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22/08/2021

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #06 - Emma Zunz

 (Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, disponibilizou resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre emma zunz: link 2

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

A primeira leitura de Emma Zunz me deixou no vácuo, causando-me a sensação de um ponto fora da curva borgiana (daquela que ora conheço; claro). Daí, optei por deixar o conto encostado, relendo-o vez ou outra, na esperança de que meu inconsciente o digerisse e me regurgitasse algo — ou, como habitualmente ocorre, na esperança de que eu esbarrasse numa obra que me ajudasse a melhor compreendê-lo. Hoje me dou conta de que um ano e meio já se passaram (!) e: nada. Ou quase nada. Não nego persistir um bocado encafifada com Emma Zunz, mas decidi que é hora de embarcar no esforço de organizar as ideias, sobretudo porque as recentes leituras/reflexões que fiz acerca de romances policiais (ajuda recebida de Georges Perec + Todorov) me sopraram que os paralelos que costurei, desde a primeira leitura, com outros dois romances é um ponto de partida bastante legítimo. 

Não sei se a ausência de romances policiais/thrillers entre minhas leituras justifica, mas é fato que não costumo me deparar com passagens literárias que descrevem personagens executando o plano de assassinato de outro ser humano. Possivelmente por isso — também não sei se justifica — certas imagens de Lolita e Ruído Branco, relativas exatamente a tais descrições, ficaram gravadas em minha memória, feito cicatriz. Logo, não me surpreendeu ser transportada de volta, pelas mãos de Emma Zunz, aos instantes nos quais Humbert assassina Clare Quilty e Jack (quase) assassina Mink. Dessa maneira, refleti em conjunto as experiências dessas três personagens e, a seguir, listarei algumas questões relevantes que pude identificar. [Disclaimer: faz muito tempo que li Lolita e Ruído Branco; portanto, ao apelar às minhas lembranças, é possível que eu incorra em imprecisões.]

(1) Os momentos preliminares, que prenunciam o bote
Chama atenção o quanto os autores investem na longa descrição — minuciosa, sem pressa; em flagrante oposição ao estado psíquico da/o assassina/o — daqueles instantes que antecedem o assassinato; resultando numa dramaticidade e suspense que, comicamente, me remetem à forma com que documentários sobre animais narram, sei lá, o leão se preparando para matar a zebra. Ora, o conto de Borges, sendo um tanto estrita, constrói-se apenas mediante tal artifício descritivo. Aliás, é muito provável que esse aspecto formal — do qual resultam imagens tão cinematográficas e vinculadas a sentimentos de intensa excitação — seja o efetivo responsável pela marcação das cenas de Lolita e Ruído Branco em minha memória de leitora. Além disso, é curioso que Nabokov tenha escolhido o período diurno para ambientar a preparação de Humbert, pois a noite, escolhida por Borges e DeLillo, aparenta ser um momento mais seguro para que o autor consiga provocar no leitor a almejada tensão/expectativa.

Outra noção marcante dessas descrições corresponde ao perfil dos caminhos por onde as personagens passam antes de proferir o golpe final; espécies de labirintos oníricos escondidos nos espaços urbanos. No livro Crime Fiction (The Cambridge Companion), Laura Marcus comenta que, segundo Chesterton (queridinho de Borges, por sinal), a ficção detetivesca é a poesia da cidade inscrita em hieróglifos urbanos; o que, na opinião de Marcus, abriria esse gênero na direção de duas ordens: aquela em que razão e lei prevalecem e, em oposição, aquela marcada pelo enigma e o fantástico. No conto de Borges, Emma Zunz serpenteia pelo porto [lembrei da segunda temporada de The Wire (HBO), ambientada no porto de Baltimore! coincidência? duvido], por bares e vielas; Jack (Ruído Branco) dirige por vias escuras, desérticas, locais que, dada a descrição de DeLillo, sequer lembram este mundo. Opa!, fisgarei essa deixa para lançar uma pergunta: o plano de assassinato exige que as personagens adentrem noutra realidade?? Ou mesmo que construam outra realidade na qual entrar? Suponho ser exatamente isso. O crítico Floyd Merrell explana bem o processo de construção da nova realidade, no qual incorre Emma Zunz (traduzo livremente):
"... Emma Zunz é bastante pragmática. Ela reconstrói sua realidade de modo que passe a atender a seus propósitos. Ela deseja vingar o pai, cuja morte decorreu largamente das ações exploradoras e repressoras do chefe. Então ela perde a virgindade para um marinheiro e, depois, atira no chefe do pai, contando à polícia que o morto a havia estuprado e que, portanto, ela meramente se defendeu. A realidade de Emma é dolorosamente real, (...) ela usa seu mundo da melhor forma que conhece, conformando-se a ele, ao mesmo tempo em que rebela-se contra suas injustiças, a fim de atingir seu objetivo."

                                            — Floyd Merrell; The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges 

É importante ressaltar que, conforme a leitura desse trecho crítico aponta, os assassinos são sujeitos ativos nesse processo de remodelação da realidade; quero dizer, são eles próprios quem deformam a realidade (ou: constroem a nova realidade), para que ela passe a se alinhar aos seus interesses prementes naquele instante específico — que, no caso dessas três personagens, relaciona-se ao ímpeto da vingança. E, como estamos falando de Borges, é óbvio que esta nova realidade pertence, igualmente, a um Tempo diverso: "Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes,...".

Acrescento que, ao folhear Ruído Branco antes de escrever este post (o li em 2019), reencontrei uma passagem que me fez reparar noutro aspecto peculiar: esses assassinatos ocorrem em espaços fechados; digo, Emma, Humbert e Jack entram (ou invadem, como queira) uma casa, a fim de cometer o planejado assassinato. Esse movimento de passagem, do aberto para o fechado, também me parece significativo para a hipótese de transição entre realidades distintas. Transcrevo o intrigante trecho de Ruído Branco ao qual me refiro:
"By coming in here, you agree to a certain behavior," Mink said.

"What behavior?"

"Room behavior. The point of rooms is that they're inside. No one should go into a room unless he understands this. People behave one way in rooms, another way in streets, parks and airports. To enter a room is to agree to a certain kind of behavior. It follows that this would be the kind of behavior that takes place in rooms.

                                                                         — Don DeLillo; White Noise (Ruído Branco) 

Ou seja, a narrativa de DeLillo, mediante essa fala de Mink, propõe que entrar num quarto, um espaço fechado, implica assumir um comportamento diferente daquele em espaços abertos. Então, ao penetrar nesses espaços, as personagens assassinas continuam a ser a mesma pessoa? Estaríamos falando, assim, de outra realidade E de outra identidade? Opa!, agarro essa segunda deixa para fixar o próximo item desta lista.

(2) "(...) quem sabe; já era a que seria." — Borges; Emma Zunz.
Quando Humbert confronta Quilty, ele se apresenta como o pai de Dolores, acusando-o de tê-la raptado e estuprado; em outras palavras, Quilty torna-se o único responsável pela desgraça que ocorrera na vida de Lolita. Humbert, naquele instante, deixa de ser Humbert; não tem mais culpa de coisa nenhuma, passando a ser apenas um papai que sofre e vinga a violência cometida contra a filha amada. Acredito que Humbert e Quilty se aproximam a um Duplo, porém com a notável ressalva de que é Humbert quem força esse Duplo ao se posicionar artificiosamente no polo oposto ao de Quilty, na tentativa de que deixem de corresponder a uma identidade em tudo equivalente. 

Minha leitura de Emma Zunz seguiu caminhos similares àqueles que percorri a partir da cena de Nabokov. Embora a narrativa de Borges não permita acessar o íntimo de Emma, teorizei, mediante os subsídios textuais fornecidos, que a notícia do falecimento do pai inundou a personagem de sentimentos de culpa: se Emma tivesse revelado a verdade acerca do crime pelo qual o pai fora injustamente acusado, será que ele teria se suicidado? Quer dizer, penso que a personagem entrou na paranoia de questionar se ela poderia ter evitado a morte do pai. Seguindo esse raciocínio, especulo que, para matar Loewenthal, Emma precisa projetar toda essa culpa nele — à semelhança do que fez Humbert. Inclusive, antes de efetivamente apertar o gatilho, ela já está convicta de que fora Lowenthal quem a estuprara, no entanto o leitor sabe que a decisão de transar com o marinheiro foi única e exclusivamente dela.

"Diante de Aaron Lowenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje por ela sofrido."

A assertiva destacada acima, ao mesmo tempo em que força a pergunta, lança a resposta óbvia: e como, com que recurso esses assassinos conseguem remodelar a realidade e a identidade; passando a experimentar um outro tempo? Elementar, meu caro Uátson: via relato, narrativa, ficção. [Vale lembrar que Humbert, "convenientemente", é um tonto das letras, não é?]
"Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação quase desacreditada por quem a executava, como recuperar aquele breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde?"
Eu sei, eu sei; ninguém aguenta mais esse papo de narrativa, mas suspeito de que o fastio geral é mera decorrência da plena ciência de estarmos diante de um fato incontornável da vida humana (e inumana até). O crítico Roberto González Echevarría discute diretamente a confluência entre crime e narrativa, na obra de Borges (traduzo livremente): "Tanto no crime quanto na ficção há um esforço para esconder os mecanismos da mentira que, com todas suas conotações morais, funciona como o incentivo. Emma executa o que acredita ser um crime perfeito, do mesmo modo que um escritor busca escrever uma história perfeita." (The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges)

Persistindo nessa reflexão, esta frase do conto borgiano me atrai em particular:

'...e o singular alívio de estar afinal naquele dia. Já não tinha de tramar e imaginar, dali a algumas horas chegaria à simplicidade dos fatos."
Quer dizer, esse processo de elaboração, via narrativa, de uma outra realidade e identidade é exasperante, não é algo que ocorre facilmente, sem dor alguma. — Escritores que o digam, imagino. — A propósito, o momento do assassinato faz com que o leitor compartilhe com a personagem assassina do mesmo alívio: a vítima morreu, encerrou o suspense e tensão, o fim da história chegou e, assim, ninguém precisa sofrer acompanhando/elaborando uma narrativa. Entretanto a cena de Ruído Branco subverte, até certo ponto, precisamente isso e, na verdade, é o que mais me marcou. Explico: disparados os tiros, ao ver o corpo ensanguentado à sua frente, Jack parece ser lançado para fora da realidade e identidade que construíra a fim de conseguir matar Mink. Em outras palavras, os disparos não trazem a Jack o alívio, mas sim o desespero de perceber que acabara de atirar contra um ser humano que, em consequência, morreria rapidamente, caso ele não fizesse algo para ajudar. Essa súbita mudança de chave no comportamento de Jack me surpreendeu bastante. 

Na sequência, cabe colar o trecho final de Emma Zunz:
"Com efeito, a história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios."
Considerando-se o estereótipo do judeu religioso e avarento ao qual recorre Borges no conto*, talvez parecerá provocação minha trazer Amós Oz para esta conversa, no entanto não é (acho). Em Os Judeus e as Palavras, Amós e Fania, ao comentar a eterna discussão acerca da veracidade do que está escrito nos textos bíblicos, escrevem algo de tocante perspicácia, que dialoga demais com o parágrafo final de Emma Zunz, transcrito acima:
"Mas os autores existiram, e sua linguagem existiu. Quem inspirou essas histórias? De onde vieram os heróis e heroínas, os enredos e fábulas, os diálogos e expressões? Da vida real, foi daí que vieram. De linhas de textos.
Um arqueólogo poderá se preocupar com o fato de os relatos bíblicos serem mera "ficção", mas nós viemos de um lugar diferente. "Ficção" não nos assusta. Como leitores, sabemos que ela transmite verdades."
 
                         — Amós Oz, Fania Oz-Salzberger; Os Judeus e as Palavras (Tradução: George Schlesinger)

Ou seja, toda ficção se sustenta numa verdade.
 
* [ADENDO] A caracterização de Loewenthal me intrigou e incomodou e, de fato, não consegui atinar por que Borges fez essa escolha narrativa. Questiono se esse artifício inadvertidamente (?) denuncia o antissemitismo disseminado, uma vez que me parece restar subentendido que o fato de Loewenthal ser um judeu avarento, quem sabe até criminoso, funciona como elemento que, para muitos (lamentável e infelizmente), torna a história verossímil, real. Sei lá, foi o máximo que consegui concatenar a respeito disso.

Pronto; encerro minhas groselhas aqui. Hora de dar play no vídeo da Aimée.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Opa, esse meu diálogo com Aimée ficou interessante, pois acabamos seguindo caminhos um tanto diferentes, ainda que tenhamos tocado em pontos comuns: em meus comentários, persegui muito mais os aspectos formais, numa reflexão a partir de romances policiais — em paralelo com outros dois romances—; enquanto Aimée destacou sobretudo os fundamentos psicanalíticos de Emma Zunz. Confesso que, embora seja impossível deixar de franzir a testa durante a leitura do trecho "Pensou (não pôde não pensar) que seu pai fizera com sua mãe a coisa horrível que agora lhe faziam.", esse lado psicanalítico e a sexualidade aparentemente mal resolvida de Emma Zunz não me instigaram durante (ou após) a leitura. Quer dizer, justamente num conto "de personagem", conforme disse Aimée, eu persisti focando nos elementos da engrenagem ficcional. ¯\_(ツ)_/¯

Elenco, a seguir, algumas novas reflexões proporcionadas pelo vídeo da Aimée:

⇰ Todo esse papo psicanalítico me fez perceber que deixei de mencionar outra conexão evidente entre Emma Zunz, Humbert e Jack: essas três personagens não apenas executam planos de vingança, como também se vingam de violências de natureza sexual. A distinção evidente é que, no caso de Emma, ela assume, simultaneamente, os papéis de "vítima" (questionável, eu sei) e vingadora — os outros dois vingam uma mulher (o caso de Humbert, então, nem se fala: na real, pensando nesses termos, o tonto deveria ter atirado nele mesmo);

⇰ Aimée questiona os motivos que fizeram Zunz submeter o próprio corpo àquela violência, e acredito que meus prévios comentários trataram disso: porque foi o artifício encontrado para cometer o crime perfeito, para montar a genial narrativa que evitaria sua prisão pelo assassinato de Loewenthal. Considerando-se os elementos textuais relacionados à sexualidade da personagem, não surpreende que esse tenha sido o caminho vislumbrado — conforme escreveu o crítico Floyd Merrell naquela passagem que transcrevi: "ela usa seu mundo da melhor forma que conhece."  No mais, quando Aimée comentou que teve a impressão de que Emma não julgava que a honra do pai seria motivo suficiente para matar Loewenthal, sendo necessário criar um outro; fui catapultada para o que eu escrevi em meus comentários sobre a peça Othello, de Shakespeare! É que, naquele post, escrevi justamente que, sob uma perspectiva moral, Iago parecia se sentir desconfortável por fazer tudo aquilo contra Othello motivado apenas por suas ambições, de modo que ele inventa (e força-se a nela crer) a história esfarrapada de que sua mulher o havia traído com Othello. Legal; amei essa conexão.

⇰ E eu que, inadvertidamente, mergulhei na aparente paranoia de Emma, pois nunca duvidei do suicídio do pai dela? Ai, jizuiz... Veja, "tomar por engano uma forte dose de Veronal" (veronal  = sedativo barbitúrico) não é uma descrição que sustenta bem a versão de morte acidental. (rimou!) O mais provável, diante dessa informação, é que ou o pai dela foi assassinado (um boa noite, Cinderela fatal) ou se suicidou. Contudo, reconheço que complica demais quando o narrador nos diz que "Emma leu..."; digo, entre o que ela leu e o que efetivamente estava escrito pode haver uma grande diferença realmente. No entanto, pensando com mais cuidado agora, a descrição da carta fala um bocado a favor de que o pai dela foi assassinado, hein. Se duvidar, é o próprio assassino quem redigiu a carta. EITA!


Curti essa experiência de leitura compartilhada; achei que ficou bastante rica. Mais uma vez, valeu, Aimée.

24/08/2019

autoficções #03

01  
[Lendo o Crônicas Completas:] 
"E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar."  - Clarice Lispector

Em princípio, não parece haver lógica nenhuma aí, porém aprender a respeitar-se é, sim, um desafio e tanto. Eu acho. Pra mim, é. Digo com tranquilidade que não cheguei lá, contudo já enxergo a Aretha cantando Respect logo ali, na linha de chegada. Como ela está linda.

02
Enquanto isso, nos Stories da Florence Welch:

- Olha só, Liam Gallagher!, ao contrário do Noel, a Florence "can handle rock 'n roll"! 

03
O senhor que costuma fazer pequenos reparos aqui em casa tirou um belo sarro da minha cara por causa do jeito sisudão (?) com que escrevo no What's App. Ele disse que mostrou minhas mensagens para um amigo que, por sua vez, perguntou se eu era advogada, juíza ou coisa parecida. MÉU DÉUS. Minha escrita é empolada?! Escrevo em juridiquês no What's App?! NOOOOOOOOO! Que merda. Nhé, pelos menos a gente riu um bocado.

P.S.: outrossim, hacker aqui

04 
Situação: em uma ampla via com pesado tráfego de carros, um jovem da geração sem tempo, irmão arrisca atravessá-la enquanto o sinal encontra-se vermelho para pedestres. Simultaneamente, escuto o comentário de um senhor idoso à minha esquerda:

- A vida é tão boa; pra que arriscar? (com o sinal verde liberado:) Pronto, agora eu vou

05
Ideia para conto: fluxo de consciência/monólogo interior contemplando 24h na mente de um cachorro da raça Pinscher. Ritmo frenético, sem pontuações ou parágrafos, com muita paranoia e teorias da conspiração. E, nas entrelinhas, uma profunda angústia e melancolia. 

06
[Ainda lendo o livro Crônicas Completas:]
"Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não querem dizer."    - Clarice Lispector

Puxa, lembrei de uma das minhas músicas favoritas do White Stripes (saudades):
Truth Doesn't Make a Noise.

You try to tell her what to do
And all she does is stare at you
Her stare is louder than your voice
Because truth doesn't make a noise

[- Ah, Jack, o quanto essa música me ajudou a aproximar-me daquela linha de chegada. Nós dois acabamos seguindo por caminhos diferentes, contudo minha gratidão é eterna.]


07
Pera, pera, pera. Mas então... eu virei aquilo que desdenhava: a pessoa que lança na internet citações aleatórias de Clarice Lispector?! NOOOOOOOOOO no.2.

08
Como sou teimosa, fui lá ver ANIMA, o curta que Thom Yorke lançou em parceria com Paul Thomas Anderson. Gostei bem mais do que eu tinha antecipado e registro três breves reações:

- Nunca imaginei que veria, com esses olhos que a terra comerá, Thom protagonizando ceninhas fofas e românticas. (Ok, o clipe de Knives Out chegou perto, mas nem se compara.) Mentira, imaginei sim. No caso, imaginei em meus sonhos, nos quais, é claro, euzinha sou a protagonista, e não aquela turca lá. Humpf. (Brincadeira, desejo felicidades aos dois. Ou não.)
- Não adianta; eu escuto esses trabalhos solo do Yorke e sinto vontade de incorporar o panda irado no estúdio dele, destruindo toda a parafernália eletrônica. Melhor: bancar a Annie Wilkes, do livro Misery (King), sequestrando-o e mantendo-o em um cativeiro onde ele só teria um piano e um violão acústico para compor músicas. #paz
- E quanto mais ouço a onda solo do Yorke, mais valorizo a presença do Jonny no Radiohead.                  Louvado seja.

09
Durante a última (pseudo) reorganização de minha estante, estive prestes a jogar fora um livro já detonado (um daqueles mass market paperback americanos, publicado em 1968!), entretanto o nome do meu pai escrito à mão na folha de rosto me travou. Curiosamente, o nome dele aparece escrito várias vezes, como se ele estivesse aperfeiçoando a caligrafia até chegar naquela que hoje usa e que bem conheço. Acredito que o vídeo no qual Clare Fenby atribui uma sensação de proximidade com Sylvia Plath/Virginia Woolf (escritora favorita dela) à capacidade que detém de reconhecer a caligrafia da autora salvou meu velho livro da lixeira. É mesmo uma bela forma de intimidade. Em uma vida, quantas caligrafias uma pessoa é capaz de reconhecer apenas mediante uma batida de olhos? A resposta pode revelar bastante sobre a jornada de alguém. Acho.

Este é o vídeo, iniciando no ponto exato em que ela trata dessa temática:


10
Nas crônicas, Lispector recorrentemente aborda encontros com leitores (especialmente via cartas), e os relatos dela me fazem devanear uma porção de coisas. Por exemplo, ela tem reforçado minha teoria de que é impossível travar contato com um ídolo sem bancar a completa idiota. E a experiência de Lispector me faz crer que esses encontros sejam marcados por um certo embate:
- De um lado, o fã iludido pela certeza de já ter desvendado todo o mundo interior do ídolo artista. Graças à profunda conexão estabelecida com a obra da pessoa admirada, o fã se considera super íntimo, um quase amigo de infância. (a Clare Fenby, ali em cima, sustenta justamente o que digo.)
- Do outro, o artista ressabiado que não poupa esforços em ressaltar que o fã está completamente equivocado ao supor que o conhece; demonstrando um quase pânico diante da possibilidade de estar desnudo na própria obra.

Na prática, talvez a realidade corresponda a uma média ponderada desses dois lados. Vai saber.

11
[Continuando nos encontros da Lispector:] Ela convida leitores para tomar um café, dá livros autografados de presente, abre a porta de casa para aqueles que tocam sua campainha. É realmente admirável. Recordei de quem? Claro, daquele que nunca some dessas bandas: Thomas Mann. Ora, imagine que uma Sontag de 13-14 anos (mais um amigo) liga para a casa do grande escritor alemão que, não apenas atende o telefone, como também os convida para um chá da tarde em sua casa. Que me perdoem os contemporâneos, mas fica difícil não atentar que hoje, quando a gente recebe um singelo like de um escritor nas redes sociais, um unicórnio nasce na Nova Zelândia. Bom; cada tempo, um tempo. E o nosso é o tempo do sem tempo, irmão.

12
 Bora de mais Lispector? Deparei-me com isto aqui:
"(...) escrever sobre a vida e você mesmo, o que significaria a mesma coisa."

O monólogo interior no qual embarquei ao fim dessa frase foi este: Ok, faz sentido. Já que só posso falar sobre a vida a partir da minha própria experiência, falar de mim = falar da vida. E olhe lá. Porém... Eu posso tentar me colocar na posição de um outro, o que significaria adentrar o campo da imaginação. Imaginar outras experiências. O universo da ficção. (...) Ficção ainda é a vida? Se a ficção que crio faz parte de quem sou (?), escrever ficção pura é sempre escrever sobre a vida. É?

Conclusão? Exato: bela groselha de platitudes. (#pleonasmei?)

13
A reflexão "literatura  x  vida" encontrada no diário do Piglia demonstra (?) que a Lispector não me fez devanear tanta abobrinha assim, hein. O argentino mandou esta:
"(...) é preciso ver de que lado se coloca o sinal positivo: ver a literatura a partir da vida é considerá-la um mundo fechado e sem ar; ao contrário, ver a vida a partir da literatura permite perceber o caos da experiência e a carência de uma forma e um sentido que permita suportar a vida."
                                                         - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi (tradutor: Sergio Molina) 

Isso me faz pensar que, para encerrar qualquer desvario, basta tacar um "é relativo" e pronto; imbróglio sanado.

14
Finalmente cedi a outro hype: Russian Doll. Curti demais os primeiros episódios (que escrita afiadinha!), mas o final... Sei lá; preferiria algo menos embrulhadinho pra presente, talvez. 

O lance dos espelhos x morte recuperou da memória um quadro discutido por Manguel no Lendo as Imagens. Este aqui, o Mosaico da Batalha de Isso:

Circulei toscamente a potente imagem que mais me interessa, acerca da qual Manguel escreve:
"É um soldado persa; (...) caiu entre as espadas  e lanças espalhadas; seu último gesto é levantar o escudo para ver, nessa superfície de espelho, a sua própria face. Esse soldado deseja saber quem é, antes de morrer.
Quando penso nesse tema associadamente ao período em que o quadro foi concebido, fico destrambelhada. É extraordinário.

15
Após ouvir o podcast Um Milkshake Chamado Wanda, fui lá desenterrar das cinzas minha evidência do #sóquemviveusabe: ⇣


Encontrar um CD dentro foi uma total surpresa! Do outro lado do oceano, Liam Gallagher deu conta de se vingar da minha zoeira com a cara dele, pois o Oasis tá lá no bolo, acompanhado de The Killers, Franz Ferdinand, Strokes, Wolf Parade... É, Gabi, só quem viveu sabe. Eu gostava tanto desse danado, que não consegui me desfazer dele.
(*E este é o II, pois o querido I foi literalmente destruído pelas ondas do mar)








16  
Acredito que logo mais terei de me despedir definitivamente do Godard, pois nossos santos não se bicam. Dessa vez fui de Masculin, Féminin e, bem, até gostei mais desse, porém... Ai, nem sei explicar direito porque a obra dele não desce. Tentarei só mais um e, se não rolar, será adeus. Se não consigo ser cool, paciência.

[- Eduardo, comer hambúrguer na lanchonete é muito mais legal do que ver um filme do Godard. A Mônica não sabe de nada.]


17

Por incrível que pareça, nunca vi ou li a história do Pinóquio. Quando criança, possivelmente assisti àquele clássico desenho da Disney, no entanto, se de fato vi, a memória tratou de deletar. Enfim; toco no assunto porque essa narrativa cruzou meu caminho por duas maneiras surpreendentes. No Narrativas, podcast da Carambaia, Renato Moricone compartilhou que seu filho parecia recorrer ao desenho do Pinóquio, especificamente ao momento em que o protagonista está dentro da baleia, para conseguir assimilar a concepção de que logo mais um irmãozinho sairia de dentro da barriga da mãe. Depois, na The Red Hand Files #51, newsletter de Nick Cave, um pai que perdera o filho pergunta se estaria fadado a permanecer dentro da baleia, agora que seu Pinóquio estava morto. Em um mesmo trecho de uma narrativa, espectadores/leitores identificam caminhos para assimilar tanto a vida, quanto a morte. É isso o que torna uma história grandiosa, não? Logicamente o livro foi pra minha pilha de leitura. 

18
Vagão do metrô. À minha direita, a moça lê A sutil arte de ligar o f*da-se. À esquerda, outra se entretém com o Seja Foda. No instagram, descubro o lançamento do Liberdade, Felicidade & F*da-se. Hum... É, talvez eu deva repensar meu branding; reposicionar minha marca tal.e.coisa. Será? Vejamos... F*dendo entre livros? Eita! Haha, não, calma. Entre livros fodas? F*da-se entre livros? Xi. Seja f*da entre livros? Nhé.

Posteriormente, na série Years and Years, meu queixo caiu com o nome do partido da personagem da Emma Thompson, a política que era contra tudo que estava ali: quatro estrelas ↦ **** = F*CK. Coincidência? Fica a questão.

(Náh, o bobo nome do bloguinho permanece como está.)

19
Por falar em Years and Years: aparentemente, o capitalismo tardio ressignificou maleficamente as bicicletas? O que representava infância, liberdade, brincadeiras lúdicas e sustentabilidade, tornou-se o grande símbolo do trabalho precarizado. Poxa, dia desses me emocionei pateticamente ao contar para uma amiga o último episódio da S03 de High Maintenance, aquele em que dois amigos da época de escola se reencontram em condições tristes (o filhinho de um deles submetia-se a tratamento oncológico) e, para um breve respiro, os dois passeiam de bicicleta pelas ruas de NY. Depois, com Years & Years, vi a bicicleta do trabalhador matar pedestres na rua, ao mesmo tempo em que representava a salvação financeira do moço de classe média que perdeu, em um piscar de olhos, mais de um milhão de libras. Que maluquice. Se eu continuar me emocionando por aí com historinhas de bicicletas, serei acusada de privilegiada. Com razão? 

Pensando melhor, só agora me dei conta dos motivos pelos quais o filme Ladrões de Bicicleta é um tremendo clássico; mais atual do que eu jamais havia suposto até agora.

20
Correto, a pessoa que estava aí dizendo não ter nenhum apego à infância, foi lá brincar de montar mais uma tirinha de Geraldine + Edith. Temática: Origem da Lua x Steven Universe!
Fonte Nautilus: http://nautil.us/issue/13/symmetry/when-the-earth-had-two-moons
Fusion em Steven Universe: https://www.youtube.com/watch?v=v1dvzCkOZ1E
      
[As conotações lésbicas dessa tirinha estão fugindo do meu controle.😁]

21
Encontrei no filme O Medo Consome a Alma uma cena maravilhosa que reforça uma bobeira incluída no autoficções #02: roupas podem (e devem) ser usadas para construir/apresentar uma personagem.

No começo da obra de Fassbinder, quando Emmi entra no bar frequentado por imigrantes, ela está molhada pela chuva, tem cabelos grisalhos e veste um casaco monocolor escuro. Daí, quando o belo e jovem marroquino a convida pra dançar, e ela tira o caso, calcule o susto que eu e o moço tomamos quando demos de cara com isto:


Poxa, somente com esse jogo de roupas, o Fassbinder conseguiu nos apresentar um mundo inteiro a respeito de Emmi. Joinha para o diretor.












22 
Novamente falarei do mar, pois outras pontes marítimas foram construídas neste mês. A maré começou com o filme da Claire Denis, o 35 Doses de Rum. Especificamente, aqui:

Medo de um mar no qual, quando se grita, ninguém escuta. A fala da personagem de Denis catapultou de volta uma passagem do livro Ruído Branco, na qual a personagem de Don DeLillo argumenta que, quando morrem, os seres humanos gritam para que sejam percebidos, lembrados por um ou dois segundos. Ao somar Denis + DeLillo = o mar escancara nossa insignificância e mortalidade; o medo do mar reflete o medo da morte.

Lendo posteriormente o As palavras não são deste mundo, do Hugo Von Hofmannsthal, esbarrei justamente com essa ideia. Eis a versão mais articulada do senhor Hofmannsthal:
"Assim que vi o mar, compreendi ter envelhecido. (..) Quando (...) já pode ver o mar, (...) sente-se a si mesmo muito claramente, mas com um ar um tanto insólito e rarefeito. Perdem-se muitas coisas que se imaginava possuir: a gente fica mais leve e vazio, é inquietante. (...) diante do mar, tudo que é estático está atrás de nós, para ser deixado para trás, e diante dos olhos nada temos além da existência infinita, algo que não somos capazes de compreender totalmente."
                             -  Hugo Von Hofmannsthal; As palavras não são deste mundo. (Tradutor: Flávio Quintale)

Resgatarei o filme do Godard, ou melhor, a cena em que a personagem de Chantal Goya pergunta à personagem do Léaud o que ele considera o centro do mundo. Ele diz que é o amor, ela diz que é ela própria. Antes das respostas dos dois, respondi na lata "o mar". Na ocasião, ignorei o motivo da minha resposta; entretanto agora ganhei argumentos para, ao menos, balbuciar um arremedo de justificativa.

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Retornando à Claire Denis (por sinal, que cineasta fabulosa!), arrisco associá-la àquele alinhavo feito entre Lispector e White Stripes concernente ao tema a mudez não mente/a verdade não faz barulho. Só vi dois filmes dela (o outro foi o atualíssimo Beau Travail), e a presença do silêncio em ambos foi marcante. Agrada-me demais como Denis conduz sua narrativa, sustendo-a menos em diálogos, e mais nos pequenos gestos, olhares e na relação que as personagens estabelecem entre si e, principalmente, com o espaço/cenário/paisagem que ocupam. São filmes cujo silêncio reverbera longa e ruidosamente. Ah!, quase me esqueci do outro elemento crucial que me fisgou nos dois filmes dela que vi: a dança aparece como instante de ruptura para as personagens. Sabe das coisas, essa Denis.

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Infelizmente não me apaixonei pelos poemas da Akhmátova (minhas expectativas eram super altas), porém faço uma colagem de alguns versos soltos que me marcaram bastante. O engraçado é que suponho que sejam os que menos refletem aquilo que acadêmicos consideram o ápice da obra da poeta russa.

(Tradutor: Lauro Machado Coelho)

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Voltei à Netflix por culpa do Thom Yorke e, na busca por algo que me convencesse a permanecer por lá, dei de cara com Shtisel, uma espécie de novelinha "das seis" israelense, sobre judeus ortodoxos. O roteiro segue a linha "nada acontece" e, exatamente por isso, tudo acontece. A vida desenrola-se com suas complicações e delicadezas diárias (sobretudo quando fé/religião está envolvida). É linda. Ah, e o mais surpreendente: muito engraçada! <3

Como banner desse post, coloquei a imagem da Ruchami Weiss destruindo o teclado do computador, obrigada a exercer o papel que o pai bunda mole não dá conta, com uma caneta na boca fazendo as vezes de cigarro. A garota curte Middlemarch (<3) e lê para os irmãozinhos, à noite, uma versão adaptada do Anna Karenina. Fazia tempo que não me apaixonava assim por uma personagem.
E parabenizo Shira Haas, atriz que a interpreta.















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Frases icônicas (pra mim) de Shtisel (transcrição aproximada):
- (Quanto a lotéricas:) Aqui é praticamente uma filial do muro das lamentações.
- Quer fazer Deus rir? Conte-lhe seus planos.
- Quanto deu todo esse glutamato monossódico?

- Eu já comi.
- Eu também.
- Ótimo, vamos alugar a cozinha então.

- Fuma e come. [→ Essa pede contexto. Imagine ter sua identidade reduzida por um outro
                          simplesmente a estas duas palavras: fuma e come. Elevado potencial para fazer                                        alguém embarcar  em uma crise existencial. Pior que a minha descrição nem estaria                                  tão longe, pois seria o batido "come e dorme."]
- Sempre tem jornal. [→ a melhor de todas]

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Ainda rolou um diálogo que aborda aquele meu prévio devaneio acerca da relação "literatura (arte) & vida", instigado pela Lispector:

- É uma pintura, pai, não é vida real.
- Kive, quando vai entender? Tudo é vida! Tudo é vida, e o que fazemos com ela.

E mais outro com as reflexões desse mês relacionadas ao mar!↷
"Sempre a mesma água fedorenta com espuma"?! Os roteiristas de Shtisel estão corretíssimos: cautela ao lidar com uma pessoa que não vê graça no mar. 

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Com a Pizarnik, pensei em personagens que pudessem ser companheiras de choro. Shtisel, a seguir, me fez pensar em quais personagens eu incluiria em minhas orações. Por quê? Porque a matriarca dos Shtisel reza pelas personagens da soup opera americana a qual assistia. Socorro.

Essa foi mais difícil. [Um século depois...] Certo, já que a série israelense me fez reviver Middlemarch, rezarei por Dorothea e Lydgate. E Ruchami, lógico.

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Us, filme do Jordan Peele, restabeleceu minha fase de ouvir rap/hip-hop no repeat, e me impressiona como recorrentemente o sentimento "Jackie Brown sou eu" se apossa do meu ser enquanto escuto esse gênero musical. Só havia um equívoco nessa equação: nunca tinha assistido ao filme Jackie Brown. Usei o tempo pretérito, porque finalmente corrigi a patacoada, contudo o filme não sustentou muito bem a poderosa imagem de Jackie apontando uma arma pra minha cara.

Para registrar a fase musical, fica uma das favesHeadlines.
[Já sinto o bafo do Donald Glover no cangote, fazendo piada com a latina amarela de classe média que curte um hip-hop, toda metida a woke. What do I know? Shit; that's what. (~Pelo menos~ não farei nenhuma versão acústica no meu quarto, para postar no You Tube. Conta?)]

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Visto que já soltei bobagens quanto a formas alternativas/sutis de construir uma personagem, resgatarei a sequência inicial do filme Jackie Brown. ↷







Tendo a achar que ela funciona bem em termos estéticos, mas não exatamente narrativos. Se uma narrativa me informa que a personagem está no grupo daqueles que permanecem tranquilamente parados sobre a esteira rolante do aeroporto, contemplo duas possibilidades: ou trata-se de uma PcD, ou é uma pessoa zen cuja vida está sob pleno controle, alguém que não se deixa afetar por aporrinhações aeroportuárias e que nunca está atrasado; enfim, alguém "com tempo, irmão, pois não?" A cena espelho do filme The Graduate, por sua vez, me parece muito mais apropriada para a história de Mike Nichols, pois é natural (e perfeito!) que um jovem recém formado, retornando à casa dos pais para encarar a vida, não esteja assim tão apressado para sair do aeroporto. Jackie Brown certamente teve sangue frio para manejar a presepada em que se mete, porém resisto em enxergar concordância entre "cena  x  personagem  x  narrativa".

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Estou lendo Oreo, livro que Fran Ross publicou na década de 70. Tenho me divertido descrevendo-o (mal) como uma singular mistura de Spike Lee + Irmãos Coen + Wes Anderson + Kurt Vonnegut. (Oh, yeah) Trata-se de uma nova versão para o mito de Teseu, na qual nossa heroína tem a "manha" de ser filha de uma negra e de um judeu, ambos americanos. Calcule só. Se bem que nem é preciso se preocupar com a Oreo, pois ela desenvolveu uma eficiente arte de autodefesa (o WIT - Way of the Intersticial Thrust) e segue um moto em latim de responsa (bem melhor do que aquele manjadão da Margaret Atwood, hein): Nemo me impune lacessit. (+-: ninguém me provoca impunemente.)






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Depois de assistir ao adorável anime que aborda o complexo trabalho editorial envolvido na publicação de dicionários (The Great Passage), sonhei que vivia em um mundo no qual era preciso pagar para usar as palavras, cada uma com um valor. Fiquei encantada diante da revelação de como meu inconsciente foi profundamente afetado pela singela narrativa japonesa. 
"O dicionário é um navio que nos permite navegar no mar de palavras."

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Putz, e só agora descobri o programa mais legal de todos os tempos:













Desde 2013, o canal Sky Arts organiza a escolha do pintor de retratos do ano. E não há picuinhas, não há manipulação na edição para criar uma narrativa e transformar os participantes em personagens. Não; é simplesmente sobre a pintura - profissionais e amadores. Genial. Essa, sim, é uma competição que mereço ver na televisão. Disponível lá na Tubaína. (*Alerta: altamente viciante.)

Para encerrar, o chiclete musical no dia em que faço esta postagem:
MorMor - Some Place Else.