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22/08/2021

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #06 - Emma Zunz

 (Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, disponibilizou resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre emma zunz: link 2

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

A primeira leitura de Emma Zunz me deixou no vácuo, causando-me a sensação de um ponto fora da curva borgiana (daquela que ora conheço; claro). Daí, optei por deixar o conto encostado, relendo-o vez ou outra, na esperança de que meu inconsciente o digerisse e me regurgitasse algo — ou, como habitualmente ocorre, na esperança de que eu esbarrasse numa obra que me ajudasse a melhor compreendê-lo. Hoje me dou conta de que um ano e meio já se passaram (!) e: nada. Ou quase nada. Não nego persistir um bocado encafifada com Emma Zunz, mas decidi que é hora de embarcar no esforço de organizar as ideias, sobretudo porque as recentes leituras/reflexões que fiz acerca de romances policiais (ajuda recebida de Georges Perec + Todorov) me sopraram que os paralelos que costurei, desde a primeira leitura, com outros dois romances é um ponto de partida bastante legítimo. 

Não sei se a ausência de romances policiais/thrillers entre minhas leituras justifica, mas é fato que não costumo me deparar com passagens literárias que descrevem personagens executando o plano de assassinato de outro ser humano. Possivelmente por isso — também não sei se justifica — certas imagens de Lolita e Ruído Branco, relativas exatamente a tais descrições, ficaram gravadas em minha memória, feito cicatriz. Logo, não me surpreendeu ser transportada de volta, pelas mãos de Emma Zunz, aos instantes nos quais Humbert assassina Clare Quilty e Jack (quase) assassina Mink. Dessa maneira, refleti em conjunto as experiências dessas três personagens e, a seguir, listarei algumas questões relevantes que pude identificar. [Disclaimer: faz muito tempo que li Lolita e Ruído Branco; portanto, ao apelar às minhas lembranças, é possível que eu incorra em imprecisões.]

(1) Os momentos preliminares, que prenunciam o bote
Chama atenção o quanto os autores investem na longa descrição — minuciosa, sem pressa; em flagrante oposição ao estado psíquico da/o assassina/o — daqueles instantes que antecedem o assassinato; resultando numa dramaticidade e suspense que, comicamente, me remetem à forma com que documentários sobre animais narram, sei lá, o leão se preparando para matar a zebra. Ora, o conto de Borges, sendo um tanto estrita, constrói-se apenas mediante tal artifício descritivo. Aliás, é muito provável que esse aspecto formal — do qual resultam imagens tão cinematográficas e vinculadas a sentimentos de intensa excitação — seja o efetivo responsável pela marcação das cenas de Lolita e Ruído Branco em minha memória de leitora. Além disso, é curioso que Nabokov tenha escolhido o período diurno para ambientar a preparação de Humbert, pois a noite, escolhida por Borges e DeLillo, aparenta ser um momento mais seguro para que o autor consiga provocar no leitor a almejada tensão/expectativa.

Outra noção marcante dessas descrições corresponde ao perfil dos caminhos por onde as personagens passam antes de proferir o golpe final; espécies de labirintos oníricos escondidos nos espaços urbanos. No livro Crime Fiction (The Cambridge Companion), Laura Marcus comenta que, segundo Chesterton (queridinho de Borges, por sinal), a ficção detetivesca é a poesia da cidade inscrita em hieróglifos urbanos; o que, na opinião de Marcus, abriria esse gênero na direção de duas ordens: aquela em que razão e lei prevalecem e, em oposição, aquela marcada pelo enigma e o fantástico. No conto de Borges, Emma Zunz serpenteia pelo porto [lembrei da segunda temporada de The Wire (HBO), ambientada no porto de Baltimore! coincidência? duvido], por bares e vielas; Jack (Ruído Branco) dirige por vias escuras, desérticas, locais que, dada a descrição de DeLillo, sequer lembram este mundo. Opa!, fisgarei essa deixa para lançar uma pergunta: o plano de assassinato exige que as personagens adentrem noutra realidade?? Ou mesmo que construam outra realidade na qual entrar? Suponho ser exatamente isso. O crítico Floyd Merrell explana bem o processo de construção da nova realidade, no qual incorre Emma Zunz (traduzo livremente):
"... Emma Zunz é bastante pragmática. Ela reconstrói sua realidade de modo que passe a atender a seus propósitos. Ela deseja vingar o pai, cuja morte decorreu largamente das ações exploradoras e repressoras do chefe. Então ela perde a virgindade para um marinheiro e, depois, atira no chefe do pai, contando à polícia que o morto a havia estuprado e que, portanto, ela meramente se defendeu. A realidade de Emma é dolorosamente real, (...) ela usa seu mundo da melhor forma que conhece, conformando-se a ele, ao mesmo tempo em que rebela-se contra suas injustiças, a fim de atingir seu objetivo."

                                            — Floyd Merrell; The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges 

É importante ressaltar que, conforme a leitura desse trecho crítico aponta, os assassinos são sujeitos ativos nesse processo de remodelação da realidade; quero dizer, são eles próprios quem deformam a realidade (ou: constroem a nova realidade), para que ela passe a se alinhar aos seus interesses prementes naquele instante específico — que, no caso dessas três personagens, relaciona-se ao ímpeto da vingança. E, como estamos falando de Borges, é óbvio que esta nova realidade pertence, igualmente, a um Tempo diverso: "Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes,...".

Acrescento que, ao folhear Ruído Branco antes de escrever este post (o li em 2019), reencontrei uma passagem que me fez reparar noutro aspecto peculiar: esses assassinatos ocorrem em espaços fechados; digo, Emma, Humbert e Jack entram (ou invadem, como queira) uma casa, a fim de cometer o planejado assassinato. Esse movimento de passagem, do aberto para o fechado, também me parece significativo para a hipótese de transição entre realidades distintas. Transcrevo o intrigante trecho de Ruído Branco ao qual me refiro:
"By coming in here, you agree to a certain behavior," Mink said.

"What behavior?"

"Room behavior. The point of rooms is that they're inside. No one should go into a room unless he understands this. People behave one way in rooms, another way in streets, parks and airports. To enter a room is to agree to a certain kind of behavior. It follows that this would be the kind of behavior that takes place in rooms.

                                                                         — Don DeLillo; White Noise (Ruído Branco) 

Ou seja, a narrativa de DeLillo, mediante essa fala de Mink, propõe que entrar num quarto, um espaço fechado, implica assumir um comportamento diferente daquele em espaços abertos. Então, ao penetrar nesses espaços, as personagens assassinas continuam a ser a mesma pessoa? Estaríamos falando, assim, de outra realidade E de outra identidade? Opa!, agarro essa segunda deixa para fixar o próximo item desta lista.

(2) "(...) quem sabe; já era a que seria." — Borges; Emma Zunz.
Quando Humbert confronta Quilty, ele se apresenta como o pai de Dolores, acusando-o de tê-la raptado e estuprado; em outras palavras, Quilty torna-se o único responsável pela desgraça que ocorrera na vida de Lolita. Humbert, naquele instante, deixa de ser Humbert; não tem mais culpa de coisa nenhuma, passando a ser apenas um papai que sofre e vinga a violência cometida contra a filha amada. Acredito que Humbert e Quilty se aproximam a um Duplo, porém com a notável ressalva de que é Humbert quem força esse Duplo ao se posicionar artificiosamente no polo oposto ao de Quilty, na tentativa de que deixem de corresponder a uma identidade em tudo equivalente. 

Minha leitura de Emma Zunz seguiu caminhos similares àqueles que percorri a partir da cena de Nabokov. Embora a narrativa de Borges não permita acessar o íntimo de Emma, teorizei, mediante os subsídios textuais fornecidos, que a notícia do falecimento do pai inundou a personagem de sentimentos de culpa: se Emma tivesse revelado a verdade acerca do crime pelo qual o pai fora injustamente acusado, será que ele teria se suicidado? Quer dizer, penso que a personagem entrou na paranoia de questionar se ela poderia ter evitado a morte do pai. Seguindo esse raciocínio, especulo que, para matar Loewenthal, Emma precisa projetar toda essa culpa nele — à semelhança do que fez Humbert. Inclusive, antes de efetivamente apertar o gatilho, ela já está convicta de que fora Lowenthal quem a estuprara, no entanto o leitor sabe que a decisão de transar com o marinheiro foi única e exclusivamente dela.

"Diante de Aaron Lowenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje por ela sofrido."

A assertiva destacada acima, ao mesmo tempo em que força a pergunta, lança a resposta óbvia: e como, com que recurso esses assassinos conseguem remodelar a realidade e a identidade; passando a experimentar um outro tempo? Elementar, meu caro Uátson: via relato, narrativa, ficção. [Vale lembrar que Humbert, "convenientemente", é um tonto das letras, não é?]
"Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação quase desacreditada por quem a executava, como recuperar aquele breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde?"
Eu sei, eu sei; ninguém aguenta mais esse papo de narrativa, mas suspeito de que o fastio geral é mera decorrência da plena ciência de estarmos diante de um fato incontornável da vida humana (e inumana até). O crítico Roberto González Echevarría discute diretamente a confluência entre crime e narrativa, na obra de Borges (traduzo livremente): "Tanto no crime quanto na ficção há um esforço para esconder os mecanismos da mentira que, com todas suas conotações morais, funciona como o incentivo. Emma executa o que acredita ser um crime perfeito, do mesmo modo que um escritor busca escrever uma história perfeita." (The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges)

Persistindo nessa reflexão, esta frase do conto borgiano me atrai em particular:

'...e o singular alívio de estar afinal naquele dia. Já não tinha de tramar e imaginar, dali a algumas horas chegaria à simplicidade dos fatos."
Quer dizer, esse processo de elaboração, via narrativa, de uma outra realidade e identidade é exasperante, não é algo que ocorre facilmente, sem dor alguma. — Escritores que o digam, imagino. — A propósito, o momento do assassinato faz com que o leitor compartilhe com a personagem assassina do mesmo alívio: a vítima morreu, encerrou o suspense e tensão, o fim da história chegou e, assim, ninguém precisa sofrer acompanhando/elaborando uma narrativa. Entretanto a cena de Ruído Branco subverte, até certo ponto, precisamente isso e, na verdade, é o que mais me marcou. Explico: disparados os tiros, ao ver o corpo ensanguentado à sua frente, Jack parece ser lançado para fora da realidade e identidade que construíra a fim de conseguir matar Mink. Em outras palavras, os disparos não trazem a Jack o alívio, mas sim o desespero de perceber que acabara de atirar contra um ser humano que, em consequência, morreria rapidamente, caso ele não fizesse algo para ajudar. Essa súbita mudança de chave no comportamento de Jack me surpreendeu bastante. 

Na sequência, cabe colar o trecho final de Emma Zunz:
"Com efeito, a história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios."
Considerando-se o estereótipo do judeu religioso e avarento ao qual recorre Borges no conto*, talvez parecerá provocação minha trazer Amós Oz para esta conversa, no entanto não é (acho). Em Os Judeus e as Palavras, Amós e Fania, ao comentar a eterna discussão acerca da veracidade do que está escrito nos textos bíblicos, escrevem algo de tocante perspicácia, que dialoga demais com o parágrafo final de Emma Zunz, transcrito acima:
"Mas os autores existiram, e sua linguagem existiu. Quem inspirou essas histórias? De onde vieram os heróis e heroínas, os enredos e fábulas, os diálogos e expressões? Da vida real, foi daí que vieram. De linhas de textos.
Um arqueólogo poderá se preocupar com o fato de os relatos bíblicos serem mera "ficção", mas nós viemos de um lugar diferente. "Ficção" não nos assusta. Como leitores, sabemos que ela transmite verdades."
 
                         — Amós Oz, Fania Oz-Salzberger; Os Judeus e as Palavras (Tradução: George Schlesinger)

Ou seja, toda ficção se sustenta numa verdade.
 
* [ADENDO] A caracterização de Loewenthal me intrigou e incomodou e, de fato, não consegui atinar por que Borges fez essa escolha narrativa. Questiono se esse artifício inadvertidamente (?) denuncia o antissemitismo disseminado, uma vez que me parece restar subentendido que o fato de Loewenthal ser um judeu avarento, quem sabe até criminoso, funciona como elemento que, para muitos (lamentável e infelizmente), torna a história verossímil, real. Sei lá, foi o máximo que consegui concatenar a respeito disso.

Pronto; encerro minhas groselhas aqui. Hora de dar play no vídeo da Aimée.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Opa, esse meu diálogo com Aimée ficou interessante, pois acabamos seguindo caminhos um tanto diferentes, ainda que tenhamos tocado em pontos comuns: em meus comentários, persegui muito mais os aspectos formais, numa reflexão a partir de romances policiais — em paralelo com outros dois romances—; enquanto Aimée destacou sobretudo os fundamentos psicanalíticos de Emma Zunz. Confesso que, embora seja impossível deixar de franzir a testa durante a leitura do trecho "Pensou (não pôde não pensar) que seu pai fizera com sua mãe a coisa horrível que agora lhe faziam.", esse lado psicanalítico e a sexualidade aparentemente mal resolvida de Emma Zunz não me instigaram durante (ou após) a leitura. Quer dizer, justamente num conto "de personagem", conforme disse Aimée, eu persisti focando nos elementos da engrenagem ficcional. ¯\_(ツ)_/¯

Elenco, a seguir, algumas novas reflexões proporcionadas pelo vídeo da Aimée:

⇰ Todo esse papo psicanalítico me fez perceber que deixei de mencionar outra conexão evidente entre Emma Zunz, Humbert e Jack: essas três personagens não apenas executam planos de vingança, como também se vingam de violências de natureza sexual. A distinção evidente é que, no caso de Emma, ela assume, simultaneamente, os papéis de "vítima" (questionável, eu sei) e vingadora — os outros dois vingam uma mulher (o caso de Humbert, então, nem se fala: na real, pensando nesses termos, o tonto deveria ter atirado nele mesmo);

⇰ Aimée questiona os motivos que fizeram Zunz submeter o próprio corpo àquela violência, e acredito que meus prévios comentários trataram disso: porque foi o artifício encontrado para cometer o crime perfeito, para montar a genial narrativa que evitaria sua prisão pelo assassinato de Loewenthal. Considerando-se os elementos textuais relacionados à sexualidade da personagem, não surpreende que esse tenha sido o caminho vislumbrado — conforme escreveu o crítico Floyd Merrell naquela passagem que transcrevi: "ela usa seu mundo da melhor forma que conhece."  No mais, quando Aimée comentou que teve a impressão de que Emma não julgava que a honra do pai seria motivo suficiente para matar Loewenthal, sendo necessário criar um outro; fui catapultada para o que eu escrevi em meus comentários sobre a peça Othello, de Shakespeare! É que, naquele post, escrevi justamente que, sob uma perspectiva moral, Iago parecia se sentir desconfortável por fazer tudo aquilo contra Othello motivado apenas por suas ambições, de modo que ele inventa (e força-se a nela crer) a história esfarrapada de que sua mulher o havia traído com Othello. Legal; amei essa conexão.

⇰ E eu que, inadvertidamente, mergulhei na aparente paranoia de Emma, pois nunca duvidei do suicídio do pai dela? Ai, jizuiz... Veja, "tomar por engano uma forte dose de Veronal" (veronal  = sedativo barbitúrico) não é uma descrição que sustenta bem a versão de morte acidental. (rimou!) O mais provável, diante dessa informação, é que ou o pai dela foi assassinado (um boa noite, Cinderela fatal) ou se suicidou. Contudo, reconheço que complica demais quando o narrador nos diz que "Emma leu..."; digo, entre o que ela leu e o que efetivamente estava escrito pode haver uma grande diferença realmente. No entanto, pensando com mais cuidado agora, a descrição da carta fala um bocado a favor de que o pai dela foi assassinado, hein. Se duvidar, é o próprio assassino quem redigiu a carta. EITA!


Curti essa experiência de leitura compartilhada; achei que ficou bastante rica. Mais uma vez, valeu, Aimée.

13/09/2020

Maybe all I need is a shot in the arm

Shannon Cartier Lucy; Naptime (2018)
01
No vídeo em que apresenta sua biblioteca para o canal Les Inrockuptibles (link aqui: X), Leila Slïmani compartilha uma singela história que marca a relação dela com Anna Karênina, de Tolstói, e com a própria literatura. A autora relembra ter sentido muita raiva ao ser chamada pro jantar por sua mãe; quando, no quarto, ela lia a página <SPOILER> em que era narrado o suicídio da personagem Anna Karênina. Slïmani explica que sua revolta decorria do fato de que, para ela, era inadmissível pensar em tais trivialidades - jantar?!-, quando Anna Karênina simplesmente acabara de morrer.

Durante este período de medidas de isolamento e distanciamento sociais, vivi algo similar ao relatado por Slïmani. Quando dei por mim, me peguei preocupada com as Irmãs Makioka (! - personagens do livro de Junichiro Tanizaki), consumida pelas seguintes reflexões e aflições: mas e quanto à visita anual das irmãs às cerejeiras do jardim sagrado no templo Heian, em Kyoto, no mês de abril?! E a tradicional foto das quatro debaixo da cerejeira localizada à beira do lago Hirosawa, com a montanha Henjoji ao fundo?! Não vai rolar?! Ah, não! Puxa vida, como estará Sachiko? Que pena. De início, me senti meio abestalhada, temerosa de ter virado uma Dona Quixote, entretanto lembrei das palavras de Slïmani e sosseguei — "Foi quando, pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não se dão conta da importância da literatura. Eu estava completamente alheia às trivialidades da vida."

Com a leitura de Os Judeus e as Palavras, também encontrei conforto no trecho em que Amós Oz e Fania Oz-Salzberger comentam que pouco importa se as personagens bíblicas, por exemplo, existiram ou não, porque todas vieram da vida real, vieram de linhas de textos cujas ideias transmitidas existiram e ainda existem. "Como leitores, sabemos que a ficção transmite verdades". Quer dizer, será que, neste exato momento, não há uma família japonesa desolada porque se viu impedida, pela pandemia, de seguir sua tradição de visitar as cerejeiras em flor? Pois meu pensamento está com ela. Por sinal, o último conto que li de Borges (Emma Zunz) igualmente tocou nesse assunto (≅ os detalhes das histórias são ficcionais, enquanto os sentimentos...), mas este é tema da próxima postagem da série de leitura de O Aleph.

02
Suponho que uma das coisas que torna momentos como este verdadeiramente difíceis é termos pessoas em nossas vidas com as quais nos importamos plenamente, não? O tal, digamos, "Sustentável (mas a que custo, meu deus!) Peso do Ser". Esse desvario cafona me ocorreu em resposta a uma cena tragicômica do belo filme Starlet (Uma Estranha Amizade; 2012), do diretor Sean Baker. A obra narra a gradativa amizade que se estabelece entre duas mulheres solitárias da Califórnia, uma jovem e uma idosa. A senhorinha resiste rabugenta às investidas persistentes da garota, sobretudo avessa ao cachorrinho que era carregado a tiracolo pra todo lado, tratado praticamente feito bebê. Quando as duas estão um tanto mais próximas, a jovem pede que a senhorinha fique de babá do cachorro, enquanto ela trabalha. O experimento não dá muito certo, pois o cão foge e a pobre senhora, totalmente exasperada, gasta horas procurando-o pelas ruas do bairro. Não demora, e logo o filme faz o que filmes fazem melhor; digo, entrega a famigerada imagem que fala por mil palavras:
↥ Aos prantos, ela cambaleia desolada no meio da rua. A edição do filme é massa, visto que, desse ponto, corta diretaço para a senhora devolvendo o cachorro à moça, ao mesmo tempo em que ordena-lhe, sem qualquer explicação, que desapareça pra sempre e que não a aporrinhe mais os pacovás. 

E não é assim? Assim é.

03
Os meses de março e abril, em particular, foram marcados por suadeira nas mãos, angústia opressora e contínua leitura de artigos sobre a doença, tendo as notícias da Globonews como trilha sonora. Graças a essa rotina, acredito ter conseguido capturar uma imagem da melhor biblioteca de jornalista dentre aquelas que têm aparecido durante as atuais transmissões de TV. Falo do escritório/biblioteca de Miriam Leitão, antes do suposto upgrade:
Por onde começar??!! 
- Máquina de escrever fabulosa (quero);
- Pôster da Clarice Lispector;
- Outro pôster ali atrás de algum livro da editora Record?;
- Quadros... eu deveria saber de quem são, né? Vergonha; não sei (não sou das artes, me ajudaê);
- Carrinho mara de biblioteca (quero!);
- As Crônicas de Nárnia (! - #nãolinemlerei);
- Pilha de moleskines (?);
- Algum tipo de colírio para olhos (acho - é, também tenho aqui do lado);
- É uma calculadora, ali?!;
- E la pièce de résistance: a palmilha sobre a mesa (ou não é?). Como? Por quê? Um mini conto se aproxima. 

04
Boa musiquinha para a presente realidade, esta do Caribou. Saca o refrão em loop eterno:

She's going home
Baby, I'm home, I'm home, I'm home

(*Aliás, pera, canção das privilegiadas..., né? Ontem, loser; hoje, privilegiada. So it goes.)

05
(Dado que o tema é casa:) No começo do ano, eu estava em busca de um novo apartamento pra morar (caçada interrompida pela pandemia, claro) e, além dos requisitos óbvios (preço ok, dispensa de reformas etc), eu só fazia questão de uma coisinha: VARANDA. E pra quê, né? A real é que não se constroem mais varandas e, quando o fazem, a família classe média brasileira vai lá e taca-lhe uma janela pra fechar tudo, integrando a p* toda à sala. Eu vejo as fotos nos sites de imóveis e quero morrer. Quando tomada pelo espírito meio bastante porco do "há males que vêm pra bem", ouso trepidante conjecturar que, com alguma sorte, esse vírus fará a turma dar a devida importância às varandas. Quem envidraçou e tijolou sua varanda, não pôde postar, nas redes sociais, vídeos de cantoria e festinhas nesses espaços, não é meixmo? Bem feito. É peculiar, esse habitual anseio do brasileiro de separar-se a qualquer custo do mundo exterior, de ampliar e definir precisamente os limites do seu espaço privado. 

Frustrada com a realidade imobiliária, não pude evitar que meus olhos marejassem diante deste inesperado poema da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen:

Varandas

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha

Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade
 — Sophia de Mello Breyner Andresen

Não posso contar com arquitetos, engenheiros e imobiliárias; porém ainda posso contar com os poetas.

06
Por falar em poesia, 
a mesa de bar, tema é,
no Slam da Pandemia.
Dr. Fauci ou Carioca do Leblon?
Água ou Chandon?
Garçom, sobe o som!
Durante uma das trilhas que fiz numa viagem do ano passado (contei aqui: X), um moço do grupo se destacou por seu desconsolado praguejo: - Puta merda, tanta praia bonita pra tomar uma cerveja gelada, e eu aqui nesse perrengue. A fala dele não só alimentou ainda mais minha crise de riso provocada pela inusitada situação em que me encontrava (botando os bofes pra fora, cercada pela natureza inebriante), como também despertou certo desalento embalado por aquela assombrosa pergunta de Esperando Godot, do Beckett: We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist? (Nós sempre achamos alguma coisa, hein Didi, para nos dar a impressão de que existimos?) Por que esse something é, pra tanta gente, o álcool? Isso me deixa destrambelhada, admito com não pouco embaraço. Ora, lá estávamos nós cercados pela, como disse deliberadamente, natureza inebriante, e mesmo assim não era suficiente. Toda aquela beleza articulada com o esforço do corpo não bastava para que o moço se convencesse de que ele estava vivendo amarradão. Não entendo; e simultaneamente estou ciente de que (1) minha reação é despropositada e (2) não tenho direito de julgar. Que as pessoas tenham encontrado um something, já é motivo para se contentar, de fato. Acho. Ou será que o álcool, na real, somente faz as pessoas esquecerem que estão à procura de um something? Caí num pleonasmo? Que confuso. Ah, e sim, meu lugar de fala é o da pessoa que não bebe. Quer dizer, curto um vinhozinho com uns queijos espertos talecoisa (#pequeno-burguesa), sabe como é, contudo a parada, pra mim, se encerra aí. Chata muito? Opa, provavelmente; mas como hoje estou disposta a ser gentil comigo mesma, argumento que apenas prefiro ficar bêbada mediante outros meios — e não; não tô falando de remedinhos.

The Hills erect their purple heads,
The Rivers lean to see
Yet Man has not, of all the throng,
A curiosity.

— Emily Dickinson

Em meio a esse conflito alcoólico, os filmes do Sang-soo Hong, que andei vendo nestes dias, só pioraram minha desorientação. Em todas as obras desse cineasta sul-coreano a que assisti, o álcool se faz presente de um modo determinante que, a princípio, me desconcerta. Em linhas gerais, a entrada do álcool nas narrativas dele serve para desarmar as inibidas e formais personagens que, então, finalmente desembucham o que de fato estão sentindo. Ou seja, o esforço exigido pela rígida performance social é posto de lado e os nós desatam quando a galera de Hong começa a encher a cara. Pô, só eu® fico meio deprimida diante dessa dependência humana? Busquei no google artigos/críticas/análises acerca dessa presença do álcool nos filmes do cara, mas não localizei nada legal. No entanto, a entrevista que ele concedeu ao site Sofilm me ofereceu respostas valiosas, algumas das quais listo a seguir (grifos são meus):

Q- Como começou a beber? R- Eu tinha 15 ou 16 anos. Cerca de 10% dos meus colegas de turma bebiam nessa idade, (...) Os meus amigos tinham problemas familiares, todos eles. Assim, quase todos os dias, depois das aulas, nos encontrávamos para beber juntos. (...) Bebíamos muito. Realmente, muito.

↦ Q- Por que bebia tanto? R- (...) Eu estava... (longo silêncio) solitário. Eu era muito reservado. Não tinha amigos fora do meu gangue alcoólico. (...) Eu estava muito desorientado, sem objetivos ou planos para a vida. (...) Eu não sonhava com nada. Esse período de alcoolismo brutal durou dois anos (...) entre os 15 e os 17 anos. Depois comecei a beber menos, mas ainda não tinha nenhum objetivo! (...) Só queria esquecer.

↦ Q- Gostava de ler e escrever? R- Sabe, beber é algo tão poderoso, que apaga qualquer relação que se possa ter com qualquer outra coisa, apaga toda a sua energia. Mas no fundo, me senti dividido entre essas duas experiências: beber e escrever. Embora não pudesse escrever com frequência, estava sempre interessado em livros.

↦ Q- Quando bebe com os seus amigos, de que falam? R-  (...) o que faço é propor um jogo alcoólico para entornar todas. Se o jogo durar uma hora, todos acabam bêbados e não há mais necessidade de falar. Nos sentimos próximos, nos amamos, e não há necessidade de dizer bobagens pelas quais se arrepender no dia seguinte.

Q- No entanto, nos seus filmes, esses momentos frequentemente levam a situações embaraçosas, em que as pessoas falam demais. R- Sim, mas na minha vida isso só acontece quando bebo toda a noite, conversando até o amanhecer. É aí que se acaba fazendo besteira. E nem sequer é sincero, são bobagens que não se ancoram na realidade; um produto do cérebro fora de si. É por isso que eu gosto de jogos, porque não lhe dão tempo para falar. Tudo o que permitem é se embebedar, se sentir bem com as pessoas e ir para casa feliz.

↦ Q-  Então, costuma beber com os seus alunos? R- Tento evitar. (..) gastei tanta energia com eles! As conversas nunca acabam! Não suporto. Estão ansiosos por tudo, durante todo o dia, têm muitas perguntas sobre a vida.


Minha hipótese do álcool servir para promover o esquecimento da pergunta formulada pela peça de Beckett parece ter sido corroborada pelas respostas de Sang-soo. Interessante. E o que ele menciona a respeito da enorme capacidade do álcool de bloquear qualquer relação que possamos ter com outras coisas na vida me tocou em especial, pois parece ser o cerne do que me inquieta na relação firmada por muitos com essa droga. A sensação é que, para realmente diversas pessoas, nenhuma ocasião será de efetiva celebração feliz com o outro, a menos que envolva bebida alcoólica. Por que sentem-se (creio) desse jeito? Também preciosa é a opinião dele de que o álcool não desperta a expressão de nenhuma verdade interior do indivíduo, mas apenas um monte de idiotices. Gosto disso, sobretudo porque desmonta a leitura que fiz de seus filmes. E, claro, para quem aprecia demais o silêncio, torna-se mais fácil entender a enorme valoração social do álcool, a partir do momento em que Sang-soo me diz que o que ele busca com a bebida é a possibilidade de não falar nada e ser feliz com os amigos de que gosta. Um brinde a isso, senhor Sang-soo.

Que dei meus últimos tostões
Por esse vinho, estão lembrados?
E seus eflúvios inspirados
Geraram tolas percepções,
Mas também verve e poesia,
E discussões, sonho, alegria!

— Alexandr Pushkin; Eugênio Oneguin 
    (Tradutor: Dário M. C. Alves)

O livro de Montaigne afinal saiu da estante, e, ao espiar o índice, tive a alegria de dar de cara com um ensaio intitulado Sobre a embriaguez. Bom, eis que saí da leitura com um aliado e tanto, pois não é que o grande ensaísta meio que concorda comigo?! Rá!, tomem essa, bebuns dos infernos. Montaigne considera a embriaguez um vício grosseiro e brutal, que destrói e entorpece o corpo. No ensaio dele, porém, consta uma lista de causos históricos que contradizem o cineasta Sang-soo Hong no que diz respeito à eficácia do álcool em fazer a turma da mesa de bar vomitar seus segredos mais íntimos. Vale ressaltar que, para Montaigne, é importante reconhecer que uns vícios são piores que outros e, nesse sentido, embora covarde e estúpido, o álcool não seria o pior e mais prejudicial à sociedade. < Aqui, admito que discordamos, porém deixo esse debate para outra ocasião. Fora que o cara fala do contexto social do século XVI; é bom lembrar. > Para não me restringir a um tolo ataque ao álcool (sequer é minha intenção), acrescento o que, segundo Montaigne, Platão afirmara acerca da embriaguez: "(...) a embriaguez é uma prova boa e segura da natureza de cada um, ao mesmo tempo que é capaz de dar às pessoas de idade a coragem de se divertirem em danças e na música, coisas úteis e que não ousam empreender em estado normal". Claro que tem seu valor, portanto. Mas tem uma pegadinha: na cartilha platônica, a bebida está liberada só após os quarenta anos. É, já suspeito quais seriam as reflexões de Platão sobre a bebedeira nos filmes do Sang-soo, sobretudo se ele fosse informado de que o cineasta começou a entornar garrafas de soju aos quinze anos. 

Emet
(...)
Eu sei, também tenho ido a bares e outros lugares
igualmente reais. E tenho tido
uma vida ou mais. Mas é tempo de falares
tu, livro. Eu tenho dito.
 
— Manuel António Pina


Sensação de que paguei de chatonilda ao abordar esse tema; e o pior é que nem precisava, uma vez que tudo que tentei concatenar aqui a respeito do álcool já foi dito de forma muito mais divertida pelos senhores Robert Eggers e Max Eggers, no filme O Farol (2019).

- Boredom makes men to villains, and the water goes quick, lad, vanished. The only med'cine is drink. Keeps them sailors happy, keeps 'em agreeable, keeps 'em calm, keeps 'em...
- Stupid.
- Curse me if there ain't an old tar spirit.

Mas assim, né?; não trabalhamos com intransigências, veja bem. Pra que essa besteira? Tipo, se este cara aí 👇 me chamasse pro bar, eu negaria? A resposta é: claro que não. Me liga, Lenny Bruce

"(...) Samuel Johnson, tarde da noite, quando saía à procura de conversa de 
taberna, experimentava o alívio de ver suas próprias necessidades refletidas 
na companhia que encontrava: aqueles que bebiam e falavam do Homem e de Deus 
até que a luz despontasse, porque também nenhum deles queria ir para casa."

                                                                          - Vivian Gornick, The odd woman and the city

07
Uma de minhas grandes recentes descobertas (não foi a vacina, desculpa) foi constatar que, quando o assunto é cagar em locais públicos (sim, neste blog, basta um toque na barra de rolagem, e passamos do álcool à caganeira ¯\_(ツ)_/¯), o mundo conta com dois tipos de roteirista de série de TV. Esta, sim, uma escolha difícil. Ladies and Gentlemen, it's time for... THE POOP BATTLE!
De um lado, temos o querido fdp Larry David que, na S10 de Curb Your Enthusiasm (HBO), inventa abrir uma cafeteria cujos banheiros para o público não têm privadas. O mais novo empresário da Califórnia se recusa a ter de lidar com o cocô alheio em seu empreendimento. Ah, então o cliente quer cagar após o cafezinho? Pois vai ficar querendo; porque, no banheiro da cafeteria do Larry, não vai rolar.

Do outro lado, o querido entregador de maconha Ben Sinclair, na S04 de High Maintenance (HBO), nos apresenta a um pobre profissional de Mensagens ao Vivo (é esse o termo?) que, mega apertado enquanto trampa nas ruas de NY, é resgatado por uma cafeteria. O rapaz, ao sair aliviado do banheiro, agradece ao barista e se desculpa de ter defecado no sanitário do estabelecimento. A reação do barista? Abre um sorriso simpático, dizendo-lhe pra deixar de bobagem, porque está ciente do aperreio que é querer fazer cocô, quando se trabalha na rua. No universo de Sinclair, o cocô é livre.

E aí, quem leva o POOP TROPHY? Meu eu constipado que trava-me o esfíncter retal tão logo ponho os pés fora de casa fica com o Larry David; enquanto meu eu consciente de que um intestino saudável requer alívio imediato onde quer que se esteja e que, para isso, é importante ajudarmos uns aos outros, fica com o Ben Sinclair. Complicado.

Pra que escolher um, né? Amo esses dois cagões.

08
E pensar que, no começo do ano, eu estava aqui desejando bastante transa pra todo mundo, hein? How the turntables...

25/11/2017

Alinhavando Leituras

Algumas de minhas últimas leituras dialogaram de modo tão próximo e instigante em certos pontos específicos, uma complementando e enriquecendo a outra, que escolhi alinhavá-las aqui para um breve registro.


                A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER  ⇿  RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL
 Svetlana Aleksiévitch                                    Ricardo Piglia

A ligação entre essas duas obras iniciou-se a partir da leitura do livro da Svetlana Aleksiévitch. À medida que eu lia o relato das soviéticas que atuaram diretamente na segunda guerra mundial, uma crescente exasperação me atormentava, pois eu sentia que aquelas palavras simplesmente não estavam dando conta de transmitir a realidade vivida pelas mulheres entrevistadas pela autora. O objeto narrado era tão grotesco e aterrorizante, que eu percebia que não estava conseguindo removê-lo do campo da abstração e trazê-lo para a concretude de um real tangível; por mais que eu acreditasse, claro, na veracidade daqueles fatos. Minha relação com o texto transformou-se apenas quando verbalizei, em voz alta, um dos episódios brutais da obra para uma amiga. No instante em que as palavras foram articuladas pela minha boca e que o som emitido atingiu meus próprios ouvidos, minha garganta começou a se estreitar em queimação e tive de conter uma onda súbita de lágrimas. Até então, a simples leitura silenciosa do texto não havia induzido semelhante reação. Ironicamente, dada a similaridade com a oportunidade de verbalização oferecida àquelas mulheres por Aleksiévitch, parece que a leitura oralizada potencializou o poder do texto. Foi, de fato, um fenômeno estranho, o qual não compreendi por completo naquela ocasião.

Meses depois, Respiração Artificial apresentou-me a um trecho que proporcionou certo alento e luz. Piglia, tratando da obra de Kafka, escreve o seguinte (*negritos meus):
“Sobre aquilo de que não se pode falar, o melhor é calar, dizia Wittgenstein. Como falar do indizível? Essa é a pergunta que a obra de Kafka tenta, repetidamente, responder. Ou melhor, disse, sua obra é a única que, de maneira refinada e sutil, atreve-se a falar do indizível, daquilo que não se pode nomear. Que diríamos hoje que é o indizível? O mundo de Auschwitz. Esse mundo está além da linguagem, é a fronteira onde se encontram as cercas da linguagem. Arame farpado: o equilibrista caminha, descalço, sozinho lá em cima, e procura ver se é possível dizer alguma coisa sobre o que está do outro lado.  
Falar do indizível é pôr em perigo a sobrevivência da linguagem como portadora da verdade do homem. Risco mortal.”  
No instante em que li isso, lembrei de pronto daquelas soviéticas e pensei: pronto; acho que o enigma foi solucionado. Aquelas mulheres, em parceria com Aleksiévitch, ousaram falar/escrever o indizível e, assim, me ensinaram uma lição que tornou-se mais clara mediante a ajuda de Piglia: a linguagem simplesmente não é onipotente. Aquele mundo da segunda guerra mundial, vivido por aquelas combatentes, está além da linguagem. E bom, pelo menos comigo, parece que a oralidade auxiliou a linguagem escrita a melhor executar a árdua tarefa que lhe fora atribuída. O final desse processo, inclusive, acabou por reforçar a importância de conceder àquelas mulheres a chance de verbalizar suas versões da História.
                                      THE LONELY CITY            ⇿                 ENTRE AMIGOS
                                           Olivia Laing                                               Amós Oz

Aqui, até que a questão não me causou tanta surpresa. Li inicialmente The Lonely City – The Adventures in the Art of Being Alone, livro em que Laing explora a relação de artistas com a solidão das grandes cidades – notadamente Nova York, para onde a própria autora havia se mudado e onde enfrentava momentos recorrentes de tremenda solidão -; associada à ironia e à aparente incoerência presente no fato de que, em meio a tantas pessoas, a solidão reine opressivamente.

Na leitura seguinte de Entre Amigos, por sua vez, a prosa delicada e sensível de Amós Oz deixou claro que a solidão não tem nada a ver com estar entre muitas ou poucas pessoas. A vida daqueles que habitam o pequeno kibutz retratado pelo autor israelense é marcada, indiscutivelmente, por uma intensa solidão. A proximidade física com o outro e o maior contato humano facilitado pelo grupo diminuto não garante remédio contra a solidão. Pesquisando posteriormente sobre o livro, encontrei esta fala de Oz que não deixou mais qualquer dúvida sobre minha percepção: 
“Em todo caso, mais do que revisitar o passado, me interessava investigar como uma comunidade criada para aproximar as pessoas colocava-as numa situação limite, diante da solidão, da falta de amor, enfrentando suas perdas. Uma comuna não é certamente um ambiente onde as pessoas vivam em busca de isolamento, mas é justamente a solidão a marca característica dos personagens de Entre Amigos."
É importante destacar que a própria Laing explora a temática de maneira excepcional, deixando claro, em diversos momentos de sua obra, como esse sentimento e a engrenagem social que o alimenta são complexos.
"Cities can be lonely places, and in admitting this we see that loneliness doesn't necessarily require physical solitude, but rather an absence or paucity of connection, closeness, kinship: an inability, for one reason or another, to find as much intimacy as is desired. (...) hardly any wonder, then, that it can reach its apotheosis in a crowd."

                                     THE LONELY CITY     ⇿       A MANUAL FOR CLEANING WOMEN 
     Olivia Laing                                            Lucia Berlin

Nesse ponto, me ative a um outro aspecto do livro de Laing que me admirou bastante: fui informada, implicitamente, que os artistas retratados pela autora também sentiram a necessidade de se expressarem através da escrita. Como encontrava-me na companhia preponderante de pintores e fotógrafos (Andy Warhol, Henry Darger, David Wojnarowicz...), supus que a arte visual que eles exploravam bastaria para que conseguissem exteriorizar tudo aquilo que os inquietava – muitos com passados conturbados e difíceis a serem trabalhados psicologicamente -, mas parece que isso não é a regra. Para muitos artistas (seriam muitos?), a necessidade da escrita, a princípio, acaba surgindo em algum momento. Essa assimilação foi peculiar, considerando-se que praticamente estabelece um contraponto interessante àquela capacidade da linguagem escrita que comentei na abertura desse post: ela até pode não ser onipotente, entretanto há coisas que, sim, só ela é capaz de expressar a contento.

Agora avançarei algumas semanas. Enquanto lia A Manual for Cleaning Women, descobri o quanto Lucia Berlin inspira-se em elementos autobiográficos ao escrever seus contos. Através de uma narrativa que muito remete à ideia de memórias das protagonistas, ela retrata vidas simples - ainda que conturbadas por drogas, alcoolismo, solidão (!!), câncer, morte etc. - que, talvez por isso mesmo, parecem bastante humanas. Pesquisando mais sobre a autora americana, acabei localizando uma entrevista no site Lit Hub (conduzida pelos seus próprios alunos universitários), na qual ela expôs algo que conectou-se admiravelmente com minhas elucubrações relacionadas àqueles artistas anteriormente mencionados:
(* cores e negritos meus:)
"(Writing) It’s a joy to do it. It’s a place to go. It definitely is a place where I am…where I feel my honest self is. When I first started to write, I was alone. My first husband had left me, I was homesick, my parents had disowned me because I had married so young and divorced. I just wrote to—to go home. It was like a place to be where I felt I was safe. And so I write to fix a reality. I just write to fix a time or an event in my own head. As I said in the class it isn’t for therapy, but more for clarity, emotional clarity. To let me see what I really feel about something, to make it sort of acceptable in my head. (…) I think Proust is quite right saying that only neurotic people write. [Laughter] You know? I think writers want to change their realities in some way. You want to show what’s lovable and beautiful and so you sift through your life and you can look at it one way, or you can look at it another. And writers, I think, are people who need to affirm, need an affirmation about their life. And to me, it’s a way to make things positive, not in a corny way, but to make beauty out of negative things or difficult times, or just to make sense."
Transformar a realidade através da escrita. Ok, talvez essa necessidade tenha atraído aqueles artistas do livro da Laing. Aliás, pouco tempo depois, na newsletter Um Lapso Sutil, Tatiane Dantas escreve um certo trecho sobre a escritora Maura Lopes Cansado que, em parte, também me pareceu conectar-se à fala da Berlin e, notadamente, com Henry Darger. Esse artista viveu boa parte da infância e adolescência em um asilo para crianças com retardo mental e, após a morte, foram descobertas milhares e milhares - literalmente - de páginas escritas com um texto que representa um incrível exercício imaginativo de reconstrução do real, o qual ele intitulou The Realms of the Unreal (!). 
Enfim, o que escreveu Dantas: (* grifos meus:)
"A percepção que tenho de Maura em Hospício é Deus é que a escrita teve uma função vital de atuar como um meio de codificar sua relação subjetiva com o mundo. A noção literária do que é estar em uma instituição se modifica quando uma mulher com um diagnóstico verbaliza sua própria situação e Maura percebia o funcionamento das relações de poder no hospital e tentava mudá-las a partir do seu discurso e atitude. (...) e usava a escrita para afirmar que os rótulos criados na literatura escrita por homens a respeito da mulher não falam sobre a real condição em que as escritoras se viam inseridas."           

      THE LONELY CITY          ⇿          A ÉPOCA DA INOCÊNCIA
     Olivia Laing                                         Edith Wharton

Estes dois foram lidos conjuntamente, e pular de um para o outro acabou rendendo uma situação bem engraçada. Em A Época da Inocência, eu encontrava a Nova York do final do século XIX completamente alvoroçada porque uma mulher casada havia largado o marido na Europa para “causar” no noivado alheio. Já em The Lonely City, a protagonista era a Nova York da década de 60-70 marcada 1. pelas festinhas VIP de Warhol no The Factory, onde artistas aprontavam ~altas confusões~, 2. por sessões pornô em diversos cinemas da Times Square, em cujas salas o público fazia tudo que possamos imaginar e 3. por verdadeiras surubas gays que rolavam nas docas do rio Hudson, regadas a muitas drogas. Impossível não se admirar com essa fenomenal evolução da sociedade de Nova York. Ainda mais se pensarmos que, nesse meu caso, o tempo correspondente a um século foi encurtado a uns míseros segundos necessários apenas para trocar de livro. A mágica da literatura!


                                     THE LONELY CITY          ⇿            WALK THROUGH WALLS
                                           Olivia Laing                                         Marina Abramovic

Retomando o olhar para a figura do artista, foi intrigante perceber que, aparentemente, muitos sentem-se como pessoas estranhas e diferentes, provenientes de outro planeta (algo que, inclusive, alimentaria a solidão). Seria um conceito que apelidei de "O Artista Alienígena". A propósito, alienígena é uma palavra boa, tendo em vista que remete bastante à "alienação"; palavra frequente no livro de Laing.

Separando trechos de The Lonely City sobre o tema:
"(Charles Lisanbry falando sobre Warhol:) "He told me he was from another planet. He said he didn't know how he got here." 

"
(dito por Wojnarowicz, trecho de Close to the Knives:) "I think part of what informs this book is the pain of having grown up for years and years believing I was from another  planet. We can all affect each other, by being open enough to make each other feel less alienated."
"Klaus Nomi, mutant chantant, who made an art of being an alien, like no one else on earth." 

"
(sobre Valerie Solanas:) Still shockingly violent now, the manifesto was so far in advance of its time politically as to be almost unreadably strange, written in an alien language, (...)"

Semanas depois, dei de cara com Abramovic compartilhando com seu leitor o que a shamã brasileira Denise lhe dissera:
"You know, you are not from this planet, your DNA is galactic. You came to Earth from a very faraway galaxy, for a purpose."  
She had my full attention. I asked her what my purpose was. She was silent for a while.
Then she said, “Your purpose is to help humans to transcend pain.”
Extraordinário!  (*pescou?)

      
    UMA SOLIDÃO RUIDOSA        ⇿       WALK THROUGH WALLS
         Bohumil Hrabal                                   Marina Abramovic

Esse diálogo foi inesperado e bastante instigante. Em suas memórias, Abramovic comenta a performance Delusional, que ela encenara em Frankfurt, 1994. Nessa peça de cinco atos, Abramovic usa um vestido preto e permanece deitada sobre uma cama de gelo no meio do palco. Espalhadas pelo chão, há inúmeras carcaças de ratos pretos de plástico; enquanto uma entrevista de sua mãe é reproduzida em um telão. Em dado instante, a artista dança energeticamente ao som de uma música folk Húngara. A seguir, um novo vídeo no telão: Abramovic, vestindo um avental de laboratório, discorre sobre ratos. Ela diz que Nova York possui 6-8 ratos/habitante, enquanto Belgrado conta com 25; acrescentando informações relacionadas à incrível capacidade reprodutiva do animal.

Abramovic explica ao leitor que Delusional tratava de todas as coisas das quais ela sentia vergonha: a infelicidade do relacionamento de seus pais, o sentimento de não ser amada, as agressões físicas que sofrera cometidas pela mãe, as brigas dos pais.

Anos depois, ela recorre mais uma vez aos ratos como um dos componentes da perfomance Balkan Baroque, pela qual ela recebe o prêmio de melhor artista na Bienal de Veneza de 1997. Enquanto ela permanece em meio a carcaças reais de animais mortos, ela surge em vídeo narrando a horripilante história do "Wolf Rat". É assim que ela explica, em suma, a essência da obra:
"Really you can only understand the Balkan mentality if you’re from there, or spend a lot of time there. To comprehend it intellectually is impossible—these turbulent emotions are volcanic, insane. There is always war somewhere on this planet, and I wanted to create a universal image that could stand for war anywhere. (...) Here you have the essence of Balkan Baroque: horrifying carnage and an intensely disturbing story, followed by a sexy dance—then a return to more bloody awfulness."
Pois qual não foi minha surpresa quando, semanas depois, encontro Bohumil Hrabal inserindo o protagonista de sua história em um porão repleto de ratos, onde trabalhava compactando papel usado de livros, para lamento da personagem. E a história de Uma Solidão Ruidosa trata, pelo menos em parte, do regime repressivo da Tchecoslováquia soviética. É fascinante que artistas de estilos tão diferentes como Abramovic e Hrabal, ambos provenientes de países do leste europeu que passaram por regimes autoritários comunistas, tenham pensado no rato como símbolo para tratar de suas experiências, e de maneira assim tão correlata. Trecho do livro de Hrabal:
“(...) e quando tudo estava em silêncio perfeito comecei a ouvir dentes de rato roendo, a ouvi-los destrinchando livros no meu céu, e seu som miúdo me horrorizava, porque era questão de tempo até fazerem um ninho, e poucos meses depois que os ratos fazem ninhos ele fundam um povoado, e seis meses depois formam vilas inteiras, isso se avoluma em progressão geométrica para compor uma cidade, uma cidade de ratos capazes de roer tábuas e vigas com tamanha habilidade que logo, logo (…) duas toneladas inteiras de livros inteiras desabassem na minha cabeça e descarregassem sua vingança em mim por todos os fardos em que compactei a rataria.”
Correto, depois desse livro de Hrabal, a expressão “rato de biblioteca” adquiriu uma nova significação pessoal.

No livro Dictionary of Symbols, J.C. Cirlot descreve isto a respeito do símbolo: "The rat occurs in association with infirmity and death. It was an evildoing deity of the plague in Egypt and China. The mouse, in mediaeval symbolism, is associated with the devil. A phallic implication has been superimposed upon it, but only in so far as it is dangerous or repugnant."

E, claro, ratos já ganharam destaque em outras obras literárias importantes: 1984 (Orwell), Maus (Spiegelman), A Peste (Camus), The Rats in the Walls (Lovecraft).


              AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO      ⇿       DISTÂNCIA DE RESGATE
      Mariana Enriquez                                    Samantha Schweblin


Essa conexão é bem fácil e imediata. Duas escritoras argentinas contemporâneas e extremamente talentosas recorrem a elementos de horror e terror para explorar temas que, originalmente, já são bastante aterrorizantes: violência urbana, ditadura argentina, desigualdade social, patriarcalismo e machismo, poluição ambiental etc. Dentre as duas, confesso predileção fácil por Enriquez, o que não significa dizer que seja necessariamente a melhor (muito menos a pior!) escritora, ressalto. Na prosa de Schweblin, incomodou-me principalmente o predomínio de um absoluto controle da técnica narrativa em uma prosa que, para além disso, não me ofereceu muito mais. 
                    

                       ZAMA                 ⇿             O DESERTO DOS TÁRTAROS
                                    Antonio Di Benedetto                                     Dino Buzzati

Aqui, deparei-me com o tema comum da espera. A dedicatória escolhida por Di Benedetto pode facilmente ser aplicada ao livro de Buzzati:

"Às vítimas da espera."

Aproveitarei, também, para incluir duas imagens – quase reflexas - das adaptações cinematográficas dessas duas obras:

     

A semelhança não é esplêndida? Os dois protagonistas, de pé, encaram o horizonte infinito e vazio como que esperando ansiosamente algo. Mas que diabos de espera é essa? Esperam o quê?  Estariam esperando Godot? Não seria uma resposta de todo equivocada. Se enrolo para responder, é porque esse “o quê” nem importa muito. Acredito que todos nós esperamos alguma coisa, um algo da vida. Como nos casos de Drogo e Zama, o objeto esperado varia de pessoa para pessoa, contudo sua essência costuma ser idêntica: esperamos aquilo que mais ansiamos na vida e que, em última instância, acreditamos que justificará nossa existência. Aquela qualquer coisa que, quanto mais inalcançável, mais desejada é. Daí a gente espera, espera e espera, até que a A Inevitável Espera, aquela objetivamente comum a todos, termina. E nem mesmo temos escolha: esperamos a morte com a certeza de que, esta sim, alcançaremos inevitavelmente. Os protagonistas das obras de Benedetto e Buzzati dão-se conta dessa espera exatamente quando ela termina. Acompanhemos a reflexão final de Drogo:
"Coragem, Drogo, esta é a última cartada, vá ao encontro da morte como um soldado, e que a sua existência errada pelo menos termine bem. Vingado finalmente da sorte, ninguém cantará seus louvores, ninguém o chamará de herói ou de qualquer coisa semelhante, mas justamente por isso vale a pena. Ultrapasse com pés firmes o limite da sombra, aprumado como num desfile, e sorria, se conseguir. No fim, sua consciência não está demasiado pesada, e Deus saberá perdoar."
Agora, a de Zuma:
"Perguntei-me, não por que vivia, mas por que havia vivido. Supus que pela espera e quis saber se ainda esperava alguma coisa. Pareceu-me que sim. 
Sempre se espera mais. 
No entanto, isto discernia meu entendimento; mas, com prescindência dele, estava entregue a uma inércia violenta, como se minha quota estivesse por esgotar-se, como se o mundo fosse ficar despovoado porque eu não ia mais estar nele."
*** 

E esses alinhavos terminam aqui. Aguardarei ansiosa o que as linhas dos próximos carretéis  alinhavarão pra mim.