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31/07/2022

[alinhavando] Think of me as a train goes by


Sabe o meme do Compadre Washington? Eita; verdade, preciso especificar, pois o compadre já rendeu vários. Eu me refiro àquela imagem em que ele aparece sentado numa poltrona de ônibus, observando contemplativo pela janela, enquanto escuta música (suponho) pelos fones de ouvido. Faz tempo desde que a piadinha estreou na internet, porém me recordo bem do abatimento que senti, tão logo tomei ciência de sua existência. Dado que a premissa parte da palermice oculta em certos contextos humanos, até cabe aplaudir aqueles que primeiro identificaram o potencial da coisa, entretanto não consigo conter o desabafo lamurioso: — poxa, galera, mas precisava mesmo?  Enquanto pesquisava detalhes da real circunstância na qual se encontrava Compadre Washington (não obtive sucesso), o Google me mostrou este tweet de 2015, escrito por @AndrRbro: "Tava escrevendo no ônibus e me senti o Compadre Washington nessa foto."  Exato, AndrRbro! Quero dizer, esse meme tornou impossível (ou quase) mergulhar no particular e especial estado contemplativo — quiçá meditativo — que ocorre durante viagens de ônibus, sem que se escute, ao longe, as risadas de um twitteiro desalmado. Como alcançar, agora, a imprescindível perda de autoconsciência durante esses percursos? 

Bom, pois eu seguiria sentada e chorosa no meu canto, não tivessem dois livros coreanos me devolvido a poesia desses momentos. Bae Su-ah, em Noite e Dia Desconhecidos (2013) e Jang Eun-jin, em No One Writes Back (2008), usam em suas narrativas o mesmíssimo movimento: embarcar, sem destino, num ônibus trem; ou seja, simplesmente embarcar. A Coreia, por suas dimensões exíguas, favorece demais esse exercício, porque, em apenas duas horas — via trem de alta velocidade —, é possível cruzar o país de ponta a ponta (!). Duas horas, no entanto, pode ser pouco tempo para essa sublime modalidade de deslocamento, portanto ambas autoras recorrem especificamente aos mugunghwas 
(무궁화), que são os trens mais lentos (150km/h), antigos e baratos da malha ferroviária coreana. Eles costumam ter mais paradas, circulando por cidades não atendidas pelos trens modernos e velozes. Segundo pesquisei, por cerca de R$ 117,00, compra-se uma passagem para tais trens, num percurso partindo de Seul (extremo norte) até chegar, após 05h53min, em Busan (extremo sul, de frente ao mar). A graça da literatura reside bastante em imaginar o que se lê, reconheço; mas abrir o You Tube e percorrer virtualmente os caminhos de uma história lida é muito legal. Colo aqui o vídeo a que assisti sobre uma viagem num mugunghwa


Aproveito para registrar novo queixume: por que diabos um enorme país feito o Brasil não tem uma boa e extensa rede ferroviária? Sequer trens de alta velocidade, entre Rio-SP, nós temos. Imagino que seja mais uma das idiotices importadas dos americanos. Ou seria a velha questão orçamentaria? Enfim, na falta de trens, sigamos o exemplo de Compadre Washington: façamos de ônibus, o extasiado rolê. Inclusive, quando usava o twitter, lembro de um tweet no qual um paulista compartilhava seu desejo de pegar um ônibus circular da madrugada apenas para rodar por São Paulo, absorto nas imagens da cidade sonolenta (ou nem tanto). Então, sim, creio que nós, brasileiros, damos nosso jeito. Ainda cabe, porém, chorar nossa escassez de trens, pois, conforme escreveu Adam O'Riordan num artigo do Guardian: "poets take trains / poetas andam de trens" — e não de ônibus, saco; mas, se só tem tu... Tomarei emprestadas algumas das palavras de O'Riordan (em tradução livre), a fim de melhor explicar aquilo sobre o que escrevo neste post e que as autoras coreanas estão abordando em seus livros. [*Acrescento que esta postagem é praticamente uma continuação/anexo do meu texto sobre janelas]:
"Trens permitem que nos movamos por lugares e conversas sem sermos percebidos; (...) Eles nos possibilitam estar no mundo, mas sem tomar parte nele. (...) em trens, ao menos perceptivamente, tomamos emprestado um movimento e omnipotência usualmente reservados a semideuses ou cineastas de filmes de baixo orçamento. Somos presenteados com enquadramentos predefinidos, atalhos, close-ups; nosso repertório visual expande (...)"

                                                 — Adam O'Riordan, Why poets take trains (The Guardian, 2008)

Muitas interpretações e reflexões podem ser feitas a partir da premissa que ora discuto, mas a frase que destaquei no texto de O'Riordan guarda aquilo que mais me fascina nesse lance de embarcar sem destino em veículos providos de uma janela para o exterior: a oportunidade de estar num espaço conexo, separado do mundo; o não-lugar. Também gosto de pensar na sensação de pausa no tempo, aquela falsa impressão de que são os outros que se movem (e vivem), enquanto nós usufruímos de um intervalo no jogo, para tomar fôlego e recompor.

Embora Bae Su-ah e Jang Eun-jin tenham usado, conforme citei, esse mesmo recurso narrativo das viagens de trem sem destino, há notáveis diferenças de contexto. Em Noite e Dia Desconhecidos, fui apresentada a Volpi, um poeta estrangeiro que viaja à Coreia para escrever sua nova obra. Para surpresa de Ayami, a coreana que trabalha como guia para o poeta, bibliotecas e cafés não são espaços propícios para a escrita de Volpi. Não; nosso poeta pede que os dois embarquem numa viagem de trem que os permita passar a noite sobre os trilhos, ao que Ayami sugere o mugunghwa (e que admirável paralelo firmado com aquele tweet de AndrRbro e o texto de O'Riordan). O processo da escrita de Volpi ajuda a entender a predileção do poeta pelo espaço ferroviário (grifos meus):
"Mas eu tenho que anotar imediatamente o que me vem à cabeça. Porque as coisas vêm como filmes ou imagens, e não organizadas em orações. Se não for no momento exato, elas simplesmente evaporam. E quando isso acontece, não consigo enquadrá-las em linguagem. Tudo que eu escrevo não passa de esboço, não é a pintura final. Não me importo com o lugar. Esqueça bibliotecas ou cafés. Detesto bibliotecas ou cafés, até quando não estou escrevendo."

                                            — Bae su-ah, Noite e Dia Desconhecidos (Tradução: Hyo Jeong Sung) 

A narrativa de Bae Su-ah não se esquiva de reconhecer a inexistência de glamour no mugungwha — em concordância com o vídeo que anexei, por sinal —, visto que o poeta comenta nunca na vida ter visto  tanta gente junta, causando-lhe a sensação de que teria estourado uma guerra e todos os coreanos tentavam fugir. O comentário da personagem aponta para uma super lotação desses trens, o que, de certo modo, denuncia que a maioria da população coreana não teria dinheiro para pagar as linhas mais rápidas e caras. Ou, pelo menos, que a maioria apela para o sacrifício do trem pebinha, para economizar grana. Ou ainda: seriam os coreanos fervorosos praticantes do "simplesmente embarcar"?!

O contexto narrativo presente no livro de Jang Eun-jin, por sua vez, envolve sentimentos agridoces, sem relação direta com poetas ou escrita. Em No One Writes Back (tradutor coreano-inglês: Jung Yewon), Jihun viaja a esmo pela Coreia com uma mochila nas costas, na companhia de um cachorro cego. Em certo momento de suas andanças, ele esbarra com uma estação ferroviária e decide embarcar num mugunghwa, explicando que trens sempre o fazem lembrar-se do irmão. Ele conta que, quando criança, o irmão, do nada, pôs o chapéu, colocou um livro no bolso e virou, perguntando-lhe: "quer vir comigo? Acabarei me matando se continuar desse jeito." Assustado pelas palavras do irmão, Jihun decide acompanhá-lo, e os dois fogem de casa, embarcando numa viagem de trem sem destino em mente. Durante o trajeto, o irmão lhe diz: Jihun, faça o que você quiser da sua vida. Entende? Não deve haver mais que uma criatura estranha numa família." Jihun afirma que, naquele instante, compreendeu que, graças ao irmão, ele pôde seguir vivendo do seu jeito. Os dois acabam retornando para casa, e o irmão tira a nota mais alta no vestibular; desse modo demonstrando que, durante a viagem, decidiu (conformou-se?) correr atrás do sucesso como a maioria das pessoas do mundo. Ah, e a preciosa cereja do bolo: "(...) nunca mais leu romances (...)." Quer dizer, o irmão de Jihun tomou um trem para movimentar-se numa pausa do jogo, e assim decidir que estratégia seguir. (Se acertou/errou, eu não saberia dizer.) No mais, como curiosidade, incluo o que Jang Eun-jin diz a respeito de coreanos em trens (real? ficcional?): todos os passageiros batem palmas ao final da passagem por um túnel.

Após tais leituras, portanto, resolvo aconselhar a mim mesma: 
   — Daniela, prossiga com suas viagens de trem ônibus, olhando contemplativa pela janela, pois esses piadistas de internet não manjam nada.

[Atualização em 02/08/22:] Estava organizando minhas pastas, quando reencontrei este vídeo gravado em 01/2020: eu toda contente num vagão do metrô de BSB que, em plena tarde de um dia útil da semana, estava vazio. Na falta de bons trens, o metrô daqui até pode quebrar um galho, com seus janelões generosos (mas só nos trechos não subterrâneos, claro). 

18/07/2022

[alinhavando] mas, vovó, eu sei tão pouquinho...

Recentemente assisti pela primeira vez ao filme Yi yi (Edward Yang, 2000), e duas tocantes passagens dialogaram com elementos marcantes de dois livros lidos ano passado. A propósito, a surpresa de reencontrar essas questões na obra de Yang me ajudou a melhor assimilar minhas reações. Tentarei um breve registro desses paralelos. [*Spoilers, etc.]


(1) No filme Yi yi, a Vovó da família Jian acidenta-se, evoluindo para coma. Quando o médico dá alta hospitalar à paciente, transferindo-a aos cuidados domiciliares, recomenda que sempre conversem com a Vovó — mesmo que ela não responda —, a fim de estimular o sensório da idosa. Assim, diligentemente seguindo tais recomendações médicas, os amorosos familiares alternam lugar como interlocutores diários de conversas unilaterais com a Vovó comatosa.

Na cena capturada pela imagem colada acima, vemos Min-Min ao final de mais um papo com a mãe, momento em que colapsa em lágrimas, desabafando para o marido:
"Não tenho nada a dizer pra mamãe. Repito as mesmas coisas todos os dias. O que eu fiz de manhã, à tarde, à noite... Leva só um minuto. Não aguento isso. Eu tenho tão pouco! Como pode ser tão pouco? Minha vida é um vazio! Todo dia... todo dia pareço uma boba! O que eu faço todo dia? Se um dia eu ficar como ela..."

Quem não viu o filme possivelmente suspeitaria que o desabafo de Min-Min é consequência da exaustão relacionada aos cuidados de um parente idoso e doente, porém este não parece ser o caso — vale acrescentar que eles podiam contar com o auxílio de serviços de enfermagem. Assistindo ao trecho (e ao desenrolar da vida da personagem), a impressão é que a exigência de conversar todos os dias com a mãe, a qual era implementada mediante o artifício da narrativa em voz alta da própria rotina, obriga Min-Min a reconhecer e encarar aquilo que já estava consumindo-a intimamente. De certo modo, a circunstância parece se aproximar à experiência de uma sessão de terapia, dado que a verbalização dos pensamentos — a transformação das inquietações em palavras orais — forçou a personagem a constatar e compreender seus sentimentos. Com intuito de confortar a esposa, o marido decide que a enfermeira passaria a ler o jornal à Vovó, na esperança de que continuariam cumprindo a prescrição médica. Além disso, Min-Min resolve partir para uma espécie de retiro budista nas montanhas.

Enquanto via essa sequência, a lembrança de Miss Jean Hawkins, a protagonista do livro A Five Year Sentence (1978), escrito por Bernice Rubens, voltou-me à memória. Fui apresentada à senhorita Hawkins no instante em que ela saía de casa para o último dia de trabalho na fábrica de doces onde trabalhara por 46 anos. Por sinal, ela partia decidida a se suicidar, quando retornasse da festa de despedida. Os planos da futura aposentada são, contudo, frustrados pelo presente recebido dos colegas: um caderno cuja capa de couro preto traz, grafado em letras douradas, a frase "O Diário de Cinco Anos da Senhorita Hawkins". Considerando-se que a personagem sempre viveu a obedecer ordens — uma vida solitária de dois ciclos: infância no orfanato de freiras  → fábrica de doces —, aquele caderno representou o incontestável comando de ter de viver por mais cinco anos; a tal sentença de cinco anos expressa no título do livro de Rubens. 

O início da batalha travada com o caderno remete bastante à situação de Min-Min, pois, durante a primeira semana, Hawkins decide ali anotar o que faz a cada intervalo de tempo. Quer dizer, Min-Min vê-se obrigada a narrar a vida a partir da palavra falada; Miss Hawkins, da palavra escrita. Uma conversa com uma idosa em coma; a outra, com um caderno — e assim, em certa medida, ambas se veem obrigadas a conversar consigo mesmas. Eis a primeira entrada (*tradução livre minha):

"Segunda. Levantei às 8h30, tomei banho, me vesti, tomei café. Às 13h, almocei. Tomei chá às quatro da tarde. Janta às 19h. Não aconteceu nada."

                                                                                     — Bernice Rubens, A Five Year Sentence. 

Com essa estratégia de escrita, Hawkins constata que a entrada da terça-feira é igualzinha à da segunda, bem como a da quarta-feira, com exceção da omissão das refeições. As páginas são repetidamente tomadas pelo "nada aconteceu". O desânimo para prosseguir escrevendo "nada aconteceu" gera páginas em branco; e o retiro budista nas montanhas ao qual Min-Min apela é, aqui, trocado por dias de cama em casa.

No filme de Yang, essa premissa não é desenvolvida para além deste ponto (até porque Min-Min não é protagonista); enquanto o livro de Bernice Rubens não se acanha em explorá-la por meios assombrosos. Após aquela semana acamada, Hawkins retorna ao caderno e, de impulso, escreve "Saí para comprar comida", daí se veste e sai para cumprir o escrito. Aos poucos, portanto, a personagem aprende a usar o caderno como nova fonte de ordens a serem obedecidas, dessa maneira subvertendo o tempo dos diários, visto que o passado passa a representar o futuro. A medida que a narrativa evolui, as ordens inseridas no caderno tornam-se cada vez mais específicas e audaciosas; e Hawkins sente enorme prazer em cumpri-las, sobretudo em riscá-las da página com aquele check! de missão cumprida. No mais, a relação da personagem com o caderno logo se aproxima àquela de um dependente de substâncias psicoativas, pois ela é tomada por intensa ansiedade, quando percebe ter saído de casa sem um comando. Não demora, também, para que ela alcance o ponto em que sequer recorda-se de ter escrito a ordem que lê na página. [Confabulei que o caderno vira quase uma materialização externa do Id da personagem, sei lá.] Após dois anos desse experimento forçado, Hawkins perde a vontade de prosseguir com o plano suicida, pois o diário havia lhe ensinado a não ter vergonha de buscar ativamente prazer na vida. Ao mesmo tempo, porém, a personagem teme o que aconteceria quando o caderno acabasse. Compraria outro? Conseguiria prosseguir sem a autoridade de um diário? Embora pareça que a história afinal segue um rumo feliz e edificante, asseguro que tal dedução não procede em absoluto — na verdade, a história degringola de um jeito assustador; mas manterei a descoberta dos pormenores a eventuais futuros leitores.

Eis aí por que eu, que não sou boba (ok, talvez um pouco), mantenho este blog diarinho conduzido por um fio temático alheio à minha vida. Fora deste espaço virtual, também escrevo num caderno, no entanto sou adepta do Commonplace Book**, e não de diários ou bullet journals. Se eu escrevesse, sobre minha vida, as postagens não seriam tão diferentes daquela segunda-feira vivida pela senhorita Hawkins, e eu não daria conta de padecer de crises diárias como aquela da Min-Min. 

[**: Em resumo, são espaços onde anotamos aquilo que cruza nosso caminho e nos interessa; portanto vale tudo: citações de livros, letras de músicas, diálogos de filmes, desenhos, poemas, conversas, pensamentos, reflexões, pesquisas realizadas, trechos de artigos... Eu, porém, uso fichários tamanho ≈ A5.]


(2) O garotinho da imagem acima é Yang-Yang. Nessa passagem final do filme, ele se despede para sempre de sua avó, explicando-lhe por que não pôde conversar com ela durante o coma [*detalhe importante para o alinhavo desta postagem: a criança lê as palavras que ela mesma escrevera em seu caderno; ou seja, com a ajuda do caderno, ficou mais fácil conversar com a Vovó]:
"(...) tudo que eu podia te contar, você já devia saber (...) 
vovó, eu sei tão pouquinho."
Dentre as coisas tão lindas ditas por Yang-Yang, há a menção de lembrar-se da avó, quando ele olha o primo recém-nascido. O garoto fala que a avó, com frequência, dizia sentir-se velha; e agora ele próprio queria dizer que sente-se velho, quando vê o priminho que nem sequer tem um nome.
"Vovó, sinto saudade de você, especialmente quando vejo meu priminho que ainda não tem nome, porque me lembro que você sempre dizia que se sentia velha. Aí quero dizer pra ele que me sinto velho também." 
Quando ouvi essas últimas palavras de Yang-Yang, o Asher Lev, protagonista do livro Meu Nome é Asher Lev (1972), escrito por Chaim Potok, voltou a me fazer companhia. Asher Lev é um garoto judeu nova-iorquino, filho da união de duas importantes genealogias do movimento chassidista de Ladov. O pai de Asher, Aryev Lev, chegou à Nova York quando tinha quatorze anos, partindo da Rússia com a família. Aryev formara-se na yeshiva ladoviana, diplomara-se em ciências políticas pela Universidade de NY e trabalha para o Rebbe, sobretudo no auxílio a judeus perseguidos pelo regime stalinista russo. Por causa desse trabalho do pai, Asher teve de conviver com histórias de judeus perseguidos, violentados e torturados (por mais que os pais tentassem protegê-lo). Para além disso, desde muito cedo ele precisou encarar o embate entre sua religião e sua vocação artística para a pintura. Durante a semana em que passei ao lado de Asher, costumava me sobressaltar quando ele dizia (tradução: Attílio Cancian):
"(...) não é um mundo agradável; (...) não é um mundo bonito. (...) 
Eu estava cansado, e muito cansado mesmo."

                                                                                             — Chaim Potok, Meu nome é Asher Lev

Uma criança de 08 anos sentindo-se velha; outra de 10 anos já sentindo-se tão cansada... É, Asher, o mundo às vezes não é exatamente agradável; no entanto, conforme reconheceu Yang-Yang, nós sabemos tão pouquinho, não é mesmo? Quem haveria de entender o que isso tudo significa? Yang-Yang disse que a Vovó sabe muitas coisas; então, quando eu chegar lá no lugar para onde ela foi, lhe perguntarei. A julgar por quão cansada e velha me sinto, devo chegar logo, logo. 

19/06/2022

That old convenience store, those tired faces and those haunted eyes

Durante a ronda por dramas coreanos à qual me dediquei ano passado, diversas foram as obras malogradas, dentre as quais consta Loucos um pelo Outro. Embora eu não tenha sido capaz de sequer finalizar o primeiro episódio, houve uma passagem específica da série que me tocou bastante. Falo da sequência em que o protagonista, um policial afastado do trabalho em decorrência de transtorno explosivo intermitente, janta lámen industrializado (tipo cup noodles®) harmonizado com uma garrafa de coca-cola, numa loja de conveniência. Ah, e sozinho. Bicho, conjecturei que aquela possivelmente seria uma das cenas mais deprimentes já concebidas pela dramaturgia coreana. Enquanto tentava entender a razão de meu desassossego diante daquilo, imagino ter sido abençoada por uma feliz epifania: mas, ora, se não é praticamente uma versão do quadro Automat, de Edward Hopper?! Entretanto elementos mal explicados persistiam, sobretudo porque — conforme Alain de Botton também reconhece num artigo para o site do Tate Museum—, os quadros de Hopper não me despertam tristeza/melancolia, ao passo que a imagem coreana me pôs num estado de franco desamparo. Naquele mesmo texto, Botton assinala pontos a respeito de Automat que me auxiliarão a delimitar divergências entre o quadro de Hopper e o de Loucos um pelo outro (*tradução livre por minha conta):

(1) Botton: "A mulher aparenta estar autoconsciente e ligeiramente amedrontada, mal acostumada em estar sozinha num espaço público. Algo parece ter dado errado."
Exato! O quadro coreano, em contrapartida, é tomado por uma normalidade acachapante. Aquele homem aparenta estar super bem acostumado à solidão, e aquela parece ser apenas mais uma das várias noites monótonas de sua vida banal.

(2) Botton: "Ela involuntariamente convida o observador a imaginar histórias para ela, histórias de traição ou perda."
E o policial coreano? Para que perder tempo imaginando alguma história para aquele homem, quando a situação sugere ser a mesma velha história mundana de tantos? (Vixe, acho que estou pegando pesado com o cara.)

(3) Botton: "A despeito da austeridade dos móveis, o espaço em si não aparenta desolação".
Poxa, essa é a descrição oposta de uma loja de conveniência! — na minha opinião, veja bem. Móveis sem personalidade, mesas rodeadas por prateleiras entupidas de quinquilharias, e o horror supremo: a nauseabunda luz branca fluorescente. Botton também ressalta o espaço bastante iluminado de Automat, mas defendo que estamos lidando com luzes distintas. Sinto que a luz noturna de Hopper preserva o calor da marcante luz solar presente em suas imagens diurnas, estando assim muito distante da frieza com que a luz branca afoga aquele que faz uma refeição numa loja de conveniência. [A propósito, que conceito, comer dentro de um quadrangular aquário branco.]

(4) Botton: "Outros podem estar sozinhos naquele espaço, homens e mulheres bebendo café sozinhos, igualmente perdidos em pensamentos, igualmente distanciados da sociedade."
Aí que está: o telespectador sabe que o policial é a única pessoa (excluindo-se a funcionária) a habitar aquele recinto. E ele não está bebendo um café fresco preparado com grãos de qualidade. Ele é um adulto se entupindo de miojo e refrigerante. "Distanciado da sociedade", ele com certeza está; neste ponto temos realmente um encontro entre as imagens de Hopper e a do drama coreano. 

(5) Botton: "Hopper nos convida a sentir empatia pela mulher em seu isolamento".
Embora eu não possa falar por todos os telespectadores, afirmo que aquela foi a cena que me afugentou em definitivo da série, a gota d'água. E, dado que me esforço em praticar a máxima honestidade (razoável) neste blog, nem esconderei que pode ter ocorrido comigo o mesmo que a Freud e seu reflexo no vidro do trem — o tal sobressalto provocado pelo estranho familiar. 

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Quando já tinha me esquecido desses pensamentos, eis que um livro coreano me empurrou novamente para dentro de uma loja de conveniência. E o desconcerto, meus amigos, nem conto. Ou melhor, conto sim (na tentativa de entender).

No adorável** No One Writes Back [(~Ninguém escreve de volta), tradução coreano → inglês: Jung Yewon], a autora Jang Eun-jin me apresentou a Jihun, um rapaz que abandonou tudo para viajar pelo país apenas com uma mochila nas costas, um livro, um tocador de mp3 (a obra é de 2013) e um cachorro cego. Em suas andanças pela Coreia, Jihun mostra-se aberto a conhecer pessoas e, quando retornava aos diferentes motéis onde passava as noites, sentia prazer em escrever cartas para alguma delas. Pois imaginem meu susto quando o viajante me contou a história do Número 56 (Jihun preferia números a nomes), o homem em situação de rua que, numa loja de conveniência, disparou-lhe a pergunta: "Quando uma loja de conveniência mais se parece com uma loja conveniente?" Jihun, um tanto surpreso pela inesperada pergunta, responde que é quando ela convenientemente atende às suas necessidades prementes (imaginação passou longe, tadinho). Após recuperar-se do espanto de ter sua pergunta respondida pela primeira vez, Número 56 diz que Jihun está errado, pois uma loja de conveniência mais se parece com uma loja conveniente quando comemos cup noodles. Nem preciso dizer o quão abismada fiquei, preciso? Enfim, Número 56 seguiu explicando suas ideias a Jihun (e pra mim):
"Sem cup noodles, uma loja de conveniência nada mais é do que um cadáver. Não é fantástico? Você paga pelo cup noodles, eles nos dão água quente e uma cadeira de graça; e ainda nos permitem jogar fora o lixo depois que terminamos de comer. Não entendo as pessoas que comem cup noodles em casa. Isso vai contra o motivo do cup noodles existir. Às vezes desejo que as lojas de conveniência vendessem apenas cup noodles. Eu como cup noodles quase todo dia. Eles são baratos, fáceis de preparar e gostosos."

                                                                 —  Jang Eun-jin, No one writes back (아무도 편지하지 않다)

Ainda mais surpreendente é a complementação de 56, segundo a qual a grande variedade de sabores de miojo é outra grande vantagem, pois quando opções lhe são oferecidas, ele não se sente humilhado. Olha, quando li essa passagem, o piso sob meus pés desapareceu e eu retornei flutuando àquelas reflexões propiciadas pela cena de Loucos um pelo Outro, atordoada e sem mais saber o que pensar. O Jihun, por sua vez, me contou que, depois do encontro com o Número 56, nunca mais comeu cup noodles nos motéis, me garantindo que miojo é muito mais saboroso quando degustado numa loja de conveniência, aquecendo-nos por dentro. Talvez Jihun esteja certo, digo, é provável que minha forte reação negativa à cena do k-drama resulte do simples fato de eu nunca ter comido cup noodles numa loja de conveniência. 

Como se isso tudo não bastasse, a narrativa de Eun-jin ainda tem a manha de incluir Edward Hopper na conversa. Um dos motéis pelos quais Jihun passa tem quartos temáticos de pintores, sendo-lhe reservado o quarto de Hopper, porque teria sido o artista que entende como viajantes se sentem. Enquanto observa as pinturas de Hopper nas paredes do quarto do motel, Jihun se dá conta de que Hopper pintou cidades reais. Não importava quantas pessoas cruzassem o caminho de Jihun na viagem; ele sempre enxergava uma mesma pessoa, aquele indivíduo com a mesma postura e expressão de rosto, que sempre olha em direção oposta: através da janela, para um livro, para uma xícara de café ou a si mesmo. Naquela viagem, Jihun se deu conta de que a verdadeira solidão ocorre quando estamos acompanhados. 

** = então agora sou a leitora que diz que um livro é adorável... Meu deus, a idade está me transformando num monstro. 
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Após toda esta minha conversa fiada, talvez fique difícil acreditar que decidi ler o livro de Sayaka Murata com a inocência de que ele não me faria regressar às benditas lojas de conveniência, mas asseguro que assim foi. Os comentários de leitores com os quais eu havia esbarrado a respeito de Convenience Store Woman / Querida Konbini  [コンビニ人間 (Konbini ningen)]  me induziram a antecipar uma narrativa que meramente abordaria o direito, digamos, de uma mulher resolve viver toda uma vida como funcionária de loja de conveniência e, puxa vida, ser plenamente feliz. Lida a obra, desabafo: que baita brisa errada. Na verdade, Sayaka Murata desenvolve uma narrativa bem mais complexa do que isso, a tal ponto que até agora (semanas após finalização da leitura), nem sei ao certo o que a autora pretendeu dizer com essa história —  por sinal, diria que aí está o maior mérito da obra, que é do tipo cada leitor que pense o que quiser. Bom, só sei que gostei, e muito. Ah, e sim, a autora japonesa teve a proeza de me conduzir por corredores de lojas de conveniência inexplorados por mim. [*Uma ressalva: li a tradução para o inglês, feita por Ginny Takemori, cujos trechos traduzirei livremente aqui.]

Para começar, achei engraçado me deparar com um breve diálogo que oferece mais uma resposta àquela pergunta do Número 56:
"(...) estaremos abertos 24 horas, sete dias da semana, ano após ano. Por favor, venha e compre aqui à sua conveniência. 
"Uau, vocês abrem à noite também? E cedo pela manhã?"
"Sim", eu respondi.
"Mas que conveniente!"
Embora Keiko Furukura (a protagonista) confirme aquele meu prévio comentário sobre a normalidade opressora dessas lojas, a personagem igualmente me alerta que esse raciocínio é provavelmente mais intricado do que eu presumira. Veja, de fato a personagem me afirma que a loja de conveniência é um ambiente forçadamente normalizado no qual qualquer matéria estranha é eliminada ou imediatamente corrigida, mas simultaneamente ela assevera que só conseguia ser uma pessoa ordinária e normal enquanto trabalhava na loja — fora dali, Furukura me diz que é uma aberração inútil rejeitada pela sociedade. Ou seja, a menos que eu esteja doida (opa, como não?), o discurso da personagem deixa subentendido que lojas de conveniências nada mais são do que um microcosmo da sociedade, com uma diferença crucial: ali, há um manual; as regras são explícitas, claras e simples, fáceis de serem seguidas até mesmo por uma pessoa "esquisita" feito Furukura. A propósito, suponho que essas mesmas reflexões da protagonista também acabam propondo uma explicação à sensação de acolhimento e aconchego sentida pelo Número 56, um homem em situação de rua. Por tudo isso, acho que me flagrei numa situação à la "o ovo ou a galinha": foi a cena na loja de conveniência que me deixou deprimida ou eu já estava deprimida sem nem perceber? Esse salto nos meus desvarios fez sentido?
"O mundo normal não tem espaço para exceções e sempre elimina calmamente os objetos estranhos. Então é por isso que preciso ser curada. A menos que eu me cure, as pessoas normais me expurgarão. 
(...)
Quando abro a porta, a caixa vivamente iluminada me espera—um mundo confiável, normal, que segue girando. Eu tenho fé no mundo dentro da caixa preenchida de luz."
Prosseguindo com o exercício de honestidade, reconheço que a carapuça do preconceito com a qual a narrativa veste a personagem Shiraha (e vários funcionários da loja, curiosamente) possa me servir. Tal qual Shiraha, é plausível que minha aversão àquela cena de Loucos um pelo outro decorra da habitual associação de lojas de conveniência a pessoas fracassadas, os tais objetos estranhos citados por Keiko e rejeitados pela sociedade. Inclusive, uma aversão intensificada pela plena ciência de que eu própria engrosso a massa de losers do mundo. Quer dizer, trata-se realmente do spoiler que dei no início do post: a experiência do estranho familiar.

Por fim, é mandatório inserir o miojo nesses desvarios, pois ele é peça chave do pathos da cena coreana. Bem, Keiko Furukura compartilha que a conexão dela com a loja de conveniência era tamanha, que todas suas refeições consistiam em comidas lá vendidas, razão porque ela acreditava que seu corpo, uma vez constituído pela comida da loja, a tornava parte integrante da loja de conveniência tanto quanto a máquina de café e as prateleiras de revistas. (*Tenso*) Posto isto; calculo então que Número 56 está certo ao defender que o cup noodles é o que torna conveniente a loja de conveniência; afinal o cup noodles é parte integrante da loja; em outras palavras, são indissociáveis. [*Certo; confesso: a garrafa de coca-cola é que representa, na realidade, minha piéce-de resistance na cena, visto que sou uma inveterada viciada na maldita bebida.] 

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Naquele artigo do Tate, Alain de Botton teoriza que restaurantes de beira de estrada, cafeterias noturnas, lobbies de hotéis — acrescentarei: e lojas de conveniência? — serviriam de espaços onde podemos diluir a sensação de isolamento e redescobrir um particular sentimento de comunidade — para Kieko Furukura, a loja funciona exatamente dessa maneira, por mais paradoxal que soe. Segundo o autor francês, seria mais fácil dar vazão à tristeza nesses ambientes desprovidos da sensação de lar — com suas luzes intensas e móveis estéreis —, os quais assumiriam a função de santuários àqueles que falharam em encontrar um lugar para si no mundo ordinário. É, talvez eu deva mesmo seguir o conselho do Número 56 e parar de comer meu miojo com coca-cola em casa.

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*O pior? Isto nem foi um #publipost.

12/05/2022

[alinhavando] ♫* 심장 깊은 곳의 이 떨림 You are my messiah (killing me)


Desde o final de 2021 levo um caldo de Hallyu, a Onda Coreana, me divertindo com um ou outro produto da Coreia; no entanto o próprio fenômeno cultural é mesmo o que mais instiga minha curiosidade. Especificamente quanto ao K-Pop, a comunicação dos Idols com as fãs é o que tem roubado minha atenção, sobretudo aquela durante as lives informais, publicadas em sites como VLive e Instagram — aliás, teorizo que esse diálogo é O grande diferencial do mercado musical coreano que, tal qual diversas empresas modernas, percebeu que não basta ter um bom produto, é preciso construir um sólido séquito de seguidores. Nesse campo, confesso assumir tanto a posição da curiosa e observadora crítica, quanto a da fã seduzida; contudo me motivo a esmiuçar as engrenagens dessas lives justamente porque tenho plena consciência de que foram elas que me enlaçaram fortemente a certos idols. Quer dizer, aplicarei o que escreveu Amanda Montell: em qualquer seara da vida, se você sente que algo está estranho, mas não sabe apontar exatamente o porquê, a linguagem é um ótimo lugar onde começar a buscar pistas. E sim, é inegável a existência de um linguajar peculiar e recorrente empregado pelos artistas coreanos, em menor ou maior extensão, quando em contato com as fãs. Desse modo, como espécie de guia na organização das informações coletadas a partir das lives a que assisti, usarei o Cultish, The Language of Fanaticism, livro no qual Amanda Montell, com abordagem simples e despretensiosa, discute a linguagem utilizada por líderes de cultos com legião de seguidores. [E só porque não tenho uma amiga kpopper com quem conversar...]

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Começo por ressalvas relevantes:

👄 Cultish não aborda o Universo K-pop. Meu plano é pinçar certos elementos linguísticos citados pela autora que, a meu ver, se encaixam ao linguajar observado entre idols, ou seja, todas as associações ao k-pop neste post são por minha conta, baseadas em pessoal experiência de observação.  [*Aproveito para enfatizar: que baita objeto de estudo para acadêmicos da área. Pesquisadores, uni-vos! Em rápida busca, localizei trabalhos analisando a linguagem da mídia ocidental ao reportar o Hallyu, bem como estudos sobre o quanto o coreano estaria se mesclando ao inglês falado por grupos de fãs — temas, por sinal, igualmente instigantes.]

👅 Por enquanto, minha amostra de lives é pequena e enviesada, infelizmente. A quantidade de idols fazendo lives é enorme, não tenho tempo — nem disposição — de ver tudo (primeiro encontro músicas de que gosto, e só então surge o interesse de buscar uma live do respectivo artista). Por exemplo, ainda não assisti a nenhuma live de girl groups (porque não curto as músicas) ou de cantoras solistas. — Mulheres adotariam uma abordagem distinta? Careço de evidências. — Para além disso, percebi que a maioria das lives a que assisti são de idols da 2ª e 3ª geração, ou seja, não vi nada de artistas novos, pouco experientes — Os novatos estariam inovando? Não sei dizer. — Também lamento que minha amostra não inclua a comunicação em plataformas similares ao Bubble, espécie de aplicativo no qual as fãs pagam um valor mensal para ter direito a conversas especiais e restritas com o ídolo (uma área vip, mais ou menos). Encontrei somente algumas trocas de diálogo nesses espaços privados, e o negócio é, digamos, singular. Ah, e abordo objetivamente as lives protagonizadas por apenas um membro, pois são minhas prediletas. 

👂 De modo algum estou aqui criticando ou "denunciando" (pelo amor de deus) que a turma kpopper se organiza como um culto; loooonge disso. De saída, transcrevo esta frase do livro:  We’re “cultish” by nature / (~) Por natureza, nos inclinamos a cultos. Conforme Montell explica, embora a palavra culto se revista de forte tom pejorativo, trata-se de um termo bastante inespecífico na verdade, pois o que existiria é um espectro: num polo, cultos inofensivos e benéficos; no outro, cultos nefastos, violentos e criminosos. A depender dos elementos identificados em qualquer relação humana, será possível encaixá-la num ponto desse espectro. A partir do que Montell discute no livro, eu consideraria o Universo K-Pop uma positiva experiência de culto, notadamente porque (1) não há coação para entrar, (2) não emprega eufemismos que buscam deformar a realidade ou camuflar objetivos espúrios, (3) ninguém é constrangido e/ou perseguido caso decida desembarcar e (4), até onde pude perceber, é um meio que permite formar vínculos saudáveis de amizade. Apesar disso, vale trazer uma ressalva citado no livro de Montell, inclusive porque euzinha — kpopper novata, porém com muitos quilômetros de vida rodados — me peguei caindo na arapuca. Cultish afirma haver pesquisas psiquiátricas nas quais resta demonstrada uma alta incidência de distúrbios psicossociais entre fãs de celebridades, tais como transtorno dismórfico corporal, obsessão com cirurgias plásticas, mau julgamento de limites interpessoais, ansiedade, disfunção social, narcisismo, dissociação e comportamentos persecutórios. Pois bem, durante essas lives, é bem recorrente que os idols compartilhem constantes preocupações com peso corporal, dietas mirabolantes nas quais apostam (há lives em que se pode ouvir a barriga do pobre artista roncando de fome), ansiedade por estarem envelhecendo, inseguranças relacionadas à pele, cabelo, nariz, boca, mãos... Enfim, de tanto ouvir essa ladainha, eu mesma, que há muito tempo me conformei com a feiura e a velhice, me peguei brevemente cabreira por ser uma kpopper titia, reparando em assimetrias no rosto. (*MDDC*) Dessa maneira, avalio caber cautela para não se deixar contaminar pelas neuras próprias desses artistas, algo que talvez uma jovem não tenha de sobra. Mencionaria ainda que, por vezes, a linguagem deles acaba, perigosa e inadvertidamente (?), estimulando a construção de relações parassociais. Pode-se argumentar haver um tom cômico, do qual as fãs estariam cientes, quando eles dizem coisas do tipo "fico feliz quando sentem ciúmes de mim"/"gosto que sintam tanto minha falta"/"vou pegar quem está te maltratando/"acho estranho que tenham namorados"/"digam que me amam", mas sigo encarando com estranheza esses tipos de falas direcionadas a um grupo tão heterogêneo e desconhecido de pessoas (no caso do BTS, por exemplo, são milhões de fãs assistindo; de todas as idades, em vários pontos do planeta). 

👀 Por fim, é imperioso destacar: essa comunicação é intermediada por tradução (para a enorme parcela de fãs não coreanas, é óbvio) que, a propósito, fica a cargo das próprias fãs em várias situações. Ou seja, todos os recursos de linguagem apontados por Montell em Cultish, e aplicados pelos idols, chegam às interlocutoras por via da tradução e, mesmo assim, os efeitos da mensagem não se perdem. É fascinante. Quanto ao tema, e para incitar devaneios, deixo este curto diálogo, extraído de uma live:

Fã nos comentários, em inglês: - Não entendo o que você está falando, mas te amo.
  Idol, respondendo em inglês: - Obrigado. Hum*... (*dito em tom sério e pensativo).


Ressalvas feitas, vamos à listinha de trechos de Cultish, acompanhados de breves comentários do que observei no Universo K-pop.
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👄 "(...) a hair-raising sermon."
Antes de ler o livro, a ideia não havia passado por minha cabeça, porém bastou pôr os olhos na palavra "sermão", e eu tasquei: taí!; essas lives aproximam-se de um sermão, seriam o instante ritualístico em que a comunidade suspende tudo o que está fazendo, para ouvir a tão aguardada palavra do querido líder. (O show seria a celebração máxima, óbvio.)


👅 "When repeated over and over again, speech has meaningful, consequential power to construct and constrain our reality."
É essencial que a linguagem seja repetida com frequência, repetidas vezes, a fim de que seus poderosos efeitos sobre a realidade sejam sentidos; o que significa dizer que essas lives não podem ocorrer apenas de vez em quando. Pelo que observei, chutaria haver o objetivo mínimo de 01 live/mês, aumentando-se exponencialmente essa frequência durante os períodos de comeback (= lançamento de um novo álbum). Para ilustrar o quanto isso é levado a sério, registro que membros do BTS, após shows e cerimônias de prêmios, voltam ao hotel e ficam, sei lá, meia hora falando com as fãs. Taemin ( meu ultimate bias/UTT = o favorito dos favoritos) é outro que, no carro de volta pra casa após o show de 1h30min, bate papo com as fãs por 20 minutos. Você, pessoa não kpopper, imagine sair pilhada e felizona de um show e, na saída, poder conversar com o querido ídolo a respeito do show que acabaram de vivenciar juntos! Ainda que eu tenha compadecido da trabalheira/correria por que passam esses artistas**, achei a proposta massa. 

** = Embora Montell não cite esse específico recurso, ele é rotineiro na fala dos idols: é fundamental sempre destacar o quanto estão trabalhando duro, dando o máximo de si e se sacrificando; tudo pelas fãs, é lógico. Na realidade, é um elemento que integra a próxima estratégia desta lista: 👇


👂"(...) brands that succeeded in cultivating extreme solidarity and loyalty among both employees and patrons (...)"
Esse expediente é presença praticamente garantida nos discursos dos idols: o cultivo da solidariedade e lealdade extrema entre as partes. Por exemplo, eles jamais deixam de agradecer as fãs, quase sempre fazendo questão de reconhecer que tudo que conquistaram foi por causa das fãs. Trabalha-se uma linguagem que atenda à necessidade de consolidar uma parceria, um pacto entre idol e fã. De um lado, o idol se esforçará para entregar boas músicas e performances (vide o que citei no item anterior; ressaltar que se matam de trabalhar); do outro, a fã retribuirá comprando os discos, indo aos shows, ouvindo as músicas em sites de streaming, visualizando os music videos, e... 👇


👀 "Next step: Each month, recruit ten new members (...)"
...trabalhando para o artista, na medida em que as fãs se encarregam da trabalheira de divulgar os novos discos, elevar as músicas no topo das paradas de streaming. Dia desses, tive ciência de que, na Coreia, fãs colaram adesivos nos carros, para divulgar o disco novo do bias. Eu diria que o BTS é um exemplo extremamente bem-sucedido do método da parceria. Se duvidar, esta é a grande chave do sucesso do grupo, sobretudo porque o BTS aparenta trabalhar não só a parceria Idol-Fã, mas também a Fã-Fã, contribuindo para estreitar os laços entre os próprios membros da comunidade.


👄 "(...) offered not only desirable products and services, but also personal transformation, belonging, and answers to big life questions (...)"
Embora eu não tenha identificado esse subterfúgio nas falas dos idols às quais tive acesso [*se bem que a última live do Namjoon (BTS) teve um pouco disso....], acho importante incluí-lo aqui, porque trata-se de um elemento que se faz intensamente presente nos discursos das fãs do BTS principalmente. Não sei até que ponto os artistas se articularam para firmar essa questão na comunidade, no entanto chutaria que o fenômeno tem, sim, dedo dos idols — ainda que somente mediante o teor das letras das músicas —, pois é como diz Montell: "...a linguagem funciona como a cola que liga o viciante combo comunidade e motivação." Em qualquer um dos diversos artigos que pipocam na internet defendendo o Army contra críticas, é praticamente certo deparar-se com este parafraseado argumento: não se trata apenas de música pop ou de fãs enlouquecidas por galãs coreanos; é algo muito maior - é acolhimento, pertencimento e transformação


👅 "They share intimate stories and hardships from their own lives and invite followers to reciprocate. Followers form deep-rooted loyalties to their favorite teachers..."
Cada idol escolhe como matará o tempo das lives. Na minha amostra, a música (os artistas cantando para as fãs e/ou promovendo um novo lançamento) preenche largos intervalos de tempo, é preciso assumir; no entanto, por ser um momento marcado (teoricamente) por informalidade (às vezes, estão em suas próprias casas — adoro*), a live corresponde à oportunidade para que o idol se mostre melhor às fãs, possivelmente compartilhando questões íntimas. Conforme adiantei nas ressalvas, não raro eles desabafam suas ansiedades e são mais espontâneos, falando bobagens que tipicamente falamos em conversas com amigos. Então, tendo em mente a citação de Montell, é inegável que aqueles idols que se sentem à vontade para expor um pouquinho de suas reais personalidades — quero dizer, baixando a guarda e criando uma brechinha para seus mundos interiores —, são os que têm mais sucesso em estabelecer a ilusão de intimidade com a fã. Comigo, pelo menos, é o recurso de melhor eficácia.

*Nas palavras de Montell:"(...) sits close to the camera, creating the cozy atmosphere of a home gathering or a one-on-one conversation, (...)"


👂 "But sex appeal isn’t just looks—it’s an ability to craft the illusion of intimacy between yourself and your fans. (...) The key to creating the following is to sound authentic. When you sound like popcorn, people can hear it"
Comumente líderes de seitas são tidos — ao menos entre as seguidoras — como caras sexys e charmosos. A maioria dos idols coreanos é inegavelmente agraciada pela beleza física (há embustes, entretanto é prudente omitir nomes), contudo a observação de Montell é pertinente mesmo no Universo K-Pop: a famigerada beleza não costuma se sustentar na aparência física propriamente dita, mas sobretudo na habilidade do líder em bombardear a seguidora com o linguajar certeiro. Enfim, é preciso saber seduzir; criar e sustentar bem a ilusão de intimidade. Essa específica habilidade é dominada com maestria por muitos idols, porém também há diversos desprovidos de carisma e que soam mais falsos que uma nota de três reais, sem nenhum talento para falar com fã. É frustrante curtir a música de um desses artistas, daí abrir uma de suas lives apenas para dar de cara com um blob desprovido de personalidade, que não sabe segurar uma conversa por míseros vinte minutos (repito: é mais seguro omitir nomes). A propósito, essa sensação de falta de carisma/artificialidade ocorre especialmente com idols que preferem manter bem alto o muro que os separa das fãs, digo, aqueles que não admitem nenhuma posição de vulnerabilidade.


👀 "Across the influence continuum, cultish language works to do three things: First, it makes people feel special and understood. This is where the love-bombing comes in: the showers of seemingly personalized attention and analysis, the inspirational buzzwords, the calls for vulnerability (...)"
Acredito que o love-bombing — bombardear a fã de amor/afeto — é expediente onipresente nas lives de idols. A facilidade com que dizem Amo vocês persiste surpreendendo, assim como sempre acho graça quando perguntam "Vocês já comeram? O que comeram? Cuidem da saúde." Ah, também é curiosa a necessidade de sempre reforçar que não estão ali, batendo papo, porque a empresa mandou (ou porque o bussiness exige), mas sim porque estavam com saudades. Dia desses, caí na gargalhada com o JK (BTS), no Instagram, aconselhando as fãs coreanas a levarem um casaquinho aos shows, pois estava fazendo frio. Muitas vezes a abordagem até soa singela, porém a sensação de artificialidade constrangedora é bem mais frequente — é a habilidade do idol em soar autêntico, conforme referido por Montell, que ditará qual desses dois efeitos prevalecerá.


👄 "This goal of isolating followers from the outside while intensely bonding them to each other is also part of why almost all cultish groups (as well as most monastic religions) rename their members (...) the special jargon (...) In the beginning, learning this private terminology makes speakers feel, well, cool (...)"
Cultos são notórios por empregarem um vocabulário particular, e o k-pop não foge à regra. Na minha experiência, com frequência necessito apelar ao Google, a fim de entender onde estou me metendo ou do que diabos estão falando — e não me refiro somente à barreira coreano x português. Além disso, fiquei estupefata ao descobrir que, ao contrário do que eu supunha, são os próprios idols quem apelidam/nomeiam as fãs; e também a cor da comunidade, o lightstick... Quer dizer, a estratégia de culto Us x Them (Nós x Eles) é igualmente levada a sério. Ignoro se a bizarra rixa entre grupos distintos de fãs nasce daqui, ou mesmo se seria encorajado pelos idols. Particularmente, nunca vi nada nesse sentido partindo explicitamente da fala dos artistas, e duvido que ocorra. 


👅"(...) His lullabies and moodiness, even his tantrums, gave him an “innocent adorable” factor (...)"
Embora não seja possível afirmar que todos apelam para a fórmula, com certeza ela está presente na linguagem da maioria: bancam e soam feito fofinhos adoráveis e inocentes (*em coreano, é o tal Aegyo). Para ser justa com esses artistas, é forçoso reconhecer que as próprias fãs enchem o saco pedindo esse tipo de comportamento — "Ãin, faz coraçãozinho; ãin manda beijinho"; nossa, é chatérrimo (too old for this shit) —, contudo Montell esta aí demonstrando que a parada funciona para segurar seguidoras. [Praticando a honestidade: e se eu disser que o atual bordão do meu UTT é "Adorable"? Reclamo, porém caí direitinho na conversa fiada.]


👂 "(...) she was provided scripts to post verbatim that made (...)"
Não obtive evidências, no entanto suponho que ninguém discordará de que o mais provável é que as empresas treinem os idols na comunicação tanto com as fãs, quanto com a mídia. As recorrências de vários cacoetes de linguagem entre todos é tão impressionante, que conjecturei a existência de um eventual checklist. Posso afirmar, entretanto (pois eles confessaram e/ou vemos indiretamente), que todas essas lives são acompanhadas por, pelo menos, um funcionário da empresa, seja para monitorar os comentários das fãs, seja para ficar de olho em eventuais bobagens que os artistas falem. 

Acrescento que, em sua última live, Namjoon (BTS) compartilha que a conversa em inglês lhe exige cautela, pois sente que, expressando-se nesse segundo idioma, a probabilidade de falar o que não deve é maior, em comparação ao coreano. Achei a informação incrível, outro campo instigante para estudo envolvendo linguística e comunicação em mídias; sobretudo porque a sensação compartilhada por ele não parece resumir-se ao mero comportamento entre Língua Materna X Segunda Língua, mas resultar da própria estrutura dos dois idiomas, em paralelo aos aspectos culturais das sociedades onde são falados. Pesquisadores, uni-vos!


👄 "(...) just stares intensely into the lens, grinning, barely blinking, intermittently murmuring, “I love you.” He calls these parasocial gaze-offs (...)"
Uma vez que o parasocial gaze-off (⥲ olhar parassocial, com sussurros de carinho próximo à câmera) exige uma maior desenvoltura e habilidade sedutora do idol, poucos têm coragem de aplicar esse complexo recurso; mas que rola entre alguns, ah rola — e eu sempre fico sem acreditar na audácia do fdp. [*sim, meu UTT faz ㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋ.]


👅 "(...) has announced that he doesn’t want children because he already has seven billion (...)"
Em defesa dos idols, aponto o dedo para as fãs, que toda.fucking.hora pedem para se casar com eles. Pelo amor de deus, sabe? Ok; pode até ser brincadeira besta, mas, sei lá, se for pra fazer piada, por que não pedir logo ~outras coisas~? Casar?! Que papo chato. Na última live, Namjoon (BTS) me surpreendeu ao perguntar, levemente aborrecido, que moda é essa de pedir pra se casar com ele. Enfim, esse papinho de que vão se casar com sei lá quantas fãs, mencionado por Montell em referência a certo guru, é relativamente frequente entre idols (não todos). 


👂 "For you, it might feel like the quest for self-actualization, but for them, it’s a profitable, scalable, passive-income-generating cash cow."
Para fechar, é preciso deixar claro que não estou criticando esses artistas, nem afirmando que são um bando de falsianes. Apenas sustento que talvez seja prudente não perder de vista o que está em jogo nessas conversas: uma empreitada que mobiliza muita grana e a promessa de uma carreira sólida e longeva. É benéfico sonhar o sonho — por enquanto, eu mesma estou me divertindo com esse sonho —, porém prefiro preservar a consciência de que, no fim das contas, estou meramente sonhando. [Mas, hey, cada qual com seu cada um, sim? Afinal, quem sou eu nesse rolê? Só uma kpopper novata e gagá, pobre de mim.]
...

Nota: às fãs que gravam todas essas lives e as disponibilizam traduzidas no You Tube, meu muito obrigada; especialmente às Jjakkoongs (짝꿍) e Shawols. 😊

30/04/2022

[alinhavando] Undoing the latches

Após encerrar as atividades no final de 2021, eis que, mais uma vez, resgato das cinzas o bloguinho. Para além de questões logísticas, a pausa resultou da concretização do que eu previra ano passado: meu pescoço travou linda e dolorosamente. Houve melhoras com a fisioterapia, porém sigo com dificuldades para permanecer sentada por longos períodos (e meu trabalho já me exige muitas horas à mesa); portanto é preciso cautela. A regra deste espaço sempre foi "só escrevo quando quero e sobre o que quero", de modo que apenas terei de acrescentar um "e se minhas condições físicas também quiserem." (Idade bateu demais.) Dessa maneira, hiatos sem postagens poderão tornar-se ainda mais longos, mas tudo bem. Por ora, estão publicadas no blog apenas algumas das postagens antigas. Aos poucos, republicarei outras, não todas. 

Ah, por que voltei? Hum... Talvez uma leitura deste ano tenha contribuído para a decisão. Marcelo, o narrador protagonista do livro Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas, durante seu rastreio de bartlebys, acabou por me lançar a pergunta: 
"— E a senhora, por que não escreve?
As mulheres, às vezes, são de uma lógica arrasadora. Olhou-me, surpresa com a pergunta, sorriu e me disse:
— O senhor está brincando comigo. E então diga-me: por que eu deveria escrever?"
To write or not to write, that is the question. (Na Internet de 2022, então, nem se fala.) Marcelo, soltarei por uns instantes a mão de meu querido Bartleby e retomarei a jornada da blogueira do sim. Yes, I'd rather not to write (groselhas). [*até o dia em que eu prefira não.]

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Na tentativa de me adaptar ao Instagram (devido à falta do blog), postei por lá um alinhavo, em vídeo curto, entre estes dois livros: Os Tais Caquinhos, de Natércia Pontes e o  Autobiography of Red (Autobiografia do Vermelho), de Anne Carson. Num exercício de aquecimento para a volta do blog, incluo uma versão em texto logo abaixo. No entanto, dadas as condições do meu pobre pescoço, antecipo a possibilidade de, a partir de agora, recorrer com maior frequência ao formato de vídeos no blog. A ver.

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"(...) Pedro Garfias (...) um homem que podia passar uma infinidade de tempo sem escrever uma única linha, porque procurava um adjetivo. Quando Buñuel o via, perguntava-lhe;
— Já encontrou aquele adjetivo?
— Não, continuo procurando - respondia Pedro Garfias, afastando-se pensativo.

(...)

A vida é horrorosa, disse a mim mesmo. Imediatamente, porém, pensei que aquilo já não mudava nada e que era melhor não perder tempo procurando adjetivos para a vida."

            — Enrique Vila-Matas; Bartleby e companhia. (Tradutoras: Maria Araújo/Josely Baptista)


Quando resenhistas falam/escrevem a respeito de Os tais caquinhos, de Natércia Pontes, é recorrente relatarem que o livro trata da vida de adolescentes que, durante a Fortaleza da década de 90, vivem num apartamento sujo, fedido, entulhado de lixo, repleto de baratas, sem comida. Bem menos recorrente nas resenhas — pra não dizer quase inexistente — é a preciosa informação de que a autora escolhe que a forma de sua narrativa reflita o espaço caótico e entulhado no qual as personagens vivem. Ou seja, assim como as personagens, o leitor também habitará um texto sujo e amontoado. Para efetivar essa decisão estilística, a autora lança mão de alguns recursos narrativos, dentre os quais estão os diversos capítulos curtos que, empilhados no sumário, parecem esboçar a imagem dos caquinhos do título, algo que também relaciona-se à fragmentação em que se encontram as personagens do livro. Em resenha na revista 451, Iara Machado Ribeiro comenta esse aspecto formal do texto, chamando atenção ainda ao uso sistemático da conjunção "e": "Com blocos de texto sem parágrafo, iniciados sempre por inusitados títulos, e o uso sistemático da conjunção “e”, o enredo e a forma do texto se encontram nessa estética do amontoamento, a obsessiva conservação das coisas que formam uma vida." Neste meu post, no entanto, desejo me deter num específico artifício de escrita eleito pela autora: o excesso de adjetivação. Natércia Pontes escreve um texto repleto de adjetivos, outra ferramenta na construção de uma forma que espelhe uma vida em escombros. Quase todos os substantivos estão colados a um adjetivo; por sinal, o mais comum são dois adjetivos para cada. Consegui localizar uma resenha que aborda esse específico procedimento, escrita por Julie Fank, para o Plural Curitiba: "A adjetivação kitsch entalhada nas descrições quase faz, vez ou outra, a história escorregar, mas, notadamente, forma e conteúdo se dissolvem na decadência encapsulada de uma família em pedaços. É como se cada descrição nos propusesse um reconhecimento do caco estirado no chão, somente nomeável a partir da análise da arcada dentária."  Por mais que eu compreenda a escolha estilística da autora — em teoria, pertinente e interessante —, é forçoso admitir que não consegui dar conta de tantos adjetivos, sendo "vômito verde e luminescente" o ponto de máxima irritação em que me dei por vencida e abandonei a leitura. Não deixa de ser curioso, pois, ao admitir minha dificuldade em ler esse texto, é como se eu desabafasse às personagens: sinto por vocês, mas terei de abandoná-las, uma vez que não consigo viver nesse espaço caótico e sujo.

Passado certo tempo, tive uma epifania que me trouxe de volta à memória o que Anne Carson escreveu a respeito de Stesichoros, logo no início do livro Autobiography of Red (Autobiografia do Vermelho), o qual li este ano, pouco antes de Os tais caquinhos. Stesichoros foi um poeta da antiguidade clássica grega que se destacou por justamente fazer adjetivos. Ao apresentá-lo, Carson nos convida a pensar por um instante acerca de adjetivos. O que seriam adjetivos? Nas palavras da canadense, nomes nomeiam o mundo, verbos ativam os nomes, contudo adjetivos vêm de outro lugar. Em grego, a palavra significa "colocado em cima" — olha os cacos de Natércia Pontes, seus diversos e curtos capítulos empilhados na obra — importado, estrangeiro;  e, em princípio, parecem tratar-se de acréscimos inofensivos. No entanto, esses pequenos mecanismos importados são responsáveis por conectar todas as coisas do mundo a um lugar de particularidade. Os adjetivos são as travas do ser. ("They are the latches of being") Ao retrabalhar os adjetivos em sua épica, Stesichoros começou a desfazer as travas, de modo a permitir que todas as coisas do mundo passassem a flutuar livres; livres para todas as diferentes possibilidades de ser. Ao rememorar esta passagem do livro de Anne Carson, voltei a refletir, atônita, sobre a obra de Natércia Pontes; percebendo que a proliferação de adjetivos dialoga não apenas com os cacos e a sujeira, mas também com o tempo e espaço daquele livro. Possivelmente apenas aqueles que viveram a adolescência na Fortaleza da década de 90 compreendam, porém, eu vivi esse tempo/espaço e, quando penso nele, a imagem e sensação que me tomam é precisamente a de uma vida presa numa particularidade. Ali, naquele meio, não era possível flutuar para agarrar qualquer uma das inúmeras possibilidades diferentes de ser. Na Fortaleza da década de 90, uma amarra bastante firme segurava os adolescentes —  a Daniela adolescente, que seja — a um único jeito de ser. É claro que cada experiência é diferente, no entanto, pelo menos até o ponto em que li Os tais caquinhos, sinto-me segura em afirmar que as personagens do livro, a protagonista em especial, sentiam-se presas a uma única forma de ser, soterradas pelos caquinhos da vida. Embora irritantes, o quanto cresceram pra mim os tais adjetivinhos da narrativa de Natércia Pontes... Se duvidar, é outra razão por que não consegui terminar o livro: não quero (não posso) voltar àquele modo de ser, àquele tempo e espaço, ainda que apenas via literatura. Farei como a personagem de Vila-Matas, incluída na epígrafe do post: não perderei tempo procurando adjetivos para minha vida. Flutuar! é a ordem do dia. 

05/11/2021

Ne me quitte pas; Je t'inventerai des mots insensés que tu comprendras

L'Âge mûr, de Camille Claudel

 
"É inacreditável a frieza dos homens diante do padecimento de uma mulher abandonada sem compaixão. Ainda por cima, criticam as pessoas e se defendem muito bem."

— Sei Shônagon, O Livro do Travesseiro. 
(*Tradução: Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Yoshida, Madalena Cordaro)


Embarquei noutro daqueles devaneios nos quais, partindo de um ponto A, chego a um ponto B; porém sem entender por que fui parar ali. De qualquer forma, é precisamente pra isto que (também) me serve o blog: tentar compreender os percursos até os pontos B's e averiguar se, afinal, o ponto B é um destino pertinente ou uma tola fuga de rota. Pois bem, o início desta conversa fiada corresponde ao filme Camille Claudel (1988), do diretor Bruno Nuytten, no qual Isabelle Adjani interpreta Claudel e Gérard Depardieu encarna Rodin — trata-se da adaptação cinematográfica da biografia de Claudel escrita por Reine-Marie Paris, sobrinha-neta da artista. Considerando-se que meus conhecimentos acerca de Claudel se resumiam à escultura A Valsa e  a "um tal envolvimento com Rodin", suponho que não despertarei suspeitas ao compartilhar que o filme (visto em Maio/2021) me pôs num profundo estado de assombro e desalento. Num vexatório exercício de honestidade, assumirei que minha reação, para além da curiosidade despertada pela obra da escultora, partiu sobretudo do seguinte pensamento: ...mas será que foi disso, então, que escapei (fedendo)? Calma, não estou insinuando ser uma artista que se relacionou com um escultor famosão, mas simplesmente que já interpretei o —inevitável? — papel da mulher abandonada. Deprimente e deplorável, é o que me restrinjo a dizer a respeito da experiência. O caso de Claudel, no entanto, é marcado por certas peculiaridades desconsoladoras: eventos ocorridos no final do século XIX, no seio de uma sociedade francesa moralista e machista; protagonizados por uma mulher solteira de meros 20 anos; uma talentosa artista que, em pleno início de carreira, se envolve profissional e amorosamente com um homem casado de mais de quarenta anos, daí colocando-se deliberadamente à sombra de um artista do porte de Rodin (já renomado naquele período). O sentimento de sororidade fatalmente me conduz à ingênua pergunta "por deus; não tinha ninguém para avisá-la da cagada em que se metia?!", porém basta recordar que falo de uma mulher apaixonada (e jovem; pior) para constatar que qualquer alerta seria inútil. O lamentável resultado para Claudel: a perda da razão, uma carreira artística abortada prematuramente e trinta anos vividos internada num hospital psiquiátrico. O chão me escapa. 


Fiquei tão ansiosa para conhecer melhor o trabalho de Claudel que, no mesmo dia em que vi o filme, comprei no sebo o livro organizado pela Pinacoteca de São Paulo para a Exposição Camille Claudel, a qual ocorrera em 1997 no Ibirapuera, com a curadoria de Reine-Marie Paris. Gravei um vídeo bastante improvisado no qual o folheio, só para dar uma ideia do material — ressalto que gostei bastante dos text  textos de apoio.

 

Quanto à leitura, incluirei na postagem estas breves descobertas:

➽ Trecho de uma das cartinhas que o senhor Rodin mandou a Claudel durante o flerte; permeado de uma profecia reversa tragicômica (ah, a vontade de dar um soco...):
"...Não aguento mais, não posso passar mais um dia sem vê-la. Senão é a atroz loucura. Tudo acabou, não trabalho mais, (...) amo você com furor. (...) não deixe que a horrível e lenta doença atinja minha inteligência, o amor ardente e tão puro que sinto por você. Enfim, piedade minha querida, e você mesma será recompensada."

                                                                                                                    — Rodin, 1883. 

➽ Ao ler algumas das cartas escritas por Claudel durante a internação, restou a impressão de que o senso de realidade da artista fora de fato afetado com repercussões clínicas relevantes em sua capacidade funcional (há recorrentes sinais sugestivos de delírios persecutórios, por exemplo). O que permanece bastante questionável, entretanto, é a indicação clínica de mantê-la internada num manicômio — em especial por 30 anos —, impedindo-a de continuar produzindo (se é que desejava). As críticas dirigidas à conduta da família da artista, em especial ao irmão, talvez tenham fundamento. Transcrevo, a seguir, o fragmento de uma dessas cartas, o qual ilustra meu questionamento (grifos meus):

"Haveria ao menos alguém que tivesse reconhecimento e que soubesse oferecer algumas compensações à pobre mulher cujo gênio despojaram? Não! Uma casa de alienados! Nem mesmo o direito de ter meu canto!... (...) é a exploração da mulher, o massacre da artista a quem querem fazer suar até o sangue."

                                                                                                          — Camille Claudel; 03/03/1930 

➽ Conheci melhor a obra de Claudel e, neste post, anoto somente dois pontos: 
(1) A Valsa (1895-1905)

Em minhas observações da escultura A Valsa, jamais enxerguei uma saia vestindo a mulher; a qual, inclusive, fora acrescentada por causa do chilique crítico contra a nudez do casal — no desenho de Claudel, fica claro tratar-se de uma saia. O que sempre enxerguei na peça é a imagem de um casal rodopiando a medida que emerge em explosão a partir das profundezas do mar (sim!, uma escultura em movimento...), motivo da presença de algas — e não saia — vestindo a parte inferior da valsista. De qualquer jeito, minha prévia leitura não é equivocada, pois o texto do livro descreve a obra "como uma concha marinha" (boa, é isso que vejo). No mais, confirmei que as heroínas de Claudel se projetam em direção ao céu num grande voo ou espiral quebrados; a ascendente oblíqua constitui o eixo preferido de suas esculturas. Também adorei saber que a música e a dança fascinam as heroínas da escultora, as quais assumem o papel de uma dançarina hindu mais que europeia, dançando sem pés nem pernas, com os braços, com seus dedos e a cabeça jogada para trás.

(2) A Onda (1897)

Uma vez que vejo mar em tudo, mal pude conter o feliz espanto diante da escultura A Onda (não conhecia); esta quarta dimensão onde a pequenez humana se situa frente à imensidão do mundo; uma confusão imaginária com uma força marinha, o fluxo do desejo, da pulsão carnal projetada fora de si.
 
E, opa, super dialoga com as algas que sempre enxerguei (e continuo enxergando rs) em A Valsa. Adorei demais a obra.



➽ Por fim, destacarei uma passagem do texto O espelho e a noite, escrito por Gérard Bouté, pois será fundamental para o alinhavo final desta postagem (grifos meus):
"Assim como o poeta fala por entre palavras, desvia as palavras de seu sentido por subversão da língua comum, também a escultura de Camille, vibrante, construída como um escape, embaralha o mundo das aparências. Ela é feita do desejo. Metamorfoseia o desejo em amor da forma. Transforma o sentido em energia, faz surgir o sentido do corpo de sua massa."

                                                                                       — Gérard Bouté, O espelho e a noite. 

Este é o aparente momento And now for something completely different (E agora para algo completamente diferente); contudo prevejo que, ao final deste post, a pertinência deste suposto desvio restará demonstrada. Em meio às reflexões propiciadas pela vida e obra de Claudel, por acaso calhei de ler (pela primeira vez) o lindo poema Tríptico, do português Herberto Helder. A foto do danado está na mão:

(*cobri parte de minhas marginálias, pois sou pudica.😁)

Tríptico é o segundo poema da coletânea Poemas Completos (Tinta da China) do poeta, o que complicou um bocadinho minha leitura, pois, após lê-lo, simplesmente não consegui superá-lo e avançar para o próximo. Os versos de Helder persistiram martelando minha cabeça por dias, e me vi obrigada a buscar análises que me ajudassem a entender meu apego. Não esmiuçarei aqui o poema — malz aê —, mas apenas trarei a imprevista chave de leitura que me interessa para meu devaneio. Com o papo de "amador" pra cá e "amada" pra lá, o eu lírico de Helder acaba sugerindo a imediata e fácil leitura de um amor romântico entre duas pessoas, porém o texto Camões Transformado e Re-Montado: o caso de Herberto Helder, de Rui Torres (li aqui: X) chamou-me atenção à leitura que Maria Lúcia Dal Farra faz de Tríptico, a qual enxerga no poema uma metáfora da própria leitura; assim como da própria escrita, conforme complementado conclusivamente por Torres:
"Maria Lúcia Dal Farra vê, também, neste poema uma metáfora da própria leitura onde o amador é o leitor que vem com seu silêncio e seu ruído, e onde a coisa amada é o texto (FARRA 1978: 87), para depois referir a permeabilidade e o espaço físico representados pela amada como sendo a opacidade do texto (OP. CIT. 1978: 88). 
(...)
Deste modo, não se trataria apenas de uma leitura desmistificante do amor platônico, mas também uma leitura do próprio processo de busca que o poeta realiza na escrita. E isso faz-se através da posse, do texto, esse espaço baía onde o amador-poeta  se renova e se transforma, com ele, transformando o mundo. "

                                 —  Rui Torres, Camões Transformado e Re-Montado: o caso de Herberto Helder

Relendo o poema com essa nova chave em mãos, um novo fascínio certamente se revelou pra mim. Por ora, guardemos este dado: amador e amada se batendo mutuamente —  Escritor  X  Escrita —, transformando o mundo num ruído áspero; alimentando o silêncio do mundo e do amor. 



Para encerrar esta groselha, incluo a grata surpresa que tive ao ler — motivada pela presença de Camille Claudel  — a obra Paixão Simples, de Annie Ernaux (Editora Objetiva, 1992 - Tradução: Adalgisa Campos da Silva). O livro pegava poeira em minha estante há algum tempo; e lembro de tê-lo adquirido num sebo após esbarrar com os comentários de uma leitora dinamarquesa que afirmara ter encontrado nas palavras de Ernaux um alento para a dor provocada pelo fim de um romance. Além disso, se a capa ilustrada pela escultura O Beijo, de Rodin, não for um sinal de que este era o momento certo de lê-lo, não sei o que mais seria.

Em Paixão Simples, Ernaux rememora seu envolvimento amoroso com um estrangeiro casado (a autora é notória por textos autobiográficos, descobri) e, até certo ponto, o livro oferece ao leitor o antecipado: a descrição de um amor tórrido protagonizado por uma mulher apaixonada que, uma vez tomada pela loucura passional, vive, pensa e respira em função do homem amado. Até aí, beleza; no entanto há, pelo menos, duas cruciais ressalvas:

1. conforme Marylène Caron escreve na tese Annie Ernaux, Passion simple et L'occupation: féminisme, autosociobiographie e passion amoureuse (2014; li aqui: X), Ernaux narra sua experiência amorosa sem o sentimentalismo que facilmente se suporia observar. Longe de lamentar a condição de amante abandonada, a autora analisa sua paixão de maneira impessoal, permanecendo na linha estrita dos fatos e sem jamais perder o foco crítico quanto aos eventos recordados. O resultado é que a narrativa de Paixão Simples desvenda a artificialidade do estereótipo comumente ligado à mulher escritora. 

2. a narrativa de Ernaux reiteradamente confronta o leitor com explícitas reflexões metatextuais — em outras palavras, acerca de seu processo de escrita — que parecem operar à semelhança do que ocorreu com aquela leitura do poema de Herberto Helder, causando-me a sensação de que a autora corroborava a chave de leitura que Dal Farra e Torres ofereceram a Tríptico. Em determinado momento da leitura, comecei a me perguntar se Ernaux rememorava um relacionamento amoroso com um homem ou se, na verdade, discutia a natureza de sua relação (amorosa?) com a própria escrita. Para facilitar a compreensão do que tento dizer, listo alguns pontos discutidos pela narradora ao longo do livro:

- Escrita X Sexo?
"... esta deveria ser a tendência da escrita, esta impressão que a cena do ato sexual provoca, esta angústia e este estupor, uma suspensão do juízo moral."

- Viver uma paixão = Escrever um livro?
"...sensação de estar vivendo esta paixão da mesma maneira que eu escreveria um livro: a mesma necessidade de construir bem cada cena, a mesma preocupação com todos os detalhes."

- Em que modo escreve?
"...agora já não sei em que modo escrevo, se é no do testemunho, vai ver é no da confidência nos moldes da que se encontra nas revistas femininas, no do manifesto ou no do processo-verbal, ou mesmo no do comentário de texto."

- Vergonha de escrever sobre uma experiência pessoal?
"... não sinto vergonha de anotar essas coisas, por causa do espaço de tempo que separa o momento em que elas se escrevem, em que na solidão eu as vejo, do momento em que elas forem lidas pelos outros, que aliás. acho que nunca chegará. (...) (Logo é um erro que nos leva a tachar de exibicionista quem escreve sobre a sua vida, pois exibicionista é quem só quer uma coisa: se mostrar e ser visto na mesma hora)."

- Por que escrever memórias?
"O tempo da escrita não tem nada a ver com o da paixão. No entanto, comecei a escrever para continuar naquele tempo, (...)"

- Escrita X Objetos na evocação de memórias:
"(E continua sendo tão doloroso reler as primeiras páginas quanto tocar no roupão de toalha que ele usava (...). A diferença: estas páginas sempre terão sentido para mim, talvez para outros também, enquanto o roupão — que só faz sentido mesmo para mim — qualquer dia já não evocará mais nada (...)"

- Por que escrever memórias II:
"Queria ver que diferença havia entre aquela realidade passada e uma coisa fictícia. (...) (Será que só eu volto ao local de um aborto? Será que escrevo para saber se os outros já fizeram ou sentiram essas coisas, ou para que encarem normalmente o fato de senti-las. Ou até para que as vivenciem também esquecendo que as leram um dia em algum lugar.)"

- O Tempo na Escrita
"Eu poderia parar na frase anterior e fazer de conta que nada do que se passa no mundo e na minha vida tenha qualquer possibilidade de intervir neste texto. Considerá-lo saído do tempo, em suma, pronto para ser lido. mas enquanto estas páginas forem pessoais e estiverem à mão como hoje estão, a escrita está sempre aberta. me parece mais importante acrescentar o que a realidade veio trazer do que mudar um adjetivo de lugar."


Mediante a leitura dessas passagens, imagino que seja fácil entender por que guardei, da análise de Tríptico, a premissa de que escritor e escrita se batem mutuamente numa relação de amor, transformando o mundo; certo? Caso esse alinhavo ainda esteja embaçado, vale partir para a conclusão à qual a narradora de Ernaux chega, por meio da escrita, quanto à paixão vivida com aquele homem casado (grifo meus): "Medi o tempo de outra maneira, com todo meu corpo. Descobri do que a gente pode ser capaz, isto é, de tudo. Desejos sublimes ou mortais, ausência de dignidade, posições e atitudes que eu condenava nos outros antes de recorrer a elas. Sem saber, ele me ligou mais ao mundo."  

No livro Lembrar Escrever Esquecer — li na sequência, incentivada pelas reflexões de Paixão Simples — , Jeanne Gagnebin me apresentou sumariamente ao pensamento de Paul Ricoeur, e confabulo que possivelmente as ideias de Ernaux sobre a escrita se aproximam bastante ao que esse filósofo francês defende quanto à hermenêutica do si pelo desvio necessário dos signos da cultura (destaque para o segundo volume de Tempo e Narrativa). Para sustentar a hipótese, trago este trecho escrito por Gagnebin (grifos meus):
"O segundo volume (Tempo e Narrativa)... Só queria ressaltar o sentimento muito forte que se apodera do leitor, enredado (!) pela estratégia narrativa de Ricoeur. O sentimento de que somente a arte da narração poderia nos reconciliar, ainda que nunca definitivamente, com as feridas e aporias de nossa temporalidade. (...) O tempo nos escapa e, por ele, como que escapamos a nós mesmos; mas a retomada dessa fuga na matéria frágil das palavras permite uma apreensão nova, (...) Uma nova apreensão que, ao criar sentidos, fugazes eles também, permite jogos ativos com o(s) tempo(s) e no(s) tempo(s) (...)"

                                         — Jeanne Gagnebin; Uma Filosofia do Cogito Ferido: Paul Ricoeur. 

Com o artigo De l’écriture « comme un couteau » à l’écriture « dans le vif » : Le vrai lieu d’Annie Ernaux (li aqui: X), publicado pela pesquisadora Mariana Ionescu, pude confirmar que o projeto literário de Ernaux efetivamente visa registrar a todo custo a passagem do desejo carnal à escrita, de modo a conferir sentido à opacidade de suas experiências — um sentido não só individual, mas também coletivo; ou seja, a autora pretende intervir em si e no mundo. 

Portanto, após todos esses paralelos estabelecidos, inevitavelmente questionei se essa não foi a saída que escapara a Camille Claudel. Digo; no começo deste post, transcrevi as palavras de Bouté, segundo as quais a escultura de Claudel embaralha o mundo das aparências, metamorfoseia o desejo em amor da forma e transforma o sentido em energia, confere? Então, assim como a escrita é capaz — vide o que aprendi com Helder, Ernaux, Ricoeur, Gagnebin —, será que o amor vivido na escultura também não poderia ter permitido a Claudel reconciliar-se com a dor do abandono? Mediante continuidade de seu trabalho como escultora, Claudel  não teria encontrado um sentido para sua experiência e um novo jeito de habitar o mundo? Ou ainda: ela não teria se transformado numa pessoa mais ligada ao mundo (usando palavras de Ernaux), em vez de desconectada dele? Dada a impossibilidade de obter uma resposta categórica às minhas indagações (e de mudar o passado), me resigno a encerrar este alinhavo lamentando profundamente o que ocorreu a Claudel, desejando que a artista finalmente esteja em paz.