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12/05/2018

Diários Susan Sontag 1947-1963 [#03]

(*Sobre o livro: clique aqui. Ed. Compnhia das Letras, tradução: Rubens Figueiredo.)


Minha cara não aparece aqui, mas asseguro que ela não é a de uma pessoa disposta a criticar o diário alheio, muito menos o de uma escritora como Susan Sontag. Para registrar essa leitura, escolhi interagir humildemente com o diário dela (o qual é marcado por interessantes listas, citações, pensamentos aleatórios): 1. criando minhas próprias listas a partir das ideias que Sontag lança; 2. dando pitacos inúteis sobre o que ela discorre ou 3. simplesmente anotando as citações que me tocaram, para não esquecer. Haverá (acho, talvez, quem sabe) outras mini postagens. 

Por favor, Sontag, perdoe minha audácia, ok?








[Postagens anteriores: #01, #02]

(* em negrito = entradas da Sontag.)

➤ 
26/08/1949
"Observo com prazer o meu ingresso na fase anarquista-estética da minha juventude. (...) Estou de saco cheio de gente, de burrice, de mediocridade, de cruzadas e política..."


12/05/2018
16 anos. Meros dezesseis aninhos, e a Sontag já estava puta com tudo. Começou a passar raiva bem cedo. Sinto muito por ela.














Em vez da fase anarquista - que nunca tive, aliás -, aos 16 anos, eu já tinha iniciado minha fase eremítica. Hey, cada um reage às agressões do mundo como pode, certo? Sem julgamentos, por favor.














➤ 
24/10/1956
“Filosofia é topologia do pensamento...
"

"Permita-me radiografar seu argumento..."
"Permita-me desemaranhar seu sistema..."    
"Dê-me licença para escavar seus motivos..."

12/05/2018
Eita, será que consigo dar continuidade à brincadeira? Deixe-me ver aqui...
"Não, lindíssima, falou nada; bora rever issaê?..."
"E se eu peneirasse essa sua caixinha de areia, hein, gato? A pazinha já tá na mão..."
"Ei, Metidão a Gambinão, deixe-me interpretar os símbolos dessa sua tentativa de This is America..."

(É o que teve pra hoje.)

➤ 
31/10/1956
“O solipisismo é a única filosofia verdadeira, se por filosofia se entende algo diferente do senso comum. Mas, é claro, ela não se entende assim e não é isso. Portanto não estamos em busca de uma filosofia verdadeira." 


12/05/2018












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16/11/1956
“(...) pathos da vocação do artista." 


12/05/2018
Mas é claro! No último Diário Cinematográfico, ao tentar descrever a descoberta de uma temática que aparentemente não curto muito em filmes, eu apelei para as expressões "Jornada do Artista /  Calvário do Artista / Alegrias e Tristezas da vida do Artista." , porém essa aí é muito mais precisa e, como diria a própria jovem Sontag, intelectual! Já incorporei ao meu arsenal particular. Valeu.


➤ 
14/01/1957
"Notas sobre uma infância


[Primeira versão]

Pernil + espinafre. Anthony Rowley.

No trem para a Flórida: "Mãe, como se soletra pneumonia?"

Sentada na cama do vovô no domingo de manhã.
(...)
Equipamentos de química"


12/05/2018
Notas sobre uma infância

Sopa no jantar às segundas, quartas e sextas. (oh, yeah.)

Em pleno almoço (!): "Pai, pra que serve a língua, hein?"
(*Hoje entendo porque papai perdeu a paciência comigo. Que criança idiota eu era. (..) "Era"? Aham.)

Visitar o avô materno e ele sempre perguntar: "E como vão os estudos?"

Nas aulas de informática: floppy disks e comandos MS-DOS.
(Que me deixavam BI-RU-TA-ÇA e chorando: "nunca decorarei essas merdas, vou reprovaaaaaaaar, eu quero môrréééééééér!!")

*
- Crianças do século XXI que nunca viram/pegaram/usaram um deste aí (👇), eu as invejo pra ca**lho!

Hold that smile, kid; hold that smile.

16/12/2017

[Alinhavando] What it feels like for a girl


Eis que uma sequência de eventos sincrônicos me obrigou a revisitar sentimentos juvenis do passado. O insight revelador dessa sincronicidade ocorreu enquanto eu escovava os cabelos na frente do espelho: meus olhos encararam atônitos suas imagens reflexas, denunciando a inequívoca e pasmada assimilação da cadeia de acontecimentos. 

Difícil identificar o início, porém sei que o catalisador da constatação consciente foi a recente leitura do livro The Member of The Wedding, escrito por Carson McCullers, combinada ao contemporâneo compartilhamento no twitter de uns versinhos que escrevi aos 13 anos, durante uma aula de literatura da escola. Minha versão adolescente poeta mandou qualquer coisa deste tipo:

"Não sei quê
não sei que lá
choro pelas lágrimas
que não tenho pra chorar."
                       - Daniela C.L.(13 anos)

(Pois é.) É imperioso registrar que a inspiração para o compartilhamento dessa ~obra-prima~ naquela rede social foi justamente o poema supostamente escrito por outra pré-adolescente. Seguem os versos da Lorena  que a Lorena teria plagiado (?) do Khalil Gibran:
(* Por favor, direcionem a atenção ao fato de que a reprodução pela aluna sinaliza atração pelo tema, beleza?)

Via: twitter.
O insight que tive à frente do espelho, dias após a divulgação da minha ~arte~ (ok, parei com a autodepreciação), relacionou-se à súbita percepção de que os sentimentos que fizeram meu eu pré-adolescente escrever aqueles versos foram bastante similares àqueles que exasperam Frankie Addams, a protagonista de treze anos do livro da McCullers. Desse ponto, então, levei somente míseros segundos para recordar que, poucos meses antes, eu chorava na sala de uma psiquiatra, à medida que narrava fatos que me haviam ocorrido aos treze anos - sentindo-me ridícula ao longo do processo, obviamente. Não, definitivamente não é uma etapa fácil e inofensiva da vida.

Dando continuidade à cadeia de assimilação, lembrei ademais que, além da McCullers, li em 2017 dois outros contos, escritos por Flannery O'Connor e Lucia Berlin, que igualmente exploram a louca avalanche de transformações típicas da avassaladora fase pré-adolescente. A lembrança de um conto da Katherine Mansfield lido em 2016, sobre a mesma temática, também acabou invadindo minha epifania. Nada mais justo, portanto, do que tentar estabelecer um diálogo entre esses ótimos textos, sim? Organizar as perspectivas oferecidas por essas excepcionais autoras e, quem sabe, submeter-me a uma espécie de terapia literária. The Member of the Wedding conduzirá a conversa, enquanto os demais contos - e minha própria experiência pessoal - contribuirão pontualmente ampliando as reflexões. 




De que idade estamos falando?
- The Member of the Wedding,  Carson McCullers: Frankie Addams, doze anos.
- A Temple of the Holy Ghost, Flannery O'Connor: protagonista de doze anos, sem nome.
- The Wind Blows, Katherine Mansfield: Matilda, adolescente sem idade especificada.
- Stars and Saints, Lucia Berlin: protagonista de 09 anos, inominada.
________________________________________________________
Ou seja: falamos da faixa etária típica da puberdade feminina. 


✒ Estações do ano x Pré-adolescência.
Dentre as quatro, McCullers e Mansfield são as autoras que optam por explorar essa simbologia. A escolha é interessante, se pensarmos que os gregos representavam as estações do ano através de figuras femininas e, principalmente, que o símbolo reforça a premissa de que o estado de espírito das protagonistas correspondia exatamente a uma etapa do ciclo de desenvolvimento, do ritmo de vida.

A estação escolhida, no entanto, diverge ligeiramente entre as duas escritoras: a americana opta pelo verão, enquanto a neozelandesa fica com a transição entre verão e outono. A informação é apresentada ao leitor logo no início das narrativas:
(McCullers:) "It happened that green and crazy summer when Frankie was twelve years old." 
(Mansfield:) "It is cold. Summer is over-it is autumn-everything is ugly."
Pesquisando esses símbolos no livro de Michael Ferber, A Dictionary of Literary Symbols, encontrei que o verão, no contexto da vida representada por um ano, simbolizaria precisamente a maturidade, o completo desenvolvimento dos poderes da mulher. O mesmo autor relembra que Shakespeare evoca em seus sonetos que o verão é muitas vezes desagradável por conta do excesso de calor e da ventania, o que acredito avivar metaforicamente o desconforto - físico, mental - característico da etapa puberal. 

Em relação ao outono escolhido por Mansfield, Ferber destaca tratar-se da estação em que simultaneamente celebra-se a colheita do verão e lamenta-se a proximidade do fim do ano. É, desse modo, uma estação de dupla faceta, visto que ela festeja tanto a vida, como a morte. Apropriada, parece-me,  considerando-se a própria dualidade transitória "criança-mulher" presente nessa transição.  Além disso, o outono é igualmente usado como metáfora para a maturidade, como Ovídio aqui o emprega: ‘‘Then autumn follows, youth’s fine fervour spent, / Mellow and ripe, a temperate time between / Youth and old age, his temples flecked with grey’’ (Met. 15.209--11, trans. Melville). Dado que a idade da protagonista não é explicitamente relatada por Mansfield, o outono parece sugerir que ela estava completando seu ciclo, e não apenas iniciando-o.


✒  Para Frankie, nem verão, nem outono; mas sim: a Estação (Temporada) dos Dias de Cão!
Exato, a querida protagonista de McCullers opta por um apelido muito mais propício para aquela maldita/bendita estação; o mesmo (origem na Grécia antiga) adotado para designar os dias mais quentes e desconfortáveis de verão.
(McCullers:) “And the season of dog days is like this: it is the time at the end of the summer when as a rule nothing can happen-but if a change does come about, that change remains until dog days are over. Things that are done are not undone and a mistake once made is not corrected.”

✒ Por falar em símbolos,
outro que chama atenção é o vento e suas variações - ventania, tornado, tempestade, ciclone -, os quais surgem intensamente no conto de Mansfield (logo no título: The Wind Blows!), mas também no romance de McCullers. Curiosamente, é um símbolo que também parece carregar dualidade: ventos são vigorosos, caóticos, potencialmente devastadores e, ao mesmo tempo, vazios e efêmeros como aquela própria etapa das vidas das protagonistas. Mansfield vale-se ainda do mar para representar a intensidade de emoções e metamorfoses por que atravessava sua personagem. 
(Mansfield:) "It is only the wind shaking the house, rattling the windows, banging a piece of iron on the roof and making her bed tremble." 
(McCullers:) "I think something is wrong. It's too quiet. I have a peculiar warning in my bones. I bet you a hundred dollars it's going to storm. A terrible terrible dog-day storm. Or maybe even a cyclone."

✒ Abruptude desnorteante.
Peço desculpas, pois optarei por apelar para aquele velho chavão: dorme-se criança e acorda-se mulher. É evidente que as mudanças não acontecem com a fugacidade que essa expressão sugere, entretanto a sensação é praticamente essa; uma vez que o tempo que nos é concedido não é, definitivamente, proporcional à extensão da metamorfose que sofremos. A despeito disso, precisamos sobreviver.

Cientes do sentimento, as autoras recorrentemente reforçam que suas personagens sentem-se tomadas de surpresa, atrapalhadas em decorrência das transformações repentinas:
(Mansfield:) "Suddenly-dreadfully-she wakes up. What has happened? Something dreadful has happened." 

(McCullers:) "One night in April, when she and her father were going to bed, he looked at her and said, all of a sudden: “Who is this great big long-legged twelve-year-old blunderbuss who still wants to sleep with her old papa?”

“And then, on the last friday of August, all this was changed: it was so sudden that Frankie puzzled the whole blank afternoon, and still she did not understand."

“It is so very queer the way it all just happened.”

“Then the spring of that year had been a long queer season. Things began to change and Frankie did not understand this change.”

✒ Então o corpo muda.
Logicamente esse território não teria como estar de fora. No caso das meninas, contudo, há uma engrenagem social que torna o fenômeno mais perverso. A menina confiante que se enxergava (inconscientemente) quase como um ser andrógino, passa a sentir com maior intensidade as pressões relacionadas às rígidas concepções sociais de como uma mulher deve se comportar e se apresentar, notadamente para tornar-se "atraente para garotos". É o terreno fértil para insegurança, baixa autoestima e ansiedade.

Frankie Adamms, aos 12 anos, já contava com 1.67m de altura, calçava sapatos de número 36 e temia o risco de seguir crescendo até virar uma girafona, o que seria péssimo, já que uma dama não pode ser um varapau, não é mesmo? A pobre garota começa a preocupar-se em aparentar seu melhor no casamento do irmão, o que implicaria, na visão dela, em longos cabelos loiros cacheados (porém ela tinha acabado de cortá-los bem curtos!), muitos laçarotes, babados, perfume, sapato apertado. Enfim, somente itens que ela não estava habituada a usar, mas aos quais estaria obrigada a se adequar.
(McCullers:) "this summer she was grown so tall that she was almost a big freak, and her shoulders were narrow, her legs too long. (…) her hair had been cut like a boy's, (…) The reflection in the glass was warped and crooked, but Frankie knew well what she looked like; (...)”
É também quando certos desvios físicos são costumeiramente corrigidos. Eu, por exemplo, tive de encarar aparelhos ortodônticos horrendos; a protagonista do conto de Berlin, coletes para tratamento de escoliose.
(Lucia Berlin:) "But I had this heavy metal brace on my back, for what was called the curvature, let's face it, a hunchback, so I had to get the white blouse and plaid skirt way too big to go over it, (...)" 
                                   


✒ Well then, I'm a FREAK!
Essa recorrência é fascinante, dado que surge de maneira explicitamente similar nas narrativas de O'Connor e McCullers. Em determinados trechos, as respectivas protagonistas mencionam a passagem pela cidade de uma dessas feiras andarilhas de múltiplas atrações, dentre as quais havia a famigerada Tenda dos Freaks. Ainda mais assombroso é que as garotas focam suas atenções na apresentação do hermafrodita, recurso narrativo que novamente parece acentuar os conflitos internos proporcionados pelas expectativas sociais de gênero que elas subitamente precisavam enfrentar.

Certa distinção, todavia, pode ser observada na reação das duas àqueles Freaks. Frankie entra em uma espécie de pânico contido ao considerar que aquela possa ser a turma a qual ela pertence. É o pavor de também ser uma aberração digna de um show circense.
(McCullers:) “She was afraid of all the freaks, for it seemed to her that they had looked at her in a secret way and tried to connect their eyes with hers, as though to say: we know you.”
A protagonista de O'Connor, de outro lado, reagiu de modo peculiar e inesperado: ela apropria-se da resiliência contida nas palavras declaradas pelo hermafrodita para encontrar consolo para seu desespero. Eis o que disse aquele freak: (O'Connor:) This is the way He (God) wanted me to be." Quer dizer, a adolescente conseguiu usar as palavras de teor religioso para se aceitar do jeito que era. Visto que O'Connor era católica fervorosa, não surpreende.

Pessoalmente, sinto que tive uma experiência que resultou da combinação dos casos dessas duas personagens. Comigo, não houve um show de freaks, é lógico, mas uma música. Qual? Voilà, na linda versão piano + Coral Scala, só de garotas:



Quando ouvi essa música pela primeira vez (por volta dos 13-14 anos, creio), sobretudo quando pude associar aquela voz à imagem de um vocalista com pálpebra caída e dentinhos tortos, senti um grande conforto ao perceber que, afinal, eu não estava sozinha! Havia outros creeps por aí que, como eu, não sabiam o que diabos estavam fazendo nesse planeta. (- Obrigada, Thom!)


✒ Solidão, isolamento e não pertencimento.
Aqui é onde desponta aquele meu poeminha. A inspiração para aqueles versos foi esta: meu eu adolescente sentia-se excluído e acreditava (tolinha) que todas as outras garotas populares tinham vidas intensas repletas de acontecimentos, ao passo que nada acontecia comigo. Portanto, como eu poderia chorar; quer de tristeza, quer de alegria? (Rindo:) Perdão pelo tom excessivamente dramático e provavelmente piegas, porém esse é um fato inegável, ainda que embaraçoso. As personagens das obras selecionadas nesse post, além do mais, não permitem que eu minta: todas sentem uma solidão imensa, sentem-se excluídas do mundo e que não pertencem a lugar nenhum. Alguns trechos (de cortar o coração):
(Lucia Berlin:) "(...) I knew that never in my life was I going to get in. Not just fit in, get in. (...) not only unable to get in but seemingly invisible, which was a mixed blessing." 
(McCullers:) “This was the summer when for a long time she had not been a member. She belonged to no club and was a member of nothing in the world." 
“She was an I person who had to walk around and do things by herself. All other people had a we to claim, all others except her.”
No caso de Frankie Addams, McCullers é particularmente cruel, tendo em vista que, naquele verão, 1. as outras garotas não permitiram sua entrada no clube que dava festas com a presença de garotos, 2. sua melhor amiga mudara-se para outro estado, 3. seu irmão partiria de casa após o casamento iminente e 4. até seu gatinho havia fugido de casa para, pasmem, achar uma companheira (teoria da querida personagem Berenice). É demais para uma mocinha de apenas 12 anos, gente!


✒ Som e Penumbra preenchem o vazio.
Admito a possibilidade de que eu tenha viajado nessa percepção, mas a incluirei em meus registros de qualquer jeito. O'Connor e McCullers me pareceram usar penumbra e som, respectivamente, como artifícios aos quais suas protagonistas recorriam, em seus quartos, para disfarçar e/ou aplacar a solidão que as espreitava constantemente; tentativa de criar um aconchego artificial. Seguem os trechos:
(O'Connor:) "She went upstairs and paced the long bedroom (...) She didn't turn on the electric light but let the darkness collect and make the room smaller and more private." 
(McCullers:) “Frankie's room was furnished with an iron bed, a bureau, and a desk. Also Frankie had a motor wich couls be turned on and off; the motor could sharpen knives (...)"

✒ Autoestima tem, mas acabou.
Diante de tudo isso, espanta que essas moças se odiassem?
(O'Connor:) "(...) she knew she would never be a saint. She did not steal or murder but she was a born liar and slothful and she sassed her mother and was deliberately ugly to almost everybody." 
(McCullers:) “This was the summer when Frankie was sick and tired of being Frankie. She hated herself, and had become a loafer and a big no-good who hung around the summer kitchen: (...)"
Que desejassem ser um outro alguém?
(McCullers:) "I wish I was somebody else except me."

✒ Das duas, uma: ou destruição, ou reparação. 
Trata-se, digamos, da direção que o ricochete segue. Algumas garotas rebelam-se a favor da explosão e da destruição. Frankie começa a cometer pequenos furtos pela cidade, a brincar com a pistola do pai e com facas e, efetivamente, a desejar destruir tudo.
(McCullers:) “I just wish I could tear down this whole town.”
Um tipo mais ameno de ira, quase defensiva, direciona-se às garotas que mostravam-se ajustadas à vida (especialmente as mais velhas), sejam aquelas que já estavam namorando e que as excluíam da conversa, sejam as que partiam para o bullying declarado. Para nossas protagonistas, as outras garotas eram estúpidas, tolas e até chamadas de todo tipo de palavrão. Pura salvaguarda.
(O'Connor:) "The child decided, after observing them for a few hours, that they were practically morons and (...) she couldn't have inherited any of their stupidity." 
"Neither one of them could say an intelligent thing and all their sentences began, "you know this boy I know well one time he..." 
(McCullers:) "The son-of-a-bitches.”
Chutando a porta de vez, a personagem da Mansfield revolta-se contra tudo e todos.
(Mansfield:) "How hideous life is-revolting, simply revolting... (...) Go to hell", she shouts, running down the road."
A personagem da Berlin apela para o caminho oposto: empenha-se ao máximo em tentar agradar, para que, de alguma forma, seja aceita e consiga construir qualquer vínculo com alguém. Por ser mais nova, talvez? O desespero da garota é tamanho, tadinha, que ela dedica-se com afinco a agradar até o padre da Igreja Católica que ouvia sua confissão (ela era de família protestante!):
(Berlin:) "Then he asked about my sins. I wasn't lying. I really and trully had no sins to confess. Not a one. I was so ashamed, surely a could think of something. Search deep into your heart, my child... Nothing. Desperate, wanting so bad to please I made one up."
Nesse ponto, Berlin acaba aproximando-se de O'Connor, considerando-se que o universo religioso também traz à sua protagonista algum tipo de alívio para toda aquela pressão. (*As coisas não dão muito certo no final, é verdade.)


✒ Metafísica e crise existencial de sobra.
Pensa que a Lorena do 4o ano B é a única a interessar-se pelo vazio? Então, pense novamente. Todas essas garotas começam a despertar para questões relacionadas à vida, ao universo e tudo mais, entretanto as respostas escapam-lhes completamente. A consequência? Medo, mais solidão e aflição existencial da boa. Seguem algumas instigantes reflexões de nossas personagens:
(Berlin:) "A lot of things were really bothering me in those days, like what gave life to the candles and where the sound came from in the desks. If everything in God's world has a soul, even the desks, since they have a voice, there must be a heaven. I couldn't go to heaven because I was Protestant. I'd have to go to limbo. I would rather have gone to hell than limbo, what an ugly word, like dumbo, or mumbo jumbo, a place without any dignity at all." 
(McCullers:) “She was afraid of these things that made her suddenly wonder who she was, and what she was going to be in the world, and why she was standing at that minute, seing a light, or listening, or staring up into the sky: alone. She was afraid, and there was a queer tightness in her chest.”

✒ Saída? Fugir!
Essa é, aparentemente, a única solução que as personagens vislumbram e a que anseiam fervorosamente. O "para onde" nem importava, mas apenas escapar do sofrimento e explorar o mundo. Retomando nosso símbolo: como conter o vento em um espaço confinado e privá-lo da liberdade de soprar pelos quatro cantos? O conto de Mansfield, por exemplo, encerra com a personagem sonhando acordada a imagem de sua fuga no navio que partia. 

Para Frankie,  o fato do irmão ter passado dois anos servindo ao exército em um lugar tão pitoresco como o Alasca, acrescido das notícias provenientes de vários países durante a então corrente Segunda Guerra Mundial, intensificavam nela a noção de que havia um mundo vasto aguardando que ela o explorasse. Em algum ponto dele, com certeza ela se encontraria. 
(Mansfield:) "They are on board leaning over rail arm in arm. (...) Good-bye, little island, good-bye...(...) the ship is gone, now. 
(McCullers:) “I've been ready to leave this town só long. I wish I didn't have to come back here after the wedding. I wish I was going somewhere for good.” 

“She did not know why she was sad, but because of this peculiar sadness, she began to realize she ought to leave town. (…) but she did not know where she should go.”
**** 
Se pudesse, abraçaria todas essas personagens - e as garotas reais, de carne e osso, que agora enfrentam esse pandemônio - e afirmaria-lhes que esses dias de cão terminam eventualmente. Outros começam, admito, contudo reservaria a revelação desse "detalhe" para uma outra ocasião. 😉


"(...) You are the we of me."

                                                       - Carson McCullers, The Member of the Wedding.


Para exorcizar esses velhos esqueletos do armário, vamos de Florence Welch?


 THE DOG DAYS ARE OVER, FRANKIE! 
(For now.)


10/12/2017

Diários Susan Sontag 1947-1963 [#02]

(*Sobre o livro: clique aqui. Ed. Compnhia das Letras, tradução: Rubens Figueiredo.)


Minha cara não aparece aqui, mas asseguro que ela não é a de uma pessoa disposta a criticar o diário alheio, muito menos o de uma escritora como Susan Sontag. Para registrar essa leitura, escolhi interagir humildemente com o diário dela (o qual é marcado por interessantes listas, citações, pensamentos aleatórios): 1. criando minhas próprias listas a partir das ideias que Sontag lança; 2. dando pitacos inúteis sobre o que ela discorre ou 3. simplesmente anotando as citações que me tocaram, para não esquecer. Haverá (acho, talvez, quem sabe) outras mini postagens. 

- Por favor, Sontag, perdoe minha audácia, ok?








[Postagem anterior: #01]

(* em negrito = entradas da Sontag.)

➤ 
18/05/1949
"Será que algum dia vou conseguir aprender com a minha própria burrice?"


10/12/2017
Não, acho que o ser humano nunca aprende, Sontag. Bom, pelo menos eu mesma já desisti. Inclusive, suspeito de que o papo que travarei com o capiroto será como aquele da peça do Suassuna:

- Oxe, eu morri, é? E morri de que, Sr. Mefistófeles?
- Lamento informar, mas a senhora morreu foi de burrice mesmo. 
- Mas que merda, hein.
¯\_(ツ)_/¯


➤ 
25/05/1949
“- Meu Deus, viver é uma coisa enorme!"    


10/12/2017












➤ 
 04/06/1949
“Sexo com música! Tão intelectual!!"  

10/12/2017









➤ 
13/02/1950
“De Rilke:
"... a grande questão hereditária: ... se estamos sempre inadequadamente apaixonados, inseguros em nossas decisões, + impotentes em face da morte, como é possível existir?"

...

“Uma vez mortos, nós não sabemos disso, portanto é melhor pensar em estar vivo! Mesmo se morrermos antes de experimentar as coisas que exigimos da vida, não importa quando morremos — só perdemos o momento em que estamos — a vida é horizontal, não vertical — não pode ser acumulada portanto viva, não se humilhe."

10/12/2017
❤❤


➤ 
04/11/1956
“A respeito da morte de Gertrude Stein: saiu de um coma profundo para pedir à sua companheira, Alice Toklas:


[Certeza de que o cachorrinho, ali, sabe a pergunta e a resposta.]
[Espie a cara dele, todo se fazendo de desentendido.]


➤ 
24/12/1956
"David, muito prestativo e carinhoso enquanto se prepara para ir para a cama, ocasião em que houve este diálogo: “E se Deus não tivesse criado o mundo?”. Eu: “Aí a gente não existiria. Isso seria muito ruim, não é?”. Ele: “Não existiria? Nem Moisés?”. Eu: “Como alguém ia existir, se não existisse um mundo para ficar?”. Ele: “Mas, se não havia um mundo, onde é que Deus estava?”. Eu: “Deus existe antes do mundo. Ele não é uma pessoa ou uma coisa”. Ele: “Então, se Deus não é uma pessoa, por que ele teve de descansar?”. Eu: “Bem, a Bíblia fala de Deus como uma pessoa, porque é a única maneira como podemos imaginar Deus. Mas ele não é uma pessoa de verdade”. Ele: “O que ele é? Uma nuvem?”. Eu: “Ele não é uma coisa. Ele é o princípio por trás do mundo todo, a base do ser, em toda parte”. Ele: “Em toda parte? Neste quarto?”. Eu: “Ah, sim”. Ele: “Deus é a melhor coisa que existe?”. Eu: “Exatamente. Boa noite”.


10/12/2017
(Amei essa explicação!)















➤ 
[Com data apenas de 1957]

Em que eu acredito?
Na vida privada
Em mostrar cultura
Em música, Shakespeare, prédios antigos

O que eu aprecio?

Música
Estar apaixonada
Crianças
Dormir
Carne

Meus defeitos
Nunca chegar na hora
Mentir, falar demais
Preguiça
Falta de vontade para recusar



10/12/2017
Em que eu acredito?
(**hoje:)
Na empatia
Em sonhos
Em tartarugas marinhas

O que eu aprecio?
(**hoje:)
Literatura
Chocolate
Música
Serotonina
Paz

Meus defeitos
(**hoje:)
Preguiça
Passividade
Insegurança
Chata toda vida


➤ 
06/01/1957
"Uma espécie de orgulho tolo que advém de manter por muito tempo uma dieta de cultura elevada."

10/12/2017
Sei bem. É uma ideia que as redes sociais andam simbolizando através desta potente imagem:












Seria igualmente tolo orgulhar-se de manter uma dieta exclusiva à base de livros do Dostoiévski, enriquecidos da podridão humana? Hum, interessante. 


➤ 
15/01/1957
"Será que sou eu mesma quando estou sozinha?

Será  que não sou eu mesma quando estou com os outros, nem com o Philip — disso decorre a constante sensação de irritação, com ele, comigo mesma. Mas e sozinha, eu sou eu mesma? Também parece improvável."

10/12/2017
Ah, Sontag, essa questão também me atormenta tanto! Inclusive, já até registrei neste meu diarinho dois trechos dos livros da Woolf e do Pirandello que a abordam. Reproduzo-os novamente:


***

Para encerrar o post, as músicas que a Sontag curtia para render um ~sexo intelectual~. Play!


13/08/2017

O Lugar sem Limites - José Donoso ( x Pabllo Vittar)

Se uma agente do futuro tivesse me dito "Daniela, logo mais você estará cantando, dançando e encantando-se com uma drag queen brasileira", não há dúvidas de que eu teria mandado um "haha, tá louca, amiga?".  É, e agora estaria quebrando a cara.

Como sou meio alienada desconectada da realidade, só conheci Pabllo Vittar recentemente, graças ao último clipe do Major Lazer feat. Anitta & Pabllo Vittar. Fiquei intrigada com a pessoa, daí fui lá pesquisar. Vídeo vai, vídeo vem e pronto; me apaixonei. Poderosa é pouco:


Então, dia desses estava Lip Syncing for my Life a música "K.O." (AMO) enquanto me montava pro open bar trabalho e acabei comentando, comigo mesma, que eu nunca havia lido um livro com personagem trans/travesti/drag queen*. Percebi que gostaria, sim, de mais diversidade de gênero nas obras que leio. Pois imagine meu susto quando ouvi atrás de mim um "cof, cof". Fui até à sala bancar o John Travolta Gif e, ao me virar pra estante, encontrei O Lugar sem Limites (OLSL) me encarando todo magoado por ter de ouvir aquilo depois de uns dois anos mofando naquela prateleira. "Poxa, minha protagonista é uma travesti, e você sabe disso!"  Ok; sua hora chegou.

(Ed. Cosac Naify)
Tradução: Heloisa Jahn
Capa (linda): Tatiana Blass - Tragédia/O cão cego, 2009.

Foi um prazer enorme reencontrar-me com o Donoso. Amei intensamente essa leitura, talvez até mais do que a do excepcional O Obsceno Pássaro da Noite (OOPN). De imediato, fiquei envergonhada pela predileção pessoal - OOPN seria tecnicamente superior? - , contudo assisti a um vídeo (link aqui) em que o próprio Donoso afirma considerar OLSL sua obra mais perfeita e completa, com menos erros. Aliás, ele diz até que OLSL nasceu a partir de oito linhas extraídas de OOPN; cujas premissas, na ocasião, ele ainda tentava desenvolver a seu contento. Assim, a consciência ficou leve para assumir que prefiro O Lugar sem Limites.

Estou achando difícil organizar minhas ideias, porque o conjunto de temáticas desse livro, de certa maneira, lembra aqueles tecidos holográficos, nos quais cada cor é melhor visualizada apenas mediante mudanças de posicionamento da imagem. A presença de uma protagonista travesti vivendo em uma pequena cidade tomada por homens brutos e machistas me pareceu, ao longo de toda a leitura, como só uma dentre várias questões exploradas pela história. Uma cor no meio de muitas. Ainda naquele vídeo anteriormente citado, Donoso revela uma característica de seu processo de escrita que possivelmente fundamenta bem minha sensação de um emaranhado de temas pedindo para serem desenleados. O autor refere (paráfrase + tradução livre:) que aprendeu a buscar a estrutura e o significado de suas obras mediante a própria escrita, o que significa dizer que, para Donoso, escrever é uma aventura existencial, na qual um tema desenvolvido o modifica enquanto pessoa. Bastou ouvir isso, para que eu compreendesse a razão de minha dificuldade para organizar as múltiplas temáticas que eu pressentia na leitura. Bem, pois tentarei adotar a técnica do autor, escrevendo aqui como uma espécie de fluxo terapêutico, e vejamos aonde chegarei. Instintivamente, ainda que pareça óbvio, me atrevo a dizer que o início do livro desponta como ideal ponto de partida. Donoso já começa O Lugar sem Limites com os dois pés na porta, usando este assombroso trecho de Doutor Fausto, escrito por Marlowe, como epígrafe:
"Fausto: Primeiro irei interrogá-lo sobre o inferno. Diga-me, onde é o lugar que os homens chamam de inferno? 
Mefistófeles: Debaixo do firmamento. 
Fausto: Está bem, mas onde? 
Mefistófeles: Nas entranhas desses elementos, onde somos torturados e ficamos para sempre: o inferno não tem limites, não se localiza num só lugar; porque o inferno é onde estamos, e onde for o inferno, lá estaremos para sempre... 
                                                                                              - Marlowe, Doutor Fausto.
Partindo desse argumento, deduziria que a fictícia localidade de El Olivo representa amplamente o próprio inferno, um lugar esquecido e em ruínas, sem eletrificação, sem cemitério, sem nada; prestes a ser engolido e a desaparecer, levando consigo todos seus habitantes. As sensações de tortura e de prisão perpétua que Marlowe associa ao inferno são as mesmas que devoram praticamente todas as personagens da obra de Donoso.
"(...) nenhuma esperança, que era melhor que tranquilidade, aqui na estação El Olivo, enquanto não passassem o arado por cima de todo o povoado. (...) As coisas que acabam dão paz e as coisas que não mudam começam a chegar ao fim. O terrível é a esperança."  
                                                                                                     - José Donoso, O Lugar sem Limites.
Em outro ponto daquele mesmo vídeo, Donoso acrescenta que, quando ele estava no Chile, sofria de uma espécie de bloqueio criativo, uma estagnação literária. O convite para participar de um congresso literário no México surge, naquela circunstância, como o evento que marca a saída definitiva do país. O Chile teria virado o Inferno de Donoso? O El Olivo do autor? A trama de OLSL espelha a realidade chilena na percepção de Donoso? Deixo a confabulação.

E quanto a Mefistófeles? Ele faz-se presente na história de OLSL? Pois não seria o próprio Don Alejo, ou melhor, Don Alejandro Cruz? É minha teoria. A maneira com que ele é descrito, uma figura poderosa e sedutora que "promete maravilhas" a todos, sem efetivamente cumprir nada, aponta  nessa direção. O político (e o que mais ele seria, correto?) que utiliza as pessoas como meios para seus objetivos. Ele lembrou-me imediatamente de outras duas notáveis personagens da literatura: Pedro Páramo, o todo-poderoso da Comala de Juan Rulfo; e o Juiz Holden, do livro Meridiano de Sangue, escrito por Cormac McCarthy — The Judge igualmente associado à imagem satânica.

A marcante presença dos quatro cachorros pretos, ensandecidos e raivosos, que salvaguardavam os domínios de Don Alejo me chamou muita atenção; e nem tinha como ser diferente. Intrigada, me enveredei numa breve pesquisa a respeito desses símbolos. No próprio Fausto, de Goethe (leitura que ainda lamentavelmente devo), descobri que Mefistófeles aparece, pela primeira vez, na forma de um cachorro preto que segue Fausto ao longo de um campo. A propósito, revendo a trama de Goethe, suponho agora que a Grande Japonesa poderia ser Fausto, enquanto Manuela seria Margarida. Estou devaneando aqui que talvez a tal aposta (= a velha cafetina conseguiria transar com o travesti?) reflete relativamente bem o pacto fáustico: a Japonesa (Fausto), ao aceitar a aposta, teria vendido sua alma a Don Alejo (Mefistófeles) em troca de tornar-se proprietária do prostíbulo e, nessa transação, deslumbra Manuela (Margarida) para acompanhá-la. Será?  *Nota: pre-ci-so ler Fausto o quanto antes.

Enfim, voltemos aos cachorros. Embora acredite já ter matado a charada maior, registrarei outros pequenos achados. O número quatro, claro, levou-me diretamente aos quatro cavaleiros do apocalipse. Visto que todos os cachorros são pretos, cor símbolo da escuridão e de planícies desertas (opa, mas não é a descrição de El Olivo?), é oportuno lembrar que o cavaleiro dessa respectiva cor representa a peste, a maldição. E considerando-se que são os bichinhos de estimação de um político que não cumpre nenhuma promessa de campanha, foi engraçado encontrar a informação de que o cavaleiro preto representa, para alguns estudiosos, também o colapso econômico e a fome. De fato, no fim das contas, Don Alejo parece ter levado apenas desgraça à população de El Olivo. E outras interessantes referências caninas na bíblia: “Cuidado com os cães, cuidado com os maus operários, cuidados com os falsos circuncidados!”(Filipenses 3,2) e “Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira”. (Apocalipse 22,15)

Além disso, descobri que o Black Dog faz parte do folclore britânico, estando associado ao Diabo e ao Inferno, com aparições noturnas que prenunciam a morte e, bom, aqueles bichinhos de OLSL eram mais ativos exatamente à noite. Ademais, o Black Dog frequentemente irrompe com tempestades elétricas, e a primeira aparição de Don Alejo com seus cachorros é acompanhada precisamente de uma baita chuva. Fascinante. Ah, e claro, na mitologia grega, encontramos Cerberus, o cachorro de três cabeças que guarda a entrada de Hades, o mundo subterrâneo dos mortos. Não estou falando? Os habitantes de El Olivo viviam no inferno e nem se davam conta. Pelo menos, não de forma consciente.

Mas e quanto à Manuela, batizada Manuel González Astica? Já lancei no post a hipótese de um paralelo com a Margarida do Goethe e, lendo a resenha escrita pela Camila von Holdefer no site Livros Abertos (link aqui), fui chamada atenção para o fato de que essa personagem vivia oprimida por outros infernos, prisões e tormentos: 1. os sentimentos sobre seu próprio corpo - "(...) sua filha que não sabia dançar mas que era jovem e mulher, e cuja esperança ao olhar-se no espelho quebrado não era uma mentira grotesca." - e, 2. nas palavras de Jorge Schwartz,  o arraigado machismo de uma sociedade forjada no pedestal do patriarcado, sem espaço para diversidade alguma. Inclusive, algumas passagens envolvendo Manuela remeteram-me diretamente a Pabllo Vittar. Durante uma das performances da chilena, uns brutamontes arremessam-na em um canal e urinam em cima dela; trecho que levou-me ao momento de um vídeo (link aqui) em que Vittar diz, com lágrimas nos olhos, que um garoto do ensino fundamental jogara um prato de sopa quente na cara dela, porque queria obrigá-la "a agir como um homem". Manuela, por sua vez, confessa não saber por que faziam isso e se pergunta se poderia ser por medo dela. Esse questionamento lançado por ela resgatou-me as reflexões proporcionados pelo livro The Vegetarian, da Han Kang; porém deixo pra depois o desenvolvimento desse pensamento.

Continuando naquela mesma entrevista, Vittar relata que "quando estou montada, sei lá, parece que baixa um negócio. Coloco a peruca, acabou: ninguém me tomba" e isso reverbera muito na experiência compartilhada por Manuela. A roupa vermelha, o boá de plumas e sua performática dança espanhola parecem simbolizar a peruca a que Vittar se referiu. Como bem disse Camila von Holdefer em sua resenha, "Para fugir da sua dor, dança. Põe seu vestido de cigana e foge, por uns instantes, do próprio inferno." 
"Mas na pista, com uma flor atrás da orelha, velha e tonta como estava, ela era mais mulher do que todas (...) encurvando o torso para trás e franzindo os lábios e sapateando com mais fúria, eles riam mais e a onda de riso a fazia elevar-se no ar, na direção das luzes."
                                                                                                                            - José Donoso, O Lugar sem Limites. 

Não teve jeito; isso me trouxe de volta um outro livro: Vida e Proezas de Aléxis Zorbás, do Nikos Kazantzákis, com sua proposta de dançar todos esses pensamentos desesperados. Aliás, acho que é por essa razão que me afeiçoei tanto a Pabllo Vittar. Ela surgiu em um momento melancólico e, com sua arte e simpatia contagiante - somadas a tudo que o sucesso dela representa -, me trouxe alegria. Ela mesma diz "que Drag é para levar felicidade, emoção, entretenimento" e acredito que é exatamente isso que ela fez e faz pra mim. Porém, considero importante não esquecer que, por trás da dança de Manuela, havia dor; e Pabllo deixa escapar algo parecido aqui: "Palhaço? Acho bafo, faz a gente rir. Mas  quando a gente é o palhaço, não é fácil, não. É barro."  

Em suma, penso que também aplica-se a Pabllo, de certo modo, aquilo que a Japonesa pensou sobre Manuela: "(...) tão fácil quanto era, naquele momento, amá-lo." É fácil gostar da Pabllo. É isso.

(P.S.: talvez eu tenha extrapolado a cota de vídeos vistos. Je ne regrette rien.)

Para arrematar a postagem, agradeço a Donoso pela magnífica experiência de leitura. (Fico devendo a adaptação cinematográfica. Foi pra fila.) E vamos lá com Pabllo, dançar os pensamentos desesperados. Fuja de El Olivo e venha com a gente, Manuela!



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Pois não é que uma passagem de OLSL me fez lembrar que, há pouquíssimo tempo, eu li, sim, uma obra com personagem travesti?! Enquanto Manuela penteava o cabelo de sua filha Japonesita, lembrei-me da maravilhosa personagem Lala, do conto O Menino Sujo, que faz parte da coletânea As Coisas que Perdemos no Fogo, escrita pela argentina Mariana Enriquez. Como pude me esquecer? Voilà:

Ed. Intrínseca
Tradução: José Geraldo Couto

09/08/2017

A Última Tragédia - Abdulai Sila

( * Sobre o livro - info, sinopse etc: clique aqui - Ed. Pallas,)

Quando encontrava-me no meio dessa leitura, eis que este vídeo da Flip 2017 (Festa Literária Internacional de Paraty) cruzou o meu caminho:

   
Então a Globo bloqueou o vídeo da Flip.  Inacreditável.
Bom, achei outras opções - ainda não bloqueadas - aqui: V1 - V2 - V3.

À medida que ouvia as palavras da Sra. Diva Guimarães, uma aposentada professora brasileira de 77 anos, minha estupefação aumentava progressivamente. Fiquei impressionada não apenas pela contundência de seu discurso, mas especialmente porque seus pontos principais estabeleciam uma relação íntima e direta com algumas importantes temáticas exploradas pelo próprio guineense Abdulai Sila no seu livro A Última Tragédia. Então as experiências de vida de uma mulher negra no Brasil do século XX - nação independente c/ mais de cem anos desde a abolição dos escravos - reverberava em uma obra escrita na década de 80 (* 1a. publicação: 95) sobre a experiência dos negros de Guiné-Bissau, então Guiné Portuguesa, durante o processo colonizatório imposto pelos brancos portugueses na segunda metade do século XX? Constatei que sim. Claro, não demorou muito até que eu percebesse que meu espanto imediato possivelmente revelava uma completa ingenuidade de minha parte.

Destaco, a seguir, trechos ditos pela Sra. Diva, a fim de cruzá-los sucintamente com as questões que encontrei no livro de Sila.

(1) 


A religião católica surge na vida de duas protagonistas de A Última Tragédia exibindo peculiaridades que replicam bastante o que a professora Diva afirmou. Explico.

Certo dia, Dona Linda, uma portuguesa branca que acompanhava o marido a trabalho na colônia, decide que sua criada Daniela, aliás* Ndani, uma guineense negra de quinze anos, passaria a frequentar a igreja com ela. Ndani não entende as intenções da patroa, pois igreja era coisa de branco, o Deus deles é que estava lá dentro. Inclusive, ela lembrava-se de só ter visto figura de branco ao espreitar o interior da igreja no centro da praça. Ademais, Ndani sabia que a igreja do preto era na baloba e o Deus dos pretos era o Yran. Mas Dona Linda rapidamente socorre Ndani dessa confusão, esclarecendo-lhe que aquela era a missão sagrada da portuguesa em Guiné: salvar os africanos. O padre havia informado à Dona Linda que os europeus tiveram que ir para a África ensinar a religião cristã e salvar as almas dos negros.

E então foi assim que Ndani viu-se obrigada a carregar um crucifixo de prata no pescoço e a pentear o cabelo direito para poder participar regularmente dos encontros de catequese na paróquia, juntamente com outras criadas negras de sua idade. A cobrança que sofria por parte da patroa e do sacristão era ferrenha. Aprender os dez mandamentos, decorar os Padre-Nossos todos e as Ave-Marias todas...

Alguns anos depois, quando Ndani nem mais era criada de Dona Linda, ela conhece o novo Professor da tabanca Quinhamel, um negro de 25 anos que aprendera o ofício do magistério durante os seis anos em que morara em uma Missão com padres italianos. O Professor, ao vê-la lendo um livro de cobois, decide presenteá-la com uma coisa mais interessante: o novo testamento. A reação de Ndani? Segue:
"- Não, isso não, por favor. Leva, leva... Já li muitas vezes. Tantas vezes, que agora já não posso mais. Basta. Leva, por favor..."
[ * = As agressões de Dona Linda chegam até este ponto: mudar o nome de Ndani para Daniela. Justo o meu nome, poxa vida. Como destaque, o narrador ironicamente repete com frequência a expressão "Ndani, aliás Daniela".]
(2) 
Ok, essa é, sem dúvidas, a relação mais admirável, e ela envolve uma terceira personagem: Bsum, o Régulo - espécie de líder, chefe - de Quinhamel. Reproduzirei diretamente as palavras de Bsum, pois é extremamente fácil perceber a sintonia entre o que ele diz e o que disse a Sra. Diva.
"O branco pensa em tudo, mas a cabeça do branco não é mais grande que a cabeça do preto. Têm a mesma coisa lá dentro, foi o mesmo Deus que fez. O branco trabalha pouco, mas pensa muito; o preto trabalha muito, mas pensa pouco. Tudo ao contrário. Foi assim que o problema começou. É preciso encontrar uma saída. Por isso e para isso ele tinha tomado uma decisão: tinha que pensar, pensar sempre. (...) Aí é que está o problema mais grande do preto. Pensar. No dia em que os pretos começarem todos a pensar, os brancos vão por-se fora da terra. (...) O branco é que estava a pensar no lugar do preto. Mas branco é homem como qualquer outro homem!"
Pensar, educar-se. A professora acredita que a educação assume um papel fundamental na trajetória dos negros, e apostaria que Bsum concordaria com ela. Escola para sua tabanca, ele garantiu.

***
Por fim, vale admitir que, indiretamente, a professora acabou explicitando que meu assombro inicial diante do que ela dizia era mesmo despropositado → "Ela não está falando de Portugal, ela está falando do Brasil nos dias de hoje." Quer dizer, é verdade que Abdulai Sila fala da Guiné Bissau colônia no seu livro A Última Tragédia, entretanto atinei, com a ajuda da Sra. Diva, que talvez ele esteja falando simultaneamente do Brasil de ontem e de hoje. E também do de amanhã? É a pergunta que alimenta minhas reflexões principais ao final dessa leitura; além de pensar em meios de assegurar que a resposta esteja contemplada por um categórico "não".

06/08/2017

[DL #07] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

* (capa meramente ilustrativa - capa da edição da record: X)
Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Postagens anteriores: DL#01, DL #02, DL #03, DL #04, DL #05, DL#06.
Edições adotadas: 
Programação de leitura: ritmo indefinido. ¯\_(ツ)_/¯
Início da leitura: 12/11/2016
Fim estimado: ¯\_(ツ)_/¯
Sobre o livro: clique aqui (1), clique aqui (2).
LIVROS 07 & 08
Two Temptations - Sunset and Sunrise

✒ A última postagem desta série ocorreu há mais de quatro meses e, também há mais de quatro meses, concluí a leitura de Middlemarch. Especificamente, no dia três de abril. Portanto, infelizmente acabei prejudicando o andamento ideal deste registro, razão pela qual associo os dois últimos livros da obra nesta postagem única que concluirá o diário de leitura. Reli tudo que eu havia escrito nas entradas anteriores - sim, pois quem disse que eu me lembrava? - e acredito que os pontos principais (dentre aqueles que assimilei da obra, é claro) já foram praticamente todos registrados, mas ainda restam impressões que podem ser acrescentadas aqui.



Esse lance de casamento é mesmo apenas para os fortes, hein? Muito complicado fazer essa parada funcionar a contento para ambas as partes; ajustar o jogo de concessões até um equilíbrio mutuamente satisfatório. Sobre essa temática amplamente explorada por Eliot, destacaria aqui os diálogos excelentes e impressionantes travados entre o casal Lydgate e Rosamond. Assim como para as próprias personagens, foi exasperante perceber que, por mais que se esforçassem, nenhum deles conseguia fazer com que o outro entendesse suas percepções e sentimentos. Lembrou-me bastante de uma engenhosa cena do livro "Coração tão Branco", do autor espanhol Javier Marías, a qual funciona como metáfora tácita para as dificuldades de comunicação que casais usualmente enfrentam. Naquela cena escrita pelo autor espanhol, dois líderes políticos de países distintos encontram-se em uma reunião formal mediante auxílio de um tradutor simultâneo que, percebendo a dificuldade de entrosamento na conversa dos representantes, resolve deliberadamente deturpar de leve as falas traduzidas, garantindo, assim, o pleno sucesso do encontro. Nos diálogos entre Lydgate e Rosamond, parecia realmente que eles se expressavam em línguas diferentes. Comparada à referida metáfora de Marías, a intervenção de Dorothea - conversando a sós com cada um - , praticamente reproduz aquela do tradutor bem intencionado. 

Simultaneamente e nesse mesmo tema, não é esplendida a contrapartida que encontramos entre Mr. e Mrs. Bulstrode? Durante a revelação da verdade de Mr. Bulstrode, o momento de silêncio que o casal compartilha detém um poder de comunicação intenso que supera qualquer barreira e que prescinde palavras. Os dois se entendem e se confortam sem que precisem dizer coisa alguma. 
"His confession was silent, and her promise of faithfulness was silent."
✒ Por falar em contrapartidas, é peculiar como Middlemarch apresenta perfis distintos de comportamento entre as várias esposas da trama. Encontramos: a submissão calada de Dorothea, o companheirismo íntimo de Mrs. Garth, a submissão parcial e consciente de Celia, bem como o egocentrismo egoísta de Rosamond. Opa, pausa! Penso que é necessário prudência antes de apontar todos os dedos contra Rosamond, em favor de Lydgate. Inclusive, nosso narrador, como esperado, não falha em demonstrar, da melhor forma possível, também o ponto de vista dela. Seria justo esquecer a responsabilidade das escolhas de Lydgate? Torna-se mais difícil defendê-la, entretanto, quando ela não consegue expressar sua confiança no marido durante a complicada adversidade relacionada à morte de Mr. Raffles, papel que é assumido por Dorothea, seu quase duplo. E não esqueçamos da ironia entre os opostos: Rosamond sucumbe à falência financeira do marido; Dorothea abre mão de sua fortuna para poder casar-se com Ladislaw. Cada uma, cada uma; confere? Como mencionei antes, aliás, o Dinheiro faz-se constantemente presente, ou ausente (!), na narrativa de Middlemarch.

Para finalizar essa temática, resgatarei uma pergunta que eu havia lançado no DL #03:
"(...) tenho a impressão de que o livro me agraciará com um grupo de pobres mulheres infelizes no matrimônio, cada uma à sua maneira, ao lado de maridos medíocres. Será?"

No fim das contas, tivemos mulheres e homens infelizes no matrimônio, amargando as más escolhas que fizeram. Contudo não podemos negar que a história também conta com muitos casamentos aparentemente felizes. Refleti a respeito do perfil de cada um desses discrepantes matrimônios  e, somente no final da leitura, dei-me conta de que parece existir um elemento crucial, óbvio talvez, nos casamentos fortunados: amor. Teve, Eliot, a intenção deliberada de sugerir isso? Tal hipótese só me ocorreu quando observei Lydgate angustiado diante da possibilidade de encontrar-se conscientemente em uma relação sem amor. A presença do nobre sentimento pode até não garantir invariavelmente o almejado desfecho feliz, porém sua ausência dificilmente o fará.


✒ Persistindo no tema de sentimentos humanos, a reta final da leitura evidenciou-me um outro que também foi extensamente explorado pela autora: o orgulho. Nessa história, a maioria das personagens não quer pedir ajuda, não quer que os outros saibam que encontram-se em apuros, não quer aceitar o dinheiro alheio (- não é seu caso, né, Fred?), nem macular a aparência de uma vida perfeita e bem sucedida. Ladislaw, Mr. Busltrode e Rosamond, por exemplo, formam um trio cômico por conta da tendência compartilhada de bancarem os fugitivos. Pra que passar vexame em uma província, se é possível escapar para um local onde ninguém o conhece? Deu merda em um lugar? Só partir para um novo lugar, ora. 


✒ Aproveito a menção que fiz a Marías, para trazer outras duas leituras desse ano que também relacionam-se com Middlemarch. E melhor: citam explicitamente a obra!

(1) 

Essa citação de Middlemarch por Wharton causou-me uma feliz surpresa. De um lado, porque, logo no início da leitura, eu tinha mesmo achado que o estilo e a proposta de A época da inocência remetem bastante ao livro da Eliot. De outro, porque estou quase certa de que, caso o querido Newland Archer - o protagonista que recebia, em 1870, sua edição quentinha de Middlemarch direto da gráfica londrina - tivesse se dedicado à leitura imediata e atenta do livro, muitos de seus contratempos matrimoniais e sentimentais poderiam ter sido evitados.

(2) 

Ok, momento confissão: quando eu li essa passagem dos diários da Sontag, em Middlemarch Dorothea mal tinha se casado com Casaubon. Ou seja, passei boa parte da leitura apreensiva e totalmente incrédula quanto ao cenário de uma Dodo assassina. Justo ela, dentre tantas opções mais plausíveis?! Por isso mesmo, durante a cena estranha da escada, supus que o momento havia chegado.

Enfim, concluída a leitura, resta evidente que não houve nenhum assassinato - <cof, cof> há controvérsias, não é, Mr. Bulstrode? - de modo que não entendi nada do que a Sontag quis dizer (o que não é grande novidade, convenhamos). Até porque, mesmo sob uma suposta perspectiva simbólica, digamos, discordo completamente que Dorothea tenha contribuído para o fim prematuro de Casaubon. Fica a dúvida.

* Atualização em 06/01/2018: *
(3) Eis que hoje, enquanto eu folheava To The Lighthouse, da Virginia Woolf (procurava um outro trecho específico), deparei-me com uma referência explícita a Middlemarch. Não me recordava disso de jeito nenhum! Decido incluir a passagem aqui:


* Fim da atualização de 06/01/2018. *


✒ Hora de brincar resgatando outras perguntas que eu havia lançado e registrado ao longo deste diário.

(1) DL#01 ↦ "(...) e alerto que ainda não concluí meu completo discernimento a respeito de Dorothea."

Claro que, agora, o processo está concluído e, na falta de palavras, entrego: 💖. Mas a Eliot, por sua vez, dedicou as palavras finais do seu livro justamente a essa magnífica personagem:
"For there is no creature whose inward being is so strong that it is not greatly determined by what lies outside it. A new Theresa will hardly have the opportunity of reforming a conventual life, any more than a new Antigone will spend her heroic piety in daring all for the sake of a brother's burial: the medium in which their ardent deeds took shape is forever gone. But we insignificant people with our daily words and acts are preparing the lives of many Dorotheas, some of which may present a far sadder sacrifice than that of the Dorothea whose story we know. 
Her finely touched spirit had still its fine issues, though they were not widely visible. Her full nature, like that river of which Cyrus broke the strength, spent itself in channels which had no great name on the earth. But the effect of her being on those around her was incalculably diffusive (...)"
(2)  DL #02 ↦ "Será que Lydgate deixará ser engolido pelos middlemarchers?! Estou aflita por ele."

Ele até esboçou uma reação, mas acabou sendo engolido de qualquer jeito. Desde as primeiras páginas, pude antever que as coisas não dariam certo para o jovem médico, mas falhei na estimativa da dimensão do estrago. Os sonhos e ambições de todas as personagens são triturados sem piedade ao longo de suas respectivas jornadas, mas encaro o caso de Lydgate como o mais cruel, talvez porque tenha tido muita identificação com ele. Chega, assim, a hora da segunda confissão: adoraria sair dessa leitura afirmando que Dorothea é a minha personagem favorita, contudo não posso negar que esse posto é ocupado por Tertius Lydgate. 

(3) DL #02 ↦ "Queria registrar uma breve especulação: Mr. Lydgate e Miss Dorothea Brooke Mrs. Dorothea Casaubon parecem estabelecer, nessa narrativa, um paralelo de significado relevante. (...) O que será que a narrativa reserva para esses dois?"

Na verdade, calculo que seja possível estabelecer muitos paralelos entre as personagens (outro ótimo já citado: Dorothea x Rosamond), no entanto a dinâmica desses dois é mesmo especial e favorita, sobretudo porque eles protagonizam minha temática predileta. Em um gif, refiro-me a:


Ou ainda, em uma epígrafe utilizada pela Eliot:

"My grief lies onward and my joy behind."
- Shakespeare: Sonnets 
(Epigrafe do cap. 82 de Middlemarch)

Por isso mesmo, foi um deleite acompanhar a parceria firmada entre o dois nos últimos capítulos. Sempre que eu pensar em Middlemarch, imediatamente lembrarei de Dorothea e Lydgate.

(4) DL #04 "Por que, antes de morrer, Featherstone insistiu para que Mary Garth queimasse o último testamento, exatamente aquele que desfazia todos os anteriores e garantia Riggs como
herdeiro? Mary poderia ter evitado algo? O quê?! Alguma catástrofe futura?"

Fiquei abobalhada quando deparei-me com essa pergunta que lancei. Bom, se Mary tivesse queimado o testamento, Fred ficaria rico e... o quê? Torraria a grana irresponsavelmente? Teria se casado com Mary? Outra: Riggs não apareceria, muito menos Mr. Raffles. Daí, Mr. Bulstrode e Lydgate teriam sido poupados de todo o imbróglio relacionado à morte do alcoólatra chantageador. 

(5) DL#06 ↦ "P.S.: se eles não ficarem juntos no final, a Eliot terá de lidar com meu rancor. (Mentira, pois a leitura foi ótima e Dorothea está muito bem sozinha. Mas não custa nada, não é?)"

Sim, as interações lindamente descritas entre os dois me deixaram meio abestalhada a ponto de ameaçar uma escritora já falecida. Acontece. Mas pronto, Will e Dorothea ficaram juntos, então Eliot só lidará com minha gratidão.


✒ Encerro a fantástica leitura aqui, repetindo a bela última frase de Middlemarch:
P.S.: mas talvez não seja o fim de Middlemarch neste blog, visto que 
1. ainda tenho a adaptação da BBC - link - para assistir;
2. o livro da Rebecca Mead, My Life in Middlemarch, já está na fila de leitura. ;)

Ilustração de: Cecilia Lundgren
(via: The Guardian).