Mostrando postagens com marcador nabokov. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nabokov. Mostrar todas as postagens

22/08/2021

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #06 - Emma Zunz

 (Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, disponibilizou resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre emma zunz: link 2

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

A primeira leitura de Emma Zunz me deixou no vácuo, causando-me a sensação de um ponto fora da curva borgiana (daquela que ora conheço; claro). Daí, optei por deixar o conto encostado, relendo-o vez ou outra, na esperança de que meu inconsciente o digerisse e me regurgitasse algo — ou, como habitualmente ocorre, na esperança de que eu esbarrasse numa obra que me ajudasse a melhor compreendê-lo. Hoje me dou conta de que um ano e meio já se passaram (!) e: nada. Ou quase nada. Não nego persistir um bocado encafifada com Emma Zunz, mas decidi que é hora de embarcar no esforço de organizar as ideias, sobretudo porque as recentes leituras/reflexões que fiz acerca de romances policiais (ajuda recebida de Georges Perec + Todorov) me sopraram que os paralelos que costurei, desde a primeira leitura, com outros dois romances é um ponto de partida bastante legítimo. 

Não sei se a ausência de romances policiais/thrillers entre minhas leituras justifica, mas é fato que não costumo me deparar com passagens literárias que descrevem personagens executando o plano de assassinato de outro ser humano. Possivelmente por isso — também não sei se justifica — certas imagens de Lolita e Ruído Branco, relativas exatamente a tais descrições, ficaram gravadas em minha memória, feito cicatriz. Logo, não me surpreendeu ser transportada de volta, pelas mãos de Emma Zunz, aos instantes nos quais Humbert assassina Clare Quilty e Jack (quase) assassina Mink. Dessa maneira, refleti em conjunto as experiências dessas três personagens e, a seguir, listarei algumas questões relevantes que pude identificar. [Disclaimer: faz muito tempo que li Lolita e Ruído Branco; portanto, ao apelar às minhas lembranças, é possível que eu incorra em imprecisões.]

(1) Os momentos preliminares, que prenunciam o bote
Chama atenção o quanto os autores investem na longa descrição — minuciosa, sem pressa; em flagrante oposição ao estado psíquico da/o assassina/o — daqueles instantes que antecedem o assassinato; resultando numa dramaticidade e suspense que, comicamente, me remetem à forma com que documentários sobre animais narram, sei lá, o leão se preparando para matar a zebra. Ora, o conto de Borges, sendo um tanto estrita, constrói-se apenas mediante tal artifício descritivo. Aliás, é muito provável que esse aspecto formal — do qual resultam imagens tão cinematográficas e vinculadas a sentimentos de intensa excitação — seja o efetivo responsável pela marcação das cenas de Lolita e Ruído Branco em minha memória de leitora. Além disso, é curioso que Nabokov tenha escolhido o período diurno para ambientar a preparação de Humbert, pois a noite, escolhida por Borges e DeLillo, aparenta ser um momento mais seguro para que o autor consiga provocar no leitor a almejada tensão/expectativa.

Outra noção marcante dessas descrições corresponde ao perfil dos caminhos por onde as personagens passam antes de proferir o golpe final; espécies de labirintos oníricos escondidos nos espaços urbanos. No livro Crime Fiction (The Cambridge Companion), Laura Marcus comenta que, segundo Chesterton (queridinho de Borges, por sinal), a ficção detetivesca é a poesia da cidade inscrita em hieróglifos urbanos; o que, na opinião de Marcus, abriria esse gênero na direção de duas ordens: aquela em que razão e lei prevalecem e, em oposição, aquela marcada pelo enigma e o fantástico. No conto de Borges, Emma Zunz serpenteia pelo porto [lembrei da segunda temporada de The Wire (HBO), ambientada no porto de Baltimore! coincidência? duvido], por bares e vielas; Jack (Ruído Branco) dirige por vias escuras, desérticas, locais que, dada a descrição de DeLillo, sequer lembram este mundo. Opa!, fisgarei essa deixa para lançar uma pergunta: o plano de assassinato exige que as personagens adentrem noutra realidade?? Ou mesmo que construam outra realidade na qual entrar? Suponho ser exatamente isso. O crítico Floyd Merrell explana bem o processo de construção da nova realidade, no qual incorre Emma Zunz (traduzo livremente):
"... Emma Zunz é bastante pragmática. Ela reconstrói sua realidade de modo que passe a atender a seus propósitos. Ela deseja vingar o pai, cuja morte decorreu largamente das ações exploradoras e repressoras do chefe. Então ela perde a virgindade para um marinheiro e, depois, atira no chefe do pai, contando à polícia que o morto a havia estuprado e que, portanto, ela meramente se defendeu. A realidade de Emma é dolorosamente real, (...) ela usa seu mundo da melhor forma que conhece, conformando-se a ele, ao mesmo tempo em que rebela-se contra suas injustiças, a fim de atingir seu objetivo."

                                            — Floyd Merrell; The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges 

É importante ressaltar que, conforme a leitura desse trecho crítico aponta, os assassinos são sujeitos ativos nesse processo de remodelação da realidade; quero dizer, são eles próprios quem deformam a realidade (ou: constroem a nova realidade), para que ela passe a se alinhar aos seus interesses prementes naquele instante específico — que, no caso dessas três personagens, relaciona-se ao ímpeto da vingança. E, como estamos falando de Borges, é óbvio que esta nova realidade pertence, igualmente, a um Tempo diverso: "Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes,...".

Acrescento que, ao folhear Ruído Branco antes de escrever este post (o li em 2019), reencontrei uma passagem que me fez reparar noutro aspecto peculiar: esses assassinatos ocorrem em espaços fechados; digo, Emma, Humbert e Jack entram (ou invadem, como queira) uma casa, a fim de cometer o planejado assassinato. Esse movimento de passagem, do aberto para o fechado, também me parece significativo para a hipótese de transição entre realidades distintas. Transcrevo o intrigante trecho de Ruído Branco ao qual me refiro:
"By coming in here, you agree to a certain behavior," Mink said.

"What behavior?"

"Room behavior. The point of rooms is that they're inside. No one should go into a room unless he understands this. People behave one way in rooms, another way in streets, parks and airports. To enter a room is to agree to a certain kind of behavior. It follows that this would be the kind of behavior that takes place in rooms.

                                                                         — Don DeLillo; White Noise (Ruído Branco) 

Ou seja, a narrativa de DeLillo, mediante essa fala de Mink, propõe que entrar num quarto, um espaço fechado, implica assumir um comportamento diferente daquele em espaços abertos. Então, ao penetrar nesses espaços, as personagens assassinas continuam a ser a mesma pessoa? Estaríamos falando, assim, de outra realidade E de outra identidade? Opa!, agarro essa segunda deixa para fixar o próximo item desta lista.

(2) "(...) quem sabe; já era a que seria." — Borges; Emma Zunz.
Quando Humbert confronta Quilty, ele se apresenta como o pai de Dolores, acusando-o de tê-la raptado e estuprado; em outras palavras, Quilty torna-se o único responsável pela desgraça que ocorrera na vida de Lolita. Humbert, naquele instante, deixa de ser Humbert; não tem mais culpa de coisa nenhuma, passando a ser apenas um papai que sofre e vinga a violência cometida contra a filha amada. Acredito que Humbert e Quilty se aproximam a um Duplo, porém com a notável ressalva de que é Humbert quem força esse Duplo ao se posicionar artificiosamente no polo oposto ao de Quilty, na tentativa de que deixem de corresponder a uma identidade em tudo equivalente. 

Minha leitura de Emma Zunz seguiu caminhos similares àqueles que percorri a partir da cena de Nabokov. Embora a narrativa de Borges não permita acessar o íntimo de Emma, teorizei, mediante os subsídios textuais fornecidos, que a notícia do falecimento do pai inundou a personagem de sentimentos de culpa: se Emma tivesse revelado a verdade acerca do crime pelo qual o pai fora injustamente acusado, será que ele teria se suicidado? Quer dizer, penso que a personagem entrou na paranoia de questionar se ela poderia ter evitado a morte do pai. Seguindo esse raciocínio, especulo que, para matar Loewenthal, Emma precisa projetar toda essa culpa nele — à semelhança do que fez Humbert. Inclusive, antes de efetivamente apertar o gatilho, ela já está convicta de que fora Lowenthal quem a estuprara, no entanto o leitor sabe que a decisão de transar com o marinheiro foi única e exclusivamente dela.

"Diante de Aaron Lowenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje por ela sofrido."

A assertiva destacada acima, ao mesmo tempo em que força a pergunta, lança a resposta óbvia: e como, com que recurso esses assassinos conseguem remodelar a realidade e a identidade; passando a experimentar um outro tempo? Elementar, meu caro Uátson: via relato, narrativa, ficção. [Vale lembrar que Humbert, "convenientemente", é um tonto das letras, não é?]
"Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação quase desacreditada por quem a executava, como recuperar aquele breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde?"
Eu sei, eu sei; ninguém aguenta mais esse papo de narrativa, mas suspeito de que o fastio geral é mera decorrência da plena ciência de estarmos diante de um fato incontornável da vida humana (e inumana até). O crítico Roberto González Echevarría discute diretamente a confluência entre crime e narrativa, na obra de Borges (traduzo livremente): "Tanto no crime quanto na ficção há um esforço para esconder os mecanismos da mentira que, com todas suas conotações morais, funciona como o incentivo. Emma executa o que acredita ser um crime perfeito, do mesmo modo que um escritor busca escrever uma história perfeita." (The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges)

Persistindo nessa reflexão, esta frase do conto borgiano me atrai em particular:

'...e o singular alívio de estar afinal naquele dia. Já não tinha de tramar e imaginar, dali a algumas horas chegaria à simplicidade dos fatos."
Quer dizer, esse processo de elaboração, via narrativa, de uma outra realidade e identidade é exasperante, não é algo que ocorre facilmente, sem dor alguma. — Escritores que o digam, imagino. — A propósito, o momento do assassinato faz com que o leitor compartilhe com a personagem assassina do mesmo alívio: a vítima morreu, encerrou o suspense e tensão, o fim da história chegou e, assim, ninguém precisa sofrer acompanhando/elaborando uma narrativa. Entretanto a cena de Ruído Branco subverte, até certo ponto, precisamente isso e, na verdade, é o que mais me marcou. Explico: disparados os tiros, ao ver o corpo ensanguentado à sua frente, Jack parece ser lançado para fora da realidade e identidade que construíra a fim de conseguir matar Mink. Em outras palavras, os disparos não trazem a Jack o alívio, mas sim o desespero de perceber que acabara de atirar contra um ser humano que, em consequência, morreria rapidamente, caso ele não fizesse algo para ajudar. Essa súbita mudança de chave no comportamento de Jack me surpreendeu bastante. 

Na sequência, cabe colar o trecho final de Emma Zunz:
"Com efeito, a história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios."
Considerando-se o estereótipo do judeu religioso e avarento ao qual recorre Borges no conto*, talvez parecerá provocação minha trazer Amós Oz para esta conversa, no entanto não é (acho). Em Os Judeus e as Palavras, Amós e Fania, ao comentar a eterna discussão acerca da veracidade do que está escrito nos textos bíblicos, escrevem algo de tocante perspicácia, que dialoga demais com o parágrafo final de Emma Zunz, transcrito acima:
"Mas os autores existiram, e sua linguagem existiu. Quem inspirou essas histórias? De onde vieram os heróis e heroínas, os enredos e fábulas, os diálogos e expressões? Da vida real, foi daí que vieram. De linhas de textos.
Um arqueólogo poderá se preocupar com o fato de os relatos bíblicos serem mera "ficção", mas nós viemos de um lugar diferente. "Ficção" não nos assusta. Como leitores, sabemos que ela transmite verdades."
 
                         — Amós Oz, Fania Oz-Salzberger; Os Judeus e as Palavras (Tradução: George Schlesinger)

Ou seja, toda ficção se sustenta numa verdade.
 
* [ADENDO] A caracterização de Loewenthal me intrigou e incomodou e, de fato, não consegui atinar por que Borges fez essa escolha narrativa. Questiono se esse artifício inadvertidamente (?) denuncia o antissemitismo disseminado, uma vez que me parece restar subentendido que o fato de Loewenthal ser um judeu avarento, quem sabe até criminoso, funciona como elemento que, para muitos (lamentável e infelizmente), torna a história verossímil, real. Sei lá, foi o máximo que consegui concatenar a respeito disso.

Pronto; encerro minhas groselhas aqui. Hora de dar play no vídeo da Aimée.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Opa, esse meu diálogo com Aimée ficou interessante, pois acabamos seguindo caminhos um tanto diferentes, ainda que tenhamos tocado em pontos comuns: em meus comentários, persegui muito mais os aspectos formais, numa reflexão a partir de romances policiais — em paralelo com outros dois romances—; enquanto Aimée destacou sobretudo os fundamentos psicanalíticos de Emma Zunz. Confesso que, embora seja impossível deixar de franzir a testa durante a leitura do trecho "Pensou (não pôde não pensar) que seu pai fizera com sua mãe a coisa horrível que agora lhe faziam.", esse lado psicanalítico e a sexualidade aparentemente mal resolvida de Emma Zunz não me instigaram durante (ou após) a leitura. Quer dizer, justamente num conto "de personagem", conforme disse Aimée, eu persisti focando nos elementos da engrenagem ficcional. ¯\_(ツ)_/¯

Elenco, a seguir, algumas novas reflexões proporcionadas pelo vídeo da Aimée:

⇰ Todo esse papo psicanalítico me fez perceber que deixei de mencionar outra conexão evidente entre Emma Zunz, Humbert e Jack: essas três personagens não apenas executam planos de vingança, como também se vingam de violências de natureza sexual. A distinção evidente é que, no caso de Emma, ela assume, simultaneamente, os papéis de "vítima" (questionável, eu sei) e vingadora — os outros dois vingam uma mulher (o caso de Humbert, então, nem se fala: na real, pensando nesses termos, o tonto deveria ter atirado nele mesmo);

⇰ Aimée questiona os motivos que fizeram Zunz submeter o próprio corpo àquela violência, e acredito que meus prévios comentários trataram disso: porque foi o artifício encontrado para cometer o crime perfeito, para montar a genial narrativa que evitaria sua prisão pelo assassinato de Loewenthal. Considerando-se os elementos textuais relacionados à sexualidade da personagem, não surpreende que esse tenha sido o caminho vislumbrado — conforme escreveu o crítico Floyd Merrell naquela passagem que transcrevi: "ela usa seu mundo da melhor forma que conhece."  No mais, quando Aimée comentou que teve a impressão de que Emma não julgava que a honra do pai seria motivo suficiente para matar Loewenthal, sendo necessário criar um outro; fui catapultada para o que eu escrevi em meus comentários sobre a peça Othello, de Shakespeare! É que, naquele post, escrevi justamente que, sob uma perspectiva moral, Iago parecia se sentir desconfortável por fazer tudo aquilo contra Othello motivado apenas por suas ambições, de modo que ele inventa (e força-se a nela crer) a história esfarrapada de que sua mulher o havia traído com Othello. Legal; amei essa conexão.

⇰ E eu que, inadvertidamente, mergulhei na aparente paranoia de Emma, pois nunca duvidei do suicídio do pai dela? Ai, jizuiz... Veja, "tomar por engano uma forte dose de Veronal" (veronal  = sedativo barbitúrico) não é uma descrição que sustenta bem a versão de morte acidental. (rimou!) O mais provável, diante dessa informação, é que ou o pai dela foi assassinado (um boa noite, Cinderela fatal) ou se suicidou. Contudo, reconheço que complica demais quando o narrador nos diz que "Emma leu..."; digo, entre o que ela leu e o que efetivamente estava escrito pode haver uma grande diferença realmente. No entanto, pensando com mais cuidado agora, a descrição da carta fala um bocado a favor de que o pai dela foi assassinado, hein. Se duvidar, é o próprio assassino quem redigiu a carta. EITA!


Curti essa experiência de leitura compartilhada; achei que ficou bastante rica. Mais uma vez, valeu, Aimée.