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22/08/2021

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #06 - Emma Zunz

 (Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, disponibilizou resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre emma zunz: link 2

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

A primeira leitura de Emma Zunz me deixou no vácuo, causando-me a sensação de um ponto fora da curva borgiana (daquela que ora conheço; claro). Daí, optei por deixar o conto encostado, relendo-o vez ou outra, na esperança de que meu inconsciente o digerisse e me regurgitasse algo — ou, como habitualmente ocorre, na esperança de que eu esbarrasse numa obra que me ajudasse a melhor compreendê-lo. Hoje me dou conta de que um ano e meio já se passaram (!) e: nada. Ou quase nada. Não nego persistir um bocado encafifada com Emma Zunz, mas decidi que é hora de embarcar no esforço de organizar as ideias, sobretudo porque as recentes leituras/reflexões que fiz acerca de romances policiais (ajuda recebida de Georges Perec + Todorov) me sopraram que os paralelos que costurei, desde a primeira leitura, com outros dois romances é um ponto de partida bastante legítimo. 

Não sei se a ausência de romances policiais/thrillers entre minhas leituras justifica, mas é fato que não costumo me deparar com passagens literárias que descrevem personagens executando o plano de assassinato de outro ser humano. Possivelmente por isso — também não sei se justifica — certas imagens de Lolita e Ruído Branco, relativas exatamente a tais descrições, ficaram gravadas em minha memória, feito cicatriz. Logo, não me surpreendeu ser transportada de volta, pelas mãos de Emma Zunz, aos instantes nos quais Humbert assassina Clare Quilty e Jack (quase) assassina Mink. Dessa maneira, refleti em conjunto as experiências dessas três personagens e, a seguir, listarei algumas questões relevantes que pude identificar. [Disclaimer: faz muito tempo que li Lolita e Ruído Branco; portanto, ao apelar às minhas lembranças, é possível que eu incorra em imprecisões.]

(1) Os momentos preliminares, que prenunciam o bote
Chama atenção o quanto os autores investem na longa descrição — minuciosa, sem pressa; em flagrante oposição ao estado psíquico da/o assassina/o — daqueles instantes que antecedem o assassinato; resultando numa dramaticidade e suspense que, comicamente, me remetem à forma com que documentários sobre animais narram, sei lá, o leão se preparando para matar a zebra. Ora, o conto de Borges, sendo um tanto estrita, constrói-se apenas mediante tal artifício descritivo. Aliás, é muito provável que esse aspecto formal — do qual resultam imagens tão cinematográficas e vinculadas a sentimentos de intensa excitação — seja o efetivo responsável pela marcação das cenas de Lolita e Ruído Branco em minha memória de leitora. Além disso, é curioso que Nabokov tenha escolhido o período diurno para ambientar a preparação de Humbert, pois a noite, escolhida por Borges e DeLillo, aparenta ser um momento mais seguro para que o autor consiga provocar no leitor a almejada tensão/expectativa.

Outra noção marcante dessas descrições corresponde ao perfil dos caminhos por onde as personagens passam antes de proferir o golpe final; espécies de labirintos oníricos escondidos nos espaços urbanos. No livro Crime Fiction (The Cambridge Companion), Laura Marcus comenta que, segundo Chesterton (queridinho de Borges, por sinal), a ficção detetivesca é a poesia da cidade inscrita em hieróglifos urbanos; o que, na opinião de Marcus, abriria esse gênero na direção de duas ordens: aquela em que razão e lei prevalecem e, em oposição, aquela marcada pelo enigma e o fantástico. No conto de Borges, Emma Zunz serpenteia pelo porto [lembrei da segunda temporada de The Wire (HBO), ambientada no porto de Baltimore! coincidência? duvido], por bares e vielas; Jack (Ruído Branco) dirige por vias escuras, desérticas, locais que, dada a descrição de DeLillo, sequer lembram este mundo. Opa!, fisgarei essa deixa para lançar uma pergunta: o plano de assassinato exige que as personagens adentrem noutra realidade?? Ou mesmo que construam outra realidade na qual entrar? Suponho ser exatamente isso. O crítico Floyd Merrell explana bem o processo de construção da nova realidade, no qual incorre Emma Zunz (traduzo livremente):
"... Emma Zunz é bastante pragmática. Ela reconstrói sua realidade de modo que passe a atender a seus propósitos. Ela deseja vingar o pai, cuja morte decorreu largamente das ações exploradoras e repressoras do chefe. Então ela perde a virgindade para um marinheiro e, depois, atira no chefe do pai, contando à polícia que o morto a havia estuprado e que, portanto, ela meramente se defendeu. A realidade de Emma é dolorosamente real, (...) ela usa seu mundo da melhor forma que conhece, conformando-se a ele, ao mesmo tempo em que rebela-se contra suas injustiças, a fim de atingir seu objetivo."

                                            — Floyd Merrell; The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges 

É importante ressaltar que, conforme a leitura desse trecho crítico aponta, os assassinos são sujeitos ativos nesse processo de remodelação da realidade; quero dizer, são eles próprios quem deformam a realidade (ou: constroem a nova realidade), para que ela passe a se alinhar aos seus interesses prementes naquele instante específico — que, no caso dessas três personagens, relaciona-se ao ímpeto da vingança. E, como estamos falando de Borges, é óbvio que esta nova realidade pertence, igualmente, a um Tempo diverso: "Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes,...".

Acrescento que, ao folhear Ruído Branco antes de escrever este post (o li em 2019), reencontrei uma passagem que me fez reparar noutro aspecto peculiar: esses assassinatos ocorrem em espaços fechados; digo, Emma, Humbert e Jack entram (ou invadem, como queira) uma casa, a fim de cometer o planejado assassinato. Esse movimento de passagem, do aberto para o fechado, também me parece significativo para a hipótese de transição entre realidades distintas. Transcrevo o intrigante trecho de Ruído Branco ao qual me refiro:
"By coming in here, you agree to a certain behavior," Mink said.

"What behavior?"

"Room behavior. The point of rooms is that they're inside. No one should go into a room unless he understands this. People behave one way in rooms, another way in streets, parks and airports. To enter a room is to agree to a certain kind of behavior. It follows that this would be the kind of behavior that takes place in rooms.

                                                                         — Don DeLillo; White Noise (Ruído Branco) 

Ou seja, a narrativa de DeLillo, mediante essa fala de Mink, propõe que entrar num quarto, um espaço fechado, implica assumir um comportamento diferente daquele em espaços abertos. Então, ao penetrar nesses espaços, as personagens assassinas continuam a ser a mesma pessoa? Estaríamos falando, assim, de outra realidade E de outra identidade? Opa!, agarro essa segunda deixa para fixar o próximo item desta lista.

(2) "(...) quem sabe; já era a que seria." — Borges; Emma Zunz.
Quando Humbert confronta Quilty, ele se apresenta como o pai de Dolores, acusando-o de tê-la raptado e estuprado; em outras palavras, Quilty torna-se o único responsável pela desgraça que ocorrera na vida de Lolita. Humbert, naquele instante, deixa de ser Humbert; não tem mais culpa de coisa nenhuma, passando a ser apenas um papai que sofre e vinga a violência cometida contra a filha amada. Acredito que Humbert e Quilty se aproximam a um Duplo, porém com a notável ressalva de que é Humbert quem força esse Duplo ao se posicionar artificiosamente no polo oposto ao de Quilty, na tentativa de que deixem de corresponder a uma identidade em tudo equivalente. 

Minha leitura de Emma Zunz seguiu caminhos similares àqueles que percorri a partir da cena de Nabokov. Embora a narrativa de Borges não permita acessar o íntimo de Emma, teorizei, mediante os subsídios textuais fornecidos, que a notícia do falecimento do pai inundou a personagem de sentimentos de culpa: se Emma tivesse revelado a verdade acerca do crime pelo qual o pai fora injustamente acusado, será que ele teria se suicidado? Quer dizer, penso que a personagem entrou na paranoia de questionar se ela poderia ter evitado a morte do pai. Seguindo esse raciocínio, especulo que, para matar Loewenthal, Emma precisa projetar toda essa culpa nele — à semelhança do que fez Humbert. Inclusive, antes de efetivamente apertar o gatilho, ela já está convicta de que fora Lowenthal quem a estuprara, no entanto o leitor sabe que a decisão de transar com o marinheiro foi única e exclusivamente dela.

"Diante de Aaron Lowenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje por ela sofrido."

A assertiva destacada acima, ao mesmo tempo em que força a pergunta, lança a resposta óbvia: e como, com que recurso esses assassinos conseguem remodelar a realidade e a identidade; passando a experimentar um outro tempo? Elementar, meu caro Uátson: via relato, narrativa, ficção. [Vale lembrar que Humbert, "convenientemente", é um tonto das letras, não é?]
"Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação quase desacreditada por quem a executava, como recuperar aquele breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde?"
Eu sei, eu sei; ninguém aguenta mais esse papo de narrativa, mas suspeito de que o fastio geral é mera decorrência da plena ciência de estarmos diante de um fato incontornável da vida humana (e inumana até). O crítico Roberto González Echevarría discute diretamente a confluência entre crime e narrativa, na obra de Borges (traduzo livremente): "Tanto no crime quanto na ficção há um esforço para esconder os mecanismos da mentira que, com todas suas conotações morais, funciona como o incentivo. Emma executa o que acredita ser um crime perfeito, do mesmo modo que um escritor busca escrever uma história perfeita." (The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges)

Persistindo nessa reflexão, esta frase do conto borgiano me atrai em particular:

'...e o singular alívio de estar afinal naquele dia. Já não tinha de tramar e imaginar, dali a algumas horas chegaria à simplicidade dos fatos."
Quer dizer, esse processo de elaboração, via narrativa, de uma outra realidade e identidade é exasperante, não é algo que ocorre facilmente, sem dor alguma. — Escritores que o digam, imagino. — A propósito, o momento do assassinato faz com que o leitor compartilhe com a personagem assassina do mesmo alívio: a vítima morreu, encerrou o suspense e tensão, o fim da história chegou e, assim, ninguém precisa sofrer acompanhando/elaborando uma narrativa. Entretanto a cena de Ruído Branco subverte, até certo ponto, precisamente isso e, na verdade, é o que mais me marcou. Explico: disparados os tiros, ao ver o corpo ensanguentado à sua frente, Jack parece ser lançado para fora da realidade e identidade que construíra a fim de conseguir matar Mink. Em outras palavras, os disparos não trazem a Jack o alívio, mas sim o desespero de perceber que acabara de atirar contra um ser humano que, em consequência, morreria rapidamente, caso ele não fizesse algo para ajudar. Essa súbita mudança de chave no comportamento de Jack me surpreendeu bastante. 

Na sequência, cabe colar o trecho final de Emma Zunz:
"Com efeito, a história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios."
Considerando-se o estereótipo do judeu religioso e avarento ao qual recorre Borges no conto*, talvez parecerá provocação minha trazer Amós Oz para esta conversa, no entanto não é (acho). Em Os Judeus e as Palavras, Amós e Fania, ao comentar a eterna discussão acerca da veracidade do que está escrito nos textos bíblicos, escrevem algo de tocante perspicácia, que dialoga demais com o parágrafo final de Emma Zunz, transcrito acima:
"Mas os autores existiram, e sua linguagem existiu. Quem inspirou essas histórias? De onde vieram os heróis e heroínas, os enredos e fábulas, os diálogos e expressões? Da vida real, foi daí que vieram. De linhas de textos.
Um arqueólogo poderá se preocupar com o fato de os relatos bíblicos serem mera "ficção", mas nós viemos de um lugar diferente. "Ficção" não nos assusta. Como leitores, sabemos que ela transmite verdades."
 
                         — Amós Oz, Fania Oz-Salzberger; Os Judeus e as Palavras (Tradução: George Schlesinger)

Ou seja, toda ficção se sustenta numa verdade.
 
* [ADENDO] A caracterização de Loewenthal me intrigou e incomodou e, de fato, não consegui atinar por que Borges fez essa escolha narrativa. Questiono se esse artifício inadvertidamente (?) denuncia o antissemitismo disseminado, uma vez que me parece restar subentendido que o fato de Loewenthal ser um judeu avarento, quem sabe até criminoso, funciona como elemento que, para muitos (lamentável e infelizmente), torna a história verossímil, real. Sei lá, foi o máximo que consegui concatenar a respeito disso.

Pronto; encerro minhas groselhas aqui. Hora de dar play no vídeo da Aimée.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Opa, esse meu diálogo com Aimée ficou interessante, pois acabamos seguindo caminhos um tanto diferentes, ainda que tenhamos tocado em pontos comuns: em meus comentários, persegui muito mais os aspectos formais, numa reflexão a partir de romances policiais — em paralelo com outros dois romances—; enquanto Aimée destacou sobretudo os fundamentos psicanalíticos de Emma Zunz. Confesso que, embora seja impossível deixar de franzir a testa durante a leitura do trecho "Pensou (não pôde não pensar) que seu pai fizera com sua mãe a coisa horrível que agora lhe faziam.", esse lado psicanalítico e a sexualidade aparentemente mal resolvida de Emma Zunz não me instigaram durante (ou após) a leitura. Quer dizer, justamente num conto "de personagem", conforme disse Aimée, eu persisti focando nos elementos da engrenagem ficcional. ¯\_(ツ)_/¯

Elenco, a seguir, algumas novas reflexões proporcionadas pelo vídeo da Aimée:

⇰ Todo esse papo psicanalítico me fez perceber que deixei de mencionar outra conexão evidente entre Emma Zunz, Humbert e Jack: essas três personagens não apenas executam planos de vingança, como também se vingam de violências de natureza sexual. A distinção evidente é que, no caso de Emma, ela assume, simultaneamente, os papéis de "vítima" (questionável, eu sei) e vingadora — os outros dois vingam uma mulher (o caso de Humbert, então, nem se fala: na real, pensando nesses termos, o tonto deveria ter atirado nele mesmo);

⇰ Aimée questiona os motivos que fizeram Zunz submeter o próprio corpo àquela violência, e acredito que meus prévios comentários trataram disso: porque foi o artifício encontrado para cometer o crime perfeito, para montar a genial narrativa que evitaria sua prisão pelo assassinato de Loewenthal. Considerando-se os elementos textuais relacionados à sexualidade da personagem, não surpreende que esse tenha sido o caminho vislumbrado — conforme escreveu o crítico Floyd Merrell naquela passagem que transcrevi: "ela usa seu mundo da melhor forma que conhece."  No mais, quando Aimée comentou que teve a impressão de que Emma não julgava que a honra do pai seria motivo suficiente para matar Loewenthal, sendo necessário criar um outro; fui catapultada para o que eu escrevi em meus comentários sobre a peça Othello, de Shakespeare! É que, naquele post, escrevi justamente que, sob uma perspectiva moral, Iago parecia se sentir desconfortável por fazer tudo aquilo contra Othello motivado apenas por suas ambições, de modo que ele inventa (e força-se a nela crer) a história esfarrapada de que sua mulher o havia traído com Othello. Legal; amei essa conexão.

⇰ E eu que, inadvertidamente, mergulhei na aparente paranoia de Emma, pois nunca duvidei do suicídio do pai dela? Ai, jizuiz... Veja, "tomar por engano uma forte dose de Veronal" (veronal  = sedativo barbitúrico) não é uma descrição que sustenta bem a versão de morte acidental. (rimou!) O mais provável, diante dessa informação, é que ou o pai dela foi assassinado (um boa noite, Cinderela fatal) ou se suicidou. Contudo, reconheço que complica demais quando o narrador nos diz que "Emma leu..."; digo, entre o que ela leu e o que efetivamente estava escrito pode haver uma grande diferença realmente. No entanto, pensando com mais cuidado agora, a descrição da carta fala um bocado a favor de que o pai dela foi assassinado, hein. Se duvidar, é o próprio assassino quem redigiu a carta. EITA!


Curti essa experiência de leitura compartilhada; achei que ficou bastante rica. Mais uma vez, valeu, Aimée.

29/11/2020

The Awakening (O Despertar) - Kate Chopin


Olá, Vivian Gornick; tudo bem? Será que você teria um tempinho pra conversar comigo sobre The Awakening? Acabei de lê-lo pela primeira vez. 


Hello, Daniela. Claro, com prazer. 
Escrevi brevemente sobre ele em meu livro The End of The Novel of Love. 

Eu sei!, e é por isso que decidi finalmente ler essa obra da Kate Chopin. 
*Não resisto e tenho de bancar a fangirl: Gornick, adorei seu livro The Odd Woman and the City! Ah, por favor, diga a Leonard que mandei-lhe um abraço.

Oh, fico feliz que tenha gostado do meu livro. E darei o recado (só não sei como ele reagirá). 
Bem, e o que achou de The Awakening? Kate Chopin era bem popular na época, com uma carreira consolidada há uma década, porém esse livro, em particular, provocou escândalo; acusado, dentre outras coisas, de veneno moral, mais Zola que o Zola, forte demais para as crianças...

Pois é; inclusive, tive de apelar ao Google algumas vezes durante a leitura, a fim de confirmar o ano de publicação, pois quanto mais avançava, menos eu acreditava que tinha nas mãos um livro escrito em 1899. Aparentemente não há, neste caso, unanimidade entre leitores; mas eu gostei bastante de The Awakening.

A história é um melodrama simples, mas a escrita de Chopin é poderosa. As obras dela são muito marcadas pela abordagem do erotismo e sensualidade feminina, bem como pela compreensão de que, no casamento, há sempre uma oposição de desejos onde o papel do dominado, o papel daquele que se submete ao poder do outro, resta sempre à mulher. 

Entendo. Aquela cena da varanda, por exemplo, ilustra brilhantemente a patética luta de braço que por vezes se estabelece entre um casal. Ri um bocado; ao mesmo tempo que morri de raiva quando o marido solta um "pois agora quem vai ficar aqui fora sou eu", depois que a mulher se rende e entra pra dormir. Lendo comentários de leitores, descobri que uma galera acredita que o cara insistia para que ela entrasse porque queria transar, mas eu, tonta, não pesquei isso. Quando li, só enxerguei o lance do poder mesmo; a briga entre uma mulher que buscava espaço para ter vontade própria e um homem que precisava continuar mandando no recinto.

Claro; entretanto o tema do amor sexual é, sem dúvida, muito presente nos livros de Chopin, Daniela. O que acontece é que, até aquele ponto da bibliografia dela, essa temática tinha sido mais palatável para os leitores, uma vez que o sexo ocorria entre Creoles e Cajuns (ou seja: era o outro, e não o leitor), e surgia de modo apenas implícito. Em The Awakening, por outro lado, Chopin tornou isso explícito; escrevendo uma personagem branca e abastada que desperta sua sexualidade num relacionamento adúltero. 

Pronto; também não vi um despertar sexual nessa passagem do adultério, ao contrário do que largamente se comenta. Pra mim, Edna se exalta com a traição num nível mais primário, quero dizer, se empolga por finalmente perceber que não era obrigada a seguir as regras sociais impostas às mulheres. Em outras palavras: Edna acorda (opa!) para o fato de que só caberia a ela ditar o que fazer da própria vida, a partir da investigação de seus próprios desejos (> esse, porém, é o ponto onde ela escorrega). Parece óbvio, mas sabemos que, para muitas mulheres - sobretudo naquela época -, isso pode ser uma baita revelação.

Possivelmente sua leitura focou nesses aspectos porque The Awakening é um romance que discute, acima de tudo, o significado e a consequência de desejos dormentes. 


Exato!; creio que minha relação com o livro seguiu precisamente essa chave, Gornick. Por exemplo, acho peculiar que The Awakening seja alardeado como uma obra feminista; ou melhor, que Edna seja tomada por muitos leitores como uma espécie de heroína feminista – um conceito besta, sejamos honestas. Durante a leitura, questionei recorrentemente o tal “Despertar” denunciado no título, pois defendo que Edna jamais acorda em definitivo; mas tão somente intercala entre sonhos. Essa personagem me remeteu a um trecho do O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, do qual destaco esta frase: “(…) a mulher tradicional é uma consciência mistificada e um instrumento de mistificação (...)”. Ou seja, o que tento dizer é que The Awakening seria uma ficção que retrata (super bem) o estrago que sociedades patriarcais, sexistas e machistas são capazes de fazer no processo de formação e amadurecimento psicológico das mulheres; mas o livro não consegue ir além disso. Edna permanece numa constante ameaça de despertar, sem jamais, no entanto, ser capaz de afinal encontrar a própria voz, descobrir quem realmente é e o que deseja, desvendar o mundo em que vive e seu lugar nesse mundo. Ela persiste alienada de si. Numa crítica sobre o livro, Patricia Yager menciona algo que parece-me bastante pertinente: "A compreensão mais radical de The Awakening é a de que Edna habita um mundo de possibilidades linguísticas limitadas; possibilidades limitadas de interpretar e de reorganizar sentimentos e, portanto, de agir."

Entendo seu ponto de vista, o qual, por certo, decorre do fato de que as mulheres, com mais frequência do que os homens, acordam do longo sonho da adolescência sem saber como chegaram ali. Para Kate Chopin, a mulher é uma metáfora da consequência desse sonho de vida que se prolonga por muito tempo. A sabedoria, quando chega, não acompanha-se do poder capaz de ativar desejos cronicamente dormentes. Mulheres, uma vez conscientes, com frequência permanecem congeladas, empaladas no conflito de Hamlet. 

Complicado, né? Acho que o livro é vigoroso na abordagem dessa questão. Aliás, tomemos as personagens Mademoiselle Reisz e Madame Ratignolle, que praticamente assumem as figuras do diabinho e anjinho sobre os ombros de Edna que, coitada, não percebe que aquelas não são as únicas narrativas possíveis para uma mulher (*mas é engraçado como a maioria das ficções atuais continua nos entregando apenas essas duas opções - a mãe/esposa exemplar X a fdp fodona). Edna falha em vislumbrar o terceiro caminho que apenas a ela caberia trilhar e, importante frisar, com as ferramentas que a realidade a apresentava (como diz o atual meme dos djóvens: “você que lute.”). Nesse contexto, a exasperação da personagem me contaminou um bocado, dado que me vi diante de uma mulher esmagada pelas habituais narrativas românticas que a sociedade nos impõe: de um lado, o papel da mãe e esposa exemplar despida de libido; do outro, o papel da mulher princesinha livre de responsabilidades e amada incondicionalmente por quem quer que escolha. Em suma, defendo que The Awakening é muito mais uma obra sobre construção de identidade e, por que não, liberdade; ambos sob a perspectiva da mulher. 

A propósito, preciso registrar que aquela mesma crítica escrita por Patricia Yaeger me alertou para algo mega importante que eu não tinha atinado (embora óbvio): os homens da história representam o terceiro vértice (os outros dois, aquelas duas personagens citadas) contra o qual Edna ricocheteia. Yaeger destaca diversas passagens nas quais, no contato com os homens da história, a protagonista retrocede em seu despertar, acanhando-se diante do universo masculino com o qual não se identifica, mas que a define tal qual a um objeto. Quando ela ensaia iniciar e aprofundar o processo de auto-investigação, um homem costumeiramente se materializa para dizer-lhe o que ela pensa, sente, deseja. 

Bom, Edna é uma personagem marcadamente Americana: indivíduos modernos divididos em si mesmos. Eles afirmam desejar uma vida real, mas, no fundo, não querem. Não entendem que, para se ter uma vida, é preciso agir, consciente e deliberadamente, em nome de um eu uno, integrado. Nesse sentido, Lily Bart, personagem de Edith Wharton, e Isabel Archer, personagem de Henry James, são ambas modelos daquilo que atormenta Edna Pontellier. Wharton e James escreveram romances inteligentes porque ambos autores tinham consciência daquilo que suas personagens sabiam apenas de modo imperfeito: a paralisia do eu dividido. Kate Chopin, por sua vez, sabia apenas tanto quanto Edna: não o suficiente. 

Opa, já li obras desses dois autores (e gostei muitíssimo), mas não as que você citou; providenciarei essas leituras. No entanto, acho curioso que, pra você, Chopin encontrava-se num patamar similar ao da própria personagem que concebera; pois eu não tinha pensado nisso. Em relação à escrita da autora, além da simplicidade que você mencionou, eu destacaria o aspecto cinematográfico; concorda? Até descobri que o livro já foi adaptado pro cinema, porém as críticas que li não me animaram a assistir. Poxa, nas mãos de uma boa diretora, estou convicta de que o livro resultaria num filme belíssimo. Como não ficaria na telona, aquele trecho do passeio de barco? E a cena do nado no mar, à noite? A cena do reencontro acidental dela com Robert, naquele espaço descrito feito um conto de fadas? O final, então; com a mulher nadando nua e fundindo-se com o mar?... É, talvez eu dê uma chance à adaptação que temos. 

Veja, é que, em minha opinião, Chopin atinge apenas flashes de percepção (intensos, porém tênues), construindo uma prosa lamacenta e abstrata. A sintaxe da autora é sofisticada, mas o discurso tão direto revela-se primário. Chopin percebe a dura verdade do eu inviolado sob a perspectiva de uma mulher adulta, com desejos sexuais; porém falha no momento de situar isso num mundo plenamente imaginado. Desse modo, não resta espaço para transformar insight em sabedoria. 

Hum, entendi. E quanto ao final, Gornick? Confesso que, quando o li, me senti uma leitora super desatenta, pois não antecipei aquele desfecho. Caramba, a autora tinha dado todas as pistas! Apesar disso, é uma cena que gera muita discussão entre leitores e acadêmicos, né? 

Sim, é verdade. Na tentativa de interpretar o motivo do desconforto que o livro me provoca, passei por algumas hipóteses. Primeiro, imaginei que Edna morre porque assume-se enquanto ser sexual (castigo). Depois, supus que a personagem olha o abismo, enxerga o vazio da vida, e por isso deseja morrer. Por fim, após minha última releitura, percebi, pela primeira vez, o quanto Edna é simplesmente alimentada pela fantasia; ela move-se apenas rudimentarmente pela vida. 

Compreendo e concordo plenamente com sua última hipótese. Há quem veja naquele fim um ato planejado e deliberado da personagem, mas eu o encaro como um mero acidente, por mais estúpido que soe. Por coincidência, durante minha leitura recente do famigerado O Mal-estar na Civilização, do Freud, esbarrei com uma frase que sintetiza perfeitamente o julgamento que faço do que ocorre no final com Edna: “A satisfação irrestrita de todas as necessidades se apresenta como a maneira mais tentadora de conduzir a vida, mas significa pôr o gozo à frente da cautela, trazendo logo o seu próprio castigo.”

Persistindo na cena final, também vale acrescentar que essa imagem da mulher nadando no mar, carregada de sensualidade e liberdade, parece não ter caducado na literatura, pois também a encontrei no livro contemporâneo Outline (Esboço), da Rachel Cusk. Já leu, Gornick? É fascinante, pois Cusk escreve a respeito do mesmíssimo desejo de uma mulher em seguir nadando e nadando em direção ao infinito do mar, porém com uma diferença crucial: ao contrário de Edna Pontellier, a narradora de Outline sabe tratar-se de uma ilusão (embora isso não promova o pleno desenlace desse ímpeto, é bem verdade). 

Colarei um breve destaque do que Cusk escreve em Outline, a fim de permitir a preciosa comparação: “I felt that I could swim for miles, out into the ocean: a desire for freedom, an impulse to move (…) into ever expanding wastes of anonymity. I could swim out into the sea as far as I liked, if what I wanted was to drown. Yet this impulse, this desire to be free was still compelling to me: I still, somehow, believed in it, despite having proved that everything about it was illusory.” 

Para recordar, o que escreve Chopin: "She turned her face seaward to gather in an impression of space and solitude, (...) As she swam she seemed to be reaching out for the unlimited in which to lose herself." 

Ocorre-me agora que talvez esse lance de nadar e nadar no oceano até afogar-se seja simbolicamente equivalente a “comer a massa branca da barata” (Lispector), “dissolver as próprias margens com o mundo” (Ferrante). Cynthia Wolff, na crítica psicanalista que escreveu sobre The Awakening, chama atenção aos desejos orais de Edna Pontellier (ela cita vários trechos e frases que remetem à relação de Edna com comida, da relação com o mundo externo através da boca), destacando o quanto o narrador conecta os desejos de Edna em termos de completude, incorporação e fusão às tentativas iniciais de definição de identidade. Wolff explica que, quando o primitivo sentimento do ego de buscar um preenchimento mediante a fusão com o infinito permanece intenso na vida adulta, ele pode ser irresistível e aniquilador. De outro modo: quando o verdadeiro Eu permanece tanto tempo dormente, é possível que o enorme vazio só se satisfaça mediante a fusão com o mundo externo, uma totalidade que representa a aniquilação do Ego. 

Interessante. Em entrevistas, Chopin reiteradamente afirmara que, em seu processo criativo, ou a escrita vinha toda de uma vez ou não vinha; o que tomo como a mais relevante informação que temos acerca da autora. Chopin parecia encarar isso como a prova de um talento inato, e não como o amadorismo que de fato é. Afinal, o que é a vida de um escritor, senão contínua revisão? De que outro modo pode um escritor aprofundar seu trabalho, criar um mundo no livro; e não apenas uma brecha pela janela aberta? Nesse sentido, pode-se afirmar que a própria Kate Chopin nunca avançou para além do começo. A vida da autora constrói-se como uma sequência de despertares. 

Eita, talvez você tenha pegado pesado, Gornick. (Se bem que é exatamente o que Simone de Beauvoir fala nos trechos aos quais esse livro me remeteu.)


Não é minha intenção. Na verdade, as preocupações de Chopin eram aquelas de dois dos grandes autores de sua época, e ela foi capaz de tomá-las para si num grau admirável. 


Entendi. Enfim, fiquei feliz por ter lido The Awakening. Se panz, talvez eu ainda tenha um tanto de Edna Pontellier para solucionar em mim, e o livro me ajudou a permanecer atenta quanto a isso.

No mais, não posso perder a piada: este poderia ser mais um caso daquele meme "Os Simpsons previram", não tivesse o livro de Chopin chegado primeiro*.
"Think of the children, Edna. Oh think of the children! 
Remember them!"  
Mulheres, temos de pensar nas criancinhas; pra que esse egoísmo de pensar em si própria? (*claro, a pegada histórica desse apelo é bem mais longa que a do livro de Chopin...)


Obrigada demais pelo papo, Gornick.


You're welcome; Daniela.

09/02/2020

As Afinidades Eletivas - Goethe

Oi, Manguel. Tem um tempinho pra papear
comigo sobre o livro As Afinidades Eletivas?

Olá, Daniela. Claro que sim. A leitura, afinal, é uma conversa. Suspeito que você estabeleceu um diálogo com a obra de Goethe e que, agora, deseja emprestar realidade a essa ilusão através de uma conversa comigo.
Haha; é mais ou menos por aí, Manguel.

Bom, li pela primeira vez As Afinidades Eletivas – 25 anos atrás, pelo menos – depois de uma longa conversa com Bianciotti sobre La dispute, de Marivaux, que ele vira na produção de Lavelli e que eu perdera por não poder arcar com o preço do ingresso.
#Quem.nunca deixou de ver um espetáculo devido à falta de grana, confere? 
Mas admito que esta é a primeira vez que ouço falar nessa peça — o que diz mais sobre mim, do que sobre ela, óbvio (rindo de vergonha). Qual é a sinopse?

Como tantas outras peças de Marivaux, ela explora a natureza do amor: dois personagens aristocráticos desejam resolver a questão de quem tem mais tendência a ser infiel, o homem ou a mulher. Para chegar a uma conclusão, eles colocam quatro crianças em reclusão solitária, e cada uma fica aos cuidados de um casal de selvagens. Quando atingem a puberdade, elas se encontram. E os aristocratas, com distanciamento científico, podem observar e estudar seu comportamento.

Que experimento bizarro. A hipótese e a metodologia têm toda pinta de peripécia do século XVIII. Acho que deixar um bando de aristocrata com tempo livre nas mãos dá nisso, né?

Possivelmente. Porém, quando o experimento é concluído e os aristocratas estão prestes a fazer a travessia até a ilha onde as crianças são mantidas, eles param na cabeceira da ponte, e desce o pano.
Eles amarelam no final?!
Diria que eles hesitam, preferindo apenas
observar, mas não experimentar.
Entendi. Hum; se trouxermos essa premissa para nosso livro, poderemos dizer que Goethe, por sua vez, obrigou suas personagens a levarem até o fim o experimento sobre o amor. O teste da validade da teoria química das afinidades eletivas no campo das relações humanas amorosas foi, de fato, conduzido até as últimas consequências.

Mas e você?
Como chegou até esse livro de Goethe?
Por coincidência, também cheguei nele a partir de uma obra de ficção que, a meu ver, igualmente aborda a natureza do amor. Falo do filme Jules et Jim, do Truffaut (adaptação do romance homônimo de Henri-Pierre Roché). Já viu/leu?
No filme, Jules, Jim e Catherine – as personagens nos vértices de um triângulo amoroso que estabelece interessante paralelo com o quadrado arquitetado por Goethe - leem justamente As Afinidades Eletivas (AAE); e, próximo ao final, Jim confessa a Catherine que conseguiu sacar "qual era a dela" graças às passagens grifadas por ela no livro compartilhado pelos três. Isso me deixou super curiosa pra ler a obra, sobretudo porque Catherine é uma personagem intrigante e relativamente difícil de ler. A propósito, é ela a responsável pela condução de ~experimentos~ práticos sobre o amor que, tal qual aquele de AAE, não dão lá muito certo. Quando se fala de amor, ao que parece, 3 e 4 são números capciosos. Se bem que, hoje, eu chutaria que inexiste número seguro no amor.

Que um experimento esteja fadado ao fracasso não significa, por certo, que ele seja inútil. Inclusive está na própria natureza dos personagens de AAE que eles tenham de fracassar, e nesse fracasso repousa o sucesso do romance.

A desgraça das personagens servindo ao deleite do leitor? 😁
Mas AAE têm mesmo algo de enredo de telenovela que gira em torno de seus quatro personagens principais: os maduros Eduard e Charlotte, que
EEEEEPA; alto lá, Manguel. Desculpe-me, porém sou obrigada a interrompê-lo. Sem dúvida Charlotte é uma pessoa madura; mas Eduard?! De jeito nenhum. A narrativa apresenta diversos elementos que denunciam a infantilidade dele. Acompanhe a listinha que compilei:
👉Eduard foi filho único,
👉ele casou-se pela primeira vez com uma mulher mais velha que o paparicava; ou seja, a primeira esposa assumiu a função de segunda mãe,
👉quando Charlotte resiste à ideia de convidar o Capitão para o castelo, o narrador afirma que aquela era a primeira vez que Eduard era contrariado — e bem vimos que ele rejeita o "não" como resposta,
👉ele é descrito como uma “alma inconstante”;
👉esta reveladora fala de Charlotte: "(...) pois, tendo ambos praticamente a mesma idade, tornei-me de fato mais velha por ser mulher, e você, como homem, conservou a juventude."

Realmente encaro Eduard como um marmanjo que se comporta feito adolescente mala que não pode ser contrariado; cujas decisões são intempestivas e marcadamente passionais. Ele é um típico man-child.

Bom, Goethe tinha a dizer o seguinte sobre o amor de Eduard por Ottilie: "Secretamente, ele havia se rendido por completo ao sentimento de sua paixão". Em certo sentido, isso é o equivalente emocional de uma auto-absorção disfarçada de paixão.
THE SHADE! haha
Concordo demais, Manguel.
👌. E uma percepção de Charlotte que me deixou perplexo e encantado pode corroborar esse seu ponto de vista, pelo menos no que diz respeito à maturidade dela. Refiro-me ao trecho em que Charlotte discorre sobre "O Destino" quase no final do livro: “Há coisas a que o destino se opõe com grande tenacidade. É em vão que a razão e a virtude, as obrigações e tudo aquilo que é sagrado atravessam seu caminho: há de acontecer o que é justo para ele e que para nós parece injusto; ao fim e ao cabo, ele intervém decididamente, não importando a maneira como venhamos a nos portar." E então ela se dá conta da verdade, que soa como acusação: “Que estou a dizer? O destino quer simplesmente reconduzir a seu devido lugar meu próprio desejo, minha própria intenção, contra os quais agi de modo irrefletido. Não havia eu mesma pensado em Ottilie e Eduard como o mais acertado dos casais?"

Abri aqui meu livro, Manguel, e realmente encontrei esse trecho grifado com a cor que reservo às questões chave nas narrativas que leio, porém acabo de constatar que eu não concedi o mesmo destaque para a virada no raciocínio de Charlotte ressaltada por você. Então... Caramba! Então, enquanto no filme de Truffaut os grifos numa edição de AAE permitem que Jim acesse pensamentos íntimos de Catherine; na minha vida real, aquilo que eu não grifei no livro permite que eu contemple um recôndito do meu inconsciente. Será assim?

Você sabe o motivo
por que ignorou esse trecho?
Provavelmente o desconsiderei porque, para mim, ainda é mais cômodo continuar acreditando que o rumo das coisas está exclusivamente nas mãos de um suposto "Destino", e não nas minhas etc.

Compreendo. Charlotte alega que o Destino
conhece melhor do que ela suas próprias intenções.
Pois é! E pensar que recentemente escrevi, em um post do meu blog, que eu
tenho medo da palavra Destino. Que coisa, não?
E que Destino é esse que é mais sábio que os protagonistas? Eduard e Charlotte nunca fogem dos encontros que o Destino lhes prepara (ainda que às vezes, como Charlotte, eles cheguem um pouco tarde). Eles simplesmente seguem o enredo: o destino como narrativa. De onde vem essa ideia?

Olha, falou em destino, eu já penso nos oráculos
das peças gregas, com aquelas previsões assustadoras.
Sim; mas a ideia não vem do imaginário dos gregos. Essa ideia pertence à literatura, ou melhor, à leitura da literatura, quando o leitor reconhece o que lê como ficção e, entretanto, "suspende de bom grado a descrença" pelo bem da narrativa; é isso que queremos dizer com a inevitabilidade do enredo.

Hum, compreendo-o, Manguel; porém, dado que não foi exatamente essa a leitura que fiz da obra, tomarei a liberdade de assinalar uma ressalva, pode ser? Alongarei-me um pouquinho, portanto já peço desculpas. Na minha percepção, a narrativa de Goethe constantemente instiga o leitor a duvidar desse "Destino", ao contrário de simplesmente aceitá-lo como um mero recurso interno do qual depende a própria ficção. Talvez por não ter suspendido a contento a descrença, senti que a narrativa me instigava a explorar o labirinto erguido por estes questionamentos:

1. Somos peças inertes, um mero joguete nas mãos de um dito "Destino", ou somos nós que delineamos nossos caminhos, a partir de nossas escolhas?
2. E, caso possamos tomar decisões que definirão nossa trajetória, a pergunta: temos de fato plena e irrestrita liberdade para fazê-lo?
3. Ou será que não há nem destino nem escolhas conscientes, mas apenas os caprichos de um Acaso que não se sujeita a qualquer controle?

Confabulei que essa discussão - com o recorte específico dos relacionamentos amorosos, é lógico - seria a temática principal do livro, o qual me cutucou logo no comecinho, no instante em que Charlotte lançou esta pergunta para os dois sabichões: “(...) eu jamais identificaria uma escolha; percebo no máximo uma necessidade natural, pois no fim das contas trata-se de uma questão de oportunidades. A ocasião determina a relação, do mesmo modo que ela faz o ladrão. No caso dos corpos naturais que você menciona, parece-me que a escolha está nas mãos do químico responsável pela reunião desses seres. Postos em contato, Deus sabe seu destino." 

Os diversos sinais que aparentam prenunciar o trágico fim das quatro personagens (refiro-me, por exemplo: 1. ao borrão na carta escrita por Charlotte, 2. o mesmo segundo nome de Eduard e Capitão, 3. a taça com as iniciais "E/O" que não quebra quando lançada ao chão etc) seriam, teorizo, meros elementos que apenas camuflam o relevante papel das escolhas feitas por cada uma das personagens. Por sinal, não é à toa que Charlotte tenha sido a personagem que faz essa reflexão, citada por você, a respeito de "Destino x Escolhas", uma vez que Eduard, Ottilie e Capitão comodamente obrigam-na a assumir a responsabilidade de decidir a vida de todos eles. Para os três bonachões, aconteceria aquilo que Charlotte decidisse, uma vez que nenhum deles tem cacife pra bancar sozinho uma decisão.

Entendo. As próprias formulações pseudomatemáticas que Goethe põe na boca de Eduard para delinear o comportamento humano são fórmulas de consolação, suponho, que suscitam a ilusão de que não estamos vivendo na ambiguidade. Entretanto reforçarei que toda a negociação é conduzida entre as personagens e o leitor; o autor está ausente ou, no caso de Goethe, é meramente um mestre de cerimônias que comenta mas não emite opinião sobre o comportamento de seus personagens. O jovem Stephen Dedalus tem a dizer o seguinte, em Retrato do Artista quando Jovem, de Joyce; “O artista, como deus da criação, permanece dentro ou atrás ou além ou acima de sua obra, invisível, depurado da existência, indiferente, aparando as unhas.” Hoje, brincando com o hipertexto no parquinho pós-moderno, onde temos a ilusão de canalizar o enredo num número finito de caminhos, somos como Eduard e Charlotte e Ottilie e o Capitão; escolhemos possibilidades que o Destino (como um pai autoritário) já escolheu para nós.

Tenso - e divertido! Esse papo me traz à memória aquela peça do Pirandello, a Seis personagens à procura de um autor; especificamente as passagens em que as personagens se exasperam enquanto tentam fazer o diretor compreender que, o que para ele é somente uma ilusão (criada por um autor), para elas é a única realidade, a qual "acontece agora,
             acontece sempre".

Pois eu me lembrei ainda de Nathaniel Hawthorne, que registrou rapidamente esta ideia para um conto em um de seus assombrosos cadernos de anotações: “uma pessoa a escrever uma narrativa, e descobrindo que esta toma uma forma que contradiz suas intenções: que os personagens agem de modo diferente do que ele pensou: que fatos não previstos ocorrem;e que advém uma catástrofe que ele se empenha em vão em impedir. Ela pode lançar uma sombra sobre seu destino – pois ele fez de si próprio um dos personagens."

Nossa, que medo (→ não tem jeito, esse é o sentimento que sempre aparece quando penso nesse assunto). Aliás, esse tema, juntamente a todo o dramalhão que encerra o livro (= "O&E - R.I.P. 🕇"), me remeteu bastante a Shakespeare. A patacoada Eduard & Ottilie emana fortes vibrações Romeo & Juliet (ainda que o Romeo de Goethe seja um marmanjo com barba na cara) e o lance de um suposto "destino escrito nas estrelas"/"ser humano agindo conforme sua natureza" é algo muito recorrente nas obras do bardo (até onde eu tenha percebido, nas peças que li). Poxa, em King Lear Shakespeare questiona até o papel da Astrologia em nossas ações e destinos! A prova tá na mão: "How long have you been a sectary astronomical?"

Não me surpreende que tenha notado isso. Numa de suas muitas cartas a Wilhelm von Humboldt, Goethe sugeriu que as línguas nacionais refletem o caráter nacional, e que os escritores ingleses compartilham com os alemães as mesmas formas de pensar e a mesma percepção do que é precioso. Isso explicaria por que Shakespeare é parte da tradição alemã, embora não explique por que Goethe nunca se tornou parte da tradição inglesa.

Sei. Não estou plenamente convicta, porém minha impressão é que Goethe
também não é muito presente pelas bandas literárias de cá (= Brasil).
É que Goethe precisa ser acolhido culturalmente: não livro por livro, mas sim mergulhando em sua vasta influência, em seu alcance oceânico, em suas ondas ressoantes, em suas vistas do mundo que alcançam o horizonte. "Vou goethizar vocês um bocado", disse-me um de meus professores. Nietzsche, em geral pouco generoso em seus elogios, escreveu em Humano Demasiado Humano: "Goethe não é apenas um ser humano grande e bom, mas uma civilização em si." Se é assim, As Afinidades Eletivas, escrito nos últimos anos de sua vida, pode ser lido como um manual de etiqueta da civilização goethiana.

Fanboy detected! No entanto, já que você menciona o livro como um manual de etiqueta para civilizações, eu teria uma pergunta a fazer: é realmente preciso que uma civilização que se preze ocupe-se com tantas obras e reformas?! Manguel, a galera desse livro faz a alegria da turma dos engenheiros, arquitetos, paisagistas, mestres de obras, pedreiros...

(risos) A paisagem física do romance de Goethe se torna a paisagem das emoções dos personagens; eles tentam domesticar a natureza assim como tentam planejar suas afinidades num verdadeiro diagrama. O jardim de Charlotte, por exemplo, é um símbolo fácil demais de seu experimento no mundo humano.

Ah, saquei. É como disse o inglês amigo de Eduard: “(...) o prazer de criar e ordenar tudo aquilo”. Também estava em meus planos lançar uma pergunta sobre a marcante presença de árvores nas obras de Goethe, as quais são recorrentemente adotadas pelas personagens como forma de marcar não apenas a passagem do tempo, mas a delas próprias no mundo. Werther fez isso, e Eduard repetiu o recurso narrativo (refiro-me aos plátanos que ele plantou, coincidentemente, no dia em que Ottilie nasceu, lembra?) Feito uma completa tonta, eu estava supondo que isso era coisa do século XIX, até que, numa de minhas perambulações pelo meu bairro, esbarrei com isto aqui:
Assim como o Eduard do século XIX, um brasileiro do século XXI plantou uma árvore e fez questão de registrar para todo o mundo o feito. Eduard e Bernardo existiram, e duas árvores são a prova.

Pois sabe que Goethe também tem sua própria árvore com simbologia similar? Um carvalho, pra ser mais preciso, sob cuja sombra ele se encontrava com sua amada Frau von Stein. Em 1939, porém, esse carvalho passou a lançar sombra sobre a lavanderia e a cozinha do campo de concentração de Buchenwald. A Lei de Proteção da Natureza do Terceiro Reich manteve o carvalho de pé.

Estou perplexa, Manguel.
Joseph Roth, inclusive, registrou um comentário repleto de raiva e ironia que parte o coração de qualquer um: "Até agora, nenhum interno do campo de concentração foi açoitado no carvalho sob o qual se sentavam Goethe e Frau von Stein, que ainda está vivo, graças à Lei de Proteção da Natureza. Certamente que não; eles têm sido açoitados em outros carvalhos, que não faltam nessa floresta."

Confesso que não sei o que pensar sobre isso. Fatos da Segunda Guerra sempre me desnorteiam; me fazem perder o senso da realidade. Lamentável que Goethe, indiretamente, tenha se metido nesse horror.
Mas pergunto se AAE está, anacronicamente, parodiando isso. Digo, será que se pode ler o romance como uma apoteose cínica da arte da jardinagem, a arte que floresceu no século XVII e se transformou numa ecologia corrompida - que poderia até ser chamada de visão suprematista da natureza - refletida, quase um século e meio depois, na preocupação de Hitler com "o modelo da natureza"?

Puxa, será?! Pior que lembrei que jardins são espaços simbolicamente recorrentes e importantes na obra de Tchekov, porém, como Janet Malcolm assinala no livro Lendo Tchekov, os jardins dele são exatamente desse tipo organizadinho, áreas em que a natureza é domada. Nas palavras da autora: "Tchekov era mais um poeta da paisagem domesticada do que do sublime, mais atraído pelo encanto das sombras oferecidas por um velho jardim do que pela grandiloquência intocada da natureza em estado puro.". Um adendo, Manguel: nunca imaginei que, ao discutir um livro famoso por sua abordagem sobre o amor, eu falaria sobre a relação simbólica do ser humano com árvores, plantas e jardinagem. 😃🌳🌷

É justo, contudo ainda é possível prosseguirmos nesse tema. Do diário de Ottilie, por exemplo, temos isto: "Ninguém caminha sob palmeiras impunemente, e o modo como a pessoa se comporta deve sem dúvida modificar-se num lugar onde elefantes e tigres fazem sua morada." Lembra dessa entrada? Acho a frase irônica, já que foi sob palmeiras (quando eu trabalhava para uma editora no Taiti nos anos 70) que decidi ser fiel a mim mesmo e assumir minha vida de leitor-escritor.

Esse diário da Ottilie, "solto" no meio da história, é um recurso
narrativo curioso. Há muitas pérolas ali.
Tem alguma favorita?
Nossa, várias! No entanto, esta é particularmente especial: "Não importando a maneira como estejamos postados, sempre nos imaginamos vendo alguma coisa. Creio que o homem sonha apenas para não cessar de ver. Poderíamos conceber a ideia de a nossa luz interior exteriorizar-se, de modo que não careceríamos de nenhuma outra." Definitivamente essa foi outra passagem do livro que me ajudou a compreender meu inconsciente, pois até aqui eu não entendia como ou por que eu havia escrito três postagens em meu blog a respeito do ato de observar: pessoas, arte, animais. Sem querer, bolei uma espécie de "Trilogia da Observação" e, graças à Ottilie, agora eu sei +- por que isso aconteceu.

Ottilie faz uma descrição precisa da consciência humana, de sua terrível vigilância, semelhante à de Argus, dá ao romance como um todo o seu páthos: quatro personagens, o autor e, por extensão, o leitor estão constantemente conscientes de suas ações, e observam a si próprios avançar em direção ao fim sem ser capazes de se iludir ou de desviar o olhar.
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😉. A conversa está ótima,
Daniela, porém tenho de ir.
Puxa, mas ainda tinha tanta coisa pra discutirmos, Manguel! A questão Matrimônios x Divórcios, a hipocrisia das Lápides desprezadas x Criptas de Eduard/Ottilie, o bebê com a cara do Capitão e os olhos da Ottilie... Aliás, aproveitarei essa piadinha goethiana com a cara do bebê pra soltar uma última groselha: será que Bentinho vê a cara de Escobar no próprio filho apenas porque Capitu, na verdade, pensava em Escobar enquanto transava com o marido? E tipo; se minha mente estiver entretida com fantasias eróticas envolvendo o Adam Driver enquanto transo com meu namorado, eu serei enquadrada na Lei da Traição?! Se a resposta for positiva, temo que o problema carcerário no Brasil atingirá proporções ainda mais catastróficas. Xi, e um bebê com a carinha do Adam Driver; já pensou? Que lindinho seria! #zero.ironia

 (risos) Daniela, sua pergunta é fascinante,
entretanto realmente não tenho mais tempo. 
Ah, que pena. Mas beleza.
Muito obrigada pelo papo tão legal.
Também gostei de nossa conversa.
Até o próximo livro.
Até, Manguel.
Tchau.

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Disclaimer e Créditos:
(1) As falas de Alberto Manguel foram extraídas de sua obra Os Livros e os Dias (Companhia das Letras, Tradução José Geraldo Couto);
(2) Os trechos de As Afinidades Eletivas foram extraídos da edição que li: Companhia das Letras/Penguin Companhia, Tradução Tercio Redondo.