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06/08/2017

[DL #07] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Edições adotadas: 


LIVROS 07 & 08
Two Temptations - Sunset and Sunrise

✒ A última postagem desta série ocorreu há mais de quatro meses e, também há mais de quatro meses, concluí a leitura de Middlemarch. Especificamente, no dia três de abril. Portanto, infelizmente acabei prejudicando o andamento ideal deste registro, razão pela qual associo os dois últimos livros da obra nesta postagem única que concluirá o diário de leitura. Reli tudo que eu havia escrito nas entradas anteriores - sim, pois quem disse que eu me lembrava? - e acredito que os pontos principais (dentre aqueles que assimilei da obra, é claro) já foram praticamente todos registrados, mas ainda restam impressões que podem ser acrescentadas aqui.



Esse lance de casamento é mesmo apenas para os fortes, hein? Muito complicado fazer essa parada funcionar a contento para ambas as partes; ajustar o jogo de concessões até um equilíbrio mutuamente satisfatório. Sobre essa temática amplamente explorada por Eliot, destacaria aqui os diálogos excelentes e impressionantes travados entre o casal Lydgate e Rosamond. Assim como para as próprias personagens, foi exasperante perceber que, por mais que se esforçassem, nenhum deles conseguia fazer com que o outro entendesse suas percepções e sentimentos. Lembrou-me bastante de uma engenhosa cena do livro Coração tão Branco, do autor espanhol Javier Marías, a qual funciona como metáfora tácita para as dificuldades de comunicação que casais usualmente enfrentam. Naquela cena escrita pelo autor espanhol, dois líderes políticos de países distintos encontram-se em uma reunião formal mediante auxílio de um tradutor simultâneo que, percebendo a dificuldade de entrosamento na conversa dos representantes, resolve deliberadamente deturpar de leve as falas traduzidas, garantindo, assim, o pleno sucesso do encontro. Nos diálogos entre Lydgate e Rosamond, parecia realmente que eles se expressavam em línguas diferentes. Comparada à referida metáfora de Marías, a intervenção de Dorothea - conversando a sós com cada um - , praticamente reproduz aquela do tradutor bem intencionado.

Simultaneamente e nesse mesmo tema, não é esplendida a contrapartida que encontramos entre Mr. e Mrs. Bulstrode? Durante a revelação da verdade de Mr. Bulstrode, o momento de silêncio que o casal compartilha detém um poder de comunicação intenso que supera qualquer barreira e que prescinde palavras. Os dois se entendem e se confortam sem que precisem dizer coisa alguma. 
"His confession was silent, and her promise of faithfulness was silent."

✒ Por falar em contrapartidas, é peculiar como Middlemarch apresenta perfis distintos de comportamento entre as várias esposas da trama. Encontramos: a submissão calada de Dorothea, o companheirismo íntimo de Mrs. Garth, a submissão parcial e consciente de Celia, bem como o egocentrismo de Rosamond. Opa, pausa! Penso que é necessário prudência antes de apontar todos os dedos contra Rosamond, em favor de Lydgate. Inclusive, nosso narrador, como esperado, não falha em demonstrar, da melhor forma possível, também o ponto de vista dela. Seria justo esquecer a responsabilidade das escolhas de Lydgate? Torna-se mais difícil defendê-la, entretanto, quando ela não consegue expressar sua confiança no marido durante a complicada adversidade relacionada à morte de Mr. Raffles, papel que é assumido por Dorothea, seu quase duplo. E não esqueçamos da ironia entre os opostos: Rosamond sucumbe à falência financeira do marido; Dorothea abre mão de sua fortuna para poder casar-se com Ladislaw. Como mencionei antes, aliás, o Dinheiro faz-se constantemente presente, ou ausente (!), na narrativa de Middlemarch.

Para finalizar essa temática, resgatarei uma pergunta que eu havia lançado no DL #03:
"(...) tenho a impressão de que o livro me agraciará com um grupo de pobres mulheres infelizes no matrimônio, cada uma à sua maneira, ao lado de maridos medíocres. Será?"

No fim das contas, tivemos mulheres e homens infelizes no matrimônio, amargando as más escolhas que fizeram; contudo não podemos negar que a história também conta com muitos casamentos aparentemente felizes. Refleti a respeito do perfil de cada um desses discrepantes matrimônios  e, somente no final da leitura, dei-me conta de que parece existir um elemento crucial, óbvio talvez, nos casamentos fortunados: amor. Teve, Eliot, a intenção deliberada de sugerir isso? Tal hipótese só me ocorreu quando observei Lydgate angustiado diante da possibilidade de encontrar-se conscientemente em uma relação sem amor. A presença do nobre sentimento pode até não garantir invariavelmente o almejado desfecho feliz, porém sua ausência dificilmente o fará.


✒ Persistindo no tema de sentimentos humanos, a reta final da leitura evidenciou um outro que também foi extensamente explorado pela autora: o orgulho. Nessa história, a maioria das personagens não quer pedir ajuda, não quer que os outros saibam que encontram-se em apuros, não quer aceitar o dinheiro alheio (- não é seu caso, né, Fred?), nem macular a aparência de uma vida perfeita e bem sucedida. Ladislaw, Mr. Busltrode e Rosamond, por exemplo, formam um trio cômico por conta da tendência compartilhada de bancarem os fugitivos. Pra que passar vexame em uma província, se é possível escapar para um local onde ninguém o conhece? Deu merda em um lugar? Só partir para um novo lugar, ora. 


✒ Aproveito a menção que fiz a Marías, para trazer outras duas leituras desse ano que também relacionam-se com Middlemarch. E melhor: citam explicitamente a obra!

(1) 

Essa citação de Middlemarch, por Wharton, causou-me uma feliz surpresa. De um lado, porque, logo no início da leitura, eu tinha mesmo achado que o estilo e a proposta de A época da inocência remetem bastante ao livro de Eliot. De outro, porque estou quase certa de que, caso o querido Newland Archer - o protagonista que recebia, em 1870, sua edição quentinha de Middlemarch direto da gráfica londrina - tivesse se dedicado à leitura imediata e atenta do livro, muitos de seus contratempos matrimoniais e sentimentais poderiam ter sido evitados.

(2) 

Ok, momento confissão: quando li essa passagem dos diários da Sontag, em Middlemarch Dorothea mal tinha se casado com Casaubon. Ou seja, passei boa parte da leitura apreensiva e totalmente incrédula quanto ao cenário de uma Dodo assassina. Justo ela, dentre tantas opções mais plausíveis?! Por isso mesmo, durante a cena estranha da escada, supus que o momento havia chegado.

Enfim, concluída a leitura, resta evidente que não houve nenhum assassinato — <cof, cof> há controvérsias, não é, Mr. Bulstrode? — de modo que não entendi nada do que a Sontag quis dizer (o que não é grande novidade, convenhamos). Até porque, mesmo sob uma suposta perspectiva simbólica, digamos, discordo completamente que Dorothea tenha contribuído para o fim prematuro de Casaubon. Fica a dúvida.

* Atualização em 06/01/2018: *
(3) Eis que hoje, enquanto eu folheava To The Lighthouse, da Virginia Woolf (procurava um outro trecho específico), deparei-me com uma referência explícita a Middlemarch. Não me recordava disso de jeito nenhum! Decido incluir a passagem aqui:
* Fim da atualização de 06/01/2018. *


✒ Hora de brincar resgatando outras perguntas que eu havia lançado e registrado ao longo deste diário.

(1) DL#01 ↦ "(...) e alerto que ainda não concluí meu completo discernimento a respeito de Dorothea."

Claro que, agora, o processo está concluído e, na falta de palavras, entrego: 💖. Mas a Eliot, por sua vez, dedicou as palavras finais do seu livro justamente a essa magnífica personagem:
"For there is no creature whose inward being is so strong that it is not greatly determined by what lies outside it. A new Theresa will hardly have the opportunity of reforming a conventual life, any more than a new Antigone will spend her heroic piety in daring all for the sake of a brother's burial: the medium in which their ardent deeds took shape is forever gone. But we insignificant people with our daily words and acts are preparing the lives of many Dorotheas, some of which may present a far sadder sacrifice than that of the Dorothea whose story we know. 
Her finely touched spirit had still its fine issues, though they were not widely visible. Her full nature, like that river of which Cyrus broke the strength, spent itself in channels which had no great name on the earth. But the effect of her being on those around her was incalculably diffusive (...)"
(2)  DL #02 ↦ "Será que Lydgate deixará ser engolido pelos middlemarchers?! Estou aflita por ele."

Ele até esboçou uma reação, mas acabou sendo engolido de qualquer jeito. Desde as primeiras páginas, pude antever que as coisas não dariam certo para o jovem médico, mas falhei na estimativa da dimensão do estrago. Os sonhos e ambições de todas as personagens são triturados sem piedade ao longo de suas respectivas jornadas, mas encaro o caso de Lydgate como o mais cruel, talvez porque eu tenha tido muita identificação com ele. Chega, assim, a hora da segunda confissão: adoraria sair dessa leitura afirmando que Dorothea é a minha personagem favorita, contudo não posso negar que esse posto é ocupado por Tertius Lydgate. 

(3) DL #02 ↦ "Queria registrar uma breve especulação: Mr. Lydgate e Miss Dorothea Brooke Mrs. Dorothea Casaubon parecem estabelecer, nessa narrativa, um paralelo de significado relevante. (...) O que será que a narrativa reserva para esses dois?"

Na verdade, calculo que seja possível estabelecer muitos paralelos entre as personagens (outro ótimo já citado: Dorothea x Rosamond), no entanto a dinâmica desses dois é mesmo especial e favorita, sobretudo porque eles protagonizam minha temática predileta — em uma epígrafe utilizada pela Eliot:

"My grief lies onward and my joy behind."
- Shakespeare: Sonnets
(Epígrafe do cap. 82 de Middlemarch)

Por isso mesmo, foi um deleite acompanhar a parceria firmada entre o dois nos últimos capítulos. Sempre que eu pensar em Middlemarch, imediatamente lembrarei de Dorothea e Lydgate.

(4) DL #04 "Por que, antes de morrer, Featherstone insistiu para que Mary Garth queimasse o último testamento, exatamente aquele que desfazia todos os anteriores e garantia Riggs como
herdeiro? Mary poderia ter evitado algo? O quê?! Alguma catástrofe futura?"

Fiquei abobalhada quando me deparei com essa pergunta que lancei. Bom, se Mary tivesse queimado o testamento, Fred ficaria rico e... o quê? Torraria a grana irresponsavelmente? Teria se casado com Mary? Outra: Riggs não apareceria, muito menos Mr. Raffles. Daí, Mr. Bulstrode e Lydgate teriam sido poupados de todo o imbróglio relacionado à morte do alcoólatra chantageador. 

(5) DL#06 ↦ "P.S.: se eles não ficarem juntos no final, a Eliot terá de lidar com meu rancor. (Mentira, pois a leitura foi ótima e Dorothea está muito bem sozinha. Mas não custa nada, não é?)"

Sim, as interações lindamente descritas entre os dois me deixaram meio abestalhada a ponto de ameaçar uma escritora já falecida. Acontece. Mas pronto, Will e Dorothea ficaram juntos, então Eliot só lidará com minha gratidão.


✒ Encerro a fantástica leitura aqui, repetindo a bela última frase de Middlemarch
"(...) that things are not so ill with you and me as they might have been is half owing to the number who lived faithfully a hidden life, and rest in unvisited tombs."
P.S.: mas talvez não seja o fim de Middlemarch neste blog, visto que 
1. ainda tenho a adaptação da BBC - link - para assistir;
2. o livro da Rebecca Mead, My Life in Middlemarch, já está na fila de leitura. ;)

16/01/2017

[DL #02] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Edições adotadas: 


LIVRO 02
Old and Young



✒ Estou preocupada com o destino do menino Lydgate na provinciana Middlemarch. O jovem médico chega à cidade com a admirável intenção de revolucionar a medicina do país, uma reforma e província de cada vez, porém, logo de cara, esbarra contra uma eleição bizarra para o religioso que se encarregaria de prestar auxílio espiritual aos pacientes internados nas enfermarias. O que um profissional interessado em exercer medicina baseada em evidências científicas poderia ter a ver com supostos "interesses espirituais" dos pacientes? Mr. Lydgate se faz essa pergunta e até tenta argumentar racionalmente com Mr. Bulstrode - o banqueiro influente; financiador e diretor do conselho hospitalar -, mas não consegue se safar da disputa clerical. Era Mr. Bulstrode quem mandava ali e, para ele, a medicina não era uma questão apenas de cura de doenças mortais. E é nesse meio que Lydgate pretende modernizar a ciência médica. Oh, boy; não vai prestar. 

O que me deixou realmente temerosa por esta personagem, contudo, foi constatar que Mr. Tertius Lydgate claramente ainda não tem o jogo de cintura malevolente e astucioso que a sobrevivência em uma sociedade como a de Middlemarch exige. Pois não é que esse tonto, embora entrando a contragosto como eleitor obrigatório, encara a empreitada religiosa com seriedade?! Digo, o maluco foi lá e assumiu a tarefa com toda a circunspecção possível, ponderando de forma lógica (um homem da ciência? em assunto clerical?) a respeito dos pontos fortes e fracos dos dois candidatos ao posto, tentando identificar o melhor preparado. - Mas, mas... Seu moço, por que fazer isso?! Surpreendentemente, um dos próprios clérigos candidatos, Mr. Farebrother – concorrente de Mr. Tyke, o protegido por Mr. Bulstrode - ousou falar abertamente para Lydgate que, fosse ele esperto e prudente, seu voto já deveria estar mais do que decidido: Mr. Tyke. Por que peitar o banqueirão influente e cheio da grana, votando contra o candidato dele?! Com esse simples enredo, Eliot conseguiu construir e revelar ao leitor grande parte da personalidade de Lydgate. Mesmo não se importando com questões religiosas, Lydgate não se sentiu moralmente confortável para votar de qualquer jeito, apenas atendendo prontamente aos interesses daquele que poderia beneficiar-lhe no futuro. O jovem médico não era um homem disposto a facilmente fazer concessões em troca de benesses pessoais. Claro, Lydgate vacila especialmente por conta do perfil do candidato de oposição ao Mr. Busltrode: Mr. Farebrother, outro fascinante middlemarcher; era um clérigo naturalista que admitia sua vocação religiosa duvidosa, e revelava-se um ávido entusiasta dos estudos de História Natural e Entomologia (ou seja, detinha um perfil muito mais próximo de Lydgate)! Um clérigo desses é bom demais pra ser verdade. Enfim, Lydgate ingenuamente tarda a constatar que, em Middlemarch, as complexas relações sociais influenciariam, sim, sua prática profissional. Fora dos muros da universidade, afinal, a realidade é bem diferente. 

Além das questões profissionais, vale dizer que minha apreensão pelo destino de Lydgate também relaciona-se à seara ~romântica~. Nosso narrador revela certos eventos do passado amoroso do rapaz que igualmente contribuem bastante para a composição da personalidade dele. O lance é meio intrincado, mas tentarei resumir em nome do registro pessoal, pois adorei a história.[Que tremenda imaginação, teve a Eliot, quando a escreveu!] Bem, um Lydgate mais mocinho, então estudante de medicina em Paris, se apaixona por uma atriz que, enquanto encenava com o marido no palco, acaba o matando. A mulher foge, pois a sociedade parisiense especula que teria sido um crime premeditado. Lydgate, ~cego pela paixão~, crê que tudo teria sido um acidente e, obcecadamente, revira o mundo atrás da atriz. Quando a localiza, ela confessa-lhe com frieza que matara intencionalmente o marido, tendo decidido o ato de supetão. E pior: ela nega que o marido fosse cruel, displicentemente relatando que ele apenas a cansava com sua dedicação, recusando-se a mudar de Paris para a terra natal dela. Com um trauma dessa magnitude, somado à fervorosa vocação pela Medicina, a atual indisposição de Lydgate para envolver-se novamente em frívolos casinhos amorosos não espanta em absoluto. Esse erro, ele não tem intenção de repetir, pretendendo evitá-lo pelo ajuste permanente de expectativas e de uma abordagem científica da mulher (Hein? O que diabo seria isso?! Analisar cientificamente uma mulher?). 

Acompanharei de pertinho o desenrolar dessa treta, pois já ocorre um certo flerte entre ele e Rosamond, a filha do prefeito e sobrinha (pelo lado da esposa) de Mr. Bulstrode. Será que dará merda? Todos os indícios apontam que sim. (Yay!)

* = Acabou me lembrando do Dorian Grey, que também apaixonara-se por uma atriz de teatro, a pobre Sibyl Vane. Teria Wilde se inspirado neste trecho de Middlemarch?

✒ Essa maior imersão no universo de Lydgate propiciou que a narrativa elaborasse um interessantíssimo painel histórico da realidade médica durante o século XIX, na Inglaterra; outra área que também passava por transformações e discussões reformistas.

Elencando sucintamente:
(Obs.: antes, é importante destacar que, nesse livro 2, Eliot explicita o ano em que a história se passa: 1829. Uh, minha estimativa da DL #01 (≈ 1830-32) bateu na trave!)

→ Como mencionei no início, era uma época em que clérigos circulavam pelas enfermarias, encarregados pela cura espiritual dos males dos pacientes.

→ Julgando a partir da experiência de Lydgate, os médicos superintendentes dos hospitais eram escolhidos por eleição de conselhos.

→ Lydgate defende, em Middlemarch, a criação de um "fever hospital", o que parece ser os primeiros passos em direção à criação de hospitais especializados em doenças infecciosas, com isolamentos de pacientes com doenças contagiosas.

→ Mencionam-se avanços na área da Patologia; incluindo novas pesquisas valendo-se mais extensivamente dos recursos microscópicos.

→ Desde aquela época, pelo menos, a ciência médica é uma área entremeada por intrigas, invejas e amabilidades sociais questionáveis.

→ Quanto à educação médica, o narrador afirma que o acesso era exclusivo, caro e escasso - resultado do esforço das universidades em garantir a "pureza do conhecimento" -, contudo, mesmo assim, jovens cavalheiros ignorantes conseguiam o direito de praticar a medicina. Ou seja, embora a profissão não estivesse disponível para qualquer um, havia muitos incompetentes a exercendo.

→ Em sintonia com o clima reformista do período, havia discussões sobre reformas da educação médica que envolveriam tentativas de descentralizar os centros de ensino para o interior do país. Até então, a centralização ocorria nas capitais europeias.

→ Era uma época em que a preocupação em manter-se atualizado a partir de periódicos científicos, como o Lancet, era visto com desdém e encarado de forma pejorativa. Ora, por que Lydgate ousava levar a Middlemarch as novas descobertas científicas, se a cidadezinha tinha velhos médicos tão experientes pela prática?!

→ A relação viciosa dos profissionais com a prescrição desenfreada e irresponsável de remédios parece ser questionada desde aquele período, pelo menos. A narrativa inclui uma crítica implícita à crença vigente, entre médicos e pacientes, de que a prescrição de muitos remédios garantia a excelência profissional. Por conseguinte, existiam mais e mais drogas sendo prescritas, e em posologias cada vez maiores.

E não é só! Fiquei estupefata ao descobrir que, no século XIX, havia decisão legal que impunha a obrigação da prescrição desvinculada de farmácias ou de comissões dos comércios farmacêuticos. Médicos corruptos lucrando em parceria com a indústria farmacêutica existiriam há, no mínimo, ≈ 188 anos. Impressionante.

→ Até mesmo a solidificação dos conceitos sobre Medicina Legal e, principalmente, sobre qual profissional estaria apto a exercê-la, estava em voga. Hoje é engraçado pensar (eu acho) que, em outros tempos, magistrados detentores apenas de conhecimentos legais julgavam-se exclusiva e plenamente capacitados para atuar como peritos legistas emitindo laudos de necropsia. Quero dizer, nem sei se é possível chamar o que eles emitiam de "laudo necroscópico", pois, pelo diálogo do livro, eles apenas colhiam as informações de testemunhas. Que piada.

Essa foi, inclusive, mais uma discussão entre os "sabidões" antiquados de Middlemarch que rendeu dor de cabeça para Lydgate. É importante frisar, todavia, que o jovem médico peita geral, rebatendo todos os argumentos ignorantes, e sem acanhamento ou grosseria explícita.

Sim, a luta de Mr. Lydgate é real. Mas ele até que está aguentando bem as pontas - por enquanto. Seguiremos acompanhando de perto a jornada dele. 
"Any one may see what comes of turning. If you change once, why not twenty times? (...) I am nearly seventy, Mr. Lydgate, and I go upon experience. I am not likely to follow new lights, (...)."

✒ E deu ruim para o suposto One True Pairing - OTP do livro 1: Miss Dorothea Brooke Mrs. Dorothea Casaubon e Mr. Edward Casaubon. Acho que a hipótese inicial de que os dois formariam o par perfeito dessa história pode ser completamente descartada, pois o caldo matrimonial já desandou. Eu suspeitei de que seria rápido, porém Eliot conseguiu me surpreender nessa.

Ainda na lua de mel em Roma, o narrador descreve indícios explícitos de que Dodo constata o tamanho da cagada que cometera ao casar-se com Mr. Casaubon - nas palavras do narrador: "begun to emerge from that stupidity." - (Ouch!). A dinâmica do casal por lá era, no mínimo, peculiar: ele passava o dia fora estudando na biblioteca, enquanto ela frustrava-se sozinha em casa ou em museus pelos quais não manifestava o menor interesse. Ora, os planos de Dorothea era revolucionar o mundo atuando como o braço direito ativo do seu "importante" marido estudioso, e não ser deixada de lado por um esposo que, quanto mais estudava, não demonstrava chegar a lugar algum. Para comparação aproximada, presumo que ela pretendia ser o Dr. Watson do Sherlock Holmes, e acabou sendo o Sancho Pança do Dom Quixote - e olhe lá! É, não está bonito acompanhar a magnitude da decepção de Dorothea diante da dura realidade. Até discussão durante o café da manhã e choros no quarto sozinha aconteceram durante os poucos dias de casamento.

Para tornar tudo mais divertido e complicar um pouco mais a situação, o jovem priminho de Mr. Casaubon, o Mr. Will Ladislaw, encontrava-se em Roma e, coincidentemente, cruza com Dodo em um museu e começa a se aproximar, dando claros sinais, após poucos dias, de que estava completamente apaixonado por ela. Será que o livro contará com um caso de infidelidade conjugal? Enfrento enorme dificuldade para aceitar que Dorothea, aquela moça puritana com vigorosas convicções religiosas, cometerá adultério. Será? Penso, a princípio, que seria um destino bastante cruel para ela. Bem, só me resta acompanhar.

✒ Queria registrar uma breve especulação: Mr. Lydgate e Miss Dorothea Brooke Mrs. Dorothea Casaubon parecem estabelecer, nessa narrativa, um paralelo de significado relevante. Ambos são bastante ambiciosos, dois jovens passionais que anseiam profundamente por transformar o mundo dentro de suas respectivas áreas de interesse, porém as ferramentas de que dispõem para pôr seus sonhos em prática mostram-se bem divergentes. Como homem, Mr. Lydgate está recebendo todas as oportunidades para atuar ativamente na execução de seus nobres planos - resta saber se terá habilidade necessária para o sucesso -, enquanto a moça Miss Brooke, coitada, teve de contentar-se com o papel secundário de esposa do revolucionário que, agora ela descobre, é um impostor. Claro, preciso prosseguir com a leitura, para testar essa hipótese. O que será que a narrativa reserva para esses dois?

Aproximando essa tese ao título do livro 2 - Old and Young/Velhos e Jovens -, talvez eu possa compor um grupo maior que inclua, junto de Mr. Lydgate e Miss Brooke, outras personagens jovens da história que também confrontam as velhas regras e lutam por seus vigorosos anseios. Cada uma delas parece encontrar dificuldades próprias que encaram de modo particular. Fred Vincy e Ladislaw seriam os panacas que poderiam conquistar tudo, mas não fazem nada. Rosamond é a moça pueril que acha que encontrará um mundo muito diferente fora da sociedade retrógrada de Middlemarch, atingível apenas através de um casamento. Mary Garth... É, acho que ela é a jovem mais sensata de todos, embora esteja nadando contra a maré mais forte. Torço para que tudo dê certo para ela. Mediante tal perspectiva e ampliando essa minha teoria, lanço a dúvida: estaria sendo construído um contraponto entre os jovens homens e mulheres quanto ao quesito "oportunidades x aproveitamento"? Conjecturas a serem investigadas ao longo da leitura.

De qualquer jeito, porém, acredito que Mr. Lydgate foi mesmo o principal responsável pelo título do livro 2; representando, na escala individual de Middlemarch, as mudanças que os "jovens" impunham aos "velhos" middlemarchers. Na escala nacional, o “Old and Young/Velhos e Jovens” poderia relacionar-se às mudanças reformistas pelas quais o país atravessava.

✒ Por falar em Mary Garth: necessito dedicar a essa personagem um pouco mais do que algumas míseras linhas, pois ela deu um show no livro dois e me conquistou arrebatadoramente.

Dentre os jovens personagens da história, a situação dela mostra-se como a menos vantajosa. Ela pena trabalhando como uma espécie de governanta para o intratável Mr. Featherstone e, vinda de família pobre, sua possibilidade de um casamento financeiramente favorável é remota - e isso nem parecia ser sua maior preocupação, na verdade. Apesar dessas desvantagens, Mary Garth não demonstra qualquer tipo de amargura ou ressentimento, mas, ao contrário, um pragmatismo maduro enternecedor. Ela mostra-se conformada ao admitir que não teve talento para ser professora (algo que estranho, pois ela expressa-se de modo bastante inteligente, articulado e irônico) e que, por conta disso, aceita de bom grado (?) o ofício que era plenamente capaz de executar – governanta do velho rico e chato.

Há um diálogo excelente entre ela e Fred Vincy, durante o qual ele tenta convencê-la de que ela era a responsável por ele não tomar jeito na vida dedicando-se ao teste para clérigo, visto que Mary não aceitava casar-se com ele (coisa que nem os pais desejavam). Na cabeça do paspalho, ele estaria metido na enrascada de dívidas por culpa dela. Contudo, atirando argumentos certeiros e perspicazes, Mary consegue desmontar o discurso ridículo de Fred. Ora, apenas ele poderia ser responsável pela própria vida. A conveniência de lançar sobre os outros a culpa de nossos erros é sempre tão tentadora e acolhedora, não é?

Quando Fred sugere que Mr. John Waule (sobrinho de Mr. Featherstone) estaria apaixonado por ela, surge também outro excelente momento de Mary, que contesta a equivocada concepção geral de que mulheres inevitavelmente apaixonam-se por homens que as tratam bem:
"(...) it is one of the most odious things in a girl's life, that there must always be some supposition of falling in love coming between her and any man who is kind to her, and to whom she was grateful. I should have thought that I, at least, might have been safe from all that. I have no ground for the nonsensical vanity of fancying everybody who comes near me is in love with me." 
E como se não bastasse, ela aparenta ser uma leitora voraz, tendo recorrido às personagens femininas das peças de Shakespeare para testar a suposição de Fred de que mulheres nunca se apaixonariam por aqueles que conhecem desde sempre. Estou achando que Mary Garth tem algo que remete demais à Elizabeth Bennet (personagem de Pride and Prejudice, da Jane Austen) e, até aqui, ela é minha personagem favorita disparadamente. 

Obs.: ainda a respeito do Fred, ressalto que é bem curiosa a ironia de tentar resolver o futuro dele, atirando-o para o ofício religioso. Religião como tábua de salvação financeira para as famílias, garantindo clérigos sem vocação para o país? Ok, então.

✒ Para encerrar essa entrada, creio que é obrigatório falar novamente do Narrador desse livro, pois ele tem, de fato, características muito particulares e interessantes. Houve uma passagem em que ele falou de si próprio, identificando-se como um "historiador tardo" preocupado em concentrar-se nas tramas específicas dos destinos humanos que estão sob sua responsabilidade. É um narrador que assume um compromisso explícito com suas personagens e com o leitor! Poxa, achei isso fascinante.

O Narrador apresenta essa confissão quando prepara-se para nos revelar a verdadeira essência de Mr. Lydgate, pois o objetivo declarado dele é que conheçamos profundamente o médico, melhor do que qualquer middlemarcher poderia.

Nesse contexto, o Narrador discute um tema que considero bastante relevante: usualmente utilizamos apenas um amontoado de falsas suposições para construir as impressões relacionadas ao caráter das outras pessoas. Ou seja, a grande realidade é que ninguém conhece ninguém verdadeiramente. Por que dedicar tempo tentando conhecer melhor alguém, se podemos partir para conclusões precipitadas que atendam a nossos interesses, confere? Em Middlemarch, a situação não era diferente, contudo o Narrador faz questão de que nós, leitores, estejamos melhor informados.
"É bem provável que ninguém em Middlemarch tivesse uma ideia do passado de Lydgate tal como aqui rapidamente esboçado; os respeitáveis moradores locais, com efeito, não se davam mais do que os mortais em geral as tentativas ciosas de exatidão na representação mental de algo que não entrasse diretamente em contato com seus sentidos. Não só as jovens virgens da cidade, como também homens de barba grisalha, precipitavam-se não raro em conjecturas para saber como um novo conhecido poderia ser envolvido em seus planos, contentes com um conhecimento muito vago do modo pelo qual a vida o estivera até então forjando para esta instrumentalidade. Middlemarch, de fato, contava com engolir Lydgate e assimilá-lo da maneira mais cômoda."
(Ai, será que Lydgate deixará ser engolido pelos middlemarchers?! Estou aflita por ele e pela maioria das personagens.)

✒ P.S.: admito que escrever sobre Middlemarch de forma concisa tem se mostrado um grande desafio, pois, em pouco mais de 100 páginas, George Eliot insere diversos elementos a serem explorados. Minha impressão, como leitora comum, é que essa obra admite uma quantidade quase infinita de chaves de interpretação. Por exemplo, nem tenho comentado sobre as epígrafes de cada capítulo, mas chutaria que apenas o estudo delas – conjuntamente com os títulos dos livros - garantiria uma tese de mestrado. As epígrafes são fantásticas, e algumas intrigam-me demais.

Estou achando esse livro cada vez mais espetacular.

✒ P.S. 2: apesar do ritmo indefinido, tentarei, a partir de agora, priorizar essa leitura, caso contrário terminarei Middlemarch só em 2018! Um livro/semana será o objetivo. Oremos. 

19/11/2016

[DL #01] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele. 



LIVRO 01
Miss Brooke

 Esses aí são, na verdade, Santa Teresa de Ávila e John Locke, porém Eliot utiliza explicitamente essas duas célebres figuras como referências para caracterizar preliminarmente as personagens que formam o primeiro* power couple de nossa jornada por Middlemarch.   (* = Suspeito de que haverá mais alguns ao longo da narrativa. Vamos acompanhar.)

Antes de destrinchar os pormenores relacionados ao nosso intrigante (e suposto) "OTP - One True Paring" inaugural, penso ser mais apropriado tratar inicialmente do panorama no qual estou me metendo ao encarar a leitura de Middlemarch. Nesse sentido, o subtítulo do livro é bastante generoso: "Um estudo da vida provinciana." Prontinho. Pela leitura do livro I, parece-me que será exatamente isso. A epígrafe do capítulo XI também sumariza bastante bem as intenções de Eliot com essa obra:

"But deeds and language such as men do use, 
And persons such as comedy would choose, 
When she would show an image of the times, 
And sport with human follies, not with 
crimes." 

("Língua e ações como as que os homens usam
E pessoas tais de que as comédias abusam,
Quando resolvem mostrar a imagem dos anos
E rir das loucuras, não dos crimes humanos.")
                                             - Ben Jonson. 
Ou seja, os indícios do livro I sinalizam que Eliot desenvolve uma minuciosa análise das pessoas que viveram na interiorana cidade de Middlemarch durante o século XIX, na Inglaterra. Ações, linguajares, interações, idiossincrasias e dinâmicas estabelecidas entre todos os indivíduos que compunham aquela sociedade são esmiuçados pela autora com impressionante inteligência, perspicácia, sutileza e riqueza de detalhes. Como resultado, somos agraciados com uma representação fidedigna (me parece) e muito bem humorada (sim!) daquele período. Nesse contexto,  a constatação de que, após 124 páginas, a história já conta com 28 personagens aproximadamente — e tenho certeza de que aparecerão mais — não surpreende. Até o momento, três páginas do meu caderno de anotações foram consumidas pelo registro dos nomes da galera. Confabulando, imaginei que talvez Middlemarch possa ser considerada, inclusive, como uma espécie de versão inglesa — focada apenas na província — da Comédia Humana, de Balzac (essa comparação já existe corriqueiramente?). Adotando-se essa teoria, seria possível concluir 1. que Eliot teria um poder de concisão muito mais apurado que o de seu contraparte francês, e 2. que, com sua obra, não sou forçada a "fazer vista grossa" para um homem discursando que "ah, porque a mulher é assim e assado etc." Minha impressão preliminar é que, na prosa de Eliot, as personagens femininas são examinadas de maneira complexa, havendo a exposição sagaz da condição desvantajosa que aqueles tempos reservavam ao sexo feminino. A epígrafe do primeiro capítulo sugere, de forma impactante, a posição que as mulheres ocupavam naquela sociedade e, por extensão, nas páginas de Eliot:

"Since I can do no good because a woman,
Reach constantly at something that is near it."
—The Maid's Tragedy: BEAUMONT AND FLETCHER.

("Se de bom, por ser mulher, nada faço,
Tendo sempre ao que há mais perto a ele.")
- A Tragédia da Donzela: BEAUMONT AND FLETCHER.)

Adicionalmente, esta outra passagem, por sua vez, reforça a percepção inicial de que o foco principal desse estudo de sociedade recairá sobre as mulheres:
"In fact, much the same sort of movement and mixture went on in old England as we find in older Herodotus, who also, in telling what had been, thought it well to take a woman's lot for his starting-point; (...)"
O ponto de partida escolhido pela autora para a história é, portanto, o fado de uma mulher.


✒ Como a maioria dos leitores não resiste a um mapinha complementando a leitura, eis aqui Middlemarch: clique aqui para versão ampliada e detalhada.

✒ Quanto ao período específico, posso estar equivocada, mas creio que a narrativa não definiu expressamente, até agora, o ano preciso em que a história se passa. Porém há pistas, como as passagens em que as personagens discutem as reformas implementadas pelo parlamento do Reino Unido durante o século XIX. Em pesquisa no site do respectivo parlamento (link aqui), observei que houve diversas reformas durante aquele século, tendo sido implementados Atos de Reforma em 1832, 1867 e 1884 (majoritariamente relacionados a alterações eleitorais e de representação política na casa parlamentar).
"(...) all people in those ante-reform times)"
Outra pista mais específica refere-se à menção explícita (no tempo pretérito) do "Ato de Ajuda Católica de 1829", o qual implicou na culminação do processo de Emancipação Católica no Reino Unido e na Irlanda. Sendo assim, suponho que, no livro, estamos em torno de 1830-32.
"I shall inform against you: remember you are both suspicious characters since you took Peel's side abaout the Catholic Bill."
A propósito, aproveito o tema da contextualização temporal para já comentar que, pelo papo trocado entre os Middlemarchers, parece-me que o pessoal da província era super conservador; o que talvez não seja assim tão inesperado realmente. Em linhas gerais, a maioria dos cidadãos parece resistir bravamente às ideias liberais, às reformas políticas e à emancipação católica. Os middlemarchers mais notórios, por assim dizer, demonstram preconceito e aversão contra gente da burguesia, como banqueiros e manufatureiros, sobrando comentários suspeitos até contra judeus. Entre eles, o valor maior ainda estava reservado às famílias de nome nobre possuidoras de terras e àqueles que lidavam com atividades agrícolas. É, os moderninhos progressistas eram minoria por aquelas bandas.
"(...) she preferred the farmers at the tithe-dinner, who drank her health unpretentiously, and were not ashamed of their grandfathers' furniture. For in that part of the country, before reform had done its notable part in developing the political consciousness, there was a clearer distinction of ranks and a dimmer distinction of parties; so that Mr. Brooke's miscellaneous invitations seemed to belong to that general laxity which came from his inordinate travel and habit of taking too much in the form of ideas."
"The Miss Vincy who had the honor of being Mr. Chichely's ideal was of course not present; for Mr. Brooke, always objecting to go too far, would not have chosen that his nieces should meet the daughter of a Middlemarch manufacturer, unless it were on a public occasion."
"No, by George! They are as rich as Jews, those Waules and Featherstones; I mean, for people like them, who don't want to spend anything. And yet they hang about my uncle like vultures, and are afraid of a farthing going away from their side of the family. But I believe he hates them all."

✒ Para concluir o painel geral das impressões introdutórias, cabe falar um pouco mais sobre a prosa da George Eliot. Eu diria, de maneira pura e simples, que é uma coisa finíssima. Ela elabora uma escrita tremendamente refinada, do tipo que costumo categorizar como "chique, sem pedantismo". Particularmente, considerei que existem até ligeiras similaridades entre o estilo dela e o da Virginia Woolf, mas desconheço se essa comparação já existe ou se é aceita por acadêmicos. Descobri apenas que a Woolf escreveu um ensaio elogioso sobre a obra da Eliot, o qual guardei para ler após concluída a leitura de Middlemarch.

A narrativa de Eliot igualmente me conquista por conta da presença, sempre bem-vinda, de humor, o qual manifesta-se principalmente através dos excelentes diálogos entre as personagens — a maioria, aliás, é muito engraçada. Não foram poucas as vezes em que tive de interromper a leitura, simplesmente porque não conseguia parar de rir. E não invariavelmente, acrescento, eu começava a rir subitamente, ao longo dos dias, apenas por me lembrar de alguma passagem da história. 

Por fim, desejo comentar uma particularidade bastante interessante da narrativa referente ao modo com que a autora trata suas personagens. Coincidentemente, li há pouco tempo um artigo no site The Atlantic relacionado à Jane Austen, no qual a respectiva autora - Megan Garber - menciona o seguinte: "Austen is not George Eliot, after all; she is neither copious nor comprehensive in her empathies. She is Jane Austen, OG Gossip Girl. Her narrator, in Pride and Prejudice, is judgy. She plays favorites. She mocks. She deploys her wit with surgical strikes." Ou seja, afirma-se que Austen, ao contrário de George Eliot, julga, debocha e toma partido de suas personagens. Como ainda não tinha lido nada da Eliot (da Austen, sim), não pude entender completamente a comparação naquele momento. Agora, contudo, compreendo-a claramente e, destaco, concordo com Garber. 

Em Middlemarch, o narrador escolhe fazer pausas explícitas na narrativa, a fim de interceder em nome de suas personagens mediante ponderações e relativizações generosas das ações por elas tomadas. É como se ele suspeitasse antecipada e acertadamente de que nós, leitores, incorrendo em falhas morais similares às dos middlemarchers, não resistiríamos ao ímpeto de levianamente apontar o dedo contra aquelas figuras ficcionais. Com certa recorrência, ele nos lembra de que seres humanos são complexos e preocupa-se em fortalecer nossa honesta empatia. Sem dúvidas, tratam-se de passagens muito louváveis, salientando que não recaem em pieguice, considerando-se que Eliot oferece (na voz do narrador) argumentos sagazes contra a condenação categórica por parte de seus leitores. Pessoalmente, recebo o auxílio do narrador, de fato, com tremenda gratidão, pois é bem fácil cair na tentação de sair julgando implacavelmente todos os middlemarchers. Sempre bom ter alguém sugerindo que eu "me olhe no espelho" antes.

Mas vamos às fofocas, porque, tratando-se de calhamaços vitorianos, é o que mais interessa, sim? Sejamos honestos, não é mesmo? A leitura desses romances parece-me um caso exemplar do famigerado adágio "aprender brincando."


✒ Não é a toa que Miss Dorothea Brooke — Dodo para os íntimos — intitula esse primeiro livro de Middlemarch, pois a atenção maior recai sobre ela; uma personagem fascinante e complexa. Ademais, dada a caralhada de personagens que compõem a obra, ainda não sei dizer se ela ocupará uma suspeita posição de heroína protagonista. Vamos acompanhar. 

Nesta introdução, Miss Dorothea Brooke tem aproximadamente 20 anos, é órfã desde os 12 anos e, quando a encontramos, ela está de volta a Middlemarch, junto com sua irmã mais nova Célia, retornando de anos de estudo na Suíça, para onde o tio delas, Mr. Brooke (60 anos), as havia enviado.

Logo no prelúdio, no instante em que Eliot implicitamente compara Dodo à Santa Teresa de Ávila, recebemos elementos decisivos quanto ao caráter da personagem. Sabe quem foi Santa Teresa? Praticando a habitual honestidade neste veículo, admito que eu mesma não tinha uma precisa ideia. Para informações detalhadas sobre a santa, segue este link opcional: aqui.

O que importa para nossa questão, a fim de entendermos quem era Dorothea, é o que Santa Teresa simboliza; nas palavras de Eliot:  uma mulher de natureza idealista e apaixonada que encontrou na reforma de uma ordem religiosa a epopeia capaz de conciliar o desespero de ser com a consciência arrebatada da vida além do ser. Miss Brooke representa uma das muitas Teresas que existiram (e que ainda existem?) séculos depois daquela santa original. O contratempo é que uma cidade provinciana inglesa do século XIX não mais oferecia a uma mulher de religiosidade fervorosa e praticante de um puritanismo magnânimo, que ambicionava realizar grandes feitos, as mesmas condições que permitiram que Santa Teresa implementasse suas reformas. Por conseguinte, Dodo acaba personificando, novamente nas palavras tácitas de Eliot, "o cruzamento de uma certa grandeza espiritual mal correspondida com a pequenez das oportunidades, talvez um fracasso trágico (...)"

É pertinente lembrar que, aos olhos da sociedade em que Dodo estava inserida, seu comportamento e objetivos extraordinários, ainda que mal delineados, eram encarados como puras extravagâncias excêntricas, e sou obrigada a admitir que certas coisas que ela fazia eram relativamente descomedidas. Asceta exemplar, ela não queria saber das vaidades relacionadas à toalete e coqueteria praticadas pelas moças da época, preferindo vestir-se modestamente. Embora sentisse grande prazer com a montaria, ela buscava resistir de maneira enérgica à prática, pois julgava que poderia aproximá-la do pecado. Ela também refutava atividades e interesses considerados notoriamente femininos naquele século, habitualmente reservados ao ambiente doméstico, como a pintura, piano, e bordados. Ou seja, assim como Santa Teresa, a vida de Dodo não tinha espaço para essas "frivolidades" impostas às mulheres do século XIX. Não, nossa personagem intencionava algo mais grandioso, destacando-se que ela já estava envolvida com trabalhos em uma escola infantil que mantinha na cidade, bem como elaborava projetos de construção de casas populares para os mais humildes. Caso não tenha ficado claro, imagino que basta dizer que ela era o tipo de pessoa que se ajoelhava para rezar, no meio da rua, ao lado de um doente; que lia livros teológicos até altas horas da noite e que impunha-se jejuns rigorosos. Acho que não tinha mesmo como ser diferente: para a maioria daquela sociedade, Dodo era uma perfeita lunática capaz de afugentar qualquer pretendente potencial - conquanto fosse, sim, muito bonita. 

Embora eu reconheça que Miss Brooke comporta-se de modo excessivo e caricato, quase estupidamente pueril (e a graça é que ela julgava-se muito superior aos demais compatriotas), é imperioso também apontar que ela parece retratar a figura de uma mulher ambiciosa que culminou como vítima de seu tempo. Ali, nas condições que a sociedade reservava ao sexo feminino, não havia espaço para grandes feitos por uma mulher. Como mais um produto daquele meio, nem mesmo Dorothea, a despeito de suas prementes aspirações, foi capaz de cogitar que conseguiria conquistar algo do que almejava fora da posição da esposa companheira. É justamente com tal pensamento que ela decide casar-se, por livre e espontânea vontade, com um clérigo cinquentão, teólogo respeitado por sua vasta obra sobre a História da Religião; um homem descrito como sendo fisicamente idêntico a John Locke (gatão demais, hein?) e já mal da visão - o Reverendo Mr. Casaubon. Dorothea julgava que a notória velhice do estudioso refletia a superioridade dos valores do passado e que, servindo como braço direito dele na posição de esposa, ela conseguiria pôr em prática seus sonhos de grandes realizações para a humanidade.

Dodo percebia o casamento de maneira demasiadamente infantil, buscando um marido que representaria a figura aproximada de um pai, aquele mentor intelectual e religiosamente superior a ela e que a ensinaria tudo. Pânico: ela sonhava com uma vida de mansplaining. Não parece-lhes lamentável que aquele período não tenha concedido à Dorothea, e demais Santas Teresas, a aptidão para vislumbrar que o alcance de uma vida significativamente plena poderia ocorrer independente de uma relação matrimonial? Para aquelas moças, a concretização dos grandes feitos sonhados passava necessariamente por um homem, pois, sozinhas, elas próprias estavam certas de que nada conseguiriam. Em minhas conjecturas particulares, interrogo o que teria acontecido com Dodo, caso ela tivesse nascido no século XXI. Suspeito de que ela possivelmente sequer consideraria um casamento para si, muito menos com um velhaco* (ainda que respeitável e bem intencionado).

Dentre as argumentações do narrador a respeito de Dorothea, há esta passagem bastante enfática quanto à natureza da suposta "inteligência" dela:
"It would be a great mistake to suppose that Dorothea would have cared about any share in Mr. Casaubon's learning as mere accomplishment; for though opinion in the neighborhood of Freshitt and Tipton had pronounced her clever, that epithet would not have described her to circles in whose more precise vocabulary cleverness implies mere aptitude for knowing and doing, apart from character. All her eagerness for acquirement lay within that full current of sympathetic motive in which her ideas and impulses were habitually swept along. She did not want to deck herself with knowledge—to wear it loose from the nerves and blood that fed her action; and if she had written a book she must have done it as Saint Theresa did, under the command of an authority that constrained her conscience. But something she yearned for by which her life might be filled with action at once rational and ardent; and since the time was gone by for guiding visions and spiritual directors, since prayer heightened yearning but not instruction, what lamp was there but knowledge? Surely learned men kept the only oil; and who more learned than Mr. Casaubon?"
[Sim, nosso narrador também é capaz de ser um crítico vigoroso de suas personagens, quando a situação exige.] Ou seja, em concordância com o que eu disse, Dodo não poderia ser considerada exatamente "inteligente" em sentido estrito, pois ela não intencionava conquistar conhecimento como uma proeza pessoal, mas simplesmente preencher a vida com uma ação ardente, a qual se materializaria através do conhecimento que seria provido através de um marido erudito como Casaubon. Com enorme satisfação, Dorothea entregava-se ao matrimônio, consciente da posição inferior que "naturalmente" lhe cabia, buscando como objetivo maior atingir a renúncia plena para melhor satisfazer a seu marido. Trata-se de uma personagem fabulosa, ainda que desperte sentimentos bastantes contraditórios.

Para finalmente concluir, retomo o início deste post: o primeiro power couple de nossa história lamentavelmente não nasce do amor, mas de mera conveniência imaturamente deturpada. Acontece nas melhores/piores famílias.

* <PAUSA>
Olha, nem vou tentar disfarçar: parte das ótimas piadas, na minha opinião, vieram das reações das personagens ao descrever o pobre Mr. Casaubon — não espanta, portanto, que o narrador tenha reservado alguns parágrafos para defendê-lo, coitado.

Uma personagem, quando soube da novidade matrimonial, mandou esta: 
"Good God! It is horrible! He is no better than a mummy!"

Enquanto outra o descreveu do seguinte modo: "(...) he looks like a death's head skinned over for the ocasion."

É, beleza não era o forte de Mr. Casaubon.
<FIM DA PAUSA>

Celia indiscutivelmente amava e respeitava a irmã, contudo, dado que representava o lado mais, digamos, sensato e ponderado da dupla fraterna (e não compartilhando o mesmo ardor religioso), ela acabava por observar as decisões de Dodo com censura e incredulidade que mal conseguia disfarçar. As duas irmãs, opostas em quase 180 graus, estabelecem uma dinâmica que gera boas risadas. Celia tinha dificuldade em entender como Dorothea poderia, de bom grado, casar-se com um velho tão feio e que só queria saber de estudar, ainda mais quando um bonitão mais jovem estava no páreo, o Mr. James Chettam. Ela considerava o projeto todo completamente embaraçoso e ridículo. Aproveitando que A Bela e a Fera anda novamente na moda (por conta do live-action prestes a estrear nos cinemas), calha registrar que Celia deve achar a moral desse conto de fadas uma enorme lorota:
"Oh, Mrs. Cadwallader, I don't think it can be nice to marry with a gret soul."
Além disso, é pertinente acrescentar que foi Celia quem nos chamou atenção - e à Dodo - para certas peculiaridades do Mr. Casaubon: 1. ele pisca quando fala, 2. faz barulho ao tomar sopa e 3. tem duas verrugas cabeludas na cara. Tão lindo e charmoso!


✒ Como o disse-me-disse era o hobby predileto dos middlemarchers, claro que houve muito mexerico a respeito do casamento entre o bizarro casal Miss Brooke e Mr. Casaubon, o qual era incrementado pelo clichê infalível do "triângulo amoroso", tendo em vista que Chettam (o jovem bonitão) foi espicaçado assombrosamente pela "maluca" Dorothea. 

Acompanhando o papo-furado trocado entre os middlemarchers sobre esse "romântico" imbróglio (nossa, usei muitas aspas. perdão), é possível começar a delinear bem quais posições estavam reservadas a homens e mulheres no matrimônio, e como cada sexo era classificado por aqueles pares. Pontuando algumas ponderações que surgiram a esse respeito:

*1.
 (sobre o risco de Dodo tender a predominar na relação) "um homem sempre podia pôr por terra, quando o desejasse."

Ou como recomenda o tio de Dorothea a Casaubon: "Agora, Casaubon, ela estará em suas mãos: convém que ensine minha sobrinha a encarar as coisas com mais serenidade, (...)".

Temos aí o consagrado "dar um jeito na mulher". Vem de longa data, hein?

*2.
Talvez não houvesse razão para supor que Dodo intimidaria os pretendentes, pois "A cabeça de um homem - o que disso existe - sempre tem a vantagem de ser masculina (...) e até mesmo sua ignorância é de superior qualidade."  Estão pensando o quê? O homem, até quando burro, detém uma burrice superior à da mulher!

*3.
 Dorothea era peculiar, já que "(...) este amor do conhecimento, este interessar-se por tudo (...) não costuma ocorrer na linha feminina, a não ser que corra subterraneamente (...) para aparecer nos filhos." Mulheres normalmente não queriam saber de aprender coisa alguma, ué.

*4.
Mas Dorothea segue sendo peculiar, uma vez que "(...) esses estudos tão aprofundados, os clássicos, a matemática, esse tipo de coisa, forçam muito as mulheres (...). Na mente feminina há porém um quê de leveza, (...) a música, as belas-artes (...) elas deveriam estudar até um certo ponto, (...) mas de leve." Na província do século XIX, portanto, a mulher podia, e devia até, estudar, mas só um pouquinho. Bastava incluir as artes para prática no ambiente doméstico. Nada de assuntos complicados, pois o sexo feminino não nasceu para isso.

"What did missy want with more books? What must you be bringing her more books for?"

*5.
Mulheres também não deveriam se meter com política, ora essa!
"Não me disponho a discutir política com uma senhora. (...) Em seu sexo não há pensadores, sabe (...)."

*6.
O que o sexo feminino tinha a oferecer em um casamento, era isto:
 "O grande encanto de seu sexo é esta capacidade de uma ardente afeição de quem se auto-sacrifica, na qual vemos sua adequação para coroar e completar a existência do nosso."

"(...) uma afeição ardente e submissa que prometia corresponder às suas mais agradáveis previsões de casamento."

7.
A ordem natural das coisas era a seguinte: "(...) a noiva deve ir ver sua futura casa e ordenar as eventuais mudanças que gostaria de fazer. A mulher ordena antes do casamento a fim de que, depois, possa ter um desejo de submissão." 

*8.
 O tio de Dodo tenta alertar a sobrinha da realidade matrimonial: "um marido gosta de ser o mestre." Quem manda é o homem.

9.
Quanto ao preparo da mulher para o casamento: "(...) você precisa saber compreender os rapazes. (...) Uma mulher deve aprender a não ligar para coisas de somenos. Algum dia você estará casada.

*10.
Mr. Casaubon entra naquela de casamento com objetivos bastante virtuosos: "já estava na hora de ornamentar sua vida com as graças da companhia feminina (...) e de garantir-se, ao culminar nesta idade, o refrigério do desvelo feminino em seus anos de declínio." Alguém teria de cuidar do velhinho, ora.

*11.
O que certos homens andavam pensando ou falando acerca de Dodo e mulheres em geral:
"É uma boa criatura, mas um pouco séria demais. É um problema conversas com tais mulheres. Estão sempre procurando razões, no entanto são muito ignorantes para compreender os méritos de qualquer questão, e geralmente recorrem a seu sentido moral para resolver as coisas de acordo com seu próprio gosto."
...
"- Bela mulher, Miss Brooke!
- É, mas não é meu tipo: gosto da mulher que se exibe um pouco mais para agradar a gente. é preciso que haja na mulher um pouco de filigrana - alguma coisa da coquete. O homem gosta de uma espécie de desafio. Quanto mais ela o deixar acuado, melhor.
- Há certa verdade nisto e, por Deus, é geralmente por aí que elas vão. (...) Foi a Providência que as fez assim, não é (...)?
- (...) Antes, inclinar-me-ia a vinculá-la ao diabo.
- Ah, sem dúvida, numa mulher é preciso que haja um diabinho."

Muito bem, parece que, às mulheres, restava apenas o papel de lindos bibelozinhos mudos enviados pelo satanás para agradar os homens. Legal, não é? Eu achei.

(* = Tratam-se de pensamentos ou opiniões manifestadas por personagens masculinas.)


✒ Eliot igualmente comprova sua apurada capacidade de observação das figuras de sua sociedade ao expor, com alguma sutileza, como o sexo masculino conseguia ser estupidamente vaidoso.  Basta que mulheres demonstrem o mínimo interesse, para que eles já se derretam em fácil ternura. De outro modo, o narrador também não vacila ao nos indicar que Chettam, o jovem bonitão rejeitado por Dorothea, não sentiu-se humilhado com a intensidade esperada, uma vez que havia sido trocado por um vovô horroroso. Ao contrário, Chettam foi capaz de exibir até compaixão por Dorothea.

Antes que o bonitão conseguisse tirar algum sentido completo daquela situação, porém, ele procura o auxílio do reitor Mr. Cadwallader, o qual profere uma das falas mais divertidas e pertinentes do livro, a qual desnuda a parvoíce do "complexo de pavão" dos homens:
"Não entendo vocês, os rapazes bonitos que acham que tudo no mundo tem de ser de seu jeito! Vocês não compreendem as mulheres. Elas não os admiram nem a metade do que vocês mesmos se admiram."
Adorei demais. E esse Mr. Cadwallader parece ser uma figura legal, pois considero admirável alguém que, como descrito no livro, é capaz de enxergar piada em qualquer sátira dita a seu próprio respeito.

Sem desperdiçar a oportunidade, registro breves comentários sobre a digníssima Mrs. Cadwallader, esposa do reitor. Essa daí renderia uma postagem apenas para ela, sendo sincera. Onde quer que haja confusão em Middlemarch, creio que posso ter certeza de que lá encontrarei Mrs. Cadwallader metendo seu (conservador) bedelho, pois assim explica o narrador:
"Ela era o diplomata de Tipton e Freshitt, e tudo o que acontecesse sem sua participação, era uma irregularidade ofensiva."
Curiosamente, o narrador deu-se o trabalho de também defendê-la perante o leitor, explicando que as alcovitices da Mrs. Cadwallader eram, de certo modo, naturalmente esperadas diante daquela vida rural simples. Somos alertados de que não há más intenções no comportamento da diplomata de Middlemarch.


✒ Como já escrevi demais,  finalizo somente registrando um grupo de personagens promissoras para as cenas dos próximos capítulos:
1. Mr. Will Ladislaw: um jovem primo de terceiro (acho) grau do Mr. Casaubon. Esse parece que vai dar trabalho, sendo descrita a abobrinha de que ele se considerava um Pegasus (!) capaz de ser maculado pelo trabalho. Ele pretendia sair viajando pelo mundo - patrocínio do primo vovô -, para "se encontrar" ou coisa parecida. Impressionada por saber que esses tipos já existiam no século XIX. E ainda tem uma história mal explicada de que ele era neto da tia de Casaubon, que fizera um ~mau casamento~. Achei essa informação suspeita.

2. Mr. Lydgate: um novo médico, jovem e ambicioso, algo filantropo, que recentemente chegava a Middlemarch - e já se engraçando por uma mocinha famosa.

3. Galera do segundo e terceiro núcleo familiar (além dos Brooke), os quais apareceram nos últimos capítulos: The Vincys e The Featherstones. Especial atenção para os filhos de Mr. Vincy (que era o novo prefeito manufatureiro de Middlemarch):

Rosamond Vincy - curiosa para acompanhar o desenvolvimento dessa personagem, pois suspeito de que ela fará outro contraponto (além de Celia Brooke) interessante à Dorothea Brooke. 

Fred Vincy - um palermão preguiçoso que andava metido com jogatina. E ele até que manda umas tiradas engraçadas. Por exemplo:
"I beg your pardon: correct English is the slang of prigs who write history and essays. And the strongest slang of all is the slang of poets."
Mary Garth -  se entendi direito (é muita gente, caramba!), é sobrinha de Mr. Featherstone (pela família da primeira esposa), mas estou na dúvida. Ela é outra jovem personagem feminina bastante interessante, trabalhada em certa ironia e cinismo espirituosos. Quero acompanhá-la.

E chega de bobagens, não é?