Mostrando postagens com marcador mariana enriquez. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mariana enriquez. Mostrar todas as postagens

19/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #03

💀 "No quise ir a Cuba por sus playas ni para visitar la Revolución o ver Playa Girón. No fui a buscar el Caribe (...) ni a confirmar el malo o bueno, óptimo o pésimo funcionamiento de la utopía socialista. Fui a ver mi banda favorita: Manic Street Preachers."                                                                                                                                                                                                       — Mariana Enriquez

Essa maravilhosa declaração que abre as anotações da viagem à Cuba me ajudou a elaborar uma teoria sobre o que exatamente me atrai ao texto de Enriquez. [Por favor, claro que não é porque sou fã de Manic Street Preachers (MSP) — na real, essa é outra banda que posiciono na coluna do meio: não amo nem odeio. No entanto, comparativamente a Joy Division, MSP pende um bocado mais para "odeio".] Bom, ao resgatar minhas memórias de leitura do As coisas que perdemos no fogo e combiná-las à maior intimidade que nós duas estamos construindo durante a viagem juntas, me peguei matutando que Enriquez desponta como uma autora que se alimenta bastante das referências da adolescência. Não estou querendo dizer que a prosa dela é juvenil ou imatura, mas sim que ela é capaz de usar, de forma astuta, as referências/marcas/cicatrizes da adolescência (tão determinantes para a adulta na qual nos tornamos), a fim de refletir acerca do momento presente, de elaborar um outro instante. Não sei se faz sentido, porém deixo aí o devaneio. 

P.S.: enquanto escrevo, escuto a playlist This is Manic Street Preachers, para que eu consiga escolher a música que arrematará este post; pois, de cabeça, não consegui cantarolar nadinha. [— Por favor, continue sendo minha amiga, Enriquez.]

💀 Agora, a pergunta que importa: COMO ASSIM, MANIC STREET PREACHERS TOCOU  EM CUBA?! Mas gente, eu estava por fora desse insólito acontecimento musical. Eis que, em 2001, os caras tocaram no Teatro Karl Max para um público seleto formado por estudantes, trabalhadores, pessoal da cultura, além da imprensa internacional. Ah, e para o próprio Fidel Castro, é lógico. Pera, é lógico? Eu sei lá; essa história é tão maluca, que sigo desnorteada. Depois dessa informação, nem quis mais saber de cemitério nenhum: a Enriquez foi visitar o cemitério de Colón, enquanto eu fiquei lendo textos a respeito desse bendito show.

Com o breve artigo que Oliver Burkeman escreveu para o Guardian, me deparei com esta pérola de pronunciamento dos integrantes da banda (lanço uma tradução mequetrefe):
"Cuba é exemplo de que nem tudo precisa ser americanizado", disse o vocalista James Dean Bradfield. O guitarrista Nicky Wire insistiu que "a visita não é daquele tipo do estudante que vai atrás do Che Guevara - é que, pra mim, Cuba é o último maior símbolo que realmente luta contra a americanização do mundo."
Veja bem, recentemente eu mesma andei esbravejando que é preciso barrar a influência da pernóstica moral americana e do american way of life sobre o resto do mundo, MÃS essa fala aí dos moços da banda, naquela circunstância (após vinte anos, uma banda britânica indo tocar em Cuba), é praticamente o roteiro pronto para um quadro do Monty Python ou do A Bit of Fry & Laurie. Perdão, não dá; é muita parvoíce. O Burkeman, inclusive, escolheu não perder a piada, pois encerrou o artigo tascando este comentário do universitário cubano que esteve no show:
"Espero que mais bandas venham pra cá, tipo o Oasis."                                                                                                      — Michel Hernandez, cubano, 20 anos (em 2001)

É, MSP, Cuba pode até resistir à americanização, porém, aparentemente, deseja uma britanização (musical, que seja), sobretudo depois da visita de vocês. Mas sabemos que os britânicos não têm nada a ver com os EUA; é outra parada, outro lance. 

💀 Depois dos vampiros, descubro que Enriquez também curte caras cuja beleza segue a estética de anime japonês. AMEI. (Se bem que: personagem de anime japonês ⇆ vampiro, qual a diferença, né?)
"Y, además, Richey. El guitarrista de Manic Street Preachers —una de esas bellezas delicadas, suicidas, demasiado refinado para ser varón— desapareció em 1995. (...) Richey mira a la cámara con ojos redondos, como de ánime japonés,..."

                                                                                                            — Mariana Enriquez 


💀 Ok; terminei de ouvir a playlist e, conforme antecipava, o som do Manic Street Preachers não é mesmo pra mim [Desculpa, Enriquez. (Falando baixinho, para que ela não escute: acho até várias músicas um tanto, err, farofas)]; porém acabei resgatando do passado uma danada que ouvi muito... no final dos anos 90?  A melodia tocada antes/depois do vocal me faz atravessar o túnel do tempo —inclusive, acredito que só curto mesmo esse trecho. Enfim, solta a Everything Must Go, Dj!

Três menções honrosas que valem o registro: The secret he had missed (feat. Julia Cumming), Orwellian e International Blue.

17/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #02


— Agora vamos para a Austrália?! Mas o que a gente vai fazer lá? Quando penso na Austrália, surgem imagens de praias, do (deserto) Outback, de animais "estranhos"...; mas não de cemitérios.

— Meu noivo é australiano; irei visitá-lo. Além disto, você está ciente de que fez uma pergunta tola, não é? Estamos sempre caminhando sobre túmulos; não importa onde estejamos.


 Puxa, tem toda razão; falei uma tremenda bobagem; principalmente se lembrarmos da violência histórica cometida contra os aborígenes daquele país. A propósito, minha memória calhou de me trazer de volta uma cena do livro A Lua e as Fogueiras — li dia desses —, de Cesare Pavese; na qual um camponês de Gaminella — norte da Itália, perto de Gênova, por onde acabamos de passar — encontra, enquanto destoca um terreno, os corpos de dois espiões repubblichini, com as cabeças esmagadas e sem sapatos. O romance de Pavese nos rememora os inúmeros corpos não identificados, vítimas da guerra, que estão embaixo do solo italiano; restando subentendido que praticamente espelham (de forma cruel) a escolha da Itália de empurrar o passado para debaixo do tapete. Curiosamente (ou não), o protagonista do livro passa um tempo nos EUA (Califórnia), e o medo, despertado nele, por aquela "planície desértica, ensanguentada pela luz vermelha da lua" (sim, o trecho remete bastante ao livro Meridiano de Sangue, do McCarthy) evidencia que a personagem está ciente de que, também nos EUA, ela caminha sobre corpos. Recentemente, no Rio de Janeiro, recordo que a a expansão do VLT revelou um dos primeiros cemitérios para africanos recém-chegados. Enfim, é como você mesma disse: não importa onde estejamos.

Exato. Todos nós, em todas os lugares, caminhamos sobre uma quantidade maior ou menor de mortos; afinal, há bem mais mortos que vivos, e todos eles terminam virando terra. Aliás, visitaremos o Cemitério Aborígene de Rottnet Island que, até pouco mais de vinte anos atrás, era um espaço de lazer (acampamento) para famílias e adolescentes, durante o verão. Acredita-se que, naquele local, foram enterrados cerca de 370 a 400 aborígenes. Por muito tempo o governo australiano tentou ocultar a existência desse cemitério; e, nos anos 90, líderes aborígenes exigiram que aquela terra fosse reconhecida e demarcada. Conforme me informaram, não houve exumações exploratórias e o lugar é, hoje, considerado sagrado. 

— Desconhecia esses fatos. Inclusive, Enriquez, estou lendo aqui o A Cor na Arte, de John Gage e, coincidentemente, descobri que a tradicional arte aborígene é super valorizada (não sabia!; banquei a tonta de novo). Gage afirma haver, porém, certa controvérsia relacionada às transformações pelas quais a arte deles tem passado por conta de influências externas. Como o livro trata de cores, o autor comenta, em especial, acerca da paleta e vocabulário cromáticos tradicionalmente restritos dos aborígenes (paleta de 4 cores (sem azul ou verde); nem por isso menos rica — justamente o contrário), a qual cede cada vez mais espaço para tintas sintéticas, com sua ampla gama de cores. Olhe o quanto são maravilhosos estes quadros de Ginger Riley Munduwalawala e de Albert Namatjira (*não tradicionais):


Fiquei encantada e ansiosa para conhecer melhor a arte aborígene australiana. Mas, me diga, não haveria algum túmulo específico que você planeja visitar enquanto estivermos lá?

— Sim; desejo ver o túmulo de Bon Scott, primeiro vocalista do AC/DC, que está enterrado em Fremantle. Disseram-me que todo 19/02 — data em que o encontraram morto — há peregrinação de londrinos pra lá. Ah, e um detalhe relevante: ficaremos hospedadas num albergue.

— O quê?! Nãããããaãããooooooo. 

— Eu sei, lamento. Segundo Paul (meu noivo), os albergues da Austrália são os improvisados hospitais psiquiátricos do país.

— Ora, só da Austrália? Ok; na real, albergues nem são tão ruins (na última viagem que fiz, inclusive, fiquei em albergue), mas acho que já tô velha demais... Mas enfim, beleza. (...) Ãin, estou louca pra ver os tais quokkas.

— Provavelmente veremos um desses minicangurus, porém a maioria é bastante judiada, porque brigam muito entre si.

— Ué, aquela carinha sorridente é fachada para uma personalidade marrenta?! Caramba.

Pois é. Bom, vejamos se sobrará tempo para visitarmos o túmulo de Bon Scott. 


💀 E não sobrou. Só restou um horário à noite, e Enriquez — acredita quem quiser — teve medo da escuridão e do silêncio suburbano do local. Por correio, o cunhado mandou vídeo/foto da visita que fez por nós.
"... aparece la verdad: la placa es una más entre varias, no se destaca, tiene más flores que sus compañeras, pero es notable cómo pasa inadvertida. (...) primero vieron el banco de cemento donado por la familia para que los fans se sienten y tomen una cerveza con Bon. (...) Esperaban, creo, algo más. Algo alusivo, grafitis, fans congregados, algo. Pero no. solo la plaquita y las rosas rojas."

                                                                                                          — Mariana Enriquez 

16/08/2021

[DROPS] Viajando com Mariana Enriquez #01


💀 Não faço ideia do que estou fazendo ao lado de uma catadora de cementerios. Nunca tive fase gótica, não curto ficção do gênero terror/horror e sequer ligo pra cemitérios (mas a Enriquez está virando, com folga, esse jogo). Acho que é sina; encasquetar com minas que são bem mais cool do que eu —  além disso: o que eu faria na companhia de gente sem graça?!  A ressalva reforça que, em vez de perder tempo lendo as breves abobrinhas que registrarei no blog — as quais provavelmente nem terão lá muito a ver com cemitérios —, talvez seja melhor ler o livro da Mariana Enriquez.  [*Aqui é assim: saboto meu blog logo na largada.]

💀 Se Enriquez foi parar em Gênova, é claro que ela visitou o Cemitério de Staglieno, famoso por ilustrar capas de discos do Joy Division. Daí, meu primeiro susto: ela não gosta de Joy Division. Bicho, mas eu pudia jurar que Joy Division era unanimidade irrefutável entre os membros da Cool Society. Realmente abestalhada com a novidade. Euzinha não amo nem odeio a banda (acho legal e paro aí); mas eu não sou cool, então meu sentimento sempre me pareceu condizente. Por fim, registro a coincidência de que, na minha futura playlist As Mais Tocadas em 2021, constará uma inesperada música do Joy Division (Atmosphere): [— Não precisa dar play, Enriquez.]


💀 E não é que Enriquez curte um vampirão?! Pera, pensando melhor, isso não deveria surpreender. Putz, me identifiquei um bocado; sobretudo se pensarmos nas imagens de vampiros caracterizadas por uma androginia angelical. No entanto, a predileção estética dela aparenta ser efeito colateral (em parte) de uma juventude passada ao lado dos livros da Anne Rice (suspeita minha a partir do que conversamos sobre a Rice; pois Enriquez não afirma isso explicitamente), enquanto o meu caso é consequência da Buffy (! - nessa altura do blog, vergonha pra quê, não é mesmo? Cada uma tem as referências que merece; so it goes.). Poxa, pior que nunca li Anne Rice. Talvez possa ser divertido ler enquanto vovó; pensarei nisso. [UPDATE: The Lost Boys!, Putz, não poderia deixar de registrar essa referência; meu esquecimento é imperdoável. Aliás, planejando rever, porém medo de dar ruim.]
"Enzo era la criatura más hermosa que yo había visto... para mi idea de belleza, que es turbia y pálida y elástica, oscura y azul, un poco moribunda, pero alegre, más atardecer que noche. (...) Estaba frío por debajo de la camisa fina. Frío y pálido. Como un vampiro, como uma estatua. Como el chico más lindo del mundo."

                                                                                                         — Mariana Enriquez 

A mãe da Enriquez, por sua vez, arranca nossa fantasia pela raiz, sem piedade: "esse moço tem cara de drogado." Vampiro/Drogado, Potato/Patato? É, talvez seja sutil de fato; é preciso estar esperta.

💀 Quando morrer, a autora deseja que suas cinzas sejam lançadas no Cemitério da Recoleta; especificamente, no túmulo de Mendoza Paz, fundador da Sociedade Protetora dos Animais.
"Es una aguda pirámide sin cruces ni ningún símbolo cristiano. 
Dice:《 aquí no hay nada. Solo polvo y huesos. Nada.》"

Esse epitáfio é maravilhoso. Nada; só pó e ossos. Acredito que acaba funcionando nestes termos: sigam em frente, necroturistas intelectuais®, pois não há nada pra ver aqui. [®: expressão registrada por Valeria Luiselli]


💀 Pra fechar, trago fotos de duas esculturas que vimos em Staglieno.

*O detalhe das mãos nesta Dança Macabra é fabuloso. A mão da morte repousando serena — em total domínio e controle — sobre o punho da mulher cuja mão se contorce em vão. O Diabo  A Morte está nos detalhes.



— Enriquez, já que falamos de música, bora ouvir a PJ? Não sei se vc curte e tals (é som de punk rocker??), mas essa bela Dança Macabra me deixou com vontade de ouvir The Dancer. Suspeito que conheça a letra, porém a colo neste post, para melhor embalar a dança do nosso macabro casal de Staglieno. 😉
He came riding fast like a phoenix out of fire flames
He came dressed in black with a cross bearing my name
He came bathed in light and splendor and glory
I can't believe what the lord has finally sent me

He said, "Dance for me, fanciulla gentile"
He said, "Laugh awhile, I can make your heart feel"
He said, "Fly with me, touch the face of the true god
And then cry with joy at the depth of my love"

'Cause I've prayed days, I've prayed nights
For the lord just to send me home some sign
I've looked long, I've looked far
To bring peace to my black and empty heart

💀 [Pergunta: será que quero transar num cemitério?]

25/11/2017

Alinhavando Leituras

Algumas de minhas últimas leituras dialogaram de modo tão próximo e instigante em certos pontos específicos, uma complementando e enriquecendo a outra, que escolhi alinhavá-las aqui para um breve registro.


                A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER  ⇿  RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL
 Svetlana Aleksiévitch                                    Ricardo Piglia

A ligação entre essas duas obras iniciou-se a partir da leitura do livro da Svetlana Aleksiévitch. À medida que eu lia o relato das soviéticas que atuaram diretamente na segunda guerra mundial, uma crescente exasperação me atormentava, pois eu sentia que aquelas palavras simplesmente não estavam dando conta de transmitir a realidade vivida pelas mulheres entrevistadas pela autora. O objeto narrado era tão grotesco e aterrorizante, que eu percebia que não estava conseguindo removê-lo do campo da abstração e trazê-lo para a concretude de um real tangível; por mais que eu acreditasse, claro, na veracidade daqueles fatos. Minha relação com o texto transformou-se apenas quando verbalizei, em voz alta, um dos episódios brutais da obra para uma amiga. No instante em que as palavras foram articuladas pela minha boca e que o som emitido atingiu meus próprios ouvidos, minha garganta começou a se estreitar em queimação e tive de conter uma onda súbita de lágrimas. Até então, a simples leitura silenciosa do texto não havia induzido semelhante reação. Ironicamente, dada a similaridade com a oportunidade de verbalização oferecida àquelas mulheres por Aleksiévitch, parece que a leitura oralizada potencializou o poder do texto. Foi, de fato, um fenômeno estranho, o qual não compreendi por completo naquela ocasião.

Meses depois, Respiração Artificial apresentou-me a um trecho que proporcionou certo alento e luz. Piglia, tratando da obra de Kafka, escreve o seguinte (*negritos meus):
“Sobre aquilo de que não se pode falar, o melhor é calar, dizia Wittgenstein. Como falar do indizível? Essa é a pergunta que a obra de Kafka tenta, repetidamente, responder. Ou melhor, disse, sua obra é a única que, de maneira refinada e sutil, atreve-se a falar do indizível, daquilo que não se pode nomear. Que diríamos hoje que é o indizível? O mundo de Auschwitz. Esse mundo está além da linguagem, é a fronteira onde se encontram as cercas da linguagem. Arame farpado: o equilibrista caminha, descalço, sozinho lá em cima, e procura ver se é possível dizer alguma coisa sobre o que está do outro lado.  
Falar do indizível é pôr em perigo a sobrevivência da linguagem como portadora da verdade do homem. Risco mortal.”  
No instante em que li isso, lembrei de pronto daquelas soviéticas e pensei: pronto; acho que o enigma foi solucionado. Aquelas mulheres, em parceria com Aleksiévitch, ousaram falar/escrever o indizível e, assim, me ensinaram uma lição que tornou-se mais clara mediante a ajuda de Piglia: a linguagem simplesmente não é onipotente. Aquele mundo da segunda guerra mundial, vivido por aquelas combatentes, está além da linguagem. E bom, pelo menos comigo, parece que a oralidade auxiliou a linguagem escrita a melhor executar a árdua tarefa que lhe fora atribuída. O final desse processo, inclusive, acabou por reforçar a importância de conceder àquelas mulheres a chance de verbalizar suas versões da História.
                                      THE LONELY CITY            ⇿                 ENTRE AMIGOS
                                           Olivia Laing                                               Amós Oz

Aqui, até que a questão não me causou tanta surpresa. Li inicialmente The Lonely City – The Adventures in the Art of Being Alone, livro em que Laing explora a relação de artistas com a solidão das grandes cidades – notadamente Nova York, para onde a própria autora havia se mudado e onde enfrentava momentos recorrentes de tremenda solidão -; associada à ironia e à aparente incoerência presente no fato de que, em meio a tantas pessoas, a solidão reine opressivamente.

Na leitura seguinte de Entre Amigos, por sua vez, a prosa delicada e sensível de Amós Oz deixou claro que a solidão não tem nada a ver com estar entre muitas ou poucas pessoas. A vida daqueles que habitam o pequeno kibutz retratado pelo autor israelense é marcada, indiscutivelmente, por uma intensa solidão. A proximidade física com o outro e o maior contato humano facilitado pelo grupo diminuto não garante remédio contra a solidão. Pesquisando posteriormente sobre o livro, encontrei esta fala de Oz que não deixou mais qualquer dúvida sobre minha percepção: 
“Em todo caso, mais do que revisitar o passado, me interessava investigar como uma comunidade criada para aproximar as pessoas colocava-as numa situação limite, diante da solidão, da falta de amor, enfrentando suas perdas. Uma comuna não é certamente um ambiente onde as pessoas vivam em busca de isolamento, mas é justamente a solidão a marca característica dos personagens de Entre Amigos."
É importante destacar que a própria Laing explora a temática de maneira excepcional, deixando claro, em diversos momentos de sua obra, como esse sentimento e a engrenagem social que o alimenta são complexos.
"Cities can be lonely places, and in admitting this we see that loneliness doesn't necessarily require physical solitude, but rather an absence or paucity of connection, closeness, kinship: an inability, for one reason or another, to find as much intimacy as is desired. (...) hardly any wonder, then, that it can reach its apotheosis in a crowd."

                                     THE LONELY CITY     ⇿       A MANUAL FOR CLEANING WOMEN 
     Olivia Laing                                            Lucia Berlin

Nesse ponto, me ative a um outro aspecto do livro de Laing que me admirou bastante: fui informada, implicitamente, que os artistas retratados pela autora também sentiram a necessidade de se expressarem através da escrita. Como encontrava-me na companhia preponderante de pintores e fotógrafos (Andy Warhol, Henry Darger, David Wojnarowicz...), supus que a arte visual que eles exploravam bastaria para que conseguissem exteriorizar tudo aquilo que os inquietava – muitos com passados conturbados e difíceis a serem trabalhados psicologicamente -, mas parece que isso não é a regra. Para muitos artistas (seriam muitos?), a necessidade da escrita, a princípio, acaba surgindo em algum momento. Essa assimilação foi peculiar, considerando-se que praticamente estabelece um contraponto interessante àquela capacidade da linguagem escrita que comentei na abertura desse post: ela até pode não ser onipotente, entretanto há coisas que, sim, só ela é capaz de expressar a contento.

Agora avançarei algumas semanas. Enquanto lia A Manual for Cleaning Women, descobri o quanto Lucia Berlin inspira-se em elementos autobiográficos ao escrever seus contos. Através de uma narrativa que muito remete à ideia de memórias das protagonistas, ela retrata vidas simples - ainda que conturbadas por drogas, alcoolismo, solidão (!!), câncer, morte etc. - que, talvez por isso mesmo, parecem bastante humanas. Pesquisando mais sobre a autora americana, acabei localizando uma entrevista no site Lit Hub (conduzida pelos seus próprios alunos universitários), na qual ela expôs algo que conectou-se admiravelmente com minhas elucubrações relacionadas àqueles artistas anteriormente mencionados:
(* cores e negritos meus:)
"(Writing) It’s a joy to do it. It’s a place to go. It definitely is a place where I am…where I feel my honest self is. When I first started to write, I was alone. My first husband had left me, I was homesick, my parents had disowned me because I had married so young and divorced. I just wrote to—to go home. It was like a place to be where I felt I was safe. And so I write to fix a reality. I just write to fix a time or an event in my own head. As I said in the class it isn’t for therapy, but more for clarity, emotional clarity. To let me see what I really feel about something, to make it sort of acceptable in my head. (…) I think Proust is quite right saying that only neurotic people write. [Laughter] You know? I think writers want to change their realities in some way. You want to show what’s lovable and beautiful and so you sift through your life and you can look at it one way, or you can look at it another. And writers, I think, are people who need to affirm, need an affirmation about their life. And to me, it’s a way to make things positive, not in a corny way, but to make beauty out of negative things or difficult times, or just to make sense."
Transformar a realidade através da escrita. Ok, talvez essa necessidade tenha atraído aqueles artistas do livro da Laing. Aliás, pouco tempo depois, na newsletter Um Lapso Sutil, Tatiane Dantas escreve um certo trecho sobre a escritora Maura Lopes Cansado que, em parte, também me pareceu conectar-se à fala da Berlin e, notadamente, com Henry Darger. Esse artista viveu boa parte da infância e adolescência em um asilo para crianças com retardo mental e, após a morte, foram descobertas milhares e milhares - literalmente - de páginas escritas com um texto que representa um incrível exercício imaginativo de reconstrução do real, o qual ele intitulou The Realms of the Unreal (!). 
Enfim, o que escreveu Dantas: (* grifos meus:)
"A percepção que tenho de Maura em Hospício é Deus é que a escrita teve uma função vital de atuar como um meio de codificar sua relação subjetiva com o mundo. A noção literária do que é estar em uma instituição se modifica quando uma mulher com um diagnóstico verbaliza sua própria situação e Maura percebia o funcionamento das relações de poder no hospital e tentava mudá-las a partir do seu discurso e atitude. (...) e usava a escrita para afirmar que os rótulos criados na literatura escrita por homens a respeito da mulher não falam sobre a real condição em que as escritoras se viam inseridas."           

      THE LONELY CITY          ⇿          A ÉPOCA DA INOCÊNCIA
     Olivia Laing                                         Edith Wharton

Estes dois foram lidos conjuntamente, e pular de um para o outro acabou rendendo uma situação bem engraçada. Em A Época da Inocência, eu encontrava a Nova York do final do século XIX completamente alvoroçada porque uma mulher casada havia largado o marido na Europa para “causar” no noivado alheio. Já em The Lonely City, a protagonista era a Nova York da década de 60-70 marcada 1. pelas festinhas VIP de Warhol no The Factory, onde artistas aprontavam ~altas confusões~, 2. por sessões pornô em diversos cinemas da Times Square, em cujas salas o público fazia tudo que possamos imaginar e 3. por verdadeiras surubas gays que rolavam nas docas do rio Hudson, regadas a muitas drogas. Impossível não se admirar com essa fenomenal evolução da sociedade de Nova York. Ainda mais se pensarmos que, nesse meu caso, o tempo correspondente a um século foi encurtado a uns míseros segundos necessários apenas para trocar de livro. A mágica da literatura!


                                     THE LONELY CITY          ⇿            WALK THROUGH WALLS
                                           Olivia Laing                                         Marina Abramovic

Retomando o olhar para a figura do artista, foi intrigante perceber que, aparentemente, muitos sentem-se como pessoas estranhas e diferentes, provenientes de outro planeta (algo que, inclusive, alimentaria a solidão). Seria um conceito que apelidei de "O Artista Alienígena". A propósito, alienígena é uma palavra boa, tendo em vista que remete bastante à "alienação"; palavra frequente no livro de Laing.

Separando trechos de The Lonely City sobre o tema:
"(Charles Lisanbry falando sobre Warhol:) "He told me he was from another planet. He said he didn't know how he got here." 

"
(dito por Wojnarowicz, trecho de Close to the Knives:) "I think part of what informs this book is the pain of having grown up for years and years believing I was from another  planet. We can all affect each other, by being open enough to make each other feel less alienated."
"Klaus Nomi, mutant chantant, who made an art of being an alien, like no one else on earth." 

"
(sobre Valerie Solanas:) Still shockingly violent now, the manifesto was so far in advance of its time politically as to be almost unreadably strange, written in an alien language, (...)"

Semanas depois, dei de cara com Abramovic compartilhando com seu leitor o que a shamã brasileira Denise lhe dissera:
"You know, you are not from this planet, your DNA is galactic. You came to Earth from a very faraway galaxy, for a purpose."  
She had my full attention. I asked her what my purpose was. She was silent for a while.
Then she said, “Your purpose is to help humans to transcend pain.”
Extraordinário!  (*pescou?)

      
    UMA SOLIDÃO RUIDOSA        ⇿       WALK THROUGH WALLS
         Bohumil Hrabal                                   Marina Abramovic

Esse diálogo foi inesperado e bastante instigante. Em suas memórias, Abramovic comenta a performance Delusional, que ela encenara em Frankfurt, 1994. Nessa peça de cinco atos, Abramovic usa um vestido preto e permanece deitada sobre uma cama de gelo no meio do palco. Espalhadas pelo chão, há inúmeras carcaças de ratos pretos de plástico; enquanto uma entrevista de sua mãe é reproduzida em um telão. Em dado instante, a artista dança energeticamente ao som de uma música folk Húngara. A seguir, um novo vídeo no telão: Abramovic, vestindo um avental de laboratório, discorre sobre ratos. Ela diz que Nova York possui 6-8 ratos/habitante, enquanto Belgrado conta com 25; acrescentando informações relacionadas à incrível capacidade reprodutiva do animal.

Abramovic explica ao leitor que Delusional tratava de todas as coisas das quais ela sentia vergonha: a infelicidade do relacionamento de seus pais, o sentimento de não ser amada, as agressões físicas que sofrera cometidas pela mãe, as brigas dos pais.

Anos depois, ela recorre mais uma vez aos ratos como um dos componentes da perfomance Balkan Baroque, pela qual ela recebe o prêmio de melhor artista na Bienal de Veneza de 1997. Enquanto ela permanece em meio a carcaças reais de animais mortos, ela surge em vídeo narrando a horripilante história do "Wolf Rat". É assim que ela explica, em suma, a essência da obra:
"Really you can only understand the Balkan mentality if you’re from there, or spend a lot of time there. To comprehend it intellectually is impossible—these turbulent emotions are volcanic, insane. There is always war somewhere on this planet, and I wanted to create a universal image that could stand for war anywhere. (...) Here you have the essence of Balkan Baroque: horrifying carnage and an intensely disturbing story, followed by a sexy dance—then a return to more bloody awfulness."
Pois qual não foi minha surpresa quando, semanas depois, encontro Bohumil Hrabal inserindo o protagonista de sua história em um porão repleto de ratos, onde trabalhava compactando papel usado de livros, para lamento da personagem. E a história de Uma Solidão Ruidosa trata, pelo menos em parte, do regime repressivo da Tchecoslováquia soviética. É fascinante que artistas de estilos tão diferentes como Abramovic e Hrabal, ambos provenientes de países do leste europeu que passaram por regimes autoritários comunistas, tenham pensado no rato como símbolo para tratar de suas experiências, e de maneira assim tão correlata. Trecho do livro de Hrabal:
“(...) e quando tudo estava em silêncio perfeito comecei a ouvir dentes de rato roendo, a ouvi-los destrinchando livros no meu céu, e seu som miúdo me horrorizava, porque era questão de tempo até fazerem um ninho, e poucos meses depois que os ratos fazem ninhos ele fundam um povoado, e seis meses depois formam vilas inteiras, isso se avoluma em progressão geométrica para compor uma cidade, uma cidade de ratos capazes de roer tábuas e vigas com tamanha habilidade que logo, logo (…) duas toneladas inteiras de livros inteiras desabassem na minha cabeça e descarregassem sua vingança em mim por todos os fardos em que compactei a rataria.”
Correto, depois desse livro de Hrabal, a expressão “rato de biblioteca” adquiriu uma nova significação pessoal.

No livro Dictionary of Symbols, J.C. Cirlot descreve isto a respeito do símbolo: "The rat occurs in association with infirmity and death. It was an evildoing deity of the plague in Egypt and China. The mouse, in mediaeval symbolism, is associated with the devil. A phallic implication has been superimposed upon it, but only in so far as it is dangerous or repugnant."

E, claro, ratos já ganharam destaque em outras obras literárias importantes: 1984 (Orwell), Maus (Spiegelman), A Peste (Camus), The Rats in the Walls (Lovecraft).


              AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO      ⇿       DISTÂNCIA DE RESGATE
      Mariana Enriquez                                    Samantha Schweblin


Essa conexão é bem fácil e imediata. Duas escritoras argentinas contemporâneas e extremamente talentosas recorrem a elementos de horror e terror para explorar temas que, originalmente, já são bastante aterrorizantes: violência urbana, ditadura argentina, desigualdade social, patriarcalismo e machismo, poluição ambiental etc. Dentre as duas, confesso predileção fácil por Enriquez, o que não significa dizer que seja necessariamente a melhor (muito menos a pior!) escritora, ressalto. Na prosa de Schweblin, incomodou-me principalmente o predomínio de um absoluto controle da técnica narrativa em uma prosa que, para além disso, não me ofereceu muito mais. 
                    

                       ZAMA                 ⇿             O DESERTO DOS TÁRTAROS
                                    Antonio Di Benedetto                                     Dino Buzzati

Aqui, deparei-me com o tema comum da espera. A dedicatória escolhida por Di Benedetto pode facilmente ser aplicada ao livro de Buzzati:

"Às vítimas da espera."

Aproveitarei, também, para incluir duas imagens – quase reflexas - das adaptações cinematográficas dessas duas obras:

     

A semelhança não é esplêndida? Os dois protagonistas, de pé, encaram o horizonte infinito e vazio como que esperando ansiosamente algo. Mas que diabos de espera é essa? Esperam o quê?  Estariam esperando Godot? Não seria uma resposta de todo equivocada. Se enrolo para responder, é porque esse “o quê” nem importa muito. Acredito que todos nós esperamos alguma coisa, um algo da vida. Como nos casos de Drogo e Zama, o objeto esperado varia de pessoa para pessoa, contudo sua essência costuma ser idêntica: esperamos aquilo que mais ansiamos na vida e que, em última instância, acreditamos que justificará nossa existência. Aquela qualquer coisa que, quanto mais inalcançável, mais desejada é. Daí a gente espera, espera e espera, até que a A Inevitável Espera, aquela objetivamente comum a todos, termina. E nem mesmo temos escolha: esperamos a morte com a certeza de que, esta sim, alcançaremos inevitavelmente. Os protagonistas das obras de Benedetto e Buzzati dão-se conta dessa espera exatamente quando ela termina. Acompanhemos a reflexão final de Drogo:
"Coragem, Drogo, esta é a última cartada, vá ao encontro da morte como um soldado, e que a sua existência errada pelo menos termine bem. Vingado finalmente da sorte, ninguém cantará seus louvores, ninguém o chamará de herói ou de qualquer coisa semelhante, mas justamente por isso vale a pena. Ultrapasse com pés firmes o limite da sombra, aprumado como num desfile, e sorria, se conseguir. No fim, sua consciência não está demasiado pesada, e Deus saberá perdoar."
Agora, a de Zuma:
"Perguntei-me, não por que vivia, mas por que havia vivido. Supus que pela espera e quis saber se ainda esperava alguma coisa. Pareceu-me que sim. 
Sempre se espera mais. 
No entanto, isto discernia meu entendimento; mas, com prescindência dele, estava entregue a uma inércia violenta, como se minha quota estivesse por esgotar-se, como se o mundo fosse ficar despovoado porque eu não ia mais estar nele."
*** 

E esses alinhavos terminam aqui. Aguardarei ansiosa o que as linhas dos próximos carretéis  alinhavarão pra mim.

13/08/2017

O Lugar sem Limites - José Donoso ( x Pabllo Vittar)

Se uma agente do futuro tivesse me dito "Daniela, logo mais você estará cantando, dançando e encantando-se com uma drag queen brasileira", não há dúvidas de que eu teria mandado um "haha, tá louca, amiga?".  É, e agora estaria quebrando a cara.

Como sou meio alienada desconectada da realidade, só conheci Pabllo Vittar recentemente, graças ao último clipe do Major Lazer feat. Anitta & Pabllo Vittar. Fiquei intrigada com a pessoa, daí fui lá pesquisar. Vídeo vai, vídeo vem e pronto; me apaixonei. Poderosa é pouco:


Então, dia desses estava Lip Syncing for my Life a música "K.O." (AMO) enquanto me montava pro open bar trabalho e acabei comentando, comigo mesma, que eu nunca havia lido um livro com personagem trans/travesti/drag queen*. Percebi que gostaria, sim, de mais diversidade de gênero nas obras que leio. Pois imagine meu susto quando ouvi atrás de mim um "cof, cof". Fui até à sala bancar o John Travolta Gif e, ao me virar pra estante, encontrei O Lugar sem Limites (OLSL) me encarando todo magoado por ter de ouvir aquilo depois de uns dois anos mofando naquela prateleira. "Poxa, minha protagonista é uma travesti, e você sabe disso!"  Ok; sua hora chegou.

(Ed. Cosac Naify)
Tradução: Heloisa Jahn
Capa (linda): Tatiana Blass - Tragédia/O cão cego, 2009.

Foi um prazer enorme reencontrar-me com o Donoso. Amei intensamente essa leitura, talvez até mais do que a do excepcional O Obsceno Pássaro da Noite (OOPN). De imediato, fiquei envergonhada pela predileção pessoal - OOPN seria tecnicamente superior? - , contudo assisti a um vídeo (link aqui) em que o próprio Donoso afirma considerar OLSL sua obra mais perfeita e completa, com menos erros. Aliás, ele diz até que OLSL nasceu a partir de oito linhas extraídas de OOPN; cujas premissas, na ocasião, ele ainda tentava desenvolver a seu contento. Assim, a consciência ficou leve para assumir que prefiro O Lugar sem Limites.

Estou achando difícil organizar minhas ideias, porque o conjunto de temáticas desse livro, de certa maneira, lembra aqueles tecidos holográficos, nos quais cada cor é melhor visualizada apenas mediante mudanças de posicionamento da imagem. A presença de uma protagonista travesti vivendo em uma pequena cidade tomada por homens brutos e machistas me pareceu, ao longo de toda a leitura, como só uma dentre várias questões exploradas pela história. Uma cor no meio de muitas. Ainda naquele vídeo anteriormente citado, Donoso revela uma característica de seu processo de escrita que possivelmente fundamenta bem minha sensação de um emaranhado de temas pedindo para serem desenleados. O autor refere (paráfrase + tradução livre:) que aprendeu a buscar a estrutura e o significado de suas obras mediante a própria escrita, o que significa dizer que, para Donoso, escrever é uma aventura existencial, na qual um tema desenvolvido o modifica enquanto pessoa. Bastou ouvir isso, para que eu compreendesse a razão de minha dificuldade para organizar as múltiplas temáticas que eu pressentia na leitura. Bem, pois tentarei adotar a técnica do autor, escrevendo aqui como uma espécie de fluxo terapêutico, e vejamos aonde chegarei. Instintivamente, ainda que pareça óbvio, me atrevo a dizer que o início do livro desponta como ideal ponto de partida. Donoso já começa O Lugar sem Limites com os dois pés na porta, usando este assombroso trecho de Doutor Fausto, escrito por Marlowe, como epígrafe:
"Fausto: Primeiro irei interrogá-lo sobre o inferno. Diga-me, onde é o lugar que os homens chamam de inferno? 
Mefistófeles: Debaixo do firmamento. 
Fausto: Está bem, mas onde? 
Mefistófeles: Nas entranhas desses elementos, onde somos torturados e ficamos para sempre: o inferno não tem limites, não se localiza num só lugar; porque o inferno é onde estamos, e onde for o inferno, lá estaremos para sempre... 
                                                                                              - Marlowe, Doutor Fausto.
Partindo desse argumento, deduziria que a fictícia localidade de El Olivo representa amplamente o próprio inferno, um lugar esquecido e em ruínas, sem eletrificação, sem cemitério, sem nada; prestes a ser engolido e a desaparecer, levando consigo todos seus habitantes. As sensações de tortura e de prisão perpétua que Marlowe associa ao inferno são as mesmas que devoram praticamente todas as personagens da obra de Donoso.
"(...) nenhuma esperança, que era melhor que tranquilidade, aqui na estação El Olivo, enquanto não passassem o arado por cima de todo o povoado. (...) As coisas que acabam dão paz e as coisas que não mudam começam a chegar ao fim. O terrível é a esperança."  
                                                                                                     - José Donoso, O Lugar sem Limites.
Em outro ponto daquele mesmo vídeo, Donoso acrescenta que, quando ele estava no Chile, sofria de uma espécie de bloqueio criativo, uma estagnação literária. O convite para participar de um congresso literário no México surge, naquela circunstância, como o evento que marca a saída definitiva do país. O Chile teria virado o Inferno de Donoso? O El Olivo do autor? A trama de OLSL espelha a realidade chilena na percepção de Donoso? Deixo a confabulação.

E quanto a Mefistófeles? Ele faz-se presente na história de OLSL? Pois não seria o próprio Don Alejo, ou melhor, Don Alejandro Cruz? É minha teoria. A maneira com que ele é descrito, uma figura poderosa e sedutora que "promete maravilhas" a todos, sem efetivamente cumprir nada, aponta  nessa direção. O político (e o que mais ele seria, correto?) que utiliza as pessoas como meios para seus objetivos. Ele lembrou-me imediatamente de outras duas notáveis personagens da literatura: Pedro Páramo, o todo-poderoso da Comala de Juan Rulfo; e o Juiz Holden, do livro Meridiano de Sangue, escrito por Cormac McCarthy — The Judge igualmente associado à imagem satânica.

A marcante presença dos quatro cachorros pretos, ensandecidos e raivosos, que salvaguardavam os domínios de Don Alejo me chamou muita atenção; e nem tinha como ser diferente. Intrigada, me enveredei numa breve pesquisa a respeito desses símbolos. No próprio Fausto, de Goethe (leitura que ainda lamentavelmente devo), descobri que Mefistófeles aparece, pela primeira vez, na forma de um cachorro preto que segue Fausto ao longo de um campo. A propósito, revendo a trama de Goethe, suponho agora que a Grande Japonesa poderia ser Fausto, enquanto Manuela seria Margarida. Estou devaneando aqui que talvez a tal aposta (= a velha cafetina conseguiria transar com o travesti?) reflete relativamente bem o pacto fáustico: a Japonesa (Fausto), ao aceitar a aposta, teria vendido sua alma a Don Alejo (Mefistófeles) em troca de tornar-se proprietária do prostíbulo e, nessa transação, deslumbra Manuela (Margarida) para acompanhá-la. Será?  *Nota: pre-ci-so ler Fausto o quanto antes.

Enfim, voltemos aos cachorros. Embora acredite já ter matado a charada maior, registrarei outros pequenos achados. O número quatro, claro, levou-me diretamente aos quatro cavaleiros do apocalipse. Visto que todos os cachorros são pretos, cor símbolo da escuridão e de planícies desertas (opa, mas não é a descrição de El Olivo?), é oportuno lembrar que o cavaleiro dessa respectiva cor representa a peste, a maldição. E considerando-se que são os bichinhos de estimação de um político que não cumpre nenhuma promessa de campanha, foi engraçado encontrar a informação de que o cavaleiro preto representa, para alguns estudiosos, também o colapso econômico e a fome. De fato, no fim das contas, Don Alejo parece ter levado apenas desgraça à população de El Olivo. E outras interessantes referências caninas na bíblia: “Cuidado com os cães, cuidado com os maus operários, cuidados com os falsos circuncidados!”(Filipenses 3,2) e “Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira”. (Apocalipse 22,15)

Além disso, descobri que o Black Dog faz parte do folclore britânico, estando associado ao Diabo e ao Inferno, com aparições noturnas que prenunciam a morte e, bom, aqueles bichinhos de OLSL eram mais ativos exatamente à noite. Ademais, o Black Dog frequentemente irrompe com tempestades elétricas, e a primeira aparição de Don Alejo com seus cachorros é acompanhada precisamente de uma baita chuva. Fascinante. Ah, e claro, na mitologia grega, encontramos Cerberus, o cachorro de três cabeças que guarda a entrada de Hades, o mundo subterrâneo dos mortos. Não estou falando? Os habitantes de El Olivo viviam no inferno e nem se davam conta. Pelo menos, não de forma consciente.

Mas e quanto à Manuela, batizada Manuel González Astica? Já lancei no post a hipótese de um paralelo com a Margarida do Goethe e, lendo a resenha escrita pela Camila von Holdefer no site Livros Abertos (link aqui), fui chamada atenção para o fato de que essa personagem vivia oprimida por outros infernos, prisões e tormentos: 1. os sentimentos sobre seu próprio corpo - "(...) sua filha que não sabia dançar mas que era jovem e mulher, e cuja esperança ao olhar-se no espelho quebrado não era uma mentira grotesca." - e, 2. nas palavras de Jorge Schwartz,  o arraigado machismo de uma sociedade forjada no pedestal do patriarcado, sem espaço para diversidade alguma. Inclusive, algumas passagens envolvendo Manuela remeteram-me diretamente a Pabllo Vittar. Durante uma das performances da chilena, uns brutamontes arremessam-na em um canal e urinam em cima dela; trecho que levou-me ao momento de um vídeo (link aqui) em que Vittar diz, com lágrimas nos olhos, que um garoto do ensino fundamental jogara um prato de sopa quente na cara dela, porque queria obrigá-la "a agir como um homem". Manuela, por sua vez, confessa não saber por que faziam isso e se pergunta se poderia ser por medo dela. Esse questionamento lançado por ela resgatou-me as reflexões proporcionados pelo livro The Vegetarian, da Han Kang; porém deixo pra depois o desenvolvimento desse pensamento.

Continuando naquela mesma entrevista, Vittar relata que "quando estou montada, sei lá, parece que baixa um negócio. Coloco a peruca, acabou: ninguém me tomba" e isso reverbera muito na experiência compartilhada por Manuela. A roupa vermelha, o boá de plumas e sua performática dança espanhola parecem simbolizar a peruca a que Vittar se referiu. Como bem disse Camila von Holdefer em sua resenha, "Para fugir da sua dor, dança. Põe seu vestido de cigana e foge, por uns instantes, do próprio inferno." 
"Mas na pista, com uma flor atrás da orelha, velha e tonta como estava, ela era mais mulher do que todas (...) encurvando o torso para trás e franzindo os lábios e sapateando com mais fúria, eles riam mais e a onda de riso a fazia elevar-se no ar, na direção das luzes."
                                                                                                                            - José Donoso, O Lugar sem Limites. 

Não teve jeito; isso me trouxe de volta um outro livro: Vida e Proezas de Aléxis Zorbás, do Nikos Kazantzákis, com sua proposta de dançar todos esses pensamentos desesperados. Aliás, acho que é por essa razão que me afeiçoei tanto a Pabllo Vittar. Ela surgiu em um momento melancólico e, com sua arte e simpatia contagiante - somadas a tudo que o sucesso dela representa -, me trouxe alegria. Ela mesma diz "que Drag é para levar felicidade, emoção, entretenimento" e acredito que é exatamente isso que ela fez e faz pra mim. Porém, considero importante não esquecer que, por trás da dança de Manuela, havia dor; e Pabllo deixa escapar algo parecido aqui: "Palhaço? Acho bafo, faz a gente rir. Mas  quando a gente é o palhaço, não é fácil, não. É barro."  

Em suma, penso que também aplica-se a Pabllo, de certo modo, aquilo que a Japonesa pensou sobre Manuela: "(...) tão fácil quanto era, naquele momento, amá-lo." É fácil gostar da Pabllo. É isso.

(P.S.: talvez eu tenha extrapolado a cota de vídeos vistos. Je ne regrette rien.)

Para arrematar a postagem, agradeço a Donoso pela magnífica experiência de leitura. (Fico devendo a adaptação cinematográfica. Foi pra fila.) E vamos lá com Pabllo, dançar os pensamentos desesperados. Fuja de El Olivo e venha com a gente, Manuela!



-----
Pois não é que uma passagem de OLSL me fez lembrar que, há pouquíssimo tempo, eu li, sim, uma obra com personagem travesti?! Enquanto Manuela penteava o cabelo de sua filha Japonesita, lembrei-me da maravilhosa personagem Lala, do conto O Menino Sujo, que faz parte da coletânea As Coisas que Perdemos no Fogo, escrita pela argentina Mariana Enriquez. Como pude me esquecer? Voilà:

Ed. Intrínseca
Tradução: José Geraldo Couto