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22/08/2021

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #06 - Emma Zunz

 (Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, disponibilizou resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

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   #04 - história do guerreiro e da cativa- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre emma zunz: link 2

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

A primeira leitura de Emma Zunz me deixou no vácuo, causando-me a sensação de um ponto fora da curva borgiana (daquela que ora conheço; claro). Daí, optei por deixar o conto encostado, relendo-o vez ou outra, na esperança de que meu inconsciente o digerisse e me regurgitasse algo — ou, como habitualmente ocorre, na esperança de que eu esbarrasse numa obra que me ajudasse a melhor compreendê-lo. Hoje me dou conta de que um ano e meio já se passaram (!) e: nada. Ou quase nada. Não nego persistir um bocado encafifada com Emma Zunz, mas decidi que é hora de embarcar no esforço de organizar as ideias, sobretudo porque as recentes leituras/reflexões que fiz acerca de romances policiais (ajuda recebida de Georges Perec + Todorov) me sopraram que os paralelos que costurei, desde a primeira leitura, com outros dois romances é um ponto de partida bastante legítimo. 

Não sei se a ausência de romances policiais/thrillers entre minhas leituras justifica, mas é fato que não costumo me deparar com passagens literárias que descrevem personagens executando o plano de assassinato de outro ser humano. Possivelmente por isso — também não sei se justifica — certas imagens de Lolita e Ruído Branco, relativas exatamente a tais descrições, ficaram gravadas em minha memória, feito cicatriz. Logo, não me surpreendeu ser transportada de volta, pelas mãos de Emma Zunz, aos instantes nos quais Humbert assassina Clare Quilty e Jack (quase) assassina Mink. Dessa maneira, refleti em conjunto as experiências dessas três personagens e, a seguir, listarei algumas questões relevantes que pude identificar. [Disclaimer: faz muito tempo que li Lolita e Ruído Branco; portanto, ao apelar às minhas lembranças, é possível que eu incorra em imprecisões.]

(1) Os momentos preliminares, que prenunciam o bote
Chama atenção o quanto os autores investem na longa descrição — minuciosa, sem pressa; em flagrante oposição ao estado psíquico da/o assassina/o — daqueles instantes que antecedem o assassinato; resultando numa dramaticidade e suspense que, comicamente, me remetem à forma com que documentários sobre animais narram, sei lá, o leão se preparando para matar a zebra. Ora, o conto de Borges, sendo um tanto estrita, constrói-se apenas mediante tal artifício descritivo. Aliás, é muito provável que esse aspecto formal — do qual resultam imagens tão cinematográficas e vinculadas a sentimentos de intensa excitação — seja o efetivo responsável pela marcação das cenas de Lolita e Ruído Branco em minha memória de leitora. Além disso, é curioso que Nabokov tenha escolhido o período diurno para ambientar a preparação de Humbert, pois a noite, escolhida por Borges e DeLillo, aparenta ser um momento mais seguro para que o autor consiga provocar no leitor a almejada tensão/expectativa.

Outra noção marcante dessas descrições corresponde ao perfil dos caminhos por onde as personagens passam antes de proferir o golpe final; espécies de labirintos oníricos escondidos nos espaços urbanos. No livro Crime Fiction (The Cambridge Companion), Laura Marcus comenta que, segundo Chesterton (queridinho de Borges, por sinal), a ficção detetivesca é a poesia da cidade inscrita em hieróglifos urbanos; o que, na opinião de Marcus, abriria esse gênero na direção de duas ordens: aquela em que razão e lei prevalecem e, em oposição, aquela marcada pelo enigma e o fantástico. No conto de Borges, Emma Zunz serpenteia pelo porto [lembrei da segunda temporada de The Wire (HBO), ambientada no porto de Baltimore! coincidência? duvido], por bares e vielas; Jack (Ruído Branco) dirige por vias escuras, desérticas, locais que, dada a descrição de DeLillo, sequer lembram este mundo. Opa!, fisgarei essa deixa para lançar uma pergunta: o plano de assassinato exige que as personagens adentrem noutra realidade?? Ou mesmo que construam outra realidade na qual entrar? Suponho ser exatamente isso. O crítico Floyd Merrell explana bem o processo de construção da nova realidade, no qual incorre Emma Zunz (traduzo livremente):
"... Emma Zunz é bastante pragmática. Ela reconstrói sua realidade de modo que passe a atender a seus propósitos. Ela deseja vingar o pai, cuja morte decorreu largamente das ações exploradoras e repressoras do chefe. Então ela perde a virgindade para um marinheiro e, depois, atira no chefe do pai, contando à polícia que o morto a havia estuprado e que, portanto, ela meramente se defendeu. A realidade de Emma é dolorosamente real, (...) ela usa seu mundo da melhor forma que conhece, conformando-se a ele, ao mesmo tempo em que rebela-se contra suas injustiças, a fim de atingir seu objetivo."

                                            — Floyd Merrell; The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges 

É importante ressaltar que, conforme a leitura desse trecho crítico aponta, os assassinos são sujeitos ativos nesse processo de remodelação da realidade; quero dizer, são eles próprios quem deformam a realidade (ou: constroem a nova realidade), para que ela passe a se alinhar aos seus interesses prementes naquele instante específico — que, no caso dessas três personagens, relaciona-se ao ímpeto da vingança. E, como estamos falando de Borges, é óbvio que esta nova realidade pertence, igualmente, a um Tempo diverso: "Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes,...".

Acrescento que, ao folhear Ruído Branco antes de escrever este post (o li em 2019), reencontrei uma passagem que me fez reparar noutro aspecto peculiar: esses assassinatos ocorrem em espaços fechados; digo, Emma, Humbert e Jack entram (ou invadem, como queira) uma casa, a fim de cometer o planejado assassinato. Esse movimento de passagem, do aberto para o fechado, também me parece significativo para a hipótese de transição entre realidades distintas. Transcrevo o intrigante trecho de Ruído Branco ao qual me refiro:
"By coming in here, you agree to a certain behavior," Mink said.

"What behavior?"

"Room behavior. The point of rooms is that they're inside. No one should go into a room unless he understands this. People behave one way in rooms, another way in streets, parks and airports. To enter a room is to agree to a certain kind of behavior. It follows that this would be the kind of behavior that takes place in rooms.

                                                                         — Don DeLillo; White Noise (Ruído Branco) 

Ou seja, a narrativa de DeLillo, mediante essa fala de Mink, propõe que entrar num quarto, um espaço fechado, implica assumir um comportamento diferente daquele em espaços abertos. Então, ao penetrar nesses espaços, as personagens assassinas continuam a ser a mesma pessoa? Estaríamos falando, assim, de outra realidade E de outra identidade? Opa!, agarro essa segunda deixa para fixar o próximo item desta lista.

(2) "(...) quem sabe; já era a que seria." — Borges; Emma Zunz.
Quando Humbert confronta Quilty, ele se apresenta como o pai de Dolores, acusando-o de tê-la raptado e estuprado; em outras palavras, Quilty torna-se o único responsável pela desgraça que ocorrera na vida de Lolita. Humbert, naquele instante, deixa de ser Humbert; não tem mais culpa de coisa nenhuma, passando a ser apenas um papai que sofre e vinga a violência cometida contra a filha amada. Acredito que Humbert e Quilty se aproximam a um Duplo, porém com a notável ressalva de que é Humbert quem força esse Duplo ao se posicionar artificiosamente no polo oposto ao de Quilty, na tentativa de que deixem de corresponder a uma identidade em tudo equivalente. 

Minha leitura de Emma Zunz seguiu caminhos similares àqueles que percorri a partir da cena de Nabokov. Embora a narrativa de Borges não permita acessar o íntimo de Emma, teorizei, mediante os subsídios textuais fornecidos, que a notícia do falecimento do pai inundou a personagem de sentimentos de culpa: se Emma tivesse revelado a verdade acerca do crime pelo qual o pai fora injustamente acusado, será que ele teria se suicidado? Quer dizer, penso que a personagem entrou na paranoia de questionar se ela poderia ter evitado a morte do pai. Seguindo esse raciocínio, especulo que, para matar Loewenthal, Emma precisa projetar toda essa culpa nele — à semelhança do que fez Humbert. Inclusive, antes de efetivamente apertar o gatilho, ela já está convicta de que fora Lowenthal quem a estuprara, no entanto o leitor sabe que a decisão de transar com o marinheiro foi única e exclusivamente dela.

"Diante de Aaron Lowenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje por ela sofrido."

A assertiva destacada acima, ao mesmo tempo em que força a pergunta, lança a resposta óbvia: e como, com que recurso esses assassinos conseguem remodelar a realidade e a identidade; passando a experimentar um outro tempo? Elementar, meu caro Uátson: via relato, narrativa, ficção. [Vale lembrar que Humbert, "convenientemente", é um tonto das letras, não é?]
"Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação quase desacreditada por quem a executava, como recuperar aquele breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde?"
Eu sei, eu sei; ninguém aguenta mais esse papo de narrativa, mas suspeito de que o fastio geral é mera decorrência da plena ciência de estarmos diante de um fato incontornável da vida humana (e inumana até). O crítico Roberto González Echevarría discute diretamente a confluência entre crime e narrativa, na obra de Borges (traduzo livremente): "Tanto no crime quanto na ficção há um esforço para esconder os mecanismos da mentira que, com todas suas conotações morais, funciona como o incentivo. Emma executa o que acredita ser um crime perfeito, do mesmo modo que um escritor busca escrever uma história perfeita." (The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges)

Persistindo nessa reflexão, esta frase do conto borgiano me atrai em particular:

'...e o singular alívio de estar afinal naquele dia. Já não tinha de tramar e imaginar, dali a algumas horas chegaria à simplicidade dos fatos."
Quer dizer, esse processo de elaboração, via narrativa, de uma outra realidade e identidade é exasperante, não é algo que ocorre facilmente, sem dor alguma. — Escritores que o digam, imagino. — A propósito, o momento do assassinato faz com que o leitor compartilhe com a personagem assassina do mesmo alívio: a vítima morreu, encerrou o suspense e tensão, o fim da história chegou e, assim, ninguém precisa sofrer acompanhando/elaborando uma narrativa. Entretanto a cena de Ruído Branco subverte, até certo ponto, precisamente isso e, na verdade, é o que mais me marcou. Explico: disparados os tiros, ao ver o corpo ensanguentado à sua frente, Jack parece ser lançado para fora da realidade e identidade que construíra a fim de conseguir matar Mink. Em outras palavras, os disparos não trazem a Jack o alívio, mas sim o desespero de perceber que acabara de atirar contra um ser humano que, em consequência, morreria rapidamente, caso ele não fizesse algo para ajudar. Essa súbita mudança de chave no comportamento de Jack me surpreendeu bastante. 

Na sequência, cabe colar o trecho final de Emma Zunz:
"Com efeito, a história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios."
Considerando-se o estereótipo do judeu religioso e avarento ao qual recorre Borges no conto*, talvez parecerá provocação minha trazer Amós Oz para esta conversa, no entanto não é (acho). Em Os Judeus e as Palavras, Amós e Fania, ao comentar a eterna discussão acerca da veracidade do que está escrito nos textos bíblicos, escrevem algo de tocante perspicácia, que dialoga demais com o parágrafo final de Emma Zunz, transcrito acima:
"Mas os autores existiram, e sua linguagem existiu. Quem inspirou essas histórias? De onde vieram os heróis e heroínas, os enredos e fábulas, os diálogos e expressões? Da vida real, foi daí que vieram. De linhas de textos.
Um arqueólogo poderá se preocupar com o fato de os relatos bíblicos serem mera "ficção", mas nós viemos de um lugar diferente. "Ficção" não nos assusta. Como leitores, sabemos que ela transmite verdades."
 
                         — Amós Oz, Fania Oz-Salzberger; Os Judeus e as Palavras (Tradução: George Schlesinger)

Ou seja, toda ficção se sustenta numa verdade.
 
* [ADENDO] A caracterização de Loewenthal me intrigou e incomodou e, de fato, não consegui atinar por que Borges fez essa escolha narrativa. Questiono se esse artifício inadvertidamente (?) denuncia o antissemitismo disseminado, uma vez que me parece restar subentendido que o fato de Loewenthal ser um judeu avarento, quem sabe até criminoso, funciona como elemento que, para muitos (lamentável e infelizmente), torna a história verossímil, real. Sei lá, foi o máximo que consegui concatenar a respeito disso.

Pronto; encerro minhas groselhas aqui. Hora de dar play no vídeo da Aimée.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Opa, esse meu diálogo com Aimée ficou interessante, pois acabamos seguindo caminhos um tanto diferentes, ainda que tenhamos tocado em pontos comuns: em meus comentários, persegui muito mais os aspectos formais, numa reflexão a partir de romances policiais — em paralelo com outros dois romances—; enquanto Aimée destacou sobretudo os fundamentos psicanalíticos de Emma Zunz. Confesso que, embora seja impossível deixar de franzir a testa durante a leitura do trecho "Pensou (não pôde não pensar) que seu pai fizera com sua mãe a coisa horrível que agora lhe faziam.", esse lado psicanalítico e a sexualidade aparentemente mal resolvida de Emma Zunz não me instigaram durante (ou após) a leitura. Quer dizer, justamente num conto "de personagem", conforme disse Aimée, eu persisti focando nos elementos da engrenagem ficcional. ¯\_(ツ)_/¯

Elenco, a seguir, algumas novas reflexões proporcionadas pelo vídeo da Aimée:

⇰ Todo esse papo psicanalítico me fez perceber que deixei de mencionar outra conexão evidente entre Emma Zunz, Humbert e Jack: essas três personagens não apenas executam planos de vingança, como também se vingam de violências de natureza sexual. A distinção evidente é que, no caso de Emma, ela assume, simultaneamente, os papéis de "vítima" (questionável, eu sei) e vingadora — os outros dois vingam uma mulher (o caso de Humbert, então, nem se fala: na real, pensando nesses termos, o tonto deveria ter atirado nele mesmo);

⇰ Aimée questiona os motivos que fizeram Zunz submeter o próprio corpo àquela violência, e acredito que meus prévios comentários trataram disso: porque foi o artifício encontrado para cometer o crime perfeito, para montar a genial narrativa que evitaria sua prisão pelo assassinato de Loewenthal. Considerando-se os elementos textuais relacionados à sexualidade da personagem, não surpreende que esse tenha sido o caminho vislumbrado — conforme escreveu o crítico Floyd Merrell naquela passagem que transcrevi: "ela usa seu mundo da melhor forma que conhece."  No mais, quando Aimée comentou que teve a impressão de que Emma não julgava que a honra do pai seria motivo suficiente para matar Loewenthal, sendo necessário criar um outro; fui catapultada para o que eu escrevi em meus comentários sobre a peça Othello, de Shakespeare! É que, naquele post, escrevi justamente que, sob uma perspectiva moral, Iago parecia se sentir desconfortável por fazer tudo aquilo contra Othello motivado apenas por suas ambições, de modo que ele inventa (e força-se a nela crer) a história esfarrapada de que sua mulher o havia traído com Othello. Legal; amei essa conexão.

⇰ E eu que, inadvertidamente, mergulhei na aparente paranoia de Emma, pois nunca duvidei do suicídio do pai dela? Ai, jizuiz... Veja, "tomar por engano uma forte dose de Veronal" (veronal  = sedativo barbitúrico) não é uma descrição que sustenta bem a versão de morte acidental. (rimou!) O mais provável, diante dessa informação, é que ou o pai dela foi assassinado (um boa noite, Cinderela fatal) ou se suicidou. Contudo, reconheço que complica demais quando o narrador nos diz que "Emma leu..."; digo, entre o que ela leu e o que efetivamente estava escrito pode haver uma grande diferença realmente. No entanto, pensando com mais cuidado agora, a descrição da carta fala um bocado a favor de que o pai dela foi assassinado, hein. Se duvidar, é o próprio assassino quem redigiu a carta. EITA!


Curti essa experiência de leitura compartilhada; achei que ficou bastante rica. Mais uma vez, valeu, Aimée.

22/12/2019

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #05 - biografia de tadeo isidoro cruz (1829-74)

(Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

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** RISCO DE SPOILERS **
[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Na coletânea de diálogos entre Borges e Osvaldo Ferrari, me deparei com esta fala do autor argentino acerca de esquecimento criativo e memória criativa:
"Ou seja, é o mesmo conto e eu vou ensaiando variações. Mas, talvez, a literatura universal seja uma série de variações sobre o mesmo tema, (...)"
                                                                                                       - Jorge Luis Borges

Borges reconhece que, em sua obra, ele costuma repetir o mesmo conceito sob diferentes formas. É ele quem está falando, hein, não sou eu. Incluí o comentário porque tomo o conto biografia de tadeo isidoro cruz (BTIC) como uma variação de temas presentes nos contos anteriores de O Aleph, já lidos e comentados por mim no blog. Em BTIC, ressurge de forma mais pronunciada (deduzo) sobretudo a ideia de eventos que se repetem de modo circular e do duplo (Tadeo Isidoro x Martín Fierro). Visto que groselhei o suficiente a respeito dessas temáticas nas postagens anteriores, aproveitarei o ensejo muito mais para sondar intrepidamente certos pontos da narrativa que me conduziram a correlações algo estapafúrdias (os acadêmicos que fiquem com a parte chata 😁).

*
Suponho que esta passagem destaca-se como forte candidata ao papel de chave principal da leitura:
"Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta na realidade de um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é."
                                                                                                          - Jorge Luis Borges, BTIC.

Associando esse trecho à tríade* de principais e recorrentes questões borgianas conforme previamente comentada por Aimée, tendo a concluir que a noção de identidade é o foco de BTIC. (* = identidade, universo, tempo) Pra mim, pelo menos, é. Suspeito de que psicólogos e psicanalistas gozam um orgasmo literário (existe, né?) ao se depararem com a ousadia borgiana de afirmar que nossas histórias pessoais resumem-se simplesmente ao instante em que descobrimos quem somos. Isso deve apaziguar os ânimos daqueles que investem anos e anos de suas vidas em infinitas sessões de análise e terapia, no esforço hercúleo para descobrir quem são afinal. Se bem que o texto de Borges sinaliza que os livros, espie só, costumam guardar a solução desse grande enigma. Seria esse o próprio sentido da vida? Vai saber.

Em relação à ~vida real~, senti uma pitadinha de resistência para assimilar essa premissa de Borges; contudo, quando a extrapolei para a realidade ficcional, a apreensão de sua pertinência assentou de maneira mais fácil. Aproveitando que hoje não penso noutra coisa, senão no episódio IX de Star Wars, o último da nova trilogia (ele é tão ruim, que faz a curva e fica divertido), vale devanear que o único arco narrativo que me interessa no filme (= a díade da Força: Rey/Kylo Ben) se apoia fundamentalmente nesse ponto de BTIC; confere? Sinto-me tentada a teorizar que a essência de todas as grandes narrativas repousa em uma única fase da famigerada jornada do herói; aquela que, sozinha, basta para contar uma boa história: revelação e transformação. Uma particularidade um tanto paradoxal garante a diversão da teoria, dado que, nela, as personagens são confrontadas com suas verdadeiras identidades, a fim de transformarem-se naquilo que efetivamente já são (porém ainda não sabem etc). Transformar-se naquilo que se é... Que maluquice. Mas quem tem segurança para garantir que há incoerência nisso? Voltando a Star Wars: Kylo, após bendita epifania identitária ou, nas palavras de Borges, após o momento em que sabe para sempre quem é, abandona de vez o subterfúgio da máscara cafona e ~segue seu destino~. *Drama intensifies*

Também me peguei presa no emaranhado simbólico que essa chave interpretativa estabelece quando conectada à epígrafe escolhida por Borges para BTIC:

I'm looking for the face I had
Before the world was made.
- W. B. Yeats

Esses versos elevam a busca pela identidade a patamares ainda mais complexos, que me fascinam demais. A partir deles, conhecer a si mesmo apenas em termos psíquicos não mais garante contentamento. Com as palavras de Yeats, a parada alcança a metafísica, a transcendência; quiçá a cosmogonia! (haha) [Hum, A Paixão Segundo G.H. é uma narrativa que condensa essas duas chaves, não?]

Bom, essas duas chaves me trouxeram à memória o filme Os Olhos Sem Rosto (Les Yeux Sans Visage, Georges Franju - 1960), baseado no romance de Jean Redon. A metáfora encerrada na palavra "face", escolhida por Yeats (rima! rs), fez com que eu prontamente correlacionasse a descrição do instante de compreensão de Tadeu Isidoro Cruz àquele de Edna Grüber. Mesclando as duas narrativas (Borges + Redon/Franju), arrisco esta peripécia:
A moça, enquanto combatia na escuridão, começou a compreender. Compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem toda mulher deve acatar o que traz dentro de si. Compreendeu que as divisas e o uniforme o que as cirurgias e o confinamento a estorvavam. Compreendeu seu íntimo destino de lobo pássaro livre, não de cão gregário pássaro engaiolado; compreendeu que o outro era ele quem ela era, e que já tinha um rosto. 

[Anexo: enquanto lia, de boas, a coletânea de poemas da Sophia de Mello Breyner Andresen, esbarrei com uma estrofe que, com somente três linhas, resume todo meu lero-lero:
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.]

Por sinal, é curioso que essas compreensões ocorram durante a noite, e não de dia, via luz. Apelando ao Borges Babilônico (organização de Jorge Schwartz), percebi que a escolha parece amparar-se nas narrativas islâmicas; tendo sido lembrada de que "Entre os muçulmanos, a Noite do Poder (Laylat al-qadr) é a noite em que o Alcorão desceu do céu e se revelou a Maomé. Contam que, enquanto o Profeta do islã dormia em uma caverna no monte Hira, o anjo Gabriel o visitou e lhe disse que ele, Maomé, era o escolhido para receber e difundir pelo mundo a palavra de Alá." (- Dylan Frontana)

Ah, e, no fim das contas, Borges meio que facilita o trabalho dos biógrafos, né? Ora, segundo o raciocínio de BTIC, a escrita de uma biografia resume-se em narrar A noite do biografado. Aguardo a minha noite ansiosamente. Com sorte, ocorrerá através do próximo livro?

**
Por fim, há a presença do gaúcho simbolizado pelo duplo Isidoro Cruz-Martín Ferro (personagens originalmente criadas por José Hernández), entretanto, uma vez que acho esse papo chato (¯\_(ツ)_/¯), destaco somente que isso parece conceder relevância ao espaço em que vivemos, reconhecendo-o como um dos inevitáveis alicerces de nossas identidades. Osvaldo Ferrari, em uma de suas perguntas a Borges, menciona esta frase de Martinez Estrada que melhor explica o que contemplo: "(...) o espírito da terra, o que ele chamava o espírito do pampa, era o que conformava nossa substância, a substância da nossa personalidade".

Pronto; encerro minhas abobrinhas aqui. Bora ver o vídeo da Aimée. 

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]

[Comentários pessoais pós-vídeo:]
Eita, banquei a palerma achando que o conto era só mais do mesmo, e muita coisa legal voou sobre minha cabeça. Bem feito, sabidona.

Montando uma listinha de destaques:
➭ Aimée alude à questão da equivalência dos destinos, confrontando-a à intervenção do acaso nos papéis que desempenhamos em vida (perseguidor/perseguido, heroi/traidor), e me impressionou um bocado que eu tenha ignorado essa palavra que aparece explicitamente no texto (identidade / personalidade, por sua vez, não aparecem). Pressinto que isso ocorreu porque não gosto dessa palavra - destino - e prefiro não acreditar nela, possivelmente por temê-la.

O melhor, entretanto, é que ela acaba reforçando minha destemperada associação [Borges X Star Wars].

➭ Borges tomou emprestadas não apenas as personagens de José Hernández, mas inclusive trechos inteiros. Aimée diz que aquele lance do lobo x cão gregário, por exemplo, aparece igualzinho no poema épico de Hernández. Nesse sentido, ela chama atenção ao fato de que a citação de Coríntios (Bíblia), incluída por Borges no texto, se aplica àquilo que o próprio conto BTIC representa: "(...) num livro cuja matéria pode ser tudo para todos (1 Coríntios 9,22), pois é capaz de quase inesgotáveis repetições, versões, perversões."

➭ Levei tão a sério a assertiva de Borges de que a noite das compreensões era a única que importava, que nem me toquei de que há, na verdade, não uma, mas quatro noites críticas na vida de Isidoro Cruz. E na de Martín Fierro, claro.

➭ Também não notei conscientemente o espelhamento entre os detalhes que compõem as narrativas de Isidoro Cruz e Martín Fierro. E por falar em espelhar: o conto de Borges como espelho da obra de José Hernández (duplo).

➭ Contudo o espelhamento mais pitoresco, que me escapou completamente, é este: os gritos; sejam do pai, sejam do chajá. Pô, o déjà-vu de Isidoro Cruz é uma resposta ao grito do tal chajá! Que coisa.

*PAUSA*: qual é a aparência de um chajá? Como soa seu grito? Que bicho é esse?! YouTube, ajude aí:

 ➭ E curti esta classificação do conto: é um Mito de Origem.

- Mais uma vez, Aimée, muito obrigada!

03/07/2019

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #04 - história do guerreiro e da cativa

(Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

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   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa - Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre história do guerreiro e da cativa: link 2


** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Durante a leitura do livro Os Diários de Emilio Renzi, escrito por Ricardo Piglia, esbarrei com este esclarecedor trecho a respeito dos contos de Borges:
"(...) Borges sempre foi um contista clássico, seus finais são fechados, explicam tudo com clareza; a sensação de estranhamento não está na forma - sempre clara e nítida - nem nos finais ordenados e precisos, mas na incrível densidade e heterogeneidade do material narrativo."
                      - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi - Anos de Formação (Tradutor: Sérgio Molina) 

Tomo emprestadas as palavras de Piglia para teorizar que história do guerreiro e da cativa tem um final fechado e preciso que explica tudo com clareza; ou, expresso de outro modo, um final que, tal qual a epígrafe de o imortal, entrega de bandeja a chave do conto. Ora, depois da suadeira que tive para desatar os nós de os teólogos, ficou fácil destrinchar o presente texto, especialmente quando seu arremate se dá através desta sentença:
"Talvez as histórias que contei sejam uma única história. O anverso e o reverso dessa moeda são, para Deus, iguais." 
Ou seja, em termos de temática, história do guerreiro e da cativa consiste em uma narrativa que condensa a teoria dos monótonos (referente à circularidade da história) e a cosmologia dos histriões (baseada em imagens especulares/duplos). Focando-se na narrativa das personagens do guerreiro e da cativa, é possível antecipar uma repetição circular do movimento entre mundos bárbaros ↔ civilizados, o qual é realizado por indivíduos que simbolizam as faces de uma mesma moeda e que, por conseguinte, constituem uma unidade. Isso permite inferir, a propósito, que não há juízo de valor entre aqueles pólos do deslocamento: um não é superior ao outro, e não cabe falar em termos de evolução/involução, progresso/declínio. Conforme escrito pelo próprio autor, eles são, para Deus, iguais. Curiosamente, recordei que, em janeiro de 2019, a revista Época noticiou uma narrativa real transcorrida no Brasil que sustenta a teoria de circularidade especular das histórias do guerreiro e da cativa. Organizando a sequência, fica:


- no século VI/VIII (?), o bárbaro lombardo Droctulft abandona os seus para juntar-se à civilização de Ravena;

- no século XIX, a loira inglesa emigrada de Yorkshire, após ser levada à força por índios na Argentina, acaba por integrar-se definitivamente à vida na tribo indígena;

- em 2004, a índia Lulu Kamayurá parte de sua tribo no Xingu para viver em uma grande capital do país.


Por sinal, é divertido constatar que este conto acaba assumindo, ele mesmo, o papel da imagem especular do conto anterior, que agora novamente retornaria, portanto, na forma de um duplo. Isto é (parafraseando Borges:), os teólogoshistória do guerreiro e da cativa seriam uma única história, o anverso e o reverso.
*

Estou ciente de que, no meu post para os teólogos, já extrapolei a cota de sandices relativas à unicidade formada pelas teorias da circularidade e dos duplos, logo não adicionarei desvarios correlatos. Haverá, contudo, uma diminuta emenda que nasceu a partir da releitura que fiz de minhas próprias postagens anteriores.

No post sobre o imortal, eu tinha incluído um breve comentário relacionado ao filósofo italiano Giambatistta Vico (citado por Borges naquele conto) e sua teoria de uma história cíclica. Admito que, a esta altura da empreitada, eu já tinha me esquecido por completo "desse tal" Vico; porém, quando reli o que eu havia escrito naquela ocasião, imediatamente baixou-me um espírito detetivesco e conjecturei que talvez valesse a pena investigar melhor o camarada. Ok; textinho lido aqui, textinho lido acolá, prontinho: garanto estar uns 89,7% convencida de que as ideias desse filósofo italiano do século XVIII têm tudo a ver com história do guerreiro e da cativa. Embora nem de longe minha superficial pesquisa tenha me tornado expert na filosofia viquiana, ousarei destacar dois pontos das ideias do filósofo que ~aparentemente~ conectam-se com a narrativa deste conto borgiano.

Vico, ao intermediar a lendária treta que existia entre naturalistas (Grócio) e céticos (Carnéades), contribuiu com ideias que defendem a convergência entre a sociabilidade natural do homem e a artificialidade do mundo civil. Aliás, é engraçado que, ao fazer isso, Vico denuncia o duplo constituído por céticos e naturalistas (um retorno circular dos monótonos e histriões?!); e por Carnéades e Grócio (o retorno circular de Aureliano e João de Panônia?!) Que preciosidade! Bom, minha hipótese é que essa premissa de Vico corrobora a concepção do duplo estabelecido pelo guerreiro e pela cativa, o anverso e reverso do humano. Na tentativa de demonstrar essa hipótese, sintetizarei mal e porcamente essa parte da teoria do filósofo.

A compatibilidade entre as noções de estado selvagem e sociabilidade natural se apresenta quando Vico afirma, por um lado, que o ser humano é por natureza sociável e, por outro, que ele recaiu e pode sempre recair na anosmia provocada pela completa dissolução das instituições sociais. O italiano formula uma concepção histórica da natureza humana na qual existiria um estado selvagem resultante do isolamento voluntário de alguns indivíduos. Dessa forma, Vico quer demonstrar o caráter social da natureza humana por meio de uma via negativa: a natureza humana não subsiste sem instituições (→ no conto, elas estariam representadas na emblemática descrição da cidade de Ravena); o homem isolado é incapaz de conservar as propriedades que o distinguem dos animais (→ lembrar da passagem em que a índia loira bebe o sangue da ovelha degolada).

A filosofia viquiana igualmente me parece fundamentar a circularidade presente em história do guerreiro e da cativa, notadamente em referência à movimentação barbaridade ↔ civilidade. As instituições estabelecidas, conservadas, transformadas pelos seres humanos e das quais depende a sociabilidade humana variam no decorrer do curso histórico que as nações percorrem, o que implica no surgimento de novas propriedades na natureza humana. O esquema histórico defendido por Vico concebe três idades sucessivas, definidas segundo a teoria da forma de governo:

a idade dos deuses: governo patriarcal pré-político
a idade dos heróis: a república aristocrática
a idade dos homens: a república popular e a monarquia

A história da natureza humana trata-se de um processo pelo qual a natureza selvagem é modificada sucessivamente por distintos tipos de instituições. Nesse contexto, as vontades humanas e a autoridade das leis, a qual também depende do reconhecimento dos homens, são o único fundamento sobre o qual se assentam as instituições (→ recordar que guerreiro e cativeira escolhem, por vontade própria, seus destinos finais). A derrocada das instituições racionais da idade humana voltaria a instalar a natureza humana nas condições da barbárie primitiva, começando um novo ciclo histórico. Dessa maneira, Vico defende uma História que evolui mediante uma circularidade marcada pela alternância entre ascensão e queda de nações, as quais eternamente avançam e recuam através desse ciclo, passando por cada uma daquelas três idades diversas vezes.

Por tudo isso, enfim, creio que Borges praticamente pegou um significativo substrato da tese de Vico e o transformou num de seus contos. Derrapei no sabão?

[P.S.: quando li que Vico associa a barbárie à derrocada das instituições e a um estágio em que o egoísmo dos cidadãos impede a confiança mínima indispensável para que a sociedade propriamente humana se conserve, passei a questionar seriamente se nossa atual realidade social corresponde à fase histórica da transição para a barbárie, a fim de iniciarmos futuramente um novo ciclo. Será? Xi.]

[Principais fontes: 1. Metafísica do gênero humano: natureza e história na obra de Giambattista Vico; Edufu, 2018 2. Internet Encyclopedia of Philosophy: Giambattista Vico.]

**

Quanto à forma, suponho ser possível dividir este conto em duas partes: na primeira, o autor desenvolve algo que se aproxima de um artigo técnico redigido por um historiador; enquanto a segunda se aproxima da estrutura que eu mesma recorrentemente utilizo ao comentar minhas leituras no blog. Borges blogueirinho?! EITA! Calma, não ria, porque o papo é sério. Acompanhe meu raciocínio finíssimo. Borges inicia história do guerreiro e da cativa contextualizando técnica e historicamente sua leitura (informa autoria, datas, sinopse etc) e, em seguida, passa a narrar as memórias pessoais que foram-lhe evocadas a partir daquele respectivo livro, conferindo à segunda parte um tom confessional de memorialista. Inclusive, pensando desse jeito, é possível dizer que reaparece um dos temas de o imortal referente à concepção de imortalidade relacionada a livros. Um livro (o do historiador Paulo) puxou outro (o livro de Croce), que puxou outro (o conto de Borges), que puxou este post de blog, que puxou... Uma matriosca literária!

Outro marcante aspecto narrativo corresponde ao fato de que Borges parte de fatos reais - Droctulft realmente existiu, como também são verídicos o livro de Croce e os textos do historiador Paulo - para criar uma obra dita ficcional. Ainda que a narrativa seja inventada, ela é construída de modo que pareça tão verdadeira quanto os elementos apropriados a partir do "mundo real". Dia desses mesmo, li um trecho em que novamente Piglia discute esse exato método narrativo:
"O curioso desse aparente verismo é que ele justifica, com os fatos "verdadeiros", uma narração imaginária. (...) tornar verdadeiro um mundo real e me apoiar em fatos que aconteceram para construir um romance no qual tudo é imaginário, exceto os lugares, alguns eventos e o nome dos protagonistas. (...) 
O romance como indagação da realidade. (...) uma vez que a história já está no real, e é necessário poder reconstruí-la e narrá-la, como se não fosse inventada."
                     - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi - Anos de Formação (Tradutor: Sérgio Molina) 

Nem é preciso esforço para notar essa engrenagem, pois Borges a revela no texto mediante um convite explícito (ah, e reencontro a figura do narrador que não tem certeza do que narra):
"Não sei sequer em que época aconteceu (...). Imaginemos (este não é um trabalho histórico) (...) 
Muitas conjecturas podem ser aplicadas ao ato de Droctulft; a minha é a mais econômica; se não for verdadeira como fato, será como símbolo."
Imaginar! é o grande lema da literatura, e Nabokov defende justamente isso no texto Bons leitores e bons escritores, lido recentemente:
"Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de verdadeira é um insulto tanto à arte quanto à verdade. Todo grande escritor é um grande impostor, mas assim também é a natureza, essa trapaceira contumaz."
        - Vladimir Nabokov; Bons leitores e bons escritores (Lições de Literatura). (Tradutor: Jorio Dauster)

***

Desde o primeiro conto, Aimée ressalta a recorrente contestação da personalidade que se faz presente na obra de Borges. Certo, pois assimilada a dica, avalio que essa questão é abordada neste conto. A concepção do duplo guerreiro/cativa refuta a noção de personalidade, substituindo-a pela noção de equivalência entre os homens. Além do mais, enquanto vivo, Droctulft logrou a artimanha de ser tanto herói, como traidor. Ora, em determinados instantes de sua vida e a depender do ponto de vista (italianos / lombardos), ele foi simultaneamente herói e traidor! 

Esta bela passagem, por exemplo, propõe uma outra perspectiva para essa reflexão:
"Imaginemos Droctulft, sub especie aeternitatis*, não o indivíduo Droctulft, que sem dúvida foi único e insondável (todos os indivíduos o são), mas, como ele e outros, o tipo genérico criado pela tradição, que é obra do esquecimento e da memória. "
 * = sob a forma de eternidade

Nela, Borges parece cindir a identidade humana em duas partes coexistentes (duplo de novo?): uma singular, repleta de pormenores; outra universal, que se estabelece via narrativas/arquétipos/símbolos que se repetem circularmente ao longo da história da humanidade. 

****

E não é que, uma vez mais, associarei um conto de Borges às narrativas de super-heróis? #audaciosa Como já previamente compartilhado neste diarinho, não entendo nadica do universo de super-heróis, no entanto, durante o eventual contato com tais narrativas, comumente algo bastante específico me inquieta: de onde vem o apego quase doentio dessa galera por suas respectivas cidades?! Fico intrigada pelos discursos que se concentram na importância de defender não uma pessoa(s) ou sociedade, mas sim a cidade. Daí, Borges insere em história do guerreiro e da cativa uma descrição tão bela do fascínio que teria acometido Droctulft em relação à cidade de Ravena, que acredito que o enigma que me consome na relação super-heróis x cidades aproximou-se de uma resposta: 
"(...) vê uma cidade, um organismo feito de estátuas, de templos, de jardins, de quartos, de arquibancadas, (...) de espaços regulares e abertos. Nenhuma dessas construções (bem sei) o impressiona pela beleza, tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo objetivo ignorássemos mas em cujo desenho se adivinhasse uma inteligencia imortal. (...) Bruscamente o cega e o renova aquela revelação, a Cidade. (...) não começará sequer a entendê-la, mas sabe também que ela vale mais que seus deuses e sua fé (...)"
*****

Agora uma confabulação extrapoladora bastante particular. Nos stories do instagram, Tatianne Dantas havia compartilhado um comentário peculiar que um leitor homem (supostamente) lhe escrevera no seu vídeo resenha para o livro Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy: "Eu não sou sexista mas honestamente este romance não é nada para as mulheres". Por que não seria para mulheres? O moço não se deu o trabalho de justificar, então parti para suposições: ou ele acha que mulheres são incapazes de compreender a prosa de McCarthy e/ou ele acredita que a história do autor americano não diz respeito/interessa a mulheres que, estando restritas ao meio doméstico, sequer viram passar o bonde da sangrenta história expansionista dos EUA, permanecendo ilesas a tudo. E o que isso teria a ver com história do guerreiro e da cativa? Bem, até certo ponto, ambas narrativas de Borges e McCarthy exploram movimentos históricos de expansão territorial marcados por violência extrema entre brancos e índios. Nessa onda, eis que desponta Borges narrando como duas mulheres se viram metidas no olho do furacão expansionista na Argentina. Que essas histórias pertencem a homens e mulheres (infelizmente), não me resta dúvida. Após a leitura deste conto de Borges, portanto, inevitavelmente acabei revivendo a amolação promovida pela confusa assertiva daquele leitor.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]
Puxa, e não é que um duplo me passou batido?! No vídeo, Aimée diz que o próprio Borges (enquanto narrador do conto) e o diácono Paulo também são o anverso e reverso da moeda. Ela explica que Paulo, em seu trabalho como historiador, dedicou-se (dentre outras coisas) a escrever a história dos lombardos. Borges, por sua vez, ao assumir-se como narrador da história, se converte a historiador no momento em que decide contar as histórias de sua avó, as quais simbolizam a história de formação da América. Creio que não identifiquei esse duplo porque encaro a segunda parte do conto, aquela em que Borges surge explicitamente como narrador, como detentora de um aspecto formal mais próximo de um texto de memórias, do que exatamente histórico. Entretanto, isso serviu para que eu relembrasse algo super importante: são as histórias pessoais que compõem, conjunta e simbolicamente, a grande História. Boa.

Entrando na paranoia de procurar duplo em todos os lados, comecei a achar que talvez eu e Aimée estejamos compondo um duplo. Duas leitoras de Borges, separadas no tempo e no espaço, em diferentes estágios de intimidade com a obra do autor argentino. Rola? Náh, passei do ponto, né? Beleza; então é hora de encerrar o post. ;)

12/06/2018

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #03 - Os Teólogos

(Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa - Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre Os Teólogoslink 2.


** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

E após um conto de "nível médio de dificuldade", encaro agora um de "nível hardcore" repleto de citações filosóficas e teológicas a respeito do tempo; um assunto, assim, fácil e simplezinho, não é mesmo? Pois aceito o desafio, ansiosa para descobrir o tamanho da presepada que cometerei desta vez.

***

Ok; concluída a leitura, fui tomada por uma empolgação e por um furacão caótico de ideias e reflexões. Tentando ordenar a bagunça mental, elaborei um resuminho de três páginas (A4) para Os teólogos (cujo texto consome cinco páginas ~A5. Ou seja: """resumo"""), porém minha situação permaneceu mais ou menos assim:

São tantas as conexões possíveis, que eu sequer sabia por onde começar a escrever estas impressões. O socorro veio através de um artigo da BBC Culture, o Every story in the world has one of these six basic plots, no qual Miriam Quick 1. resgata a tese de Vonnegut sobre os seis formatos gráficos assumidos pelos arcos narrativos dos protagonistas de histórias e 2. expõe as conclusões da pesquisa coordenada pelo professor Mathew Jockers concernentes à existência de seis tipos básicos de histórias graficamente transponíveis. Essas informações me renderam o momento "Eureka!": "Sim, acho que consigo colocar os principais pontos do conto de Borges em único gráfico!" 

 Aqui está o resultado da minha audaciosa empreitada:


Fala sério, nem preciso explicar, preciso? Brincadeira; me esforçarei, sim; até porque nem sei se marquei um gol ou se chutei feio pra fora. Opto por listar os aspectos principais da minha teoria tresloucada; vejamos se consigo:

(1) A própria estrutura narrativa de Os teólogos adquire a temporalidade circular proposta pelos Monótonos e igualmente confirma a profecia que Euforbo vaticina enquanto queima na fogueira: "Isto aconteceu e voltará a acontecer."  Transcorre no conto a sequência destacada no círculo: Surge uma "nova" teoria/"nova"(s) comunidade(s) supostamente herética(s) → Um sabidão aparece para refutá-la → Algo/Alguém vai parar na fogueira / queima → Surge uma "nova" teoria/"nova"(s) comunidade(s) supostamente herética(s) → Um sabidão aparece para refutá-la → Algo/Alguém vai parar na fogueira / queima → 

(2) A marcação no círculo dos eventos recorrentes parece demonstrar que a cosmologia dos Histriões, baseada na ideia dos espelhos e suas imagens especulares, não contradiz nem se opõe à prévia teoria circular dos Monótonos. Cada evento que retorna, que se repete, tem seu reflexo no exato ponto oposto da circunferência conforme assinalado pelas setas "↔" - 0°x 180° / 60° x 240°/ 30° x 210°... E, desse modo, a narrativa também se constrói em concordância com a proposição dos Histriões. 

(3) Os eventos especulares, avalio, funcionam como duplos, são as facetas opostas que compõe uma mesma unidade. Em outras palavras: são os dois lados da mesma moeda. Na minha análise maluca, isso ganha relevância especialmente quando pensamos nas diversas teorias heréticas que repetidamente surgem ao longo da linha temporal circular proposta nesse conto: sendo duplos de uma entidade una, como podemos considerá-las totalmente distintas? Segundo insinua meu esquema, afinal, as doutrinas dos Monótonos e Histriões se complementam; elas não se anulam absolutamente. Exponho toda essa lenga-lenga devaneante para tentar corroborar a sensação de que tudo e todos que queimaram na fogueira o fizeram em nome das mesmíssimas teses, cujas expressões por metáforas dificultam a percepção da equivalência.

E se as teses atacadas são as mesmas, logo os respectivos textos impugnantes repletos de metáforas também são essencialmente os mesmos, ainda que reapareçam na forma do duplo da mesma unidade. Aureliano e João de Panônia se digladiavam intelectualmente defendendo ideias coincidentes, eles próprios personificando a metáfora do duplo. Não à toa, já no céu, Deus toma Aureliano por João de Panônia, visto que inexiste diferença entre os dois. 
"(...) no paraíso, Aureliano soube que para a insondável divindade ele e João de Panônia (o ortodoxo e o herege, o abominador e abominado, o acusador e a vítima) constituíam uma única pessoa."
Quando os teólogos supunham refutar a herege corrente histriônica, nem percebiam que continuavam concomitantemente refutando a velha corrente dos monótonos, dado que ambas se complementam para construir uma doutrina única. Inclusive, é disso, em parte, que transparece certo humor negro presente na morte de João de Panônia: o que ontem ele escreveu sob acalorada recepção, hoje é considerado blasfêmia, porque as "novas" heresias transpõem seus ditos passados para a posição do duplo oposto. Sinto-me afoita o suficiente para montar uma tabelinha explicativa:

                        Tese B
Heresia  A |    Refuta
Heresia -A |    Ratifica

(Fez sentido?! Nem eu sei! Espero que sim.) A coisa toda fica ainda mais hilária quando Panônia, em sua defesa, refere que não poderia negar o que ele dissera em sua antiga tese, pois isso implicaria confirmar a própria heresia dos Histriões baseada nos espelhos; ou seja, reconheceria o duplo, a existência de entidades reflexas no mundo. (Tese -B da tabela.)

Em decorrência de todas essas ruminações, uma impactante frase de Joseph Campbell, com a qual cruzei recentemente assistindo ao "O Poder do Mito", reverberou em minha cabeça durante toda a leitura desse conto. Transcrevo, a seguir, a breve passagem da entrevista, grifando a frase específica a que me refiro - ah!, e incluo a cara do Campbell ao pronunciá-la, pois é perfeita demais para permitir que se perca no meu limbo memorial:
(Joseh Campbell:) Goethe diz: ''Todas as coisas são metáforas. (...) Tudo que é transitório não passa de uma referência metafórica." É isso que todos nós somos. 
(Bill Moyers:) Mas como se pode reverenciar uma metáfora... amar uma metáfora, morrer por uma metáfora?

(Joseh Campbell:) É isso que as pessoas fazem em todos os lugares. Em todos os lugares do mundo. Elas morrem por metáforas.

Certo. Pois eis que Borges conclui Os teólogos com esta frase:
"O final da história só pode ser contado por metáforas, uma vez que se passa no reino dos céus, onde não há tempo."
Minha cara ao lê-la? Esta:
Detalhe relevante: esse "no reino dos céus, onde não há tempo.", pra mim, é metáfora, hein. O reino nada mais é do que o "aqui e agora". Nossas histórias são contadas por metáforas. As histórias dos Monótonos, dos Anulares, dos Histriões, dos Especulares, de Aureliano, de João de Panônia, a minha etc; todas são contadas por metáforas que, com pequenas variações, acabam afirmando a mesma coisa.

De qualquer maneira, eu nem precisava ter apelado para o auxílio de Campbell, visto que o próprio Borges tratou desse assunto no ensaio A esfera de Pascal, incluído no livro Outras Inquisições.
"A história universal é, talvez, a história de umas quantas metáforas. 
(...)  
A história universal é, talvez, a história da diferente entonação de algumas metáforas."
- Jorge Luiz Borges, A esfera de Pascal (Outras Inquisições - trad.: Davi Arrigucci Jr.)

Nesse ensaio, Borges sustenta que a metáfora geométrica da esfera retorna continuamente, com mínimas variações, através das vozes e escritos de diferentes poetas, teólogos, filósofos e pensadores desde o século 6 a.C. até o século XVII, com Pascal: "Uma esfera terrível cujo centro está em toda parte e a circunferência, em nenhuma." Aliás, a metáfora permanece sendo utilizada até hoje, sim? Jung e a galera que curte mandalas (círculo sagrado) e a busca pelo centro estão aí para comprovar. Campbell, instigado por Moyers no mesmo programa, curiosamente também fala da figura do círculo.

(4) Divertidamente, as premissas centrais dos dois contos anteriores da coletânea - O imortal e O morto -  retornam em Os teólogos, estabelecendo uma perfeita sintonia com a ideia de que "as coisas recuperarão seu estado anterior." Como? Nas minhas elucubrações, assim:
     4.1. (O imortal:) Cada heresia e respectiva contestação regressa continuamente nos ciclos seguintes na forma de duplos, processo que representa o único meio possível para a conquista da imortalidade = mediante propagação, pelas gerações, das palavras, dos livros, das ideias. Nesse contexto, a descrição do modo com que cada teoria era elaborada (as hereges e as refutadoras) chama muita atenção, uma vez que todas consistiam praticamente em uma mera colagem de vários pequenos trechos pinçados a partir de obras escritas anteriormente, de autorias diversas;

     4.2. Com O morto, aprendi que é necessário estar atenta para não bancar o "leitor otálora", aquele que equivoca-se ao ler sua própria narrativa e que, acredito, facilmente se deixa ludibriar por metáforas que - adivinhe? sim: - tratam da mesma coisa.

***

Para arrematar minhas especulações, destaco um interessante esclarecimento escrito por Hernán Nemi e incluído no livro Borges Babilônico, enciclopédia organizada por Jorge Schwartz (Companhia das Letras, 2017), no qual o autor ressalva que Borges, ao longo de sua obra, nem sempre defende exclusivamente a teoria circular do tempo associada ao eterno retorno. Isto foi o que encontrei em os teólogos - tanto no tratamento do tema, como na própria estrutura narrativa -, porém, em outros contos borgianos, poderei deparar-me com concepções diversas sobre o tempo. Anotado!
"Contudo, o maior achado borgiano não consiste em mencionar em meio a seus textos posturas distintas referentes ao tempo, mas em construir relatos cuja trama se desenvolve respondendo a diferentes concepções temporais. Isto é, em alguns contos, a ação se inscreve em um tempo linear, enquanto em outros este é circular ou subjetivo, ou coexistem tempos simultâneos. Isso demonstra ser errado sustentar que o Borges autor adere a uma concepção circular do tempo, relacionada ao eterno retorno. Em alguns contos, ele adere a essa concepção, mas, em outros, a desmente de forma taxativa, e opta por outras. Nesse sentido, sua posição diante do conhecimento vai ao encontro das ideias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (v.), o qual vê toda concepção do mundo como uma ficção útil para explicar em caráter momentâneo a falta de sentido da existência mas que nem por isso deixa de ser uma ficção transitória, sem um valor de verdade em si e que necessariamente deverá dar lugar a outras novas ficções que de modo progressivo ajudem a dar conta da realidade. (...) 
Ao longo de toda a produção de Borges, coexistem concepções diferentes e antagônicas sobre o tempo: linear, circular, subjetivo ou simultâneo. Seu maior êxito não foi incluir tais conceituações nos contos, à maneira de comentários ou digressões, mas haver conseguido que seus textos narrativos se estruturassem de acordo com cada uma dessas noções temporais. Nesse sentido, a obra de Borges demonstra a relatividade de toda concepção do mundo."
- Hernán Nemi, Borges Babilônico (Organização: Jorge Schwartz)

***
"Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não conhecê-la até o fim; (...)
E esse trecho do conto me obriga a tomar emprestado aquele versinho de Gilberto Gil: 
"a paz invadiu o meu coração..."  

Ok, hora de apertar play no vídeo da Aline Aimée. (*Medo*)

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Ah, mas que beleza: após descobrir que sou uma leitora otálora, encaro agora a revelação de que escrevo "aurelianamente". Ok, ok; é a vida, fazer o quê? Ou melhor (conforme abordou Aimée, dentre as temáticas de Borges): ~é o acaso~.  ¯\_(ツ)_/¯

Bom, vista a resenha da Aimée, julgo que me saí ~razoavelmente~ bem. Poxa, poderia ter sido muuuuito pior. Vale a pena assistir ao vídeo - como de praxe: excelente -, no qual ela faz uma bela lapidação nas questões que consegui captar e incluir em minhas impressões.

Seguidamente, insiro apenas algumas passagens da resenha dela que me foram caras e que complementam com maior destaque esta minha viagem borgiana:

→ Admito logo que os presentinhos cômicos, os easter eggs borgianos (e temos mais essa; ora, ora), voaram, sim, por cima da minha cabeça. A verdade é que, quando os diversos nomes que ele solta no texto começaram a se empilhar formando uma montanha gigantesca, desisti sem dó de sair googlando um por um. Perdão.

No entanto, ainda que eu não tenha pescado a piadinha que Aimée relata sobre a dupla Bossuet e Harnack, esses dois não tinham me passado batido. Uma vez lida, esta passagem foi circulada
"(porque os testemunhos diferem e Bossuet não quer admitir as razões de Harnack)"
e, ao seu lado, interroguei à lápis: "esse par (Bossuet + Harnack) representaria O Retorno de Aureliano + Panônia?!" Derrapo no sabão, ou faz sentido?

→ A Aimée ressalta a estrutura do conto, que realmente é peculiar; quase todo escrito como um artigo teológico, não fosse o parágrafo final que pitorescamente quebra o tom acadêmico geral.

→ Quando Aimée comenta que Borges exibe um humor que revela certo prazer no caráter especulativo das teorias teológicas, minha memória devolveu esta informação presente na obra Com Borges, do Manguel:
"(Borges) Lia teologia com um prazer entusiasmado. << Eles acreditam, mas não se interessam; eu me interesso, mas não acredito.>>  Admirava o uso metafórico dos símbolos cristãos feito por santo Agostinho. <<A cruz de Cristo nos salvou do labirinto circular dos estoicos>>, citava, deliciado. E depois acrescentava: <<Mas ainda prefiro o labirinto circular>>."
- Alberto Manguel, Com Borges (Editora Ayiné; trad. Priscila Catão)

→ Não atentei, de fato, à possibilidade de classificar a presença do duplo como um artifício usado por Borges para refutar a ideia da personalidade. Aimée aponta que, tal qual ocorre em O Imortal, A Forma da Espada e O Tema do Traidor e do Herói, o conto Os teólogos denuncia a equivalência entre os homens. Herói e traidor se equivalem, de modo que a distinção entre eles existe apenas no campo da humanidade. E a escolha de quem assume o papel de herói e o de traidor é responsabilidade do digníssimo Acaso.

Ainda quanto ao duplo, Aimée acrescenta outro importante ponto que me fascina bastante: ele permite a autoanalise. É através da relação com João da Panônia que Aureliano percebe a equivalência existente entre ambos, o que o induz a questionar todas suas prévias certezas a respeito de si mesmo e, em última instância, de sua própria concepção do mundo. Peguei-me refletindo que, nos tempos atuais marcados por tamanha intolerância em relação àqueles minimamente diferentes, essa temática da “autoanálise pelo duplo” ganha considerável relevância.

Complemento apenas mencionando que, no começo do conto e antes de todo o imbróglio teológico superveniente, Aureliano já compreendia que as “verdades espirituais” costumam ser tratadas pelos homens de um jeito meio, digamos, ensaboado:
(grifo meu:)
“Aureliano (...) sabia que em matéria teológica não há novidade sem risco; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado ímpar, demasiado assombrosa, para que o risco fosse grave. (As heresias que devemos temer são as que podem se confundir com a ortodoxia.)”
→ Para concluir circularmente esta parte do post, retorno ao tema borgiano do "acaso", tratado por Aimée na discussão do duplo em Os teólogos. No instante em que ela tocou nesse tópico, e dada a maneira com que ela se expressa, me lembrei prontamente da dedicatória que Borges escreve no seu livro Primeira Poesia:
(grifo meu:)
"a quem ler 
Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de ter sido, previamente, por mim usurpado. Nossos nadas pouco diferem; é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator." 
- Jorge Luis Borges, Primeira Poesia (Companhias das letras; trad.: Josely Vianna Baptista)

Ele é Borges, eu sou essa pateta leitora otálora; e é tudo obra do estimável Acaso. Beleza. 👍

P.S.: mais uma vez, agradeço Aline Aimée pelo ótimo vídeo.

16/01/2018

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #02 - O Morto

(Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


A Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa - Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre O Morto: link 2.


** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Eis que, justamente após ler um conto de Borges sem elementos fantásticos, me encontro desprovida de uma imediata impressão global de leitura. A princípio isso é tão cômico, que chego a ouvir o tema de abertura de Curb Your Enthusiasm. Bom, sendo assim, procederei resgatando os destaques que grifei no conto para, a seguir, pontuar elucubrações pessoais.

(1) 
A presença de um recurso narrativo que me parece ser recorrente na obra de Borges chama atenção logo no início: um narrador observador que não conhece todos os fatos da história e que, "pior", sequer é capaz de atestar a veracidade daquilo que nos conta. Em parte, talvez essa seja a causa de meu pronto desnorteio ao final da leitura; o qual ainda me obriga a segurar um "tá, e daí?" entalado na garganta.
(Err, desculpe. ¯\_(ツ)_/¯)
"(...) quero contar o destino de Benjamín Otálora, de quem talvez não reste lembrança (...) Ignoro os detalhes da sua aventura; quando me forem revelados, tratarei de corrigir e ampliar estas páginas. Por ora, este resumo pode ser útil." 
"Muitas coisas vão acontecendo depois, de que sei pouco. (...) Outras versões mudam a ordem desses fatos e negam que tenham ocorrido num único dia."
- Jorge Luis Borges, O Morto

Confabulo se objetivaria enaltecer a literatura oral, fazendo o leitor refletir a respeito de sua evolução para o registro escrito e seu importante papel na preservação da cultura e história de um povo. Novamente, explicaria minha reação ao final da leitura: na tradição oral, a extração de uma mensagem fundamentada na narrativa fica por conta do ouvinte (aqui, documento escrito, da leitora).

Curiosamente, isso resgatou de minha memória a experiência que tive ao ler "O Obsceno Pássaro da Noite", de José Donoso. Nesse livro, a narrativa do autor chileno realça inúmeras vezes o papel daqueles pequenos causos que são contados entre gerações, crescendo cada vez mais, ganhando múltiplas versões e ares pitorescos. Trata-se de uma tradição que julgo ser, de fato, típica da cultura latino-americana. Saquei o livro da estante e, na página 24 (Editora Francisco Alves, 1979),  localizei esta passagem (um exemplo apenas, pois há vários outros) que dialoga muito bem (acho) com o recurso usado por Borges em O Morto:
"(...) as velhas, não me lembro qual delas, tanto faz, estavam contando mais ou menos esta fábula, porque a ouvi tantas vezes e em versões tão contraditórias, que todas se confundem."
- José Donoso, O Obsceno Pássaro da Noite (* nome do tradutor não localizado)

A identificação desse elemento provoca divertidos questionamentos devaneantes:
- A ausência de um atestado de veracidade daquilo que é narrado compromete seu valor? Repercute em nossa interpretação, certo, no entanto invalida a história contada? Tudo indica que não.

- Essa incerteza em relação àquilo que é narrado não lembra bastante a forma com que contamos nossos sonhos a terceiros?! Sonhos!! Rá!

- Uma vez que o narrador afirma desconhecer alguns fatos, ao mesmo tempo que reconhece a existência de outras versões e uma disposição para ampliar posteriormente seu relato; teríamos então uma anedota... infinita?! Passível de engrandecimento e correções infinitas?! Ora, ora, hein?

**Atualização em 27/05/2018**
A leitura recente do livro Com Borges, de Alberto Manguel, me revelou outro aspecto importante dessas informações de natureza imprecisa no texto: remetem aos romances policiais, tão amados por Borges!! Puxa, mas é claro! Conforme o livro de Manguel, Borges cita um trecho de Dom Quixote, o começo "Em um lugar de la Mancha, cujo nome não quero recordar...", e propõe o seguinte: "e se lêssemos Dom Quixote como um romance policial?" O "não quero recordar" já levantaria suspeitas no leitor, do tipo "por quê? que pistas está escondendo?"
**Fim da atualização**

(2)
Depois, pude perceber outro tema também caro a Borges (a própria nota de rodapé inicial do tradutor facilita): o gaucho e seu vasto mundo das planícies. Dando uma olhadela na coletânea Ficções, pesquei dois contos aparentemente responsáveis pela minha recordação: O Fim e O Sul. Segue um trecho de O Morto que sugere bem tal temática:
"Começa então para Otálora uma vida diferente, uma vida de vastos amanheceres e de jornadas que têm o odor do cavalo. Aquela vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, porque, da mesma forma que os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece esses símbolos) ansiamos pela planície inesgotável ressoando sob os cascos. Otálora fora criado nos bairros do carreteiro e do quarteador; antes de um ano se torna gaucho."
- Jorge Luis Borges, O Morto.

Aproveitei para recorrer, finalmente, ao Borges Babilônico, enciclopédia organizada por Jorge Schwartz (Companhia das Letras, 2017). Prontamente, topei com uma direção mais clara quanto à anteriormente referida tradição oral: ela relaciona-se ao próprio gauchesco! Fascinante. E registro, super resumidamente, que o termo "gaucho" surgiu no último terço do século XVIII (a história do conto transcorre em 1891), tendo sofrido mudanças de significações até atingir o mitificado emblema de uma identidade nacional. Para detalhes, recomendo a leitura direta do texto contido na enciclopédia, do qual extraio os seguintes trechos:
"(...) no rio da Prata, uma coisa é a tradição e a produção oral dos gauchos (v.) (...) O efeito oralizante da gauchesca é tão forte que até os mais argutos leitores esquecem que com grande frequência esses textos estabelecem outra ficção: a de que o lido corresponde a algo — gazeta, carta, manifesto, reclame, anúncio, ameaça — escrito por imaginários gauchos letrados, embora de forma muito distante do conceito das belas-letras contemporâneas, como se, ao escreverem, estivessem falando."
"As primeiras atitudes de Borges quanto à questão dos gauchos e às temáticas que a rodeiam, nos textos impregnados de um vanguardismo de matiz criollista (v. criollo) que ele depois eliminou das Obras completas, foram de fascínio pelo personagem e pelas modalidades de sua fala e tons, que contaminaram as próprias opções léxicas e de fonetização da escrita."
- Julio Schvartzman, Borges Babilônico (Organização: Jorge Schwartz)

O fato de que Otálora não nasce gaucho, mas, sim, que torna-se um a partir de sua condição de compadrito (plebeu das cidades) parece particularmente relevante, contudo encontro dificuldade em delinear precisamente a intenção de Borges aqui. Acredito que essa reflexão exige maior conhecimento dos aspectos políticos e históricos formadores da identidade nacional dos países da bacia platina, o qual não possuo infelizmente. Ouso lançar uma pergunta especulativa: a metamorfose explicaria o destino que a narrativa reservou a Otálora? Sendo um gaucho (mal) "convertido", digamos, seu final restaria fadado a tamanha prematuridade? Aliás, quando a imagem dele não apareceu refletida no espelho embaçado, vaticinei um "xi, ferrou, Otálora."

E olha só! Buscando "Otálora" no Borges Babilônico, encontrei uma informação bastante esclarecedora: a transformação do protagonista também se relaciona à ambiguidade do espaço de fronteira.
"Ali (fronteira) a ambiguidade é possível e a identidade pode ser alterada, refeita, como faz o personagem de “O morto” (O Aleph), Benjamín Otálora, um argentino que se torna um gaucho (v.) no Uruguai — uma ironia sobre a possibilidade de definir a nacionalidade argentina tendo como ponto de partida o gaucho."
- Pablo Martínez Gramuglia, Borges Babilônico (Organização: Jorge Schwartz)

Mas é claro. Boa. 

 (3) 
Ademais, acrescento somente que parece-me peculiar que as coisas tenham dado errado para o jovem Otálora exatamente quando ele se deixa guiar cegamente pela ambição, caindo na crença falaciosa de que sua juventude derrotaria a larga experiência do velho Azevedo Bandeira. Outro grave erro cometido pelo rapaz foi subestimar os laços de fidelidade construídos na sociedade gauchesca. Ele erra embaraçosamente ao apostar que o fiel capanga Ulpiano Suárez estaria disposto a passar a perna em seu velho chefe. Haveria, desse modo, lições de paciência e de respeito pela sabedoria e tradição que nos antecede? Deixo a especulação. 

E achei igualmente interessante que uma liderança bem-sucedida naquele meio gauchesco tenha sido caracterizada pela conquista de uma tríade (descrita por dois grupos distintos de palavras):
"A mulher, o arreio e o alazão são atributos ou adjetivos de um homem que ele almeja destruir." 
"(...) o amor, o mando e o triunfo, (...)"
- Jorge Luis Borges, O Morto.

Indica que, nas amplas e infinitas (oi!) planícies, esses seriam os bens que realmente importam.

Por fim, ressalto o gosto amargo produzido pelo destino final de Otálora. Considerando-se a frase “lhe permitiram o amor, o mando e o triunfo, porque já o davam por morto, (…)”, minhas conjecturas contemplativas concentraram-se nesta pergunta: a morte seria a única maneira de conquistar a tríade gloriosa? Opto concluir que, quando metemos os pés pelas mãos como o fez o jovem gaúcho Otálora, sim.

É, ficarei por aqui. Vamos ao vídeo da Aimée. Play!



[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]






[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Como leitora que teve de segurar um “tá, e daí?” ao terminar de ler O Morto (porém ressalvo que a Aimée admite ser um conto simples) , afirmo que é espantosa a complexidade que se revela quando nos dispomos a lê-lo minuciosamente. A análise do vídeo ficou excelente. Procederei à complementação das minhas impressões.

“O Imortal → O Morto”: é verdade! A ironia na sequencia dos títulos, comentada por Aimée, tinha me escapado vergonhosamente. Concordo quando ela diz que Borges era um fanfarrão. Se duvidar, é por isso mesmo que gosto tanto do que ele escreveu. 

Preciso anotar uma informação significativa que ela fornece no vídeo, a qual eu ignorava. Borges, em sua obra, contesta três certezas de nossa existência:

- O Universo;

- A Personalidade;

- O Tempo.

Ótimo, terei isso em mente para os próximos contos. Aimée refere que, em O Imortal, ele explora a contestação da personalidade. Contudo, como escrevi em minha postagem anterior, penso que o autor contesta conjuntamente também o tempo naquele conto. Como falar de “tempo” em um contexto de imortalidade, afinal? Em O Morto, Aimée esclarece que também encontramos a discussão da personalidade, visto que Otálora passa por extremos de identidade. Além disso, essa ambiguidade aparece não só no espaço de fronteiras e nesse lugar movente da personalidade do protagonista (as quais consegui captar), mas igualmente na cena em que o protagonista leva o chá para Bandeira. Era uma tarefa medíocre e, simultaneamente, notável por permitir que Otálora se aproximasse de seu alvo. Há lógica; e achei formidável!

Certo; contudo a parte mais legal da resenha da Aimée ficou por conta do comentário referente às leituras distintas que Otálora e Bandeira fizeram daquela situação. Otálora cai nas pistas falsas que surgem em seu percurso colocadas por Bandeira, o melhor leitor* e a personagem que efetivamente escrevia aquela história. Nesse sentido, a identidade que Otálora cria para si é uma mentira, ou seja, uma ficção. (O que, uma vez mais, contesta a ideia de personalidade.) Essa chave, penso, encaixa-se na pergunta que eu havia lançado (repito:): "A ausência de um atestado de veracidade daquilo que é narrado compromete seu valor? Repercute em nossa interpretação, certo, no entanto invalida a história contada? Parece que não, confere?". Resta evidente, nesse ponto, que uma inveracidade não apenas não invalida uma narrativa; mas, inclusive, constrói a ficção. É divertido. Ah, e Aimée lembra que isso estabelece um paralelo com o conto A Morte e a Bússola, da coletânea Ficções. Não vislumbro outra saída, senão repetir a exclamação: é verdade!

[** Atualização em 20/01/2018:**]
Atualmente estou lendo o livro Autumn, escrito pela escocesa Ali Smith, e surgiu uma passagem  - um diálogo entre duas personagens, para ser mais precisa - que acredito também traduzir de uma boa maneira o que eu quis dizer quanto à relação entre histórias x verdades x mentiras. Decidi incluir o trecho nesta postagem. Segue:
"The world exists. Stories are made up, Elisabeth said. 
But no less true for that, Daniel said. (...) And whoever makes up the story makes up the world, (...) And if I'm the storyteller I can tell it in any way I like, (...) 
So how do we ever know it's true? Elisabeth said. 
Now you're talking, Daniel said."
                                                                                                                      - Ali Smith, Autumn. 
[** ...Fim da atualização de 20/01/2018**]

Agora, para algo que me aparvalhou: há, no texto, sutis referências bíblicas. Meu deus (intencional 😉). Benjamin é o nome do filho de Jacó, havendo reflexos (oi!) entre a jornada da figura bíblica e a da borgiana (Benjamín Otálora). Outra: a cena do beijo que Otálora recebe de sua amante, antes de morrer, lembra o beijo de Judas. Não dou conta desse fanfarrão argentino. Amo.

- Aimée, obrigada pelo vídeo.

Próximo conto: Os Teólogos. Até lá.
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* Hum, eu seria uma Leitora Otária Otálora??!