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16/07/2021

[alinhavando] Tables only turn when tables learn

Há algum tempo sinto comichão para devanear a respeito de mesas e, se não o fiz antes, é porque a suposta excepcionalidade do tema me refreava. Tonta que sou, esqueci de que uma das maiores satisfações de manter um blog diarinho em 2021 é dispor da liberdade para escrever qualquer bobagem que me apeteça. Ora, e mesas sequer são meras bobagens; não, senhor. Pois falemos de mesas.

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Reparei que não existe emoji de mesa. Está errado, pessoal; está errado.

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Visto que não encontrei na internet (!), não sei mais se existiu ou não; mas sabe (?) quando empresas de colchões tentavam nos convencer a investir uma fortuna em seus produtos, mediante o argumento de que dormimos sobre eles durante cerca de oito horas diárias? Bom, com o atual trabalho remoto / distanciamento social, atinei que, no quesito tempo de uso, minha mesa sobrepujou em importância — e muito  minha cama. Sem qualquer exagero, este é o número entregue por meus cálculos: ~ 11-14 horas/dia sentada à mesa. [Eita; depois reclamo de que estou torta e com dor no pescoço, ombro, coxas, punho, dedos... Talvez eu deva mudar o nome deste blog para Sentada (e travada) entre Livros.)

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A propósito, preciso especificar de que mesa estou falando, afinal. Citei trabalho, no entanto não é a esse tipo de mesa, exclusivamente, que me refiro. Poderia tratar-se da estimada mesa à qual sentamos pra comer, compartilhando refeições com quem amamos; mas não. [Puxa, perdi uma boa oportunidade pra fazer média com o crush chef de cozinha, especialmente porque ele curte montar a comida diretaço sobre a mesa, sem prato nem nada. É, ele aprovaria um post desses.] Poderia ser a mesa de cabeceira, outro prezado objeto. Enfim, diversas mesas passam por nossas vidas; porém, aqui, eu falo da mesa... xi, como adjetivá-la? No meu caso, é a mesa à qual: trabalho, escrevo as groselhas deste blog, vasculho a internet, leio livros, estudo, pinto desenhos feios, escrevo em cadernos, vejo episódios de séries de tv enquanto como lanchinhos, planejo viagens... Ou seja, escrevo acerca da mesa comparsa de todos os dias, um (quase) parque de diversões de quatro pernas.

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Virginia Woolf está certa ao afirmar que precisamos de um quarto todo nosso, mas, se esse quarto não tiver uma mesa, nossa vida continuará um tanto complicada. Não ouso dizer que tal teto seria inútil porque, quando li o livro O Reino, aprendi que, naquela época de Cristo, os romanos pouco usavam mesas, preferindo fazer tudo deitados (dormir, comer, escrever). Espie a cena que o Emmanuel Carrère me pediu pra imaginar: "Vamos supor que Lucas, como Proust, tenha escrito seu livro na cama." Os caras escreveram aqueles evangelhos sem a ajuda de uma mesa amiga?! Fiquei abestalhada pensando nisso. Quanto ao Proust, eu também não estava ligada. Além do mais, sei que, mesmo hoje, há pessoas que, infelizmente, não têm uma mesa toda sua. [Confesso: ainda não li esse livro da Woolf. Será que ela fala de mesas? Tomara que sim.]
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Numa das edições da newsletter Tá Todo Mundo Tentando, Gaía Passarelli compartilha sua mesa parceira; herança do avô. Achei a danada bem ostentosa, e o texto super ajudou a me convencer de que não é tão absurdo querer groselhar sobre mesas. [*Ok; nesta economia, nesta pandemia e com este Executivo, talvez até seja meio absurdo sim, porém insistirei: ter um blog desprestigiado serve justamente pra isso.]

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Tive o prazer de conhecer a querida Alice Secco e, acompanhando a conta no Instagram mantida pela mãe dela (a fotógrafa Morgana Secco), percebi que, puxa, mesas são amigas que nos acompanham da infância à velhice. Lembro com bastante carinho, em especial, da mesa que tive na adolescência. Se falassem, certamente seriam capazes de narrar toda a nossa história (e até a de nossas gerações, pensando no exemplo de Passarelli). 

Agora me diga se aguento a Alice na mesa dela? Meu coração explode pela boca. Aliás, a Alice me ensinou que eu posso usar minha mesa pra brincar de cozinhar cogumelos na manteiga (link aqui)! — Massa demais, Alice!

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O que, de fato, me fez observar minha mesa com novos olhos foi a série Dickinson. Obviamente eu conhecia Emily Dickinson, entretanto não fazia ideia de que ela escrevera seus lindos poemas nesta mesa miudinha. É fascinante pensar que seus milhares poemas, usualmente escritos em minúsculos pedaços de papel, também tenham sido concebidos numa mesa tão pequena. Assistindo à série, não tive dúvidas de que essa mesa é uma das protagonistas da história; tamanha é a presença que ela emana. (Tentei achar algum poema de Dickinson sobre ela, porém não tive sorte. Será que não rolou nada?! Desejo muito vê-la pessoalmente um dia, no museu da poeta.) 

É possível que a constatação dessa mesinha na jornada de Emily Dickinson tenha me tocado porque, até então, eu supunha que, quando eu tivesse uma mesa maior, ah! minha escrita e meus desenhos voariam. Quer dizer, meu problema seria apenas a mesa pequena. Eis que, com a mudança de apartamento, arrumei uma mesa pebinha de madeira pinus, com nada menos que 1,70 m de comprimento, e atesto que meus textos e desenhos continuam uma porcaria. Dickinson prova que nem só de grandes mesas se fazem grandes artistas; e, com minha própria experiência, comprovei que ela está certa. Poxa, até os evangelistas já tinham me garantido que, para que seu texto faça parte da História, um escritor sequer depende de mesa. Por que mesmo eu decidi escrever sobre mesas, hein?!

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Outra escritora que não teve uma mesa enorme é a russa Teffi. Imagine meu entusiasmo quando me dei conta de que, no primeiro texto do livro Tolstoy, Rasputin, Others and Me (nyrb), Teffi descreveria a mesa de que dispunha na pequena pensão onde morou em Paris, após o exílio em decorrência da Revolução Russa. Exato; a autora narra seus encontros com Tolstói, Lenin e Rasputin (!); e o que mais me empolga de verdade é o que ela tem a dizer quanto a uma mesa. Tal qual a minha, a mesa de Teffi era multifuncional: servia para escrever, jantar, se maquiar/pentear, costurar. Uma vez que consistia em apenas um metro de comprimento, Teffi explica que precisava ser criteriosa com o que mantinha ali à mão. No entanto, ela brinca que os objetos sempre acabavam formando verdadeiras camadas geológicas sobre a mesa, bastando que uma rajada de vento derrubasse tudo e a fizesse desenterrar dos escombros itens há muito dados por perdidos. No arremate do texto, tive a sensação de que Teffi viajou de 1916 para falar especialmente comigo, em 2021:
"I'm not planning to write anything at all big. I think you'll understand why.
We must wait for a big table. And if we wait in vaintant pis."  
("Não planejo escrever nada grande. Acho que você entenderá por quê. Precisamos esperar por uma mesa grande. E se esperarmos em vãonão faz mal.")

                             - Teffi; How I live and work (tradução para o inglês: Robert e Elizabeth Chandler)

É possível que eu tenha chorado; mas só um pouquinho.

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Então a mesma pessoa que dia desses compartilhou ter lido um livro do Perec surge "subitamente" escrevendo sobre mesas? Não escondo: tem o dedo do autor nesta minha nova presepada. Em A Vida Modo de Usar, há uma passagem relacionada a mesas que me comoveu um bocado; aquela que aborda a grande mesa de trabalho, diante da janela, da miniaturista Marguerite. O narrador nos diz que, embora Marguerite fosse uma artista bastante precisa e meticulosa, reinava em sua mesa uma desordem completa:
"(...) uma eterna babel, sempre atravancada por uma quantidade de material inútil, um amontoado de objetos heteróclitos, um desalinho sem par cuja invasão precisava constantemente deter, antes de começar qualquer trabalho; (...)

                                             - Georges Perec; A vida modo de usar (tradução: Ivo Barroso)

[*Por sinal, é o que verifiquei após arrumar uma mesa maior: a sensação de falta de espaço é intransponível, pois, quanto maior a mesa, maior a quantidade de objetos desencavados para pôr sobre ela.] Perec descreve, é lógico, cada um dos diversos objetos que Marguerite deixava em cima da mesa, o que nos permite vislumbrar toda uma vida; é incrível. Quando a personagem morre, seu marido (o notável Winckler) passa o inverno sentado à mesa da esposa, apertando na mão cada um dos objetos que ela havia tocado, olhado, admirado. Depois, um dia, ele atira tudo fora e a queima.

É, cada vez mais convicta de que Perec foi um cara que (*alerta de sacadinha*:) sabia das coisas. Tanto sabia, que — descobri ao acaso recentemente, para minha felicidade — até escreveu um breve ensaio intitulado Notes concernant les objets qui sont sur ma table de travail (integra o livro Penser/Classer) / Notas relacionadas aos objetos que estão sobre minha mesa de trabalho. A partir das reflexões de Perec — principalmente quando ele discorre acerca da transitoriedade dos objetos mantidos sobre a mesa e da falta de lógica/razão objetiva para cada objeto que ali é encontrado a cada momento — pude compreender que olhar para nossas mesas equivale a olhar-se num espelho mágico, capaz de mostrar muito além do nosso exterior, e muito além de nosso tempo presente. Acredito que o tocante parágrafo final do ensaio resume bem o que Perec efetivamente pretendeu quando decidiu classificar/listar/pensar sobre os objetos dispostos em sua mesa de trabalho, assim como o que eu mesma quis dizer quando cedi ao meu desejo de escrever sobre este tema (grifos meus):
"Ainsi, une certaine histoire de mes goûts (leur permanence, leur évolution, leurs phases) viendra s’inscrire dans ce projet. Plus précisément, ce sera, une fois encore, une manière de marquer mon espace, une approche un peu oblique de ma pratique quotidienne, une façon de parler de mon travail, de mon histoire, de mes préoccupations, un effort pour saisir quelque chose qui appartient à mon expérience, non pas au niveau de ses réflexions lointaines, mais au coeur de son émergence."

                         - George Perec; Notes concernant les objets qui sont sur ma table de travail

Embora meu francês seja mega capenga, arriscarei registrar uma tradução da passagem (*com ajuda de tradutor on-line):
"Assim, uma certa história de meus gostos (suas permanências, evoluções, fases) fará parte deste projeto. Mais precisamente, será, mais uma vez, uma forma de marcar o meu espaço, uma abordagem um pouco oblíqua da minha prática diária, uma maneira de falar sobre o meu trabalho, minha história, minhas preocupações, um esforço para apreender algo que pertence à minha experiência, não ao nível de seus reflexos distantes, mas no cerne de seu surgimento."

                        - George Perec; Notas relacionadas aos objetos que estão sobre minha mesa de trabalho

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Chegado o fim deste post, sei que deveria incluir uma foto da minha própria mesa, porém as palavras de Perec deixam claro o quanto esse objeto é íntimo e revelador, portanto peço desculpas pelo vacilo da omissão. (Aliás: por que os caras mandam fotos de pintos, quando poderiam mandar fotos das mesas? Francamente.) Como substitutos, escalo uns versinhos extraídos de um poema de Nicanor Parra, intitulado Sigmund Freud. Sim, pois é claro (?) que Freud teria algo a dizer a respeito desse papo de mesa pra cá, mesa pra lá, né?

Sigmund Freud

Pássaros com as penas na boca
Já não se pode mais com o psiquiatra:
Tudo ele relaciona com o sexo.
(...)

(...)
Onde nós enxergamos artefatos
Por exemplo, lâmpadas ou mesas
O psiquiatra vê pênis e vaginas.

 Nicanor Parra (tradução: Joana Barossi e Cide Piquet)


[Será que este post realmente tratou de mesas? Questões.]

13/09/2020

Maybe all I need is a shot in the arm

Shannon Cartier Lucy; Naptime (2018)
01
No vídeo em que apresenta sua biblioteca para o canal Les Inrockuptibles (link aqui: X), Leila Slïmani compartilha uma singela história que marca a relação dela com Anna Karênina, de Tolstói, e com a própria literatura. A autora relembra ter sentido muita raiva ao ser chamada pro jantar por sua mãe; quando, no quarto, ela lia a página <SPOILER> em que era narrado o suicídio da personagem Anna Karênina. Slïmani explica que sua revolta decorria do fato de que, para ela, era inadmissível pensar em tais trivialidades - jantar?!-, quando Anna Karênina simplesmente acabara de morrer.

Durante este período de medidas de isolamento e distanciamento sociais, vivi algo similar ao relatado por Slïmani. Quando dei por mim, me peguei preocupada com as Irmãs Makioka (! - personagens do livro de Junichiro Tanizaki), consumida pelas seguintes reflexões e aflições: mas e quanto à visita anual das irmãs às cerejeiras do jardim sagrado no templo Heian, em Kyoto, no mês de abril?! E a tradicional foto das quatro debaixo da cerejeira localizada à beira do lago Hirosawa, com a montanha Henjoji ao fundo?! Não vai rolar?! Ah, não! Puxa vida, como estará Sachiko? Que pena. De início, me senti meio abestalhada, temerosa de ter virado uma Dona Quixote, entretanto lembrei das palavras de Slïmani e sosseguei — "Foi quando, pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não se dão conta da importância da literatura. Eu estava completamente alheia às trivialidades da vida."

Com a leitura de Os Judeus e as Palavras, também encontrei conforto no trecho em que Amós Oz e Fania Oz-Salzberger comentam que pouco importa se as personagens bíblicas, por exemplo, existiram ou não, porque todas vieram da vida real, vieram de linhas de textos cujas ideias transmitidas existiram e ainda existem. "Como leitores, sabemos que a ficção transmite verdades". Quer dizer, será que, neste exato momento, não há uma família japonesa desolada porque se viu impedida, pela pandemia, de seguir sua tradição de visitar as cerejeiras em flor? Pois meu pensamento está com ela. Por sinal, o último conto que li de Borges (Emma Zunz) igualmente tocou nesse assunto (≅ os detalhes das histórias são ficcionais, enquanto os sentimentos...), mas este é tema da próxima postagem da série de leitura de O Aleph.

02
Suponho que uma das coisas que torna momentos como este verdadeiramente difíceis é termos pessoas em nossas vidas com as quais nos importamos plenamente, não? O tal, digamos, "Sustentável (mas a que custo, meu deus!) Peso do Ser". Esse desvario cafona me ocorreu em resposta a uma cena tragicômica do belo filme Starlet (Uma Estranha Amizade; 2012), do diretor Sean Baker. A obra narra a gradativa amizade que se estabelece entre duas mulheres solitárias da Califórnia, uma jovem e uma idosa. A senhorinha resiste rabugenta às investidas persistentes da garota, sobretudo avessa ao cachorrinho que era carregado a tiracolo pra todo lado, tratado praticamente feito bebê. Quando as duas estão um tanto mais próximas, a jovem pede que a senhorinha fique de babá do cachorro, enquanto ela trabalha. O experimento não dá muito certo, pois o cão foge e a pobre senhora, totalmente exasperada, gasta horas procurando-o pelas ruas do bairro. Não demora, e logo o filme faz o que filmes fazem melhor; digo, entrega a famigerada imagem que fala por mil palavras:
↥ Aos prantos, ela cambaleia desolada no meio da rua. A edição do filme é massa, visto que, desse ponto, corta diretaço para a senhora devolvendo o cachorro à moça, ao mesmo tempo em que ordena-lhe, sem qualquer explicação, que desapareça pra sempre e que não a aporrinhe mais os pacovás. 

E não é assim? Assim é.

03
Os meses de março e abril, em particular, foram marcados por suadeira nas mãos, angústia opressora e contínua leitura de artigos sobre a doença, tendo as notícias da Globonews como trilha sonora. Graças a essa rotina, acredito ter conseguido capturar uma imagem da melhor biblioteca de jornalista dentre aquelas que têm aparecido durante as atuais transmissões de TV. Falo do escritório/biblioteca de Miriam Leitão, antes do suposto upgrade:
Por onde começar??!! 
- Máquina de escrever fabulosa (quero);
- Pôster da Clarice Lispector;
- Outro pôster ali atrás de algum livro da editora Record?;
- Quadros... eu deveria saber de quem são, né? Vergonha; não sei (não sou das artes, me ajudaê);
- Carrinho mara de biblioteca (quero!);
- As Crônicas de Nárnia (! - #nãolinemlerei);
- Pilha de moleskines (?);
- Algum tipo de colírio para olhos (acho - é, também tenho aqui do lado);
- É uma calculadora, ali?!;
- E la pièce de résistance: a palmilha sobre a mesa (ou não é?). Como? Por quê? Um mini conto se aproxima. 

04
Boa musiquinha para a presente realidade, esta do Caribou. Saca o refrão em loop eterno:

She's going home
Baby, I'm home, I'm home, I'm home

(*Aliás, pera, canção das privilegiadas..., né? Ontem, loser; hoje, privilegiada. So it goes.)

05
(Dado que o tema é casa:) No começo do ano, eu estava em busca de um novo apartamento pra morar (caçada interrompida pela pandemia, claro) e, além dos requisitos óbvios (preço ok, dispensa de reformas etc), eu só fazia questão de uma coisinha: VARANDA. E pra quê, né? A real é que não se constroem mais varandas e, quando o fazem, a família classe média brasileira vai lá e taca-lhe uma janela pra fechar tudo, integrando a p* toda à sala. Eu vejo as fotos nos sites de imóveis e quero morrer. Quando tomada pelo espírito meio bastante porco do "há males que vêm pra bem", ouso trepidante conjecturar que, com alguma sorte, esse vírus fará a turma dar a devida importância às varandas. Quem envidraçou e tijolou sua varanda, não pôde postar, nas redes sociais, vídeos de cantoria e festinhas nesses espaços, não é meixmo? Bem feito. É peculiar, esse habitual anseio do brasileiro de separar-se a qualquer custo do mundo exterior, de ampliar e definir precisamente os limites do seu espaço privado. 

Frustrada com a realidade imobiliária, não pude evitar que meus olhos marejassem diante deste inesperado poema da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen:

Varandas

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha

Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade
 — Sophia de Mello Breyner Andresen

Não posso contar com arquitetos, engenheiros e imobiliárias; porém ainda posso contar com os poetas.

06
Por falar em poesia, 
a mesa de bar, tema é,
no Slam da Pandemia.
Dr. Fauci ou Carioca do Leblon?
Água ou Chandon?
Garçom, sobe o som!
Durante uma das trilhas que fiz numa viagem do ano passado (contei aqui: X), um moço do grupo se destacou por seu desconsolado praguejo: - Puta merda, tanta praia bonita pra tomar uma cerveja gelada, e eu aqui nesse perrengue. A fala dele não só alimentou ainda mais minha crise de riso provocada pela inusitada situação em que me encontrava (botando os bofes pra fora, cercada pela natureza inebriante), como também despertou certo desalento embalado por aquela assombrosa pergunta de Esperando Godot, do Beckett: We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist? (Nós sempre achamos alguma coisa, hein Didi, para nos dar a impressão de que existimos?) Por que esse something é, pra tanta gente, o álcool? Isso me deixa destrambelhada, admito com não pouco embaraço. Ora, lá estávamos nós cercados pela, como disse deliberadamente, natureza inebriante, e mesmo assim não era suficiente. Toda aquela beleza articulada com o esforço do corpo não bastava para que o moço se convencesse de que ele estava vivendo amarradão. Não entendo; e simultaneamente estou ciente de que (1) minha reação é despropositada e (2) não tenho direito de julgar. Que as pessoas tenham encontrado um something, já é motivo para se contentar, de fato. Acho. Ou será que o álcool, na real, somente faz as pessoas esquecerem que estão à procura de um something? Caí num pleonasmo? Que confuso. Ah, e sim, meu lugar de fala é o da pessoa que não bebe. Quer dizer, curto um vinhozinho com uns queijos espertos talecoisa (#pequeno-burguesa), sabe como é, contudo a parada, pra mim, se encerra aí. Chata muito? Opa, provavelmente; mas como hoje estou disposta a ser gentil comigo mesma, argumento que apenas prefiro ficar bêbada mediante outros meios — e não; não tô falando de remedinhos.

The Hills erect their purple heads,
The Rivers lean to see
Yet Man has not, of all the throng,
A curiosity.

— Emily Dickinson

Em meio a esse conflito alcoólico, os filmes do Sang-soo Hong, que andei vendo nestes dias, só pioraram minha desorientação. Em todas as obras desse cineasta sul-coreano a que assisti, o álcool se faz presente de um modo determinante que, a princípio, me desconcerta. Em linhas gerais, a entrada do álcool nas narrativas dele serve para desarmar as inibidas e formais personagens que, então, finalmente desembucham o que de fato estão sentindo. Ou seja, o esforço exigido pela rígida performance social é posto de lado e os nós desatam quando a galera de Hong começa a encher a cara. Pô, só eu® fico meio deprimida diante dessa dependência humana? Busquei no google artigos/críticas/análises acerca dessa presença do álcool nos filmes do cara, mas não localizei nada legal. No entanto, a entrevista que ele concedeu ao site Sofilm me ofereceu respostas valiosas, algumas das quais listo a seguir (grifos são meus):

Q- Como começou a beber? R- Eu tinha 15 ou 16 anos. Cerca de 10% dos meus colegas de turma bebiam nessa idade, (...) Os meus amigos tinham problemas familiares, todos eles. Assim, quase todos os dias, depois das aulas, nos encontrávamos para beber juntos. (...) Bebíamos muito. Realmente, muito.

↦ Q- Por que bebia tanto? R- (...) Eu estava... (longo silêncio) solitário. Eu era muito reservado. Não tinha amigos fora do meu gangue alcoólico. (...) Eu estava muito desorientado, sem objetivos ou planos para a vida. (...) Eu não sonhava com nada. Esse período de alcoolismo brutal durou dois anos (...) entre os 15 e os 17 anos. Depois comecei a beber menos, mas ainda não tinha nenhum objetivo! (...) Só queria esquecer.

↦ Q- Gostava de ler e escrever? R- Sabe, beber é algo tão poderoso, que apaga qualquer relação que se possa ter com qualquer outra coisa, apaga toda a sua energia. Mas no fundo, me senti dividido entre essas duas experiências: beber e escrever. Embora não pudesse escrever com frequência, estava sempre interessado em livros.

↦ Q- Quando bebe com os seus amigos, de que falam? R-  (...) o que faço é propor um jogo alcoólico para entornar todas. Se o jogo durar uma hora, todos acabam bêbados e não há mais necessidade de falar. Nos sentimos próximos, nos amamos, e não há necessidade de dizer bobagens pelas quais se arrepender no dia seguinte.

Q- No entanto, nos seus filmes, esses momentos frequentemente levam a situações embaraçosas, em que as pessoas falam demais. R- Sim, mas na minha vida isso só acontece quando bebo toda a noite, conversando até o amanhecer. É aí que se acaba fazendo besteira. E nem sequer é sincero, são bobagens que não se ancoram na realidade; um produto do cérebro fora de si. É por isso que eu gosto de jogos, porque não lhe dão tempo para falar. Tudo o que permitem é se embebedar, se sentir bem com as pessoas e ir para casa feliz.

↦ Q-  Então, costuma beber com os seus alunos? R- Tento evitar. (..) gastei tanta energia com eles! As conversas nunca acabam! Não suporto. Estão ansiosos por tudo, durante todo o dia, têm muitas perguntas sobre a vida.


Minha hipótese do álcool servir para promover o esquecimento da pergunta formulada pela peça de Beckett parece ter sido corroborada pelas respostas de Sang-soo. Interessante. E o que ele menciona a respeito da enorme capacidade do álcool de bloquear qualquer relação que possamos ter com outras coisas na vida me tocou em especial, pois parece ser o cerne do que me inquieta na relação firmada por muitos com essa droga. A sensação é que, para realmente diversas pessoas, nenhuma ocasião será de efetiva celebração feliz com o outro, a menos que envolva bebida alcoólica. Por que sentem-se (creio) desse jeito? Também preciosa é a opinião dele de que o álcool não desperta a expressão de nenhuma verdade interior do indivíduo, mas apenas um monte de idiotices. Gosto disso, sobretudo porque desmonta a leitura que fiz de seus filmes. E, claro, para quem aprecia demais o silêncio, torna-se mais fácil entender a enorme valoração social do álcool, a partir do momento em que Sang-soo me diz que o que ele busca com a bebida é a possibilidade de não falar nada e ser feliz com os amigos de que gosta. Um brinde a isso, senhor Sang-soo.

Que dei meus últimos tostões
Por esse vinho, estão lembrados?
E seus eflúvios inspirados
Geraram tolas percepções,
Mas também verve e poesia,
E discussões, sonho, alegria!

— Alexandr Pushkin; Eugênio Oneguin 
    (Tradutor: Dário M. C. Alves)

O livro de Montaigne afinal saiu da estante, e, ao espiar o índice, tive a alegria de dar de cara com um ensaio intitulado Sobre a embriaguez. Bom, eis que saí da leitura com um aliado e tanto, pois não é que o grande ensaísta meio que concorda comigo?! Rá!, tomem essa, bebuns dos infernos. Montaigne considera a embriaguez um vício grosseiro e brutal, que destrói e entorpece o corpo. No ensaio dele, porém, consta uma lista de causos históricos que contradizem o cineasta Sang-soo Hong no que diz respeito à eficácia do álcool em fazer a turma da mesa de bar vomitar seus segredos mais íntimos. Vale ressaltar que, para Montaigne, é importante reconhecer que uns vícios são piores que outros e, nesse sentido, embora covarde e estúpido, o álcool não seria o pior e mais prejudicial à sociedade. < Aqui, admito que discordamos, porém deixo esse debate para outra ocasião. Fora que o cara fala do contexto social do século XVI; é bom lembrar. > Para não me restringir a um tolo ataque ao álcool (sequer é minha intenção), acrescento o que, segundo Montaigne, Platão afirmara acerca da embriaguez: "(...) a embriaguez é uma prova boa e segura da natureza de cada um, ao mesmo tempo que é capaz de dar às pessoas de idade a coragem de se divertirem em danças e na música, coisas úteis e que não ousam empreender em estado normal". Claro que tem seu valor, portanto. Mas tem uma pegadinha: na cartilha platônica, a bebida está liberada só após os quarenta anos. É, já suspeito quais seriam as reflexões de Platão sobre a bebedeira nos filmes do Sang-soo, sobretudo se ele fosse informado de que o cineasta começou a entornar garrafas de soju aos quinze anos. 

Emet
(...)
Eu sei, também tenho ido a bares e outros lugares
igualmente reais. E tenho tido
uma vida ou mais. Mas é tempo de falares
tu, livro. Eu tenho dito.
 
— Manuel António Pina


Sensação de que paguei de chatonilda ao abordar esse tema; e o pior é que nem precisava, uma vez que tudo que tentei concatenar aqui a respeito do álcool já foi dito de forma muito mais divertida pelos senhores Robert Eggers e Max Eggers, no filme O Farol (2019).

- Boredom makes men to villains, and the water goes quick, lad, vanished. The only med'cine is drink. Keeps them sailors happy, keeps 'em agreeable, keeps 'em calm, keeps 'em...
- Stupid.
- Curse me if there ain't an old tar spirit.

Mas assim, né?; não trabalhamos com intransigências, veja bem. Pra que essa besteira? Tipo, se este cara aí 👇 me chamasse pro bar, eu negaria? A resposta é: claro que não. Me liga, Lenny Bruce

"(...) Samuel Johnson, tarde da noite, quando saía à procura de conversa de 
taberna, experimentava o alívio de ver suas próprias necessidades refletidas 
na companhia que encontrava: aqueles que bebiam e falavam do Homem e de Deus 
até que a luz despontasse, porque também nenhum deles queria ir para casa."

                                                                          - Vivian Gornick, The odd woman and the city

07
Uma de minhas grandes recentes descobertas (não foi a vacina, desculpa) foi constatar que, quando o assunto é cagar em locais públicos (sim, neste blog, basta um toque na barra de rolagem, e passamos do álcool à caganeira ¯\_(ツ)_/¯), o mundo conta com dois tipos de roteirista de série de TV. Esta, sim, uma escolha difícil. Ladies and Gentlemen, it's time for... THE POOP BATTLE!
De um lado, temos o querido fdp Larry David que, na S10 de Curb Your Enthusiasm (HBO), inventa abrir uma cafeteria cujos banheiros para o público não têm privadas. O mais novo empresário da Califórnia se recusa a ter de lidar com o cocô alheio em seu empreendimento. Ah, então o cliente quer cagar após o cafezinho? Pois vai ficar querendo; porque, no banheiro da cafeteria do Larry, não vai rolar.

Do outro lado, o querido entregador de maconha Ben Sinclair, na S04 de High Maintenance (HBO), nos apresenta a um pobre profissional de Mensagens ao Vivo (é esse o termo?) que, mega apertado enquanto trampa nas ruas de NY, é resgatado por uma cafeteria. O rapaz, ao sair aliviado do banheiro, agradece ao barista e se desculpa de ter defecado no sanitário do estabelecimento. A reação do barista? Abre um sorriso simpático, dizendo-lhe pra deixar de bobagem, porque está ciente do aperreio que é querer fazer cocô, quando se trabalha na rua. No universo de Sinclair, o cocô é livre.

E aí, quem leva o POOP TROPHY? Meu eu constipado que trava-me o esfíncter retal tão logo ponho os pés fora de casa fica com o Larry David; enquanto meu eu consciente de que um intestino saudável requer alívio imediato onde quer que se esteja e que, para isso, é importante ajudarmos uns aos outros, fica com o Ben Sinclair. Complicado.

Pra que escolher um, né? Amo esses dois cagões.

08
E pensar que, no começo do ano, eu estava aqui desejando bastante transa pra todo mundo, hein? How the turntables...