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12/06/2018

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #03 - Os Teólogos

(Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa - Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre Os Teólogoslink 2.


** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

E após um conto de "nível médio de dificuldade", encaro agora um de "nível hardcore" repleto de citações filosóficas e teológicas a respeito do tempo; um assunto, assim, fácil e simplezinho, não é mesmo? Pois aceito o desafio, ansiosa para descobrir o tamanho da presepada que cometerei desta vez.

***

Ok; concluída a leitura, fui tomada por uma empolgação e por um furacão caótico de ideias e reflexões. Tentando ordenar a bagunça mental, elaborei um resuminho de três páginas (A4) para Os teólogos (cujo texto consome cinco páginas ~A5. Ou seja: """resumo"""), porém minha situação permaneceu mais ou menos assim:

São tantas as conexões possíveis, que eu sequer sabia por onde começar a escrever estas impressões. O socorro veio através de um artigo da BBC Culture, o Every story in the world has one of these six basic plots, no qual Miriam Quick 1. resgata a tese de Vonnegut sobre os seis formatos gráficos assumidos pelos arcos narrativos dos protagonistas de histórias e 2. expõe as conclusões da pesquisa coordenada pelo professor Mathew Jockers concernentes à existência de seis tipos básicos de histórias graficamente transponíveis. Essas informações me renderam o momento "Eureka!": "Sim, acho que consigo colocar os principais pontos do conto de Borges em único gráfico!" 

 Aqui está o resultado da minha audaciosa empreitada:


Fala sério, nem preciso explicar, preciso? Brincadeira; me esforçarei, sim; até porque nem sei se marquei um gol ou se chutei feio pra fora. Opto por listar os aspectos principais da minha teoria tresloucada; vejamos se consigo:

(1) A própria estrutura narrativa de Os teólogos adquire a temporalidade circular proposta pelos Monótonos e igualmente confirma a profecia que Euforbo vaticina enquanto queima na fogueira: "Isto aconteceu e voltará a acontecer."  Transcorre no conto a sequência destacada no círculo: Surge uma "nova" teoria/"nova"(s) comunidade(s) supostamente herética(s) → Um sabidão aparece para refutá-la → Algo/Alguém vai parar na fogueira / queima → Surge uma "nova" teoria/"nova"(s) comunidade(s) supostamente herética(s) → Um sabidão aparece para refutá-la → Algo/Alguém vai parar na fogueira / queima → 

(2) A marcação no círculo dos eventos recorrentes parece demonstrar que a cosmologia dos Histriões, baseada na ideia dos espelhos e suas imagens especulares, não contradiz nem se opõe à prévia teoria circular dos Monótonos. Cada evento que retorna, que se repete, tem seu reflexo no exato ponto oposto da circunferência conforme assinalado pelas setas "↔" - 0°x 180° / 60° x 240°/ 30° x 210°... E, desse modo, a narrativa também se constrói em concordância com a proposição dos Histriões. 

(3) Os eventos especulares, avalio, funcionam como duplos, são as facetas opostas que compõe uma mesma unidade. Em outras palavras: são os dois lados da mesma moeda. Na minha análise maluca, isso ganha relevância especialmente quando pensamos nas diversas teorias heréticas que repetidamente surgem ao longo da linha temporal circular proposta nesse conto: sendo duplos de uma entidade una, como podemos considerá-las totalmente distintas? Segundo insinua meu esquema, afinal, as doutrinas dos Monótonos e Histriões se complementam; elas não se anulam absolutamente. Exponho toda essa lenga-lenga devaneante para tentar corroborar a sensação de que tudo e todos que queimaram na fogueira o fizeram em nome das mesmíssimas teses, cujas expressões por metáforas dificultam a percepção da equivalência.

E se as teses atacadas são as mesmas, logo os respectivos textos impugnantes repletos de metáforas também são essencialmente os mesmos, ainda que reapareçam na forma do duplo da mesma unidade. Aureliano e João de Panônia se digladiavam intelectualmente defendendo ideias coincidentes, eles próprios personificando a metáfora do duplo. Não à toa, já no céu, Deus toma Aureliano por João de Panônia, visto que inexiste diferença entre os dois. 
"(...) no paraíso, Aureliano soube que para a insondável divindade ele e João de Panônia (o ortodoxo e o herege, o abominador e abominado, o acusador e a vítima) constituíam uma única pessoa."
Quando os teólogos supunham refutar a herege corrente histriônica, nem percebiam que continuavam concomitantemente refutando a velha corrente dos monótonos, dado que ambas se complementam para construir uma doutrina única. Inclusive, é disso, em parte, que transparece certo humor negro presente na morte de João de Panônia: o que ontem ele escreveu sob acalorada recepção, hoje é considerado blasfêmia, porque as "novas" heresias transpõem seus ditos passados para a posição do duplo oposto. Sinto-me afoita o suficiente para montar uma tabelinha explicativa:

                        Tese B
Heresia  A |    Refuta
Heresia -A |    Ratifica

(Fez sentido?! Nem eu sei! Espero que sim.) A coisa toda fica ainda mais hilária quando Panônia, em sua defesa, refere que não poderia negar o que ele dissera em sua antiga tese, pois isso implicaria confirmar a própria heresia dos Histriões baseada nos espelhos; ou seja, reconheceria o duplo, a existência de entidades reflexas no mundo. (Tese -B da tabela.)

Em decorrência de todas essas ruminações, uma impactante frase de Joseph Campbell, com a qual cruzei recentemente assistindo ao "O Poder do Mito", reverberou em minha cabeça durante toda a leitura desse conto. Transcrevo, a seguir, a breve passagem da entrevista, grifando a frase específica a que me refiro - ah!, e incluo a cara do Campbell ao pronunciá-la, pois é perfeita demais para permitir que se perca no meu limbo memorial:
(Joseh Campbell:) Goethe diz: ''Todas as coisas são metáforas. (...) Tudo que é transitório não passa de uma referência metafórica." É isso que todos nós somos. 
(Bill Moyers:) Mas como se pode reverenciar uma metáfora... amar uma metáfora, morrer por uma metáfora?

(Joseh Campbell:) É isso que as pessoas fazem em todos os lugares. Em todos os lugares do mundo. Elas morrem por metáforas.

Certo. Pois eis que Borges conclui Os teólogos com esta frase:
"O final da história só pode ser contado por metáforas, uma vez que se passa no reino dos céus, onde não há tempo."
Minha cara ao lê-la? Esta:
Detalhe relevante: esse "no reino dos céus, onde não há tempo.", pra mim, é metáfora, hein. O reino nada mais é do que o "aqui e agora". Nossas histórias são contadas por metáforas. As histórias dos Monótonos, dos Anulares, dos Histriões, dos Especulares, de Aureliano, de João de Panônia, a minha etc; todas são contadas por metáforas que, com pequenas variações, acabam afirmando a mesma coisa.

De qualquer maneira, eu nem precisava ter apelado para o auxílio de Campbell, visto que o próprio Borges tratou desse assunto no ensaio A esfera de Pascal, incluído no livro Outras Inquisições.
"A história universal é, talvez, a história de umas quantas metáforas. 
(...)  
A história universal é, talvez, a história da diferente entonação de algumas metáforas."
- Jorge Luiz Borges, A esfera de Pascal (Outras Inquisições - trad.: Davi Arrigucci Jr.)

Nesse ensaio, Borges sustenta que a metáfora geométrica da esfera retorna continuamente, com mínimas variações, através das vozes e escritos de diferentes poetas, teólogos, filósofos e pensadores desde o século 6 a.C. até o século XVII, com Pascal: "Uma esfera terrível cujo centro está em toda parte e a circunferência, em nenhuma." Aliás, a metáfora permanece sendo utilizada até hoje, sim? Jung e a galera que curte mandalas (círculo sagrado) e a busca pelo centro estão aí para comprovar. Campbell, instigado por Moyers no mesmo programa, curiosamente também fala da figura do círculo.

(4) Divertidamente, as premissas centrais dos dois contos anteriores da coletânea - O imortal e O morto -  retornam em Os teólogos, estabelecendo uma perfeita sintonia com a ideia de que "as coisas recuperarão seu estado anterior." Como? Nas minhas elucubrações, assim:
     4.1. (O imortal:) Cada heresia e respectiva contestação regressa continuamente nos ciclos seguintes na forma de duplos, processo que representa o único meio possível para a conquista da imortalidade = mediante propagação, pelas gerações, das palavras, dos livros, das ideias. Nesse contexto, a descrição do modo com que cada teoria era elaborada (as hereges e as refutadoras) chama muita atenção, uma vez que todas consistiam praticamente em uma mera colagem de vários pequenos trechos pinçados a partir de obras escritas anteriormente, de autorias diversas;

     4.2. Com O morto, aprendi que é necessário estar atenta para não bancar o "leitor otálora", aquele que equivoca-se ao ler sua própria narrativa e que, acredito, facilmente se deixa ludibriar por metáforas que - adivinhe? sim: - tratam da mesma coisa.

***

Para arrematar minhas especulações, destaco um interessante esclarecimento escrito por Hernán Nemi e incluído no livro Borges Babilônico, enciclopédia organizada por Jorge Schwartz (Companhia das Letras, 2017), no qual o autor ressalva que Borges, ao longo de sua obra, nem sempre defende exclusivamente a teoria circular do tempo associada ao eterno retorno. Isto foi o que encontrei em os teólogos - tanto no tratamento do tema, como na própria estrutura narrativa -, porém, em outros contos borgianos, poderei deparar-me com concepções diversas sobre o tempo. Anotado!
"Contudo, o maior achado borgiano não consiste em mencionar em meio a seus textos posturas distintas referentes ao tempo, mas em construir relatos cuja trama se desenvolve respondendo a diferentes concepções temporais. Isto é, em alguns contos, a ação se inscreve em um tempo linear, enquanto em outros este é circular ou subjetivo, ou coexistem tempos simultâneos. Isso demonstra ser errado sustentar que o Borges autor adere a uma concepção circular do tempo, relacionada ao eterno retorno. Em alguns contos, ele adere a essa concepção, mas, em outros, a desmente de forma taxativa, e opta por outras. Nesse sentido, sua posição diante do conhecimento vai ao encontro das ideias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (v.), o qual vê toda concepção do mundo como uma ficção útil para explicar em caráter momentâneo a falta de sentido da existência mas que nem por isso deixa de ser uma ficção transitória, sem um valor de verdade em si e que necessariamente deverá dar lugar a outras novas ficções que de modo progressivo ajudem a dar conta da realidade. (...) 
Ao longo de toda a produção de Borges, coexistem concepções diferentes e antagônicas sobre o tempo: linear, circular, subjetivo ou simultâneo. Seu maior êxito não foi incluir tais conceituações nos contos, à maneira de comentários ou digressões, mas haver conseguido que seus textos narrativos se estruturassem de acordo com cada uma dessas noções temporais. Nesse sentido, a obra de Borges demonstra a relatividade de toda concepção do mundo."
- Hernán Nemi, Borges Babilônico (Organização: Jorge Schwartz)

***
"Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não conhecê-la até o fim; (...)
E esse trecho do conto me obriga a tomar emprestado aquele versinho de Gilberto Gil: 
"a paz invadiu o meu coração..."  

Ok, hora de apertar play no vídeo da Aline Aimée. (*Medo*)

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Ah, mas que beleza: após descobrir que sou uma leitora otálora, encaro agora a revelação de que escrevo "aurelianamente". Ok, ok; é a vida, fazer o quê? Ou melhor (conforme abordou Aimée, dentre as temáticas de Borges): ~é o acaso~.  ¯\_(ツ)_/¯

Bom, vista a resenha da Aimée, julgo que me saí ~razoavelmente~ bem. Poxa, poderia ter sido muuuuito pior. Vale a pena assistir ao vídeo - como de praxe: excelente -, no qual ela faz uma bela lapidação nas questões que consegui captar e incluir em minhas impressões.

Seguidamente, insiro apenas algumas passagens da resenha dela que me foram caras e que complementam com maior destaque esta minha viagem borgiana:

→ Admito logo que os presentinhos cômicos, os easter eggs borgianos (e temos mais essa; ora, ora), voaram, sim, por cima da minha cabeça. A verdade é que, quando os diversos nomes que ele solta no texto começaram a se empilhar formando uma montanha gigantesca, desisti sem dó de sair googlando um por um. Perdão.

No entanto, ainda que eu não tenha pescado a piadinha que Aimée relata sobre a dupla Bossuet e Harnack, esses dois não tinham me passado batido. Uma vez lida, esta passagem foi circulada
"(porque os testemunhos diferem e Bossuet não quer admitir as razões de Harnack)"
e, ao seu lado, interroguei à lápis: "esse par (Bossuet + Harnack) representaria O Retorno de Aureliano + Panônia?!" Derrapo no sabão, ou faz sentido?

→ A Aimée ressalta a estrutura do conto, que realmente é peculiar; quase todo escrito como um artigo teológico, não fosse o parágrafo final que pitorescamente quebra o tom acadêmico geral.

→ Quando Aimée comenta que Borges exibe um humor que revela certo prazer no caráter especulativo das teorias teológicas, minha memória devolveu esta informação presente na obra Com Borges, do Manguel:
"(Borges) Lia teologia com um prazer entusiasmado. << Eles acreditam, mas não se interessam; eu me interesso, mas não acredito.>>  Admirava o uso metafórico dos símbolos cristãos feito por santo Agostinho. <<A cruz de Cristo nos salvou do labirinto circular dos estoicos>>, citava, deliciado. E depois acrescentava: <<Mas ainda prefiro o labirinto circular>>."
- Alberto Manguel, Com Borges (Editora Ayiné; trad. Priscila Catão)

→ Não atentei, de fato, à possibilidade de classificar a presença do duplo como um artifício usado por Borges para refutar a ideia da personalidade. Aimée aponta que, tal qual ocorre em O Imortal, A Forma da Espada e O Tema do Traidor e do Herói, o conto Os teólogos denuncia a equivalência entre os homens. Herói e traidor se equivalem, de modo que a distinção entre eles existe apenas no campo da humanidade. E a escolha de quem assume o papel de herói e o de traidor é responsabilidade do digníssimo Acaso.

Ainda quanto ao duplo, Aimée acrescenta outro importante ponto que me fascina bastante: ele permite a autoanalise. É através da relação com João da Panônia que Aureliano percebe a equivalência existente entre ambos, o que o induz a questionar todas suas prévias certezas a respeito de si mesmo e, em última instância, de sua própria concepção do mundo. Peguei-me refletindo que, nos tempos atuais marcados por tamanha intolerância em relação àqueles minimamente diferentes, essa temática da “autoanálise pelo duplo” ganha considerável relevância.

Complemento apenas mencionando que, no começo do conto e antes de todo o imbróglio teológico superveniente, Aureliano já compreendia que as “verdades espirituais” costumam ser tratadas pelos homens de um jeito meio, digamos, ensaboado:
(grifo meu:)
“Aureliano (...) sabia que em matéria teológica não há novidade sem risco; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado ímpar, demasiado assombrosa, para que o risco fosse grave. (As heresias que devemos temer são as que podem se confundir com a ortodoxia.)”
→ Para concluir circularmente esta parte do post, retorno ao tema borgiano do "acaso", tratado por Aimée na discussão do duplo em Os teólogos. No instante em que ela tocou nesse tópico, e dada a maneira com que ela se expressa, me lembrei prontamente da dedicatória que Borges escreve no seu livro Primeira Poesia:
(grifo meu:)
"a quem ler 
Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de ter sido, previamente, por mim usurpado. Nossos nadas pouco diferem; é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator." 
- Jorge Luis Borges, Primeira Poesia (Companhias das letras; trad.: Josely Vianna Baptista)

Ele é Borges, eu sou essa pateta leitora otálora; e é tudo obra do estimável Acaso. Beleza. 👍

P.S.: mais uma vez, agradeço Aline Aimée pelo ótimo vídeo.

17/04/2016

Lendo Contos | The Collected Stories → Bliss and Other Stories - Katherine Mansfield

(info, sinopse, etc.)
Então comecei a leitura do The Collected Stories da Katherine Mansfield pelo Bliss and Other Stories (1920) e, como eu não conhecia nada sobre a autora (exceto a corriqueira e bastante promissora comparação com Tchekhov), fui fisgada logo de cara pela excelente introdução dessa edição, na qual Ali Smith escreve sobre a vida e obra da contista neozelandesa. Julgando apenas pelo que li, afirmaria: Katherine Mansfield, que mulher. Ela realmente parece ter sido uma pessoa fascinante, que soube aproveitar intensamente seus (lamentavelmente) breves 34 anos de existência (faleceu acometida de tuberculose que, especula-se, tenha contraído do amigo e autor D.H. Lawrence); consciente, suponho, da urgência da vida. O relato provoca, de fato, uma sensação de profundo pesar quando constata-se o sarcástico paradoxo de uma vida tão curta, para tamanha vivacidade. A introdução me deixou com muita vontade de também ler os diários e cartas dela.
"I shall not be "fashionable" long. They will find me out; they will be disgusted; they will shiver in dismay. (...) you see I am not a high brow. Sunday lunches and very intricate conversations on Sex and that "fatigue" which is so essential and that awful "brightness" which is even more essential - these things I flee from. I'm in love with life - terribly." 
Para dar uma ideia do temperamento irreverente e irônico de Mansfield, creio que vale citar que ela chegou a sugerir a D.H. Lawrence que ele apelidasse sua casa de "O Falo" (The Phallus). Tem como resistir? Não à toa, penso, os integrantes do Bloomsbury Group e diversos intelectuais da época não iam lá muito com a cara dela, acusando-a de usar uma máscara, de ser vulgar e inescrutável.

Também acho digno de nota este delicioso episódio da biografia da autora: na manhã seguinte ao seu primeiro casamento, após passar a noite de núpcias fora do quarto de hotel, em restaurantes e teatros; ela simplesmente abandona o marido. Bafo! Após o ocorrido, a mãe manda-a para um convento na Alemanha e, retornando à Nova Zelandia, deserda a filha. Definitivamente, Katherine Mansfield não parece ter sido uma mulher disposta a sujeitar-se a qualquer tipo de regras ou controle.
"Here, then, is a little summary of what I need - power, wealth and freedom. It is the hopelessly insipid doctrine that love is the only thing in the world, taught, hammered into women from generation to generation which hampers us so cruelly. We must get rid of that bogey."
                                                                                                     (Amém.)
***
Bliss and Other Stories apresenta 14 contos, todos narrados em terceira pessoa (exceto um), focando muito mais nas personagens, do que em um plot propriamente dito. São textos de características modernistas, nos quais Mansfield oferece ao leitor a chance de observar curtos fragmentos, quase flashes, da vida das personagens que cria; ao mesmo tempo em que ela nos concede acesso ao mundo interior daquelas pessoas, explorando suas personalidades, sentimentos e aspectos psicológicos. E vale ressaltar que a autora não demonstrou sentir muita compaixão por suas personagens na hora de revelar, aberta e friamente, suas idiossincrasias, incongruências e vulnerabilidades.

Consegui identificar algumas características e temas recorrentes nos contos:
1. A grande maioria das protagonistas são mulheres de todas as idades (inclusive crianças), de procedências e realidades variadas. Lançando mão do termo da moda, eu diria que elas não encaixam-se exatamente no estereótipo construído para as ditas "personagens femininas fortes". Mansfield expõe mulheres de uma forma bastante real e humana; às vezes, pode-se dizer, até cruel e sarcástica, ainda que verdadeira. Lembrou-me, por exemplo, das mulheres dos contos da Alice Munro (*do que li da autora - Too Much Happiness).

2. A natureza aparece de forma marcante em muitos desses contos, especialmente o mar, vento, sol e flores. É um elemento que surge comunhando com as personagens em plena sintonia, o que parece ser influência do cenário neozelandês com o qual Mansfield conviveu durante a infância;

3. Muitas personagens são artistas: pintores, escritores, atores, músicos... A autora explora a personalidade dos indivíduos dessa classe e suas relações com a arte;

4. A dinâmica estabelecida nas relações entre homens e mulheres - enquanto indivíduos e na sociedade - é intensamente examinada através dessas histórias, com foco recaindo especialmente sobre a posição reservada à mulher, variavelmente vulnerável;

5. Mansfield sugere um prazer quase perverso em evidenciar a dissonância entre o que suas personagens sentiam e o que elas efetivamente expressavam/demonstravam em suas relações; sugerindo uma "performance" do indivíduo quando interagindo em sociedade. Seu amigo Lawrence, curiosamente, também parecia gostar dessa temática.

6. Alguns outros temas gerais: a complexidade do amor e das relações conjugais, a solidão e melancolia, a memória, ambições e desejos frustrados, desesperos contidos;

7. E é importante ressalvar que, em muitos desses contos, a personalidade de Mansfield, notadamente o bom humor e ironia (às vezes ferina), transparece deliciosamente no texto. Senti que ela gostava de mostrar como as pessoas podiam ser ridículas, especialmente quando atuando em sociedade.

***

Fazendo um breve comentário sobre alguns contos, em ordem decrescente de predileção (mas, com exceção de um, vale destacar que gostei imensamente de todos):

❥ Prelude
Esse é o conto mais longo da coletânea, quase uma novela; e completamente sem plot definido; onde o que chama a atenção é mesmo a prosa, a forma e o estilo belíssimos da autora. Mansfield cria uma atmosfera bastante onírica, quase um conto de fadas, para o panorama dinâmico descrito sobre a história banal de uma família em mudança da capital para o interior. Como se fôssemos uma abelhinha ou uma câmera invisível, temos a sensação de voar entre os integrantes (~ sete) da família Burnell, saltando dentre as mentes de cada um deles e, assim, percebendo as diferentes perspectivas e sentimentos. Lindo demais. Ah, e lembra bastante o Ao Farol, da Virgínia Woolf, que só foi publicado dez anos depois de Prelude.
(crianças brincando:)"Well, let's play ladies," said Isabel. "Pip can be the father and you can be all our dear little children." "I hate playing ladies", said Kezia. "You always make us go to church hand in hand and come home and go to bed."
(a esposa:)
"How absurd life was-it was laughable (...) And why this mania of hers to keep alive at all? For it really was a mania, she thought, mocking and laughing."
Psychology
Breve cena na qual Mansfield expõe todo o desconforto, a frustração e o ridículo que acompanham duas pessoas que, a despeito da atração mútua, são incapazes de saírem da "zona de conforto", preferindo a segurança da falsa performance que só admite a mera amizade. Ironicamente nesse conto, ambos são escritores, ou seja, na hora de usarem a palavra em vantagem própria no mundo "real", eles falham miseravelmente. E tal ironia ainda é reforçada no final quando, em carta, a mulher consegue retomar o ânimo perdido pela lamentável performance no último encontro com o (secretamente) amado. Novamente, o diferencial do conto está na forma e prosa de Mansfield.

A Dill Pickle
Que conto fantástico. Agora temos um ex-casal que se encontra por acaso na rua, depois de seis anos sem se verem. A maneira com que Mansfield expõe as diferentes perspectivas, ressaltando o papel da memória e das escolhas de performance adotadas pela mulher e pelo homem, foi espetacular. O homem comporta-se como um sonso cuzão, cinicamente retratando o sucesso de sua vida após o rompimento e relembrando de forma sentimental o passado mútuo; enquanto a mulher tenta manter a dignidade como pode diante da dissimulação do ex-amante e do infortúnio de seu fracasso após o rompimento.

❥ The Wind Blows 
Conto centrado na figura da adolescente tomada pelo tornado de novos sentimentos e o desejo desesperado de liberdade. Como o título sugere, a natureza surge praticamente como uma personagem metafórica: o vento forte do outono e o mar revolto - livres e caóticos - ressoando em perfeita sintonia as emoções de Matilda.

❥ Sun and Moon
O conto toma a pequena fração de um dia, antes e após uma festa que ocorre na casa de duas crianças irmãs, a Lua e o Sol. Em breves cenas, através dos comportamentos e diálogos das crianças, Mansfield explora as curiosas diferenças entre as personalidades das duas personagens, processo que torna-se mais singelo pela metáfora proporcionada pelos nomes. Ao final, um evento aparentemente banal parece marcar o início da ruptura da inocência infantil, enaltecido pela surpresa das reações diferentes da Lua e do Sol.

❥ Bliss
Em termos de forma e estrutura, creio que seja um dos mais complexos da coletânea. Uma mulher de ~30 anos, casada e mãe, encontra-se em um momento de puro êxtase inexplicável do ponto de vista apenas consciente, de modo que o desenrolar de um jantar que ela oferece com o marido a um grupo de amigos intelectuais, entre os quais havia uma nova amiga da protagonista, revela a tremenda complicação do que efetivamente ocorria. Conto repleto de simbologia, exploração da sexualidade feminina e, novamente, com algumas alfinetadas cômicas da autora para cima dos artistas "intelectualóides".

❥ The Little Governess
Tenso, muto tenso esse conto. Li um artigo que o tratava como uma espécie de versão do conto da Chapeuzinho Vermelho, e achei a comparação bem válida; sendo especialmente repulsivo, ainda que completamente pertinente, pensar que Mansfield acabaria por demonstrar que os homens agem como uma irmandade fraternal de lobos caçadores que sentem um prazer doentio em violentar as Chapeuzinhos Vermelhos do mundo.

❥ Feuille D'Album e Je Ne Parle Pas Français
Em ambos os contos, pode-se chegar a uma conclusão similar: ser mulher é uma merda, ainda mais quando tomada como velha. Se for artista, então, pior ainda. Em ambos, Mansfield chama atenção para o que às vezes acaba sobrando como única "salvação" para muitas: prostituição.
E em JNPPF, o cínico escritor narrador me lembrou um pouco do Bandini, do livro do John Fante.

Mr. Reginald Peackock's Day
Volta a Mansfield ferrenha com suas chacotas. Uma personagem homem E artista E marido (ou seja, incorpora vários temas comuns da autora), tem exposta toda a ~glória~ do seu comportamento patético e da sua vaidade (de artista, principalmente) ilusória. O sujeito vivia na realidade paralela na qual ele seria um magnânimo cantor amado por todos, enquanto apenas a esposa simplória seria incapaz de reconhecer e admirar tal "verdade". Fica, porém, a dúvida: será que Mansfield acreditava que a arte era incompatível com o casamento?
"The truth was that once you married a woman she became insatiable, and the truth was that nothing was more fatal for an artist than marriage, at any rate until he was over forty..."
❥ The Excape
Creio que esse conto poderia ser tranquilamente incorporado ao Livro da Idolatria, do Bruno Schulz, no qual o autor ilustrou cenas de dominação de homens pequenos e grotescos por mulheres refinadas. No conto de Mansfield, o marido encontrava a paz nos momentos de conexão com a natureza - mar, vento -, em uma espécie de transe que o remetia ao silêncio apaziguador.

Undula w nocy, Bruno Schulz (1920-22)
(via)