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27/05/2020

Immerse your soul in love #02 - Bell Hooks

📌 Quando a gente se mete a falar de amor, bate um constrangimento, né? O consenso, sem dúvida, é que é papo de fracassado; sobretudo quando a lorota sai da boca de mulher. Por sinal, já que Fiona Apple abriu a temporada em que está liberado assumir a insegurança de sentir-se rejeitada pelas cool girls, compartilho que, agora que inventei de groselhar sobre amor, nem Shameika acredita mais no meu potencial. Sou caso perdido? Olha, parece que não, porque ninguém mais, ninguém menos que Bell Hooks (her street credit!) solidarizou-se com meu embaraço, validou minha empreitada e ainda ampliou os horizontes de minha curiosidade amoureuse. Aqui, registrarei especificamente as partes legais do diálogo estabelecido entre All About Love e minha postagem inicial da série Immerse your Soul in Love.

Pra começo de conversa, Hooks me diz pra deixar de besteira, pois a real é que nós (tradução minha:) devemos encarar a confusão e decepção de que muito do que fomos ensinados a respeito da natureza do amor não faz o menor sentido quando aplicado na vida diária. E ela prossegue acalmando os ânimos ao me assegurar que, para se chegar ao amor, é preciso perder o medo de se arriscar; o que implica em falar a verdade, ser honesta(o) e não temer se revelar. Se é assim, então escrever sobre o tema me coloca no caminho certo. Joinha pra mim. Inclusive a própria autora comenta que, quando jovem, jamais imaginou que um dia teria coragem de falar/escrever abertamente sobre o amor, fora da segura e secreta intimidade. Isso me faz pensar no acerto do cineasta Baz Luhrmann, cujo roteiro de sua primeira (?) história de amor na telona - Strictly Ballroom - inclui o mote Viver com medo é como viver pela metade. Segundo Hooks, para largar mão do medo é preciso abraçar, acima de tudo, o amor pela vida. 

A menção do filme de Luhrmann é a deixa perfeita para recordar que o âmago (palavra pomposa, visto que o assunto é sério) de minhas inquietações partiu da forma com que o amor é explorado nas obras de ficção que cruzam meu caminho. (vide post #01) Quando me deparo com o amor em filmes e livros, tendo a repetir as palavras de Mariah Carey no clipe Honey: "Lo siento, pero no te entiendo, no comprendo. No me abandonas, papito." Pois tivesse Hooks efetivamente lido aquele meu primeiro post, ela teria soltado um "Elementar, minha cara Daniela". A autora me explica que, como não há discussões públicas a respeito do amor (não somos educados nisso, não temos uma definição comum), o espaço é ocupado justamente pela cultura pop; ou seja, falamos de amor sobretudo mediante filmes, músicas, livros, séries de TV etc, os quais se encarregam da função de guias amorosos de nossas vidas. A trapalhada é que as obras de ficção costumam ser dominadas pela mensagem de que o amor é irrelevante e/ou sem sentido, com frequência fomentando a ideia de que, embora todos anseiem o amor, é a confusão que prevalece quando ele é praticado diariamente. Coincidência ou não, a maioria dessas obras, pelo menos aquelas respeitadas como parte de um cânone, foram escritas por homens. Em seu trabalho como crítica de cultura pop, Hooks observa que o amor surge sempre como uma fantasia e, uma vez que a fantasia é domínio primariamente masculino, fica fácil entender por que homens têm sido os principais teóricos do amor. Claro, a fantasia também é um domínio feminino, contudo Hooks ressalta que a sociedade encara a fantasia feminina como mero escapismo, enquanto a capacidade de construção/elaboração da realidade é reconhecida como atributo exclusivo da fantasia masculina. A parada fica séria, e por isso divertida, quando a escritora problematiza obras de ficção que legitimam uma divergência natural entre o significado do amor para homens e mulheres; uma teórica distinção de linguagem que demandaria a adaptação do outro. Na opinião de Hooks, that's bullshit esse tipo de narrativa se populariza simplesmente porque não exige mudanças nas formas fixas como pensamos papéis de gênero, cultura e amor. 

Em dado trecho, All About Love aponta que, como reflexo do patriarcado, a televisão, o cinema e revistas rotineiramente nos dizem que homens de poder estão autorizados a fazer qualquer coisa e que é essa liberdade o que os torna homens. No ponto de vista de Bell Hooks, tais narrativas subentendem que honestidade é coisa de homem frouxo, enquanto a capacidade para desonestidade e indiferença ("- E daí?") separaria os homens dos moleques. Conforme Hooks, essa ética da dominação e violência perpetua-se na mídia porque os produtores têm intimidade apenas com essas realidades, e não com a realidade do amor. Além disso, é preciso reconhecer que cenas de violência e ação capturam muito mais a atenção do público do que imagens de paz e amor, o que também seria, na visão da autora, consequência de estruturas sociais patriarcais. 

Tá, mas qual a relevância disso tudo, certo? Bom, por coincidência, em meu último post de anotações sobre a leitura dos diários da poeta Alejandra Pizarnik, registrei a forma enérgica com que a autora argentina rejeita a possibilidade de que sua alma sofra influências negativas daquilo que ela escolhe ler, digo, ela nega que sua personalidade seja resultado, ainda que parcial, daquilo que lê. Na conversa firmada com Pizarnik a respeito desse imbróglio, posicionei-me a favor de uma teoria da via dupla: minha persona influencia os tipos de livros que escolho ler e, na contramão, os livros que leio potencialmente moldam minha persona. Essa controvérsia parece ter retornado com a leitura de All About Love, tendo em vista que Hooks acredita numa possível mudança de nossa imaginação cultural mediante narrativas que explorem novas representações do amor. Isso significaria pensar no impacto das obras, ou seja, pensar nas formas potenciais com que um filme ou livro, por exemplo, podem moldar uma cultura e influenciar o pensamento e ação das pessoas na vida diária. Ressalto, porém, que Hooks também escreve que o filme Esqueceram de Mim celebra a desobediência e a violência (oh, yeah), então talvez a posição dela sobre o tema seja meio radical. Honestamente, não sei; mas fica a nota. Por outro lado, de fato não posso discordar quando a autora lembra que obras ficcionais com famílias felizes e amorosas são costumeiramente acusadas de utópicas e inverossímeis. Vejo-me obrigada a voltar à pergunta inspirada por Pizarnik: o que veio primeiro? Foram as famílias disfuncionais da realidade ou as famílias disfuncionais da ficção? De supetão, quero responder que a disfunção na realidade veio primeiro, é claro; porém como ajustar essa resposta à convicção de que essas narrativas, ao consolidarem nosso presente modo de agir e pensar, dificultam qualquer esperança de transformações na realidade? Complicado. É igualmente crucial destacar que Hooks não faz uma defesa da censura, muito menos alega que problemas como violência doméstica sejam produtos direto da mídia. O pensamento da autora volta-se mais à necessidade de sermos críticos diante das narrativas que consumimos. Quando imagens de desumanização são vendidas como o puro suco do entretenimento, por exemplo, atos desumanos podem acabar tornando-se mais aceitáveis em nossas vidas diárias, dando amparo às reações do tipo "ah, a vida é assim mesmo; não há o que fazer".

📌 A seguir, listarei algumas respostas que Bell Hooks gentilmente ofereceu a questões específicas  documentadas no post #01, bem como a outras que rodopiavam na minha cabeça de vento:

(1) 
No Immerse you Soul in Love #01, eu disse que tinha me encantado (me encanto com tudo, que palhaça) com a seguinte fala de uma personagem do conto Do Amor, de Tchekov:"Sobre o amor, só foi dita uma única verdade indiscutível, a saber: que "grande é o seu mistério". Uh, o amor é um mistéééééééério. Hooks  me mandou tomar tento, visto que já somos toda hora bombardeadas por mensagens de que o amor é um mistério insolúvel. Ela chama atenção, por exemplo, para a grande quantidade de filmes nos quais casais supostamente apaixonados nunca conversam entre si (segura essa, Pessoas Normais/Normal People). Fiquei ensimesmada quando a autora me pediu para reparar no quanto as narrativas de apelo popular com frequência reforçam a mensagem de que o conhecimento torna o amor menos interessante e que é nossa ignorância o que o torna tão erótico e transgressor. Hooks vai além e diz que tais mensagens provêm de autores e produtores que, sem fazer ideia do que seja amor, trazem para cena somente suas visões mistificadas sobre o tema. Que cataploft levei, não? E o senhor Tchekov também, vamos combinar. Algum dia estarei pronta para bradar o bordão "mistério é o caralho"? 

(2) 
Uma das perguntas explícitas anotadas no meu primeiro post foi esta: "o amor precisa ser tão complicado?" Hooks responde que esse lance de achar que, no amor, tudo é lindo e maravilhoso e perfeito e pura harmonia energizante é papo furado infantil criado por fantasias românticas. Autêntico conto de fadas. A propósito, Hooks me lembrou que a grande Toni Morrison já dizia que a noção de amor romântico foi uma das invenções mais destrutivas na história do pensamento humano, dado trazer implícita a falácia de que, no amor, não temos escolha nem responsabilidades. A definição de amor defendida em All About Love é aquela da ação, da participação ativa, da prática, do cometimento mútuo voluntário. E daí, meus amigos, a coisa é difícil pra caramba. É um aprendizado que requer muita maturidade (detalhe: terapia para resolver trauminhas é bastante oportuna). Sobre essa temática, adorei esta citação de Rilke incluída no livro (tradução minha, do inglês): "Como tantas outras coisas, as pessoas confundiram o lugar do amor na vida, transformando-o em brincadeira e prazer porque julgaram que brincadeira e prazer são mais agradáveis do que trabalho; mas não há nada mais feliz do que o trabalho; e o amor, por ser a felicidade extrema, não pode ser nada além de trabalho..." Em resumo: sim, amor é trabalho, é complicado e pode ser permeado por momentos de dor e sofrimento. 

(3)
No conjunto das ficções do Immerse your Soul in Love #01, identifiquei um padrão meio macabro nas narrativas: à mulher, cabe o papel de morrer de amor; ao homem, o de eventualmente desejar a morte da mulher. Seria essa a tal harmonia energizante que citei acima? Pô, tremenda energia positiva. Avalio que Hooks me oferece um meio de desatar esse nó quando menciona o quanto é comum, em obras de ficção, encontrar o romance como um projeto do qual as mulheres são as planejadoras e arquitetas. Não é interessante? A autora refere até que, não raro, são os homens que comportam-se como as próprias belas adormecidas, precisando ser resgatados para o amor, pelas mulheres. É o que ela chama de Paradigma do Líder. E quem usualmente morre no final das histórias? Não seria o líder? Pois pronto.

(4)
Com essa leitura, percebi que talvez eu tenha sido amarga ao teorizar no post #01 que, depois de uma história de amor, só sobraria a doce memória que originaria uma história da carochinha pra contar. Bell Hooks me alertou para o seguinte (tradução minha): "Quando alguém conhece um amor verdadeiro, a força transformadora daquele amor persiste mesmo quando não se tem mais a companhia da pessoa com quem se viveu o profundo crescimento e cuidados mútuos." Logo, o fim de uma história de amor verdadeira nos deixa nas mãos não apenas o tempo pretérito, mas também o tempo presente. Gostei disso. De certo modo, o final do filme Retrato de uma Mulher em Chamas me fez pensar algo similar. (Aos que assistiram ao filme:)  Aquela história de amor transformou-se, para aquelas mulheres, numa reles memória do passado? Creio que as cenas finais da obra de Céline Sciamma representam a exata força transformadora atuante no tempo presente.

(5)
Dentre as perguntas não registradas no post #01, consta aquela que me fiz por conta de certas críticas ao filme Adoráveis Mulheres, de Greta Gerwig (adaptação do livro de May Alcott). Sinto comichão sempre que leio/escuto opiniões em cujas entrelinhas identifica-se a defesa de que a qualidade máxima da obra de Alcott/Gerwig prova-se pelo fato de que Jo March não se casa, de que ela e sua escrita se bastam. Estou convicta de que ainda necessitamos de mais narrativas que ajudem desconstruir o argumento de que a realização da vida de uma mulher passa exclusivamente pelo combo casamento+maternidade+vida doméstica, porém interrogo se, hoje, isso significa descartar todo e qualquer tipo de relacionamento em obras ficcionais. Hooks comenta que, em suas palestras, é comum identificar jovens mulheres resistentes ao conceito de amor como força transformadora. A autora afirma que, para tais mulheres, amor é coisa de românticas inveteradas, de gente ingênua e fraca. Hooks me parece sensata ao ressalvar que é preciso fazer uma distinção entre as relações de interdependência saudáveis, daquelas não saudáveis. Fácil, não é; mas vale desistir "só" por causa disso?

(6)
Quando li All About Love, o último filme da trilogia de Star Wars persistia muito vivo na cabeça, então peço perdão antecipadamente para admitir que li muita coisa no livro pensando na narrativa Kylo Ren/Ben Solo & Rey. Pelos ruídos que chegaram até mim, parece ter rolado acalorada discussão acerca do relacionamento dessas personagens, certa controvérsia para definir se corresponderia a uma história de amor ou à mera romantização de um relacionamento abusivo. Não cravarei uma resposta conclusiva (visto que sequer a possuo), porém acredito que Hooks, neste trecho, toca num ponto que se aplica àquilo que marca a dinâmica entre Ben e Rey, sobretudo no episódio IX (tradução minha): "Quando nos comprometemos com o amor verdadeiro, nos comprometemos a mudar, a permitir sermos afetados por aquele que amamos de um modo que assegura nossa plena autorrealização. Esse comprometimento de mudança é uma escolha. Ele acontece mediante concordância mútua.(...) O amor verdadeiro é incondicional, mas para florescer ele requer o contínuo compromisso com mudança e esforço construtivos. (...) Sacrificamos nossos velhos eus (selves) para sermos mudados pelo amor e nos rendemos ao poder de nosso novo eu (self)." Poxa, lembrei agora de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, livro cuja história de amor exige que Elizabeth e Darcy mudem, a fim de que o relacionamento seja possível. 
*****
Ao final de All About Love, Hooks agradece aos autores cujas obras ajudaram-na a compreender a vida com maior complexidade, comparando-os a anjos. Achei um belo gesto e, claro, o aproveitarei para também agradecer a autora por ter me ajudado nesse doido entusiasmo de tentar entender, um pouquinho que seja, a vida — e a ficção. 

03/03/2020

[alinhavando] Immerse your soul in love #01

Era uma vez... Um príncipe e uma princesa que, perdidamente apaixonados, casaram-se e viveram felizes para sempre? Pff, claro que não. Era uma vez um amável final de semana cujo sentido ainda está por vir. Essa história pode ser contada a partir das entradas do diário de nossa heroína.


Sábado de manhã
Ao retomar a leitura da coletânea de contos do Tchekov, me deparei com um conto intitulado "Do amor". Prontamente escapou da minha boca um "eita, isso não vai dar certo", pois sei que as histórias de amor escritas pelo contista russo não são, digamos assim, dignas de comédias românticas hollywoodianas. Não; em matéria de amor, os contos de Tchekov matam na unha — ou com uma torta na cara. 

Logo na primeira página, tive uma surpresa:
"- Até hoje, sobre o amor, só foi dita uma única verdade indiscutível, a saber: que "grande é o seu mistério",
(...)
- Nós, russos respeitáveis, nutrimos uma predileção por estas questões que permanecem sem solução." 
                                        
 
                                                                                - Do Amor, Tchekov (Tradução: Tatiana Belinky)

Com essa leve rasteira, Tchekov me arrancou um sorrisinho maroto e fez desabar a guarda erguida com esmero. Daí, quando me dei conta, eu tinha sido trucidada por uma narrativa sobre o amor, construída a partir do não dito — gestos, olhares. No arremate apoteótico do conto, o mocinho corre para se despedir da amada no vagão de trem que a levará pra longe & pra sempre e, ainda que o casal nunca tivesse trocado uma única palavra sobre seus sentimentos até aquele instante (os dois sempre muito formais e socialmente irrepreensíveis, sobretudo porque a mulher era casada), é isto que acontece:
"Quando, ali na cabina, os nossos olhos se encontraram, as forças espirituais abandonaram-nos a ambos, eu a tomei nos braços, ela apertou o rosto contra meu peito, e as lágrimas correram dos seus olhos; (...)"
                                                                                   - Do Amor, Tchekov (Tradução: Tatiana Belinky)

Sendo discípula de Anna Akhmátova, entrei nesse conto com a partida já perdida.
     
     E, no entanto, meu coração nunca esquecera
     quem deu a própria vida por um único olhar.
                                 
                                                       — Anna Akhmátova

Sábado à tarde
Retornou-me à memória uma outra cena de amantes se despedindo numa estação de trem; especificamente aquela incluída na novelinha turca (vejo, não nego, etc. ®) a qual assistira na Netflix uns anos atrás. Bateu vontade de rever alguns episódios, e em consequência uma familiar pulguinha reapareceu atrás da minha orelha; por sinal uma pulga que sussurra nos ouvidos mistérios relacionados a determinados olhares dos quais - aprendi com a leitura da manhã - Tchekov manja bem.

A história de amor em Kurt Seyit ve Åžura Ã© daquelas que desanda de um jeito pavoroso, tal qual o meme "os dois a 80km/h" e a tal ponto que o "antes e depois" dos olhares do mocinho pra mocinha é este:


Como é possível? Que dinâmica é essa; segundo a qual um rapaz então super apaixonado por uma moça pode, após o mísero intervalo de alguns anos, olhá-la com o evidente desejo de agarrá-la pela cabeça e arremessá-la contra a parede? Suponho que os russos estejam realmente corretos: amor, como é grande seu mistério. A menos que... Sim!; pois, se o amor é um mistério, como posso garantir que essa novela turca é uma história de amor?

Sábado à noite
Dado o perfil das histórias que marcaram meu dia, é justo que o título A Man in Love tenha me saltado aos olhos, no instante em que espiei o índice do meu novo livro de contos da Leonora Carrington.

Logo no início da leitura, fiquei abobalhada com um elemento compartilhado pelas narrativas de Tchekov (Do Amor) e Carrington (A Man in Love): os respectivos protagonistas (e narradores) são homens apaixonados tomados pela premente necessidade de contar as histórias de amor que viveram. O autor russo escreveu "Parecia que ele queria contar alguma coisa.", enquanto a autora inglesa escolheu "I want to talk, I want to tell my story." Não é curioso?

O conto de Carrington me lembrou demais o segundo episódio da primeira temporada da série de TV Hannibal, no qual o assassino da vez enterra as vítimas vivas (não me pergunte), a fim de servirem de adubo para uma plantação de cogumelos (repito: é inútil me perguntar). Em A Man in Love, a amada do narrador encontra-se deitada numa cama, sem se mexer, falar ou comer há 40 anos; de modo que o cara não sabe se a mulher está viva ou morta, especialmente porque o corpo permanece quente - o homem até choca uns ovos sob o corpo dela. Quando a ouvinte da história bate o olho na sujeita largada na cama, ela sugere ao leitor que ali jaz uma defunta. O narrador do causo, na dúvida, diz que rega diariamente a graminha que brota por todo o leito onde repousa a amada. Maluco & Macabro? Bom, no universo surreal da Carrington, as coisas (des-?)funcionam desse jeito mesmo; tudo normal. Acrescento apenas que aquele singelo panfletinho de rua, que certa vez cruzara meu caminho ("O amor tem que ser que nem Ipê, florecer toda vez que parecer morrer), adquiriu novos significados (nem tão singelos), depois dessa narrativa da Carrington. Se panz, melhorou demais a qualidade do panfleto.

*

                                                                  
 - Chimamanda Ngozi Adichie (falando sobre Americanah)

Domingo de manhã
Dia de ver o filme novo do Adam Driver na Netflix. (Não curto muito o diretor, maaaas:) Yay! 

2 horas e 17 minutos depois, esta cena permaneceu aporrinhando meu juízo:

Em menos de 24 horas, tive de encarar a reprise daquele olhar tenebroso (versão "depois") do protagonista turco; dessa vez, no entanto, acompanhado da verbalização de seu significado: quero que você morra! Beleza. Se a Scarlett morrer, o Adam regará o leito dela por quarenta anos, assim como fez o protagonista da Carrington? E é sempre o homem que, em dado ponto da relação, comporta-se dessa maneira, é? Sei, sei. Digo, não sei merda nenhuma. Apelei para entrevistas do Noah Baumbach no You Tube (sobretudo por conta dos sabidos elementos autobiográficos), e o camarada está afirmando que o filme é uma história de amor contada a partir da narrativa do divórcio. Ao mesmo tempo que compreendo a proposta, não consigo apaziguar o desassossego que ela provoca.

Domingo à tarde
Assisti ao filme Cold War (Pawel Pawlikowski, 2018), crente que era apenas mais um filminho sobre a Guerra Fria. Que tonta. Na real, é uma história de amor (?) em que o casal vive o dilema "ruim juntos, pior separados", o qual é levado às últimas consequências. O amor precisa ser tão complicado? O excesso de complicação pode ser usado como critério de exclusão para diagnóstico de amor? 

No mais, o filme firmou diálogo com aquele conto da Carrington. Explico. Antes de cair no estado de morta-viva/viva-morta, a mocinha de A Man in Love declamara ao amado "I love you so much I live only for you", enquanto a protagonista polonesa de Cold War promete ao amante algo bastante próximo:


Percebo que os romances do fim de semana estabeleceram um outro paralelo sinistro. De um lado, homens "apaixonados" (pero no mucho más) querem que a amada morra; do outro, mulheres apaixonadas fazem juras de viver e morrer pelos respectivos amados. Inegavelmente rola aí uma harmonização de intenções; porém, se amar for isso, náh, acho que prefiro ficar fora da brincadeira. Acho. Pô, eu seria a parte que morre na história! Eu hein.

Domingo à noite
Assisti ao penúltimo episódio da série Watchmen. Perto do final, após Angela dizer que não começaria um relacionamento sabidamente fadado à desgraceira, o Azulão a confronta com esta pergunta:


Hum, os romances ficcionais que cruzaram meu caminho neste fim de semana de fato acabaram +- em tragédia; mas por que todo relacionamento ficcional precisa terminar em tragédia, meu deus? E, depois da tragédia, parece que sobra uma doce memória que fomentará uma história da carochinha pra contar, conforme sugerido pelos contos de Tchekov e Carrington. Ah, e uma historinha contada pelos homens, já que as mulheres morrem no final. (Agora me pergunto: e casais gays? Sei mais nada.)

P.S.: mas então todas as obras do Lindelof falam de amor? Sei que The Leftovers (melhor série, forever and ever, amen) é uma delicada história de amor, e Watchmen agora sinaliza seguir o mesmo caminho. Daí Lost, no frigir das fumaças negras e ursos polares de ilhas tropicais, é mesmo uma história sobre o amor, né? Caramba, hein. Bem que a Chimamanda disse: toda literatura (eu: - ficção) é sobre o amor. 

- Lindelof, meu caro, eu nunca falei mal do final de Lost. [*Narrador em off*: - a safada mente] Se depender de mim, sua carreira continuará gloriosa.


Por ora, a história termina aqui. Com sorte, algum sentido será revelado nos próximos capítulos, mediante ajuda de um punhado de livros selecionados para compor a pilha Immerse your Soul in Love.
Até um *possível* próximo post desta série.