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04/01/2016

Cat's Cradle - Kurt Vonnegut

(sobre o livro: info sinopse, etc.)
"- No wonder kids grow up crazy. A cat's cradle is nothing but a bunch of X's between somebody's hands, and little kids look at all those X's...
- And?
- No damn cat, and no damn cradle."

¯\_(ツ)_/¯

[Nada neste post é verdadeiro.]

Aconteceu - ou como estava previsto para acontecer (za-mah-ki-bo): converti-me ao Bokononismo, e a leitura do livro do Vonnegut foi meu kan-kan. A partir de agora, sigo os preceitos mentirosos do pastor Bokonon e nada mais me faltará.

Para compreender o Bokononismo, é preciso ser capaz de entender que religiões fundamentadas em mentiras podem, sim, ter utilidade:

      Poema Bokononista - Calipso
      I wanted all things
      To seem to make some sense,
      So we could all be happy, yes,
      Instead of tense.
      And I made up lies
      So that they all fit nice,
      And I made this sad world
      A par-a-dise.


Quem compõe o meu karass - o time organizado por Deus para cumprir sua vontade? Quem são as pessoas que parecem estar ilogicamente presentes em minha vida? Será que, na verdade, eu faço parte de um duprass - uma dupla? Não, não; eu preciso parar imediatamente de pensar nisso, pois Bokonon alerta que esses tipos de investigações e conjecturas são imprestáveis. Assim escreveu Bokonon: "...tolos são os que julgam-se capazes de compreender o que Deus está fazendo."  Perante a imprevisível e complicada máquina da vida; quando diante de eventos misteriosos, os Bokononistas devem limitar-se ao mantra "Busy, busy, busy", tendo em vista que absolutamente ninguém faz a menor ideia do que realmente está acontecendo (nem mesmo César). Segundo o primeiro livro de Bokonon, o Homem, após ter sido criado por Deus, perguntou-lhe educadamente qual era o propósito de tudo aquilo; e Deus respondeu-lhe:
        - É preciso que tudo tenha um propósito? Então deixo por sua conta encontrar um. - E foi-se embora.

Agora, analisando minha vida em retrospecto, consigo identificar claramente o que deveria ter sido meu vin-dit - o momento em que o bokononista começa a acreditar que Deus possui um plano bastante elaborado para que cumpra -; e meu wrang-wrang - a pessoa cuja vida absurda serve como o exemplo apto a desviar o bokononista de uma especulação equivocada. 

Aprendi que, para o Bokononismo, a maturidade é um desapontamento amargo para o qual não existe remédio algum; a menos que admita-se que o riso possa curar qualquer coisa. Também achei sábio o alerta de que preciso estar atenta a possíveis sugestões inusitadas de viagens, pois podem ser uma lição lançada por Deus em meu caminho.

Você também é um bokononista. Você vai ver. Ou melhor: como está previsto para acontecer; você verá. (...a menos que o Ice-nine acabe com tudo antes...)
“Live by the foma* that make you brave and kind and healthy and happy."
          The Books of Bokonon. I : 5
         (*Harmless untruths)

03/01/2016

The lonely passion of Judith Hearne - Brian Moore

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.)
       
 - Paul, ainda não sei de onde vêm todas, mas já tenho a resposta (objetiva) para uma delas: segundo o Brian Moore, a Eleanor Rigby Judith Hearne vem da Irlanda. 

Sem que eu planejasse, essa acabou sendo a segunda leitura do ano envolvendo a história de uma ~solteirona~ (spinster); porém creio que a trilha sonora que elegi para cada uma delas deixa claro como as abordagens de ambos os livros são diferentes. Enquanto o livro da Barbara Pym ganhou a música Spinster, da Joan Jett, o do Moore ficou com Eleanor Rigby, dos Beatles. De forma explícita: o que o Excellent Women tem de cômico e irônico, o TLPJH tem de triste e depressivo.
Judith Hearne não está simplesmente solteira; mas sim completa e desconsoladamente solitária. Essa constatação torna-se ainda mais dramática ao leitor porque o encontro com a personagem ocorre no momento em que ela dá-se conta de que "vai ser só aquilo mesmo"; de que não adianta mais iludir-se com falsas fantasias e esperanças sobre uma reviravolta miraculosa na vida. Também especialmente cruéis são os breves trechos em que o autor muda o foco narrativo para o ponto de vista das personagens que orbitam a vida de Judith, pois, diante do que lemos, somos cerceados do direito de supor que Judith estava sendo exagerada ou melodramática; quero dizer, o autor remove quaisquer margens para o discurso "calma, amiga, também não é para tanto." Era para tanto, sim, pois absolutamente ninguém dava a mínima para ela. E caso a intenção da pergunta do Paul McCartney seja mais subjetiva - "Como tornaram-se tão sozinhas? Quais as conjunturas?" -, também não há problemas, pois Moore não nos deixa no escuro e delineia muitíssimo bem os percursos que levaram Hearne àquela situação. 

Em tal circunstância, ela, uma mulher criada como parte da minoria católica da Irlanda do Norte, começa também a questionar aquele Deus a quem sempre seguiu fervorosamente. Tantas regras, tantos mandamentos, tantos sacrifícios... Em troca de quê? Judith pergunta-se e não encontra nenhuma resposta - até ele parecia abandoná-la. De fato, o autor explora e, de certo modo, impõe questionamentos acerca do binômio "culpa/pecado" sobre o qual essa religião é construída.

O livro já foi adaptado para o cinema em 1989,
com a excelente Maggie Smith no papel de Judith Hearne. 

Por ter provocado um momento de memória involuntária, uma cena foi particularmente enternecedora:
"Quickly, Father Quigley strode past the line of boys and reached his half-door...looked the line of little girls. (...) Didn't she know these were children's confession? (...) Penance-giver, he prepared for the penance of listening. (...) He shot the little slot open with a plock! on the first quivering boy who waited in the darkness on his knees, his small story rehearsing in his mind."
... Minha primeira confissão católica, antes da minha primeira comunhão!... Ao ler essa passagem, fui catapultada para o instante do passado: a pequena capela da escola católica apinhada de outras crianças, minhas mãos suando frio e eu de-ses-pe-ra-da a respeito do que diabos (ops!) deveria dizer pro padre. Eu tinha, afinal, pecado? Como? Quando? Por quê? Enfim... 

Moore tem uma prosa bem enxuta e direta, mas que é extremamente eficaz em transmitir a dimensão avassaladora do desalento pelo qual Judith passava. Sério, o livro é muito, muito triste mesmo, mas exatamente por isso achei tão bom.       

08/10/2015

Angel - Elizabeth Taylor

(info, sinopse, etc.)
Esse foi mais um livro sacado dos excelentes catálogos da NYRB e da Virago; embora eu tenha lido a edição brasileira traduzida por Aulyde Soares Rodrigues, publicada em 98 pela editora Mandarim. Agrupei acima imagens das múltiplas capas disponíveis no mercado para ressalvar que a disparidade preliminarmente confusa que despertam resta completamente dissipada após a leitura do livro que, de fato, é bem peculiar (no muito bom sentido, adianto).

Elizabeth Taylor
De antemão, seguem duas notas relevantes sobre a obra:
1. essa  Elizabeth Taylor não é a famosa atriz dos olhos violetas; mas sim a escritora britânica homônima que publicara entre as décadas de 40 e 70. Angel, especificamente, foi publicado em 1957;
2. ao contrário do que o título e a capa brasileira (em especial) sugerem, também não se trata de um daqueles ~romanções~ de banca. Ou trata-se? Bem, eis aí uma interessante questão, a qual retomarei adiante.

Inspirando-se em grande parte na vida de Marie Corelli, famosa romancista inglesa das eras Vitoriana e Eduardiana, Taylor cria a personagem epônima Angélica Deverell; a Angel, cuja trajetória  parece recriar em grande extensão aquela de Corelli.

No início do livro, Angel é uma adolescente de 15 anos que vive sufocada entre dois mundos: de um lado, a pobreza do bairro e casa em que mora com a mãe viúva; do outro, os mistérios sedutores da rica família da Casa Paraíso, de cujas histórias a tia, criada daquela casa, é porta-voz. Aliás, a sombra daquela mansão parece ter-lhe roubado até mesmo o direito a um nome próprio, considerando-se que ela fora batizada de Angélica como uma deturpada homenagem à herdeira homônima da Casa Paraíso.

Como escapismo da realidade considerada degradante, Angel tinha por hábito sonhar acordada, recorrendo a realidades paralelas idealizadas com o glamour digno (na sua concepção) dos muros da Casa Paraíso. Logo no início do livro, ela tem a fascinante ideia, quase uma epifania, de canalizar toda essa imaginação fértil para a escrita de um livro que, ainda em sua fantasia, a tornaria rica e famosa. Por mais improvável que isso possa parecer, o fato é que sua artimanha dá certo: ainda adolescente, Angélica Deverell consegue o feito de publicar seu primeiro livro - Lady Irania - que torna-se um estrondoso e imediato sucesso, catapultando-a à posição de grande escritora best-seller.

Mediante tal premissa, Elizabeth Taylor explora, em tom muitas vezes cômico e quase de paródia, o mercado editorial dos romances populares do final do século XIX e primeira metade do século XX (então publicados por editoras precursoras da atual Harlequin). Algumas passagens do livro ilustram bem a, digamos, comédia por trás daquele universo literário*:

Quanto ao perfil da escritora:
"(...) prosa ornamental, com tantos crescendos e aliterações (...), composição era vulgarmente rebuscada (..). a linguagem empolada, a extravagância, extremamente tedioso, (...)"
"- Você lê muito, Angélica?
- Não, eu nunca leio. (...) Não acho interessante."
 "Poderia perfeitamente, ela pensou, imaginar o que acontecia lá dentro, nos bares, no teatro e na prisão. A experiência era um recurso da imaginação, jamais seria, Angel estava certa, tão bela nem tão terrível." (lembrando que ela começa a escrever ainda adolescente, sem nenhuma experiência de vida.)
Quanto aos editores:
"Nós publicamos para eles, infelizmente, para o "exército do ganha-pão", como diz meu sócio. Eles decidem. (...) Para eles, encobrimos o que é real demais, minimizamos o que é por demais vívido e retiramos uma boa parte do que, de acordo com nosso gosto, preferíamos deixar. "
Quanto à dinâmica crítica x leitores x escritores de tais romances:
"Quanto mais os críticos riam, maiores eram as filas nas livrarias para comprar os livros de Angel; a força de seu romantismo capturava as mentes simples; as situações absurdas encantavam os sofisticados; sua indignação fervente quando uma fúria passageira a fazia afastar-se da história, com denúncias e irrelevâncias, levava alguns leitores a uma concordância solene e outros a acessos de riso."
"Seu ressentimento mórbido com a menor crítica era uma carga penosa para a autora de uma obra tão sujeita a constantes zombarias e ofensas. (...) da legião dos que ridicularizavam seus livros, "os macacos confusos", como ela chamava, "aqueles que zombariam de Shakespeare por serem incapazes de escrever outro Hamlet."
 "(...) parte do estado de excitação dentro do qual o livro fora criado parecia saltar das páginas (...) os leitores menos sofisticados eram transportados para muito além da crítica das inexatidões e das improbabilidades."
* Ou seja: Taylor direciona seu olhar ao mercado editorial do início do século XX e ainda acaba acertando, com pequena margem de erro, igualmente o cenário literário atual.
...

Porém, extrapolando ainda mais essa excitante paródia literária, acho que pode-se dizer que a verdadeira essência do livro é mesmo a protagonista que, não à toa, intitula ironicamente a obra, visto que, de angelical, ela não tem nada (adendo: se admitirmos que a capa brasileira não tenta ludibriar o leitor quanto a proposta da obra, mas sim reforçar essa ironia do título; fica mais fácil aceitá-la). Taylor narra toda a vida de Angélica Deverell, uma espécie de anti-heroína tão detestável quanto fascinante, e que efetivamente desperta sentimentos bastante dúbios no leitor. Angel é uma precoce escritora que habita permanentemente, como já mencionado, uma realidade delirante que ela própria cria a fim de satisfazer as necessidades de sua imaginação megalomaníaca e de proteger-se das brutalidades reais da vida. Sua personalidade é do tipo tóxica, arrogante, narcisista e histriônica. Esta passagem ilustra bem o efeito que a presença de Angel causava nas pessoas:
"Não estou mais rindo dela (de Angel) (...). Na verdade tenho um pouco de medo. Hermione a imaginava sentada no fundo do mar, fazendo encantamentos, contando os corpos dos afogados. Pediu a uma criada para acender mais velas, pois a sala, de repente, pareceu tristonha. Faltava alegria e ela sentia-se gelada."
Ao mesmo tempo, como não admirar uma mulher confiante e determinada que, com uma inegável dedicação ao seu trabalho, consegue mudar para uma direção muito melhor o rumo de sua própria vida em pleno final de século XIX? Voltando à questão inicial desse post: o livro é um romance de banca? Acho que, em consonância com o tom cômico, pode-se dizer que Taylor parece propor um "romance de banca às avessas", no qual a trajetória de uma heroína execrável, mas também admirável, presta-se como metalinguagem crítica para o gênero satirizado.

Através da personagem Angel, a autora também levanta uma série de questões bastante provocativas sobre a relação "escritor x escrita":

      - O tipo de literatura produzida por escritores como Angel é menor? É imprestável e irrelevante?

      - O quanto de Angélica Deverell existe em todo e qualquer escritor? 

      - A escrita é uma arte cujo exercício exige, inevitavelmente, um pouco de paranoia, obsessão,                     excentricidade, vaidade, arrogância, solidão? 

      - E, como o final do livro parece questionar: para o escritor, vale a pena o sacrifício?

Em sentido correlato, a premiada escritora britânica Hilary Mantel, grande admiradora do livro, assim já o descreveu: "Elizabeth Taylor’s tender, funny, exquisitely stylish novel keeps us on Angel’s side, even though we are appalled by her narcissism and shocked into laughter by her self-delusion. She is a monster, but a delicious monster, and the novel poses, for writers, questions that don’t date. That’s why I’m so drawn to the book and have loved it for years; there’s a bit of Angel in every writer, I fear."  

Enfim, foi um livro que me surpreendeu muito positivamente. 
...

Em 2007, a obra foi adaptada para o cinema por François Ozon, mas creio que nem o Fassbender fez compensar o tempo que despendi assistindo ao filme. Achei o roteiro péssimo, a atuação da Romola ficou bem pouco convincente (para quem leu o livro, pelo menos) e, de modo indefensável, o filme é inegavelmente chato. ¯\_(ツ)_/¯

Segue o trailer:


20/09/2015

[Mad Men Reading List] Lady Chatterley's Lover - D. H. Lawrence


A New York Public Library montou uma listinha de 25 livros que apareceram na série Mad Men, e fiquei com vontade de encarar alguns* daqueles títulos. Começo com Lady Chatterley's Lover porque, além de ter sido um dos primeiros que apareceram na série (S01E03 - Marriage of Figaro), meu exemplar fora aquirido exatamente depois que assisti à ótima cena em que a obra é discutida (ou seja, dei-me conta de que meu livro estava pegando poeira na estante há cerca de sete anos! ai, ai...). 

1. Queda e declínio do império romano? Sério, Sally?;  2. Desculpa, mas tenho preguiça eterna de Mark Twain;  3. Dois pés atrás com Thomas Pynchon ; etc, etc. )

Vou me intrometer no papo das secretárias da Sterling Cooper Agency para registrar algumas impressões de leitura:


-  err, not quite. 

Ao contrário do que eu supunha, o livro de D. H. Lawrence não se propõe a simplesmente narrar uma boa história sem ignorar a vida sexual das personagens, ou, de outro modo; não trata-se apenas de demonstrar que há, sim, espaço na Literatura para tratar abertamente de sexo. A verdade é que o livro nos apresenta a um autor disposto a defender certa bandeira valendo-se da temática sexual como principal munição. 

Em Lady Chatterley's Lover, Lawrence prega contra a industrialização (como executada) e contra a estratificação social. Ele acusa a sociedade de sua época de futilidade e superficialidade, afirmando que ela constituía-se de indivíduos que só pensavam em dinheiro e sucesso, de modo que, em tal transformação, até o sexo havia sido colocado em segundo plano, tornando-se mais uma ocasião para performance social. Em contrapartida e com algumas ressalvas, ele parece mesmo sustentar uma proposta do tipo "conectemos com nossas emoções, vamos voltar para a natureza, preservar o belo e transar livremente e com intensidade; a estratificação da sociedade é uma falácia, só dinheiro não traz felicidade, yada, yada, yada." (base para o futuro o movimento hippie?...) Imagino tratar-se de um discurso compreensível para aquele período entre guerras, mas acabei achando o tom recorrentemente enfadonho.

A própria paraplegia do Clifford, um aristocrata inglês pseudo-intelectual aspirante a grande escritor, aparece também para que Lawrence espezinhe os colegas escritores, insinuando que seriam um bando de intelectualoides narcisistas despidos de qualquer paixão, produzindo uma arte vazia, egocêntrica e sem sentimento.

Que o autor defenda um ponto de vista valendo-se do sexo como argumento, tudo bem; o problema, a meu ver, está em executar tal premissa de modo excessivamente explícito e artificial. Lawrence injeta as suas próprias convicções nos pensamentos e falas de personagens completamente insípidas e mal desenvolvidas, o que acaba tornando a narrativa muito pouco convincente, aproximando-a de uma abominável e rasa obra panfletária. A caracterização das personagens me pareceu tão pobre, que eu simplesmente não conseguia engolir de modo contundente que aquelas pessoas pensavam mesmo naquilo. O autor usa um discurso indireto livre peculiar, às vezes parecendo flertar com múltiplos fluxos de consciências, e que eu não conseguia comprar por completo: "não, não, Lawrence, isso é coisa só sua; e não dessa personagem".



- With a bit of a struggled contextualization, I suppose I can too.

Muito barulho por nada. É realmente impressionante que tenha permanecido censurado nos EUA até a década de 60. 


- Exactly!


- Maybe they should, yes; but would they like what they'd find? I doubt it.

Veja bem, há diversas passagens nas quais o Sr. Lawrence expõe os homens como figurinhas meio, digamos, ridículas. Eles aparecem como indivíduos inseguros, "(...) too sensitive in the wrong place.",  que precisam ser tratados como bebês pelas mulheres.

Uma das minhas passagens favoritas é aquela em que Connie, completamente alheia ao ato sexual, dá uma espiada consciente na posição e nos movimentos executados pelo seu amante e acaba dando-se conta de que aquilo era um bocadinho deplorável:

"(...) her spirit seemed to look on from the top of her head, and the butting of his haunches seemed ridiculous to her, and the sort of anxiety of his penis to come to its little evacuating crisis seemed farcical. Yes, this was love, this ridiculous bouncing of the buttocks, and the wilting of the poor insignificant, moist little penis. This was the divine love! After all, the moderns were right when they felt contempt for the performance; for it was a performance. It was quite true, as some poets said, that the God who created man must have had a sinister sense of humor, creating him a reasonable being, yet forcing him to take this ridiculous posture, and driving him with blind craving for this ridiculous performance. Even a Maupassant found it a humiliating anticlimax. Men despised the intercourse act, and yet did it."

Outra deliciosa pérola do livro: o marido da Mrs. Bolton, traumatizado após testemunhar a esposa em trabalho de parto, só transava praticando coito interrompido, pois estava certo de que o perrengue do parto não era coisa de Deus. Como ela mesma afirma: (depois do parto) "I had a bad time, but I had to confort him." 


- But isn't it possible that's what it really is, Joan? Tell me, what do you talk about, when you talk about marriage?

O D.H. Lawrence acaba propondo discussões ainda válidas (?) sobre o casamento. 

- A mais trivial de todas: qual o papel do sexo no casamento? Existe casamento sem sexo? E casamento só com sexo, sem nenhum diálogo? Basta ter algum/qualquer sexo, ou é preciso que ambos estejam satisfeitos em uníssono? Existe isso: ambos plenamente satisfeitos?

- O casamento resiste à ausência de filhos? Lawrence parece postular, p. ex., que o instinto maternal é forte o suficiente para determinar - mais cedo ou mais tarde - as condutas femininas... (Connie cede pela primeira vez aos encantos do amante quando se emociona com os pintinhos de uma galinha!! - pelo amor de deus...)

- E difícil não parar para refletir acerca do discurso de Clifford Chatterley. Ele confidencia abertamente à esposa que não se importaria que ela mantivesse casos extraconjugais e nem mesmo em criar, como seu, um filho bastardo; desde que ela procedesse de modo discreto e respeitoso. Para Clifford, o casamento era um pacto eterno firmado entre duas pessoas no qual o companheirismo e o respeito mútuo era o que devia ser preservado. Mas, claro, cabe incluir na reflexão: será que ele também pensaria isso, se não fosse paraplégico?
“It would almost be a good thing if you had a child by another man,” he said. (...)
“But what about the other man?” she asked.
“Does it matter very much? Do these things really affect us very deeply? ... You had that lover in Germany... what is it now? Nothing almost. It seems to me that it isn’t these little acts and little connections we make in our lives that matter so very much. They pass away, and where are they? Where ... Where are the snows of yesteryear? ... It’s what endures through one’s life that matters; my own life matters to me, in its long continuance and development. But what do the occasional connections matter? And the occasional sexual connections specially. If people don’t exaggerate them ridiculously, they pass like the mating of birds. And so they should. What does it matter? It’s the life-long companionship that matters. It’s the living together from day to day, not the sleeping together once or twice. You and I are married, no matter what happens to us. We have the habit of each other. And habit, to my thinking, is more vital than any occasional excitement. The long, slow, enduring thing ... that’s what we live by ... not the occasional spasm of any sort. Little by little, living together, two people fall into a sort of unison, they vibrate so intricately to one another. That’s the real secret of marriage, not sex; at least not the simple function of sex. You and I are interwoven in a marriage. If we stick to that we ought to be able to arrange this sex thing, as we arrange going to the dentist; since fate has given us a checkmate physically there.”

- A lot? Do they? Hum, that's not the impression I had.

Talvez por conta da censura, não sei, mas eu acreditava que iria encontrar algo mais, sei lá, eroticamente interessante? Estimulante? Excitante? Achei as descrições meio nhé.

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia; cabe admitir que a descrição do Oliver Mellors - o digníssimo amante da Senhora Chatterley - permitiu que ele se materializasse fixamente na minha imaginação como o irmão gêmeo do Michael Fassbender; daí, já era: até sonho rolou e, quanto a isso, não digo mais nada.


- Totally agree, Joan.

Este aqui, por exemplo, é sem dúvidas um grande momento do livro: 
(He said) "That's got such a nice tail on thee. That's got the nicest arse of anybody. (...) It's a bottom as could hold the world up, it is. (...) An' if tha shits an' tha pisses, I'm glad. I don't want a woman as couldna shit nor piss."

Este também não fica atrás (no pun intended):
(...) the erect phallus (...). How strange! she said slowly. How strange he stands there! So big! and so dark and cock-sure! (...) So proud! And so lordly! Now I know why men are so overbearing! (...) A bit terrifying! But lovely really! And he comes to me! (...) And now he's tiny, and soft like a little bud of life! (...) so innocent (...) you must never insult him, you know. He's mine too. (...) And she held the penis soft in her hand."
Ah, e achei o primeiro  parágrafo do livro bastante provocativo (bem no espírito, suponho, daquele período histórico):
"OURS IS ESSENTIALLY A tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habits, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We’ve got to live, no matter how many skies have fallen."


- Too late. 

Traçando um paralelo com os tempos  atuais, essa  fala  é  bem  curiosa. Como  superficial    ponto de partida: diz aí, por exemplo, quem nunca viu pelo menos um(a) passageiro(a) lendo 50 Tons de Cinza no ônibus/metrô sem demonstrar qualquer constrangimento? Será que disparou o radar de algum  tipo errado? Intrigada.

14/09/2015

Lolly Willowes (Sylvia Warner) & The Vet's Daughter (Barbara Comyns)

(sobre Lolly Willowes)    (sobre The Vet's Daughter)
Descobri esses títulos através da NYRB - New York Review Books, editora de cujo catálogo gosto e no qual confio bastante; e, sem que eu tivesse antecipado o íntimo diálogo que travariam, afortunadamente os li em sequencia. Foi possível identificar inúmeras e interessantes semelhanças entre eles, mas também algumas diferenças cruciais.

Tentando traçar um paralelo pontual e sumário, mencionaria o seguinte:

  Certa proximidade surge a partir das próprias autoras. Barbara Comyns (1909 - 1992) e Sylvia Townsend Warner (1893 - 1978) são britânicas, e acho que não seria extrapolação considerá-las relativamente contemporâneas entre si. Pelo pouco que consegui descobrir,  as duas escritoras parecem ter sido mulheres fascinantes. 

(fonte das informações: Goodreads)
  Quanto à narrativa, alguns elementos:


 A vida das duas protagonistas caracteriza-se por certas circunstâncias que, em suas bases e essências, podem ser consideradas algo próximas:

  The Vet's Daughter: Alice vive sob a sombra de um pai que aparece como uma figura masculina extremamanete violenta, autoritária, fria e amedrontadora. A mãe, mera empregada dentro de sua própria casa, chega a confessar-lhe que o marido casou-se com ela simplesmente pelo dinheiro. As duas vivem em um permanente clima de terror e medo, o qual Barbara Comyns constrói em sua prosa de modo bastante singular. O livro lembra uma espécie de conto de fadas gótico, no qual o trabalho do pai como veterinário - a casa da família apresenta-se com caveiras de macacos, cachorros deformados, um papagaio que ri nas situações mais inapropriadas - contribui para criar uma atmosfera meio ~David Lynchiana~ (existe isso?). Não sei apontar exatamente o segredo, mas o fato é que lê-se o livro com a certeza constante de que uma merda enorme vai acontecer na próxima virada de página. 


  Lolly Willowes: Quando o pai falece, o irmão de Laura - um advogado casado, conservador, religioso, pai de família - faz com que ela abandone a vida plenamente realizada que levava no interior para ir morar com sua família em Londres  - afinal, como poderia uma digníssima representante dos Willowes viver solteira e sozinha em uma casa do interior? Fora de qualquer cogitação. 
Laura passa a viver em um ambiente sufocante, no qual tentam casá-la a todo custo, mas sem sucesso. Ela vê-se obrigada a adaptar-se a uma rotina que não lhe pertence e a aceitar resignadamente a violência contra sua liberdade e individualidade: ela não é mais a Laura Willowes, mas sim a Tia Lolly, um mero agregado familiar acolhido no puxadinho da casa. 


→  No decorrer de ambas as narrativas, elementos mágicos e sobrenaturais surgem nas vidas das duas personagens. Observando algumas opções de capas desses livros, é possível inferir de quais fenômenos estou falando:


   (RESPOSTA: bruxaria, pacto com o diabo - gato como mensageiro - , levitação!)


  E é a partir desse ponto que os livros se distanciam de modo bastante relevante.

Laura não se assusta com a novidade sobrenatural. Ela mostra-se capaz de acolher aquele elemento mágico como algo que a distingue de modo especial; algo que a fortalece para a retomada das rédeas da própria vida; da sua independência e identidade.

Alice, por sua vez, não sabe lidar com a estranha habilidade. Talvez por ser muita mais nova que Laura - tendo a mente ainda plenamente lapidada pela sociedade/pai quanto ao papel que lhe "cabe" -, ela não consegue enxergar a distinta aptidão como algo positivo ou vantajoso para confrontar quem quer que fosse, até mesmo o pai. 


→  Há  uma   frase  de  Alice que   delineia  muito  bem  esse   ponto  em  que  as duas protagonistas se separam por caminhos diferentes (tradução livre minha):
(Alice) "Por favor, Deus, não deixe que isso aconteça comigo. Pai, não me obrigue a fazer isso. Eu não quero ser peculiar e diferente. Eu quero ser uma pessoa ordinária. Eu me caso com Henry Peebles e parto para que nunca mais você tenha que me ver - mas não me obrigue a fazer essa coisa terrível."
Embora não apareça explicitamente no livro de Sylvia Warner, é fácil deduzir, com mínima margem de erro, que Laura Willowes mandaria a seguinte contrapartida:

(Laura):  Eu não quero ser ordinária e normal, eu quero ser peculiar.


  Concluo refletindo a respeito de uma proposta que  pode  ser  assimilada  a  partir dessas leituras: que tal lutarmos contra o patriarcado com uma bruxaria e levitação de cada vez?




24/05/2015

On the pleasure of hating - William Hazlitt

photo by @mashamitovich

Sem rodeios: nutro alguns ódios. Minha lista de coisas/pessoas odiadas é longa e, para espanto próprio, só cresce. Não me orgulho e, se prestar como defesa, afirmo praticar apenas o ódio passivo, o que significaria dizer que - parafraseando o Woody Allen - o sentimento serve apenas para alimentar um tumor interior. Então, quando a foto acima surgiu compartilhada pelo Instagram da Penguin UK, minha curiosidade foi imediatamente atiçada.

Por conta da provocação fácil e astuta do título, imaginei logo que fosse um lançamento recente, mais um caça-níquel de editoras, nos moldes daqueles livros vendidos pela Urban Outfitters. No entanto imaginei errado, pois o ensaio que intitula o livro foi escrito em 1826 (!), pelo inglês William Hazlitt. Visto que o texto está em domínio público, saquei-o para leitura.

Mr. Hazlitt me pareceu bastante ponderado e perspicaz nas observações que faz acerca do ódio. Ao contrário (de novo) do que o título me fizera supor, ele não desenvolve nem uma ode exultante em defesa das delícias do ódio, nem uma crítica sarcástica aos que odeiam; mas apenas discorre comedidamente sobre como o ódio opera no ser humano.

1.
Hazlitt, presumo, não faria pouco caso de minha capciosa artimanha, aquela do tal "ódio passivo". O autor afirma que o homem é capaz, sim, de aprender a reprimir a exteriorização dos instintos odiosos, contudo isso ocorre muito antes de que se consiga abrandar os sentimentos coléricos.
"The spirit of malevolence survives the practical exertion of it. We learn to curb our will and keep our overt actions within the bounds of humanity, long before we can subdue our sentiments and imaginations to the same mild tone. We give up the external demonstration, the brute violence, but cannot part with the essence or principle of hostility."
2. 
Ele conjectura, de forma ainda mais audaciosa, que a Natureza é feita de antipatias sem as quais a vida seria uma chatice. Embora perverso e corrosivo, o ódio representa uma fonte inesgotável de prazer, trazendo a perspectiva para uma justa valorização do que realmente importa.
"Nature seems (the more we look into it) made up of antipathies: without something to hate, we should lose the very spring of thought and action. Life would turn to a stagnant pool, were it not ruffled by the jarring interests, the unruly passions, of men."
Com certa vergonha, tendo a concordar com Hazlitt. Que atire a primeira pedra aquele que jamais se deliciou com um mísero xingamento odioso que seja.

3. 
Ele argumenta que o Tempo, inevitavelmente, faz com que odiemos: 

- Amigos,
Hazlitt é em tanto cruel ao comparar velhas amizades a um pedaço de carne fria e ruim servida repetidamente: assim como o estômago a recusará, também nós o faremos em relação às velhas amizades. Ele alega que, com o passar do tempo, os defeitos dos amigos tornam-se intoleráveis e as qualidades, devido à exposição contínua, perdem encanto. As pequenas contradições e irritações provocadas pelo relacionamento se acumulam gradativamente, e apenas o ódio permite alívio.

Nesse ponto, já não concordo exatamente com o autor. Penso que os argumentos dele servem, na verdade, para demonstrar apenas que amizades exigem dedicação, a fim de que sejam construídas e preservadas. Se o ódio explícito surge com o tempo, é porque, talvez, nunca sequer existiu amizade genuína.

- Opiniões, 
Esse trecho do ensaio é fantástico. É possível não odiar as velhas opiniões que defendíamos e que, com o tempo, revelaram-se completamente equivocadas? Como não odiar a lembrança de uma convicção passada que nos fez agir feito imbecis? E digo mais: felizes aqueles que as odeiam, pois diminuem as chances de as repetir. (Ou não?)

- e... Livros!
Sim, Hazlitt crê que nos cansamos até de livros favoritos. Particularmente, não acho que seja um destino irremediável, mas a possibilidade parece existir de fato. É exatamente por essa razão que tenho muito receio de reler livros que amei ler no passado.

Comicamente, percebemos que, já no século XIX, praticava-se a premissa hipsteriana do "desprezo aos autores populares".  Oh, the irony. 
"The popularity of the most successful writers operates to wean us from them, by the cant and fuss that is made about them, by hearing their names everlastingly repeated, and by the number of ignorant and indiscriminate admirers they draw after them: - we as little like to have to drag others from their unmerited obscurity, lest we should be exposed to the charge of affectation and singularity of taste. There is nothing to be said respecting an author that all the world have made up their minds about: it is a thankless as well as hopeless task to recommend one that nobody has ever heard of."
Embaraçosamente, assumo nutrir esse tipo de ódio por alguns autores amados pelo mainstream. Ou melhor; seria mais um mero desdém, pois há só 1 ~certo autor~ que realmente odeio, cujo nome não revelarei no blog.

4.
Há uma breve assertiva que resume bem uma possível teoria para a existência dos que odeiam: 
"(...) we avoid the sight, and are uneasy in the presence of, those who remind us of our infirmity, (...)"
Em outras palavras: tendemos a odiar aqueles que nos fazem lembrar de nosso próprios defeitos. Complementando tal ideia, Hazlitt diz preferir ter amigos com defeitos que ele possa ridicularizar, pois assim pode deliciar-se mediante a autoindulgência promovida às custas da chacota desdenhosa dos vícios alheios. 

Ou seja, o exercício do ódio representaria o esforço de desferir contra terceiros o ódio que, de outro modo, recairia sobre si mesmo. É, talvez seja isso realmente. Importante ressalvar, porém, que não parece haver garantias quanto ao sucesso desse recurso. 
"Even our strongest partialities and likings soon take this turn. "That which was luscious as locusts, anon becomes bitter as coloquintida;" and love and friendship melt in their own fires. We hate old friends: we hate old books: we hate old opinions; and at last we come to hate ourselves."
5.
E aqui, a coisa fica séria:
"Love turns, with a little indulgence, to indifference or disgust: hatred alone is immortal."
A Sandy já dizia que "o que é imortal, não morre no final"; então... 

6.
Finalmente, destaco o que, pra mim, foi o ápice do ensaio e o sentido mais aguçado do título: Hazlitt chama atenção ao fato de que muitos credos, ideias, doutrinas, religiões — tão revestidos de grande virtuosismo e boas intenções — prestam-se,  não raro, como meros instrumentos para o exercício opressor e cruel do ódio.
"The pleasure of hating, like a poisonous mineral, eats into the heart of religion, and turns it to rankling spleen and bigotry; it makes patriotism an excuse for carrying fire, pestilence, and famine into other lands: it leaves to virtue nothing but the spirit of censoriousness, and a narrow, jealous, inquisitorial watchfulness over the actions and motives of others. What have the different sects, creeds, doctrines in religion been but so many pretexts set up for men to wrangle, to quarrel, to tear one another in pieces about, like a target as a mark to shoot at? Does any one suppose that the love of country in an Englishman implies any friendly feeling or disposition to serve another bearing the same name? No, it means only hatred to the French or the inhabitants of any other country that we happen to be at war with for the time. Does the love of virtue denote any wish to discover or amend our own faults? No, but it atones for an obstinate adherence to our own vices by the most virulent intolerance to human frailties. This principle is of a most universal application. It extends to good as well as evil (...)"
— Hazlitt, não o odeio; porém, como talvez você mesmo retrucasse, pode ser mera questão de tempo. -‿◦

17/04/2015

Excellent Women - Barbara Pym

(info, sinopse, etc.)
Atraída por uma ótima matéria publicada na New Yorker sobre a autora - Barbara Pym and the New Spinster -, saquei essa obra para conhecê-la e, puxa, que idéia mais acertada. Esse livro é amor; ele é um chá da tarde britânico com biscoitinhos amanteigados num domingo frio e chuvoso.

"PERHAPS there can be too much making of cups of tea (...) Did we really need a cup o tea? (...)

‘Do we need tea?’ she echoed. ‘But Miss Lathbury …’ She sounded puzzled and distressed and I began to realize that my question had struck at something deep and fundamental. It was the kind of question that starts a landslide in the mind.
I mumbled something about making a joke and that of course one needed tea always, (...)"
Como o título da New Yorker sugere, Pym aborda com bastante ironia e bom humor a condição de Spinster na sociedade inglesa.
(via)

Trata-se de um romance de costumes ambientado no período pós-guerra (~50's) londrino narrado pela personagem Mildred Lathbury, uma senhora de trinta anos ~solteirona~ cuja vida alterna-se resumidamente entre o trabalho de meio expediente na Society for the Care of Distressed Gentlewomen (oh, the irony) e as atividades na igreja anglo-católica

Embora Mildred seja a protagonista e a narradora dos eventos, a verdade é que ela é bastante ordinária e que nada fora do trivial acontece de fato na vida dela. Todas as personagens recorrem a ela para resolver seus conflitos banais, afinal, sendo uma solteirona, Mildred "não deve ter mais nada pra fazer, mesmo".
"I told myself that, after all, life was like that for most of us—the small unpleasantnesses rather than the great tragedies; the little useless longings rather than the great renunciations and dramatic love affairs of history or fiction."
Barbara Pym (via)
O revigorante é que Mildred não fica lamuriando-se pelos cantos amaldiçoando a desgraça de sua condição. Embora transpareça certa melancolia e alguma esperança remota de ainda vir a casar-se, ela acaba mostrando-se relativamente bem resolvida com sua solteirice, sendo capaz de fazer piada de si mesma (ainda que autodepreciativas, por vezes) e das "sutis" absurdidades que escuta sobre sua situação. Ao contrário do que talvez fosse justo supor, ela não inflinge-se nenhuma crise existencial; ela apenas toca sua vida simples marcada por refeições solitárias (um pouco deprimentes, talvez), chás, costura, livros de receitas, compras de flores, atividades da paróquia e serviços domésticos.
"Then I went back to my flat and collected a great deal of washing to do. It was depressing the way the same old things turned up every week. Just the kind of underclothes a person like me might wear, I thought dejectedly, so there is no need to describe them."

(via)
O título do livro, o qual surge repetidamente em tom irônico ao longo do texto, corresponde à expressão habitualmente utilizada para referir-se às solteiras - ~ mulheres excelentes ~ -; uma mera condescendência preconceituosa travestida de elogio. 
"But my dear Mildred, you mustn’t marry, (...) I always think of you as being so very balanced and sensible, such an excellent woman. I do hope you’re not thinking of getting married?’ 
He stared across the table at me, his eyes and mouth round and serious with alarm. I began to laugh (...)"
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‘It’s not natural for a woman to live alone, without a husband.’  
‘No, perhaps not, but many women do and some have no choice in the matter.’ 
‘No choice!’ Mrs. Morris’s scornful laugh rang out. ‘You want to think of yourself a bit more, (...) 
‘Yes, I suppose you’re right,’ I said, smiling, for really she was right. It was not the excellent women who got married but people like Allegra Gray, who was no good at sewing, and Helena Napier, who left all the washing up."
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‘Esther Clovis is certainly a very capable person, ... an excellent woman altogether.’ 
You could consider marrying an excellent woman?’ I asked in amazement. ‘But they are not for marrying. (...) They are for being unmarried, and by that I mean a positive rather than a negative state.’ 
‘Poor things, aren’t they allowed to have the normal feelings, then?’ 
‘Oh, yes, but nothing can be done about them.’
Ainda que brevemente, a narrativa de Pym também explora a solteirice masculina, demonstrando que as coisas eram igualmente difíceis para os homens, embora o tratamento fosse um pouco diferente. Há o sujeito solteiro visto como um excêntrico anormal e o pastor que sofre pressão das beatas carolas para preservar a solteirice.
‘He isn’t married then? One of those … I mean,’ she added apologetically as if she had said something that might offend me, ‘One of the kind who don’t marry?’ 
‘Well, he isn’t married and as he’s about forty I dare say he won’t now.’
Os diálogos escritos pela Pym são fabulosos e muito engraçados. A autora teve a manha de colocar Mildred interagindo com um casal em que a esposa é uma antropologista e o marido um oficial da marinha envolvido nas atividades do WREN - Women's Royal Naval Service  (mulheres da marinha britânica) - e, claro, as realidades díspares renderam situações completamente hilárias.
‘My son is at a meeting of the Prehistoric Society,’ said the voice.

‘Oh, I see. I’m so sorry to have bothered you,’ I said. (...)

Everard Bone was at a meeting of the Prehistoric Society. It sounded like a joke."
A rotina da Mildred na paróquia também contribui com cenas e conversas pitorescas, retratando as peculiaridades das interações sociais nessa comunidade.

É mais um livrinho que ganha trilha sonora: Joan Jett and the Blackhearts, "Spinster". O título torna a escolha preguiçosa e a harmonização com o livro não é exatamente perfeita (a urgência da Joan não bate), mas acho que o sentimento ao término da leitura permite um sing-along ainda mais assertivo da música.

      


"My thoughts went round and round and it occurred to me that if I ever wrote a novel it would be of the ‘stream of consciousness’ type and deal with an hour in the life of a woman at the sink."