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12/05/2018

Diários Susan Sontag 1947-1963 [#03]

(*Sobre o livro: clique aqui. Ed. Compnhia das Letras, tradução: Rubens Figueiredo.)


Minha cara não aparece aqui, mas asseguro que ela não é a de uma pessoa disposta a criticar o diário alheio, muito menos o de uma escritora como Susan Sontag. Para registrar essa leitura, escolhi interagir humildemente com o diário dela (o qual é marcado por interessantes listas, citações, pensamentos aleatórios): 1. criando minhas próprias listas a partir das ideias que Sontag lança; 2. dando pitacos inúteis sobre o que ela discorre ou 3. simplesmente anotando as citações que me tocaram, para não esquecer. Haverá (acho, talvez, quem sabe) outras mini postagens. 

Por favor, Sontag, perdoe minha audácia, ok?








[Postagens anteriores: #01, #02]

(* em negrito = entradas da Sontag.)

➤ 
26/08/1949
"Observo com prazer o meu ingresso na fase anarquista-estética da minha juventude. (...) Estou de saco cheio de gente, de burrice, de mediocridade, de cruzadas e política..."


12/05/2018
16 anos. Meros dezesseis aninhos, e a Sontag já estava puta com tudo. Começou a passar raiva bem cedo. Sinto muito por ela.














Em vez da fase anarquista - que nunca tive, aliás -, aos 16 anos, eu já tinha iniciado minha fase eremítica. Hey, cada um reage às agressões do mundo como pode, certo? Sem julgamentos, por favor.














➤ 
24/10/1956
“Filosofia é topologia do pensamento...
"

"Permita-me radiografar seu argumento..."
"Permita-me desemaranhar seu sistema..."    
"Dê-me licença para escavar seus motivos..."

12/05/2018
Eita, será que consigo dar continuidade à brincadeira? Deixe-me ver aqui...
"Não, lindíssima, falou nada; bora rever issaê?..."
"E se eu peneirasse essa sua caixinha de areia, hein, gato? A pazinha já tá na mão..."
"Ei, Metidão a Gambinão, deixe-me interpretar os símbolos dessa sua tentativa de This is America..."

(É o que teve pra hoje.)

➤ 
31/10/1956
“O solipisismo é a única filosofia verdadeira, se por filosofia se entende algo diferente do senso comum. Mas, é claro, ela não se entende assim e não é isso. Portanto não estamos em busca de uma filosofia verdadeira." 


12/05/2018












➤ 
16/11/1956
“(...) pathos da vocação do artista." 


12/05/2018
Mas é claro! No último Diário Cinematográfico, ao tentar descrever a descoberta de uma temática que aparentemente não curto muito em filmes, eu apelei para as expressões "Jornada do Artista /  Calvário do Artista / Alegrias e Tristezas da vida do Artista." , porém essa aí é muito mais precisa e, como diria a própria jovem Sontag, intelectual! Já incorporei ao meu arsenal particular. Valeu.


➤ 
14/01/1957
"Notas sobre uma infância


[Primeira versão]

Pernil + espinafre. Anthony Rowley.

No trem para a Flórida: "Mãe, como se soletra pneumonia?"

Sentada na cama do vovô no domingo de manhã.
(...)
Equipamentos de química"


12/05/2018
Notas sobre uma infância

Sopa no jantar às segundas, quartas e sextas. (oh, yeah.)

Em pleno almoço (!): "Pai, pra que serve a língua, hein?"
(*Hoje entendo porque papai perdeu a paciência comigo. Que criança idiota eu era. (..) "Era"? Aham.)

Visitar o avô materno e ele sempre perguntar: "E como vão os estudos?"

Nas aulas de informática: floppy disks e comandos MS-DOS.
(Que me deixavam BI-RU-TA-ÇA e chorando: "nunca decorarei essas merdas, vou reprovaaaaaaaar, eu quero môrréééééééér!!")
*
- Crianças do século XXI que nunca viram/pegaram/usaram um deste aí (👇), eu as invejo pra ca**lho!

Hold that smile, kid; hold that smile.

22/01/2018

Cartas para a minha mãe - Teresa Cárdenas

(Sobre o livro - info, sinopse etc- clique aqui.) (Ed. Pallas / Tradução: Eliana Aguiar)

Oi, mãe,

tudo bem? Não tinha prometido uma postagem especialmente pra você? Pois aqui está! Acho que  escolhi um livro ótimo pra isso, pois, como o título dele revela, trata-se de uma espécie de coletânea de breves cartinhas que uma garota de dez anos - não nomeada - escreve para a falecida mãe, que estaria no céu. (Eu, em contrapartida, escrevo um post de blog pra minha mãe muita viva, sim, senhor! 😊) Por sinal, suspeito de que você gostará da maneira com que ela define o céu. Leia aí:
“O céu de verdade não se vê, se sente. É uma coisa tão bonita e serena que não dá nem para imaginar. (…) Eu imagino que é um lugar onde não existem mentiras e onde todo mundo se dá muito bem.”
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe

Para preencher a saudade e dar vazão à solidão que sentia, a menina do livro escolhe essa forma de diálogo (via cartas) com a mãe ausente. É um pouquinho triste, sim, mas também singelo e comovente. Para que você tenha uma ideia melhor, insiro imagem da primeira carta (perdão pela qualidade ruim):
Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.
(Tradução: Eliana Aguiar)
Teresa Cárdenas é uma escritora cubana e, nesse livro publicado pela primeira vez em 1998, ela utiliza a ingenuidade e a percepção singular das crianças, assim como o jeito simples e direto com que se expressam, para explorar aspectos da realidade vivida pelos negros em Cuba. Organizei em três tópicos as principais questões que consegui identificar na obra.


RACISMO
O teor das correspondências sinaliza que o racismo é bastante presente em Cuba, a tal ponto que os próprios negros incorrem, paradoxa e cruelmente, em manifestações discriminatórias uns contra os outros. A narrativa sugere que há negros tão convencidos da falaciosa inferioridade fabricada pelo colonizador branco, que relutam em se orgulhar de quem são, de seus traços negros e de sua rica cultura.
“Algumas pessoas não sabem ser negras. Tenho pena delas.”
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe

Nesse sentido, elenco alguns fatos relevantes que a garota compartilha nas cartas:

1. as crianças cubanas sentiam vergonha dos pais que tinham pele mais escura;

2. a menina descreve episódios em que sofria bullying praticado pelos coleguinhas de escola, o que ela atribui ao fato de que era “a mais preta da sala, logo a mais triste.”;

3. casar-se com um branco era sinônimo de uma afortunada conquista para muitos negros, pois significaria “apurar a raça”;

4. os negros que só queriam relacionar-se com brancos eram depreciativamente chamados de “piolas”;

5. a garota afirma que muitos negros preferiam trabalhar na casa de famílias brancas; o que julgavam uma grande honra;

6. as meninas alisavam os cabelos com chapinha e cantarolavam “Meu cabelo é bom! Meu cabelo é liso!”;

7. quando a tia responsável pela guarda da menina se aborrecia, ela vociferava palavras que enalteciam os traços típicos da raça negra; "beiçuda”, por exemplo. É bastante tocante quando a criança compreende que ela deveria, isto sim, orgulhar-se de seus traços – nariz, boca, cabelo, pele -, especialmente por serem similares aos da mãe.
“Descobri que meus olhos são parecidos com os seus, que não podiam ser mais bonitos, e que minha boca e meu nariz são normais. Não gosto que digam que os negros têm nariz achatado e beição. Se Deus existe, com certeza está furioso por ouvir tanta gente criticando sua obra. (…) Por isso não deixo que passem pente quente em meu cabelo. Prefiro fazer penteados. Como as africanas."
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.  


RELIGIÃO E FÉ
A garotinha descreve diversos elementos próprios da relação do país com a religião afro-cubana. Ela explica que as doenças são atribuídas a mau-olhado e a espíritos perturbadores, sendo tratadas também mediante ajuda religiosa, a qual incluía: 1. banhos de descarrego com ervas aromáticas e cascarilla (bolinhas feitas com casca de ovos esmigalhadas), 2. limpeza com galho de pau-ferro banhado em cachaça e defumado com cigarro e 3. o sacrifício de animais aos deuses.

Alguns orixás são citados ao longo do livro e, como não sou familiarizada com essas divindades (você é, mãe?), incluirei imagens que garimpei na internet; até porque me parecem belíssimas, especialmente Oxum e Iansã.

Fontes: 12. 34, 5.

Ainda sobre esse tema, chama atenção a passagem em que a criança, então acostumada com a religião Iorubá, demonstra confusão quando a escola começa a ensinar-lhe a doutrina da igreja católica.
“Mamãe, por pouco ele não nasceu na África! Pode imaginar isso? Mãezinha, você acha que Deus entende quando lhe falam em africano? Eu acho que não. A velhinha das flores me explicou que o Deus dos negros se chama Olofi, mas é o mesmo Deus dos brancos, só que cada um coloca nele a cor e o nome que tiver vontade.”
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.


MULHER NEGRA CUBANA
Lendo essa narrativa, acabei me lembrando de uma frase da obra Their Eyes Were Watching God, escrita pela americana Zora Neale Hurston, sobretudo porque julgo resumir bem o que encontrei no livro de Cárdenas:
"Black women, as far as Nanny can see, get the worst lot in life. While white men are highest in the hierarchy and look down on black men, the black men in turn drop the burden on the shoulders of their women. Everyone treats black women like animals ." 
(Traduzi assim:)
“Mulheres negras, na opinião da Vovó, levam a pior na vida. Enquanto homens brancos ocupam o lugar mais alto na hierarquia e menosprezam os homens negros; os homens negros, por sua vez, jogam esse fardo sobre os ombros de suas mulheres. Todo mundo trata as mulheres negras como animais.”
- Zora Neale Hurston, Their Eyes Were Watching God

Pelo exposto nas cartinhas, é fácil deduzir que as coisas são difíceis para as negras cubanas. Elas começam a trabalhar cedo (ainda crianças) em afazeres domésticos, frequentemente para famílias de brancos. Pior: parece que se aposentam tardiamente - se é que se aposentam -, visto que a avó da protagonista persistia trabalhando como empregada doméstica. Muitas são abandonadas pelos maridos e assim obrigadas a enfrentar sozinhas todas as dificuldades de criar os filhos. Este trecho, por outro lado, insinua que algumas tinham de recorrer à prostituição para prover o sustento da família:
“(...) já sei que Roberto está triste. A mãe dele anda com vários homens por dinheiro. Às vezes, sai e volta no dia seguinte.”
- Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.

Uma passagem chocante é aquela em que a garota surpreende o namorado da tia saindo, à noite, do quarto da prima. Devido à idade e por não compreender exatamente o que teria ocorrido (pressente tratar-se de uma agressão), ela não usa a palavra "estupro", porém a forma com que ela descreve a cena não permite que o leitor tenha dúvidas.

Além disso, é doloroso notar que, por conta de tanta luta e sofrimento, algumas mulheres tornam-se vítimas de certo embrutecimento da sensibilidade. A garotinha diz que a avó era mal-humorada, amarga e que não queria saber de carinhos, uma vez que “não serve para comer.”

*

Quando a menina "transforma-se" em uma mulher pronta para enfrentar a vida sozinha, tendo criado sólidos laços afetivos com outras pessoas, é hora do adeus. É como se mãe e filha percebessem que as cartas não são mais necessárias. Um dia, no seu tempo, as duas se reencontrariam. Reproduzo a imagem da última cartinha, com a qual ela se despede da mãe, pois é super meiga, e acredito que você gostará de lê-la:

Teresa Cárdenas, Cartas para a minha mãe.
(Tradução: Eliana Aguiar)

E é isso. Será que alguma vez você também pensou em escrever uma carta para sua mãe / a vovó? Ela a receberia onde está agora? Bonito isso, não? Digo, tentar comunicar-se com uma pessoa querida, que não mais está presente fisicamente, através de cartas. Imagino que você concordará. 😉

Se tiver ficado com vontade de ler o livro, levo pra você, ok? E, mais uma vez, obrigada pelo carinho de suas visitas frequentes neste meu bloguinho.

Grande beijo.
Dani.
********

Certa vez, você me disse que gosta dos posts com músicas, então incluirei um vídeo. Tal qual a garota do livro, o cantor americano Sufjan Stevens tentou estabelecer um diálogo com a mãe morta, contudo através da música. Ele não teve uma relação próxima com a mãe: ela sofria de depressão, era alcoólatra e esquizofrênica, tendo abandonado-o quando Stevens era só uma criança. Desse modo, o disco Carrie & Lowell foi a forma que o músico encontrou de fazer as pazes e dizer adeus. Segue a linda música mais famosa do disco. (É possível que já a conheça, visto que muitas séries de tv e filmes a têm usado como trilha sonora.) 😚

19/12/2017

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #01 - O Imortal

(Sinopse, info, etc: link/ Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


A Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre O Imortal: link 2.

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Parece que comecei me dando mal, pois esse primeiro conto é repleto de referências literárias,  históricas e geográficas. Logo de cara, digo que o meio de campo embaçou, tendo em vista que não li nenhuma obra de Homero (eu sei, eu sei). De qualquer maneira, efetuarei um voo rasante sobre questões que chamaram minha atenção, além de algumas correlações, digamos, desajuizadas.

Bem, acredito que a epígrafe escolhida por Borges seja crucial, posto que aparenta ser a chave que revela a temática principal do conto. Reproduzo o trecho escrito por Francis Bacon (* a edição da Companhia das Letras não conta com tradução do trecho):

"Salomon saith: There is no new thing upon the earth.
So that as Plato had an imagination, that all knowledge
was but remembrance; so Salomon giveth his sentence,
that all novelty is but oblivion."
Francis Bacon, Essays, LVIII

Conforme esse raciocínio de Bacon, não existiriam inovações no mundo, dado que toda e qualquer novidade e/ou novo conhecimento seriam, na verdade, espécies de ecos de rememorações de algo preexistente e esquecido. Sendo assim, seria possível concluir que tudo que existe é, de certo modo, imortal. Segundo a própria narrativa de Borges:
"Entre os imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre incansáveis espelhos. Nada pode acontecer uma única vez, nada é preciosamente precário."
Remete muito à ideia de um retorno eterno, porém com a ressalva irônica de que não haveria retornos, visto que não haveria exatamente partidas (mas, sim, esquecimentos). Refletidas umas nas outras, todas as coisas do mundo tornam-se eternas, sem hiatos. Trata-se de uma imortalidade que, além de brincar com os espelhos queridos por Borges, reproduz outra característica imagética favorita do autor: a circularidade. Os imortais existiriam na forma de uma verdadeira simbiose, o que fundamentaria uma conclusão expressa neste outro trecho do conto:
"Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os homens. (...) o que é uma cansativa maneira de dizer que não sou."
O título daquele livro do Pirandello (vira e mexe o cito nesse blog) resumiria bem o trecho: Um, Nenhum, Cem Mil. Se nossa existência torna-se perene através dos outros, conseguimos ser todos e, concomitantemente, nenhum.

Ademais, os imortais do conto decidiram viver no pensamento, ao qual se entregavam esquecendo-se do mundo físico. Ou seja, o caminho para a imortalidade estaria no pensamento. Como pensar sem linguagem? Sem palavras? Hum, então as palavras seriam o veículo para esse universo dos imortais e, dessa forma, os pensamentos expressos mediante palavras estariam sempre ecoando em outros pensamentos, em outras palavras.
"Quando o fim se aproxima, já não restam imagens da recordação; só restam palavras. (...) Eu fui Homero; em breve, serei Ninguém, como Ulisses; em breve serei todos: estarei morto." 
Nesse sentido, a forma e a estrutura narrativa do conto trazem uma metalinguagem que recria, ela própria, a imortalidade circular tratada pela história. O protagonista reverberou em seu texto as palavras de outros autores e, no seu processo ficcional, assim também o fez Borges. Avançando nessas elucubrações, este meu próprio post dá continuidade a essa circularidade, uma vez que ecos de Homero, de Bacon, de Borges surgem aqui reproduzidos. Seria essa a razão inconsciente que me leva a escrever todas estas groselhas no blog? Garantir minha própria imortalidade e, simultaneamente, contribuir para a imortalidade dos livros e autores que leio? Será? Seria cômico, visto que, conscientemente, não sinto nenhuma intenção de ser imortal, porque, como descrito no próprio conto de Borges:
“(...), aumentar a vida dos homens era aumentar sua agonia e multiplicar o número de suas mortes.”
Tratando-se desse modo a imortalidade, desafia-se a própria percepção do conceito de tempo, não é mesmo? O qual, aliás, é outro tema favorito do escritor argentino. Seria lógico falar em passado, presente e futuro, quando tudo é eterno?

***

Certo, agora é o momento das correlações nada acadêmicas. Ocorre que, em O Imortal, a imortalidade seria conquistada através das águas de um rio:
"(...) "o rio secreto que purifica os homens da morte. (...) rio cujas águas dão a imortalidade."
Pois muito bem; e que tipo de associações esdrúxulas minha mente elaborou com essa informação?

1. A mais óbvia (??!!): o Poço de Lázaro - The Lazarus Pit! Entendo bulhufas a respeito de super-heróis, contudo, vendo a série ajambrada Arrow, do canal CW, aprendi que o vilão da DC Comics chamado Ra's al Ghul tem esse tal Poço de Lázaro que lhe garante a imortalidade, veja só. A razão para usar “Lázaro” - homem ressuscitado por Jesus – no título dessa arma secreta é fácil captar, entretanto o “poço/pit” ficou mais interessante com a leitura desse conto.

Borges x DC Comics! Às vezes, nem eu acredito nas minhas presepadas audaciosas.

2. Na sequência, aprontarei mais esta: Borges x The Leftovers! Isso mesmo, aquela série excelente da HBO, que tornou-se uma das minhas favoritas da vida. Elaborarei uma breve explicação para essa segunda presepada. Dentre os diversos temas tratados em The Leftovers, encontramos estes: o enigma maior sobre nossa existência, os desafios relacionados à compreensão de nossa realidade e mortalidade (alguns dos temas recorrentes na obra de Borges!). Nesse contexto, os roteiristas recorrem ao elemento água inúmeras vezes ao longo dos episódios. No universo ficcional constituído por realidades paralelas (opa, Borges novamente), a personagem interpretada por Theroux, Kevin Garvey, seria aparentemente imortal - pelo menos, ele retorna do mundo dos mortos cerca de 02-03x -, e a água é o veículo utilizado para essa travessia. Selecionei algumas cenas a fim de tentar ilustrar essa onipresença da água na série:

                       

Já que a água molhou meu caminho novamente com o conto de Borges, aproveitarei para dar uma olhadela rápida no livro de símbolos que possuo. Antes, algumas alusões são muito fáceis de serem feitas, obviamente. Nossa existência, afinal, começa dentro de uma bolsa preenchida por líquido amniótico e, regredindo ainda mais na linha temporal, o surgimento dos primeiros seres vivos na Terra foi patrocinado amplamente pela presença da água. Ah, e temos ainda a água utilizada no batismo, representando vida, morte e ressurreição.

J.C. Cirlot, no Dictionary of Symbols, afirmou algo meio óbvio, mas para o qual eu não tinha atinado. Por não possuir uma forma fixa, a água correlaciona-se bastante à noção que discuti de uma existência simbiótica infinita. Ou não? Este trecho, escrito por Cirlot, resume bem o que tento expressar:
“On the cosmic level, the equivalent of immersion is the flood, which causes all forms to dissolve and return to a fluid state, thus liberating the elements which will later be recombined in new cosmic patterns.”
Esta segunda afirmação, do mesmo autor, tornou as coisas divertidas:
“This ‘fluid body’ is interpreted by modern psychology as a symbol of the unconscious, (...)”
Uma eternidade conquistada através da água ou, em outras palavras, de um inconsciente coletivo?! Mas é claro! É precisamente isso! Hum, ou ainda... Uma memória coletiva?

Os dados que encontrei a respeito do símbolo “rio” também caem como uma luva (nenhuma surpresa) em O Imortal  - grifo meu:
 “River is an ambivalent symbol since it corresponds to the creative power both of nature and of time. On the one hand it signifies fertility and the progressive irrigation of the soil; and on the other hand it stands for the irreversible passage of time and, in consequence, for a sense of loss and oblivion.”

No mais, apenas acrescento o tom onírico de toda a narrativa, o que nos faz questionar se aquilo que lemos é real ou um sonho. Contudo sempre surge a interrogação: o que seria o Real? 

Ok, acho que essas foram minhas impressões principais. Fico devendo possíveis correlações com Ilíada/Odisseia, pois, como confessei, nunca os li. Vamos ao vídeo da Aline Aimée. Play!


[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]





[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Peço perdão, pois concederei espaço para um breve autoelogio: pela ótima análise da Aimée, parece que me saí melhor do que eu imaginava. Poxa, consegui, sim, captar boa parte da essência do conto. Yay!

Quanto ao que me escapou, aponto que foi, principalmente, a ideia explorada por Borges de que a imortalidade, tal como a concebemos imediatamente (= viver no plano físico eternamente), seria terrível, visto que tiraria do Homem o senso de propósito. A morte é o que confere sentido à vida. O próprio nome Joseph Cartaphilus, citado logo no início do conto, já carrega esse conceito de que a imortalidade seria um castigo ao Homem. Eu até tinha pesquisado o nome e encontrado a informação de que ele era o judeu errante, no entanto morri na praia antes de fazer a ligação de que a "maldição" que Jesus aplica-lhe é justamente a imortalidade. Como esclarece Aimée: "Ele não morreria até que Jesus voltasse, até o fim dos tempos." Interessante demais. Quando escrevi que eu mesma, conscientemente, não tinha nenhum desejo de ser imortal, nem tinha pensado sob essa perspectiva do Borges, mas, sim, porque me agrada muito mais "ser ninguém" - inclusive, aprendi com a Aimée que essa é uma frase da obra de Homero.

A proposta de Borges para o tipo de imortalidade possível, do modo como discuti e como também o fez Aimée, seria portanto o contraponto efetivamente viável. Ou seja, a imortalidade sobrevém apenas com a tradição cultural que se propaga com a atuação de todos os homens. Aimée ressalta que Homero teria conseguido exatamente isso, uma vez que ele é recorrentemente referido por outros escritores. Todos escritos seriam continuação de Homero.

Outra ligação que falhei em estabelecer foi entre palavras (como registrei, os instrumentos para a imortalidade) e, logicamente, livros! São os livros que assumem o papel daquele espelho do mundo, com ele estabelecendo reflexos mútuos. Evidente! Livros são formados por vários outros livros, e gostei desta fala da Aimée: "Os textos de Borges são como bibliotecas." Igualmente não tinha percebido ativamente que Borges reproduz, nesse conto, sua teoria da imortalidade não somente pelas citações e referências - como afirmei -, mas também mediante reprodução da “narrativa de jornada” desenvolvida por Homero. Além disso, desconhecia que o autor referia a si próprio como um escritor leitor; um autor que simplesmente reescreve tudo que lê. Fascinante.

Para finalizar, uma especulação. Aimée optou por não discutir as correntes filosóficas exploradas no conto por Borges, entretanto ela cita brevemente isto: "Ele cita aqui um filósofo Gianbattista Vico que falaria de uma teoria cíclica (...)". Daí, confabulo: ignorando a teoria desse filósofo italiano, será que consegui inferir corretamente a referência filosófica, ao fazer aquela relação da circularidade?! Em pesquisa breve no site Wikipedia, localizei estes dados

"Cyclical history (Corsi e ricorsi)

Vico believed in a cyclical philosophy of history where human history is created by man. His term for the cyclical nature of history was "corsi e ricorsi". Most importantly, man and society move in parallel from barbarism to civilization.
As societies become more developed socially, human nature also develops, and both manifest their development in changes in language, myth, folklore, economy, etc.; in short, social change produces cultural change.

Vico is therefore using an original organic idea that culture is a system of socially produced and structured elements. Hence, knowledge of any society comes from the social structure of that society, explicable, therefore, only in terms of its own language. As such, one may find a dialectical relationship between language, knowledge and social structure.


Relying on a complex etymology, Vico argues in the Scienza Nuova that civilization develops in a recurring cycle (ricorso) of three ages: (...)"

Não houve uma equivalência exata, mas cheguei relativamente perto. Boa. 

***
Adorei a brincadeira! Farei um esforço para manter esse exercício com a Aimée; a quem agradeço imensamente pelos vídeos. 

16/12/2017

[Alinhavando] What it feels like for a girl


Eis que uma sequência de eventos sincrônicos me obrigou a revisitar sentimentos juvenis do passado. O insight revelador dessa sincronicidade ocorreu enquanto eu escovava os cabelos na frente do espelho: meus olhos encararam atônitos suas imagens reflexas, denunciando a inequívoca e pasmada assimilação da cadeia de acontecimentos. 

Difícil identificar o início, porém sei que o catalisador da constatação consciente foi a recente leitura do livro The Member of The Wedding, escrito por Carson McCullers, combinada ao contemporâneo compartilhamento no twitter de uns versinhos que escrevi aos 13 anos, durante uma aula de literatura da escola. Minha versão adolescente poeta mandou qualquer coisa deste tipo:

"Não sei quê
não sei que lá
choro pelas lágrimas
que não tenho pra chorar."
                       - Daniela C.L.(13 anos)

(Pois é.) É imperioso registrar que a inspiração para o compartilhamento dessa ~obra-prima~ naquela rede social foi justamente o poema supostamente escrito por outra pré-adolescente. Seguem os versos da Lorena  que a Lorena teria plagiado (?) do Khalil Gibran:
(* Por favor, direcionem a atenção ao fato de que a reprodução pela aluna sinaliza atração pelo tema, beleza?)

Via: twitter.
O insight que tive à frente do espelho, dias após a divulgação da minha ~arte~ (ok, parei com a autodepreciação), relacionou-se à súbita percepção de que os sentimentos que fizeram meu eu pré-adolescente escrever aqueles versos foram bastante similares àqueles que exasperam Frankie Addams, a protagonista de treze anos do livro da McCullers. Desse ponto, então, levei somente míseros segundos para recordar que, poucos meses antes, eu chorava na sala de uma psiquiatra, à medida que narrava fatos que me haviam ocorrido aos treze anos - sentindo-me ridícula ao longo do processo, obviamente. Não, definitivamente não é uma etapa fácil e inofensiva da vida.

Dando continuidade à cadeia de assimilação, lembrei ademais que, além da McCullers, li em 2017 dois outros contos, escritos por Flannery O'Connor e Lucia Berlin, que igualmente exploram a louca avalanche de transformações típicas da avassaladora fase pré-adolescente. A lembrança de um conto da Katherine Mansfield lido em 2016, sobre a mesma temática, também acabou invadindo minha epifania. Nada mais justo, portanto, do que tentar estabelecer um diálogo entre esses ótimos textos, sim? Organizar as perspectivas oferecidas por essas excepcionais autoras e, quem sabe, submeter-me a uma espécie de terapia literária. The Member of the Wedding conduzirá a conversa, enquanto os demais contos - e minha própria experiência pessoal - contribuirão pontualmente ampliando as reflexões. 




De que idade estamos falando?
- The Member of the Wedding,  Carson McCullers: Frankie Addams, doze anos.
- A Temple of the Holy Ghost, Flannery O'Connor: protagonista de doze anos, sem nome.
- The Wind Blows, Katherine Mansfield: Matilda, adolescente sem idade especificada.
- Stars and Saints, Lucia Berlin: protagonista de 09 anos, inominada.
________________________________________________________
Ou seja: falamos da faixa etária típica da puberdade feminina. 


✒ Estações do ano x Pré-adolescência.
Dentre as quatro, McCullers e Mansfield são as autoras que optam por explorar essa simbologia. A escolha é interessante, se pensarmos que os gregos representavam as estações do ano através de figuras femininas e, principalmente, que o símbolo reforça a premissa de que o estado de espírito das protagonistas correspondia exatamente a uma etapa do ciclo de desenvolvimento, do ritmo de vida.

A estação escolhida, no entanto, diverge ligeiramente entre as duas escritoras: a americana opta pelo verão, enquanto a neozelandesa fica com a transição entre verão e outono. A informação é apresentada ao leitor logo no início das narrativas:
(McCullers:) "It happened that green and crazy summer when Frankie was twelve years old." 
(Mansfield:) "It is cold. Summer is over-it is autumn-everything is ugly."
Pesquisando esses símbolos no livro de Michael Ferber, A Dictionary of Literary Symbols, encontrei que o verão, no contexto da vida representada por um ano, simbolizaria precisamente a maturidade, o completo desenvolvimento dos poderes da mulher. O mesmo autor relembra que Shakespeare evoca em seus sonetos que o verão é muitas vezes desagradável por conta do excesso de calor e da ventania, o que acredito avivar metaforicamente o desconforto - físico, mental - característico da etapa puberal. 

Em relação ao outono escolhido por Mansfield, Ferber destaca tratar-se da estação em que simultaneamente celebra-se a colheita do verão e lamenta-se a proximidade do fim do ano. É, desse modo, uma estação de dupla faceta, visto que ela festeja tanto a vida, como a morte. Apropriada, parece-me,  considerando-se a própria dualidade transitória "criança-mulher" presente nessa transição.  Além disso, o outono é igualmente usado como metáfora para a maturidade, como Ovídio aqui o emprega: ‘‘Then autumn follows, youth’s fine fervour spent, / Mellow and ripe, a temperate time between / Youth and old age, his temples flecked with grey’’ (Met. 15.209--11, trans. Melville). Dado que a idade da protagonista não é explicitamente relatada por Mansfield, o outono parece sugerir que ela estava completando seu ciclo, e não apenas iniciando-o.


✒  Para Frankie, nem verão, nem outono; mas sim: a Estação (Temporada) dos Dias de Cão!
Exato, a querida protagonista de McCullers opta por um apelido muito mais propício para aquela maldita/bendita estação; o mesmo (origem na Grécia antiga) adotado para designar os dias mais quentes e desconfortáveis de verão.
(McCullers:) “And the season of dog days is like this: it is the time at the end of the summer when as a rule nothing can happen-but if a change does come about, that change remains until dog days are over. Things that are done are not undone and a mistake once made is not corrected.”

✒ Por falar em símbolos,
outro que chama atenção é o vento e suas variações - ventania, tornado, tempestade, ciclone -, os quais surgem intensamente no conto de Mansfield (logo no título: The Wind Blows!), mas também no romance de McCullers. Curiosamente, é um símbolo que também parece carregar dualidade: ventos são vigorosos, caóticos, potencialmente devastadores e, ao mesmo tempo, vazios e efêmeros como aquela própria etapa das vidas das protagonistas. Mansfield vale-se ainda do mar para representar a intensidade de emoções e metamorfoses por que atravessava sua personagem. 
(Mansfield:) "It is only the wind shaking the house, rattling the windows, banging a piece of iron on the roof and making her bed tremble." 
(McCullers:) "I think something is wrong. It's too quiet. I have a peculiar warning in my bones. I bet you a hundred dollars it's going to storm. A terrible terrible dog-day storm. Or maybe even a cyclone."

✒ Abruptude desnorteante.
Peço desculpas, pois optarei por apelar para aquele velho chavão: dorme-se criança e acorda-se mulher. É evidente que as mudanças não acontecem com a fugacidade que essa expressão sugere, entretanto a sensação é praticamente essa; uma vez que o tempo que nos é concedido não é, definitivamente, proporcional à extensão da metamorfose que sofremos. A despeito disso, precisamos sobreviver.

Cientes do sentimento, as autoras recorrentemente reforçam que suas personagens sentem-se tomadas de surpresa, atrapalhadas em decorrência das transformações repentinas:
(Mansfield:) "Suddenly-dreadfully-she wakes up. What has happened? Something dreadful has happened." 

(McCullers:) "One night in April, when she and her father were going to bed, he looked at her and said, all of a sudden: “Who is this great big long-legged twelve-year-old blunderbuss who still wants to sleep with her old papa?”

“And then, on the last friday of August, all this was changed: it was so sudden that Frankie puzzled the whole blank afternoon, and still she did not understand."

“It is so very queer the way it all just happened.”

“Then the spring of that year had been a long queer season. Things began to change and Frankie did not understand this change.”

✒ Então o corpo muda.
Logicamente esse território não teria como estar de fora. No caso das meninas, contudo, há uma engrenagem social que torna o fenômeno mais perverso. A menina confiante que se enxergava (inconscientemente) quase como um ser andrógino, passa a sentir com maior intensidade as pressões relacionadas às rígidas concepções sociais de como uma mulher deve se comportar e se apresentar, notadamente para tornar-se "atraente para garotos". É o terreno fértil para insegurança, baixa autoestima e ansiedade.

Frankie Adamms, aos 12 anos, já contava com 1.67m de altura, calçava sapatos de número 36 e temia o risco de seguir crescendo até virar uma girafona, o que seria péssimo, já que uma dama não pode ser um varapau, não é mesmo? A pobre garota começa a preocupar-se em aparentar seu melhor no casamento do irmão, o que implicaria, na visão dela, em longos cabelos loiros cacheados (porém ela tinha acabado de cortá-los bem curtos!), muitos laçarotes, babados, perfume, sapato apertado. Enfim, somente itens que ela não estava habituada a usar, mas aos quais estaria obrigada a se adequar.
(McCullers:) "this summer she was grown so tall that she was almost a big freak, and her shoulders were narrow, her legs too long. (…) her hair had been cut like a boy's, (…) The reflection in the glass was warped and crooked, but Frankie knew well what she looked like; (...)”
É também quando certos desvios físicos são costumeiramente corrigidos. Eu, por exemplo, tive de encarar aparelhos ortodônticos horrendos; a protagonista do conto de Berlin, coletes para tratamento de escoliose.
(Lucia Berlin:) "But I had this heavy metal brace on my back, for what was called the curvature, let's face it, a hunchback, so I had to get the white blouse and plaid skirt way too big to go over it, (...)" 
                                   


✒ Well then, I'm a FREAK!
Essa recorrência é fascinante, dado que surge de maneira explicitamente similar nas narrativas de O'Connor e McCullers. Em determinados trechos, as respectivas protagonistas mencionam a passagem pela cidade de uma dessas feiras andarilhas de múltiplas atrações, dentre as quais havia a famigerada Tenda dos Freaks. Ainda mais assombroso é que as garotas focam suas atenções na apresentação do hermafrodita, recurso narrativo que novamente parece acentuar os conflitos internos proporcionados pelas expectativas sociais de gênero que elas subitamente precisavam enfrentar.

Certa distinção, todavia, pode ser observada na reação das duas àqueles Freaks. Frankie entra em uma espécie de pânico contido ao considerar que aquela possa ser a turma a qual ela pertence. É o pavor de também ser uma aberração digna de um show circense.
(McCullers:) “She was afraid of all the freaks, for it seemed to her that they had looked at her in a secret way and tried to connect their eyes with hers, as though to say: we know you.”
A protagonista de O'Connor, de outro lado, reagiu de modo peculiar e inesperado: ela apropria-se da resiliência contida nas palavras declaradas pelo hermafrodita para encontrar consolo para seu desespero. Eis o que disse aquele freak: (O'Connor:) This is the way He (God) wanted me to be." Quer dizer, a adolescente conseguiu usar as palavras de teor religioso para se aceitar do jeito que era. Visto que O'Connor era católica fervorosa, não surpreende.

Pessoalmente, sinto que tive uma experiência que resultou da combinação dos casos dessas duas personagens. Comigo, não houve um show de freaks, é lógico, mas uma música. Qual? Voilà, na linda versão piano + Coral Scala, só de garotas:



Quando ouvi essa música pela primeira vez (por volta dos 13-14 anos, creio), sobretudo quando pude associar aquela voz à imagem de um vocalista com pálpebra caída e dentinhos tortos, senti um grande conforto ao perceber que, afinal, eu não estava sozinha! Havia outros creeps por aí que, como eu, não sabiam o que diabos estavam fazendo nesse planeta. (- Obrigada, Thom!)


✒ Solidão, isolamento e não pertencimento.
Aqui é onde desponta aquele meu poeminha. A inspiração para aqueles versos foi esta: meu eu adolescente sentia-se excluído e acreditava (tolinha) que todas as outras garotas populares tinham vidas intensas repletas de acontecimentos, ao passo que nada acontecia comigo. Portanto, como eu poderia chorar; quer de tristeza, quer de alegria? (Rindo:) Perdão pelo tom excessivamente dramático e provavelmente piegas, porém esse é um fato inegável, ainda que embaraçoso. As personagens das obras selecionadas nesse post, além do mais, não permitem que eu minta: todas sentem uma solidão imensa, sentem-se excluídas do mundo e que não pertencem a lugar nenhum. Alguns trechos (de cortar o coração):
(Lucia Berlin:) "(...) I knew that never in my life was I going to get in. Not just fit in, get in. (...) not only unable to get in but seemingly invisible, which was a mixed blessing." 
(McCullers:) “This was the summer when for a long time she had not been a member. She belonged to no club and was a member of nothing in the world." 
“She was an I person who had to walk around and do things by herself. All other people had a we to claim, all others except her.”
No caso de Frankie Addams, McCullers é particularmente cruel, tendo em vista que, naquele verão, 1. as outras garotas não permitiram sua entrada no clube que dava festas com a presença de garotos, 2. sua melhor amiga mudara-se para outro estado, 3. seu irmão partiria de casa após o casamento iminente e 4. até seu gatinho havia fugido de casa para, pasmem, achar uma companheira (teoria da querida personagem Berenice). É demais para uma mocinha de apenas 12 anos, gente!


✒ Som e Penumbra preenchem o vazio.
Admito a possibilidade de que eu tenha viajado nessa percepção, mas a incluirei em meus registros de qualquer jeito. O'Connor e McCullers me pareceram usar penumbra e som, respectivamente, como artifícios aos quais suas protagonistas recorriam, em seus quartos, para disfarçar e/ou aplacar a solidão que as espreitava constantemente; tentativa de criar um aconchego artificial. Seguem os trechos:
(O'Connor:) "She went upstairs and paced the long bedroom (...) She didn't turn on the electric light but let the darkness collect and make the room smaller and more private." 
(McCullers:) “Frankie's room was furnished with an iron bed, a bureau, and a desk. Also Frankie had a motor wich couls be turned on and off; the motor could sharpen knives (...)"

✒ Autoestima tem, mas acabou.
Diante de tudo isso, espanta que essas moças se odiassem?
(O'Connor:) "(...) she knew she would never be a saint. She did not steal or murder but she was a born liar and slothful and she sassed her mother and was deliberately ugly to almost everybody." 
(McCullers:) “This was the summer when Frankie was sick and tired of being Frankie. She hated herself, and had become a loafer and a big no-good who hung around the summer kitchen: (...)"
Que desejassem ser um outro alguém?
(McCullers:) "I wish I was somebody else except me."

✒ Das duas, uma: ou destruição, ou reparação. 
Trata-se, digamos, da direção que o ricochete segue. Algumas garotas rebelam-se a favor da explosão e da destruição. Frankie começa a cometer pequenos furtos pela cidade, a brincar com a pistola do pai e com facas e, efetivamente, a desejar destruir tudo.
(McCullers:) “I just wish I could tear down this whole town.”
Um tipo mais ameno de ira, quase defensiva, direciona-se às garotas que mostravam-se ajustadas à vida (especialmente as mais velhas), sejam aquelas que já estavam namorando e que as excluíam da conversa, sejam as que partiam para o bullying declarado. Para nossas protagonistas, as outras garotas eram estúpidas, tolas e até chamadas de todo tipo de palavrão. Pura salvaguarda.
(O'Connor:) "The child decided, after observing them for a few hours, that they were practically morons and (...) she couldn't have inherited any of their stupidity." 
"Neither one of them could say an intelligent thing and all their sentences began, "you know this boy I know well one time he..." 
(McCullers:) "The son-of-a-bitches.”
Chutando a porta de vez, a personagem da Mansfield revolta-se contra tudo e todos.
(Mansfield:) "How hideous life is-revolting, simply revolting... (...) Go to hell", she shouts, running down the road."
A personagem da Berlin apela para o caminho oposto: empenha-se ao máximo em tentar agradar, para que, de alguma forma, seja aceita e consiga construir qualquer vínculo com alguém. Por ser mais nova, talvez? O desespero da garota é tamanho, tadinha, que ela dedica-se com afinco a agradar até o padre da Igreja Católica que ouvia sua confissão (ela era de família protestante!):
(Berlin:) "Then he asked about my sins. I wasn't lying. I really and trully had no sins to confess. Not a one. I was so ashamed, surely a could think of something. Search deep into your heart, my child... Nothing. Desperate, wanting so bad to please I made one up."
Nesse ponto, Berlin acaba aproximando-se de O'Connor, considerando-se que o universo religioso também traz à sua protagonista algum tipo de alívio para toda aquela pressão. (*As coisas não dão muito certo no final, é verdade.)


✒ Metafísica e crise existencial de sobra.
Pensa que a Lorena do 4o ano B é a única a interessar-se pelo vazio? Então, pense novamente. Todas essas garotas começam a despertar para questões relacionadas à vida, ao universo e tudo mais, entretanto as respostas escapam-lhes completamente. A consequência? Medo, mais solidão e aflição existencial da boa. Seguem algumas instigantes reflexões de nossas personagens:
(Berlin:) "A lot of things were really bothering me in those days, like what gave life to the candles and where the sound came from in the desks. If everything in God's world has a soul, even the desks, since they have a voice, there must be a heaven. I couldn't go to heaven because I was Protestant. I'd have to go to limbo. I would rather have gone to hell than limbo, what an ugly word, like dumbo, or mumbo jumbo, a place without any dignity at all." 
(McCullers:) “She was afraid of these things that made her suddenly wonder who she was, and what she was going to be in the world, and why she was standing at that minute, seing a light, or listening, or staring up into the sky: alone. She was afraid, and there was a queer tightness in her chest.”

✒ Saída? Fugir!
Essa é, aparentemente, a única solução que as personagens vislumbram e a que anseiam fervorosamente. O "para onde" nem importava, mas apenas escapar do sofrimento e explorar o mundo. Retomando nosso símbolo: como conter o vento em um espaço confinado e privá-lo da liberdade de soprar pelos quatro cantos? O conto de Mansfield, por exemplo, encerra com a personagem sonhando acordada a imagem de sua fuga no navio que partia. 

Para Frankie,  o fato do irmão ter passado dois anos servindo ao exército em um lugar tão pitoresco como o Alasca, acrescido das notícias provenientes de vários países durante a então corrente Segunda Guerra Mundial, intensificavam nela a noção de que havia um mundo vasto aguardando que ela o explorasse. Em algum ponto dele, com certeza ela se encontraria. 
(Mansfield:) "They are on board leaning over rail arm in arm. (...) Good-bye, little island, good-bye...(...) the ship is gone, now. 
(McCullers:) “I've been ready to leave this town só long. I wish I didn't have to come back here after the wedding. I wish I was going somewhere for good.” 

“She did not know why she was sad, but because of this peculiar sadness, she began to realize she ought to leave town. (…) but she did not know where she should go.”
**** 
Se pudesse, abraçaria todas essas personagens - e as garotas reais, de carne e osso, que agora enfrentam esse pandemônio - e afirmaria-lhes que esses dias de cão terminam eventualmente. Outros começam, admito, contudo reservaria a revelação desse "detalhe" para uma outra ocasião. 😉


"(...) You are the we of me."

                                                       - Carson McCullers, The Member of the Wedding.


Para exorcizar esses velhos esqueletos do armário, vamos de Florence Welch?


 THE DOG DAYS ARE OVER, FRANKIE! 
(For now.)


10/12/2017

Diários Susan Sontag 1947-1963 [#02]

(*Sobre o livro: clique aqui. Ed. Compnhia das Letras, tradução: Rubens Figueiredo.)


Minha cara não aparece aqui, mas asseguro que ela não é a de uma pessoa disposta a criticar o diário alheio, muito menos o de uma escritora como Susan Sontag. Para registrar essa leitura, escolhi interagir humildemente com o diário dela (o qual é marcado por interessantes listas, citações, pensamentos aleatórios): 1. criando minhas próprias listas a partir das ideias que Sontag lança; 2. dando pitacos inúteis sobre o que ela discorre ou 3. simplesmente anotando as citações que me tocaram, para não esquecer. Haverá (acho, talvez, quem sabe) outras mini postagens. 

- Por favor, Sontag, perdoe minha audácia, ok?








[Postagem anterior: #01]

(* em negrito = entradas da Sontag.)

➤ 
18/05/1949
"Será que algum dia vou conseguir aprender com a minha própria burrice?"


10/12/2017
Não, acho que o ser humano nunca aprende, Sontag. Bom, pelo menos eu mesma já desisti. Inclusive, suspeito de que o papo que travarei com o capiroto será como aquele da peça do Suassuna:

- Oxe, eu morri, é? E morri de que, Sr. Mefistófeles?
- Lamento informar, mas a senhora morreu foi de burrice mesmo. 
- Mas que merda, hein.
¯\_(ツ)_/¯


➤ 
25/05/1949
“- Meu Deus, viver é uma coisa enorme!"    


10/12/2017












➤ 
 04/06/1949
“Sexo com música! Tão intelectual!!"  

10/12/2017









➤ 
13/02/1950
“De Rilke:
"... a grande questão hereditária: ... se estamos sempre inadequadamente apaixonados, inseguros em nossas decisões, + impotentes em face da morte, como é possível existir?"

...

“Uma vez mortos, nós não sabemos disso, portanto é melhor pensar em estar vivo! Mesmo se morrermos antes de experimentar as coisas que exigimos da vida, não importa quando morremos — só perdemos o momento em que estamos — a vida é horizontal, não vertical — não pode ser acumulada portanto viva, não se humilhe."

10/12/2017
❤❤


➤ 
04/11/1956
“A respeito da morte de Gertrude Stein: saiu de um coma profundo para pedir à sua companheira, Alice Toklas:


[Certeza de que o cachorrinho, ali, sabe a pergunta e a resposta.]
[Espie a cara dele, todo se fazendo de desentendido.]


➤ 
24/12/1956
"David, muito prestativo e carinhoso enquanto se prepara para ir para a cama, ocasião em que houve este diálogo: “E se Deus não tivesse criado o mundo?”. Eu: “Aí a gente não existiria. Isso seria muito ruim, não é?”. Ele: “Não existiria? Nem Moisés?”. Eu: “Como alguém ia existir, se não existisse um mundo para ficar?”. Ele: “Mas, se não havia um mundo, onde é que Deus estava?”. Eu: “Deus existe antes do mundo. Ele não é uma pessoa ou uma coisa”. Ele: “Então, se Deus não é uma pessoa, por que ele teve de descansar?”. Eu: “Bem, a Bíblia fala de Deus como uma pessoa, porque é a única maneira como podemos imaginar Deus. Mas ele não é uma pessoa de verdade”. Ele: “O que ele é? Uma nuvem?”. Eu: “Ele não é uma coisa. Ele é o princípio por trás do mundo todo, a base do ser, em toda parte”. Ele: “Em toda parte? Neste quarto?”. Eu: “Ah, sim”. Ele: “Deus é a melhor coisa que existe?”. Eu: “Exatamente. Boa noite”.


10/12/2017
(Amei essa explicação!)


➤ 
[Com data apenas de 1957]

Em que eu acredito?
Na vida privada
Em mostrar cultura
Em música, Shakespeare, prédios antigos

O que eu aprecio?

Música
Estar apaixonada
Crianças
Dormir
Carne

Meus defeitos
Nunca chegar na hora
Mentir, falar demais
Preguiça
Falta de vontade para recusar



10/12/2017
Em que eu acredito?
(**hoje:)
Na empatia
Em sonhos
Em tartarugas marinhas

O que eu aprecio?
(**hoje:)
Literatura
Chocolate
Música
Serotonina
Paz

Meus defeitos
(**hoje:)
Preguiça
Passividade
Insegurança
Chata toda vida


➤ 
06/01/1957
"Uma espécie de orgulho tolo que advém de manter por muito tempo uma dieta de cultura elevada."

10/12/2017
Sei bem. É uma ideia que as redes sociais andam simbolizando através desta potente imagem:












Seria igualmente tolo orgulhar-se de manter uma dieta exclusiva à base de livros do Dostoiévski, enriquecidos da podridão humana? Hum, interessante. 


➤ 
15/01/1957
"Será que sou eu mesma quando estou sozinha?

Será  que não sou eu mesma quando estou com os outros, nem com o Philip — disso decorre a constante sensação de irritação, com ele, comigo mesma. Mas e sozinha, eu sou eu mesma? Também parece improvável."

10/12/2017
Ah, Sontag, essa questão também me atormenta tanto! Inclusive, já até registrei neste meu diarinho dois trechos dos livros da Woolf e do Pirandello que a abordam. Reproduzo-os novamente:


***

Para encerrar o post, as músicas que a Sontag curtia para render um ~sexo intelectual~. Play!


07/11/2017

The Golden Notebook - Doris Lessing

* As falas de Llosa são adaptadas a partir da resenha que ele publica no livro La Verdad de las Mentiras - Alfaguara (2002).
** Papo anterior: Herzog, de Saul Bellow.
***

Oi, Llosa; como vai? Tem um tempinho pra jogar conversa fora?
Concluí a leitura de mais uma das suas recomendações. 

Olá, Daniela! Para literatura, tenho sempre.
Estou bem, e você? Conversaremos sobre que livro?

Que ótimo! É sempre uma alegria conversar com você.
Hoje quero falar sobre The Golden Notebook (TGN), da Doris Lessing.
Na sua tradução: El Cuaderno Dorado. 
(Info sobre o livro: x)

Excelente.
E o que tem a me dizer sobre sua experiência de leitura?

Em uma palavra? Arrebatadora. E, talvez, transformadora. Amei o livro.
Entretanto vale dizer que o livro demorou a me fisgar e que as últimas ~100 páginas foram um pouco arrastadas.

Verdade? Pois quando o li pela primeira vez em 1966, fiquei meio cético.
Na ocasião, achei-o muito parecido com Os Mandarins, da Simone de Beauvoir.
É mesmo? Ainda não li Os Mandarins, daí nem saberia o que dizer sobre a comparação. Porém esse seu comentário é curioso, pois TGN também me remeteu a um outro livro, ou melhor, série: A Tetralogia Napolitana, da Elena Ferrante. Muito mais por conta dos diversos temas que as obras compartilham, do que pela forma, claro. Aliás, falei desses livros no nosso último papo.

Interessante. No entanto, sabe que mudei de ideia depois da segunda leitura que realizei em 1988? Achei-o melhor que Os Mandarins, dado que percebi que ele trata dos mesmos temas com mais profundidade, enquanto inclui, ademais, outros.

Há realmente tantas temáticas em TGN, não? O que nem de longe é uma crítica, mas, sim, um tremendo elogio. Especialmente porque penso que Lessing os explorou de modo formidável.

Com efeito, é um romance ambicioso. Encontramos: psicanálise, stalinismo, relações entre a ficção e a realidade vivida, experiências sexuais, neurose e a cultura moderna, a guerra dos sexos, a liberação da mulher, a situação colonial e o racismo. E todos estão relacionados, é claro. Você teria um favorito?

Não ria da minha cara, mas obviamente foi o combo neurose + psicanálise + ficção x realidade. Logo nas páginas iniciais, quando Anna praticamente confessa que encarava sua vida um fracasso completo, percebi de imediato que aquela era a fala que assumiria o papel de minha chave de leitura elementar. Foi o gatilho perfeito para levar-me a apertar os cintos, pois a jornada seria claramente intensa pra mim. A narrativa impôs muitas ressonâncias pessoais com meu momento atual.

Anna estava analisando sua vida e encontrando: 1. um casamento falido, 2. um amor não correspondido, 3. uma investida  política (comunismo) - sonho? utopia? - que se revelava uma farsa, 4. o bloqueio criativo e a percepção de que a escrita de romances não estava comprometida com a verdade da realidade, 5. inseguranças como mãe. Ela parecia não conseguir encontrar nada que pudesse ser salvo.
"Why do our lot never admit failure? Never. It might be better for us if we did."
Com certeza. A racionalidade inicial era feita de argila e ocultava uma paisagem caótica. Gradativamente a lucidez reflexiva de Anna Wulf se dissolve em loucura. A independência e liberdade que Anna e Molly usufruíam não as protegiam contra a fragilidade emocional. Nem mesmo conferia-lhes a maturidade intelectual para superar os fracassos. Elas aspiram ao matrimônio, sendo incapazes de encarar o sexo como mero passatempo. Exatamente por tudo isso, resisto em tomar o livro como uma bíblia feminista.

Nossa, nem me fale. Suponho que essa foi, inclusive, a razão que me aborreceu tanto durante as últimas cem páginas aproximadamente. Naquele ponto, eu simplesmente não consegui estabelecer afinidade, nem entender por que Anna insistia naqueles casos com homens imbecis, que apenas serviam para afundá-la cada vez mais no desgraçamento mental.

Você citou o matrimônio dentre seus argumentos, e poderíamos incluir também o tratamento da maternidade? Será? Haveria a mensagem "sem ela, a mulher pira"? Anna confessa que a filha funcionava como um porto seguro, trazia o mínimo de ordem para a vida dela. Fiquei devaneando a respeito disso.

 De qualquer maneira, vale lembrar que a própria Lessing não considera TGN uma obra  feminista. A edição que li contém duas introduções escritas pela autora em momentos diferentes - 1971 e 1993 - e, olha, ela demonstra uma irritação extrema em relação a esse tipo de interpretação. Na opinião dela, reduz imensamente o escopo do livro, revelando uma espécie de leitura preguiçosa e simplista do romance.

O que não me surpreende. Na minha opinião,  El Cuaderno Dorado não tem, de fato, a pretensão de ser um livro edificante contra a alienação das mulheres na sociedade contemporânea.

Trata-se, isto sim, de um romance sobre as ilusões perdidas de uma classe intelectual que, desde a guerra até meados dos anos cinquenta, sonha em transformar a sociedade segundo as pautas ditadas por Marx e em mudar a vida como pedia Rimbaud, mas que acabou percebendo que seus esforços não haviam servido para grande coisa.

Acho que concordo com você. Seria, aliás, o motivo que particularmente leva-me a admitir uma curiosa contradição no livro: percebo-o datado - não no sentido pejorativo, mas apenas por refletir extremamente bem o espírito de seu tempo -, contudo simultaneamente ainda  atual e relevante.

Compreendo. Sim, centenas de ficções dos anos 50 e 60 tentaram capturar o espírito daquela época, com sua ilusões, seus terríveis fracassos e profundas transformações históricas; e Doris Lessing conseguiu.

Acrescentaria ainda que, embora a história seja narrada pela perspectiva de uma mulher, a condição feminina não é a que aparece - abstratamente - como assunto central do livro. O tema principal é o fracasso da utopia experimentado por um intelectual -  aqui, uma mulher.

Nesse ponto, acredito que tenho dúvidas, Llosa. Não sei. Muitos personagens masculinos dessa história, até onde me lembre, pareciam estar bastante bem consigo mesmos. Os homens do livro aparentam possuir um pragmatismo que os impede de se abalar e de ruir mentalmente. Ou, no mínimo, eles seriam capazes de esconder melhor o destrambelhamento.

Por falar nisso, sabe que uma das críticas que o romance recebeu na ocasião refere-se ao fato de que todos os personagens masculinos são repulsivos ou desprezíveis? E, realmente, nenhum deles tem a menor hombridade.

Haha, não estou falando?! Pois eu cheguei até a comentar, com outra leitora da Ferrante, que TGN estava repleto de "Ninos Sarratores", que é o personagem masculino mais desprezível da Tetralogia Napolitana, quiçá da literatura. O Richard e o Michael não devem nada ao Sr. Nino, vou te contar.

Ok, pois aproveitarei o momento para fazer uma provocação:
as mulheres do livro, por acaso, são melhores?

Eita; cuidado nessa hora, Sr. Llosa. rs Ah, eu acho que elas são, sim. Veja, não digo que, ao contrário dos personagens masculinos, elas sejam perfeitas; mas que possuem um pouquinho mais de dignidade e consideração, lá isso elas possuem.

Mas Dani, nem Anna, a personagem que conhecemos mais intimamente, é capaz de nos seduzir! A vida dela é seca em decorrência dos princípios ideológicos e da incapacidade de adaptação que garante-lhe infelicidade e inutilidade social. Ela luta contra o convencionalismo, contudo sucumbe a certos estereótipos no momento de julgar homens, ou até os EUA, por ex.

Não, Llosa; aí você me perdeu por completo. Afirmo que fui totalmente seduzida por Anna - exceto, é verdade, durante o final, como já mencionei. Sei lá, apenas consegui estabelecer uma enorme empatia por ela. Poxa, esse bendito livro me fez até chorar no metrô, Llosa!

Entendo. Concordamos em discordar?
Queria retomar aquela questão da maternidade que você havia citado. Você a incluiu entre os fracassos da protagonista, e eu destacaria que, possivelmente, a filha de Anna representa o maior fracasso.

Seguindo um instinto de defesa, a garota busca diferenciar-se da mãe e, a todo custo, reintegrar-se à sociedade alienada e conformista da qual Anna quer desvencilhar-se. Muito provavelmente, Janet conseguirá transformar-se em uma dama inglesa indiferente e neurótica.

É, e a própria Anna compartilha com o leitor seu espanto diante das diferenças de comportamento entre ela e a filha. Falando em filhos: o que dizer sobre Tommy, o filho da Molly? Aquele garoto me desvairou bastante também.

Ah, e Llosa, eu não poderia perder a oportunidade para perguntar: o que você teria a me dizer sobre a forma narrativa desse romance?

Parece-me que a fragmentação nos quatro cadernos e a linha narrativa presente correlaciona-se bem com este temor de Anna:
"Afterwards I fought with a feeling that always takes hold of me after one of these exchanges: unreality, as if the substance of my self were thinning and dissolving."
Inutilmente, Anna tenta frustrar essa dissolução caótica e desorganizada de sua realidade através da categorização de sua vida por assuntos/aspectos em cada um dos cadernos. Como se fosse possível desconjuntar cada uma das partes de nossa existência. Não é, logicamente.

Na introdução de 1971, Lessing escreve que Anna mantém quatro cadernos porque, em resposta ao medo do caos e da falta de uma forma (formlessness), ela pressupõe que necessita separar e catalogar as coisas. A autora acrescenta que, no caderno dourado final, os elementos se agregam, as divisões são rompidas e Anna atinge a formlessness através do fim da fragmentação. E ela arremata: é o tema da unidade. Lessing acredita que, dentre as diversas temáticas de TGN, esta seria a dominante.

Retornando à Ferrante, isso lembra demais a relação da personagem Lila com a experiência que ela denomina como "dissolving margins". Já não é fácil perceber a evidente semelhança apenas pelos termos?! Lila igualmente temia a perda de sua forma. Dado que, em minha leitura, o sumiço final de Lila significa que ela rompe finalmente suas margens, dissolvendo-se com o mundo; parece-me que Anna também termina a história de maneira correlata; apenas não simbolizada por um sumiço, mas pelo caderno dourado que substitui e rompe as margens dos outros quatro.

Correto, o caráter fragmentado do livro não é gratuito. Essa estrutura responde à emaranhada realidade emocional e social tal como é vivida e analisada pela protagonista. Esta organização é desmentida pela prática.

Anna não consegue manter invioláveis as fronteiras temáticas que ela mesma fixa para seus cadernos. Isso mostra, graficamente e através do domínio da forma, que o racional e o irracional constituem uma realidade indissolúvel que confere à vida humana uma característica fundamental: sua imprevisibilidade.

Ressalvo apenas que é importante lembrar que o conteúdo da obra está em paridade com a riqueza inventiva dessa forma.

Agora, uma pergunta: de que maneira aquele tema "realidade x ficção" foi seu favorito? Como você o percebeu?

Destaquei essa questão para você pensando principalmente nas ponderações e frustrações que Anna compartilha a respeito do único romance dela, o "Frontiers of Wars". Deixou-me bastante reflexiva, a enorme exasperação e desencanto que ela sente ao dar-se conta de que seu livro falhou em captar a real verdade da África colonial, do racismo. Parte do bloqueio criativo dela, entendo, deve-se a isto; à pergunta: "Pra que serve, afinal, a literatura? Por que escrever, então?"

É engraçado, pois já até comentamos que Lessing logrou êxito exatamente em captar a essência daquela época, não é mesmo? Sendo assim, a boa literatura, pelo menos, seria capaz disso, sim? De captar a realidade? E, para não complicar, é melhor nem emendar com a elucubração "O que é a realidade?" 😶.

Creio que compreendi seu ponto de vista. De fato, Anna escreve um livro baseado em suas experiências na África, e no qual ela insere uma crítica severa ao colonialismo. Entretanto, o grande sucesso comercial que ele obtêm deve-se ao apagamento de seu aspecto político, o qual resta convertido em um produto de consumo para o mero entretenimento de um público que não associa a literatura a questões de ordem alguma.

Ah, se pararmos para pensar e novamente resgatarmos o que discutimos, Lessing teve de enfrentar o mesmo com TGN?! Reduziram seu livro a um panfleto feminista, quando ele é tão mais do que apenas isso. Essas conexões são peculiares.

Llosa, mais uma vez, muitíssimo obrigada pela ótima recomendação de leitura e por reservar uns minutinhos de seu tempo para ler minhas groselhas e papear.

É sempre um grande prazer.
Já teríamos um livro escolhido para nossa próxima discussão literária?

Veja, estava pensando que passou da hora de incluir uma postagem a respeito de um de seus livros no meu humilde diarinho, concorda? Ainda não decidi qual será, porém, quando aparecer por aqui, o envio para leitura (com vergonha, mas envio). Combinado?

Que grande satisfação; agradeço.
Lerei, sim, suas impressões. Abraços.

Para você também!
Até mais.