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18/04/2021

[alinhavando] I love you most of all, my favorite vegetable


Compartilharei algo tão constrangedor que, de antemão, suplico clemência ao tribunal virtual. Posto isto, lá vai: tive um sonho erótico com um chef de cozinha. O motivo dessa presepada, amigas e amigos, é o que eu mesma me pergunto. Na falta de outra explicação incontestável, abracei a teoria de que meu inconsciente decidiu seguir à risca o lema tempos difíceis exigem medidas extremas. Quê? Quem é o tal chef? Nem morta eu digo! Que vergonha, meu deus. Mas ok, darei algumas pistas; quem pescar pescou (só não espalhe, por favor): 1. conheci a pessoa num desses programas gastronômicos da Netflix, 2. ela é super andrógina (a observo com a cabeça inclinada pra esquerda: sim, é homem total; a observo com a cabeça inclinada pra direita: pera, é mulher?!) e 3. ela se assemelha a personagem de anime. Daí, quem acompanha o blog (∅) já sabe o que aprontei a seguir: pedi socorro à estante, em busca de livros cujo tema fosse Comida X Sexo — *além de dois filminhos de entrada e sobremesa. O que mais uma leitora besta poderia fazer? (sei bem em quais outras opções você está pensando.) O resultado surpreendeu, sobretudo porque a singela experiência ratificou que sexo nunca é apenas sobre sexo, assim como comida nunca é apenas sobre comida. (é sobre isso! ®) Conclusão óbvia, mas é sempre do óbvio que esqueço. Portanto, embora eu tenha começado esta postagem falando de sexo e comida, acabarei também percorrendo outros caminhos tortuosos. Vejamos aonde isso me levará.

"Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer (...). Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de "entrar em contato" íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades - e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro."

- Clarice Lispector; Temas que morrem 

🍑

O filme de entrada é Tampopo: Os brutos também comem spaghetti (1985; Jûzô Itami). Sim, finalmente assisti e valeu cada segundo. Itami faz uma espécie de colagem de sketches com abordagens variadas sobre comida; as quais se interconectam pela jornada central da heroína em busca de cozinhar o lámen perfeito. As breves narrativas que mais especificamente relacionam comida e sexo são ótimas, dentre elas aquela famosa, na qual amantes usam a boca para "jogar sinuca" com uma gema de ovo. Outra: galera fica bajulando o pêssego de Me Chame pelo seu Nome, quando, em 1985, já havia um japonês tascando na telona uma vovó espremendo a fruta, hein. Porém, sendo uma tonta romântica, é claro que a cena de que mais gostei foi aquela em que o gângster, morrendo nos braços da amada (os mesmos amantes da gema), descreve as comidas deliciosas que não mais comerão juntos. Vá se lascar. MAS meu sketch favorito do filme é, sem dúvida, o da mãe que, imediatamente antes de morrer, consegue preparar um último jantar para a família:

"Comam, crianças; é a última comida que mamãe preparou!"


O moço que subiu o vídeo para o You Tube o intitulou "cena mais triste de Tampopo", contudo, quando a vi, precisei pausar o filme, de tanto que ria da fanfarronice. É uma sequência cujo perfeito tom tragicômico/crítico-afetuoso raramente se vê por aí. Ah, e mil parabéns para a atriz, que está perfeita. Para surpresa de ninguém, Itami encerra o filme aproximando sua câmera de uma mãe que amamenta o filho. Era o prenúncio de que o primeiro livro desta minha empreitada não permitiria que eu escapasse do binômio mãe-alimento. Claro que uma postagem de blog que começa combinando sonho + sexo + comida desembocaria em mães, né? Maldito Freud dos infernos!

🍆

"Amor erótico não relaciona-se apenas a sexo. Freud pensava que sexo sequer referia-se a sexo. Sexo é sempre carregado de desejo, anseio, medo, fantasia, nostalgia. Segundo Freud, nossas vidas eróticas         começam bastante cedo, durante a infância. Aqui, mais uma vez, uma busca pelo desejo. Todos nós desejamos voltar ao seio materno, à união com o corpo de nossas mães, voltar para dentro do útero."

- Podcast History of Ideas BBC 4, Episódio What is Love?



A adaptação cinematográfica do livro de Laura Esquivel deixou marcas profundas em minha memória. Quando a vi, eu era uma pré-adolescente sem nenhuma noção do que eram metáforas ou sexo, logo imagine o nível de minha perturbação: por que eles estão pelados juntos numa cama? e a cama pegando fogo, enquanto os dois ficam aí parados, como se nada estivesse acontecendo! por quê?! o que diabo é isso? Fiquei tão apalermada, que sequer atinei de abrir a boca para pedir que alguém me explicasse (não lembro se vi com amigas ou com minha mãe). Não revi o filme para confirmar se a cena transcorre assim, mas definitivamente é o trauma que minha memória guardou — fast forward  hoje estou aqui, querendo queimar pelada numa cama, juntinho com um chef de cozinha andrógino e personagem de anime. ¯\_(ツ)_/¯ 

O livro, por sua vez, eu nunca havia lido. Estava ciente da premissa de uma cozinheira que, involuntariamente, transfere suas emoções para a comida que prepara, contagiando a todos que a experimentam (a manjada relação da comida com afetos, memória). O que eu não esperava é que o livro correspondesse à narrativa de um amor que, em meio à Revolução Mexicana, é impedido de concretizar-se em sua plenitude, devido à intervenção de Mamãe Elena, aquela que, pra mim, já é uma das maiores vilãs literárias de todos os tempos. Aliás, a escolha da expressão "Mamãe Elena", remetendo às alcunhas militares que combinam posição hierárquica + nome, não soa gratuita; bem como não é gratuito o fato de Mamãe Elena não ter amamentado Tita (não é que ela apenas não amamentou; ela não se incumbiu, de forma alguma, da tarefa de alimentar a filha, quando bebê). Um instante; noto que estou atropelando o raciocínio, sem nada explicar. Bom, Mamãe Elena era a generala dos de la Garza e, como tal, exige o cumprimento de uma velha tradição mexicana (real? ficcional?): a caçula da família jamais se casa, pois nasce para cuidar da mãe durante a velhice. A parada é mais sinistra, dado que Mamãe Elena não apenas proíbe que Tita se case com Pedro, como arquiteta que o mancebo se case com Rosaura, sua outra filha. E não é só isso! Mamãe Elena obriga Tita a preparar os pratos do casamento, Mamãe Elena acha que a filha a envenena com a comida que cozinha; Mamãe Elena critica tudo que Tita faz; ora, Mamãe Elena, até depois de morta, aparece feito fantasminha para infernizar a vida de Tita. Droga; percebo que, por mais que me esforce, falharei em expressar a contento quem era essa personagem; de modo que apelarei para um velho meme caducado: só quem leu o livro sabe quem é Mamãe Elena, espantosa encarnação literária do arquétipo da mãe castradora.
"Nesse momento pensou no bom que seria ter a força de Mamãe Elena. Ela matava assim, de uma cutilada só, sem piedade. Bom, ainda que pensando bem, não. Com ela, tinha feito uma exceção, tinha começado a matá-la desde criança, pouco a pouco, e ainda não lhe dera o golpe final. (...) Indubitavelmente, tratando-se de partir, desmantelar, desmembrar, devastar, desjarretar, destruir, desbaratar ou desmamar alguma coisa, Mamãe Elena era mestra. (...) Ao lado da mãe, o que suas mãos tinham de fazer estava friamente determinado, não havia dúvida."

                                              - Laura Esquivel; Como Água para Chocolate (tradução: Olga Savary) 

Essa figura materna criada por Esquivel me remeteu a dois marcantes relatos envolvendo mãe e filha, ambos vividos e compartilhados por duas autoras que têm relacionamentos complicados com suas mães. No livro Dear friend, from my life I write to you, in your life; Yiyun Li conta que era bastante apegada a um casalzinho de hamsters, presente da irmã, e que, certo dia, eles desapareceram. O esquisito sumiço foi esclarecido quando sua mãe lhe confessa simplesmente tê-los doado, porque Li estaria obcecada demais pelos bichos, incapaz de demonstrar a mesma devoção aos pais. Já no livro The Odd Woman and the City, Vivian Gornick relata que, na infância, sua mãe sacara uma tesoura para cortar a parte de tecido que cobria o peito de um vestido que a autora muito queria usar para ir a uma festinha, momento de intensa ira em que acusava Gornick de ser uma filha sem coração. Pronto, acho que agora, sim, consegui expressar a que tipo de mãe me refiro.

Para retornar ao livro de Esquivel e trazer a comida de volta ao papo, resta destacar que, naquele contexto (Revolução Mexicana, mãe castradora), portanto, o prazer de preparar e comer um prato gostoso (o prazer de amar, de transar livremente) surge como o contraponto a cenários austeros e autoritários. A comida é a celebração da liberdade de desejar, de viver plenamente os desejos, de gozar, de sentir prazer na vida e pela vida. Opa!, suspeito de que Esquivel matou a charada do meu inusitado sonho, dado o atual momento histórico do país tropical onde, em fevereiro, não tem mais carnaval. Que coisa; e nem curto carnaval.

🍌

" Você parece uma criança com fome, a quem se ofereceu ravióli. "Não", você diz, "quero um bife". Minha cara, você está com fome, coma esse ravióli.

— Não estou tão faminta assim.

— Estamos famintos o tempo todo, Senhorita Hudson."


Filme: Quando o Coração Floresce (1955, David Lean)



Uma vez que não rola bacanal na festa de Babette, dei com os burros n'água ao escolher esse livro, porém fui presenteada com a batalha do ano: Blixen X Lebowitz - Comida é arte ou não é?! Este post já está longo demais, para que eu comece a devanear sobre o caráter artístico da comida (sei lá se é; porém, nessa treta, aposto minhas fichas na Blixen); contudo serei vacilona e aproveitarei a deixa para trazer outra pista relacionada à identidade do chef onírico: o moço curte replicar, nos pratos que monta, pinturas famosas — certeza de que ele considera comida uma forma de arte. 

Embora não haja sexo no livro de Blixen, sabe em que ambiente a autora decide narrar o grandioso banquete de Babette? Num fiorde da Noruega, entre os membros de uma seita eclesiástica devota que renunciava aos prazeres deste mundo. Ou seja, Blixen usa a comida como recurso narrativo similar àquele de Esquivel, conferindo-lhe a força capaz de se opor a um meio ascético e estéril. Achei fascinante, em especial, confrontar as reações ao banquete dos membros da seita com a do convidado externo; uma distinção sugestiva de que a relação com a comida - com a arte - é necessariamente uma via dupla: ao cruzar com uma obra de arte, é preciso estar com os sentidos abertos, a fim de se alcançar a graça. Talvez seja uma interpretação estapafúrdia, entretanto realmente me pego questionando se esta não seria a outra mensagem enviada por meu inconsciente na forma do peculiar sonho erótico; digo, ele tenta me lembrar de que deseja estar disponível para a graça ou, tomando emprestadas aquelas palavras (lá em cima) de Lispector, anseia entrar em contato íntimo com o que existe.
"(...) essa mulher está transformando um jantar no Café Anglais numa espécie de envolvimento amoroso daquela categoria nobre e romântica na qual a pessoa não mais distingue entre apetite ou saciedade, corporal e espiritual! 
(...)
"Não, nunca vou ser pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista, madames, nunca é pobre."

                                                    - Karen Blixen, A Festa de Babette (tradução: Cassio de Arantes Leite)

 🍩



Galera propagandeia o História do Olho como "um livro de altas putarias doidase, por azar, não me apareceu um leitor prestativo para alertar que não é exatamente isso e que vale a pena preparar-se emocionalmente antes da leitura. Concordo que avisos de gatilho são meio tontos, mas, neste caso, apenas defendo que o descompasso nos discursos de divulgação acerca do livro de Bataille não deveriam prosperar. Honestamente, fazia tempo que eu não terminava uma leitura num estado tão consciente do peso sobre meu peito. 

Ano passado, li a Trilogia dos Gêmeos, da húngara Ágota Kristóf (grande favorito de 2020) e fiquei perplexa com o quanto livros que mal abordam diretamente a guerra permitiram que, afinal, eu me aproximasse do que efetivamente significa viver, não, sentir uma Guerra Mundial. Sim, acredito que aquela leitura foi o mais próximo que cheguei de tocar uma experiência de guerra, a qual usualmente me parece surreal em demasia, para que eu a capture. No entanto, eu fracassava ao tentar desvendar de que maneira a talentosa autora tinha conseguido tamanha façanha. Em busca de resposta, ainda em 2020 catei o Guerra Aérea e Literatura, de W. G. Sebald, que, embora tenha me auxiliado bastante, acabou revelando que o autor alemão tem tantas perguntas quanto eu, no que refere-se a como poderíamos escrever/narrar experiências traumáticas intensas, como as da segunda guerra. A esse respeito, Sebald disse algo (numa entrevista) que chamou minha atenção e que registrei em meus cadernos: "a única forma com a qual pode-se abordar essas coisas é obliquamente, tangencialmente por referência, em vez do confronto direto." Eis que agora, ao ler um "livro de putaria", travei contato com um texto que complementou e ampliou as reflexões que me foram proporcionadas por Kristóf e Sebald:
"De forma geral, não me detenho muito nessas recordações. Passados tantos anos, já perderam o poder de me afetar: o tempo neutralizou-as. Só puderam recobrar vida deformadas, irreconhecíveis e ganhando, no decorrer de sua transformação, um sentido obsceno."

                                                  - Georges Bataille; História do Olho (tradução: Eliane Robert Moraes) 

Pronto, a combinação das perspectivas de Sebald e Bataille é exatamente o que Kristóf me parece ter feito na escrita da Trilogia dos Gêmeos: ela evitou o confronto direto com a guerra; deformando a memória, tornando-a irreconhecível (inclusive, deformando a própria narrativa, deformando a realidade das próprias personagens). A propósito, não é o mesmo recurso usado pelo inconsciente, na conformação dos sonhos? Meu sonho erótico com o chef de cozinha não foi um mero sonho erótico. Curioso, não? Durante a leitura de livros cujos autores se valem desse artifício, o leitor não consegue delinear com clareza a memória original, mas os sentimentos atrelados a ela tornam-se intensamente vívidos. No caso do História do Olho, o texto puro é realmente uma sequência crescente de putarias pervertidas, algumas vezes até imorais, contudo a narrativa de Bataille, nem por um instante, deixa de reverberar sentimentos de dor, medo, angústia, sofrimento, desespero, melancolia, vazio > o possível olho do título, teorizo. Para quem discorda de que sexo nunca é apenas sobre sexo, eu sugeriria a leitura dessa obra.

Para abandonar o tom meio depressivo, ousarei pinçar uma bela passagem do História do Olho que, confesso, provavelmente alimentará meu inconsciente na criação de novos sonhos libidinosos; sobretudo porque, no momento, o único passeio que tenho me permitido fazer, e adorado, são justamente passeios de bicicleta. Já imaginou, bicicletar pelada na companhia de um chef de cozinha charmosinho? Eita, lembrei de que, Em Como Água para Chocolate, Esquivel bolou uma cena à altura: cavalgar pelada, queimando de tesão. E aí, Morfeu? Vai a cavalo ou de bicicleta? 

Georges Bataille, História do Olho

🍳

A sobremesa que fecha o post é o filme O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1989, Peter Greenaway). Em seus diários (caderno de 1955), Alejandra Pizarnik escreveu "Lo que yo quisiera es vivir mi vida diurna entre libros y papeles y pasar las noches junto a un cuerpo.", e Greenaway, nessa obra, atende os desejos da querida poeta. Puxa, amantes transando entre livros e comendo comidas maravilhosas, preparadas por um tremendo chef de cozinha. Massa, né? Talvez nem tanto, pois o filme aparenta alertar que é prudente cuidar do apetite, pois, caso o Ego perca controle da ânsia de tudo engolir, poderá morrer pela boca; literalmente.

"Ele está morto. Encheram-lhe a boca com as páginas arrancadas de seu livro favorito."

10/11/2019

[alinhavos breves] Old teenage hopes are alive at your door

01
Essa pessoa ↝ sorridente em frente ao Water Lillies de Monet é Chet Gold, atual supervisor do serviço de segurança (security supervisor) do MoMA. Eu o conheci mediante a série At The Museum (S02), um compilado de curtos vídeos que o museu nova-iorquino disponibilizou no YouTube para documentar a reforma e expansão conduzidas em 2019.

Dado o tema principal deste diarinho, acredito que não causará espanto revelar que foi graças à literatura que, pela primeira vez, atentei e refleti de modo consciente acerca do trabalho exercido pelos seguranças de museus. Especificamente, foi o espanhol Javier Marías quem virou minha cabeça em noventa graus para que eu parasse de olhar os quadros e reparasse naqueles sisudos empaletozados de (aparente) castigo no canto das galerias. Antes de Marías, seguranças de museus eram apenas a peculiar categoria de profissionais cuja autoridade, por alguma razão estapafúrdia (que a psicologia certamente explica), me instiga um empenho para deixá-los orgulhosos de meu comportamento exemplar. Crazy much? Não à toa, o único segurança que tenho gravado na memória é aquele (da equipe do MoMA, aliás) que chamou minha atenção duas vezes!, porque tirei fotos onde não devia. Posto isso, a dura verdade: não sou uma exemplar visitante de museu. Meu castelo de areia ruiu, e a culpa é de um segurança do MoMA. - Play the world's smallest violin, dj! ¯\_(ツ)_/¯

Mas voltemos ao assunto desta entrada, o qual começa mesmo é com Marías. O pai do protagonista de Coração tão Branco era um renomado curador de arte, ex-funcionário do Museu do Prado, e ele dizia ao filho que é preciso manter os seguranças de museus sempre contentes, pagando-os bem, pois deles depende não apenas a segurança e o cuidado, mas a própria existência das pinturas. O pai do narrador tinha consciência de que:
"(...) um homem ou uma mulher que passa seus dias encerrado numa sala vendo sempre as mesmas pinturas, horas e horas todas as manhãs e algumas tardes sentado numa cadeirinha sem fazer outra coisa além de vigiar os visitantes e olhar para as telas (proibido até de fazer palavras cruzadas), podia enlouquecer e propiciar ameaças ou desenvolver um ódio mortal a esses quadros."
     - Javier Marías, Coração tão branco (Tradução: Eduardo Brandão)

Ou seja, é um trabalho com potencial para deixar qualquer um maluco de raiva dos malditos quadros. Nesse sentido, o pai disse ao filho que, em sua época, ele sempre buscava saber como andava a vida pessoal dos seguranças (se estavam sossegados ou alterados) e que todo mês mudava os guardas de lugar, para que pelo menos vissem as mesmas telas apenas durante trinta dias e seu ódio se aplacasse. [Adendo: na narrativa de Marías, esse papo meio que funciona como alegoria para a vida conjugal - cada cônjuge, todo santo dia, é "obrigado" a olhar para a cara do outro etc -; porém pularei essa parte, porque não estou disposta a mexer em casa de marimbondo. Contudo mantenho a ressalva, uma vez que a considero relevante para a conclusão da minha história.]

Enquanto em mim ainda persistia o efeito de Coração tão Branco, o senhor Chet Gold cruzou meu caminho e bagunçou as peças do quebra-cabeça. Naqueles vídeos, ele confirma que o trabalho de segurança de museu é de fato estressante. Os seguranças tendem a um estado de elevada ansiedade, em decorrência da obrigação de perscrutar os movimentos de todos, tendo de identificar qualquer sinal de mero ímpeto, a fim de serem capazes de se antecipar a possíveis atos depredativos. Nesse contexto, Gold menciona que ele próprio precisa de um lugar para relaxar ("to decompress") por alguns instantes durante a jornada de trabalho. Certo; e qual é o lugar que oferece-lhe o precioso respiro? É bem ali, de frente para o Water Lillies, de Monet. Gold compartilha que é àquele quadro que ele sempre recorre nos momentos de tensão. Aquela série de vídeos é inclusive circular, pois termina com a imagem dele reencontrando-se com a obra, agora que o MoMA reabriria as portas, e de novo exibindo seu belo sorriso.

Moral da história "Javier Marías x Chet Gold"? Ah, cada um com a sua. 😉

02
A leitura do Todas as Crônicas segue curso lerdo, entretanto é válido registrar que, dentre os causos "Clarice Lispector e seus leitores" (bastante divertidos), aquele do polvo é um dos mais marcantes até agora. Explico. Lendo uma das crônicas, descobri que a leitora Ana Luísa, em agradecimento pelos textos que expressam exatamente como ela se sente, resolve presentear Lispector com um polvo. Refiro-me, é lógico, a um prato de polvo cozido e temperado, com arroz tal e coisa. O pior, ou melhor (sei lá), é que o regalo inusitado nem é o maior encanto da história, visto que a parte que ficou congelada na minha memória corresponde sobretudo àquela em que Lispector, tomada por espanto, apela a um dicionário, para buscar o significado da palavra polvo. (??!!!!!!!!!!!!!!!) Sobre o achado:
"E é simplesmente esse pavor de viver: "molusco cefalópode, que possui oito tentáculos, cheios de ventosas". Logo abaixo vem uma palavra que se aplica a Ana Luísa: polvarim - "pó que sai da pólvora". 
                                                                - Clarice Lispector;  Ana Luísa, Luciana e um Polvo.

Na crônica, Lispector diz que Deus deve saber o motivo que a fez buscar a palavra polvo no dicionário. Pois agora que li Nox (livro lindo, lindo), apostaria que, se Anne Carson tomasse conhecimento desse causo, ela também teceria um ou dois comentários a respeito da reação da cronista. Nox é um livro elegíaco que Carson escreve ao falecido irmão e, nessa obra, ela dedica-se à tradução de Catullus 101, elegia que o romano Gaius Valerius Catullus escrevera a seu próprio irmão morto. No verso de cada página de Nox (é possível ver na imagem acima), a autora incluiu a entrada lexicográfica completa (de um dicionário latim → inglês) de cada uma das palavras que compõem o poema Catullus 101, e o memorável efeito provocado pela leitura de algo tão simples (verbetes de dicionário!) me deixou embasbacada.

Cássia Eller já cantava, né? Ela cantava:
Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras momentos
Palavras, palavras
Palavras, palavras

Como sou palhaça, é claro que estou me mordendo pra não tirar sarro dessa canção. Simultaneamente, porém, questiono se dá para afirmar com tranquilidade que esses versos são pura galhofa. Ontem, eu teria respondido que sim; hoje, não sinto tanta segurança.

Um dicionário, um oráculo.
Uma palavra, uma resposta.
Uma palavra, um poema.
Uma palavra, uma pergunta.
Como ler uma palavra?
Palavra, palavra
Palavra?!

03
O filme Oitava Série (Eighth Grade - Bo Burnham, 2018) deflagrou devaneios relacionados a esta cena que não sai da minha cabeça:
Aquilo que está sendo engolfado pelas chamas é uma espécie de cápsula do tempo. Numa atividade escolar da sexta série, Kayla havia montado aquela caixa com memorabilia e uma mensagem em vídeo para seu eu do futuro, ou seja, a atual Kayla prestes a concluir a oitava série  ("a garota mais legal do mundo"* → é o que está escrito na tampa). Como prêmio por ter sido eleita "aluna mais calada da turma"* (- padroeira dos introvertidos, olhai por nós), ela ganha o direito de revisitar a caixa antes da formatura no ensino fundamental. (* = sonho x realidade)

Após assistir (sozinha, no quarto) a si mesma no vídeo do passado e constatar que havia desapontado seu eu da sexta série, Kayla desce até a sala e pede ao pai que a ajude a queimar umas coisas. O que me pegou desprevenida foi a reação do pai. Quando ela responde que aquela caixa continha seus sonhos e esperanças, ele confirma sem alarde - "e você os está queimando?"-, e pronto; não diz mais nada. O pai não se atira desesperado para salvar a caixa do fogo, nem vomita um daqueles discursos piegas típicos de coach® de internet. Ele só assente e permanece em silêncio, pondo a mão sobre o ombro da filha. Ficou bonito, achei. A sequência adquiriu ares de uma cerimônia formal que integra toda e qualquer vida; quase um rito de passagem. Sai a festa de quinze anos, entra a queima dos sonhos e esperanças da pré-adolescência? Parece-me uma ótima proposta. A outra surpresa foi ver Kayla montar uma nova caixa. A garota não se intimida e simplesmente grava um novo vídeo (e otimista!) no qual expressa, para seu eu do futuro, o que ela espera e sonha que aconteça nos próximos três anos de ensino médio. E essa é a cena que me pôs a devanear. A marmanja aqui, com muito mais de treze anos na cara, está ruminando tudo issaê. Que vexame. Digo, primeiramente até avaliei que minha reação era imatura, mas depois o cosmos começou a mandar supostas ~mensagens subliminares~ que me fizeram ponderar que talvez esse lance de elaborar ⇋ destruir sonhos e esperanças seja de fato mais complexo do que aparenta ser.

Por exemplo, tomemos o filminho O Caçador de Dotes (A New Leaf - Elaine May; 1971), que vi ao acaso algumas semanas após Oitava Série. Pra jogar conversa fora com a presa, o caçador de dote pergunta-lhe quais eram seus sonhos e esperanças. Ela diz lá qual é sua esperança (= descobrir uma nova espécie de planta - ela era pesquisadora), daí me faz o favor de emendar com esta pérola: 
Mas que merda. E agora, hein? O que eu sonho é a mesma coisa que eu espero? É tudo a mesma coisa, sonho e esperança? Teria algo a ver com tempo: curto x longo prazo? Seria uma questão de complexidade? Será que o Martin Lurther King tinha um sonho? Não seria uma esperança? E faria diferença? Que dor de cabeça. Ah, taí!, seguirei os exemplos de Lispector e Carson. Abro nova aba para o dicionário on-line e: 
O ligeiro alívio proporcionado por esses verbetes não durou muito tempo, pois a leitura do livro Serotonina trouxe outra palavra para participar da rodada de elucubrações: desejo. Por sinal, suspeito de que o que efetivamente me inquieta nesse jogo de palavras foi revelado no instante em que o narrador do Houllebecq me lançou este questionamento: desejo equivale à “razão para viver”? 


"Desprovido tanto de desejos quanto de razões para viver (seriam equivalentes os dois termos?, era uma questão difícil, não tinha uma opinião formada a respeito)
(...)
Mas nesse momento eu não tinha nenhum desejo, o que muitos filósofos, pelo menos era a minha impressão, consideravam um estado invejável; os budistas estavam todos na mesma longitude de onda. Mas outros filósofos, assim como os psicólogos, consideravam que essa ausência de desejo era patológica e insalubre."
    - Michel Houellebecq; Serotonina (Tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)


E se, ao contrário de Kayla, uma pessoa não consegue montar caixas de sonhos, esperanças e desejos? Esse tipo de pessoa ("normal/anormal?") existe? É possível sentir-se incapaz de montar uma caixa dessas? Tal incapacidade seria compatível com a vida? Pode-se falar de preguiça? Para meu conforto, o narrador de Serotonina felizmente recordou que a controvérsia persiste até entre filósofos, budistas e psicólogos.
"(...) meu Deus, como é difícil vencer a esperança, como a esperança é tenaz e ardilosa!, será que todos os homens são assim?"
                                       - Michel Houellebecq; Serotonina (Tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)

Aliás, e quanto à destruição? Todo e qualquer sonho/esperança/desejo é feito (retomo: devem ser feitos?... pulemos a pergunta) para ser eventualmente queimado? Se a resposta for positiva, como reconhecer a ocasião oportuna de queimar aquilo que ainda não se concretizou ou conquistou? Será que a técnica da Marie Kondo também pode/deve ser aplicada à organização desse tipo de caixa? Sobre essa parte do imbróglio, recebi duas mensagens cósmicas. A primeira veio na forma de um poema da Florbela Espanca (grifos meus): 

   Ruínas

   Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
   Castelos, um a um, deixa-os cair...
   Que a vida é um constante derruir
   De palácios do Reino das Quimeras
!

   E deixa sobre as ruínas crescer heras,
   Deixa-as beijar as pedras e florir!
   Que a vida é um contínuo destruir
   De palácios do Reino das Quimeras!

   Deixa tombar meus rútilos castelos!
   Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
   Mais alto do que as águias pelo ar!


   Sonhos que tombam! Derrocada louca!
   São como os beijos duma linda boca!
   Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar.
                  
                                          - Florbela Espanca, Livro de Sóror Saudade.

Ok; então os indícios poéticos apontam que Florbela Espanca segue a mesma filosofia da adolescente Kayla. A propósito, a portuguesa contribuiu com outra palavra da mesma, digamos, linhagem: quimera.

A segunda mensagem cósmica foi enviada na forma de uma citação extraída de um livro da Hilda Hilst:
“há sonhos que devem permanecer nas gavetas, nos cofres, trancados até o nosso fim. e por isso passíveis de serem sonhados a vida inteira.”
                                                                               - Hilda Hilst; Estar sendo. Ter Sido.

Para reduzir o risco de interpretar equivocadamente a frase de Hilst, decidi ler o livro, porém adianto que, como todo bom livro de ficção, ele não me trouxe respostas definitivas. Aquele que advoga a favor da permanência de alguns sonhos na gaveta é Vittorio, um senhorzinho de 65 anos, já em cadeira de rodas, que pressente que a morte está prestes a dar-lhe o bote. Portanto conto com a abordagem de uma adolescente - Kayla não reaproveita nenhum sonho da caixinha; manda tudo pro fogo - e de um idoso – Vittorio conserva um ou dois sonhos na gaveta. Curti essa dualidade, pois enriquece demais estas divagações.

Aquela fala de Vittorio é dita em referência ao amigo que nunca havia conseguido sequer encontrar-se com a corista que amava. Na teoria de Vittorio, possivelmente o amigo apaixonado sabia que, no momento em que dormisse com a amada, o sonho de viver aquela paixão se acabaria, o romance terminaria e ele restaria com nada. É nesse contexto que Vittorio defende a manutenção de alguns sonhos no cofre, a fim de que possam ser ressonhados. Na velhice, quando tudo se esvai, tudo se dilui, (…) e a carne vai ficando triste, talvez seja realmente um alento e tanto poder ressonhar um desses sonhos do passado. Ao mesmo tempo, no entanto, Vittorio repete com certa frequência, ao longo de seu monólogo, esta frase: preciso viver meu sonho. Ela me faz interrogar: o sonho que ele teima em manter na gaveta não estaria também causando-lhe sofrimento? O discurso dele sugere a angústia de ainda querer muito viver um sonho que é impossível, dado que ele está ciente de que já não tem energia, de que agora ele não dispõe de tempo. O ressonhar seria fonte de prazer e sofrimento?  Em uma de suas crônicas, Lispector escreve que "Todo prazer intenso toca no limiar da dor",  portanto (outra vez nas palavras dela:) talvez assim seja.

Caramba, quanta pergunta sem resposta. Mas dane-se; encerrarei a postagem aqui, antes que eu queime mais fusíveis da minha cabeça, matutando abobrinhas. 😟

24/08/2019

autoficções #03

01  
[Lendo o Crônicas Completas:] 
"E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar."  - Clarice Lispector

Em princípio, não parece haver lógica nenhuma aí, porém aprender a respeitar-se é, sim, um desafio e tanto. Eu acho. Pra mim, é. Digo com tranquilidade que não cheguei lá, contudo já enxergo a Aretha cantando Respect logo ali, na linha de chegada. Como ela está linda.

02
Enquanto isso, nos Stories da Florence Welch:

- Olha só, Liam Gallagher!, ao contrário do Noel, a Florence "can handle rock 'n roll"! 

03
O senhor que costuma fazer pequenos reparos aqui em casa tirou um belo sarro da minha cara por causa do jeito sisudão (?) com que escrevo no What's App. Ele disse que mostrou minhas mensagens para um amigo que, por sua vez, perguntou se eu era advogada, juíza ou coisa parecida. MÉU DÉUS. Minha escrita é empolada?! Escrevo em juridiquês no What's App?! NOOOOOOOOO! Que merda. Nhé, pelos menos a gente riu um bocado.

P.S.: outrossim, hacker aqui

04 
Situação: em uma ampla via com pesado tráfego de carros, um jovem da geração sem tempo, irmão arrisca atravessá-la enquanto o sinal encontra-se vermelho para pedestres. Simultaneamente, escuto o comentário de um senhor idoso à minha esquerda:

- A vida é tão boa; pra que arriscar? (com o sinal verde liberado:) Pronto, agora eu vou

05
Ideia para conto: fluxo de consciência/monólogo interior contemplando 24h na mente de um cachorro da raça Pinscher. Ritmo frenético, sem pontuações ou parágrafos, com muita paranoia e teorias da conspiração. E, nas entrelinhas, uma profunda angústia e melancolia. 

06
[Ainda lendo o livro Crônicas Completas:]
"Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não querem dizer."    - Clarice Lispector

Puxa, lembrei de uma das minhas músicas favoritas do White Stripes (saudades):
Truth Doesn't Make a Noise.

You try to tell her what to do
And all she does is stare at you
Her stare is louder than your voice
Because truth doesn't make a noise

[- Ah, Jack, o quanto essa música me ajudou a aproximar-me daquela linha de chegada. Nós dois acabamos seguindo por caminhos diferentes, contudo minha gratidão é eterna.]


07
Pera, pera, pera. Mas então... eu virei aquilo que desdenhava: a pessoa que lança na internet citações aleatórias de Clarice Lispector?! NOOOOOOOOOO no.2.

08
Como sou teimosa, fui lá ver ANIMA, o curta que Thom Yorke lançou em parceria com Paul Thomas Anderson. Gostei bem mais do que eu tinha antecipado e registro três breves reações:

- Nunca imaginei que veria, com esses olhos que a terra comerá, Thom protagonizando ceninhas fofas e românticas. (Ok, o clipe de Knives Out chegou perto, mas nem se compara.) Mentira, imaginei sim. No caso, imaginei em meus sonhos, nos quais, é claro, euzinha sou a protagonista, e não aquela turca lá. Humpf. (Brincadeira, desejo felicidades aos dois. Ou não.)
- Não adianta; eu escuto esses trabalhos solo do Yorke e sinto vontade de incorporar o panda irado no estúdio dele, destruindo toda a parafernália eletrônica. Melhor: bancar a Annie Wilkes, do livro Misery (King), sequestrando-o e mantendo-o em um cativeiro onde ele só teria um piano e um violão acústico para compor músicas. #paz
- E quanto mais ouço a onda solo do Yorke, mais valorizo a presença do Jonny no Radiohead.                  Louvado seja.

09
Durante a última (pseudo) reorganização de minha estante, estive prestes a jogar fora um livro já detonado (um daqueles mass market paperback americanos, publicado em 1968!), entretanto o nome do meu pai escrito à mão na folha de rosto me travou. Curiosamente, o nome dele aparece escrito várias vezes, como se ele estivesse aperfeiçoando a caligrafia até chegar naquela que hoje usa e que bem conheço. Acredito que o vídeo no qual Clare Fenby atribui uma sensação de proximidade com Sylvia Plath/Virginia Woolf (escritora favorita dela) à capacidade que detém de reconhecer a caligrafia da autora salvou meu velho livro da lixeira. É mesmo uma bela forma de intimidade. Em uma vida, quantas caligrafias uma pessoa é capaz de reconhecer apenas mediante uma batida de olhos? A resposta pode revelar bastante sobre a jornada de alguém. Acho.

Este é o vídeo, iniciando no ponto exato em que ela trata dessa temática:


10
Nas crônicas, Lispector recorrentemente aborda encontros com leitores (especialmente via cartas), e os relatos dela me fazem devanear uma porção de coisas. Por exemplo, ela tem reforçado minha teoria de que é impossível travar contato com um ídolo sem bancar a completa idiota. E a experiência de Lispector me faz crer que esses encontros sejam marcados por um certo embate:
- De um lado, o fã iludido pela certeza de já ter desvendado todo o mundo interior do ídolo artista. Graças à profunda conexão estabelecida com a obra da pessoa admirada, o fã se considera super íntimo, um quase amigo de infância. (a Clare Fenby, ali em cima, sustenta justamente o que digo.)
- Do outro, o artista ressabiado que não poupa esforços em ressaltar que o fã está completamente equivocado ao supor que o conhece; demonstrando um quase pânico diante da possibilidade de estar desnudo na própria obra.

Na prática, talvez a realidade corresponda a uma média ponderada desses dois lados. Vai saber.

11
[Continuando nos encontros da Lispector:] Ela convida leitores para tomar um café, dá livros autografados de presente, abre a porta de casa para aqueles que tocam sua campainha. É realmente admirável. Recordei de quem? Claro, daquele que nunca some dessas bandas: Thomas Mann. Ora, imagine que uma Sontag de 13-14 anos (mais um amigo) liga para a casa do grande escritor alemão que, não apenas atende o telefone, como também os convida para um chá da tarde em sua casa. Que me perdoem os contemporâneos, mas fica difícil não atentar que hoje, quando a gente recebe um singelo like de um escritor nas redes sociais, um unicórnio nasce na Nova Zelândia. Bom; cada tempo, um tempo. E o nosso é o tempo do sem tempo, irmão.

12
 Bora de mais Lispector? Deparei-me com isto aqui:
"(...) escrever sobre a vida e você mesmo, o que significaria a mesma coisa."

O monólogo interior no qual embarquei ao fim dessa frase foi este: Ok, faz sentido. Já que só posso falar sobre a vida a partir da minha própria experiência, falar de mim = falar da vida. E olhe lá. Porém... Eu posso tentar me colocar na posição de um outro, o que significaria adentrar o campo da imaginação. Imaginar outras experiências. O universo da ficção. (...) Ficção ainda é a vida? Se a ficção que crio faz parte de quem sou (?), escrever ficção pura é sempre escrever sobre a vida. É?

Conclusão? Exato: bela groselha de platitudes. (#pleonasmei?)

13
A reflexão "literatura  x  vida" encontrada no diário do Piglia demonstra (?) que a Lispector não me fez devanear tanta abobrinha assim, hein. O argentino mandou esta:
"(...) é preciso ver de que lado se coloca o sinal positivo: ver a literatura a partir da vida é considerá-la um mundo fechado e sem ar; ao contrário, ver a vida a partir da literatura permite perceber o caos da experiência e a carência de uma forma e um sentido que permita suportar a vida."
                                                         - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi (tradutor: Sergio Molina) 

Isso me faz pensar que, para encerrar qualquer desvario, basta tacar um "é relativo" e pronto; imbróglio sanado.

14
Finalmente cedi a outro hype: Russian Doll. Curti demais os primeiros episódios (que escrita afiadinha!), mas o final... Sei lá; preferiria algo menos embrulhadinho pra presente, talvez. 

O lance dos espelhos x morte recuperou da memória um quadro discutido por Manguel no Lendo as Imagens. Este aqui, o Mosaico da Batalha de Isso:

Circulei toscamente a potente imagem que mais me interessa, acerca da qual Manguel escreve:
"É um soldado persa; (...) caiu entre as espadas  e lanças espalhadas; seu último gesto é levantar o escudo para ver, nessa superfície de espelho, a sua própria face. Esse soldado deseja saber quem é, antes de morrer.
Quando penso nesse tema associadamente ao período em que o quadro foi concebido, fico destrambelhada. É extraordinário.

15
Após ouvir o podcast Um Milkshake Chamado Wanda, fui lá desenterrar das cinzas minha evidência do #sóquemviveusabe: ⇣


Encontrar um CD dentro foi uma total surpresa! Do outro lado do oceano, Liam Gallagher deu conta de se vingar da minha zoeira com a cara dele, pois o Oasis tá lá no bolo, acompanhado de The Killers, Franz Ferdinand, Strokes, Wolf Parade... É, Gabi, só quem viveu sabe. Eu gostava tanto desse danado, que não consegui me desfazer dele.
(*E este é o II, pois o querido I foi literalmente destruído pelas ondas do mar)








16  
Acredito que logo mais terei de me despedir definitivamente do Godard, pois nossos santos não se bicam. Dessa vez fui de Masculin, Féminin e, bem, até gostei mais desse, porém... Ai, nem sei explicar direito porque a obra dele não desce. Tentarei só mais um e, se não rolar, será adeus. Se não consigo ser cool, paciência.

[- Eduardo, comer hambúrguer na lanchonete é muito mais legal do que ver um filme do Godard. A Mônica não sabe de nada.]


17

Por incrível que pareça, nunca vi ou li a história do Pinóquio. Quando criança, possivelmente assisti àquele clássico desenho da Disney, no entanto, se de fato vi, a memória tratou de deletar. Enfim; toco no assunto porque essa narrativa cruzou meu caminho por duas maneiras surpreendentes. No Narrativas, podcast da Carambaia, Renato Moricone compartilhou que seu filho parecia recorrer ao desenho do Pinóquio, especificamente ao momento em que o protagonista está dentro da baleia, para conseguir assimilar a concepção de que logo mais um irmãozinho sairia de dentro da barriga da mãe. Depois, na The Red Hand Files #51, newsletter de Nick Cave, um pai que perdera o filho pergunta se estaria fadado a permanecer dentro da baleia, agora que seu Pinóquio estava morto. Em um mesmo trecho de uma narrativa, espectadores/leitores identificam caminhos para assimilar tanto a vida, quanto a morte. É isso o que torna uma história grandiosa, não? Logicamente o livro foi pra minha pilha de leitura. 

18
Vagão do metrô. À minha direita, a moça lê A sutil arte de ligar o f*da-se. À esquerda, outra se entretém com o Seja Foda. No instagram, descubro o lançamento do Liberdade, Felicidade & F*da-se. Hum... É, talvez eu deva repensar meu branding; reposicionar minha marca tal.e.coisa. Será? Vejamos... F*dendo entre livros? Eita! Haha, não, calma. Entre livros fodas? F*da-se entre livros? Xi. Seja f*da entre livros? Nhé.

Posteriormente, na série Years and Years, meu queixo caiu com o nome do partido da personagem da Emma Thompson, a política que era contra tudo que estava ali: quatro estrelas ↦ **** = F*CK. Coincidência? Fica a questão.

(Náh, o bobo nome do bloguinho permanece como está.)

19
Por falar em Years and Years: aparentemente, o capitalismo tardio ressignificou maleficamente as bicicletas? O que representava infância, liberdade, brincadeiras lúdicas e sustentabilidade, tornou-se o grande símbolo do trabalho precarizado. Poxa, dia desses me emocionei pateticamente ao contar para uma amiga o último episódio da S03 de High Maintenance, aquele em que dois amigos da época de escola se reencontram em condições tristes (o filhinho de um deles submetia-se a tratamento oncológico) e, para um breve respiro, os dois passeiam de bicicleta pelas ruas de NY. Depois, com Years & Years, vi a bicicleta do trabalhador matar pedestres na rua, ao mesmo tempo em que representava a salvação financeira do moço de classe média que perdeu, em um piscar de olhos, mais de um milhão de libras. Que maluquice. Se eu continuar me emocionando por aí com historinhas de bicicletas, serei acusada de privilegiada. Com razão? 

Pensando melhor, só agora me dei conta dos motivos pelos quais o filme Ladrões de Bicicleta é um tremendo clássico; mais atual do que eu jamais havia suposto até agora.

20
Correto, a pessoa que estava aí dizendo não ter nenhum apego à infância, foi lá brincar de montar mais uma tirinha de Geraldine + Edith. Temática: Origem da Lua x Steven Universe!
Fonte Nautilus: http://nautil.us/issue/13/symmetry/when-the-earth-had-two-moons
Fusion em Steven Universe: https://www.youtube.com/watch?v=v1dvzCkOZ1E
      
[As conotações lésbicas dessa tirinha estão fugindo do meu controle.😁]

21
Encontrei no filme O Medo Consome a Alma uma cena maravilhosa que reforça uma bobeira incluída no autoficções #02: roupas podem (e devem) ser usadas para construir/apresentar uma personagem.

No começo da obra de Fassbinder, quando Emmi entra no bar frequentado por imigrantes, ela está molhada pela chuva, tem cabelos grisalhos e veste um casaco monocolor escuro. Daí, quando o belo e jovem marroquino a convida pra dançar, e ela tira o caso, calcule o susto que eu e o moço tomamos quando demos de cara com isto:


Poxa, somente com esse jogo de roupas, o Fassbinder conseguiu nos apresentar um mundo inteiro a respeito de Emmi. Joinha para o diretor.












22 
Novamente falarei do mar, pois outras pontes marítimas foram construídas neste mês. A maré começou com o filme da Claire Denis, o 35 Doses de Rum. Especificamente, aqui:

Medo de um mar no qual, quando se grita, ninguém escuta. A fala da personagem de Denis catapultou de volta uma passagem do livro Ruído Branco, na qual a personagem de Don DeLillo argumenta que, quando morrem, os seres humanos gritam para que sejam percebidos, lembrados por um ou dois segundos. Ao somar Denis + DeLillo = o mar escancara nossa insignificância e mortalidade; o medo do mar reflete o medo da morte.

Lendo posteriormente o As palavras não são deste mundo, do Hugo Von Hofmannsthal, esbarrei justamente com essa ideia. Eis a versão mais articulada do senhor Hofmannsthal:
"Assim que vi o mar, compreendi ter envelhecido. (..) Quando (...) já pode ver o mar, (...) sente-se a si mesmo muito claramente, mas com um ar um tanto insólito e rarefeito. Perdem-se muitas coisas que se imaginava possuir: a gente fica mais leve e vazio, é inquietante. (...) diante do mar, tudo que é estático está atrás de nós, para ser deixado para trás, e diante dos olhos nada temos além da existência infinita, algo que não somos capazes de compreender totalmente."
                             -  Hugo Von Hofmannsthal; As palavras não são deste mundo. (Tradutor: Flávio Quintale)

Resgatarei o filme do Godard, ou melhor, a cena em que a personagem de Chantal Goya pergunta à personagem do Léaud o que ele considera o centro do mundo. Ele diz que é o amor, ela diz que é ela própria. Antes das respostas dos dois, respondi na lata "o mar". Na ocasião, ignorei o motivo da minha resposta; entretanto agora ganhei argumentos para, ao menos, balbuciar um arremedo de justificativa.

---

Retornando à Claire Denis (por sinal, que cineasta fabulosa!), arrisco associá-la àquele alinhavo feito entre Lispector e White Stripes concernente ao tema a mudez não mente/a verdade não faz barulho. Só vi dois filmes dela (o outro foi o atualíssimo Beau Travail), e a presença do silêncio em ambos foi marcante. Agrada-me demais como Denis conduz sua narrativa, sustendo-a menos em diálogos, e mais nos pequenos gestos, olhares e na relação que as personagens estabelecem entre si e, principalmente, com o espaço/cenário/paisagem que ocupam. São filmes cujo silêncio reverbera longa e ruidosamente. Ah!, quase me esqueci do outro elemento crucial que me fisgou nos dois filmes dela que vi: a dança aparece como instante de ruptura para as personagens. Sabe das coisas, essa Denis.

23
Infelizmente não me apaixonei pelos poemas da Akhmátova (minhas expectativas eram super altas), porém faço uma colagem de alguns versos soltos que me marcaram bastante. O engraçado é que suponho que sejam os que menos refletem aquilo que acadêmicos consideram o ápice da obra da poeta russa.

(Tradutor: Lauro Machado Coelho)

24
Voltei à Netflix por culpa do Thom Yorke e, na busca por algo que me convencesse a permanecer por lá, dei de cara com Shtisel, uma espécie de novelinha "das seis" israelense, sobre judeus ortodoxos. O roteiro segue a linha "nada acontece" e, exatamente por isso, tudo acontece. A vida desenrola-se com suas complicações e delicadezas diárias (sobretudo quando fé/religião está envolvida). É linda. Ah, e o mais surpreendente: muito engraçada! <3

Como banner desse post, coloquei a imagem da Ruchami Weiss destruindo o teclado do computador, obrigada a exercer o papel que o pai bunda mole não dá conta, com uma caneta na boca fazendo as vezes de cigarro. A garota curte Middlemarch (<3) e lê para os irmãozinhos, à noite, uma versão adaptada do Anna Karenina. Fazia tempo que não me apaixonava assim por uma personagem.
E parabenizo Shira Haas, atriz que a interpreta.















25
Frases icônicas (pra mim) de Shtisel (transcrição aproximada):
- (Quanto a lotéricas:) Aqui é praticamente uma filial do muro das lamentações.
- Quer fazer Deus rir? Conte-lhe seus planos.
- Quanto deu todo esse glutamato monossódico?

- Eu já comi.
- Eu também.
- Ótimo, vamos alugar a cozinha então.

- Fuma e come. [→ Essa pede contexto. Imagine ter sua identidade reduzida por um outro
                          simplesmente a estas duas palavras: fuma e come. Elevado potencial para fazer                                        alguém embarcar  em uma crise existencial. Pior que a minha descrição nem estaria                                  tão longe, pois seria o batido "come e dorme."]
- Sempre tem jornal. [→ a melhor de todas]

---

Ainda rolou um diálogo que aborda aquele meu prévio devaneio acerca da relação "literatura (arte) & vida", instigado pela Lispector:

- É uma pintura, pai, não é vida real.
- Kive, quando vai entender? Tudo é vida! Tudo é vida, e o que fazemos com ela.

E mais outro com as reflexões desse mês relacionadas ao mar!↷
"Sempre a mesma água fedorenta com espuma"?! Os roteiristas de Shtisel estão corretíssimos: cautela ao lidar com uma pessoa que não vê graça no mar. 

26
Com a Pizarnik, pensei em personagens que pudessem ser companheiras de choro. Shtisel, a seguir, me fez pensar em quais personagens eu incluiria em minhas orações. Por quê? Porque a matriarca dos Shtisel reza pelas personagens da soup opera americana a qual assistia. Socorro.

Essa foi mais difícil. [Um século depois...] Certo, já que a série israelense me fez reviver Middlemarch, rezarei por Dorothea e Lydgate. E Ruchami, lógico.

27
Us, filme do Jordan Peele, restabeleceu minha fase de ouvir rap/hip-hop no repeat, e me impressiona como recorrentemente o sentimento "Jackie Brown sou eu" se apossa do meu ser enquanto escuto esse gênero musical. Só havia um equívoco nessa equação: nunca tinha assistido ao filme Jackie Brown. Usei o tempo pretérito, porque finalmente corrigi a patacoada, contudo o filme não sustentou muito bem a poderosa imagem de Jackie apontando uma arma pra minha cara.

Para registrar a fase musical, fica uma das favesHeadlines.
[Já sinto o bafo do Donald Glover no cangote, fazendo piada com a latina amarela de classe média que curte um hip-hop, toda metida a woke. What do I know? Shit; that's what. (~Pelo menos~ não farei nenhuma versão acústica no meu quarto, para postar no You Tube. Conta?)]

28
Visto que já soltei bobagens quanto a formas alternativas/sutis de construir uma personagem, resgatarei a sequência inicial do filme Jackie Brown. ↷







Tendo a achar que ela funciona bem em termos estéticos, mas não exatamente narrativos. Se uma narrativa me informa que a personagem está no grupo daqueles que permanecem tranquilamente parados sobre a esteira rolante do aeroporto, contemplo duas possibilidades: ou trata-se de uma PcD, ou é uma pessoa zen cuja vida está sob pleno controle, alguém que não se deixa afetar por aporrinhações aeroportuárias e que nunca está atrasado; enfim, alguém "com tempo, irmão, pois não?" A cena espelho do filme The Graduate, por sua vez, me parece muito mais apropriada para a história de Mike Nichols, pois é natural (e perfeito!) que um jovem recém formado, retornando à casa dos pais para encarar a vida, não esteja assim tão apressado para sair do aeroporto. Jackie Brown certamente teve sangue frio para manejar a presepada em que se mete, porém resisto em enxergar concordância entre "cena  x  personagem  x  narrativa".

29
Estou lendo Oreo, livro que Fran Ross publicou na década de 70. Tenho me divertido descrevendo-o (mal) como uma singular mistura de Spike Lee + Irmãos Coen + Wes Anderson + Kurt Vonnegut. (Oh, yeah) Trata-se de uma nova versão para o mito de Teseu, na qual nossa heroína tem a "manha" de ser filha de uma negra e de um judeu, ambos americanos. Calcule só. Se bem que nem é preciso se preocupar com a Oreo, pois ela desenvolveu uma eficiente arte de autodefesa (o WIT - Way of the Intersticial Thrust) e segue um moto em latim de responsa (bem melhor do que aquele manjadão da Margaret Atwood, hein): Nemo me impune lacessit. (+-: ninguém me provoca impunemente.)






30
Depois de assistir ao adorável anime que aborda o complexo trabalho editorial envolvido na publicação de dicionários (The Great Passage), sonhei que vivia em um mundo no qual era preciso pagar para usar as palavras, cada uma com um valor. Fiquei encantada diante da revelação de como meu inconsciente foi profundamente afetado pela singela narrativa japonesa. 
"O dicionário é um navio que nos permite navegar no mar de palavras."

31
Putz, e só agora descobri o programa mais legal de todos os tempos:













Desde 2013, o canal Sky Arts organiza a escolha do pintor de retratos do ano. E não há picuinhas, não há manipulação na edição para criar uma narrativa e transformar os participantes em personagens. Não; é simplesmente sobre a pintura - profissionais e amadores. Genial. Essa, sim, é uma competição que mereço ver na televisão. Disponível lá na Tubaína. (*Alerta: altamente viciante.)

Para encerrar, o chiclete musical no dia em que faço esta postagem:
MorMor - Some Place Else.

01/06/2019

autoficções #01

15
o meliante responsável 
A deliciosa leitura dos Diários de Emilio Renzi (Ricardo Piglia) me deu vontade de experimentar o formato de postagens com entradas curtinhas relacionadas a qualquer coisa dos meus dias. Renzi diz que, ainda que não faça nada nem tenha nada especial pra contar, ele sente vontade de manter um diário, e isso me encoraja a tentar. Minha vida é bastante solitária e ordinária, portanto as postagens (caso haja outras) serão banais e provavelmente seguirão o espírito temático do blog: uma vida em livros, filmes, séries, músicas etc. Uma autobiografia seriada.
"Claro que não há nada mais ridículo do que registrar a própria vida. Você imediatamente vira um clown."
        - Ricardo Piglia, Diários de Emílio Renzi - Anos de Formação.
                                                    (tradutor: Sérgio Molina) 

- Vai, Daniela!, ser palhaça na internet.

16
Voltando do trabalho, olhei pra calçada e me deparei com esta cena ↷:
[Misto de alegria (aaaah, um beija-flor!), tristeza (no chão, sem vida, morto) e medo.]






"(...) a weight differently inanimate from that which never had life."
- Shirley Hazzard; The Transit of Venus.








17
Submeti-me a uma nova ressonância magnética e, puxa, já havia me esquecido o quanto é desconfortável. Quarenta minutos dentro de um caixão, sem poder me mexer, com um peso de, sei lá, seis quilos sobre tórax e abdômen dificultando a respiração e um desconforto inexprimível após a injeção do contraste. Espero poder dizer futuramente, com o resultado em mãos, "ufa, o pior já passou".

18
Li umas newsletters e não consegui sair ilesa aos relatos das ~altas aventuras~ alheias vividas em paragens exóticas. Gastei minutos escrutinando o teto, enquanto lançava ao vento o clichê mor: o que estou fazendo da minha vida? Nem se trata de inveja, mas de um questionamento honesto para mim mesma. Por ora, bato o martelo neste plano preliminar: nas férias que ainda me restam este ano, farei uma viagem. Preciso tirar a poeira do corpo e programar algum rolê. Até para uma taurina deprimida, passei da conta.

Música chicletada na cabeça - Helado Negro, Pais Nublado:


E assistindo à segunda temporada de Fleabag. Nunca imaginei que faria parte de um fandom intitulado "Hot Priest", porém cá estou. Engraçado recordar que, em Sherlock, eu sequer tinha dado bola para esse ator. Impressionante. Tudo é realmente uma questão de charme e personalidade (e como aqui é ficção, vai pra conta do talentoso Andrew Scott). Em nome dos feios, agradeço que as coisas funcionem dessa forma.
- Bênção, senhor padre.
(via: The Times UK)













19
Finalmente comecei a terceira temporada de High Maintenance e gostei desta breve frase que aparece no primeiro episódio: life is funny, bees make honey. Ela me fez pensar muito na poeta polonesa Wisława Szymborska. Ela teria gostado. Acho.

Ah, e foi meu aniversário.

20
Ganhei presente de uma colega de trabalho: uma caneta e cadernos bem bonitinhos. Como diria a personagem do filme Paterson, que presenteia o motorista poeta com um caderno: ah-hah!

E após a singela frase de ontem (aquela que relaciona abelhas à vida), hoje li uma matéria em que apicultores brasileiros relatam a morte de meio bilhão de abelhas, ocorridas no período de três meses, devido à presença de agrotóxicos no meio ambiente. (Fonte: Galileu; via @camilavonholdefer)
If bees stop making honey, will life be funny? Will life... be?!

No mais, passei o dia ouvindo e cantarolando Seymour Stein, do Belle and Sebastian.
Dedico às abelhas, que tornam a vida engraçada. It's a good day for flying, little bees!


P.S.: quão errado é bolar de rir com os versos iniciais
I caught a glimpse of someone's face
It was mine and I'd been crying
? Sinto que o excesso de autocomiseração (até para meus padrões) confere uma pegada tragicômica. Adoro.

21
Dia bléh. Depois de um monte de pepinos no trabalho, tive a manha de pegar um ônibus errado na volta pra casa. Calculei que merecia um burger com batata frita para arrematar o dia e, dessa vez, estava certíssima.
Tradução para inglês: Shaun Whiteside

O livro da Marlen Haushofer (The Wall) me fez sorrir de ternura (existe isso?) com a personagem refletindo acerca dos pensamentos de sua vaquinha. ↷
**E só então percebo que acabei de escrever que comi um hambúrguer hoje. Pateticamente hipócrita. Um ser humano deveras desprezível.**
...
Antes de dormir, li uma crônica engraçada da Clarice Lispector sobre o Chacrinha. Ela assiste ao programa pela primeira vez e se diz pasma com tudo. Duas coisas me chamaram atenção nas impressões dela: 
- o trecho em que ela comenta o nítido sadismo do apresentador ao apertar a buzina para os calouros. Ela questiona se o público brasileiro, por extensão, seria também formado por um bando de sádicos. Well... (Se bem que duvido que seja exclusividade brasileira.)
- a ânsia de aparecer, de tornar-se famoso, ainda que bancando o ridículo, evidente em todos os calouros. 

22
Chorando no trabalho. Desta vez, estava sozinha.<ufa> E nem foi por estresse, burnout ou coisa parecida. Foi lendo uma cartinha que uma colega deixou na minha mesa, desejando-me um feliz aniversário. Como essas delicadezas ainda acontecem com uma pessoa tosca feito eu, jamais saberei. No entanto, fico grata e contente.

23
Breve pico de catecolaminas sanguíneas durante a leitura de um texto investido na teoria de que, se não curti o final de GoT, a culpa é minha, pois ninguém me mandou criar expectativas. Certo, é uma hipótese. Daí lembrei que sigo a filosofia cada um com seu cada qual e que, no meu cada qual, eu não curti simplesmente porque o roteiro, edição, direção e atuações foram ruins mesmo. Sempre importante ressaltar: na minha opinião etc®. (Desejar que esses elementos prestem equivale a criar expectativas? Se sim, estarei lascada.)  E tudo bem, não estou me estrebuchando no chão por causa disso. O desfecho não funfou, e vida segue. 

24
"Ãin, o final do Jon Snow foi tãão liiiiiiindo." (é um complô?!) Dei unfollow na pessoa? Ah, pode apostar que sim. É curioso: lido superbem com quem odeia algo de que gosto muito, contudo se vem pra cima de mim amandinho algo que eu detesto, aí o streaming trava. Não me orgulho, porém assim é.

[Pressinto que o último episódio da série me afetou mais do que estou disposta a admitir.
Que fardo, ser ridícula.]

25
Lendo a resenha de um livro (do Book Forum: x), na qual a resenhista fala sobre nossa curiosidade em conhecer a rotina do outro, me deparei com uma listinha de perguntas que as pessoas costumam jogar no twitter e adorei esta:

What film scores are best to listen to while writing? / Quais as melhores trilhas sonoras de filmes para ouvir enquanto se escreve?

Aproveito para trazer uma playlist com trilhas que escuto com frequência. São apenas instrumentais, pois não consigo ler/estudar/trabalhar/escrever ouvindo músicas com vocais.



Lagriminhas ao final do livro The Wall, escrito pela austríaca Marlen Haushofer. (Livro com ares distópicos, protagonista como única humana sobrevivente.) Por incrível que pareça (pra mim), leria mais duzentas páginas com os relatos dessa mulher fazendo as mesmas coisas todos os dias, no meio do mato; convivendo somente com uma vaquinha, uma gata e um cachorro. (Ecofeminismo. Oh, yeah.) Nem eu acredito no que acabo de escrever. Mas é verdade. A obra da Haushofer também trouxe uma preciosa contribuição para meu arquivo de citações que abordam razões que levam alguém a escrever. Tornou-se uma passagem especial, pois suspeito de que ela se aproxima bastante da relação que estabeleço com a escrita groselhenta deste blog:
"Não sei se conseguirei suportar vivendo apenas com a realidade. (...) É por isso que estou sentada aqui anotando tudo que aconteceu, (...) como não restam mais outros diálogos, preciso manter viva esta infinita conversa comigo mesma."
                                                                             - Marlen Houshofer, The Wall (minha tradução)

26
Droga; não adianta; terei mesmo de me estrebuchar por causa do final de GoT. Pelo menos, que não seja no chão, mas no diarinho. O pior é que sequer sei expressar com clareza os motivos de minha insatisfação. O certo é que, a despeito de nunca ter sido grande fã da série (exceto pelos dragões, calma lá) e de ter desejado abandoná-la várias vezes, o último episódio perturbou meu sono daquela noite. Arriscarei um exercício de averiguação. Escrevendo, tentarei entender por que aquilo me afetou. Duvido de que chegarei a uma conclusão definitiva, porém vale a pena tentar extirpar a inquietação.

A maioria das defesas do desfecho dado à Daenerys sustenta que, desde a primeira temporada, a personagem revela tendências autoritárias, a semente de uma líder louca e genocida, com sede de poder. Resisto em aceitar tamanha simplificação. Quando penso na Dany da S01, minha memória devolve a imagem de uma adolescente cuja família fora assassinada e que, para sobreviver, teve de fugir e se esconder, exilando-se nos cafundós do judas ao lado de um irmão fdp, o mesmo que a vende na primeira oportunidade para um brutamontes. Com isso em mente, questiono se devo engolir o argumento de que uma jovem de 1,57 m de altura, sozinha e sem eira nem beira num ambiente marcado pela luta pelo poder a qualquer custo teria chegado longe adotando um discurso conciliador. Uma mulher, naquele meio e naquelas circunstâncias, teria sobrevivido bancando a tonta que não sabe de nada feito o Jon Snow? Péra, terei de recalibrar esse último devaneio, pois nem Jon Snow sobreviveu com essa estratégia. Morreu e ressuscitou ao terceiro dia para matar a Dany. (Foi pra isso? Vai saber.) Defensores emendam ainda um “ah, o discurso dela era tomar o trono com fogo e sangue.” Poxa, mas não eram essas as regras do jogo naquele universo? Ou querem me convencer de que, lá, as conjunturas eram propícias para o movimento Give Peace a Chance? Diplomacia a levaria aonde? Discursar a favor de democracia e justiça? Ali? Uma mulher que tinha perdido tudo? Sério? Como? A impressão que tenho é que estão analisando aquele mundo ficcional adotando a realidade da atual Escandinávia como parâmetro. É lógico que não alego que Dany era uma mulher perfeita que necessariamente agiria como excelente rainha, entretanto insisto, sim, que a narrativa deveria me mostrar essa evolução, especialmente quando oportunidades de redenção foram concedidas a personagens masculinas. Em breve recapitulação (ainda na minha memória apenas), calculo que praticamente todas as personagens morrem em GoT ou quando tomam decisões equivocadas no jogo, ou quando conscientemente assumem o risco mortal de uma decisão moral. Dany? Morre porque homens decidem, sem nem piscar os olhos, que não é uma boa arriscar. [Um desses homens, aliás, convenientemente fica burro de repente e se metamorfoseia num herói que não mais luta só para salvar a própria pele, mas pela paz mundial.] Pensando bem, talvez Dany tenha cometido uma má jogada que lhe custou a vida: confiou em quem não devia. Enfim, por essas percepções instintivas, escolho não juntar-me à turma que achou aquilo um primor narrativo. Desculpe, no entanto hoje é pedir demais.

P.S.1: como já me irritei o suficiente, evito me enveredar pelos símbolos imagéticos, incorporados às cenas finais, que juntam Dany à turma de Hitler, Stalin, King Jong-un, Palpatine... Tem dó.

Outra versão possivelmente mais acertada para justificar meu bode com o último episódio está resumida nesta frase que li no livro do Piglia: “a gratuidade e o vazio desse trabalho inútil”. Por oito anos (!!!!) acompanhar uma personagem cuja narrativa não me ofereceu nada além de perrengues para juntar exército e frota que assegurassem a retomada do trono, para finalmente vê-la morrer de um jeito tosco, nas mãos de um bocó, como se fosse uma imbecil sanguinária? O famigerado "nadou, nadou, nadou [repito: POR OITO ANOS, ela nadou], e morreu na praia". Dane-se; considero justos meus sentimentos de gratuidade e vazio. Inegavelmente é uma narrativa que me fez reviver uma amarga verdade da vida: não importa o quanto você se esforce, nem por quanto tempo; sempre bastará uma pedrinha no meio do caminho para o fazer se espatifar no chão antes da linha de chegada.
Pobre Daenerys. (- Sob as asas de Drogon, meu coração voa contigo#poetei💩)












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(...) (escreveu Stendhal), “um diário é sempre uma espécie de suicídio”

         - Ricardo Piglia, Diários de Emílio Renzi - Anos de Formação 

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Resultado em mãos e: o pior ainda não passou. Lá vou eu outra vez.

Voltando da clínica ao meio-dia (sol a pino no cocuruto etc), eu caminhava tensa e ansiosa em consequência do feioso laudo conclusivo do exame, e bastou um comentário de um passante na calçada - “nossa, moça, que inveja dessa sua sombrinha”- , para que eu e ele sorríssemos e eu voltasse a respirar leve. Ao que parece, viver é isso.

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“Minha história se resume desta maneira:”
a do Renzi:  agora vou fugir, depois veremos.
a minha: sabendo que é impossível, vou lá me recolher e não farei.
...

Hoje tive de circular por uma área com a qual tenho pouca familiaridade e constatei que a linha de ônibus em que embarquei equivocadamente dias atrás é justamente a que serviria aos meus propósitos. Ora, ora. A cereja do bolo ficou por conta da pergunta da mulher à minha frente: ué, esse ônibus não vai pra XX?! Eu: (haha) Senhora, ele até vai, mas dará uma beeeela volta antes de chegar lá. Se te ajuda, digo que já cometi essa mesma burrada antes. Sei que há uma lição nessa história, contudo o processamento dos dados permanece inconclusivo.
...

À noite, voltei às crônicas da Clarice Lispector e não resisto (a carne é tão fraca): lançarei umas provocações disparatadas mediante registro de dois trechos (há outros, hein) que, caso escritos em 2019 pela autora, teriam lhe garantido a pena de cancelamento pelo tribunal virtual.

- "É com um pouco de pudor que sou obrigada a reconhecer que o que mais interessa à mulher é o homem." (Lispector: reprovada no Bechdel Test)
- "Como é que uma pessoa tão obesa tinha mãos tão delicadas e pequenas, (...) Ela era casada. Como é que pode?" (Lispector: gordofóbica)

(Falando com mais seriedade:) Ainda que as crônicas de Lispector apresentem premissas que inegavelmente poucos autores ousariam escrever nos dias atuais, não defendo que a escritora seja, mantendo a gíria dos djóvens, cancelada; até porque estou adorando essa escrita mais informal dela. Incluo os grifos e piadinhas simplesmente porque fico fascinada ao perceber, através da leitura de textos, certos aspectos relacionados às mudanças (pra melhor, pior ou, quiçá, "lugar nenhum") nos modos de pensar de uma sociedade.

Por falar em "mudar pra lugar nenhum", as perguntas que Cristina lança a Lispector na Entrevista Alegre:
- (...) me perguntou se eu era de esquerda.
- uma escritora brasileira ou simplesmente escritora. (?) > E Lispector respondendo: (...) em primeiro lugar, por mais feminina que fosse a mulher, esta não era uma escritora, e sim um escritor.
- A literatura compensa?
- Perguntou-me o que eu achava da literatura engajada.

Fico tentada a brincar com aquele meme do Didi, substituindo o "No céu tem pão?" por essas perguntas e emendando com o "e morreu". História de uma nação.

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Para celebrar a aniversariante do dia, assisti ao As Praias de Agnés (2008). Legal observar Renzi e Varda construindo autobiografias seriadas: a dele, com livros; a dela, com praias. Meus pais adorarão essa ideia da Varda. As praias que narram a minha vida! É bem bonito. Pensei em algumas de minhas praias: Praia do Futuro, Icaraí, Praia das Fontes, Iguape. Logo veio certa melancolia, pois notei que elas terminam com a, digamos, fase adulta. Minha série de praias restringe-se à infância e pré-adolescência. Lamentável. Como consolo, me apego ao fato de que a maioria de minhas memórias praianas contém sentimentos felizes. Ok, pode ser um erro de revisitação, mas e se for? Pra que filosofar, quando posso curtir a recordação de alegrias, ainda que supostamente fabricadas? Hum...

"Estou em Mar del Plata, vou à praia; época luminosa ao sol e no mar, onde não é necessário pensar."
                                                                                                 - Ricardo Piglia, Diários de Emílio Renzi - Anos de Formação. 

Com o livro da Dulce Maria Cardoso*, descobri que os jovens portugueses que viviam em Angola na década de 70 achavam que La Décadanse é a melhor música para dançar. Jovens claramente mal intencionados. [*É meu primeiro contato com ela, e vale destacar: como essa portuguesa escreve bem!]



Mais adiante, esbarrei com esta frase que prontamente me capturou:
"Não há nada por que nos rirmos, mas se nos rirmos não estamos tão sozinhos 
(...) e talvez consigamos adormecer."
                                                                                             - Dulce Maria Cardoso; O Retorno.

A passagem me fez recordar duas coisas:
1. um comentário da terapeuta sobre minha habilidade de rir com frequência ao falar sobre... ~coisas~. Infelizmente essa memória é fragmentada; não lembro quais foram as palavras exatas (uma pena), porém estou certa de ter sido algo positivo, algo a ver com maturidade, acredito. Suponho que me surpreendi por ter imaginado que viria uma "bronca". (Se panz, é meu modus operandi: sempre antecipo, praticamente exijo, críticas negativas.)

2. apenas entre eu e você, diarinho: já brinquei de gravar vídeo na tentativa de virar booktuber. Relaxe, nunca postei e a ideia está bem sepultada, graças a deus e ao meu juízo. Enfim, a adorável frase de Dulce Cardoso resgatou o projeto arquivado porque uma das coisas que mais me encafifaram durante a edição do vídeo foi o quanto eu ria. E nem era risada de desconforto por estar falando sozinha diante de uma câmera. Como não levo (quase) nada (muito) a sério, eu ria com minhas próprias piadas bestas sobre os livros que comentava. É coisa de gente chatona, né? Sei lá, naquela ocasião, fiquei ~meio assim~.

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Não sei se curti a experiência de manter esse diário. Voltando a Fleabag, foi quase como se esse exercício me acompanhasse durante todo o dia, tal qual o observador onipresente que se evidencia a partir das constantes quebras da quarta parede naquela série. Nah, está confuso. Tipo, o que quero dizer é que me senti perseguida por um estado de atenção permanente para o que pudesse entrar aqui, o que me tirava do momento presente, do real. O próprio Renzi fala algo correlato ao compartilhar que se sente cindido em dois: aquele que vive os fatos e aquele que existe através das palavras escritas no diário. São pessoas diferentes. Creio que o formato está encerrado. (Ou não.)
...

E exatamente hoje, enquanto caminhava ouvindo minha playlist de trilhas, avistei isto:


Após aquele penoso encontro do início, concluir este projetinho de Maio/2019 com essa visão?! Fiquei tão emocionada, que os olhos marejaram. Um novo beija-flor. Agora, vivo. Sim, It's a good day for flying