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06/10/2022

[alinhavando] He'll make a tree from me


Em um grupo de pessoas vestidas de luto
um garoto
olha encantado um pé de caqui.
— Abbas Kiarostami
(Tradutor: Pedro Fonseca)

Assistindo a um vlog de viagem no You Tube (despretensioso, feito por quem não é influenciadora), fui surpreendida pela seguinte confidência da turista: "Estou fascinada pelas árvores daqui. Vou mostrar minha árvore favorita." Sem exagero, afirmo ter sido uma das coisas mais delicadas que já ouvi — num vídeo de viagem, ao menos. Nos dias seguintes, o comentário da vlogueira persistiu ecoando na cabeça e me vi consumida pela triste constatação de que não tenho uma árvore favorita. Por que e como isso aconteceu? Não sei; no entanto fui tomada pela certeza de que preciso encontrar minha árvore favorita. Desse modo, durante as caminhadas no parque, resolvi parar de observar os passarinhos (é um observatório fabuloso), a fim de reparar nas árvores. A dificuldade da empreitada logo superou a prevista, sobretudo porque atinei que sequer sei o que procurar ou registrar, durante a observação. Em outras palavras: o que torna uma árvore a favorita de alguém?

Calculei que seria um bom momento para ler Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos (não, nunca tinha lido), contudo a obra só me deixou mais confusa. Para começo de conversa, Zezé não exatamente escolhe o pé de laranja lima como seu favorito. Na narrativa, o processo corresponde a um feliz encontro resultado do acaso: a família se muda de casa, cada irmãozinho escolhe uma árvore para chamar de sua e, a Zezé, sobra aquele pequenino pé de laranja lima. Descobri, também, que eu não apenas necessito encontrar minha árvore favorita, como terei de nomeá-la. Zezé, por exemplo, batiza sua plantinha de Minguinho, com direito ao apelido carinhoso de Xuxuruca. E até seu amigo português (um adulto) tem uma árvore favorita chamada Rainha Carlota, ainda que ele sempre a trate por Majestade. — Então é isto: todo mundo tem uma árvore favorita, menos eu. Ah, pronto. — Puxa vida, mas como eu poderia nomear uma árvore? Aquelas do parque se apresentam a mim tão imponentes e majestosas que, estou segura, jamais aceitariam ser nomeadas por uma humana. A propósito, o pé de laranja lima de Zezé fala (oh yeah), portanto teorizo que, na verdade, tenho de ouvir o nome das árvores, que elas próprias me dirão. Bom, nem preciso contar que não consegui ouvir nada, preciso? Para ouvi-las, possivelmente tenho de pedir a Deus meu passarinho de volta; aquele passarinho que, segundo o tio de Zezé, eu teria devolvido ao chegar (supostamente) na idade da razão.

Retornando ao vídeo da vlogueira para checar se ela explica o motivo daquela danada ser sua favorita, me deparei com isto: "Minha árvore favorita, ali está ele. Ou ela. Ele/Ela tem um certo ar que impressiona." Ah, pois é, outro problema a sanar: qual será o gênero da minha árvore favorita? Que imbróglio. Enfim, ao prestar melhor atenção nas árvores, sinto, conforme adiantei, uma presença bastante grandiosa, o tal ar que impressiona dito pela youtuber, porém isso se aplica a todas elas. Por outro lado, notei que cada uma emana, de fato, certa particularidade cuja percepção exige sensibilidade do observador. No ótimo livro Lembranças do Porvir, escrito pela mexicana Elena Garro, há uma passagem que aborda, de um jeito engraçado e preciso, essa questão à qual me refiro. A costureira Blandina vai até a casa dos Moncada, para preparar o enxoval dos filhos da família que partiriam em breve, e informa que, para trabalhar, não pode ficar entre paredes, sendo necessário que ela veja folhas. O detalhe é que não pode ser qualquer folha: 

"—Aqui está bem, dona Blandina?
— Não, não, não! Vamos para lá, em frente às tulipas... estas samambaias são muito intrigantes...!"

Colocada de frente às tulipas, nova queixa:
Muito vistosos! Muito vistosos! - disse com desgosto. Se não se incomodam prefiro estar em frente às magnólias."

Posicionada então diante das magnólias, outra reclamação:
"São muito solenes e me deixam triste."

Após testar a paciência da família, aqui está o ângulo da varanda no qual Blandina se encontra (grifo meu):
"— Daqui só vejo a folhagem; o alheio se perde entre o verde."

                                                                — Elena Garro, Lembranças do Porvir (Tradução: Iara Tizzot)


Quer dizer, umas são intrigantes, outras vistosas e algumas solenes. Por sinal, lembro que a série Dickinson também explora brevemente esse mesmo ponto, mediante esta personagem* que atesta a impossibilidade de paz, quando estamos sentados ao lado de uma roseira:  
(* = Ninguém menos que Frederick Law Olmsted, o paisagista responsável pelo projeto do Central Park.)

No meu caso, porém, o que prevalece durante as caminhadas é a forte sensação de ser observada atentamente pelas árvores. Por alguma razão que não sei explicar, inclusive, sinto que elas me observam a partir de suas cascas. É provável que isso decorra do simples fato de que as cascas estão facilmente à mostra, logo na altura de meus olhos, refletindo meu próprio olhar. Além disso, admito que a casca é o que mais tem chamado minha atenção; e fico apalermada diante da encantadora variedade de formas, cores, texturas, desenhos — a imagem no início do post são algumas cascas fotografadas durante recentes andanças. Dessa maneira, conjecturei que encontraria minha árvore favorita, caso seguisse as pistas das cascas. Assim, lembrei que o filósofo Georges Didi-Huberman escreveu um livro intitulado Cascas, o qual saquei para imediata leitura. Tal qual Meu Pé de Laranja Lima, o livro de Didi-Huberman não me ajudou tanto, visto que a obra realmente concentra-se na reflexão filosófica acerca de como recordar/ler o passado do holocausto; quer dizer, como construir e preservar essa memória para efeitos no presente. Simultaneamente, porém, foi bastante intrigante constatar que, durante a visita ao campo de concentração Birkenau, o filósofo foi tomado pela urgência exata de arrancar lascas de cascas das Bétulas que povoam o bosque daquele local. Nas palavras do autor (tradução: André Telles): "(...) três lascas de tempo. Meu próprio tempo em lascas: um pedaço de memória, essa coisa não escrita que tento ler; um pedaço de presente aqui, sob meus olhos, sobre a branca página; (...)". Ao descrever as Bétulas que testemunharam o horror ali cometido contra os judeus, Didi-Huberman diz que seus troncos possuem uma enorme força visual que chega até a tornar discreto o arame farpado, os postes de cimento e os fios eletrificados do campo. Ainda segundo o autor, as Bétulas transmitem uma paradoxal serenidade verdejante, com toda a delicada beleza dos troncos brancos com suas manchas, que evocam resquícios de alguma partitura musical. Em consequência, ele me ajudou a perceber que os relevos de um dos troncos que avistei remete a caixinhas de música (!).  Ao contrário de Zezé, quem sabe eu precise estar atenta para ouvir não a fala verbal, mas sim a música das árvores...? Melhor: tocá-las para ouvi-las? [Vixe, neste ritmo, logo virarei a louca que abraça árvores.]


Didi-Huberman assegura que a casca das árvores não exatamente equivale àquela mera superfície que esconde a verdadeira essência das coisas; afirmando que as árvores se exprimem pela casca; ou que, em todo caso, elas se oferecem ao exterior mediante as cascas. Esse pressuposto é usado pelo autor como metáfora para fundamentar a necessidade de olharmos feito arqueólogos o espaço soterrado do campo de concentração, a fim de localizar elementos que ajudarão a firmar a memória daquele evento histórico. Embora a fundamentação faça sentido, não nego que ela acabou por estremecer minha impressão de que as árvores estariam me encarando de volta a partir de suas cascas; quero dizer, a palavra "superfície" permaneceu piscando pra mim. Para piorar, durante a rápida pesquisa feita objetivando rememorar informações biológicas sobre cascas, esbarrei com o óbvio: essa é a parte morta da árvore, logo como elas poderiam estar me enxergando pela casca?! Felizmente, entretanto, meu sentimento de estupidez se esvaiu quando minha memória catapultou à superfície (😉) um trecho do ensaio The Naive Reader, no qual a poeta dinamarquesa Inger Christensen escreve (tradução dinamarquês ➝ inglês: Susanna Nied; inglês ➝ português: minha):
"Eu consigo enxergar uma árvore, enquanto a árvore presumivelmente não consegue me enxergar. Mas o que significa "enxergar"? Isso é linguagem humana. É claro que é correto dizer que uma árvore não enxergou nada, porém, à sua maneira, a árvore me enxergou. Ela registrou presença humana, nem que tenha sido nada além da poluição do ar. (...)"

                                                                           — Inger Christensen, The Naive Reader 

Certo; reescreverei, portanto, minha declaração: as árvores do parque registram minha presença. O curioso é que, naquela mesma pesquisa, o Google acidentalmente (?) me mostrou um artigo que aborda a possibilidade de avaliar a qualidade do ar a partir do estudo da casca das árvores. (Link: X)

Ao revisar os procedimentos desta busca, aventei a possibilidade de que talvez eu não esteja observando direito; falha que potencialmente possa ser corrigida, caso eu me dedique ao desenho e à pintura das árvores do parque. Essa hipótese me foi soprada ao ouvido pelo pintor David Hockney que, no livro A Bigger Message, explica a Martin Gayford que desenhar nos permite ver melhor e cada vez mais claro, nos permite enxergar o mundo com maior intensidade. Na ocasião em que tivera essa conversa com Gayford, a obra de Hockney estava marcada pela presença de árvores que, na opinião do pintor, são a maior manifestação de força vital que testemunhamos, cada uma única — e Gayford complementa (no que Blandina concordaria): gigantes vegetais, algumas heroicas, algumas elegantes, outras sinistras. Fiquei aliviada quando Hockney acrescenta que árvores não são fáceis de desenhar, especialmente a folhagem — "não parecem seguir as leis da perspectiva, com linhas seguindo em todas as direções" — porque eu mesma enfrento muita dificuldade ao tentar desenhá-las. Das pinturas que já fiz, gosto desta onde, sem surpresas, predominam tronco e casca:


O que ocupa minha mente nos momentos em que contemplo as várias árvores do parque, em especial agora que sinto e vejo incontestáveis sinais de envelhecimento em meu corpo, é sobretudo o verso de Tom Waits usado para intitular esta postagem: He'll make a tree from me / ~Ele fará, de mim, uma árvore  (música Green Grass voltando ao blog). Ou seja, é o pensamento de que se aproxima a hora em que cederei todos os meus átomos para a eventual constituição de uma daquelas (ou outras) árvores. Nem de longe trata-se de um sentimento mórbido ou pesaroso. Juan Ramón Jimenez, no lindo livro Platero e Eu, escreveu de modo muito mais bonito e certeiro o que tento expressar. Colarei o trecho aqui, extraído do breve poema em prosa no qual o autor nos diz o que percorre seus pensamentos, quando ele avista o pinheiro no alto da montanha da cidade espanhola de Moguer (grifo meu):
"Quando, no vaguear de meus pensamentos, as imagens arbitrárias se colocam onde querem, ou nos instantes em que há coisas que se veem como numa segunda visão e à parte do que é distinto, o pinheiro do Alto da Montanha, transfigurado como que num quadro de eternidade, surge-me mais eloquente e mais gigantesco ainda, na dúvida, chamando-me para descansar em sua paz, como o término verdadeiro e eterno de minha viagem pela vida."

                                                 — Juan Ramón Jiménez; Platero e Eu (Tradução: Monica Stahel)


Por ora, sou obrigada a encerrar esta postagem sem que eu tenha encontrado minha árvore favorita. Acredito que seja uma questão de acaso realmente. Ou talvez eu não esteja pronta. Não chegou a hora? Falta a vivência de uma história, que construirá uma memória afetiva? No máximo, tenho uma árvore que já há algum tempo me é muito querida: um ipê amarelo localizado em frente à rodoviária de Brasília. Quando está todo florido, esse ipê vive rodeado por pessoas tirando fotos; porém basta que suas flores amarelas caiam e seus galhos sejam tomados por abundantes folhas verdes, para que todos esqueçam dele. Desde que notei isso, faço questão de travar um diálogo silencioso com o Ipezinho da rodoviária, sempre que passo por ele durante trajetos de ônibus: "Olá, Ipezinho, estou te vendo e você segue bonito como sempre." Ao mesmo tempo, que sei eu daquele Ipezinho? É possível que ele nem curta a badalação e prefira não ser importunado. Sua voz ou sua música, nunca consegui ouvir, então eu não saberia dizer. De qualquer forma, ressaltarei que estas duas do parque em que caminho, que aparentam se abraçar (brigar por espaço?! xi), aos poucos me fazem sorrir:

11/05/2021

[alinhavando] sobre janelas, bicicletas e gagueiras

Às vezes fico preocupada com o quanto você olha por essa janela
, comentou, certa vez, minha mãe. Noutra ocasião, o desassossego a fez perguntar: no que tanto você pensa aí, afinal? Confrontada pela direta pergunta, me dei conta de que, na verdade, não penso em nada quando estou à janela. Por outro lado, é possível que eu esteja tão profundamente imersa em pensamentos que, ao ser chamada, perco o fio da meada, tal qual um mergulhador que emerge sem a adequada descompressão. No livro Des Histoires Vraies, Sophie Calle compartilha uma foto da vista de sua janela, explicando que aquela é a imagem mais fotografada por seus olhos, ou seja, é a imagem da vida dela. Talvez seja isso; digo, a cada volta à casa dos pais, descubro que alguma coisa da suposta imagem de minha vida (infância, adolescência) não está mais lá, foi substituída por algo novo que preciso assimilar, o que requer longos períodos contemplativos. Uma teoria, apenas. 

No primeiro episódio da série Joe Pera Talks with You, o singelo protagonista fala que jamais poderia vender a casa em que mora, pois ela tem os melhores lugares para pensar, dentre os quais inclui-se o lado da cama de onde é possível observar a vista da janela. Sendo um homem solitário habitante de um lugar frio, Joe reconhece ter bastante tempo livre para pensar em questões urgentes como "Qual o futuro dos jantares casuais?", portanto é essencial que a casa dele tenha um lugar perfeito para pensar. Suspeito de que Joe não ficaria intrigado com o tempo que passo à janela.

Esses devaneios sobre janelas retornaram-me devido ao recente vídeo em que Gilberto Gil exibe as lindas janelas de seu novo apartamento. Sem exagero, quando meus olhos capturaram aqueles janelões lindos, de frente para o mar de Copacabana, quase chorei. No breve vídeo, o músico diz algo que definitivamente atesta sua larga experiência de janeleiro: abrir uma janela não significa apenas deixar o exterior entrar, mas também abrir-se para si próprio. Gil ressalta que a janela dá o poder da interioridade exteriorizar, ou seja, a janela não apenas traz o exterior pra dentro, como também leva o interior pra fora. É, creio que Gil é mais um que não ficaria intrigado com o tempo que passo à janela.

A todas as pequenas desvantagens de meu novo apartamento (registrei algumas em post anterior), acrescento agora a ausência de uma janela perfeita para pensar em nada. Localizando-se de frente para a outra torre do condomínio, meu novo lar assemelha-se ao apartamento onde Valeria Luiselli morou em Nova York, conforme ela descreve no livro Papeles Falsos: de dia, as paredes e janelas dos vizinhos dominam a vista; de noite, os vidros das janelas refletem o interior do próprio apartamento. A autora defende que essa impossibilidade de ver o mundo externo, substituída, à noite, por nosso próprio reflexo nos vidros, corresponde a uma estratégia arquitetônica que pretende criar a ilusão de privacidade em cidades onde, efetivamente, as vistas são um constante convite à bisbilhotagem. Embora ciente de que espiar a vida dos outros é sempre arriscado, uma vez que as posses e felicidades alheias podem resultar, pelo irresistível ato da mera comparação, numa onda de tristeza; a autora se arrisca e depara-se com uma realidade amarga: os vizinhos levam vidas tão chatas quanto a dela. A parte mais divertida, achei, é quando ela teoriza que nada acontece na janela alheia porque todos têm um computador/celular. Para Luiselli, a invasão de nossas casas por esses aparelhos implicou na impossibilidade de vidas interessantes o suficiente para satisfazer um vizinho voyeur. Ela não toca no assunto, porém o faço eu: os malditos celulares tornaram-se nossas janelas pro mundo, e isso me entristece um bocado (em postagem prévia, tangenciei o tema, ao comparar nossa situação atual a uma cena do livro Frankenstein, alinhavando-a ao livro The Lonely City, de Olivia Laing). A propósito, Luiselli me fez perceber que, se duvidar, só mantenho a cortina fechada para que o vizinho não descubra que passo até doze horas do meu dia diante do computador. Que deprimente. [P.S.: por razões óbvias, evito manjadas ironias com o filme Janela Indiscreta.]

Sendo um pouquinho mais grata por aquilo que tenho, devo reconhecer que a janela do banheiro me oferece uma vista bastante digna. No livro Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki destaca os prazeres das antigas latrinas em estilo japonês, ao ar livre, considerando indescritível a sensação de contemplar o jardim pela janela e se perder em pensamentos. Então, enquanto cagavam e apreciavam o luar, poetas japoneses vislumbraram temas para seus haicais*; eu, enquanto tomo banho e aprecio as luzes da cidade, confabularei novas groselhas para este blog. [* = foi Tanizak quem escreveu, tenho nada a ver com isso.]

🚴


Valeria Luiselli exerceu grande papel na conversão desta corredora/andarilha que ora escreve numa ciclista mequetrefe. Destaco que não houve apostasia, pois todo dia ainda é um bom dia para correr/caminhar. Por sinal, essa historinha também começa com a bendita mudança de apartamento. Durante a separação dos itens para doação, a velha bicicleta que viveu encostada por dez anos na parede da cozinha pediu piedade: — Dani, me dá uma chance, confia em mim. Enquanto ponderava com a empoeirada magrela, lancei mão do manifesto de Luiselli a favor das bicicletas.

Luiselli alega que, ao contrário de caminhantes e corredores, o ciclista não está preso ao ritmo e modulações de mais ninguém, estando livre para entregar-se plenamente à solitude e ao doce fluxo dos próprios pensamentos. — Ressalto que ela parece ignorar que, em cidades brasileiras, um ciclista, mesmo trafegando numa ciclovia, corre o risco de ser assassinado por um motorista. Será que as coisas são diferentes no México? Acredito que ela tenha em mente cidades europeias; não sei. — Bom, ressalva feita, afirmo que os argumentos dela sobre o quanto o ciclismo pode ser generoso com o ato de pensar me convenceram em definitivo e fizeram a velha bicicleta sobreviver às doações. Sobre duas rodas, Luiselli me garantiu que o ciclista consegue encontrar o ritmo perfeito para observar a cidade, pondo-se na posição simultânea de testemunha e agente. Lendo as palavras da autora, tive a impressão de que a bicicleta poderia me proporcionar prazer semelhante àquele de olhar por uma bela janela. Hoje, após alguns bons passeios, confirmo que Luiselli está certa: aquele que descobre o ciclismo como uma atividade sem finalidade específica sabe possuir uma estranha forma de liberdade comparável apenas àquela do pensamento ou da escrita. Quem não tem janela, pensa com bicicleta. So it goes. [P.S.: quanto tempo até que eu apareça no blog, escrevendo que caí da bike e quebrei todos os dentes? Se eu continuar procurando passarinhos; logo, logo.]

Para fechar esse ponto do alinhavo, uma última nota. Ignoro se atualmente ainda ocorre entre europeus, mas fiquei encantada quando li, no livro da dinamarquesa Inger Christensen e no do francês Raymond Radiguet, relatos de famílias que, na primeira metade do século XX, fizeram viagens intermunicipais de bicicleta. Ok, talvez não seja tão glamoroso quanto eu esteja idealizando (a canseira; o "detalhe" da 2a. Guerra), porém imagine a vista dessas janelas itinerantes?! 

🍃

No último post sobre os diários de Alejandra Pizarnik, escrevi que a descoberta de uma suposta gagueira da poeta me pôs num estado reflexivo, e a razão, em parte, recai sobre uma passagem do livro de Luiselli. Antes, contudo, quero registrar uma cena do filme visto hoje, o Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami; a qual resgatou estes desvarios gagos. Numa conversa com o ("futuro") marido, a personagem de Binoche diz que a irmã, embora casada com um homem simplório e gago, julgava ter como marido o melhor homem do mundo, ouvindo o MMMMM-Marie como quem ouve uma canção de amor. O interlocutor de Binoche não se surpreende com o relato, compreendendo que o marido gago simplesmente se detém, agarra-se ao nome da amada. O golpe de misericórdia do filme é dado mediante a última fala de Binoche que, na tentativa de convencer o marido a dar-lhes uma chance, suplica: JJJ-James.

Pronto, voltemos à Luiselli, pois sozinha não consigo desenvolver estes pensamentos. Por intermédio da autora, conheci este poema de Ghérasim Luca, Passionément, no qual o eu lírico, gaguejando desde o primeiro verso, declara sua paixão: 

pas pas paspaspas pas 
pasppas ppas pas paspas 
le pas pas le faux pas le pas 
paspaspas le pas le mau 
le mauve le mauvais pas

(...) 

t'aime je t'aime passionnément 
je t'ai je t'aime passionné né 
je t'aime passionné 
je t'aime passionnément je t'aime 
je t'aime passio passionnément

(...)

Luiselli me conta que Luca foi um poeta romeno que teve de abandonar seu país e exilar-se na França, onde escreveu poemas gagos cheios de buracos. Luca habitava o francês, língua que era-lhe estrangeira, levando-o aos limites da sintaxe, ao outro lado da gramática. No ensaio, Luiselli recorda que, segundo Deleuze, quando a língua é tensionada a tal ponto em que a gagueira se inicia, significa que ela alcançou seus limites, passando a confrontar o silêncio. Depois dessa, como não ficar pensativa ao descobrir que uma poeta de quem se gosta pode ter sido gaga? E como não ficar desnorteada quando uma mulher apaixonada pronuncia (*importante: em meio a idas e vindas entre inglês, francês e italiano) o nome daquele que ama deste jeito: JJJ-James? (Ah, se eu te pego, Kiarostami.) 

É; a janela que busco é aquela que me permita mergulhar no silêncio.

13/03/2021

[alinhavando] eta barulhinho bom!

  




🔊 Concluí a mudança de apartamento em fevereiro, porém, como a nova escrivaninha chegou há apenas alguns dias, só agora retorno ao blog. Não; seguindo a praxe, não significa que tenho algo relevante pra registrar, mas apenas que bateu uma intensa vontade de escrever um bocadinho, o que atribuo ao aniversário de um ano de isolamento/distanciamento social. Conforme aponta Amanda Mull em artigo publicado no The Atlantic, a pandemia pausou as relações sociais casuais que, para o bem ou mal, eram basicamente do que eu dispunha para trocar ideia com um ser humano. (- A resposta é sim, Dr. Dráuzio.) Atualmente, conto com as mensagens diárias no whatsapp estritamente relacionadas ao trabalho (voltarei a esse tema), assim como as ligações para a família que reside noutro estado, a fim de saber, principalmente, se estão todos bem. Portanto, na falta de outra possibilidade concreta de jogar conversa fora com uma pessoa, o faço comigo mesma mediante a escrita no blog. (Meio deprê, né? Oh, well.) Planejo adotar a singela tática desta personagem de Kafka:
"(...) escrever ao amigo só sobre incidentes insignificantes, da maneira como estes se acumulam desordenadamente na lembrança, quando se reflete sobre eles num domingo tranquilo."
                                                            - O Veredito; Franz Kafka (Tradução: Modesto Carone)

Do que diabos estou falando?! E essa já não é minha estratégia predominante no blog? Nem saberia escrever de modo diferente. Aliás, a tática da personagem é singela, mas esse adjetivo não serve para caracterizar o conto de Kafka. Talvez não seja o momento oportuno para ler o autor, porém, de fato, tem sido pra mim; sobretudo porque meu novo trabalho (nem tão novo mais) me lançou numa realidade que me parece insana. Sabe quando a gente pergunta pra uma amiga "vem cá, eu não tô ficando doida, tô? isso aqui é completamente sem sentido, não é? não é?". Pronto; o Kafka está na posição da amiga. Infelizmente a responsabilidade jurídica não me permite desabafar e divagar a respeito dessa conexão Kafka x Trabalho, contudo deixo esta pergunta: e aquele Na Colônia Penal, hein? Ô lôco, né? 


🔊 Mas não deixam de ser inusitadas, essas lamúrias pela perda dos papos furados diários que trocávamos antes do maldito vírus. Dia desses assisti ao filme Bom Dia (1959), do Yasujiro Ozu (♥️), e o discurso que o garotinho dispara quando o pai o manda se calar, parar de reclamar e falar tanto, me impressionou:
"São os adultos que falam demais. "Olá.", "Bom dia.", "Boa noite.", "O tempo está bom, não está?", "Sim, está.", "Aonde está indo?", "Ah, só caminhando por aí", "Ah, é?". Um monte de conversa fiada. "Entendo, entendo" - entendo o quê?!"
Ao final do filme, uma bela e simples cena sugere que a criança possivelmente precipitou-se ao criticar tão duramente as conversas banais do dia a dia. Em resumo, tratava-se do instante em que mais um diálogo corriqueiro permitia que um casal se aproximasse, que uma relação humana aos poucos se estreitasse e o prospecto de uma nova vida a dois surgisse. (assim começam as famílias de Ozu?) Para minha grata surpresa, o livro The Condition of Secrecy, coletânea de ensaios escritos pela poeta dinamarquesa Inger Christensen, me presenteou com uma citação de Novalis que, teorizo, é capaz de elucidar aquele desfecho do Ozu (tradução livre, a partir da tradução para o inglês por Susanna Nied):

"(...) conversação é um mero jogo de palavras. Só nos resta nos admirar com o risível erro que as pessoas cometem - acreditar que falam sobre coisas. Ninguém atina para o que é mais peculiar à linguagem, que ela refere-se apenas a si mesma. Por essa razão, é um mistério maravilhoso e fértil - quando alguém fala apenas por falar, expressa precisamente nesse momento a mais esplêndida e original das verdades. Já quando alguém deseja falar sobre algo específico, então a língua temperamental o faz dizer as coisas mais engraçadas e perversas."

                                     - Monólogo, Novalis; citado por Inger Christensen no ensaio It's All Words. 

Então, peço licença, do jeitinho de Isamu, para prosseguir falando groselha neste post. No entanto, basta apertar minha testa, que eu me calo e solto um peido; novo talento que aprendi com Isamu e seus sábios amigos. 

🔊 Beleza, retornemos à imagem que ilustra o topo desta postagem, extraída da série Pretend It's a City (Netflix), na qual Fran Lebowitz, a escritora que não escreve, mas reclama (e lê)® (?! - she's living the dream), ironiza os riquinhos que desembolsam U$500,00 numa sessão de terapia, só pra reclamar do barulho da cidade de Nova York. Obviamente entendo o ponto dela (pertinente, inclusive), MAS  < atenção, lá vem o choramingo da burguesa >, dado que ouvi essa fala no dia seguinte a uma intensa e longa crise de choro desencadeada pela descoberta de que eu me mudara para um apartamento onde os ruídos são intensos, não pude evitar o desbarato. Recentemente assisti ao filme A Montanha dos 7 Abutres (Billy Wilder, 1951), no qual um homem fica preso por seis dias numa mina, e a queixa que ele externa com maior desespero refere-se justamente ao contínuo barulho intervalar da perfuradora que tenta abrir caminho até ele, através da rocha. O sujeito implora para que, pelo amor de deus, parassem de perfurar, pois já não aguentava mais o som das insistentes pancadas. Puxa, me sensibilizou demais. Enfim, ainda que Lebowitz tenha lá razão (e tem mesmo), não se pode desconsiderar o quanto a poluição sonora afeta nossa saúde. Nesta época em que sequer podemos sair de casa, então, nem se fala; e Alceu Valença comparece para corroborar meu devaneio  - "a obra do vizinho não deixa o poeta dormir, pensar". Calcule a situação atual do novo velho lar: andar alto + próximo a uma linha de metrô elevada do solo e sem cobertura + próximo a avenidas com tráfego intenso nos horários de pico + dividindo paredes com dois apartamentos distintos + um dos vizinhos reformando a unidade + vizinhança de doguinhos que curtem latir 24h/dia + alarme sonoro de portão de garagem que dispara toda hora. Sim, estou ciente de que a única pergunta pertinente é "mas por que se mudou pra esse apê, sua imbecil??". Bom, num esforço para aliviar minha barra, elaboro a seguinte mequetrefe desculpa: ora, eu tive de ponderar todas as variáveis considerando a realidade de um mercado imobiliário ridículo; e após uma única visita de meros quinze minutos realizada pela manhã, fora do horário de pico, "portanto" acabei errando feio nos cálculos, inclusive na estimativa de minha tolerância a ruídos. De todo jeito, o choro está sob controle e esforço-me para desligar dos barulhos, porém admito que é complicado (e triste). Estou praticamente vivendo o que a família do filme Home (2008), da cineasta Ursula Meier, viveu; e receio terminar esta provação (mão no peito, olhos fechados) tal qual Isabelle Huppert: completamente louca, tapando todas as janelas e frestas da casa até morrer asfixiada. A fita crepe, já pus pra jogo; o próximo passo será a concretagem das janelas. E pensar que, quando vi esse filme, ri um bocado dos franceses que, subitamente, se veem morando à beira de uma rodovia. Bem feito pra mim.

Só agora percebo que essa lenga-lenga é quase uma metáfora ruim para a realidade atual, né? Estamos nos trancafiando em nossas casas, tapando os contatos com o mundo externo na tentativa de nos proteger de um vírus. Simultânea e perversamente, reconheço que eu deveria ter iniciado essa historinha com a mesma estupenda primeira frase do romance O Diabo no Corpo, de Raymond Radiguet: "Vou me expor a recriminações."Sim, pois, em meio a uma pandemia que tem gerado desemprego e miséria, é forçoso agradecer por, afinal, ter um trabalho, um salário para pagar as despesas de uma casa - ainda que barulhenta.

*: a propósito, esse deveria ser o nome do blog.


🔊 Para encerrar essa saga do novo velho lar, continuarei a me expor a recriminações, porque confessarei que também me entristeceram os pequenos problemas arquitetônicos e estruturais que fui descobrindo no apartamento, além de toda a dificuldade, logística e financeira, inerente a possíveis reformas e projetos de decoração. Achava que finalmente teria uma casa do jeito que eu sonhava e me dei mal. Igualmente não ajuda me estressar com qualquer manchinha/irregularidade na parede, qualquer porta que não fecha direito, qualquer lasquinha num móvel, qualquer cheiro estranho etc... Culpa do Instagram e de vídeos de decoração no Youtube? Pode ser, hein; pode ser. Enquanto assisto àquela série Schitt's Creek, os lençóis com os quais David veste sua cama sempre me enternecem. Ele até podia morar num motel forreca, agora que a família estava falida, mas ao menos sua cama ele faz questão de manter bonita. Sei que eu não teria essa força de espírito; que seguiria na vibe tá tudo uma merda mesmo, então foda-se.

Em meio a esse abatimento fútil, mal acreditei quando uma escritora japonesa do ano 1000/1001 (!!!!!!) veio ao meu socorro. Com a contribuição da incrível equipe de tradutoras que trabalharam na edição da Estação Liberdade Editora 34, Sei Shônagon acalentou meu coração:
"A casa de uma dama que vive sozinha apresenta-se bastante danificada: muro de terra batida por terminar, plantas aquáticas que invadem o lago e, embora o jardim ainda não esteja totalmente coberto de artemísias, podem-se ver ervas daninhas verdes por entre as pedrinhas - uma imagem de tanta solidão chega a comover. É tão desinteressante quando nada há para ser consertado, com o portão bem trancado e tudo na mais devida ordem, que nos enfastiamos muito."

- Sei Shônagon; O Livro do Travesseiro. (Tradução: Geni Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto,                                                                         Luiza Yoshida, Madalena Hasimoto)

Olha, vindas de uma mulher que tanto valorizava a beleza das coisas, essas palavras foram tocantes. No fim das contas, estou desencanando. Como a própria Shônagon também escreveu, as coisas feias existem no mundo (eu sou uma delas, caramba**) e não é possível evitá-las, nem deixar de registrá-las.
**:

                                                                                   
🔊 Quanto drama por tanta besteira, né? Nossa, nem eu me aguento mais com esse papo, o que pode ser outra consequência do isolamento extremo. Se Lebowitz estiver seguindo o isolamento com rigor (nem estou cobrando), estará satisfeita por reclamar apenas de si própria? É, pode ser que ela tenha dado uma pausa nas reclamações ixpertíneas, para focar apenas em suas leituras, vai saber. No conto The House of Fear, da Leonora Carrington, a protagonista assume sem cerimônias que, por ser super reclusa, acabava falando demais consigo mesma, tendendo a repetir as mesmas coisas. A personagem reconhece ser uma chata e que ela, melhor que qualquer um, tinha plena consciência disso. É aquilo: não há nada melhor do que ficar quieta no seu canto, sozinha, curtindo o silêncio..., MAS: durante um ano? Na versão extreme? Para espanto próprio, suspeito de que talvez seja excessivo, com efeitos colaterais geradores de um círculo vicioso potencialmente autodestrutivo.


🔊 Daí, tenho pensado com frequência nestas duas marcantes e especiais amizades que conheci ano passado:

- Emmanuel Carrère & Hervé, livro O Reino;

- Vivian Gornick & Leonard, livro The Odd Woman and the City.

Fiquei deslumbrada com as características que Carrère destaca a respeito do amigo Hervé: não era irônico nem maledicente, não praticava o mal, não se preocupava com o efeito que produzia, não jogava nenhum jogo social." (> que bálsamo.) Carrère sentia que a convivência com o amigo não era estúpida nem exaustiva feito aquela dos mundinhos do jornalismo e editorial francês ao qual estava habituado. Também adorei quando o autor comenta que Hervé fazia parte da família de pessoas para quem existir não era óbvio. Porém o mais legal dessa amizade, achei, é isto aqui: na publicação do livro, fazia 23 anos que os dois se encontravam, toda primavera e outono, na aldeia francesa Levron; período durante o qual caminham longamente. Carrère garante que Levron e a amizade com Hervé são os lugares para onde vai inquieto, e de onde volta resserenado. Carrére descrevendo a amizade:
"É uma amizade íntima: agora mesmo eu escrevia que, como todo mundo, Hervé tem seus segredos, mas acho que não os tem para mim, e o que me faz pensar isso é que não os tenho para ele. nada é vergonhoso a ponto de eu não poder lhe contar sem sentir um pingo de vergonha: pode parecer inacreditável dizer isso, mas sei que é verdade. É uma amizade serena, que não conheceu crise nem eclipse e que se desenvolveu ao abrigo de toda interferência social."

                                                           - Emmanuel Carrère; O Reino. (Tradução: André Telles) 

Já no texto de Vivian Gornick, os paradoxos presentes nas grandes amizades ganham um espacinho. Ela e Leonard também contam com mais de duas décadas de amizade, sempre se encontrando uma vez por semana para caminhar, jantar, assistir a um filme. A autora diz que eles não fazem nada exceto ter ótimas conversas; admitindo que a atração mútua resulta do efeito positivo que suas conversas exercem no modo com que enxergam a si próprios, ou seja (e ainda parafraseando Gornick:), a autoimagem projetada no amigo os engrandece. Se o convívio é tão prazeroso, eles deveriam se ver com maior frequência, não? Pois aí que está. Gornick explica que os dois são um tanto negativos, pessoas para quem o copo está sempre metade vazio, de modo que estar com Leonard força Gornick a confrontar sua própria voz, a faz relembrar o quanto ela própria é julgadora, uma mulher que sempre repara nas falhas, nas ausências, nas incompletudes. (exato, igualzinha a mim, reparando nas falhas da nova casa; vai vendo.)

Pelejo para desvendar o segredo dessas amizades preciosas, entretanto é difícil. Carrere e Hervé são totalmente diferentes, enquanto Gornick e Leonard representam imagens especulares, portanto a mágica não parece estar nas semelhanças ou diferenças compartilhadas. A consistência de encontros regulares, com intervalos espaçados, por seu turno, chama atenção, apontando para o suposto caminho das pedras. Sobretudo neste aniversário histórico, não posso evitar de pensar como seria ter uma amizade similar a desses dois autores. Talvez a situação esteja menos dura para quem dispõe do tipo de enlevo propiciado por profundas amizades. 


🔊 Quase esqueci das famigeradas mensagens de trabalho no whatsapp. Veja, nesta altura do campeonato, creio que todos colegas trabalhadores já estão cientes de que nos lascamos, confere? Por razões de naturezas distintas, o raciocínio procede tanto para quem está em casa, quanto para quem infelizmente não pode se proteger dessa forma. Aos desempregados - e aqui reside a grande crueldade da situação - procede ainda mais. A ingênua do passado: poxa, seria tão bacana trabalhar em casa, tão legal, tão cômodo... A lascada do presente: eita, quase nove horas de trabalho ininterrupto, e  não consegui entregar essa maldita meta estrambólica justificada pelo fato de estar em casa. e o chefe ainda manda mensagem "parabéns pelo dia das mulheres" às 06h da manhã. Kafka, me ajuda!" Nos momentos em que me afobo para dar conta da meta, lembro das belas e inspiradoras palavras ditas ano passado pelo atual chefe do Poder Executivo: "O homem do campo é um exemplo, realmente, de trabalhador brasileiro. Eles trabalham de segunda a domingo, por vezes, 24 horas por dia, e não reclamam de absolutamente nada. A não ser, às vezes, quando o Estado quer interferir no seu trabalho." Ele tem razão, né? Não trabalho no campo, entretanto, quando o Estado vem se meter à besta pra garantir uns direitos pra minha classe, é super chato; nada a ver. Desconfio que o nobre orador, que professou ideias tão acertadas, compartilha daquela mesma opinião do capataz alemão da Sinhá do livro Água Funda, de Ruth Guimarães:"- Fôsses, brrasileirras, non serrfem parra trrabalharrr." A mexicana Elena Garro está ligada na importância do trabalho. No excelente As Lembranças do Porvir (Tradução: Iara Tizzot), outro aparente amigo íntimo do nosso chefe do Executivo inventa de falar pro general que, do que o país precisava, era de alguém que fizesse o povo trabalhar. O general, que sequer estava de bom humor, vociferou esta sagacidade: "Pois é bom saber. Deixe de discursinhos e ponha-se a trabalhar! Pando, traga-me uma vassoura, que o companheiro aqui quer trabalhar. Varra a cantina." Depois que o cara termina de varrer o recinto, ele sai para o banheiro com os olhos cheios de lágrimas, o que claramente demonstra a gratidão que sentia pelo sublime general. Lindo de ler, aprendi muito.


🔊 Chega, né? Queria falar de outros livros, mas fica pra depois.

E lembrando: não escuto um barulhinho bom ao abrir as janelas, é verdade; porém nada que o YouTube não possa "resolver", certo? Certo, né?
"-Vou à Penha agradecer o quê, Nascimento? Estar aleijado, falido, (...)
-Você está vivo, Gattai! Acha pouco?"

                                         - Zélia Gattai, Anarquistas, Graças a Deus.