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08/05/2019

[Alinhavando] where ART thou, my LOVE?

E não é que se passaram meses desde a última vez que dei as caras neste meu pequeno canto do mundo?!  Surpreendentemente, o motivo não é o regresso à viela hello darkness, my old friend. Não; para além de um começo de ano com leituras meio nhé, a verdadeira culpada pelo meu desleixo com este caro espaço é uma paleta de aquarela. Eu já vinha brincando, na maciota, com uma paleta chinesa mequetrefe e uns lápis aquareláveis; daí decidi finalmente investir em papel adequado para a técnica e numa aquarela de qualidade superior. Imagine meu assombro, quando descobri que é possível pintar durante horas, embalada por musiquinhas melodiosas, e não.pensar.em.nada.(.imprestável). Suspeito de que é o mais próximo que chegarei da meditação. Tomando emprestadas, novamente, as palavras do autor português Herberto Helder, afirmo que a pintura tem sido meu "Estilo = aquilo que evita que eu enlouqueça quando a melancolia do mundo sobe do sangue". Enfim, o resultado é que, após a chegada da nova paletinha, eu só quis saber de maratonar tutoriais no You Tube e de arriscar pinceladas toscas.

Perambulando pela internet, esbarrei com este trecho de uma das adoráveis cartas escritas por Van Gogh ao irmão Théo:
Fonte: http://vangoghletters.org
Calma, não alinhavei a passagem aqui porque estou me achando a própria encarnação de Van Gogh. Imagine a audácia. Na real, a paletinha que adquiri até pertence, de fato, à chamada linha "van Gogh" (o que ele pensaria disso?), da marca Royal Talens, mas as analogias com o formidável artista esbarram aí. Trouxe-o para o alinhavo porque, embora eu não seja artista, consegui me reconhecer nas palavras de Van Gogh. Como ele, admito a impossibilidade de falar "já sei; encontrei a resposta" e entrego meu coração à busca. A diferença, decerto, é que sirvo-me do auxílio de artistas, isso sim, durante a procura. No entanto, mais comumente eles só me acrescentam novas perguntas, novas caçadas. Paciência.  Apesar de todas essas ressalvas, digo que é curiosa, por exemplo, a mudança ocorrida em meu olhar desde que comecei a me aventurar com a aquarela. Percebo-me mais atenta ao que me rodeia: cores, luzes, sombras, formas, texturas, pessoas! > cabelos, narizes, olhares, tons de pele, posturas, feições, roupas... É, talvez tenha sido outra vantagem de brincar de artista: descortinei uma realidade singular e, com alguma sorte, me aproximei da almejada resposta.

Atravessando uma nova fase de obsessão pelo Adam Driver (larga d'eu, hômi!), revi o filme Paterson, o qual se aconchega bem no presente emaranhado de devaneios, visto que a obra de Jarmusch examina a presença da arte em nossas vidas. O motorista de ônibus poeta/O poeta motorista de ônibus constantemente procura poesia naquilo que o cerca, a tal ponto que seu olhar sensível tem o (super) poder de revelar a poesia escondida em uma singela caixa de fósforos:


Err, é, há controvérsias quanto à qualidade dos poemas do Paterson, porém quem disse que tenho ~envergadura artística~ para julgá-lo? Euzinha, enquanto aquarelista, sou um excelente projeto de blogueira desprestigiada, portanto: ¯\_(ツ)_/¯. Além do mais, aqueles poemas não extrapolam as fronteiras do caderno do poeta, permanecendo na intimidade da personagem. Trata-se de um diálogo que Paterson estabelece consigo, não havendo desejo ou necessidade da participação de outras pessoas, do aval de terceiros. Nesse sentido, identifico, no filme de Jarmusch, o generoso empurrão para que o espectador acorde o olhar de artista que hiberna dentro de si, independente de algum grande talento. Aliás, outro motivo para fazê-lo refere-se ao espantoso efeito que um despertar desse tipo supostamente provoca. Sim, pois, a julgar pela postura tranquilex do Paterson, me parece que, através da poesia, ele dissipou todas as angústias e ansiedades provocadas por incertezas, criando o espaço para uma serenidade que melhor se harmoniza com a vida (na minha opinião etc®) e com a criação artística (um ciclo que se retroalimenta). 

Ed Alfa-Omega; 86
Tradução: Paulo Dal-Ri Peres
Com certa surpresa, encontrei no livro de um autor do Quirguistão (oh, yeah), Tchinguiz Aitmátov, uma narrativa que estabelece alguns paralelos com o filme de Jarmusch, os quais corroboram minha leitura inicial de Paterson e trazem novas chaves. Nesse livro publicado em 1958, fui apresentada a Daniiar, um combatente da segunda guerra que regressa ao aíl (vila em Quiguiz) após ter sido dispensado por conta de uma sequela na perna que o incapacita para o front. Daniiar é descrito como alguém de modo tranquilo e reservado que não fede, nem cheira; um homem estranho que se mantém à parte. - Mas se não é o próprio Paterson?! - O personagem narrador confidencia ao leitor que, ao ouvir Danniar cantar lindamente durante uma viagem noturna a cavalo pela exuberante paisagem de Kurkureú, ele pôde afinal compreendê-lo: 

"O que me surpreendeu mais foi a paixão e o ardor de que a própria melodia estava saturada. (...) não posso definir com exatidão se era a voz ou algo mais importante que saía da própria alma do homem, algo capaz de despertar no outro a mesma emoção e capaz de animar os pensamentos mais secretos. (...)  Está aí o verdadeiro Daniiar! (...) e subitamente compreendi suas estranhezas, (..) introspecção, o gosto pela solidão, seus silêncios. (...) Era um homem profundamente apaixonado. E estava apaixonado, percebi, não simplesmente por outra pessoa; era um amor de outro tipo, um amor imenso pela vida, pela terra. Sim, ele escondia esse amor no seu íntimo, em sua música, vivia em função dele." 
- Tchinguiz Aitmátov; Djamiliá (tradutor: Paulo Dal-Ri Peres) 

Daniiar e Paterson, dois homens inodoros que depositam na música e no poema, respectivamente, o intenso amor que nutrem pela vida. Gostei. Ah, e em concordância com aquela mensagem que identifiquei no filme de Jarmusch, o narrador personagem do livro de Aitmátov sente, na forma do canto de Daniiar, o empurrão vigoroso para que ele também expresse seus pensamentos mais secretos através da arte - no caso, a pintura:
"Ouvindo Daniiar, eu queria lançar-me à terra. (...) Senti, nessa ocasião, pela primeira vez, que despertava em mim alguma coisa de novo, algo para o qual não tinha ainda palavras, mas que era irresistível, uma compulsão para expressar a mim mesmo, sim, expressão, não somente ver e sentir o mundo por mim mesmo, (...) Eu ainda não compreendia, nessa ocasião, que precisaria pintar."
- Tchinguiz Aitmátov; Djamiliá (tradutor: Paulo Dal-Ri Peres)

➽ Um poeta, um músico e um pintor entram em um bar. 
Pergunta: qu'est-ce que c'est? 
Resposta: um alinhavo no bloguinho Correndo entre Livros.



Comecei o alinhavo bancando a metidona que fala de arte como se manjasse de alguma coisa (spoiler: não manjo p* nenhuma), então dane-se; descerei a um círculo mais profundo do constrangimento. Apertem os cintos; a noção sumiu.

Resgato, para o ponto seguinte da costura, o "Look, she made a hat!", sétimo episódio da segunda temporada da série The Marvelous Mrs. Maisel, exibida pela Prime Video/Amazon, pois, além de ser o melhor da série (na minha opinião etc®), ainda explora o tema que interessa: ARTE.


Sou péssima para resumir histórias, porém me esforçarei. Bem, no episódio, o namorado de Midge é um colecionador de obras de arte que a leva para o vernissage do badalado pintor Solomon Crespi. Enquanto o namorado está todo pimpão com as aquisições carérrimas que abocanhou (tendo passado a perna em outros colegas colecionadores, a alegria é ainda maior), Midge permanece inabalada não só pelas obras abstratas de Crespi, como pelo climinha de afetação do ambiente. Circulando ao léu, a comediante cai na toca do coelho: em um puxadinho nos fundos da galeria, obras desprezadas pela rodinha de entendedores fisgam seu olhar. ↷

"I walked in that sad little room, in the back, the one nobody seemed to care about, and everywhere I looked there was color and life. Something the front room was a little short of."


E no país das maravilhas, uma rainha degola a cabeça de Midge:

"And then, suddenly, she caught my eye."

Encantada, nossa Alice leva pra casa, pela bagatela de 25 doletas, o quadro mágico. De brinde, ganha um chapéu de crochê. 

Saindo do evento, os dois vão para um pub novaiorquino famoso pela clientela de artistas e, por sorte, lá encontram o pintor Declan Howell, "o artista desconhecido mais famoso do mundo" que se nega a vender seus quadros. Midge se empolga com o mini stand up comedy performado no bar pelo bêbado pintor e toma coragem para abordá-lo e se apresentar. Quando Howell vê o quadro que Midge segura embaixo do braço e, enternecido, descobre que, em plena exibição do Crespi, era aquilo que ela decidira comprar, ele os convida para conhecer seu ateliê. No dia seguinte, durante a visita marcada, Howell mostra a Midge algo que ele nunca havia mostrado para ninguém: sua obra-prima máxima, o quadro cuja perfeição tornou inútil, para Pollock (!), prosseguir pintando.

Agora é o momento da reviravolta embaraçosa deste alinhavo. Ocorre que, ao rever o episódio, percebi que eu havia cometido um erro grosseiro de interpretação. Na primeira vez, julguei que o quadro adquirido por Midge no vernissage era uma obra do Howell, quando, na verdade, era de "uma tal" Agnes Reynolds. Mas, mas eu já havia criado toda uma fanfic romântica cuja premissa dependia daquela autoria! Como assim, Amy Sherman-Palladino?! No meu romance imaginário, ~a arte, representada pelo quadro do puxadinho, é o elo que une Miriam e Howell; duas almas que compartilham uma visão de mundo~. Piegas pra c*lho, né? O que eu posso fazer? Sou um caso perdido e visto com dignidade a carapuça do meme "Quem nasceu para ser Tina Belcher, jamais será Daria." 
Em minha defesa, é forçoso acrescentar que Palladino inclui, nesse episódio, uma cena que representa o instante em que a jovem Yoko Ono teria visto a escada que supostamente serviria de inspiração para a obra Ceiling Painting / Yes Painting (1966); exato, aquela através da qual ela conhece quem? John Lennon. Ora, ora, mas se não é um caso real de obra de arte que une duas almas que compartilham uma visão de mundo? Uma história de amor através da arte, hein? Atenção, atenção; temos uma xeroque rolmes aqui, pessoal!

John Lennon: I got the word that this amazing woman was putting on a show the next week, (...) But it was another piece that really decided me for or against the artist: a ladder that led to a painting, which was hung on the ceiling. It looked like a white canvas with a chain with a spyglass hanging on the end of it. I climbed the ladder, looked through the spyglass, and in tiny little letters it said, YES. So it was positive. I felt relieved. It's a great relief when you get up the ladder and you look through the spyglass and it doesn't say NO or FUCK YOU or something. I was very impressed. (via: x)

E francamente, espiem o senhor Declan Howell, senhores. É ninguém menos que Rufus Sewell. Sinto que era meu dever moral fazer dele e Midge um casal. (*Só que, na minha fanfic, ele não era um bêbado, pois: não trabalhamos.)

Olá, eu poderia ~conhecer seu ateliê~, Sr. Howell?

Tudo muito bom, tudo muito bem? Nãããão. Obviamente, algo teimaria em estragar minha fanfic, e esse algo atende pelo nome de: O Túnel, livro do argentino Ernesto Sabato.
Tradução: Sergio Molina
Na moralzinha, o Sabato praticamente foi lá, curtiu a premissa do meu romancitcho inspirado na Mrs. Maisel e avaliou que poderia fazer algo mil vezes melhor. Como? Está na mão:

Daniela, e se o pintor fosse um cara neurótico, paranoico e psicopata, hã? É, tudo junto. Sim, sim; e a mulher se conectaria profundamente com um quadro dele, compreenderia toda a profundidade escondida no âmago da alma do grande artista que, por consequência, se apaixonaria de uma maneira doentia por ela. Que tal? 

- Hum, sei não, senhor Sabato; isso está me cheirando àquilo que os jovens da internet chamam de "relacionamento abusivo". Eu estava pensando em algo mais sensível e delicado, sabe? Algo na linha Amantes Eternos, do Jarmusch, tá ligado? Com pitadas de Amores Expressos, do Wong Kar-Wai, talvez. A arte da comediante também em jogo etc.

- Nãh, vai por mim, que eu manjo de escrita. Estou pensando em algo meio Lolita. A obsessão do artista pela mulher que compreende sua arte será tamanha, que os instintos assassinos do pintor acordarão, e ele... a matará!, e contará seu relato da prisão; um narrador em primeira pessoa nada confiável. E aí? Como te gusta?

- (...) A mi, no me gusta nada. 

Piadinhas à parte, é realmente isso aí que temos em O Túnel, e a coincidência é espantosa. No mais, vale acrescentar alguns breves detalhes da narrativa de Sabato. O pintor do livro, Juan Pablo Castel, conhece Maria Iribarne Hunter no Salão da Primavera, evento onde seu quadro intitulado Maternidade está exposto. Castel o descreve: no primeiro plano, uma mulher olha um menino brincar; no segundo plano - no alto, à esquerda, numa janelinha - vê-se uma mulher fitando o mar numa praia deserta. O pintor conta que os críticos, os quais ele xinga de charlatães de dialeto insuportável, restringem-se a dizer que viam na obra certa coisa profundamente intelectual. Castel afirma que todos passavam pelo quadro sem reparar a cena da janelinha, exceto Maria Iribarne: "(...) ficou muito tempo diante de meu quadro (...), olhou fixamente a cena da janela, e enquanto o fazia tive certeza de que ela estava isolada do mundo inteiro (...)". Uma vez que ele não tem coragem de abordá-la naquele instante, passa os dias seguintes a revirar a cidade de cabeça pra baixo até encontrá-la, ocasião em que simplesmente dispara: "Tenho uma pergunta importante para lhe fazer, uma pergunta sobre a janelinha, entende?". Castel confere extrema importância à janelinha especialmente porque ele desconhece a razão de tê-la pintado; porém presume que Iribarne seria capaz de ajudá-lo a desvendar o mistério. Castel não sabe o que pensa/sente a respeito de sua própria pintura, entretanto, o que quer que fosse, ele está convicto de que Iribarne pensa/sente o mesmo, e somente isso importa. O restante da narrativa segue, resumidamente, conforme minha conversa fictícia com Sabato.

(* Há outras camadas no livro do argentino, contudo essa prevaleceu durante minha leitura.)


Meu envolvimento com o episódio de Mrs. Maisel e a inesperada reviravolta promovida pelo livro do Sabato foi tamanha, que decidi me dedicar um bocadinho à elucidação, na medida do possível, de alguns componentes do imbróglio que me foi apresentado. Pressinto que o Cosmos tenta comunicar-se artisticamente comigo, logo a prudência ordena que eu não o ignore. Pedi socorro à minha estante, que gentilmente sugeriu esta seleção de livros:

- Artful, Ali Smith;
- A Melodia das Coisas, Rainer Maria Rilke (Tradutora: Claudia Cavalcanti);
- Lendo Imagens; Alberto Manguel (Tradutores: Rubens Figueiredo, Rosaura Eichemberg, Cláudia Strauch);
- A Woman Looking at Men Looking at Women; Siri Hustvedt;
- Ways of Seeing; John Berger;

Organizarei, a seguir, uma listinha com algumas conexões estabelecidas entre as leituras e os sinais recebidos do engenhoso universo.

🖌 Nor am I ashamed of my fanfic romance idea. It was natural and just! 
(Roubando a fala de Mr. Darcy por motivações óbvias.) 

Provavelmente extrapolo em demasia as palavras de Rilke, reconheço; no entanto defendo que a maneira com que ele define arte explica de modo encantador a razão pela qual fantasiei uma história de amor através de uma pintura. Rilke escreve que a arte é uma concepção de vida que não resulta do tempo e que aparece, em certa medida, como visão de mundo da última meta. O artista, segundo ele, atravessa jovem os séculos e produz, solitariamente em meio ao hoje, aquilo que ainda será. Ou seja, as coordenadas espaço-tempo em que vive o artista são distintas, o tempo do artista não coincide com o corrente. Para minha alegria, Rilke vale-se até da metáfora da dança (super favorita) para ilustrar sua perspectiva: 
"Mas eles são os precocemente chegados. E o que não se resolve na sua vida, torna-se sua obra. (...), uma estirpe de ainda-não-viventes que aguardam seu tempo.
O artista é sempre este: um dançarino cujo movimento se rompe na opressão de sua cela. O que não tem espaço em seus passos (...)"
Beleza; agora, meu raciocínio. Se, conforme Rilke, as obras de arte são coisas futuras, coisas cujo tempo ainda não chegou, infiro que quando duas pessoas, no tempo presente, se conectam profundamente com uma mesma obra de arte, um feito e tanto é conquistado: no sistema de infinitas coordenadas espaço-tempo, as duas se interligam em perfeita consonância em um único ponto. 
Por sinal, é a ocasião perfeita para inserir uma frase do Artful, aquela em que Ali Smith referencia, calcule só, William Carlos Williams, o poeta americano que escreveu o poema épico Paterson (AH! E volta o filme do Jarmusch. Olá, Cosmos!):  "To William Carlos Williams, thought is a connective bridge." Pronto, é isso que eu tinha em mente quando concebi o mote da fanfic: uma obra de arte no papel de ponte que conecta os pensamentos da alma de duas pessoas, intersecção que sequer pertence ao tempo presente. Eu ficaria plenamente contente com esses desvarios, não tivesse Castel, o pintor maluco do Sabato, dito algo praticamente igual. É mole? Castel confidencia ao leitor ter certeza de que os túneis (daqui vem o título do livro) onde permaneciam confinadas as almas solitárias dele e de Iribarne haviam por fim se cruzado, graças à janelinha do quadro. Estaria minha mente operando à semelhança daquela de um psicopata assassino?! Digamos que eu tenha ficado um pouquinho nervosa.

Felizmente, Ali Smith veio ao meu socorro de outro jeito igualmente belo. (Repito: se eu tiver forçado a barra, azar.) Em Artful, a escocesa teve a manha de transformar seus próprios ensaios em ficção: durante a difícil fase de luto pela morte do marido (um acadêmico de literatura); uma mulher especialista em árvores rememora os papos que eles tiveram sobre livros, filmes, musicais etc, ao mesmo tempo em que lê os últimos trabalhos que ele deixara inacabados sobre a escrivaninha (= os ensaios de Smith). Eis que, durante a leitura, a mulher se emociona ao dar de cara com várias metáforas botânicas incluídas pelo esposo nas dissertações acadêmicas, ["I saw that there was a lot about trees in this section. I wondered if, when you'd been writing it (...) you'd thought at all about me and my daily job, my own stocks-in-trade."] bem como com várias passagens cujas inspirações claramente partiram das conversas dos dois. 
"It was me who liked cinema, not you. We'd had a lot of arguments about it. And the thing about Powell Pressburger target was something I'd actually once said to you. In fact, I'd said a lot of those things to you, (...) I couldn't believe that what I'd said had got into your writing. It was thrilling. It felt fine."
Por favor, que fique claro: eles atuavam em áreas profissionais totalmente distintas, portanto não se trata em absoluto de roubo intelectual, parasitismo ou coisa do tipo; mas sim de simbiose, partilha, sintonia. Inclusive, ela se depara com uma linda carta que ele escrevera para ela antes de morrer, uma mensagem do passado para o futuro, da qual destaco este trecho: 
"(...) I thought of you when I was writing about Freud's flowers. And there was a quote from Michael Ondaatje novel I wrote down and was keeping for this talk and haven't used, but it really makes me think of us, well, makes me think of you. 'She had an eager spirit. One mentioned a possibility and she met it, like the next line of a song.' 
Wherever you are all the trees above your head are flowering."
A reação dela:
"To be known so well by someone is an unimaginable gift. But to be imagined so well by someone is even better."
(Claramente, a escocesa quer me matar.) Na minha fanfic, o papel da arte seria justamente permitir que duas pessoas enxerguem o invisível presente entre elas: a sintonia, o potencial para uma vida de simbiose e partilha.

🖌 O que diabos significa conectar-se com uma obra de arte? 
Pois é, né? Tipo, o que afinal rolou naquele instante em que Midge bateu o olho no quadro do puxadinho? Por que Maria Iribarne se isolou do mundo quando olhou a janelinha pintada por Castel? No que consistem esses encontros mágicos entre seres humanos e arte?

Ali Smith escreve em seu livro que Virginia Woolf acreditava piamente na capacidade da arte de mudar as coisas e de tornar visível mudanças cruciais. Hum, isso acabou fazendo com que eu recordasse o encontro entre Édipa, personagem do espetacular O Leilão do Lote 49, de Thomas Pynchon, e o quadro Bordando o Manto da Terra, da espanhola Remédios Varo. Não me restam dúvidas de que, com sua obra, Varo retirou a venda que cobria os olhos de Édipa (tradutor: Jorio Dauster):



"Édipa, obstinada, postara-se diante da pintura e chorara. (...) Carregaria assim para sempre a tristeza do momento, (...) Olhara para os pés e ficara então sabendo, graças a uma pintura, que o chão em que  pisava havia sido tecido a alguns milhares de quilômetros de distância em sua própria torre, (...) logo entende que a torre onde vive, sua altura e desenho arquitetônico são tão incidentais quanto seu próprio ego: o que de fato a mantém onde está é um sortilégio, anônimo e maligno, dirigido contra ela de fora e sem nenhuma razão."

Chorar diante de uma pintura... Quem nunca? O norueguês Karl Ove Knausgård, em seu livro A Morte do Pai, despudoradamente confessa chorar quando olha para uma bela pintura, mas não quando olha os filhos. Parece, de fato, tratar-se de uma dinâmica especial. Siri Hustvedt inclui em seu livro uma citação de Henry James que me ajuda a processar o choro de Édipa e de Knausgård: "In the arts, feeling is always meaning." Hustvedt insiste bastante na temática das emoções que, para ela, sempre são componentes da percepção, de modo que nossos sentimentos (natureza psicobiológica) diante de uma obra de arte seriam cruciais para entendê-la. Na opinião da americana, um aspecto vital do significado de qualquer objeto reside nos sentimentos de prazer, angústia, admiração, confusão que ele evoca; os quais pertencem ao passado do observador, estando condicionados à sua capacidade aprendida de ler o mundo. John Berger aparentemente expressa algo bastante similar na obra Ways of Seeing, quando diz que (...) our perception or appreciation of an image depends also upon our own way of seeing. [forma de ver = forma de ler: o mundo] Alberto Manguel pode ser incluído para corroborar: " O que vemos é a pintura traduzida nos termos de nossa própria experiência." Ademais, o tom de certas ressalvas dirigidas ao historiador de arte Frans Hals deixa subentendido que, na visão de Berger, as emoções provocadas pelas imagens, no plano das experiências humanas vividas, devem ser levadas em consideração no exercício da crítica. Voltando ao episódio de The Marvelous Mrs. Maisel, é legal lembrar que, quando Howell mostra sua obra-prima a Midge, ele não quer saber da opinião dela quanto à qualidade técnica intrínseca à obra. O que ele prontamente pergunta é se, tal qual o quadro de Reynolds, o dele também a faz sorrir. Ele está interessado em saber se sua obra igualmente desperta nela emoções profundas. Fatalmente me veio à memória Agnès Varda, a incrível cineasta para quem o agradecimento sincero e emocionado de alguém que tenha visto seus filmes vale mais do que a ovação crítica exclamando “bravo!”.

Em outro trecho, penso que Ali Smith aborda um tipo de mecanismo que potencialmente transcorre quando nos deparamos com determinadas obras de arte:
"(...) in a magical shifting of the position of observer and observed, it means that the you of the poem becomes not just the seen thing instead of the art, but something seen so utterly, so wholly, that there is no place that does not see you. It's this being seen (met in the act of looking) - the exchange that happens when art and human meet - that results in the pure urgency for transformation: "you must change your life".
Há algo equivalente nesta assertiva de Alberto Manguel: "parecemos estar nos dois lados da tela ao mesmo tempo, observando-nos ser observados." Minha hipótese é que uma possibilidade de conexão desponta quando a arte funciona como espelho mágico, um instrumento gerador de urgência por transformação sentida a partir da troca de posições entre observador e observado. Hustvedt diz que, na observação de uma mulher retratada em uma pintura, "She is of me while I look and, later, she is of me when I remember her."

🖌 Ok, Midge, então o que foi que você viu/sentiu naquele quadro?!
Aproveito o gancho perfeito presente nessa última frase de Hustvedt para buscar entender o que Midge teria visto/sentido quando viu o quadro do puxadinho.

Para começar os devaneios, suponho que é mandatório partir desta assertiva de Berger:
"When a painting is put to use, its meaning is either modified or totally changed. (...) When a painting is reproduced by a film camera, it inevitably becomes material for the film-maker’s argument."
Quer dizer, parece-me evidente que só consigo ler o quadro de Agnes Reynolds dentro do contexto da série, isto é, o código que habilita minha leitura provém preponderantemente da relação identificada entre a vida (narrativa) da personagem Miriam Maisel e a imagem criada por Reynolds. Por esse ângulo, a resposta que Midge concede a Howell quando questionada sobre os motivos que a fizeram comprar a peça é bastante elucidativa: "I thought, 'I know her. She has a secret. She knows a joke that I don't.' I thought, 'Maybe if I take her home, she'll tell me the joke.' And that made me smile." É engraçado notar que a justificativa de Midge, uma mulher aspirante à carreira de comediante em meados da década de 60, estrutura-se mediante elaboração de uma narrativa cuja protagonista tem uma piada para contar. Ressurge aquele gancho da Hustvedt ao qual me referi no início: "She is of me."  - a mulher do quadro é Midge. Alberto Mangel explica que "todo retrato é, em certo sentido, um autorretrato que reflete o espectador. (...) todo retrato é um espelho." Ainda nas palavras do argentino, isso ocorre porque para conhecer objetivamente quem somos, devemos nos ver fora de nós mesmos, em algo que contém a nossa imagem, mas não é parte de nós, descobrindo o interno no externo.

Eu teria concluído minha leitura do quadro aí, não tivesse Manguel reiteradamente chamado minha atenção para a complexa e fascinante ligação que imagens estabelecem com o Tempo. Por exemplo, ao tratar da obra de Marianna Gartner, especificamente dos retratos que ela pinta a partir de velhas fotos de pessoas, o argentino reforça que a pintora "cria pontes visíveis que os dois lados parecem incapazes de cruzar e que os unem e distanciam para sempre - passado e presente (perspectiva do observador) ou presente e futuro (da perspectiva dos modelos nos quadros)". Pra mim, o clique foi imediato e dependeu daquilo que ocorre com Midge no episódio que finaliza a temporada: ao ouvir o colega comediante Lenny Bruce cantar ♪ All alone, all alone / Oh, what joy to be all alone / I'm happy alone, don't you see? ♪, Midge tem uma espécie de epifania - minha carreira de comediante me tornará solitária! - e sai correndo para os braços do ex-marido. Teorizo que Midge já tenha tido essa mesma epifania quando pôs os olhos no quadro de Reynolds, a diferença é que ela teria permanecido, naquela ocasião, no plano inconsciente. Nos termos de Hustvedt, a percepção visual é um processo ativo, moldado por forças conscientes e inconscientes. Minha aposta é que o quadro de Reynolds uniu a:

      Midge do Presente: mulher divorciada que aspira à carreira de comediante.
e a 
Midge do Futuro*: comediante que, apesar do sucesso, está terrivelmente sozinha.
(*no imaginário inconsciente de Midge)

Se panz, a piadinha que a mulher do quadro tem para contar nasce do conhecimento de que Midge acabaria a vida como uma mulher amarga e solitária feito a famosa comediante Sophie Lennon daquela história. Esse medo já estaria bastante enraizado no inconsciente de Midge que, ao olhar a imagem de uma mulher sozinha a encarando com um sorrisinho de Monalisa, não enxergou outra coisa, senão ela própria "amanhã".

Persistindo no tema da leitura da imagem, retomo um aspecto da narrativa do Sabato: Castel, o pintor, não sabe ler seu próprio quadro, não sabe por que pintou a janelinha que deixa entrever uma mulher na praia. Creio que Hustvedt não se alarmaria com isso, pois, segundo a americana, artistas estão apenas parcialmente cientes daquilo que fazem, dado que o processo criativo pertence, em larga extensão, ao inconsciente. O espelho reflete seu criador.

🖌 Sobre pontes e túneis.  
Rilke teria sentido compaixão por Midge e, com toda certeza, a teria acalentado. Por quê? Bom, porque a visão que Rilke compartilha sobre a solidão no ensaio A Melodia das Coisas tende a oferecer conforto às almas de artistas angustiados:
"(...) a grande melodia (...) e então: as vozes de cada um, (...) para fundar uma obra de arte (...) será necessário equilibras as duas vozes (...) E justamente os mais solitários têm a maior parte na comunidade. (...) Aquele que percebesse toda a melodia seria o mais solitário e comunitário ao mesmo tempo. Pois ouviria o que ninguém ouve e, mesmo assim, porque, na sua perfeição, entende o que os outros auscultam, de forma sombria e lacunar."
Para Rilke, conforme eu já tinha percebido no seu livro Cartas a um Jovem Poeta, a arte recorrentemente surge de um estado de solidão, aquele que permite ao artista ouvir aguçadamente a melodia das coisas. Aos jovens poetas, Rilke aconselha amar a solidão inerente à vida, visto que é a partir dela que crescemos, modificamos e encontramos nossos caminhos.  

Inevitavelmente, preciso retornar a Paterson e Daniiar, os dois artistas inodoros em cujas ficções figuram como indivíduos introspectivos e solitários. Coincidência? Rilke, suspeito, diria que não. Howell também pode participar do papo, pois o pintor explica a Midge que sua obra-prima simboliza a vida que ele não teve e que jamais terá, posto que tudo que ele tem foi colocado naquela pintura. Sem piedade, Howell sentencia à novata comediante: Everything I have, I put into that. Well, that's the way it is. If you... if you want to do something great, you want to take something as far as it'll go, you can't have everything. You lose... family. Sense of home. But then... look at what exists. Por deus, até o pintor assassino de Sabato debate-se confinado na solidão de um túnel. Sinto uma irônica melancolia nessa constatação de que aqueles que constroem pontes entre pessoas padecem de solidão. É infalível? Será assim?

Por outro lado, confabulo que a questão se associa com a seguinte assertiva de Hustvedt: Art is reaching toward, a bid to be seen and understood and recognized by another. A autora refere que arte é um meio de transferência. Louise Bourgeois, me informa Hustvedt, defende que a arte é sempre feita para um outro que até pode ser imaginário, mas ainda é um outro. Não invalida meu argumento a respeito de Paterson: ele resiste aos esforços da esposa para publicar os poemas, porém não significa que ele não escreve para um outro. É, nada melhor do que a solidão para gerar a urgência de conectar-se com um outro. Será assim? De qualquer jeito, a metáfora do túnel usada por Sabato para representar a solidão do artista pode ser vista de outro ângulo: à semelhança de pontes, túneis servem para ligar espaços, ué; portanto sempre restará ao artista a opção de largar o confinamento, bastando para isso seguir a luz visível no fim. Considerando-se que o túnel não vai se mexer dali; qualquer coisa, basta retornar.
Será assim?

Qual a conclusão desse longo papo-furado? Absolutamente nenhuma. Sobraram várias coisas para divagar, contudo necessito escrever o roteiro do meu romance "O Pintor e a Comediante" e ilustrar o respectivo storyboard com minha nova paletinha de aquarela. Hora de voltar ao grupo dos solitários que não cheiram nem fedem, mas que amam a vida. A quem quer que tenha chegado até esta linha, desejo com ardor que o amor se revele na próxima obra de arte que cruzar seu caminho.                      (*Mantenha olhos e ouvidos abertos* 😉) 
Via Tumblr;
fonte original não localizada

08/05/2018

[DROPS] Siri Hustvedt: sobre a leitura

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[arriscando uma tradução livre:]

"O romance pode ser um instrumento político. Não tenho interesse em literatura panfletária, porque ideologia tem a tendência de ser simplista, enquanto os melhores romances não são reducionistas; eles são bastante complexos. Romances lidam com as ambiguidades da experiência humana, em vez de reduzirem-se a um slogan. Boa parte da cultura popular trata de slogans, de estereótipos e de oferecer respostas simples para problemas que são complicados. 

Dentro de um romance, o indivíduo tem a oportunidade de viver a ambígua realidade de toda uma outra consciência. Durante a leitura, você é possuído pela voz do outro, abrindo mão de ser você mesmo. Enquanto se lê, não é possível ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Para pensar naquilo que se está lendo, é preciso desvencilhar-se do livro. Falando daquilo que eu chamo de "narrador interior", daquela voz que todos carregam dentro de si: você abre mão desse seu narrador interior, em nome da outra voz do livro. Enquanto lemos, somos literalmente possuídos, e essa posse oferece a possibilidade de nos mudar para sempre, porém é preciso estar aberto, para que isso aconteça. 

Acredito que é por isso que muitos homens não querem ler livros escritos por mulheres, pois significaria submeterem-se à autoridade de uma mulher, o que provoca uma sensação de emasculação. Na verdade, compadeço e compreendo como isso opera em nossa cultura. Perguntam "Por que mulheres leem livros escritos por mulheres, enquanto os homens não querem?" Para mim, essa é a resposta: para a mulher, não é humilhante estar a serviço de uma outra voz, nós não sentimos isso, nós não necessitamos controlar o texto; o que é ótimo. Ao mesmo tempo, é lastimável que obras escritas por mulheres carreguem a noção de que os homens sejam emasculados, caso renunciem de si mesmos em nome daquelas vozes; é muito triste."                       
 - Siri Hustvedt

24/06/2016

O que eu amava - Siri Hustvedt


 O que eu amava é um livro peculiar e, sendo honesta, ainda nem sei como me sinto em relação a ele exatamente (sei que gostei, mas também sei que há ressalvas cuja extensão ainda desconheço). Por enquanto, tenho certeza apenas de que, sempre que eu pensar nele retrospectivamente, não serão suas personagens, ou sua trama, que me invadirão a mente, mas, sim, seus diversos temas instigantes, todos meticulosa e ardilosamente incrustados e interconectados pela Hustvedt em sua obra.

E por que será assim? Porque, com mínimas ressalvas, todas as personagens da narrativa são banais e, por isso mesmo, bem reais; afirmativa que pode ser fundamentada, inclusive, pelas frases finais do livro. O que eu amava trata de vidas completamente mundanas que acredito poder encontrar logo ali, na esquina da minha casa. Ou não, digo, ou quase; quero dizer, mais ou menos, entende? Perdão, perdão; a questão é que as vidas dessas personagens até aproximariam-se da minha com a exagerada familiaridade que insinuo, não fossem os seguintes pormenores: elas são acadêmicas e/ou artistas da classe média alta de Nova York nas décadas de ~70-80, que vivem envoltas, praticamente 24h dos seus dias, por arte (produzindo, analisando ou consumindo). Esse detalhe pode até parecer irrelevante, porém é justamente ele que concede à autora a oportunidade de inserir, em um texto que trata de vidas ordinárias, uma rica série de situações, diálogos e reflexões que abordarão uma temática bastante variada e intrigante.

Compartilho aqui uma reprodução do meu caderninho de leitura com o esquema das personagens do livro para ilustrar melhor isso:


Percebe os meios artísticos e acadêmicos por onde perambulamos nessas páginas? 

Ademais, retomando o que disse, a narrativa corresponde às memórias de Leo relacionadas a essas seis pessoas que fizeram parte de sua trajetória, de onde surgem, por conseguinte, as "trivialidades" da vida: planos, casamentos, divórcios, amizades, filhos, encontros, desencontros, frustrações, despedidas, alegrias, tristezas, decepções, velhice... 


"Os objetos se tornam musas da memória."

Para registro pessoal da leitura, escolho destacar dois temas que me parecem especialmente relevantes: arte e memória; afinal, é possível afirmar que o livro praticamente só existe por conta dessas duas entidades. Logo na primeira página, Leo explica que foi o encontro de antigas cartas trocadas entre Bill e Violet que o levou a escrever o livro que estamos prestes a ler. À medida que a leitura avança, esse início parece tornar-se cada vez mais engenhoso, pois percebe-se que ele condensa boa parte da aparente temática maior de O que eu amava: a obra que lemos - ela própria uma arte literária - é fruto do exercício da retomada de memórias do narrador, muitas das quais (vamos descobrindo gradativamente) existem associadas à arte; da qual destaca-se um quadro que Bill pintara retratando Violet - o elo inicial entre as personagens.

Para ilustrar prontamente a avalanche de reflexões e devaneios principais que foram-me instigados a partir dessa premissa, reproduzo outro resumo esquematizado do meu caderninho de leituras:


E alerto que nem tudo está aí. Algo interessante, apenas como exemplo, que acabou não entrando nessas páginas foi a discussão em torno da relação estabelecida entre publicidade/marketing e arte, não só em torno da obra em si, mas também da construção da identidade pública do artista. Arte é mero produto? O artista surge como produto acessório vinculado irremediavelmente à sua arte? Tentando destacar a relevância desse tema, digo que ele complicou ainda mais minhas percepções acerca da famosa controvérsia atual: quem é Elena Ferrante?

Ah, este aviso deveria estar no começo do post, mas ainda vale lembrar que minha proposta é a mesma do Chacrinha: "Eu estou aqui para confundir; eu não estou aqui para explicar."


 Explorando pessoalmente a relação "arte x memória", gostaria de registrar algumas passagens desse livro que, involuntariamente, promoveram o resgate de trechos de livros que já li. De antemão, destaco que esta listinha é minha, ou seja, isto foi, simplesmente, aquilo que a minha memória entregou prontamente, de modo que não exauri em absoluto as relações intertextuais da obra (ainda mais sendo alguém que não manja nada de arte).  E surgem perguntas excitantes: 
 - Por que exatamente estas passagens de leituras prévias ficaram gravadas comigo, a ponto do livro de Hustvedt ser capaz de retomá-las? E pior: essa pergunta surgiu ainda mais forte quando, ao procurar as citações nos livros para escrevê-las aqui, bati os olhos em outras passagens que também se relacionavam com O que eu amava, mas que minha memória claramente não tinha fixado. Suspeito de que a resposta esteja na tal "ligação" mencionada por Leo.
 -  Curiosidade: como seria a listinha de outros leitores? 

1. 
Há um trecho em que Leo arrepende-se de ter dito isto a Mark:
"- 'Aquele quadro era muito melhor do que você, Mark. Era mais verdadeiro, mais vivo e mais expressivo do que você já foi ou vai conseguir ser na vida.' (...)   "Eu tinha dito coisas horríveis a Mark ao falar sobre o quadro do pai dele. Não se pode comparar um objeto a uma pessoa."
Na mesma hora, eu lembrei do que diz Knausgård no seu livro A morte do pai (tradução Leonardo Pinto Silva - Companhia das Letras):
"A pergunta sobre a felicidade é banal, mas não a que se segue, a pergunta sobre o sentido. Meus olhos se enchem de lágrimas quando olho para uma bela pintura, mas não quando olho para os meus filhos. Isso não significa que não os ame, pois os amo do fundo do coração, significa apenas que o que eles me trazem não é suficiente para dar sentido à vida. Ao menos não à minha."
A passagem do Knausgård eu até sei porque cravou na mente: impressionou-me muito, não por tê-lo achado um pai horrível, mas pela máxima honestidade desconcertante com a qual, bem no fundinho, eu suspeite de que tenha me identificado. 

Bem, temos então mais uma reflexão provocada pela Hustvedt + Knausgård: uma peça de arte pode ser melhor do que uma pessoa? Ela pode emocionar, sensibilizar mais do que uma pessoa? Essa comparação faz algum sentido?


2.
Leo falando sobre a relação de Bill com sua arte:
"Bill transformava o que escapava à sua compreensão em coisas reais que pudessem carregar o peso de suas necessidades, dúvidas e desejos."
Aqui, lembrei-me da Jhumpa Lahiri no seu livro "In Other Words", no qual ela afirma (tradução livre):
"Por que eu escrevo? Para investigar o mistério da existência. (...) Para aproximar-me de tudo que está fora de mim."
Lahiri expurga suas dúvidas com a escrita; Bill, com suas instalações artísticas. Daí, temos outra pergunta: o que move o artista? É sempre um mesmo fator para todos? O que os leva a produzir arte é o mesmo que nos faz - público - buscar a arte?


3.
Leo falando sobre as memórias que narrava:
"Toda história que contamos sobre nós mesmos só pode ser contada no pretérito. É um recuo no tempo do ponto de vista em que estamos agora, quando já não somos mais os atores da história, mas seus espectadores que resolveram falar."
De pronto me lembrei de Duras, em O amante, no qual o "eu pretérito" da autora exige tamanho recuo do "eu presente", que acaba havendo uma aparente cisão entre ambos, o que a obriga a momentos de narrativa na terceira pessoa, tempo presente; exatamente como o "espectador" citado por Leo.


4.
Sobre arte, Leo afirma o seguinte:
"Uso não tinha nada a ver com arte. A arte era, por natureza, inútil."
Quem apareceu pra mim? O James Wood, no seu Como funciona a ficção (tradução Denise Bottmann - Cosac Naify), no qual ele fala na cara do leitor: 
"Não lemos  a fim de tirar benefícios da literatura. Lemos literatura porque ela nos agrada, nos comove, é bonita, e assim por diante - porque é viva e nós estamos vivos."
E aí? Esse negócio de arte serve para alguma coisa, ou nem? De uma coisa, eu sei: ela me ajuda a preservar minha saúde mental. 


5.
Para quem leu The Goldfinch, da Donna Tartt, é quase inevitável relacionar a reação de Leo ao quadro de Chardin, à de Theo Decker ao quadro de Carel Fabritius. São ligações que parecem conotar aquele sentido especial e individualizado que as obras de arte ganham quando cruzam nossas vidas, tornando-se musas de memórias.


6. 
O título da obra aparece explicitamente no livro, na fala de Violet, sendo que a afirmativa da capa (* o título original em inglês surge mais claramente como uma afirmativa) transforma-se em pergunta nas páginas:
"Eu odeio o Mark. E eu o amava antigamente. (...) a pergunta que realmente me assusta é a seguinte: o que exatamente eu amava?"
Fazendo o caminho contrário, Leo não parece encontrar-se consumido pela mesma dúvida de Violet, o que poderia ter provocado essa transformação do questionamento em assertiva. 

Sabe quem veio à mente com o jogo desse título? Foi Pirandello, com Um, Nenhum e Cem mil; o qual me fez refletir que talvez essa pergunta da Violet seja inútil ou irrelevante, tendo em vista que nunca seríamos capazes de amar essa suposta versão "verdadeira" das pessoas, mas apenas a versão que construímos dela, o "um" dos "cem mil" (que acabaria sendo... "nenhum"?). Estou só confabulando; portanto não sei se isso faz sentido.

Então, confabulemos mais um pouquinho: obra de arte também seria uma, nenhuma e cem mil; confere?  Afinal, a "ligação" estabelecida com quem interage com ela não é sempre diferente?

***
E ainda relacionado ao tema, segue trecho de um artigo lido no site Quartz:
(* atualizando em 02/07/16)
"When volunteers read their favorite poems, areas of the brain associated with memory were stimulated more strongly than “reading areas,” indicating that reading poems you love is the kind of recollection that evokes strong emotions (...)"
***

É melhor eu parar por aqui, mas, que fique registrado, esse livro ainda rende muito mais. Apenas para citar outros temas abordados na obra: sociologia x psicologia x psicanálise, transtornos mentais, paternidade/maternidade, amizade, relacionamentos conjugais, morte, velhice, solidão...

Acredito que tenha ficado evidente, mas reforçarei: saí dessa leitura apenas com perguntas. Várias. E que bom.