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06/12/2020

Othello, The Moor of Venice - Shakespeare

Estava de boas revendo Buffy (pretendo incluir um breve post sobre a experiência de rever a série, tantos anos depois), quando a querida slayer me aparece mandando altas análises sobre Othello (ok; ela estava trapaceando, mas quem liga?), e simplesmente boiei, pois nunca li/vi a peça. Inaceitável, é o que tenho a dizer. Portanto, voltemos ao Bardo, para remediar essa palhaçada. Repetirei a forma de registro que usei com Romeu e Julieta, na qual anoto minhas impressões, à medida que a leitura progride. Bora!

ATO I

CENA I

➽ Mal comecei, isto é dito a respeito de Othello: (↣ "the thick-lips" = "o beiçudo"):

you'll have your daughter cover'd with a Barbary
horse; you have your nephews neigh to you

E pensar que cheguei a aventar a possibilidade de que uma tal abordagem do racismo nessa peça resultasse de interpretação contemporânea forçada.


➽ Duas falas despontam como chaves potenciais de um hipotético tema central (destacarei em vermelho os trechos que considero chave):

Iago: "I am not what I am"* 

Brabantio: "Fathers, from hence trust not your daughters' minds
                    By what you see them act.-

Viajaremos pelas veredas do 'quem vê cara, não vê coração', aparentemente. Entendi - acho.

* = Que fala incrível, por sinal. Deixe-me refletir por um instante. > Se não sou o que sou, o que ~diabos~ sou? Sou o que o outro queira que eu seja? Sou o que for mais vantajoso em determinada circunstância? Ou: não sou; ponto final? (...) E se Deus diz "Eu sou o que sou", enquanto Iago diz "Eu não sou o que sou", posso concluir, pela oposição estabelecida, que Iago é o Diabo?! EITA!


CENA II
➽ They draw their swords  >> Minha parte favorita sempre; YAY!


➽ Damned as thou art, thou hast enchanted her!
For I’ll refer me to all things of sense,
If she in chains of magic were not bound,
Whether a maid so tender, fair, and happy,
So opposite to marriage that she shunned
The wealthy curlèd darlings of our nation,

O pai de Desdemona acusa Othello de feitiçaria, pois se a filha se apaixona pelo negro, só pode ter sido obra de vudu, macumba, magia negra... - o velho (mais velho do que eu supunha, pelo visto) preconceito religioso? Será? Anacrônico? 

Entretanto há uma informação interessante aqui: Desdemona, até então, não queria saber de casamento e já tinha esnobado um punhado de pretendentes, dentre eles o Roderigo. Estou curiosa para saber mais dessa Desdemona, sobretudo porque, por enquanto, a construção da personagem se faz apenas mediante a fala dos homens, digo, os homens falam por ela. 


➽ OTHELLO
But that I love the gentle Desdemona,
I would not my unhousèd free condition
Put into circumscription and confine
For the sea’s worth.

Othello relaciona casamento à perda de liberdade, fixando-o como a prova cabal do amor > quem ama está disposto a abrir mão da liberdade, portanto disposto a se casar. Não boto fé nisso, Othello.


CENA III
➽ Fui surpreendida, pois o Bardo traz o tal quem vê cara, não vê coração até para o contexto da tática de guerra! Dá para julgar as intenções do inimigo, a partir de suas movimentações aparentes? Ora, ora.


➽ BRABANTIO
My daughter! Oh, my daughter!
ALL
Dead?

É pior do que ter morrido, pessoal: a filha se casou com um negro. Quer dizer, acho que é esse o problema para Brabantio.


➽ I do beseech you,
Send for the lady to the Sagittary
And let her speak of me before her father.
 
É o que eu acabei de escrever: a mulher não fala? Boa, Othello.


➽ Opa, então Othello realmente enfeitiçou Desdemona; mas não com poções mágicas, e sim com histórias, com narrativas! , Desdemona é a mulher que se apaixona pelo contador de histórias. Shakespeare bancando o Gary Stu, veja só. Isso me trouxe à memória o lindo filme Asas do Desejo, do Wim Wenders: "Tell me of the men, women, and children who will look for me - me, their storyteller, their bard, their choirmaster - because they need me more than anything in the world. We have embarked.

She wished she had not heard it, yet she wished
That heaven had made her such a man.

Por outro lado, parece que Desdemona tem um pouco de Dorothea Brooks (Middlemarch - que saudades de você, Dodo!) - digo, seria o contrário, já que Desdemona chegou primeiro, né? Enfim; na impossibilidade de viver grandes aventuras, visto que são mulheres, elas as vivem através das histórias vividas e contadas pelo homem com quem se casam.

She loved me for the dangers I had passed,
And I loved her that she did pity them.
This only is the witchcraft I have used.


➽ Hoje, a gente diz "Pimenta no cu dos outros é refresco", mas no século XVII a galera dizia
"He bears the sentence well that nothing bears
But the free comfort which from thence he hears." 

And I think it's beautiful. 


➽ O duque tá praticamente falando: "PQP; os turcos tão aí batendo na porta, seus putos; eu caguei para onde essa mulher vai ficar." haha Perdão; é que, para uma tonta feito eu, o subtexto das peças do Shakespeare é a melhor parte.


➽ Duke: If virtue no delighted beauty lack,
                Your son-in-law is far more fair than black.

Quem diria que é possível elogiar uma pessoa e, no processo, bancar o racista, hein? Não há limites para a proeza humana.


➽ BRABANTIO
Look to her, Moor, if thou hast eyes to see.
She has deceived her father, and may thee.

Em "bom português": - Tu fica esperto, Otão, qui'ssaí é duas cara, mêrmão. Pô, será que eu não poderia ganhar uma grana adaptando as peças do Shakespeare para o português moderno, o português vivo, suingado? Nah, outro tonto deve ter chegado antes de mim, certeza. 


➽ IAGO: 
Tis in ourselves that we are thus or thus. Our bodies are our gardens, to the which our wills are gardeners. (...) the power and corrigible authority of this lies in our wills. If the balance of our lives had not one scale of reason to poise another of sensuality, the blood and baseness of our natures would conduct us to most prepost'rous conclusions. But we have reason to cool our raging motions, our carnal stings, our unbitted lusts.

Outra fala crucial, na continuidade do discurso acerca de identidade, de quem somos e como agimos. Nessa peça, parece-me que Shakespeare refutará a ideia de uma natureza humana que escapa de nosso controle, a fim de afirmar que somos responsáveis por nossos próprios atos, sentimentos; responsáveis por quem somos e como agimos. Até onde eu me lembre (posso estar errada), a narrativa de King Lear defendia o contrário, digo, defendia (até certo ponto) que há uma natureza soberana que nos governaria para além de nosso controle. Mas talvez esse seja o pulo do gato, nessa fala de Iago: ele é um fdp que age como um fdp; essa é a natureza dele. Bom, acompanhemos o desenrolar dessa treta.

ATO II

CENA I

➽ IAGO
Come on, come on. You are pictures out of door, bells in your parlors, wild-cats in your kitchens, saints in your injuries, devils being offended, players in your housewifery, and housewives in your beds.

E segue o barco de que as mulheres, no que se refere a tipos duas caras, são a pior raça. Não é legal que isso seja dito justamente por Iago? Não dá pra ficar mais óbvio que isso.


➽ Interessante ver que, para seguir em frente com seu ~plano maquiavélico~, Iago inventa (e força-se a acreditar) a fantasia de que sua esposa o traiu com Othello e Cassio - um motivo mais honrado, digamos, que ele concede a si mesmo. Quem sabe exista uma fagulha moral dentro dele, ainda que seja menor que uma semente de morango. Por ora, pelo menos, é a leitura que faço dessa peculiar informação.


CENA III
➽ CASSIO
O thou invisible spirit of wine, if thou hast no name to be known by, let us call thee devil! God, that men should put an enemy in their mouths to steal aay their brains!

Cassio se lasca por causa de álcool, a grande arma secreta do vilãozão Iago. Francamente, pessoal. Bem que eu escrevi no blog, dia desses, que esse negócio de álcool não tá com nada.


 CASSIO

Reputation, reputation, reputation! Oh, I have lost my reputation! I have lost the immortal part of myself, and what remains is bestial. My reputation, Iago, my reputation!

A recorrência desse papo da reputação é marcante. Desconfortável pensar que o bem mais valioso para essas pessoas correspondia a algo tão etéreo e subjetivo.


➽ IAGO
How am I then a villain
To counsel Cassio to this parallel course,
Directly to his good? Divinity of hell!


Iago, acho que a sua pergunta é pertinente. Afinal, quem é o vilão dessa história? Há um vilão? A impressão que tenho é que as personagens se deixarão trair por suas próprias fraquezas, de modo que Iago é apenas a perspicaz figura que as identifica e as usa a seu favor. Isso faz dele o único vilão? E quanto à responsabilidade das demais personagens? 


ATO III

CENA III
➽ IAGO:
Oh, beware, my lord, of jealousy!
It is the green-eyed monster which doth mock
The meat it feeds on.

Tá vendo? O Iago bem que deu uma chance pro Othello, mas nãããão, Othello tinha que insistir. 


➽ OTHELLO
   I’ll know thy thoughts.
IAGO
You cannot, if my heart were in your hand,
Nor shall not, whilst ’tis in my custody


Pronto, esse é o problema. Quem vê cara não vê coração, todo mundo sabe, mas o que fazer, já que não é possível enxergar o coração de ninguém? Ora, mal conseguimos enxergar nossos próprios corações, imagine o do outro. Não adianta, a cara é a mísera orientação com a qual podemos contar. (Será que a origem da expressão tem alguma relação com essa peça???) 

E começo a pensar que Othello cada vez mais se complica na história. Poxa, o que as ações de Desdemona sugerem até aquele ponto? A mulher abandonou pai e pátria para ficar com ele, e ainda assim ele acreditará que ela o trai com Cassio? 


Look to your wife, observe her well with Cassio.
Wear your eyes thus, not jealous nor secure.


O lance é como enxergar as ações, ou seja, é preciso sabedoria e maturidade para interpretá-las com a menor margem de erro possível, teorizo. Por exemplo, eu acabei de escrever que o que Desdemona fez para ficar com Othello a favoreceria aos olhos do esposo, enquanto Iago usa esse mesmíssimo argumento para envenená-lo. No fim das contas, é tudo narrativa, e cada um escolhe a que melhor lhe convém. Eeeeeeepa, acho que comecei a captar O grande tema dessa peça.


➽ Oh, curse of marriage
That we can call these delicate creatures ours
And not their appetites!

Poxa, é bem chato que o casamento não seja uma transação comercial, né? Você pagou, mas não levou, Othello.


➽ I had rather be a toad
And live upon the vapor of a dungeon
Than keep a corner in the thing I love
For others' uses. Yet ’tis the plague to great ones,
Prerogatived are they less than the base.
'Tis destiny unshunnable, like death.
Even then this forkèd plague is fated to us
When we do quicken. Look where she comes.

Othello has 99 problems, but low self-steem ain't one. De onde ele tirou esse tal destino dos grandes? Sei lá, acho que chifre não respeita envergadura.


➽ OTHELLO
I have a pain upon my forehead, here.

E esse é o grande escritor que desvendou toda a natureza humana em sua obra. Gênio, sem dúvida alguma.


➽ The Moor already changes with my poison.
Dangerous conceits are in their natures poisons
Which at the first are scarce found to distaste,
But with a little act upon the blood
Burn like the mines of sulfur.

Acho que rola aqui outro jogo de opostos. Desdemona se apaixona por causa das narrativas de Othello que, por sua vez, enlouquece de ciúme por causa das narrativas de Iago. A peça retrata o quanto histórias são capazes de despertar as paixões humanas, para o bem ou para o mal; assevera que as narrativas são o motor da vida humana. >> Ok, fecharei a conta: narrativa/história é o tema central da peça; ciúme é só a superfície. A peça é meta, confere?


CENA IV
➽ EMILIA
Is he not jealous?
DESDEMONA
Who, he? I think the sun where he was born
Drew all such humors from him.

Isso que dá se apaixonar por um contador de histórias, Desdemona. Suspeito de que você confundiu autor X narrativa. Não pode, mulher.


➽ DESDEMONA
Alas the day! I never gave him cause
EMILIA
But jealous souls will not be answered so.
They are not ever jealous for the cause,
But jealous for they’re jealous. It is a monster
Begot upon itself, born on itself.

Intrigante tese. De um jeito ou de outro, o ciumento bola para si uma historinha convincente para justificar o ciúme. Pode ser, vai saber?

ATO IV

CENA I
➽ OTHELLO
It is not words that shake me thus.
IAGO
Work on, My medicine, work!

Ah, sim, outra importante extensão do tema das narrativas. A palavra é o ingrediente maior das poções narrativas que nos enfeitiçam e despertam sentimentos avassaladores. Ficção é o que move as paixões humanas; vivemos no transe da ficção construída por meio das palavras. Estou me repetindo, porém é que, quanto antes a gente se dá conta disso, melhor.


➽ Bicho, o Othello convulsionou de ciúme!! LITERALMENTE. Imagina isso no palco?! 

Pessoalmente, é tudo muito estranho; digo, eu não tenho familiaridade alguma com ciúmes; de verdade. A partir dos elementos dessa peça, cheguei à hipótese de que talvez o ciúme seja um sentimento comum às pessoas que dependem demais da frágil convicção de que elas próprias são incríveis ou, nas palavras de Othello, de que são The Great Ones. É provável que a traição do amado/da amada seja interpretada pelo ego como o indício de que não existe em si uma grandeza inigualável e insubstituível. E como poderia o ego com delírios de superioridade continuar vivendo assim? Só lhe restaria eliminar esse um/uma que arranhou a ilusão de grandeza; ou eliminar a si mesmo. Será esse o destino de Othello? 


➽ OTHELLO
(striking her) Devil!

Caramba, ele bateu na Desdemona. Quero mais é que se lasque, agora. Esse paspalho vai matá-la, é?! 


➽ LODOVICO
Is this the noble Moor whom our full senate
Call all in all sufficient?
Is this the nature
Whom passion could not shake? Whose solid virtue
The shot of accident nor dart of chance
Could neither graze nor pierce?

Outra narrativa colocada à prova, a partir de uma nova circunstância. Quem seria Othello? O que se narrava a respeito dele não bate com os novos fatos, portanto como voltar a defini-lo? Simples: uma nova história é necessária. Isso sinaliza que até nossa identidade não passa de mera construção narrativa. É tudo uma ilusão, essa merda. 😁


➽ IAGO
He’s that he is.

Novo paralelo com a frase inicial de Iago, dita a respeito de Othello. Acredito que Buffy possa usá-la para sustentar sua leitura de que Iago é a versão má de Othello; o duplo Othello-Iago. Particularmente, não curto essa teoria, nem acho que faça tanto sentido. Quer dizer, é possível que faça mais sentido se focarmos naqueles termos borgianos do herói x traidor, pois persisto questionando o papel de um suposto vilão nessa peça. Como nos contos de Borges, a narrativa de Shakespeare deixa claro (acho) que as figuras do herói e do vilão são obras do acaso, de determinada fugaz circunstância; nada é fixo.


CENA II
➽ OTHELLO
  Why, what art thou?
DESDEMONA
Am I that name, Iago?
Such as she says my lord did say I was.

É; a questão da identidade segue forte. Essa sequência é boa, pois aborda aquelas situações em que nós mesmos ficamos confusos a respeito de quem somos, por conta das múltiplas narrativas que se criam a nosso respeito. 

E chama muita atenção o peso que se dá à injúria de chamar uma mulher de puta. Por várias falas, restou demonstrada a grande valoração da reputação que, no caso da mulher, depende de como ela conduz sua sexualidade.


CENA III
➽ EMILIA
Let husbands know
Their wives have sense like them.

No discurso de Emilia, até o conceito de certo X errado aparece como uma questão de perspectiva, narrativa, ponto de vista, contexto; como queira. Estamos sempre correndo atrás de conceitos absolutos que simplesmente não existem.

ATO V

CENA I
➽ Agora que atinei para registrar o seguinte: como é tonto esse recurso narrativo do vilão que conversa consigo mesmo; espécie de fala através da qual o autor explica ao espectador o que está acontecendo. Tenho a sensação de que torna o "vilão" menos aterrorizante. Novamente me pergunto como fazem isso no palco. O ator fica falando de frente para o público? Rola uma quebra parcial de parede? Terei de arrumar uma montagem, pra ver depois.


➽ Se a gente ganhasse £1,00 a cada vez que a palavra strumpet/whore é dita nessa peça, hein?


➽ O plano do Iago está tomando rumos tão intricados, que falarei a verdade: não sei se estou sacando tudo que tá rolando, não. O cara quer matar todo mundo; é isso? É o que dá, se meter com o capiroto.


➽ OTHELLO
Yet she must die, else she’ll betray more men.

Esse maluco tá de sacanagem comigo, não é possível um troço desse. Ele matará mesmo a Desdemona... Gente...

And mak’st me call what I intend to do
A murder, which I thought a sacrifice!

As mulheres têm uma carga pesada de culpa para expiar, a depender da narrativa masculina da vida. 


➽ IAGO
I told him what I thought, and told no more
Than what he found himself was apt and true.

Ele tá mentindo? Tá mentindo?! Eu acho que não. Reitero: possivelmente há um duplo Othello-Iago, contudo os papéis que as duas personagens assumem são bem embaçados. 


➽ Duplo feminicídio... Caraca. Se Othello e Iago não se matarem e partirem juntos pro inferno, será o fim de nossa relação, Shakespeare.


➽ When you shall these unlucky deeds relate,
Speak of me as I am. Nothing extenuate,
Nor set down aught in malice. Then must you speak
Of one that loved not wisely, but too well

Stabs himself

Ok, Shakespeare, aceito esse final. / Pelo visto, minha teoria sobre os ciumentos se encaixou super bem na peça; ou quase, dado que uma só morte não foi suficiente para apaziguar o ego de Othello.


➽ Myself will straight aboard, and to the state
This heavy act with heavy heart relate.


Que beleza! Então, o que a personagem fará no desfecho da peça? Ela partirá para contar toooooda aquela historinha para seus pares. Não disse que o grande tema dessa peça são histórias, narrativas? Lodovico assumirá o papel do contador de histórias e a narrativa continuará, ou seja, a vida prosseguirá.

01/11/2016

Romeu e Julieta - Shakespeare



Frederic Lord Leighton. The Reconciliation of the Montagues and Capulets over the Dead Bodies of Romeo and Juliet, 1853-55

Enquanto matutava a respeito do que registraria em postagem sobre dado livro (possivelmente aparecerá no blog), percebi que seria difícil me esquivar de compará-lo à peça Romeu e Julieta. No entanto me ocorreu esta complicação: "err, tipo assim, se eu nunca efetivamente li Romeu e Julieta, como saber até que ponto esta obra dialoga com a famosa peça?" Enfim, essa lengalenga propõe-se apenas a contextualizar a decisão de finalmente ler a bendita peça e, assim, me excluir do grupo dos ardilosos que adoram comparar qualquer romance do tipo "Ele (lado Y) e Ela (lado X)" a esta obra do Shakespeare, baseando-se exclusivamente nas adaptações para tv ou cinema. A política deste blog é ser impostora, sim, mas com limites, por favor. É prudente praticar a charlatanice com certa parcimônia.

Embora tenha quase certeza de que ainda me surpreenderei com essa história (mesmo porque não lembro dos pormenores), sei que, em linhas gerais, ela é célebre demais. Por conta disso, minha abordagem para este post será esta: do lado de cá, leio; aqui, registro brevíssimas bobagens "em tempo real". Um live posting, digamos. Ou seja, acredito que este post não servirá nem mesmo como entretenimento próprio durante sábados tediosos. ¯\_(ツ)_/¯

Leitura: (1)  texto em inglês (original e moderno) disponibilizado pelo site "No Fear Shakespeare" (link: X)  + (2) tradução para português feita por Barbara Heliodora - Edição Saraiva de Bolso.

ATO I 
CENA I

 "A pair of star-crossed lovers take their life,"
Ah, então o prólogo já entrega que os pombinhos se suicidam no final; uma espécie de sacrifício para a paz entre as famílias? Interessante. Segue a tradição grega, até onde eu saiba.

Se bem que a Heliodora não traduziu dessa maneira. Ela mandou: "Nasce, com má estrela, um par de amantes,". O texto moderno em inglês (site No Fear Shakespeare) assim refere: "become lovers and commit suicide". Bom, enfim.

[R♥J]

SAMPSON
"(...) women, being the weaker 
vessels, are ever thrust to the wall. Therefore I will 
push Montague’s men from the wall, and thrust this 
maids to the wall." 

Ih, olha aí, o machismo do século XVI já começou. Nessa peça foi rápido.

[RJ]

SAMPSON
'Tis all one. I will show myself a tyrant. When I have fought with the men, I will be civil with the maids. I will cut off their heads.
GREGORY
The heads of the maids? (As cabeças das donzelas?)
SAMPSON
Ay, the heads of the maids, or their maidenheads.
Take it in what sense thou wilt. (Cabeças ou cabaços, dê o sentido que quiser.)


Pronto, primeiro trocadilho de teor sexual também apareceu precocemente.

[RJ] 

Nossa, mas essa cena inicial de briga é um show de babaquice masculina, não? E suponho que os Capuletos ganham nesse quesito, pois parecem ser os mais enfezadinhos pra começar a confusão. As pobres Ladies, por sua vez, aparentam ser as únicas vozes da razão. (...) Ah, espera, o Príncipe de Verona demonstra ser ajuizado. Belo discurso.

[RJ]
BENVOLIO
A troubled mind drove me to walk abroadSo early walking did I see your son. 

Consigo entender o Benvólio e o Romeu. A mente perturbada é, em parte, o que me leva a correr.  

[RJ] 

Xi, parece que o Romeu faz o tipo vampiro gótico deprimido. Que dó, gente.
MONTAGUE
Many a morning hath he there been seen,
With tears augmenting the fresh morning’s dew,
Adding to clouds more clouds with his deep sighs.
But all so soon as the all-cheering sun
Should in the farthest east begin to draw
The shady curtains from Aurora’s bed,
Away from light steals home my heavy son,


Imagens reais de Romeu:

       

Pior ainda: o caso do Romeu é de amor não correspondido. Esse tipo de trama e de personagem costumam ser meio chatos, vamos acompanhar.

"Pior ainda" número 2: Romeu is such a drama queen!
Tut, I have lost myself. I am not here.
This is not Romeo. He’s some other where.
(Revirando os olhos... Haja paciência, hein, meu querido?) 

Ah, mas ele até que parece ser bom de  discurso. Sobre a briga prévia entre as duas famílias, ele manifesta-se assim:
Não me conte; essa história eu já conheço:
Trata muito de ódio, e mais de amor
Então, amor odiento, ódio amoroso,
Oh qualquer coisa que nasceu do nada!

Esse Romeu vai me dar trabalho... Acho que já me apaixonei? É, vamos acompanhar.

ATO I
CENA II

Certo, então Benvólio, obstinado a salvar o primo Romeu da deprê amorosa, convence-o a bancarem os penetras na festinha dos Capuleto, já que a amada dele - Rosalina - estará lá, assim como outras mocinhas que poderão interessá-lo. Pera, volta lá: ele está apaixonado por Julieta Rosalina?! Eita, vamos acompanhar como esse imbróglio se desenrolará.

A pobre Julieta, por sua vez, com apenas 14 anos de idade, estará também na festa sob os olhares cobiçosos de um tal Páris. Muito bem.
[RJ] 

Obs.: juntando esta às outras poucas peças que já li dele, Shakespeare parece que curte tirar sarro de gente iletrada, não é? Como é que o Sr. Capuleto entrega uma carta para um servo (Peter) que não sabe ler? Quanta maldade. Hoje, acho que isso seria considerado politicamente incorreto, sei não.

Obs. 2: a peça se ampara muito na simbologia recorrente das estrelas, sim? Logicamente, eu sabia que o "The Fault in our Stars" nunca foi invenção daquele tal escritor nerd mala. O nerd mala, aliás, copiou o Bardo na hora de intitular seu livrinho - peça Julius Caesar ("The Fault, Dear Brutus, Is Not In Our Stars"). O que descubro aqui é que Shakespeare usa esse elemento por mais de uma vez em sua obra completa. Acompanhemos como as estrelas continuarão surgindo em Romeu e Julieta.

CAPULET
At my poor house look to behold this night
Earth-treading stars that make dark heaven light.


(...) (Ah, é, acabo de me lembrar de uma cena e fala do filme (o do Baz Luhrmann) envolvendo estrelas, mas que ainda não apareceu exatamente na peça.)
Léo está tão bem nessa cena, concorda? 

ATO I
CENA III

Segundo trocadilho sexual:
NURSE
“Yea,” quoth he, “Dost thou fall upon thy face?
Thou wilt fall backward when thou hast more wit, (“Fall backward” = have sex.)

Então, enquanto criança, a mina cai com a cara no chão, porém, quando for mocinha, ela só vai querer saber de ~cair para trás~. Que coisa, Bardo.
[RJ]

Shakespeare tem a manha de fazer piada até com a morte de uma criança de apenas 02 anos (filha da ama dos Capuleto). A menina cai, o pai pergunta "cai assim de cara?" e a mulher só tem tempo de dizer "É" e: "morreu"! Que feio, Bardo! (adoro.) Bom, se até a mãe riu...

[RJ] 

É curiosa a diferença de comportamento entre os pais de Julieta sobre a perspectiva de casá-la quando ela tem apenas 14 anos. O pai acha precoce; a mãe, que passou da hora. Intrigante.

Repara no papinho da Sra. Capuleto e Ama pra cima da Julieta:
Sra. Capuleto
Ao tê-lo, você não se diminui
Ama
Aumenta, que a mulher cresce com o homem.

Não estraguem a menina desse jeito, senhoras.

ATO I
CENA IV

A festa dos Capuleto já começou e... Ah, que lástima, o Romeu não é pé de valsa! Perdeu pontos comigo. E, interessante*, Shakespeare lança mão de sonhos (Romeu é o sonhador) como prenúncio da grande tragédia. Mercutio se arrependerá de ter duvidado de Romeu.

(* = é que, em Guerra e Paz (li este ano), encontrei sonhos serem recorrentemente utilizados por Tolstói como simbologia.)

[R♥J]

E falando em presságio, as estrelas novamente voltam na espécie de premonição do Romeu:
I fear too early, for my mind misgives
Some consequence yet hanging in the stars
Shall bitterly begin his fearful date
With this night’s revels, and expire the term
Of a despisèd life closed in my breast
By some vile forfeit of untimely death.

A peça trabalha com aqueles famigerados conceitos "~They were doomed from the start / It was written in the Stars~". Estava escrito nas estrelas (e desde o prólogo da peça).

ATO I 
CENA V

ROMEO
Did my heart love till now? Forswear it, sight!
For I ne'er saw true beauty till this night.

E com esses famosos versos, BAM!, o Sr. Romeu, que até então desejava morrer em nome de seu amor não correspondido por Rosalina, apaixona-se por Julieta imediatamente ao avistá-la.
(...)
Calma lá. O Teobaldo sabe que Romeu (mascarado) é um Montéquio só pela voz?! Isso é um ódio que quase confunde-se com amor, então. E também é interessante perceber que Shakespeare associa aos mais jovens o sentimento de intensa intolerância mútua, visto que são eles quem têm dificuldade de abandonar o rancor entre as famílias. O Sr. Capuleto e o Sr. Montéquio demonstram ser mais transigentes, concedendo discursos sensatos. Inclusive, o Sr. Capuleto mandou o abusado do Teobaldo ficar pianinho, já que Romeu estava quieto na dele durante a festa. Bem curioso.

[RJ] 

Mas que rapidez! Depois de uma conversa fiada envolvendo "santa, mãozinha, passar pecado para o outro", Romeu e Julieta já se beijaram!

E só depois do beijo,
ele descobre que ela é uma Capuleto:
Is she a Capulet?
O dear account! My life is my foe’s debt.

e ela descobre que ele é um Montéquio:
NURSE
His name is Romeo, and a Montague,
The only son of your great enemy.

JULIET
(aside) My only love sprung from my only hate!
Too early seen unknown, and known too late! 
Prodigious birth of love it is to me,
That I must love a loathèd enemy.


(Ai, que dó!)

A palavra "inimigo", contudo, é muito dramática e exagerada, especialmente se comparada aos discursos apaziguadores dos chefes das respectivas famílias, aparentemente bem dispostos a um acordo de paz. A peça parece tratar notadamente da urgência e intensidade dos sentimentos da juventude - amam e odeiam no volume máximo. Para eles, tudo vira tragédia muito facilmente. Prossigamos para testar tal hipótese.

ATO II
CENAS I a VI
(Condensando; caso contrário, não termino isso nunca mais.)

[CENA I] Terceira piadinha com trocadilho sexual: 
MERCUTIO
If love be blind, love cannot hit the mark.
Now will he sit under a medlar tree
And wish his mistress were that kind of fruit
As maids call medlars when they laugh alone.—
O Romeo, that she were! Oh, that she were
An open arse, and thou a poperin pear.

("Medlar tree = The medlar is a tree whose fruit was considered to look like a vulva or an anus. The fruits were often called "open arses". Mercutio uses the name in an obscene double entrendre.")

[R♥J]

[CENA II] O famoso verso "Rose is a rose is a rose is a rose", da Gertrude Stein, teria essa peça como inspiração?
JULIET
What’s in a name? That which we call a rose
By any other word would smell as sweet.

Aliás, essa fala da Julieta é muito fascinante. O que é um nome? Como é possível que sejamos reduzidos apenas a um nome? Definidos por completo por um nome apenas? Como conceber que o destino desses dois adolescentes esteja estabelecido antes mesmo de seus nascimentos, simplesmente por conta do nome de suas respectivas famílias? O conto "funes, o memorioso", do Borges, traz algo correlato: (...) lhe custava compreender que o símbolo genérico "cachorro" abrangesse tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; (...)". Um nome, somente, não é capaz de responder à pergunta "Quem sou eu?", correto? Conforme diz, em seguida, Romeu:

ROMEO
                             By a name
I know not how to tell thee who I am.



[R♥J]

Humm... É igualmente notável o uso recorrente, além das citadas estrelas, da simbologia representada pela oposição "Luz x Escuridão", "Dia x Noite". Possivelmente relaciona-se à luz do amor dos jovens prestes a ser ofuscada pela escuridão da horrível tragédia. Amor e Ódio; Vida e Morte.

(*Complemento posterior*:) Terminada a leitura da peça, li a introdução escrita por Bárbara Heliodora, na qual a autora ressalta que os significados atribuídos a esses opostos não são fixos ao longo da obra. É uma complexidade fantástica. Assim escreve Heliodora: "Mas é tudo muito complexo, porque os grandes momentos de felicidade (o encontro, a cena do balcão, a despedida) vêm da noite - e, naturalmente, a iluminam, enquanto os conflitos, mortes e o banimento dão-se de dia. O sol claro parece ser a luz do ódio, não do amor." 

[R♥J]

[CENA II] XI, já naquela época, muitos pivetes não queriam saber de estudar:
ROMEO
A thousand times the worse to want thy light.
Love goes toward love as schoolboys from their books,
But love from love, toward school with heavy looks.


[R♥J]

[CENA III] O diálogo entre Romeu e o Frei Lawrence é uma das coisas mais divertidas que já li do Bardo.
FRIAR LAWRENCE
Holy Saint Francis, what a change is here!
Is Rosaline, whom thou didst love so dear,
So soon forsaken? Young men’s love then lies
Not truly in their hearts, but in their eyes.
Jesu Maria, what a deal of brine
Hath washed thy sallow cheeks for Rosaline!
(...)
Women may fall when there’s no strength in men.
(→ Gostei desse Frei.)

- A fila anda rápido para os jovens, seu Padre. Rosalina? Que Rosalina? Foi totalmente esquecida após uma única pernoite. (Suspeitando de que o Padre teve de ouvir muita ladainha chata do Romeu por causa da Rosalina.)

- Crianças, escutem o Padre, que ele manja das coisas:
ROMEU
Vamos logo: eu estou louco de pressa.
FREI
Muita calma. Quem corre só tropeça.

- Uma dúvida: essa pernoitada fora de casa do Romeu permite que se subentenda que ele e Julieta transaram? Estou (ingenua e) genuinamente na dúvida. Acho que não, confere?

[R♥J]

[CENA III] Há piadinhas e trocadilhos de teor sexual voando para todos os lados durante o papo entre Mercutio e Romeu. A galera - Mercutio principalmente - só pensa em sexo. Vou parar de contar, ok? Mas voltando ao Mercutio: ele também é um palerminha que faz piada escrota com mulher (a pobre Ama, especificamente). Estamos de olho.

E o Romeu tem umas sacadas rápidas muito boas, mesmo. Ele tem um papo legal, quando não está se lamuriando pelos cantos por conta da Rosalina. Ah, os bons espíritos que só um amor correspondido pode fornecer.
[R♥J]

[CENAS V e VI] Na fala de Julieta (sobre a Ama que demorava a voltar), temos um resumo apropriado sobre minha hipótese mencionada para o tema maior dessa peça - a urgência dos sentimentos da juventude:
JULIETA
Had she affections and warm youthful blood,
She would be as swift in motion as a ball.
My words would bandy her to my sweet love,
And his to me.
But old folks, many feign as they were dead,
Unwieldy, slow, heavy, and pale as lead.


Já na cena VI, o Frei complementa com versos excelentes (falando para Romeu) essa noção de que, quando os sentimentos são muito intensos (amor ou ódio), tornam-se violentos e perigosos. Aliás, o primeiro verso até apareceu na nova série da HBO - Westworld (com sentido ligeiramente alterado...).
FRIAR LAWRENCE
These violent delights have violent ends
And in their triumph die, like fire and powder,
Which, as they kiss, consume. The sweetest honey
Is loathsome in his own deliciousness
And in the taste confounds the appetite.
Therefore love moderately. Long love doth so.
Too swift arrives as tardy as too slow.

E eles já se casaram! Caramba, acho que não me lembrava mesmo de nada dessa peça.

ATO III
CENAS I a V

[CENA I] Homens falando merda... Mimimi... Homens lutando feito idiotas - Mercutio x Tybalt... E, depois que Romeu se mete para apartar a briga, Mercutio morre* (não sem antes rogar mais praga para as duas famílias - "A plague o' both your houses!"). Mimimi... Mais luta besta - Romeu x Tybalt... E Tybalt morre*, enquanto Romeu foge, sendo condenado ao exílio pelo Príncipe.

(* = Verdade; e não é que ninguém tinha morrido ainda?! Espantoso!)

E outro agouro de (mais) tragédia:
ROMEO
This day’s black fate on more days doth depend.
This but begins the woe others must end.

[R♥J]

[CENA III] Romeu esconde-se na alcova do Frei, chateado porque foi banido de Verona, onde vive sua amada, digo, esposa.
NURSE
O holy Friar, O, tell me, holy Friar,
Where is my lady’s lord? Where’s Romeo?

FRIAR LAWRENCE
There on the ground, with his own tears made drunk.

Thy tears are womanish.


[CENA IV] Ué, não entendi nada. De repente (pra mim, pelo menos), o Sr. Capuleto decide, em uma segunda-feira, que Julieta casará com Páris naquela próxima quinta-feira? Em três dias?! Os adultos estão afobados do mesmo modo. E, na cena V, o pai ainda é super grosso e autoritário com a filha. Que horror! E que mudança em relação ao primeiro ato.

[CENA V] Ah, agoooora, sim, Romeu e Julieta (casados) transaram.

ATO IV
CENAS I a V


[CENA I] E os primeiros passos para a grande tragédia se iniciam. O Frei entrega para Julieta o falso veneno que simulará sua morte por 48 horas. Na execução ideal desse plano, Romeu, exilado em Mântua, deveria ser avisado do projeto, a fim de resgatá-la do túmulo. Ok.

[CENA III] Interessante descobrir que, minutos antes de executar sua parte do plano, Julieta hesita em executá-lo. Bom saber que a moça ainda demonstra-se capaz de racionalizar tudo aquilo que estava prestes a fazer, dando-se conta da complexidade do plano estrambólico que o Frei, com boas intenções*, viu-se obrigado a arquitetar. Ela contempla, de antemão, todas as possibilidades de insucesso. Esse comportamento enriquece a caracterização da personagem e é bem mais verossímil do que a alternativa de um ato completamente cego e intempestivo. E, de certa maneira, acaba representando mais uma premonição de que aquilo tudo não terminaria bem (de que aquilo terminaria with a violent end). O plano do Frei é tão complicado, que seu fracasso era mesmo praticamente certo.

* = Aliás, as boas intenções do Frei começaram a tragédia desde o momento em que ele decidira casar Romeu e Julieta com a ideia de forçar a paz entre as duas famílias de Verona. Acaba sendo um outro tema a ser discutido pela peça, suponho: "de boas intenções, o inferno está cheio". Nem sempre "boas intenções" são suficientes para fundamentar a tomada de uma decisão na vida.

[R♥J]

Esse Frei é um tremendo personagem. Ciente de tudo, ele consegue ter sangue frio para manter seu papel no plano e simultaneamente criticar o Sr. Capuleto que, agora (depois de toda a truculência para obrigar a filha a casar-se), chora a "morte" de Julieta.
FRIAR LAWRENCE
The most you sought was her promotion,
For ’twas your heaven she should be advanced.
And weep ye now, seeing she is advanced
Above the clouds, as high as heaven itself?
Oh, in this love, you love your child so ill
That you run mad, seeing that she is well.

ATO V
CENAS I a III

[CENA I] Novamente os sonhos premonitórios de Romeu:
I dreamt my lady came and found me dead—
Strange dream, that gives a dead man leave to think—
And breathed such life with kisses in my lips
That I revived and was an emperor.
Ah me! How sweet is love itself possessed
When but love’s shadows are so rich in joy!

E o jovem manda mais um excelente discurso; dessa vez, sobre dinheiro (no momento em que paga o Boticário pelo veneno):
There is thy gold, worse poison to men’s souls,
Doing more murder in this loathsome world,
Than these poor compounds that thou mayst not sell.
I sell thee poison. Thou hast sold me none.

[R♥J]

[CENA III] Romeu está na tumba da "defunta", prestes a suicidar-se, e o Bardo ainda dá jeito de colocar o Páris lá, naquele momento, para que os dois lutem. Impressionante. Shakespeare parece gostar da poesia irônica propiciada por lutas que ocorrem no meio dos mortos, tendo em vista que isso também ocorre em Hamlet.
(...)
Caramba, e não é que menino Páris morre?! Passada.

(...)

ROMEO
Here’s to my love! (drinks the poison) O true apothecary,
Thy drugs are quick. Thus with a kiss I die.
                                                                       Romeo dies.

[R♥J]

No meio de tanta tristeza, ainda sobra espaço para um pouco de humor durante a fala de Baltasar (respondendo ao Frei que chegava tarde), o qual descumpria as ordens de ir embora, dadas por Romeu. 

BALTHASAR
As I did sleep under this yew tree here,
I dreamt my master and another fought,
And that my master slew him. 
[R♥J]

Nossa, mas disso eu não me lembrava de jeito nenhum. Então o Frei está presente quando Julieta acorda e, depois de dar-lhe as más notícias, promete levá-la para um convento para se tornar freira?! Como assim?! E o tonto ainda sai, deixando a coitada sozinha para, ora, também suicidar-se com o punhal de Romeu - aqui, sem nenhuma hesitação, aliás. Quanta lambança!! Acredito que o pobre Frei vai gastar uma boa grana com terapia depois de tudo isso.

E as maneiras com que os amantes suicidam-se não deixam de ser intrigantes. Venenos costumam ser reservados para personagens femininas, enquanto a extrema violência de um auto-apunhalamento é mais comumente destinada às figuras masculinas. Realmente peculiar. Gostei e, de novo, penso que reforça muito a intensa determinação do sentimento e personalidade de Julieta.

[R♥J]

PRINCE
A glooming peace this morning with it brings.
The sun, for sorrow, will not show his head.
Go hence, to have more talk of these sad things.
Some shall be pardoned, and some punishèd.
For never was a story of more woe
Than this of Juliet and her Romeo.

                                                                Exeunt
[R♥J]

Adorei demais essa peça e, claro, estou louca para embarcar na nostalgia de rever a adaptação do Luhrmann.

Vamos terminar com a baladinha meio piegas, mas bonitinha, do Dire Straits? Play!