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22/08/2021

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #06 - Emma Zunz

 (Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, disponibilizou resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre emma zunz: link 2

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

A primeira leitura de Emma Zunz me deixou no vácuo, causando-me a sensação de um ponto fora da curva borgiana (daquela que ora conheço; claro). Daí, optei por deixar o conto encostado, relendo-o vez ou outra, na esperança de que meu inconsciente o digerisse e me regurgitasse algo — ou, como habitualmente ocorre, na esperança de que eu esbarrasse numa obra que me ajudasse a melhor compreendê-lo. Hoje me dou conta de que um ano e meio já se passaram (!) e: nada. Ou quase nada. Não nego persistir um bocado encafifada com Emma Zunz, mas decidi que é hora de embarcar no esforço de organizar as ideias, sobretudo porque as recentes leituras/reflexões que fiz acerca de romances policiais (ajuda recebida de Georges Perec + Todorov) me sopraram que os paralelos que costurei, desde a primeira leitura, com outros dois romances é um ponto de partida bastante legítimo. 

Não sei se a ausência de romances policiais/thrillers entre minhas leituras justifica, mas é fato que não costumo me deparar com passagens literárias que descrevem personagens executando o plano de assassinato de outro ser humano. Possivelmente por isso — também não sei se justifica — certas imagens de Lolita e Ruído Branco, relativas exatamente a tais descrições, ficaram gravadas em minha memória, feito cicatriz. Logo, não me surpreendeu ser transportada de volta, pelas mãos de Emma Zunz, aos instantes nos quais Humbert assassina Clare Quilty e Jack (quase) assassina Mink. Dessa maneira, refleti em conjunto as experiências dessas três personagens e, a seguir, listarei algumas questões relevantes que pude identificar. [Disclaimer: faz muito tempo que li Lolita e Ruído Branco; portanto, ao apelar às minhas lembranças, é possível que eu incorra em imprecisões.]

(1) Os momentos preliminares, que prenunciam o bote
Chama atenção o quanto os autores investem na longa descrição — minuciosa, sem pressa; em flagrante oposição ao estado psíquico da/o assassina/o — daqueles instantes que antecedem o assassinato; resultando numa dramaticidade e suspense que, comicamente, me remetem à forma com que documentários sobre animais narram, sei lá, o leão se preparando para matar a zebra. Ora, o conto de Borges, sendo um tanto estrita, constrói-se apenas mediante tal artifício descritivo. Aliás, é muito provável que esse aspecto formal — do qual resultam imagens tão cinematográficas e vinculadas a sentimentos de intensa excitação — seja o efetivo responsável pela marcação das cenas de Lolita e Ruído Branco em minha memória de leitora. Além disso, é curioso que Nabokov tenha escolhido o período diurno para ambientar a preparação de Humbert, pois a noite, escolhida por Borges e DeLillo, aparenta ser um momento mais seguro para que o autor consiga provocar no leitor a almejada tensão/expectativa.

Outra noção marcante dessas descrições corresponde ao perfil dos caminhos por onde as personagens passam antes de proferir o golpe final; espécies de labirintos oníricos escondidos nos espaços urbanos. No livro Crime Fiction (The Cambridge Companion), Laura Marcus comenta que, segundo Chesterton (queridinho de Borges, por sinal), a ficção detetivesca é a poesia da cidade inscrita em hieróglifos urbanos; o que, na opinião de Marcus, abriria esse gênero na direção de duas ordens: aquela em que razão e lei prevalecem e, em oposição, aquela marcada pelo enigma e o fantástico. No conto de Borges, Emma Zunz serpenteia pelo porto [lembrei da segunda temporada de The Wire (HBO), ambientada no porto de Baltimore! coincidência? duvido], por bares e vielas; Jack (Ruído Branco) dirige por vias escuras, desérticas, locais que, dada a descrição de DeLillo, sequer lembram este mundo. Opa!, fisgarei essa deixa para lançar uma pergunta: o plano de assassinato exige que as personagens adentrem noutra realidade?? Ou mesmo que construam outra realidade na qual entrar? Suponho ser exatamente isso. O crítico Floyd Merrell explana bem o processo de construção da nova realidade, no qual incorre Emma Zunz (traduzo livremente):
"... Emma Zunz é bastante pragmática. Ela reconstrói sua realidade de modo que passe a atender a seus propósitos. Ela deseja vingar o pai, cuja morte decorreu largamente das ações exploradoras e repressoras do chefe. Então ela perde a virgindade para um marinheiro e, depois, atira no chefe do pai, contando à polícia que o morto a havia estuprado e que, portanto, ela meramente se defendeu. A realidade de Emma é dolorosamente real, (...) ela usa seu mundo da melhor forma que conhece, conformando-se a ele, ao mesmo tempo em que rebela-se contra suas injustiças, a fim de atingir seu objetivo."

                                            — Floyd Merrell; The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges 

É importante ressaltar que, conforme a leitura desse trecho crítico aponta, os assassinos são sujeitos ativos nesse processo de remodelação da realidade; quero dizer, são eles próprios quem deformam a realidade (ou: constroem a nova realidade), para que ela passe a se alinhar aos seus interesses prementes naquele instante específico — que, no caso dessas três personagens, relaciona-se ao ímpeto da vingança. E, como estamos falando de Borges, é óbvio que esta nova realidade pertence, igualmente, a um Tempo diverso: "Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes,...".

Acrescento que, ao folhear Ruído Branco antes de escrever este post (o li em 2019), reencontrei uma passagem que me fez reparar noutro aspecto peculiar: esses assassinatos ocorrem em espaços fechados; digo, Emma, Humbert e Jack entram (ou invadem, como queira) uma casa, a fim de cometer o planejado assassinato. Esse movimento de passagem, do aberto para o fechado, também me parece significativo para a hipótese de transição entre realidades distintas. Transcrevo o intrigante trecho de Ruído Branco ao qual me refiro:
"By coming in here, you agree to a certain behavior," Mink said.

"What behavior?"

"Room behavior. The point of rooms is that they're inside. No one should go into a room unless he understands this. People behave one way in rooms, another way in streets, parks and airports. To enter a room is to agree to a certain kind of behavior. It follows that this would be the kind of behavior that takes place in rooms.

                                                                         — Don DeLillo; White Noise (Ruído Branco) 

Ou seja, a narrativa de DeLillo, mediante essa fala de Mink, propõe que entrar num quarto, um espaço fechado, implica assumir um comportamento diferente daquele em espaços abertos. Então, ao penetrar nesses espaços, as personagens assassinas continuam a ser a mesma pessoa? Estaríamos falando, assim, de outra realidade E de outra identidade? Opa!, agarro essa segunda deixa para fixar o próximo item desta lista.

(2) "(...) quem sabe; já era a que seria." — Borges; Emma Zunz.
Quando Humbert confronta Quilty, ele se apresenta como o pai de Dolores, acusando-o de tê-la raptado e estuprado; em outras palavras, Quilty torna-se o único responsável pela desgraça que ocorrera na vida de Lolita. Humbert, naquele instante, deixa de ser Humbert; não tem mais culpa de coisa nenhuma, passando a ser apenas um papai que sofre e vinga a violência cometida contra a filha amada. Acredito que Humbert e Quilty se aproximam a um Duplo, porém com a notável ressalva de que é Humbert quem força esse Duplo ao se posicionar artificiosamente no polo oposto ao de Quilty, na tentativa de que deixem de corresponder a uma identidade em tudo equivalente. 

Minha leitura de Emma Zunz seguiu caminhos similares àqueles que percorri a partir da cena de Nabokov. Embora a narrativa de Borges não permita acessar o íntimo de Emma, teorizei, mediante os subsídios textuais fornecidos, que a notícia do falecimento do pai inundou a personagem de sentimentos de culpa: se Emma tivesse revelado a verdade acerca do crime pelo qual o pai fora injustamente acusado, será que ele teria se suicidado? Quer dizer, penso que a personagem entrou na paranoia de questionar se ela poderia ter evitado a morte do pai. Seguindo esse raciocínio, especulo que, para matar Loewenthal, Emma precisa projetar toda essa culpa nele — à semelhança do que fez Humbert. Inclusive, antes de efetivamente apertar o gatilho, ela já está convicta de que fora Lowenthal quem a estuprara, no entanto o leitor sabe que a decisão de transar com o marinheiro foi única e exclusivamente dela.

"Diante de Aaron Lowenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje por ela sofrido."

A assertiva destacada acima, ao mesmo tempo em que força a pergunta, lança a resposta óbvia: e como, com que recurso esses assassinos conseguem remodelar a realidade e a identidade; passando a experimentar um outro tempo? Elementar, meu caro Uátson: via relato, narrativa, ficção. [Vale lembrar que Humbert, "convenientemente", é um tonto das letras, não é?]
"Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação quase desacreditada por quem a executava, como recuperar aquele breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde?"
Eu sei, eu sei; ninguém aguenta mais esse papo de narrativa, mas suspeito de que o fastio geral é mera decorrência da plena ciência de estarmos diante de um fato incontornável da vida humana (e inumana até). O crítico Roberto González Echevarría discute diretamente a confluência entre crime e narrativa, na obra de Borges (traduzo livremente): "Tanto no crime quanto na ficção há um esforço para esconder os mecanismos da mentira que, com todas suas conotações morais, funciona como o incentivo. Emma executa o que acredita ser um crime perfeito, do mesmo modo que um escritor busca escrever uma história perfeita." (The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges)

Persistindo nessa reflexão, esta frase do conto borgiano me atrai em particular:

'...e o singular alívio de estar afinal naquele dia. Já não tinha de tramar e imaginar, dali a algumas horas chegaria à simplicidade dos fatos."
Quer dizer, esse processo de elaboração, via narrativa, de uma outra realidade e identidade é exasperante, não é algo que ocorre facilmente, sem dor alguma. — Escritores que o digam, imagino. — A propósito, o momento do assassinato faz com que o leitor compartilhe com a personagem assassina do mesmo alívio: a vítima morreu, encerrou o suspense e tensão, o fim da história chegou e, assim, ninguém precisa sofrer acompanhando/elaborando uma narrativa. Entretanto a cena de Ruído Branco subverte, até certo ponto, precisamente isso e, na verdade, é o que mais me marcou. Explico: disparados os tiros, ao ver o corpo ensanguentado à sua frente, Jack parece ser lançado para fora da realidade e identidade que construíra a fim de conseguir matar Mink. Em outras palavras, os disparos não trazem a Jack o alívio, mas sim o desespero de perceber que acabara de atirar contra um ser humano que, em consequência, morreria rapidamente, caso ele não fizesse algo para ajudar. Essa súbita mudança de chave no comportamento de Jack me surpreendeu bastante. 

Na sequência, cabe colar o trecho final de Emma Zunz:
"Com efeito, a história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios."
Considerando-se o estereótipo do judeu religioso e avarento ao qual recorre Borges no conto*, talvez parecerá provocação minha trazer Amós Oz para esta conversa, no entanto não é (acho). Em Os Judeus e as Palavras, Amós e Fania, ao comentar a eterna discussão acerca da veracidade do que está escrito nos textos bíblicos, escrevem algo de tocante perspicácia, que dialoga demais com o parágrafo final de Emma Zunz, transcrito acima:
"Mas os autores existiram, e sua linguagem existiu. Quem inspirou essas histórias? De onde vieram os heróis e heroínas, os enredos e fábulas, os diálogos e expressões? Da vida real, foi daí que vieram. De linhas de textos.
Um arqueólogo poderá se preocupar com o fato de os relatos bíblicos serem mera "ficção", mas nós viemos de um lugar diferente. "Ficção" não nos assusta. Como leitores, sabemos que ela transmite verdades."
 
                         — Amós Oz, Fania Oz-Salzberger; Os Judeus e as Palavras (Tradução: George Schlesinger)

Ou seja, toda ficção se sustenta numa verdade.
 
* [ADENDO] A caracterização de Loewenthal me intrigou e incomodou e, de fato, não consegui atinar por que Borges fez essa escolha narrativa. Questiono se esse artifício inadvertidamente (?) denuncia o antissemitismo disseminado, uma vez que me parece restar subentendido que o fato de Loewenthal ser um judeu avarento, quem sabe até criminoso, funciona como elemento que, para muitos (lamentável e infelizmente), torna a história verossímil, real. Sei lá, foi o máximo que consegui concatenar a respeito disso.

Pronto; encerro minhas groselhas aqui. Hora de dar play no vídeo da Aimée.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Opa, esse meu diálogo com Aimée ficou interessante, pois acabamos seguindo caminhos um tanto diferentes, ainda que tenhamos tocado em pontos comuns: em meus comentários, persegui muito mais os aspectos formais, numa reflexão a partir de romances policiais — em paralelo com outros dois romances—; enquanto Aimée destacou sobretudo os fundamentos psicanalíticos de Emma Zunz. Confesso que, embora seja impossível deixar de franzir a testa durante a leitura do trecho "Pensou (não pôde não pensar) que seu pai fizera com sua mãe a coisa horrível que agora lhe faziam.", esse lado psicanalítico e a sexualidade aparentemente mal resolvida de Emma Zunz não me instigaram durante (ou após) a leitura. Quer dizer, justamente num conto "de personagem", conforme disse Aimée, eu persisti focando nos elementos da engrenagem ficcional. ¯\_(ツ)_/¯

Elenco, a seguir, algumas novas reflexões proporcionadas pelo vídeo da Aimée:

⇰ Todo esse papo psicanalítico me fez perceber que deixei de mencionar outra conexão evidente entre Emma Zunz, Humbert e Jack: essas três personagens não apenas executam planos de vingança, como também se vingam de violências de natureza sexual. A distinção evidente é que, no caso de Emma, ela assume, simultaneamente, os papéis de "vítima" (questionável, eu sei) e vingadora — os outros dois vingam uma mulher (o caso de Humbert, então, nem se fala: na real, pensando nesses termos, o tonto deveria ter atirado nele mesmo);

⇰ Aimée questiona os motivos que fizeram Zunz submeter o próprio corpo àquela violência, e acredito que meus prévios comentários trataram disso: porque foi o artifício encontrado para cometer o crime perfeito, para montar a genial narrativa que evitaria sua prisão pelo assassinato de Loewenthal. Considerando-se os elementos textuais relacionados à sexualidade da personagem, não surpreende que esse tenha sido o caminho vislumbrado — conforme escreveu o crítico Floyd Merrell naquela passagem que transcrevi: "ela usa seu mundo da melhor forma que conhece."  No mais, quando Aimée comentou que teve a impressão de que Emma não julgava que a honra do pai seria motivo suficiente para matar Loewenthal, sendo necessário criar um outro; fui catapultada para o que eu escrevi em meus comentários sobre a peça Othello, de Shakespeare! É que, naquele post, escrevi justamente que, sob uma perspectiva moral, Iago parecia se sentir desconfortável por fazer tudo aquilo contra Othello motivado apenas por suas ambições, de modo que ele inventa (e força-se a nela crer) a história esfarrapada de que sua mulher o havia traído com Othello. Legal; amei essa conexão.

⇰ E eu que, inadvertidamente, mergulhei na aparente paranoia de Emma, pois nunca duvidei do suicídio do pai dela? Ai, jizuiz... Veja, "tomar por engano uma forte dose de Veronal" (veronal  = sedativo barbitúrico) não é uma descrição que sustenta bem a versão de morte acidental. (rimou!) O mais provável, diante dessa informação, é que ou o pai dela foi assassinado (um boa noite, Cinderela fatal) ou se suicidou. Contudo, reconheço que complica demais quando o narrador nos diz que "Emma leu..."; digo, entre o que ela leu e o que efetivamente estava escrito pode haver uma grande diferença realmente. No entanto, pensando com mais cuidado agora, a descrição da carta fala um bocado a favor de que o pai dela foi assassinado, hein. Se duvidar, é o próprio assassino quem redigiu a carta. EITA!


Curti essa experiência de leitura compartilhada; achei que ficou bastante rica. Mais uma vez, valeu, Aimée.

11/05/2021

[alinhavando] sobre janelas, bicicletas e gagueiras

Às vezes fico preocupada com o quanto você olha por essa janela, comentou, certa vez, minha mãe. Noutra ocasião, o desassossego a fez perguntar: no que tanto você pensa aí, afinal? Confrontada pela direta pergunta, me dei conta de que, na verdade, não penso em nada quando estou à janela. Por outro lado, é possível que eu esteja tão profundamente imersa em pensamentos que, ao ser chamada, perco o fio da meada, tal qual um mergulhador que emerge sem a adequada descompressão. No livro Des Histoires Vraies, Sophie Calle compartilha uma foto da vista de sua janela, explicando que aquela é a imagem mais fotografada por seus olhos, ou seja, é a imagem da vida dela. Talvez seja isso; digo, a cada volta à casa dos pais, descubro que alguma coisa da suposta imagem de minha vida (infância, adolescência) não está mais lá, foi substituída por algo novo que preciso assimilar, o que requer longos períodos contemplativos. Uma teoria, apenas. No primeiro episódio da série Joe Pera Talks with You, o singelo protagonista fala que jamais poderia vender a casa em que mora, pois ela tem os melhores lugares para pensar, dentre os quais inclui-se o lado da cama de onde é possível observar a vista da janela. Sendo um homem solitário habitante de um lugar frio, Joe reconhece ter bastante tempo livre para pensar em questões urgentes como "Qual o futuro dos jantares casuais?", portanto é essencial que a casa dele tenha um lugar perfeito para pensar. Suspeito de que Joe não ficaria intrigado com o tempo que passo à janela.

Esses devaneios sobre janelas retornaram-me devido ao recente vídeo em que Gilberto Gil exibe as lindas janelas de seu novo apartamento. Sem exagero, quando meus olhos capturaram aqueles janelões lindos, de frente para o mar de Copacabana, quase chorei. No breve vídeo, o músico diz algo que definitivamente atesta sua larga experiência de janeleiro: abrir uma janela não significa apenas deixar o exterior entrar, mas também abrir-se para si próprio. Gil ressalta que a janela dá o poder da interioridade exteriorizar, ou seja, a janela não apenas traz o exterior pra dentro, como também leva o interior pra fora. É, creio que Gil é mais um que não ficaria intrigado com o tempo que passo à janela.

A todas as pequenas desvantagens de meu novo apartamento (registrei algumas em post anterior), acrescento agora a ausência de uma janela perfeita para pensar em nada. Localizando-se de frente para a outra torre do condomínio, meu novo lar assemelha-se ao apartamento onde Valeria Luiselli morou em Nova York, conforme ela descreve no livro Papeles Falsos: de dia, as paredes e janelas dos vizinhos dominam a vista; de noite, os vidros das janelas refletem o interior do próprio apartamento. A autora defende que essa impossibilidade de ver o mundo externo, substituída, à noite, por nosso próprio reflexo nos vidros, corresponde a uma estratégia arquitetônica que pretende criar a ilusão de privacidade em cidades onde, efetivamente, as vistas são um constante convite à bisbilhotagem. Embora ciente de que espiar a vida dos outros é sempre arriscado, uma vez que as posses e felicidades alheias podem resultar, pelo irresistível ato da mera comparação, numa onda de tristeza, a autora se arrisca e depara-se com uma realidade amarga: os vizinhos levam vidas tão chatas quanto a dela. A parte mais divertida, achei, é quando ela teoriza que, porque todos têm um computador/celular, nada acontece na janela alheia. Para Luiselli, a invasão de nossas casas por esses aparelhos implicou na impossibilidade de vidas interessantes o suficiente para satisfazer um vizinho voyeur. Ela não toca no assunto, porém o faço eu: os malditos celulares tornaram-se nossas janelas pro mundo, e isso me entristece um bocado (em postagem prévia, tangenciei o tema, ao comparar nossa situação atual a uma cena do livro Frankenstein, alinhavando-a ao livro The Lonely City, de Olivia Laing). A propósito, Luiselli me fez perceber que, se duvidar, só mantenho a cortina fechada para que o vizinho não descubra que passo até doze horas do meu dia diante do computador. Que deprimente. [P.S.: por razões óbvias, evito manjadas ironias com o filme Janela Indiscreta.]

Sendo um pouquinho mais grata por aquilo que tenho, devo reconhecer que a janela do banheiro me oferece uma vista bastante digna. No livro Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki destaca os prazeres das antigas latrinas em estilo japonês, ao ar livre, considerando indescritível a sensação de contemplar o jardim pela janela e se perder em pensamentos. Então, enquanto cagavam e apreciavam o luar, poetas japoneses vislumbraram temas para seus haicais*; eu, enquanto tomo banho e aprecio as luzes da cidade, confabularei novas groselhas para este blog. [* = foi Tanizak quem falou, tenho nada a ver com isso.]

Valeria Luiselli exerceu grande papel na conversão desta corredora/andarilha numa ciclista mequetrefe. Destaco que não houve apostasia, pois todo dia ainda é um bom dia para correr/caminhar. Por sinal, essa historinha também começa com a bendita mudança de apartamento. Durante a separação dos itens para doação, a velha bicicleta que viveu encostada por dez anos na parede da cozinha pediu piedade: — Dani, me dá uma chance, confia em mim. Enquanto ponderava com a empoeirada magrela, lancei mão do manifesto de Luiselli a favor das bicicletas.

Luiselli alega que, ao contrário de caminhantes e corredores, o ciclista não está preso ao ritmo e modulações de mais ninguém, estando livre para entregar-se plenamente à solitude e ao doce fluxo dos próprios pensamentos. — Ressalto que ela parece ignorar que, em cidades brasileiras, um ciclista, mesmo trafegando numa ciclovia, corre o risco de ser assassinado por um motorista. Será que as coisas são diferentes no México? Acredito que ela tenha em mente cidades europeias; não sei. — Bom, ressalva feita, afirmo que seus argumentos sobre o quanto o ciclismo pode ser generoso com o ato de pensar me convenceram em definitivo e fizeram a velha bicicleta sobreviver às doações. Sobre duas rodas, Luiselli me garantiu que o ciclista consegue encontrar o ritmo perfeito para observar a cidade, pondo-se na posição simultânea de testemunha e agente. Lendo as palavras da autora, tive a impressão de que a bicicleta poderia me proporcionar prazer semelhante àquele de olhar por uma bela janela. Hoje, após alguns bons passeios, confirmo que Luiselli está certa: aquele que descobre o ciclismo como uma atividade sem finalidade específica sabe possuir uma estranha forma de liberdade comparável apenas àquela do pensamento ou da escrita. Quem não tem janela, pensa com bicicleta. So it goes. [P.S.: quanto tempo até que eu apareça no blog, escrevendo que caí da bike e quebrei todos os dentes? Se eu continuar procurando passarinhos; logo, logo.]

Para fechar esse ponto do alinhavo, uma última nota. Ignoro se atualmente ainda ocorre entre europeus, mas fiquei encantada quando li, no livro da dinamarquesa Inger Christensen e no do francês Raymond Radiguet, relatos de famílias que, na primeira metade do século XX, fizeram viagens intermunicipais de bicicleta. Ok, talvez não seja tão glamoroso quanto eu esteja idealizando (a canseira; o "detalhe" da guerra), porém imagine a vista dessa janela itinerante?! 


No último post sobre os diários de Alejandra Pizarnik, escrevi que a descoberta de uma suposta gagueira da poeta me pôs num estado reflexivo, e a razão, em parte, recai sobre uma passagem do livro de Luiselli. Antes, contudo, quero registrar uma cena do filme visto hoje, o Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami; a qual resgatou estes desvarios gagos. Numa conversa com o ("futuro") marido, a personagem de Binoche diz que a irmã, embora casada com um homem simplório e gago, julgava ter como marido o melhor homem do mundo, ouvindo o MMMMM-Marie como quem ouve uma canção de amor. O interlocutor de Binoche não se surpreende com o relato, compreendendo que o marido gago simplesmente se detém, agarra-se ao nome da amada. O golpe de misericórdia do filme é dado mediante a última fala de Binoche que, na tentativa de convencer o marido a dar-lhes uma chance, suplica: JJJ-James.

Pronto, voltemos à Luiselli, pois sozinha não consigo desenvolver estes pensamentos. Por intermédio da autora, conheci este poema de Ghérasim Luca, Passionément, no qual o eu lírico, gaguejando desde o primeiro verso, declara sua paixão: 

pas pas paspaspas pas 
pasppas ppas pas paspas 
le pas pas le faux pas le pas 
paspaspas le pas le mau 
le mauve le mauvais pas

(...) 

t'aime je t'aime passionnément 
je t'ai je t'aime passionné né 
je t'aime passionné 
je t'aime passionnément je t'aime 
je t'aime passio passionnément

(...)

Luiselli me conta que Luca foi um poeta romeno que teve de abandonar seu país e exilar-se na França, onde escreveu poemas gagos cheios de buracos. Luca habitava o francês, língua que era-lhe estrangeira, e a levava aos limites da sintaxe, ao outro lado da gramática. No ensaio, Luiselli recorda que, segundo Deleuze, quando a língua é tensionada a tal ponto em que a gagueira se inicia, significa que ela alcançou seus limites, passando a confrontar o silêncio. Depois dessa, como não ficar pensativa ao descobrir que uma poeta de quem se gosta pode ter sido gaga? E como não ficar desnorteada quando uma mulher apaixonada pronuncia (*importante: em meio a idas e vindas entre inglês, francês e italiano) o nome daquele que ama deste jeito: JJJ-James? (Ah, se eu te pego, Kiarostami.) É; a janela que busco é aquela que me permita mergulhar no silêncio.

18/04/2021

[alinhavando] I love you most of all, my favorite vegetable


Compartilharei algo tão constrangedor que, de antemão, suplico clemência ao tribunal virtual. Posto isto, lá vai: tive um sonho erótico com um chef de cozinha. O motivo dessa presepada, amigas e amigos, é o que eu mesma me pergunto. Na falta de outra explicação incontestável, abracei a teoria de que meu inconsciente decidiu seguir à risca o lema tempos difíceis exigem medidas extremas. Quê? Quem é o tal chef? Nem morta eu digo! Que vergonha, meu deus. Mas ok, darei algumas pistas; quem pescar pescou (só não espalhe, por favor): 1. conheci a pessoa num desses programas gastronômicos da Netflix, 2. ela é super andrógina (a observo com a cabeça inclinada pra esquerda: sim, é homem total; a observo com a cabeça inclinada pra direita: pera, é mulher?!) e 3. ela se assemelha a personagens de anime. Daí, quem acompanha o blog (∅) já sabe o que aprontei a seguir: pedi socorro à estante, em busca de livros cujo tema fosse Comida X Sexo — *além de dois filminhos de entrada e sobremesa. O que mais uma leitora besta poderia fazer? (sei bem em quais outras opções você está pensando.) O resultado surpreendeu, sobretudo porque a singela experiência ratificou que sexo nunca é apenas sobre sexo, assim como comida nunca é apenas sobre comida. (é sobre isso! ®) Conclusão óbvia, mas é sempre do óbvio que esqueço. Portanto, embora eu tenha começado esta postagem falando de sexo e comida, acabarei também percorrendo outros caminhos tortuosos. Vejamos aonde isso me levará.

"Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer (...). Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de "entrar em contato" íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades - e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro."

- Clarice Lispector; Temas que morrem 

🍑

O filme de entrada é Tampopo: Os brutos também comem spaghetti (1985; Jûzô Itami). Sim, finalmente assisti e valeu cada segundo. Itami faz uma espécie de colagem de sketches com abordagens variadas acerca de comida; as quais se interconectam pela jornada central da heroína em busca de cozinhar o lámen perfeito. As breves narrativas que mais especificamente relacionam comida e sexo são ótimas, dentre elas aquela famosa, na qual amantes usam a boca para "jogar sinuca" com uma gema de ovo. Outra: galera fica bajulando o pêssego de Me Chame pelo seu Nome, quando, em 1985, já havia um japonês tascando na telona uma vovó espremendo a fruta, hein. Porém, sendo uma tonta romântica, é claro que a cena de que mais gostei foi aquela em que o gângster, morrendo nos braços da amada (os mesmos amantes da gema), descreve as comidas deliciosas que não mais comerão juntos. Vá se lascar. MAS meu sketch favorito do filme é, sem dúvida, o da mãe que, imediatamente antes de morrer, consegue preparar um último jantar para a família:

"Comam, crianças; é a última comida que mamãe preparou!"


O moço que subiu o vídeo para o You Tube o intitulou "cena mais triste de Tampopo", contudo, quando a vi, precisei pausar o filme, de tanto que eu ria da fanfarronice. É uma sequência cujo perfeito tom tragicômico/crítico-afetuoso raramente se vê por aí. Ah, e mil parabéns para a atriz, que está perfeita. Para surpresa de ninguém, Itami encerra o filme aproximando sua câmera de uma mãe que amamenta o filho. Era o prenúncio de que o primeiro livro desta minha empreitada não permitiria que eu escapasse do binômio mãe-alimento. Claro que uma postagem de blog que começa combinando sonho + sexo + comida desembocaria em mães, né? Maldito Freud dos infernos!

🍆

"Amor erótico não relaciona-se apenas a sexo. Freud pensava que sexo sequer referia-se a sexo. Sexo é sempre carregado de desejo, anseio, medo, fantasia, nostalgia. Segundo Freud, nossas vidas eróticas         começam bastante cedo, durante a infância. Aqui, mais uma vez, uma busca pelo desejo. Todos nós desejamos voltar ao seio materno, à união com o corpo de nossas mães, voltar para dentro do útero."

- Podcast History of Ideas BBC 4, Episódio What is Love?



A adaptação cinematográfica do livro de Laura Esquivel deixou marcas profundas em minha memória. Quando a vi, eu era uma pré-adolescente sem nenhuma noção do que eram metáforas ou sexo, logo imagine o nível de minha perturbação: por que eles estão pelados juntos numa cama? e a cama pegando fogo, enquanto os dois ficam aí parados, como se nada estivesse acontecendo! por quê?! o que diabo é isso? Fiquei tão apalermada, que sequer atinei de abrir a boca para pedir que alguém me explicasse (não lembro se vi com amigas ou com minha mãe). Não revi o filme para confirmar se a cena transcorre assim, mas definitivamente é o trauma que minha memória guardou — fast forward  hoje estou aqui, querendo queimar pelada numa cama, juntinho com um chef de cozinha andrógino e personagem de anime. ¯\_(ツ)_/¯ 

O livro, por sua vez, eu nunca havia lido. Estava ciente da premissa de uma cozinheira que, involuntariamente, transfere suas emoções para a comida que prepara, contagiando a todos que a experimentam (a manjada relação da comida com afetos, memória). O que eu não esperava é que o livro correspondesse à narrativa de um amor que, em meio à Revolução Mexicana, é impedido de concretizar-se em sua plenitude, devido à intervenção de Mamãe Elena, aquela que, pra mim, já é uma das maiores vilãs literárias de todos os tempos. Aliás, a escolha da expressão "Mamãe Elena", remetendo às alcunhas militares que combinam posição hierárquica + nome, não soa gratuita; bem como não é gratuito o fato de Mamãe Elena não ter amamentado Tita (não é que ela apenas não amamentou; ela não se incumbiu, de forma alguma, da tarefa de alimentar a filha, quando bebê). Um instante; noto que estou atropelando o raciocínio, sem nada explicar. Bom, Mamãe Elena era a generala dos de la Garza e, como tal, exige o cumprimento de uma velha tradição mexicana (real? ficcional?): a caçula da família jamais se casa, pois nasce para cuidar da mãe durante a velhice. A parada é mais sinistra, dado que Mamãe Elena não apenas proíbe que Tita se case com Pedro, como arquiteta que o mancebo se case com Rosaura, sua outra filha. E não é só isso! Mamãe Elena obriga Tita a preparar os pratos do casamento, Mamãe Elena acha que a filha a envenena com a comida que cozinha; Mamãe Elena critica tudo que Tita faz; ora, Mamãe Elena, até depois de morta, aparece feito fantasminha para infernizar a vida de Tita. Droga; percebo que, por mais que me esforce, falharei em expressar a contento quem era essa personagem; de modo que apelarei para um velho meme caducado: só quem leu o livro sabe quem é Mamãe Elena, espantosa encarnação literária do arquétipo da mãe castradora.
"Nesse momento pensou no bom que seria ter a força de Mamãe Elena. Ela matava assim, de uma cutilada só, sem piedade. Bom, ainda que pensando bem, não. Com ela, tinha feito uma exceção, tinha começado a matá-la desde criança, pouco a pouco, e ainda não lhe dera o golpe final. (...) Indubitavelmente, tratando-se de partir, desmantelar, desmembrar, devastar, desjarretar, destruir, desbaratar ou desmamar alguma coisa, Mamãe Elena era mestra. (...) Ao lado da mãe, o que suas mãos tinham de fazer estava friamente determinado, não havia dúvida."

                                              - Laura Esquivel; Como Água para Chocolate (tradução: Olga Savary) 

Essa figura materna criada por Esquivel me remeteu a dois marcantes relatos envolvendo mãe e filha, ambos vividos e compartilhados por duas autoras que têm relacionamentos complicados com suas mães. No livro Dear friend, from my life I write to you, in your life; Yiyun Li conta que era bastante apegada a um casalzinho de hamsters, presente da irmã, e que, certo dia, eles desapareceram. O esquisito sumiço foi esclarecido quando sua mãe lhe confessa simplesmente tê-los doado, porque Li estaria obcecada demais pelos bichos, incapaz de demonstrar a mesma devoção aos pais. Já no livro The Odd Woman and the City, Vivian Gornick relata que, na infância, sua mãe sacara uma tesoura para cortar a parte de tecido que cobria o peito de um vestido que a autora muito queria usar para ir a uma festinha, momento de intensa ira em que acusava Gornick de ser uma filha sem coração. Pronto, acho que agora, sim, consegui expressar a que tipo de mãe me refiro.

Para retornar ao livro de Esquivel e trazer a comida de volta ao papo, resta destacar que, naquele contexto (Revolução Mexicana, mãe castradora), portanto, o prazer de preparar e comer um prato gostoso (o prazer de amar, de transar livremente) surge como o contraponto a cenários austeros e autoritários. A comida é a celebração da liberdade de desejar, de viver plenamente os desejos, de gozar, de sentir prazer na vida e pela vida. Opa!, suspeito de que Esquivel matou a charada do meu inusitado sonho, dado o atual momento histórico do país tropical onde, em fevereiro, não tem mais carnaval. Que coisa; e nem curto carnaval.

🍌

" Você parece uma criança com fome, a quem se ofereceu ravióli. "Não", você diz, "quero um bife". Minha cara, você está com fome, coma esse ravióli.

— Não estou tão faminta assim.

— Estamos famintos o tempo todo, Senhorita Hudson."


Filme: Quando o Coração Floresce (1955, David Lean)



Uma vez que não rola bacanal na festa de Babette, dei com os burros n'água ao escolher esse livro, porém fui presenteada com a batalha do ano: Blixen X Lebowitz - Comida é arte ou não é?! Este post já está longo demais, para que eu comece a devanear sobre o caráter artístico da comida (sei lá se é; porém, nessa treta, aposto minhas fichas na Blixen); contudo serei vacilona e aproveitarei a deixa para trazer outra pista relacionada à identidade do chef onírico: o moço curte replicar, nos pratos que monta, pinturas famosas — certeza de que ele considera comida uma forma de arte. 

Embora não haja sexo no livro de Blixen, sabe em que ambiente a autora decide narrar o grandioso banquete de Babette? Num fiorde da Noruega, entre os membros de uma seita eclesiástica devota que renunciava aos prazeres deste mundo. Ou seja, Blixen usa a comida como recurso narrativo similar àquele de Esquivel, conferindo-lhe a força capaz de se opor a um meio ascético e estéril. Achei fascinante, em especial, confrontar as reações ao banquete dos membros da seita com a do convidado externo; uma distinção sugestiva de que a relação com a comida - com a arte - é necessariamente uma via dupla: ao cruzar com uma obra de arte, é preciso estar com os sentidos abertos, a fim de se alcançar a graça. Talvez seja uma interpretação estapafúrdia, entretanto realmente me pego questionando se esta não seria a outra mensagem enviada por meu inconsciente na forma do peculiar sonho erótico; digo, ele tenta me lembrar de que deseja estar disponível para a graça ou, tomando emprestadas aquelas palavras (lá em cima) de Lispector, anseia entrar em contato íntimo com o que existe.
"(...) essa mulher está transformando um jantar no Café Anglais numa espécie de envolvimento amoroso daquela categoria nobre e romântica na qual a pessoa não mais distingue entre apetite ou saciedade, corporal e espiritual! 
(...)
"Não, nunca vou ser pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista, madames, nunca é pobre."

                                                    - Karen Blixen, A Festa de Babette (tradução: Cassio de Arantes Leite)

 🍩



Galera propagandeia o História do Olho como "um livro de altas putarias doidase, por azar, não me apareceu um leitor prestativo para alertar que não é exatamente isso e que vale a pena preparar-se emocionalmente antes da leitura. Concordo que avisos de gatilho são meio tontos, mas, neste caso, apenas defendo que o descompasso nos discursos de divulgação acerca do livro de Bataille não deveriam prosperar. Honestamente, fazia tempo que eu não terminava uma leitura num estado tão consciente do peso sobre meu peito. 

Ano passado, li a Trilogia dos Gêmeos, da húngara Ágota Kristóf (grande favorito de 2020) e fiquei perplexa com o quanto livros que mal abordam diretamente a guerra permitiram que, afinal, eu me aproximasse do que efetivamente significa viver, não, sentir uma Guerra Mundial. Sim, acredito que aquela leitura foi o mais próximo que cheguei de tocar uma experiência de guerra, a qual usualmente me parece surreal em demasia, para que eu a capture. No entanto, eu fracassava ao tentar desvendar de que maneira a talentosa autora tinha conseguido tamanha façanha. Em busca de resposta, ainda em 2020 catei o Guerra Aérea e Literatura, de W. G. Sebald, que, embora tenha me auxiliado bastante, acabou revelando que o autor alemão tem tantas perguntas quanto eu, no que refere-se a como poderíamos escrever/narrar experiências traumáticas intensas, como as da segunda guerra. A esse respeito, Sebald disse algo (numa entrevista) que chamou minha atenção e que registrei em meus cadernos: "a única forma com a qual pode-se abordar essas coisas é obliquamente, tangencialmente por referência, em vez do confronto direto." Eis que agora, ao ler um "livro de putaria", travei contato com um texto que complementou e ampliou as reflexões que me foram proporcionadas por Kristóf e Sebald:
"De forma geral, não me detenho muito nessas recordações. Passados tantos anos, já perderam o poder de me afetar: o tempo neutralizou-as. Só puderam recobrar vida deformadas, irreconhecíveis e ganhando, no decorrer de sua transformação, um sentido obsceno."

                                                  - Georges Bataille; História do Olho (tradução: Eliane Robert Moraes) 

Pronto, a combinação das perspectivas de Sebald e Bataille é exatamente o que Kristóf me parece ter feito na escrita da Trilogia dos Gêmeos: ela evitou o confronto direto com a guerra; deformando a memória, tornando-a irreconhecível (inclusive, deformando a própria narrativa, deformando a realidade das próprias personagens). A propósito, não é o mesmo recurso usado pelo inconsciente, na conformação dos sonhos? Meu sonho erótico com o chef de cozinha não foi um mero sonho erótico. Curioso, não? Durante a leitura de livros cujos autores se valem desse artifício, o leitor não consegue delinear com clareza a memória original, mas os sentimentos atrelados a ela tornam-se intensamente vívidos. No caso do História do Olho, o texto puro é realmente uma sequência crescente de putarias pervertidas, algumas vezes até imorais, contudo a narrativa de Bataille, nem por um instante, deixa de reverberar sentimentos de dor, medo, angústia, sofrimento, desespero, melancolia, vazio > o possível olho do título, teorizo. Para quem discorda de que sexo nunca é apenas sobre sexo, eu sugeriria a leitura dessa obra.

Para abandonar o tom meio depressivo, ousarei pinçar uma bela passagem do História do Olho que, confesso, provavelmente alimentará meu inconsciente na criação de novos sonhos libidinosos; sobretudo porque, no momento, o único passeio que tenho me permitido fazer, e adorado, são justamente passeios de bicicleta. Já imaginou, bicicletar pelada na companhia de um chef de cozinha charmosinho? Eita, lembrei de que, Em Como Água para Chocolate, Esquivel bolou uma cena à altura: cavalgar pelada, queimando de tesão. E aí, Morfeu? Vai a cavalo ou de bicicleta? 

Georges Bataille, História do Olho

🍳

A sobremesa que fecha o post é o filme O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1989, Peter Greenaway). Em seus diários (caderno de 1955), Alejandra Pizarnik escreveu "Lo que yo quisiera es vivir mi vida diurna entre libros y papeles y pasar las noches junto a un cuerpo.", e Greenaway, nessa obra, atende os desejos da querida poeta. Puxa, amantes transando entre livros e comendo comidas maravilhosas, preparadas por um tremendo chef de cozinha. Massa, né? Talvez nem tanto, pois o filme aparenta alertar que é prudente cuidar do apetite, pois, caso o Ego perca controle da ânsia de tudo engolir, poderá morrer pela boca; literalmente.

"Ele está morto. Encheram-lhe a boca com as páginas arrancadas de seu livro favorito."

03/03/2020

[alinhavando] Immerse your soul in love #01


Era uma vez... — um príncipe e uma princesa que, perdidamente apaixonados, casaram-se e viveram felizes para sempre? Pff, claro que não. Era uma vez um amável final de semana cujo sentido ainda está por vir. Podemos começar a contar essa história a partir das entradas do diário de nossa heroína.


Sábado de manhã
Ao retomar a leitura da coletânea de contos do Tchekov, me deparei com um conto intitulado "Do amor". Prontamente escapou da minha boca um "eita, isso não vai dar certo", pois sei que as histórias de amor escritas pelo contista russo não são, digamos assim, dignas de comédias românticas hollywoodianas. Não; em matéria de amor, os contos de Tchekov matam na unha — ou com uma torta na cara. 

Logo na primeira página, tive uma encantadora surpresa:
"- Até hoje, sobre o amor, só foi dita uma única verdade indiscutível, a saber: que "grande é o seu mistério",
(...)
- Nós, russos respeitáveis, nutrimos uma predileção por estas questões que permanecem sem solução."                                          
 
                                                                                - Do Amor, Tchekov (Tradução: Tatiana Belinky)

Com essa leve rasteira, Tchekov me arrancou um sorrisinho maroto e fez desabar a guarda erguida com esmero. Quando me dei conta, eu tinha sido trucidada por uma narrativa sobre o amor, construída a partir do não dito — gestos, olhares. No arremate apoteótico do conto, o mocinho corre para se despedir da amada no vagão de trem que a levará pra longe & pra sempre e, ainda que o casal nunca tivesse trocado uma única palavra sobre seus sentimentos até aquele instante (os dois sempre muito formais e socialmente irrepreensíveis, sobretudo porque a mulher era casada), é isto que acontece:
"Quando, ali na cabina, os nossos olhos se encontraram, as forças espirituais abandonaram-nos a ambos, eu a tomei nos braços, ela apertou o rosto contra meu peito, e as lágrimas correram dos seus olhos; (...)"
                                                                                   - Do Amor, Tchekov (Tradução: Tatiana Belinky) 

Sendo discípula de Anna Akhmátova, entrei nesse conto com a partida já perdida:
     E, no entanto, meu coração nunca esquecera
     quem deu a própria vida por um único olhar.

Sábado à tarde
Retornou-me à memória uma outra cena de amantes se despedindo numa estação de trem; especificamente aquela incluída na novelinha turca (vejo, não nego etc ®) a qual assistira na Netflix uns anos atrás. Bateu vontade de rever alguns episódios, e em consequência uma familiar pulguinha reapareceu atrás da minha orelha; por sinal uma pulga que sussurra nos ouvidos mistérios relacionados a determinados olhares dos quais - aprendi com a leitura da manhã - Tchekov manja bem.

A história de amor em Kurt Seyit ve Şura é daquelas que desanda de um jeito pavoroso, tal qual o meme "os dois a 80km/h" e a tal ponto que o "antes e depois" dos olhares do mocinho pra mocinha é este:
Como é possível? Que dinâmica é essa; segundo a qual um rapaz então super apaixonado por uma moça pode, após o mísero intervalo de alguns anos, olhá-la com o evidente desejo de agarrá-la pela cabeça e arremessá-la contra a parede? Suponho que os russos estejam realmente corretos: amor, como é grande seu mistério. A menos que... Sim!; pois, se o amor é um mistério, como posso garantir que essa novela turca corresponde a uma história de amor?

Sábado à noite
Dado o perfil das histórias que marcaram meu dia, é justo que o título A Man in Love tenha saltado-me aos olhos no instante em que espiei o índice do meu novo livro de contos da Leonora Carrington.

Logo no início da leitura, fiquei abobalhada com um elemento compartilhado pelas narrativas de Tchekov (Do Amor) e Carrington (A Man in Love): os respectivos protagonistas (e narradores) são homens apaixonados tomados pela premente necessidade de contar as histórias de amor que viveram. O autor russo escreveu "Parecia que ele queria contar alguma coisa.", enquanto a autora inglesa escolheu "I want to talk, I want to tell my story." Não é curioso?

O conto de Carrington lembrou-me demais o segundo episódio da primeira temporada da série de TV Hannibal, no qual o assassino da vez enterra as vítimas vivas (não me pergunte), a fim de servirem de adubo para uma plantação de cogumelos (repito: é inútil me perguntar). Em A Man in Love, a amada do narrador encontra-se deitada numa cama, sem se mexer, falar ou comer há 40 anos; de modo que o cara não sabe se a mulher está viva ou morta, especialmente porque o corpo permanece quente - o homem até choca uns ovos sob o corpo dela. Quando a ouvinte da história bate o olho na sujeita largada na cama, ela sugere ao leitor que ali jaz uma defunta. O narrador do causo, na dúvida, diz que rega diariamente a graminha que brota por todo o leito onde repousa a amada. Maluco & Macabro? Bom, no universo surreal da Carrington, as coisas (des-?)funcionam desse jeito mesmo; tudo normal. Acrescento apenas que aquele singelo panfletinho de rua, que certa vez cruzara meu caminho, adquiriu novos significados (nem tão singelos) depois dessa narrativa da Carrington.

*

                                                                   - Chimamanda Ngozi Adichie (falando sobre Americanah)

Domingo de manhã
Dia de ver o filme novo do Adam Driver na Netflix. (Não curto muito o diretor, contudo:) Yay! 2 horas e 17 minutos depois, esta cena permaneceu aporrinhando meu juízo:
Em menos de 24 horas, tive de encarar a reprise daquele olhar tenebroso (versão "depois") do protagonista turco; dessa vez, no entanto, acompanhado da verbalização de seu significado: quero que você morra! Beleza. Se a Scarlett morrer, o Adam regará o leito dela por quarenta anos, assim como fez o protagonista da Carrington? E é sempre o homem que, em dado ponto da relação, comporta-se dessa maneira, é? Sei, sei. Digo, não sei p* nenhuma. Apelei para entrevistas do Noah Baumbach no You Tube (sobretudo por conta dos sabidos elementos autobiográficos), e o camarada está afirmando que o filme é uma história de amor contada a partir da narrativa do divórcio. Ao mesmo tempo que compreendo a proposta, não consigo apaziguar o desassossego que ela provoca.

Domingo à tarde
Assisti ao filme Cold War (Pawel Pawlikowski, 2018), crente que era apenas mais um filminho sobre a Guerra Fria. Que tonta. Na real, é uma história de amor (é?) em que o casal vive o dilema "ruim juntos, pior separados", o qual é levado às últimas consequências. O amor precisa ser tão complicado? O excesso de complicação pode ser usado como critério de exclusão para diagnóstico de amor? 

No mais, o filme firmou diálogo com aquele conto da Carrington. Antes de cair no estado de morta-viva/viva-morta, a mocinha de A Man in Love declamara ao amado "I love you so much I live only for you", enquanto a protagonista polonesa de Cold War promete ao amante algo bastante próximo:
Percebo que os romances do fim de semana estabeleceram um outro paralelo sinistro. De um lado, homens "apaixonados" (pero no mucho más) querem que a amada morra; do outro, mulheres apaixonadas fazem juras de viver e morrer eternamente pelos respectivos amados. Inegavelmente rola aí uma harmonização de intenções, porém, se amar for isso, náh, acho que prefiro ficar fora da brincadeira. Acho. Pô, eu seria a parte que morre na história!

Domingo à noite
Assisti ao penúltimo episódio da série Watchmen. Perto do final, após Angela dizer que não começaria um relacionamento sabidamente fadado à desgraceira, o Azulão a confronta com esta pergunta:
Hum, os romances ficcionais que cruzaram meu caminho neste fim de semana de fato acabaram +- em tragédia; mas por que todo relacionamento precisa terminar em tragédia, meu deus? E, depois da tragédia, parece que sobra uma doce memória que fomentará uma história da carochinha pra contar, conforme sugerido pelos contos de Tchekov e Carrington. Prêmio de consolação, aparentemente. Ok, né?

P.S.: mas então todas as obras do Lindelof falam de amor? Sei que The Leftovers (melhor série, forever and ever, amen) é uma delicada história de amor, e Watchmen agora sinaliza seguir o mesmo caminho. Daí Lost, no frigir das fumaças negras e ursos polares de ilhas tropicais, é mesmo uma história sobre o amor, né? Caramba, hein. Bem que a Chimamanda disse: toda literatura (eu: - ficção) é sobre o amor. 

- Lindelof, meu caro, eu nunca falei mal do final de Lost. [*Narrador em off*: - a safada mente] Se depender de mim, sua carreira continuará gloriosa.


Por ora, a história termina aqui. Com sorte, algum sentido será revelado nos próximos capítulos, mediante ajuda de um punhado de livros selecionados para compor a pilha Immerse your Soul in Love:
- All About Love, Bell Hooks; ✅ *lido*
- Fragmentos de um Discurso Amoroso, Roland Barthes;
- O Banquete, Platão; ✅ *lido*
- Fedro, Platão
- Love (Coleção Oxford - A Very Short Introduction), Ronald de Sousa;
- Agonia do Eros, Byung-Chul Han
- Amores & Arte de Amar, Ovídio;
- Eros the Bittersweet, Anne Carson;
- Do Amor, Stendhal;
- Essays in Love, Alain de Botton;
- Diálogo do Amor; Plutarco.

Até um *possível* próximo post desta série. 🥰

06/01/2020

[alinhavos breves] That girl needs therapy, purely psychosomatic

🧵
Goethe x Adam Driver/Kylo Ren/Ben Solo?! Creio que me superei nessa. Gratidão Orgulhão. O ponto de partida dessa proeza é a coleção de olhares categoria fatality® que o senhor Adam Driver, no papel de Kylo Ren, manda pra cima da Rey, interpretada por Daisy Ridley. Queria mesmo era ter incluído aqui um gif de boa qualidade com os olhares dele na sequência final do Episódio IX (- que interpretação, senhor Motorista Adão; obrigada demais), porém, como esse precioso material permanece indisponível no estoque da internet, colei apenas duas olhadelas do Episódio VIII (há várias totalmente excelentes). Enquanto apreciadora de filmes que privilegiam expressões corporais e faciais de atores, em detrimento de diálogos (♪ no alarms and no surprises, siiiiilence ; Club Silencio etc), afirmo que a performance de Driver em Star Wars representa um case de sucesso a ser seguido pelos profissionais da área. Por sinal, com esse exemplo, constatei uma vez mais que um ator talentoso pode operar belos milagres à custa de fracos roteiros. Bonito ver.

Neste período em que padeço de nova exacerbação da Adam Driver Fever Syndrome, leio, pela primeira vez, o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther (oportuno, hein?). Não finalizei a leitura, entretanto já acumulo assustadores indícios de que possivelmente eu seja a reencarnação do Werther no século XXI. Quanta coisa isso explicaria... Bom, dentre esses indícios, consta justamente o fato de que o mocinho Werther sabe do que eu falo, quando eu falo de olhares categoria fatality®. Mande aí por mim, Werther:
"Sim, seria preciso possuir o talento do maior poeta para traduzir a expressão dos seus gestos, a harmonia da sua voz e o fogo secreto de seu olhar. Não, nenhuma linguagem seria capaz de exprimir a ternura que anima seus olhos e suas atitudes. Tudo o que eu pudesse dizer seria grosseiro e rudimentar. (...)
Como a gente é criança! Quanto não creditamos a um simples olhar! Como a gente é criança!
 
                         - Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther (tradução: Marcelo Backes)
🧵🧵
Tive a feliz surpresa de encontrar, nos livros de Tokarczuk e Houellebecq, delicadas reverberações do alinhavo que publiquei em 04/10/19 sobre a observação de animais.

Considerando-se o teor dos comentários a respeito de Houellebecq que eu havia previamente ouvido, confesso que jamais imaginei que Serotonina (minha primeira leitura do autor) teria um protagonista deprimido que alcança paz de espírito mediante a singela observação de vaquinhas. Especialmente aos críticos de plantão do escritor (😁), colo a tocante passagem:
"Fracassei na tentativa de desenvolver uma emoção estética real diante das paisagens alpinas, mas me afeiçoei às vacas, pois cruzava muitas vezes com um rebanho indo de um pasto para outro. (...) Amplas e majestosas, as vacas normandas eram, e a existência parecia ser mais que suficiente para elas; foi com essas vacas normandas que entendi porque os hindus consideravam sagrado esse animal. Durante os fins de semana solitários que passei em Clécy, dez minutos contemplando um rebanho dessas vacas entre os arbustos ao redor me bastaram para esquecer (...)."
                                        - Michel Houellebecq; Serotonina (tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)

Por sua vez, a fabulosa protagonista de Tokarczuk acessa (ou tenta) a realidade que se desvenda a partir da observação de morcegos. Trecho lindo, lindo:
"Tenho muita vontade de saber como os morcegos veem o mundo; queria, ao menos uma vez, sobrevoar o planalto em seu corpo. Como todos parecemos aqui embaixo quando somos vistos por seus sentidos? Como sombras? Ou um feixe de vibrações, fonte de ruído?
À noitinha me sentava diante da casa e esperava até que aparecessem, voando um por um desde a casa dos professores, visitando-nos em seguida. Acenava delicadamente, cumprimentando-os. Essencialmente, tinha muito em comum com eles-- eu também enxergava o mundo em outras frequências, às avessas. Eu também preferia o crepúsculo. Não prestava para viver ao sol."
                               - Olga Tokarczuk; Sobre os ossos dos mortos (tradução: Olga Baginska-Shinzato)

Além disso, é importante ressaltar que tanto a polonesa quanto o francês incluem, em suas respectivas narrativas, descrições de cenas de horror relacionadas à crueldade cometida contra animais em fábricas de produção em massa: Tokarczuk escolhe casacos de pele de raposa; Houellebecq, uma nefasta granja.

🧵🧵🧵
Visto que a ilustração na capa do livro da Rooney antecipa uma possível história de amor, avaliei que, antes de lê-lo, seria prudente me precaver e calcular bem os riscos. Somando 1= a Rooney é ovacionada como porta-voz dos millennials + 1= a internet garante que millennials não transam (links: x, x, x), cheguei à conclusão =2: Normal People não será gatilho pra mim, pobre vítima do celibato involuntário. Ah, a ingenuidade da leitora. Eis que transcorreram-se três meses desde o término da leitura, e eu permaneço #triggered! (😁) Por quê? Ora, porque o casal concebido por Rooney transa todo dia, toda hora. Os dois são pau pra toda obra (*trocadilho não intencional; acho). Ainda que a moça do livro demonstre um gosto por práticas masoquistas que não parece ser daquele tipo divertido; no geral, eu diria que sexo não é um problema na vida dos dois protagonistas de Normal People. Já a comunicação... Connell e Marianne convivem por cerca de uma década (esquema ioiô), no entanto praticamente se desconhecem.

Serotonina, um dos consolos literários ao qual apelei posteriormente, cumpre seu papel ao me apresentar um Gen-X fracassado na, digamos, seara amorosa. O alinhavo com o livro da Rooney surge em decorrência da fascinante (e cômica? sei lá) teoria do protagonista de Houellebecq a respeito do sexo: sexo é a solução para todos nossos problemas. Pelo menos, é o que o cara diz:
"(...) vão me acusar de dar uma importância excessiva ao sexo; não concordo. (...) a passagem pelo sexo, e por um sexo intenso, continua sendo obrigatória para que ocorra a fusão amorosa, nada pode acontecer sem ele (...) Poderia ter informado, com mais pertinência, que os dois já não transavam e que era este o núcleo do problema, (...) e Aymeric sabia, com sexo tudo pode ser solucionado, sem sexo nada tem mais jeito (...)"
                                        - Michel Houellebecq; Serotonina (tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)

Portanto este é o imbróglio no qual me meti:
- de um lado, uma autora millennial bola um casal djóvem dos anos 2000 que, embora altamente transante, não se comunica e se trumbica (entreguei minha geração?);
- do outro lado, um autor gen-x bola um protagonista quarentão que, em meio à disfunção erétil + prejuízo da libido provocadas por antidepressivo, defende que não há neurose conjugal que não possa ser resolvida com sexo;
- e a cerejinha no topo é a constatação de que, com transa ou sem transa, todas essas personagens estão na merda.

Não sei sair dessa. Talvez caiba o chatão discurso vazio "trata-se de achar o meio-termo: transar e conversar na medida", ou então a lógica "todo casal feliz transa, mas nem todo casal que transa é feliz". De todo jeito, essa conexão que se estabelece entre as narrativas desses dois autores ficou bem engraçada, sobretudo porque o livro do Houellebecq discute bastante  (de modo não explícito) as oposições entre gerações (apesar de destacar Boomers & Gen-X).

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Já que, aparentemente, transantes e não transantes estão mentalmente lascados, buscando respostas nos animais e recaindo em comportamentos infantis ao receber qualquer olhadinha algo ~diferenciada~, resta o quê? Apelar pra remedinhos e terapia? Não sei, mas a atual onda de livros (e séries?) protagonizados por pessoas se agarrando nessas boias sugere que essa é a leitura que os autores contemporâneos têm feito da realidade. Visto que o universo por onde circulo é menor do que uma bolinha de gude, não me atrevo a contribuir com análises generalizantes, contudo ousarei contribuir com uma versão editada de minha experiência - afinal, isto é um blog e, conforme bem coloca a protagonista de Houellebecq, "(...) voltemos ao meu tema, que sou eu mesmo, não que seja especialmente interessante, mas é o meu tema."

Em Dependency, terceiro livro da Trilogia Copenhagen escrita pela dinamarquesa Tove Ditlevsen, fui apresentada a Geert Jørgensen, um psiquiatra que eu adoraria chamar de meu, dado o tanto que ele se aproxima de uma verdadeira fada madrinha da vida real. Explico:👉 Na cena 01, a jovem personagem Tove (o livro funciona como autobiografia) está super ansiosa porque não sabe o que fazer a respeito de seu casamento. Embora estivesse interessada em outro homem, ela não consegue encontrar coragem para pedir divórcio, pois sente-se, em certa medida, endividada com o marido, um editor bem mais velho que a ajudara a alavancar sua carreira de escritora. Então, certo dia ela queixa-se de não estar se sentindo bem, possível problema cardíaco, e o marido diz que deve ser mera ansiedade, daí agenda-lhe uma consulta com o Dr. Jørgensen. Depois que Tove expõe tudo que a aflige, qual é a conduta do grande psiquiatra? De saída, ele confirma que encontrar-se dividida entre dois homens é de fato uma situação interessante e declara que Tove tem mais é que se divorciar, pois aquele casamento dela não faz o menor sentido. Ele explica que a encaminharia para um sanatório (calma, tá tudo bem), no qual Tove permaneceria relaxando durante o tempinho necessário para que ele, Jørgensen, resolvesse as coisas para ela do lado de fora. Bicho, quando a Tove sai da clínica, ela só precisa assinar a papelada do divórcio, e sem que pra isso tenha trocado um "ai" com o esposo. Puxa, um psiquiatra que não apenas lhe diz o que fazer, como o faz por você! O cara atende a prece da Fleabag* ( = "-Tell me what to do!") e ainda dobra a meta! UÁÁÁÁÁÁÁ Nem para aí, pois na cena 02 a fada madrinha Jørgensen salva Tove de um assombroso relacionamento tóxico® e abusivo® → não darei spoilers, mas asseguro que esses adjetivos repetidos ad infinitum pela galera da internet se aplicam demais ao caso desse livro, quase literalmente até. (*= a propósito: outra millennial transante que está na merda.)

Essa história de Dependency ocorre na década de 40, outros tempos etc.; obviamente estou ciente de que não posso esperar que um psiquiatra resolva meus problemas por mim. No livro da Rooney, por exemplo, a psicóloga manda a real do que Connell poderia esperar do processo: 
"O que podemos fazer aqui na terapia é tentar trabalhar seus sentimentos, pensamentos e comportamentos. Nós não podemos mudar suas circunstâncias, porém podemos mudar o modo como você responde às suas circunstâncias. Entende o que quero dizer?"
                                                                  - Sally Rooney, Normal People (tradução tabajara: minha)

A despeito dessa consciência, é difícil abandonar o desvairado anseio de que o profissional me arrume as coisas, e possivelmente essa é uma das razões por que hoje tenho de incluir um "ex-" na frente da palavra "terapeuta". Aliás, Serotonina me fez recordar um papo curioso que tive com ela numas das sessões. O narrador de Houellebecq comenta a original ideia, tida pelos donos de uma cafeteria, de adotar a expressão happy hour traduzida pro francês = heures hereuses. Já pensou se aprontássemos o mesmo por aqui? "Aê, galera, partiu pra happy hour pras horas felizes"? Aposto que, se a gente usasse essa tradução no dia a dia, eu não teria de ter explicado à ex-terapeuta porque uma sessão de terapia às 20h de uma sexta-feira (quando os "normal people" estão na happy hour) me faz sentir ainda mais "anormal". Ah, e nem preciso acrescentar que, assim que a lamúria saiu da minha boca, me toquei de que a própria terapeuta ouvia uma neurótica falar groselha às 20h de uma sexta-feira, né? O legal é que, na sessão seguinte, a primeira coisa que ela me fala é que, durante toda aquela semana, ela esteve pensando no meu comentário relacionado às tais horas felizes. Quer dizer: ¯\_(ツ)_/¯. Heures hereuses? Qu'est que c'est?

Na hora de dar adeus à terapeuta, invoquei a alegoria do tabagista, dizendo-lhe com ares de fingida sapiência que, enquanto o próprio fumante não deseja efetivamente parar de fumar, qualquer tratamento para largar o vício esta fadado ao fracasso. A obra da Tokarczuk, por seu turno, me alertou que talvez uma outra alegoria tivesse sido mais apropriada à minha situação. Inclusive, com a leitura do Lendo Tchekov, ótimo livro escrito pela Janet Malcolm, descobri que, no conto Kachtanka, o contista russo também já havia narrado a mesma parábola sobre alienação (termo adotado pela Malcolm) que aparece em Sobre os ossos dos mortos. Refiro-me àquela do cãozinho que, após salvo de uma situação de maus-tratos, abandona o novo lar para retornar ao mau dono.
"Depois olhou pra mim com tristeza -- posso dizer com sinceridade que mirou meus olhos profundamente -- e correu às pressas para a casa de Pé Grande.
Foi assim que a cadela voltou para a sua prisão." 
                               - Olga Tokarczuk; Sobre os ossos dos mortos (tradução: Olga Baginska-Shinzato)

É, suponho que meu hasta la vista, baby foi assim. Olhei a terapeuta com olhos de desculpas e voltei para a ordinária realidade que conheço bem e à qual já me habituei (é, e ela responderia que, se eu tivesse realmente me habituado, eu não a teria procurado. e depois diria que eu continuo querendo adivinhar o que ela está pensando. E depois, e depois, e depois...). Hum, taí, quem sabe a senhora Dusheiko não possa me ajudar? Astrologia, aqui vou eu!

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Estava prestes a passar a régua nesta postagem, quando me veio à memória The Sex has made me stupid, da Robots in Disguise, música que ouvi pra caramba durante a época em que ocorre a história narrada por Rooney. Trago-a pra cá, pois é perfeita para encerrar a primeira bobajada deste blog em 2020. Bora dançar, observar animais e suspirar com os olhares (e dotes vocais, é bom lembrar) do Adam Driver. E se não rolar transa, basta acionar o Doctor Manhattan Dildo®. 🎇Feliz ano novo!🎇