem de Binoche diz que a irmã, embora casada com um homem simplório e gago, julgava ter como marido o melhor homem do mundo, ouvindo o MMMMM-Marie como quem ouve uma canção de amor. O interlocutor de Binoche não se surpreende com o relato, compreendendo que o marido gago simplesmente se detém, agarra-se ao nome da amada. O golpe de misericórdia do filme é dado mediante a última fala de Binoche que, na tentativa de convencer o marido a dar-lhes uma chance, suplica: JJJ-James.

Pronto, voltemos à Luiselli, pois sozinha não consigo desenvolver estes pensamentos. Por intermédio da autora, conheci este poema de Ghérasim Luca, Passionément, no qual o eu lírico, gaguejando desde o primeiro verso, declara sua paixão: 

pas pas paspaspas pas 
pasppas ppas pas paspas 
le pas pas le faux pas le pas 
paspaspas le pas le mau 
le mauve le mauvais pas

(...) 

t'aime je t'aime passionnément 
je t'ai je t'aime passionné né 
je t'aime passionné 
je t'aime passionnément je t'aime 
je t'aime passio passionnément

(...)

Luiselli me conta que Luca foi um poeta romeno que teve de abandonar seu país e exilar-se na França, onde escreveu poemas gagos cheios de buracos. Luca habitava o francês, língua que era-lhe estrangeira, levando-o aos limites da sintaxe, ao outro lado da gramática. No ensaio, Luiselli recorda que, segundo Deleuze, quando a língua é tensionada a tal ponto em que a gagueira se inicia, significa que ela alcançou seus limites, passando a confrontar o silêncio. Depois dessa, como não ficar pensativa ao descobrir que uma poeta de quem se gosta pode ter sido gaga? E como não ficar desnorteada quando uma mulher apaixonada pronuncia (*importante: em meio a idas e vindas entre inglês, francês e italiano) o nome daquele que ama deste jeito: JJJ-James? (Ah, se eu te pego, Kiarostami.) 

É; a janela que busco é aquela que me permita mergulhar no silêncio.