Mostrando postagens com marcador emmanuel carrere. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador emmanuel carrere. Mostrar todas as postagens

16/07/2021

[alinhavando] Tables only turn when tables learn

Há algum tempo sinto comichão para devanear a respeito de mesas e, se não o fiz antes, é porque a suposta excepcionalidade do tema me refreava. Tonta que sou, esqueci de que uma das maiores satisfações de manter um blog diarinho em 2021 é dispor da liberdade para escrever qualquer bobagem que me apeteça. Ora, e mesas sequer são meras bobagens; não, senhor. Pois falemos de mesas.

🖎

Reparei que não existe emoji de mesa. Está errado, pessoal; está errado.

🖎

Visto que não encontrei na internet (!), não sei mais se existiu ou não; mas sabe (?) quando empresas de colchões tentavam nos convencer a investir uma fortuna em seus produtos, mediante o argumento de que dormimos sobre eles durante cerca de oito horas diárias? Bom, com o atual trabalho remoto / distanciamento social, atinei que, no quesito tempo de uso, minha mesa sobrepujou em importância — e muito  minha cama. Sem qualquer exagero, este é o número entregue por meus cálculos: ~ 11-14 horas/dia sentada à mesa. [Eita; depois reclamo de que estou torta e com dor no pescoço, ombro, coxas, punho, dedos... Talvez eu deva mudar o nome deste blog para Sentada (e travada) entre Livros.)

🖎

A propósito, preciso especificar de que mesa estou falando, afinal. Citei trabalho, no entanto não é a esse tipo de mesa, exclusivamente, que me refiro. Poderia tratar-se da estimada mesa à qual sentamos pra comer, compartilhando refeições com quem amamos; mas não. [Puxa, perdi uma boa oportunidade pra fazer média com o crush chef de cozinha, especialmente porque ele curte montar a comida diretaço sobre a mesa, sem prato nem nada. É, ele aprovaria um post desses.] Poderia ser a mesa de cabeceira, outro prezado objeto. Enfim, diversas mesas passam por nossas vidas; porém, aqui, eu falo da mesa... xi, como adjetivá-la? No meu caso, é a mesa à qual: trabalho, escrevo as groselhas deste blog, vasculho a internet, leio livros, estudo, pinto desenhos feios, escrevo em cadernos, vejo episódios de séries de tv enquanto como lanchinhos, planejo viagens... Ou seja, escrevo acerca da mesa comparsa de todos os dias, um (quase) parque de diversões de quatro pernas.

🖎

Virginia Woolf está certa ao afirmar que precisamos de um quarto todo nosso, mas, se esse quarto não tiver uma mesa, nossa vida continuará um tanto complicada. Não ouso dizer que tal teto seria inútil porque, quando li o livro O Reino, aprendi que, naquela época de Cristo, os romanos pouco usavam mesas, preferindo fazer tudo deitados (dormir, comer, escrever). Espie a cena que o Emmanuel Carrère me pediu pra imaginar: "Vamos supor que Lucas, como Proust, tenha escrito seu livro na cama." Os caras escreveram aqueles evangelhos sem a ajuda de uma mesa amiga?! Fiquei abestalhada pensando nisso. Quanto ao Proust, eu também não estava ligada. Além do mais, sei que, mesmo hoje, há pessoas que, infelizmente, não têm uma mesa toda sua. [Confesso: ainda não li esse livro da Woolf. Será que ela fala de mesas? Tomara que sim.]
🖎


Numa das edições da newsletter Tá Todo Mundo Tentando, Gaía Passarelli compartilha sua mesa parceira; herança do avô. Achei a danada bem ostentosa, e o texto super ajudou a me convencer de que não é tão absurdo querer groselhar sobre mesas. [*Ok; nesta economia, nesta pandemia e com este Executivo, talvez até seja meio absurdo sim, porém insistirei: ter um blog desprestigiado serve justamente pra isso.]

🖎


Tive o prazer de conhecer a querida Alice Secco e, acompanhando a conta no Instagram mantida pela mãe dela (a fotógrafa Morgana Secco), percebi que, puxa, mesas são amigas que nos acompanham da infância à velhice. Lembro com bastante carinho, em especial, da mesa que tive na adolescência. Se falassem, certamente seriam capazes de narrar toda a nossa história (e até a de nossas gerações, pensando no exemplo de Passarelli). 

Agora me diga se aguento a Alice na mesa dela? Meu coração explode pela boca. Aliás, a Alice me ensinou que eu posso usar minha mesa pra brincar de cozinhar cogumelos na manteiga (link aqui)! — Massa demais, Alice!

🖎

O que, de fato, me fez observar minha mesa com novos olhos foi a série Dickinson. Obviamente eu conhecia Emily Dickinson, entretanto não fazia ideia de que ela escrevera seus lindos poemas nesta mesa miudinha. É fascinante pensar que seus milhares poemas, usualmente escritos em minúsculos pedaços de papel, também tenham sido concebidos numa mesa tão pequena. Assistindo à série, não tive dúvidas de que essa mesa é uma das protagonistas da história; tamanha é a presença que ela emana. (Tentei achar algum poema de Dickinson sobre ela, porém não tive sorte. Será que não rolou nada?! Desejo muito vê-la pessoalmente um dia, no museu da poeta.) 

É possível que a constatação dessa mesinha na jornada de Emily Dickinson tenha me tocado porque, até então, eu supunha que, quando eu tivesse uma mesa maior, ah! minha escrita e meus desenhos voariam. Quer dizer, meu problema seria apenas a mesa pequena. Eis que, com a mudança de apartamento, arrumei uma mesa pebinha de madeira pinus, com nada menos que 1,70 m de comprimento, e atesto que meus textos e desenhos continuam uma porcaria. Dickinson prova que nem só de grandes mesas se fazem grandes artistas; e, com minha própria experiência, comprovei que ela está certa. Poxa, até os evangelistas já tinham me garantido que, para que seu texto faça parte da História, um escritor sequer depende de mesa. Por que mesmo eu decidi escrever sobre mesas, hein?!

🖎

Outra escritora que não teve uma mesa enorme é a russa Teffi. Imagine meu entusiasmo quando me dei conta de que, no primeiro texto do livro Tolstoy, Rasputin, Others and Me (nyrb), Teffi descreveria a mesa de que dispunha na pequena pensão onde morou em Paris, após o exílio em decorrência da Revolução Russa. Exato; a autora narra seus encontros com Tolstói, Lenin e Rasputin (!); e o que mais me empolga de verdade é o que ela tem a dizer quanto a uma mesa. Tal qual a minha, a mesa de Teffi era multifuncional: servia para escrever, jantar, se maquiar/pentear, costurar. Uma vez que consistia em apenas um metro de comprimento, Teffi explica que precisava ser criteriosa com o que mantinha ali à mão. No entanto, ela brinca que os objetos sempre acabavam formando verdadeiras camadas geológicas sobre a mesa, bastando que uma rajada de vento derrubasse tudo e a fizesse desenterrar dos escombros itens há muito dados por perdidos. No arremate do texto, tive a sensação de que Teffi viajou de 1916 para falar especialmente comigo, em 2021:
"I'm not planning to write anything at all big. I think you'll understand why.
We must wait for a big table. And if we wait in vaintant pis."  
("Não planejo escrever nada grande. Acho que você entenderá por quê. Precisamos esperar por uma mesa grande. E se esperarmos em vãonão faz mal.")

                             - Teffi; How I live and work (tradução para o inglês: Robert e Elizabeth Chandler)

É possível que eu tenha chorado; mas só um pouquinho.

🖎

Então a mesma pessoa que dia desses compartilhou ter lido um livro do Perec surge "subitamente" escrevendo sobre mesas? Não escondo: tem o dedo do autor nesta minha nova presepada. Em A Vida Modo de Usar, há uma passagem relacionada a mesas que me comoveu um bocado; aquela que aborda a grande mesa de trabalho, diante da janela, da miniaturista Marguerite. O narrador nos diz que, embora Marguerite fosse uma artista bastante precisa e meticulosa, reinava em sua mesa uma desordem completa:
"(...) uma eterna babel, sempre atravancada por uma quantidade de material inútil, um amontoado de objetos heteróclitos, um desalinho sem par cuja invasão precisava constantemente deter, antes de começar qualquer trabalho; (...)

                                             - Georges Perec; A vida modo de usar (tradução: Ivo Barroso)

[*Por sinal, é o que verifiquei após arrumar uma mesa maior: a sensação de falta de espaço é intransponível, pois, quanto maior a mesa, maior a quantidade de objetos desencavados para pôr sobre ela.] Perec descreve, é lógico, cada um dos diversos objetos que Marguerite deixava em cima da mesa, o que nos permite vislumbrar toda uma vida; é incrível. Quando a personagem morre, seu marido (o notável Winckler) passa o inverno sentado à mesa da esposa, apertando na mão cada um dos objetos que ela havia tocado, olhado, admirado. Depois, um dia, ele atira tudo fora e a queima.

É, cada vez mais convicta de que Perec foi um cara que (*alerta de sacadinha*:) sabia das coisas. Tanto sabia, que — descobri ao acaso recentemente, para minha felicidade — até escreveu um breve ensaio intitulado Notes concernant les objets qui sont sur ma table de travail (integra o livro Penser/Classer) / Notas relacionadas aos objetos que estão sobre minha mesa de trabalho. A partir das reflexões de Perec — principalmente quando ele discorre acerca da transitoriedade dos objetos mantidos sobre a mesa e da falta de lógica/razão objetiva para cada objeto que ali é encontrado a cada momento — pude compreender que olhar para nossas mesas equivale a olhar-se num espelho mágico, capaz de mostrar muito além do nosso exterior, e muito além de nosso tempo presente. Acredito que o tocante parágrafo final do ensaio resume bem o que Perec efetivamente pretendeu quando decidiu classificar/listar/pensar sobre os objetos dispostos em sua mesa de trabalho, assim como o que eu mesma quis dizer quando cedi ao meu desejo de escrever sobre este tema (grifos meus):
"Ainsi, une certaine histoire de mes goûts (leur permanence, leur évolution, leurs phases) viendra s’inscrire dans ce projet. Plus précisément, ce sera, une fois encore, une manière de marquer mon espace, une approche un peu oblique de ma pratique quotidienne, une façon de parler de mon travail, de mon histoire, de mes préoccupations, un effort pour saisir quelque chose qui appartient à mon expérience, non pas au niveau de ses réflexions lointaines, mais au coeur de son émergence."

                         - George Perec; Notes concernant les objets qui sont sur ma table de travail

Embora meu francês seja mega capenga, arriscarei registrar uma tradução da passagem (*com ajuda de tradutor on-line):
"Assim, uma certa história de meus gostos (suas permanências, evoluções, fases) fará parte deste projeto. Mais precisamente, será, mais uma vez, uma forma de marcar o meu espaço, uma abordagem um pouco oblíqua da minha prática diária, uma maneira de falar sobre o meu trabalho, minha história, minhas preocupações, um esforço para apreender algo que pertence à minha experiência, não ao nível de seus reflexos distantes, mas no cerne de seu surgimento."

                        - George Perec; Notas relacionadas aos objetos que estão sobre minha mesa de trabalho

🖎 

Chegado o fim deste post, sei que deveria incluir uma foto da minha própria mesa, porém as palavras de Perec deixam claro o quanto esse objeto é íntimo e revelador, portanto peço desculpas pelo vacilo da omissão. (Aliás: por que os caras mandam fotos de pintos, quando poderiam mandar fotos das mesas? Francamente.) Como substitutos, escalo uns versinhos extraídos de um poema de Nicanor Parra, intitulado Sigmund Freud. Sim, pois é claro (?) que Freud teria algo a dizer a respeito desse papo de mesa pra cá, mesa pra lá, né?

Sigmund Freud

Pássaros com as penas na boca
Já não se pode mais com o psiquiatra:
Tudo ele relaciona com o sexo.
(...)

(...)
Onde nós enxergamos artefatos
Por exemplo, lâmpadas ou mesas
O psiquiatra vê pênis e vaginas.

 Nicanor Parra (tradução: Joana Barossi e Cide Piquet)


[Será que este post realmente tratou de mesas? Questões.]

13/03/2021

[autoficções] eta barulhinho bom!

  




🔊 Concluí a mudança de apartamento em fevereiro, porém, como a nova escrivaninha chegou há apenas alguns dias, só agora retorno ao blog. Não; seguindo a praxe, não significa que tenho algo relevante pra registrar, mas apenas que bateu uma intensa vontade de escrever um bocadinho, o que atribuo ao aniversário de um ano de isolamento/distanciamento social. Conforme aponta Amanda Mull em artigo publicado no The Atlantic, a pandemia pausou as relações sociais casuais que, para o bem ou mal, eram basicamente do que eu dispunha para trocar ideia com um ser humano. (- A resposta é sim, Dr. Dráuzio.) Atualmente, conto com as mensagens diárias no whatsapp estritamente relacionadas ao trabalho (voltarei a esse tema), assim como as ligações para a família que reside noutro estado, a fim de saber, principalmente, se estão todos bem. Portanto, na falta de outra possibilidade concreta de jogar conversa fora com uma pessoa, o faço comigo mesma mediante a escrita no blog. (Meio deprê, né? Oh, well.) Planejo adotar a singela tática desta personagem de Kafka:
"(...) escrever ao amigo só sobre incidentes insignificantes, da maneira como estes se acumulam desordenadamente na lembrança, quando se reflete sobre eles num domingo tranquilo."
                                                            - O Veredito; Franz Kafka (Tradução: Modesto Carone)

Do que diabos estou falando?! E essa já não é minha estratégia predominante no blog? Nem saberia escrever de modo diferente. Aliás, a tática da personagem é singela, mas esse adjetivo não serve para caracterizar o conto de Kafka. Talvez não seja o momento oportuno para ler o autor, porém, de fato, tem sido pra mim; sobretudo porque meu novo trabalho (nem tão novo mais) me lançou numa realidade que me parece insana. Sabe quando a gente pergunta pra uma amiga "vem cá, eu não tô ficando doida, tô? isso aqui é completamente sem sentido, não é? não é?". Pronto; o Kafka está na posição da amiga. Infelizmente a responsabilidade jurídica não me permite desabafar e divagar a respeito dessa conexão Kafka x Trabalho, contudo deixo esta pergunta: e aquele Na Colônia Penal, hein? Ô lôco, né? 


🔊 Mas não deixam de ser inusitadas, essas lamúrias pela perda dos papos furados diários que trocávamos antes do maldito vírus. Dia desses assisti ao filme Bom Dia (1959), do Yasujiro Ozu (♥️), e o discurso que o garotinho dispara quando o pai o manda se calar, parar de reclamar e falar tanto, me impressionou:
"São os adultos que falam demais. "Olá.", "Bom dia.", "Boa noite.", "O tempo está bom, não está?", "Sim, está.", "Aonde está indo?", "Ah, só caminhando por aí", "Ah, é?". Um monte de conversa fiada. "Entendo, entendo" - entendo o quê?!"
Ao final do filme, uma bela e simples cena sugere que a criança possivelmente precipitou-se ao criticar tão duramente as conversas banais do dia a dia. Em resumo, tratava-se do instante em que mais um diálogo corriqueiro permitia que um casal se aproximasse, que uma relação humana aos poucos se estreitasse e o prospecto de uma nova vida a dois surgisse. (assim começam as famílias de Ozu?) Para minha grata surpresa, o livro The Condition of Secrecy, coletânea de ensaios escritos pela poeta dinamarquesa Inger Christensen, me presenteou com uma citação de Novalis que, teorizo, é capaz de elucidar aquele desfecho do Ozu (tradução livre, a partir da tradução para o inglês por Susanna Nied):

"(...) conversação é um mero jogo de palavras. Só nos resta nos admirar com o risível erro que as pessoas cometem - acreditar que falam sobre coisas. Ninguém atina para o que é mais peculiar à linguagem, que ela refere-se apenas a si mesma. Por essa razão, é um mistério maravilhoso e fértil - quando alguém fala apenas por falar, expressa precisamente nesse momento a mais esplêndida e original das verdades. Já quando alguém deseja falar sobre algo específico, então a língua temperamental o faz dizer as coisas mais engraçadas e perversas."

                                     - Monólogo, Novalis; citado por Inger Christensen no ensaio It's All Words. 

Então, peço licença, do jeitinho de Isamu, para prosseguir falando groselha neste post. No entanto, basta apertar minha testa, que eu me calo e solto um peido; novo talento que aprendi com Isamu e seus sábios amigos. 


🔊 Beleza, retornemos à imagem que ilustra o topo desta postagem, extraída da série Pretend It's a City (Netflix), na qual Fran Lebowitz, a escritora que não escreve, mas reclama (e lê)® (?! - she's living the dream), ironiza os riquinhos que desembolsam U$500,00 numa sessão de terapia, só pra reclamar do barulho da cidade de Nova York. Obviamente entendo o ponto dela (pertinente, inclusive), MAS  < atenção, lá vem o choramingo da burguesa >, dado que ouvi essa fala no dia seguinte a uma intensa e longa crise de choro desencadeada pela descoberta de que eu me mudara para um apartamento onde os ruídos são intensos, não pude evitar o desbarato. Recentemente assisti ao filme A Montanha dos 7 Abutres (Billy Wilder, 1951), no qual um homem fica preso por seis dias numa mina, e a queixa que ele externa com maior desespero refere-se justamente ao contínuo barulho intervalar da perfuradora que tenta abrir caminho até ele, através da rocha. O sujeito implora para que, pelo amor de deus, parassem de perfurar, pois já não aguentava mais o som das insistentes pancadas. Puxa, me sensibilizou demais. Enfim, ainda que Lebowitz tenha lá razão (e tem mesmo), não se pode desconsiderar o quanto a poluição sonora afeta nossa saúde. Nesta época em que sequer podemos sair de casa, então, nem se fala; e Alceu Valença comparece para corroborar meu devaneio  - "a obra do vizinho não deixa o poeta dormir, pensar". Calcule a situação atual do novo velho lar: andar alto + próximo a uma linha de metrô elevada do solo e sem cobertura + próximo a avenidas com tráfego intenso nos horários de pico + dividindo paredes com dois apartamentos distintos + um dos vizinhos reformando a unidade + vizinhança de doguinhos que curtem latir 24h/dia + alarme sonoro de portão de garagem que dispara toda hora. Sim, estou ciente de que a única pergunta pertinente é "mas por que se mudou pra esse apê, sua imbecil??". Bom, num esforço para aliviar minha barra, elaboro a seguinte mequetrefe desculpa: ora, eu tive de ponderar todas as variáveis considerando a realidade de um mercado imobiliário ridículo; e após uma única visita de meros quinze minutos realizada pela manhã, fora do horário de pico, "portanto" acabei errando feio nos cálculos, inclusive na estimativa de minha tolerância a ruídos. De todo jeito, o choro está sob controle e esforço-me para desligar dos barulhos, porém admito que é complicado (e triste). Estou praticamente vivendo o que a família do filme Home (2008), da cineasta Ursula Meier, viveu; e receio terminar esta provação (mão no peito, olhos fechados) tal qual Isabelle Huppert: completamente louca, tapando todas as janelas e frestas da casa até morrer asfixiada. A fita crepe, já pus pra jogo; o próximo passo será a concretagem das janelas. E pensar que, quando vi esse filme, ri um bocado dos franceses que, subitamente, se veem morando à beira de uma rodovia. Bem feito pra mim.


Só agora percebo que essa lenga-lenga é quase uma metáfora ruim para a realidade atual, né? Estamos nos trancafiando em nossas casas, tapando os contatos com o mundo externo na tentativa de nos proteger de um vírus. Simultânea e perversamente, reconheço que eu deveria ter iniciado essa historinha com a mesma estupenda primeira frase do romance O Diabo no Corpo, de Raymond Radiguet: "Vou me expor a recriminações."Sim, pois, em meio a uma pandemia que tem gerado desemprego e miséria, é forçoso agradecer por, afinal, ter um trabalho, um salário para pagar as despesas de uma casa. 

*: a propósito, esse deveria ser o nome do blog.


🔊 Para encerrar essa saga do novo velho lar, continuarei a me expor a recriminações, porque confessarei que também me entristeceram os pequenos problemas arquitetônicos e estruturais que fui descobrindo no apartamento, além de  toda a dificuldade, logística e financeira, inerente a possíveis reformas e projetos de decoração. Achava que finalmente teria uma casa do jeito que eu sonhava e me dei mal. Igualmente não ajuda me estressar com qualquer manchinha/irregularidade na parede, qualquer porta que não fecha direito, qualquer lasquinha num móvel, qualquer cheiro estranho etc... Culpa do Instagram e de vídeos de decoração no Youtube? Pode ser, hein; pode ser. Enquanto assisto àquela série Schitt's Creek, os lençóis com os quais David veste sua cama sempre me enternecem. Ele até podia morar num motel forreca, agora que a família estava falida, mas ao menos sua cama ele faz questão de manter bonita. Sei que eu não teria essa força de espírito; que seguiria na vibe tá tudo uma merda mesmo, então foda-se.

Em meio a esse abatimento fútil, mal acreditei quando uma escritora japonesa do ano 1000/1001 (!!!!!!) veio ao meu socorro. Com a contribuição da incrível equipe de tradutoras que trabalharam na edição da Estação Liberdade Editora 34, Sei Shônagon acalentou meu coração:
"A casa de uma dama que vive sozinha apresenta-se bastante danificada: muro de terra batida por terminar, plantas aquáticas que invadem o lago e, embora o jardim ainda não esteja totalmente coberto de artemísias, podem-se ver ervas daninhas verdes por entre as pedrinhas - uma imagem de tanta solidão chega a comover. É tão desinteressante quando nada há para ser consertado, com o portão bem trancado e tudo na mais devida ordem, que nos enfastiamos muito."

- Sei Shônagon; O Livro do Travesseiro. (Tradução: Geni Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto,                                                                         Luiza Yoshida, Madalena Hasimoto)

Olha, vindas de uma mulher que tanto valorizava a beleza das coisas, essas palavras foram tocantes. No fim das contas, estou desencanando. Como a própria Shônagon também escreveu, as coisas feias existem no mundo (eu sou uma delas, caramba**) e não é possível evitá-las, nem deixar de registrá-las.
**:
                                                                                   

🔊 Quanto drama, por tanta besteira, né? Nossa, nem eu me aguento mais com esse papo, o que pode ser outra consequência do isolamento extremo. Se Lebowitz estiver seguindo o isolamento com rigor (nem estou cobrando), estará satisfeita por reclamar apenas de si própria? É, pode ser que ela tenha dado uma pausa nas reclamações ixpertíneas, para focar apenas em suas leituras, vai saber. No conto The House of Fear, da Leonora Carrington, a protagonista assume sem cerimônias que, por ser super reclusa, acabava falando demais consigo mesma, tendendo a repetir as mesmas coisas. A personagem reconhece ser uma chata e que ela, melhor que qualquer um, tinha plena consciência disso. É aquilo: não há nada melhor do que ficar quieta no seu canto, sozinha, curtindo o silêncio..., MAS: durante um ano? Na versão extreme? Para espanto próprio, suspeito de que talvez seja excessivo, com efeitos colaterais geradores de um círculo vicioso potencialmente autodestrutivo.


🔊 Daí, tenho pensado com frequência nestas duas marcantes e especiais amizades que conheci ano passado:

- Emmanuel Carrère & Hervé, livro O Reino;

- Vivian Gornick & Leonard, livro The Odd Woman and the City.

Fiquei deslumbrada com as características que Carrère destaca a respeito do amigo Hervé: não era irônico nem maledicente, não praticava o mal, não se preocupava com o efeito que produzia, não jogava nenhum jogo social." (> que bálsamo.) Carrère sentia que a convivência com o amigo não era estúpida nem exaustiva feito aquela dos mundinhos do jornalismo e editorial francês ao qual estava habituado. Também adorei quando o autor comenta que Hervé fazia parte da família de pessoas para quem existir não era óbvio. Porém o mais legal dessa amizade, achei, é isto aqui: na publicação do livro, fazia 23 anos que os dois se encontravam, toda primavera e outono, na aldeia francesa Levron; período durante o qual caminham longamente. Carrère garante que Levron e a amizade com Hervé são os lugares para onde vai inquieto, e de onde volta resserenado. Carrére descrevendo a amizade:
"É uma amizade íntima: agora mesmo eu escrevia que, como todo mundo, Hervé tem seus segredos, mas acho que não os tem para mim, e o que me faz pensar isso é que não os tenho para ele. nada é vergonhoso a ponto de eu não poder lhe contar sem sentir um pingo de vergonha: pode parecer inacreditável dizer isso, mas sei que é verdade. É uma amizade serena, que não conheceu crise nem eclipse e que se desenvolveu ao abrigo de toda interferência social."

                                                           - Emmanuel Carrère; O Reino. (Tradução: André Telles) 

Já no texto de Vivian Gornick, os paradoxos presentes nas grandes amizades ganham um espacinho. Ela e Leonard também contam com mais de duas décadas de amizade, sempre se encontrando uma vez por semana para caminhar, jantar, assistir a um filme. A autora diz que eles não fazem nada exceto ter ótimas conversas; admitindo que a atração mútua resulta do efeito positivo que suas conversas exercem no modo com que enxergam a si próprios, ou seja (e ainda parafraseando Gornick:), a autoimagem projetada no amigo os engrandece. Se o convívio é tão prazeroso, eles deveriam se ver com maior frequência, não? Pois aí que está. Gornick explica que os dois são um tanto negativos, pessoas para quem o copo está sempre metade vazio, de modo que estar com Leonard força Gornick a confrontar sua própria voz, a faz relembrar o quanto ela própria é julgadora, uma mulher que sempre repara nas falhas, nas ausências, nas incompletudes. (exato, igualzinha a mim, reparando nas falhas da nova casa; vai vendo.)

Pelejo para desvendar o segredo dessas amizades preciosas, entretanto é difícil. Carrere e Hervé são totalmente diferentes, enquanto Gornick e Leonard representam imagens especulares, portanto a mágica não parece estar nas semelhanças ou diferenças compartilhadas. A consistência de encontros regulares, com intervalos espaçados, por seu turno, chama atenção, apontando para o suposto caminho das pedras. Sobretudo neste aniversário histórico, não posso evitar de pensar como seria ter uma amizade similar a desses dois autores. Talvez a situação esteja menos dura para quem dispõe do tipo de enlevo propiciado por profundas amizades. 


🔊 Quase esqueci das famigeradas mensagens de trabalho no whatsapp. Veja, nesta altura do campeonato, creio que todos colegas trabalhadores já estão cientes de que nos lascamos, confere? Por razões de naturezas distintas, o raciocínio procede tanto para quem está em casa, quanto para quem infelizmente não pode se proteger dessa forma. Aos desempregados - e aqui reside a grande crueldade da situação - procede ainda mais. A ingênua do passado: poxa, seria tão bacana trabalhar em casa, tão legal, tão cômodo... A lascada do presente: eita, quase nove horas de trabalho ininterrupto, e  não consegui entregar essa maldita meta estrambólica justificada pelo fato de estar em casa. e o chefe ainda manda mensagem "parabéns pelo dia das mulheres" às 06h da manhã. Kafka, me ajuda!" Nos momentos em que me afobo para dar conta da meta, lembro das belas e inspiradoras palavras ditas ano passado pelo atual chefe do Poder Executivo: "O homem do campo é um exemplo, realmente, de trabalhador brasileiro. Eles trabalham de segunda a domingo, por vezes, 24 horas por dia, e não reclamam de absolutamente nada. A não ser, às vezes, quando o Estado quer interferir no seu trabalho." Ele tem razão, né? Não trabalho no campo, entretanto, quando o Estado vem se meter à besta pra garantir uns direitos pra minha classe, é super chato; nada a ver. Desconfio que o nobre orador, que professou ideias tão acertadas, compartilha daquela mesma opinião do capataz alemão da Sinhá do livro Água Funda, de Ruth Guimarães:"- Fôsses, brrasileirras, non serrfem parra trrabalharrr." A mexicana Elena Garro está ligada na importância do trabalho. No excelente As Lembranças do Porvir (Tradução: Iara Tizzot), outro aparente amigo íntimo do nosso chefe do Executivo inventa de falar pro general que, do que o país precisava, era de alguém que fizesse o povo trabalhar. O general, que sequer estava de bom humor, vociferou esta sagacidade: "Pois é bom saber. Deixe de discursinhos e ponha-se a trabalhar! Pando, traga-me uma vassoura, que o companheiro aqui quer trabalhar. Varra a cantina." Depois que o cara termina de varrer o recinto, ele sai para o banheiro com os olhos cheios de lágrimas, o que claramente demonstra a gratidão que sentia pelo sublime general. Lindo de ler, aprendi muito.


🔊 Chega, né? Queria falar de outros livros, mas fica pra depois.

E lembrando: não escuto um barulhinho bom ao abrir as janelas, é verdade; porém nada que o YouTube não possa "resolver", certo? Certo, né?
"-Vou à Penha agradecer o quê, Nascimento? Estar aleijado, falido, (...)
-Você está vivo, Gattai! Acha pouco?"

                                         - Zélia Gattai, Anarquistas, Graças a Deus.