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20/05/2021

[alinhavando] Rows of (empty) houses, all bearing down on me


Quão patético é, nesta altura da vida, precisar que livros/filmes me digam o que se passa comigo? Reajo com vergonha e desprezo. Para apaziguar o constrangimento, segurarei, antes de prosseguir, a mão de Elias Canetti. Em seus diários (*não li; descobri com Inger Christensen), Canetti afirma sempre retornar ao quadro A Cegueira de Sansão, de Rembrandt, a fim de conhecer a si mesmo, defendendo que ninguém conhece os próprios sentimentos até que se esteja diante deles por intermédio do outro; instante em que o indivíduo reconhece e toma consciência daquilo que deveras sente. Se é assim, que seja.

Em prévia postagem, mencionei minha última intensa crise de choro, a qual atribuí, naquela oportunidade, à constatação de que havia me mudado para um lugar super barulhento. No entanto, quando vi a cena em que Fern, personagem de Frances McDormand no filme Nomadland, revisita o antigo e abandonado lar, uma ficha caiu: minha choradeira ocorreu no exato dia em que, pela última vez, fechei sozinha as portas do apartamento onde morei por dez anos, pronta para devolvê-lo pintado, limpo, vazio. Após o filme de Chloé Zhao, perdi a certeza quanto aos motivos da minha enxurrada de lágrimas. 

Calma; não há motivo para pânico, pois não usarei este post para fazer um piegas exercício de autoinvestigação e passar (mais) vexame com oversharing pra isso, disponho de meu travesseiro. Na verdade, me dei conta de que Nomadland é um ótimo ponto a partir do qual alinhavar alguns devaneios a respeito do extraordinário livro que li ano passado, a obra-prima* The Death of the Heart (1938), de Elizabeth Bowen. [* = Exagero? Bom, informo que Anne Carson o incluiu em sua prateleira de recomendados na Strand (NY), então os desconfiados podem colar no aval dela.] A propósito, causa-me estranheza o pouco espaço ocupado, no blog, pelos livros de que mais gosto. Suspeito, agora, que a teoria de Canetti possa explicar isso; digo, seriam livros muito próximos, de maneira que escrever sobre eles traria o risco de um desnudamento público. Vai saber. 

No livro Unfinished Bussiness - Notes of a cronic re-reader, Vivian Gornick diz que a obra de Elizabeth Bowen aborda sobretudo as consequências de viver com as emoções salvaguardadas, aquilo que Gornick chama "viver com a tampa fechada". De fato, isso é válido para as personagens de The Death of the Heart, porém, no caso específico de Portia, a protagonista de dezesseis anos, trata-se especialmente de narrar aqueles eventos determinantes de uma vida, capazes de fechar pra sempre a tampa de alguém. Quando reflito acerca desse tema, retorna-me à memória um singelo conto que adoro, de Tchekov, chamado Ninharias da Vida (tradução: Tatiana Belinky). Nele, Aliocha, um garotinho de oito anos, fica chocado com o adulto que, na sua frente e sem qualquer cerimônia, revela a outra pessoa os segredos que Aliocha acabara de compartilhar. A pobre criança chora, gagueja, treme e se encolhe, horrorizada com o que vivenciara. Como o homem pôde ter feito aquilo, se havia prometido, com sua palavra de honra!, que jamais contaria nada a ninguém; é o que Aliocha se pergunta transtornado. Com a criança nesse estado, o narrador de Tchekov encerra:
"(...) antes disso, ele não sabia que neste mundo, além de peras, pasteizinhos e relógios caros, existem ainda muitas outras coisas, que não possuem nome na linguagem infantil."

                                                           - Anton Tchekov, Ninharias da Vida (Tradução: Tatiana Belinky) 

Então, é mais ou menos isso que ocorre no livro de Bowen; quero dizer, lemos as circunstâncias que fazem Portia dar-se conta de que, no mundo, existem muitas outras coisas além de peras e pasteizinhos. E o que diabos isso teria a ver com Nomadland, certo? De imediato, é claro, surge a hipótese de que Fern, após suas perdas, está evitando manter a tampa aberta por muito tempo em um mesmo lugar, para uma mesma pessoa. Contudo, largo essa saída fácil e resgato o retorno da protagonista de Nomadland à casa abandonada, com a intenção de apontar que uma das cenas chave da trajetória de Portia, aquela durante a qual ela confronta o que não entende (tal qual Aliocha, ao recriminar o moço X9: "Nikolai Ilitch! O senhor me deu sua palavra de honra!"), ocorre justamente numa casa abandonada, vazia — o que, logicamente, não é à toa. Quanto à descrição desse específico espaço escolhido por Bowen para narrar a crucial sequência, destaco este trecho:
"The rooms, many flights up, were a dead end: the emptiness, the feeling of dissolution came upstairs behind one, blocking the way down."

                                                                                 - Elizabeth Bowen, The Death of the Heart. 

De onde vem esse peso opressor de lugares vazios, abandonados? Como era a primeira vez que Portia entrava naquela casa, sequer podemos solucionar a charada com o enfadonho "ah, porque as memórias, não sei quê, não sei quê lá". Opa, espera; o querido Aliocha está me soprando uma resposta: esses espaços impõem a sensação de uma promessa quebrada. Quando Portia sai da casa, o desencanto começando a corroer-lhe o coração, ela questiona se aquele lugar voltaria a ser habitado. A despeito da vista pro mar e do passado de cenário feliz dos feriados de muitos, agora só parecia restar a rispidez com que as paredes espreitam quem ali entra. Embora já tenha conversado bastante com ela no último post, trarei Luiselli de volta, pois, em Papeles Falsos, a autora reflete brevemente a respeito de espaços vazios. Luiselli atesta o fascínio e desconcerto despertados por tais ambientes, comentando que a sensação de espreita (gaze) é a simples extensão da mente que se diverte preenchendo o recinto. Por outro lado, a autora interroga se a intolerância ao vazio corresponderia a uma má formação da mente humana, supondo que heideggerianos pretensiosos afirmariam tratar-se da mera expressão oncótica de uma condição ontológica mais profunda: o horror do vácuo expresso como a diversão ocular e o passatempo mental no preenchimento dos espaços. Apesar disso, Luiselli garante encontrar conforto no uso da imaginação para mobiliar ambientes vazios.


Regresso ao livro de Bowen, pois outros dois elementos de The Death of the Heart me interessam para o alinhavo com Nomadland.

(1) Até os dezesseis anos, Portia viveu pulando de hotel em hotel na Europa, alheia ao conceito de lar fixo.

Ou seja, Portia e Fern seguem caminhos opostos: enquanto uma abandona, a outra embarca na vida nômade. O narrador de Bowen considera que, somente numa casa onde se aprendeu a ser sozinho, uma pessoa cria um apego particular aos objetos. A relação estabelecida com eles, tocando-os e vendo-os diariamente, transforma-se em amor, abrindo caminho para a dor. O terno vínculo firmado com a repetição de dias vazios faz com que o indivíduo rememore o hábito como momentos de felicidade. É nesses termos que a narrativa ressalta que, a cada nova partida de hotel, Portia sentia trair algo, tomada por uma tristeza profunda. O narrador de Bowen assegura que são nossos sentimentos que constroem o lar necessário, de modo que o desejo de se conectar é o que faz pessoas andarilhas rapidamente firmarem raízes num lugar: onde  inconscientemente sentimos, vivemos. Muitas passagens de Nomadland fazem crer que Fern torna-se nômade sobretudo devido ao desejo de explorar o mundo, contudo até que ponto a perda do marido, da vida tal qual ela conhecia, a faz temer a criação de raízes, a construção de novos amores a partir de hábitos que potencialmente abririam espaço para novas dores? 

(2) Conhecemos Portia quando, uma vez órfã, ela vê-se obrigada a se mudar para a casa do meio-irmão; um lar cujos habitantes estão com as tampas fechadas há bastante tempo.

Curiosamente, a casa do irmão de Portia é linda e plenamente mobiliada, porém a narrativa de Bowen cria uma atmosfera tão peculiar em relação a esse espaço, que a protagonista (e nós mesmos, leitores) sentimos uma constrição muito similar àquela da casa vazia. As pessoas que lá moram, conforme pontualmente as descrevi, contribuem bastante pra isso, mas a velha criada da família fala algo a respeito dos móveis que chama muita atenção. Matchett diz à Portia que nada passa incólume aos objetos que, com o tempo, sabem mais e mais sobre tudo e todos que os cercam. Observar um móvel significa ser observado de volta. Assim, para quem prefere não ter um passado, Matchett garante que móveis podem representar um fardo tremendo. 

No final de Nomadland, Fern decide finalmente se desfazer dos antigos pertences mantidos num depósito; a aparente decisão de se livrar da presença, do olhar dos objetos que (mesmo à distância) denunciam um passado que, nas palavras da própria protagonista, já foram rememorados por tempo suficiente da vida:
"It's like my dad used to say: "what's remembered lives." I maybe spent too much of my life just remembering, Bob." — Nomadland (2020) 
Tinha prometido a mim mesma que não falaria mais de pandemia neste blog, mas acabo tentada a registrar uma última (?) divagação. Até que ponto a inquietação por estar tanto tempo dentro de casa também decorre da sensação de estarmos sendo observados, julgados constantemente por nossos próprios objetos? Em parte, talvez esta seja a razão por que temos de sair frequentemente de casa, a fim de que persista o desejo de estar nela. Sair para um passeio, e voltar, nos permite dobrar o olhar de superioridade dos móveis que nos encaram, nos confere o poder de efetivamente "ofendê-los" com um "Eu estou vivendo; você, não." Além disso, quando regressamos, trocamos de lugar com os móveis: eles param de nos contar as mesmas histórias do passado, e nós passamos a ser os contadores de novas histórias para eles, que assumem o papel de ouvintes. Aloprei? Pode ser, no entanto aproveito para encerrar com o conselho que Luiselli costumava ouvir de seu porteiro (muito antes de pandemia): "saia de casa com frequência, passe o máximo de noites em lugares diferentes, pois assim você se conhecerá melhor."

03/03/2020

[alinhavando] Immerse your soul in love #01

Era uma vez... Um príncipe e uma princesa que, perdidamente apaixonados, casaram-se e viveram felizes para sempre? Pff, claro que não. Era uma vez um amável final de semana cujo sentido ainda está por vir. Essa história pode ser contada a partir das entradas do diário de nossa heroína.


Sábado de manhã
Ao retomar a leitura da coletânea de contos do Tchekov, me deparei com um conto intitulado "Do amor". Prontamente escapou da minha boca um "eita, isso não vai dar certo", pois sei que as histórias de amor escritas pelo contista russo não são, digamos assim, dignas de comédias românticas hollywoodianas. Não; em matéria de amor, os contos de Tchekov matam na unha — ou com uma torta na cara. 

Logo na primeira página, tive uma surpresa:
"- Até hoje, sobre o amor, só foi dita uma única verdade indiscutível, a saber: que "grande é o seu mistério",
(...)
- Nós, russos respeitáveis, nutrimos uma predileção por estas questões que permanecem sem solução." 
                                        
 
                                                                                - Do Amor, Tchekov (Tradução: Tatiana Belinky)

Com essa leve rasteira, Tchekov me arrancou um sorrisinho maroto e fez desabar a guarda erguida com esmero. Daí, quando me dei conta, eu tinha sido trucidada por uma narrativa sobre o amor, construída a partir do não dito — gestos, olhares. No arremate apoteótico do conto, o mocinho corre para se despedir da amada no vagão de trem que a levará pra longe & pra sempre e, ainda que o casal nunca tivesse trocado uma única palavra sobre seus sentimentos até aquele instante (os dois sempre muito formais e socialmente irrepreensíveis, sobretudo porque a mulher era casada), é isto que acontece:
"Quando, ali na cabina, os nossos olhos se encontraram, as forças espirituais abandonaram-nos a ambos, eu a tomei nos braços, ela apertou o rosto contra meu peito, e as lágrimas correram dos seus olhos; (...)"
                                                                                   - Do Amor, Tchekov (Tradução: Tatiana Belinky)

Sendo discípula de Anna Akhmátova, entrei nesse conto com a partida já perdida.
     
     E, no entanto, meu coração nunca esquecera
     quem deu a própria vida por um único olhar.
                                 
                                                       — Anna Akhmátova

Sábado à tarde
Retornou-me à memória uma outra cena de amantes se despedindo numa estação de trem; especificamente aquela incluída na novelinha turca (vejo, não nego, etc. ®) a qual assistira na Netflix uns anos atrás. Bateu vontade de rever alguns episódios, e em consequência uma familiar pulguinha reapareceu atrás da minha orelha; por sinal uma pulga que sussurra nos ouvidos mistérios relacionados a determinados olhares dos quais - aprendi com a leitura da manhã - Tchekov manja bem.

A história de amor em Kurt Seyit ve Şura é daquelas que desanda de um jeito pavoroso, tal qual o meme "os dois a 80km/h" e a tal ponto que o "antes e depois" dos olhares do mocinho pra mocinha é este:


Como é possível? Que dinâmica é essa; segundo a qual um rapaz então super apaixonado por uma moça pode, após o mísero intervalo de alguns anos, olhá-la com o evidente desejo de agarrá-la pela cabeça e arremessá-la contra a parede? Suponho que os russos estejam realmente corretos: amor, como é grande seu mistério. A menos que... Sim!; pois, se o amor é um mistério, como posso garantir que essa novela turca é uma história de amor?

Sábado à noite
Dado o perfil das histórias que marcaram meu dia, é justo que o título A Man in Love tenha me saltado aos olhos, no instante em que espiei o índice do meu novo livro de contos da Leonora Carrington.

Logo no início da leitura, fiquei abobalhada com um elemento compartilhado pelas narrativas de Tchekov (Do Amor) e Carrington (A Man in Love): os respectivos protagonistas (e narradores) são homens apaixonados tomados pela premente necessidade de contar as histórias de amor que viveram. O autor russo escreveu "Parecia que ele queria contar alguma coisa.", enquanto a autora inglesa escolheu "I want to talk, I want to tell my story." Não é curioso?

O conto de Carrington me lembrou demais o segundo episódio da primeira temporada da série de TV Hannibal, no qual o assassino da vez enterra as vítimas vivas (não me pergunte), a fim de servirem de adubo para uma plantação de cogumelos (repito: é inútil me perguntar). Em A Man in Love, a amada do narrador encontra-se deitada numa cama, sem se mexer, falar ou comer há 40 anos; de modo que o cara não sabe se a mulher está viva ou morta, especialmente porque o corpo permanece quente - o homem até choca uns ovos sob o corpo dela. Quando a ouvinte da história bate o olho na sujeita largada na cama, ela sugere ao leitor que ali jaz uma defunta. O narrador do causo, na dúvida, diz que rega diariamente a graminha que brota por todo o leito onde repousa a amada. Maluco & Macabro? Bom, no universo surreal da Carrington, as coisas (des-?)funcionam desse jeito mesmo; tudo normal. Acrescento apenas que aquele singelo panfletinho de rua, que certa vez cruzara meu caminho ("O amor tem que ser que nem Ipê, florecer toda vez que parecer morrer), adquiriu novos significados (nem tão singelos), depois dessa narrativa da Carrington. Se panz, melhorou demais a qualidade do panfleto.

*

                                                                  
 - Chimamanda Ngozi Adichie (falando sobre Americanah)

Domingo de manhã
Dia de ver o filme novo do Adam Driver na Netflix. (Não curto muito o diretor, maaaas:) Yay! 

2 horas e 17 minutos depois, esta cena permaneceu aporrinhando meu juízo:

Em menos de 24 horas, tive de encarar a reprise daquele olhar tenebroso (versão "depois") do protagonista turco; dessa vez, no entanto, acompanhado da verbalização de seu significado: quero que você morra! Beleza. Se a Scarlett morrer, o Adam regará o leito dela por quarenta anos, assim como fez o protagonista da Carrington? E é sempre o homem que, em dado ponto da relação, comporta-se dessa maneira, é? Sei, sei. Digo, não sei merda nenhuma. Apelei para entrevistas do Noah Baumbach no You Tube (sobretudo por conta dos sabidos elementos autobiográficos), e o camarada está afirmando que o filme é uma história de amor contada a partir da narrativa do divórcio. Ao mesmo tempo que compreendo a proposta, não consigo apaziguar o desassossego que ela provoca.

Domingo à tarde
Assisti ao filme Cold War (Pawel Pawlikowski, 2018), crente que era apenas mais um filminho sobre a Guerra Fria. Que tonta. Na real, é uma história de amor (?) em que o casal vive o dilema "ruim juntos, pior separados", o qual é levado às últimas consequências. O amor precisa ser tão complicado? O excesso de complicação pode ser usado como critério de exclusão para diagnóstico de amor? 

No mais, o filme firmou diálogo com aquele conto da Carrington. Explico. Antes de cair no estado de morta-viva/viva-morta, a mocinha de A Man in Love declamara ao amado "I love you so much I live only for you", enquanto a protagonista polonesa de Cold War promete ao amante algo bastante próximo:


Percebo que os romances do fim de semana estabeleceram um outro paralelo sinistro. De um lado, homens "apaixonados" (pero no mucho más) querem que a amada morra; do outro, mulheres apaixonadas fazem juras de viver e morrer pelos respectivos amados. Inegavelmente rola aí uma harmonização de intenções; porém, se amar for isso, náh, acho que prefiro ficar fora da brincadeira. Acho. Pô, eu seria a parte que morre na história! Eu hein.

Domingo à noite
Assisti ao penúltimo episódio da série Watchmen. Perto do final, após Angela dizer que não começaria um relacionamento sabidamente fadado à desgraceira, o Azulão a confronta com esta pergunta:


Hum, os romances ficcionais que cruzaram meu caminho neste fim de semana de fato acabaram +- em tragédia; mas por que todo relacionamento ficcional precisa terminar em tragédia, meu deus? E, depois da tragédia, parece que sobra uma doce memória que fomentará uma história da carochinha pra contar, conforme sugerido pelos contos de Tchekov e Carrington. Ah, e uma historinha contada pelos homens, já que as mulheres morrem no final. (Agora me pergunto: e casais gays? Sei mais nada.)

P.S.: mas então todas as obras do Lindelof falam de amor? Sei que The Leftovers (melhor série, forever and ever, amen) é uma delicada história de amor, e Watchmen agora sinaliza seguir o mesmo caminho. Daí Lost, no frigir das fumaças negras e ursos polares de ilhas tropicais, é mesmo uma história sobre o amor, né? Caramba, hein. Bem que a Chimamanda disse: toda literatura (eu: - ficção) é sobre o amor. 

- Lindelof, meu caro, eu nunca falei mal do final de Lost. [*Narrador em off*: - a safada mente] Se depender de mim, sua carreira continuará gloriosa.


Por ora, a história termina aqui. Com sorte, algum sentido será revelado nos próximos capítulos, mediante ajuda de um punhado de livros selecionados para compor a pilha Immerse your Soul in Love.
Até um *possível* próximo post desta série. 

06/01/2020

[alinhavando] That girl needs therapy, purely psychosomatic

🧵

Goethe x Adam Driver/Kylo Ren/Ben Solo?! Creio que me superei nessa. O ponto de partida dessa proeza é a coleção de olhares categoria fatality® que o senhor Adam Driver, no papel de Kylo Ren, manda pra cima da Rey, interpretada por Daisy Ridley. Queria mesmo era ter incluído aqui um gif de boa qualidade com os olhares dele na sequência final do Episódio IX (- que interpretação, senhor Motorista Adão; obrigada demais), porém, como esse precioso material permanece indisponível no estoque da internet, colei apenas duas olhadelas do Episódio VIII (há várias totalmente excelentes). Enquanto apreciadora de filmes que privilegiam expressões corporais e faciais de atores, em detrimento de diálogos (♪ no alarms and no surprises, siiiiilence ♩; Club Silencio etc), afirmo que a performance de Driver em Star Wars representa um case de sucesso a ser seguido pelos profissionais da área. Por sinal, com esse exemplo, constatei uma vez mais que um ator talentoso pode operar belos milagres à custa de fracos roteiros. Bonito ver.

Neste período em que padeço de nova exacerbação da Adam Driver Fever Syndrome, leio, pela primeira vez, o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther (oportuno, hein?). Não finalizei a leitura, entretanto já acumulo assustadores indícios de que possivelmente eu seja a reencarnação do Werther no século XXI. Quanta coisa isso explicaria... Bom, dentre esses indícios, consta justamente o fato de que o mocinho Werther sabe do que eu falo, quando eu falo de olhares categoria fatality®. Mande aí por mim, Werther:
"Sim, seria preciso possuir o talento do maior poeta para traduzir a expressão dos seus gestos, a harmonia da sua voz e o fogo secreto de seu olhar. Não, nenhuma linguagem seria capaz de exprimir a ternura que anima seus olhos e suas atitudes. Tudo o que eu pudesse dizer seria grosseiro e rudimentar. (...)
Como a gente é criança! Quanto não creditamos a um simples olhar! Como a gente é criança!
 
                         - Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther (tradução: Marcelo Backes)
🧵🧵
Tive a feliz surpresa de encontrar, nos livros de Tokarczuk e Houellebecq, delicadas reverberações
do alinhavo que publiquei em 04/10/19 sobre a observação de animais.

Considerando-se o teor dos comentários a respeito de Houellebecq que eu havia previamente ouvido, confesso que jamais imaginei que Serotonina (minha primeira leitura do autor) teria um protagonista deprimido que alcança paz de espírito mediante a singela observação de vaquinhas. Especialmente aos críticos de plantão do escritor (😁), colo a tocante passagem:
"Fracassei na tentativa de desenvolver uma emoção estética real diante das paisagens alpinas, mas me afeiçoei às vacas, pois cruzava muitas vezes com um rebanho indo de um pasto para outro. (...) Amplas e majestosas, as vacas normandas eram, e a existência parecia ser mais que suficiente para elas; foi com essas vacas normandas que entendi porque os hindus consideravam sagrado esse animal. Durante os fins de semana solitários que passei em Clécy, dez minutos contemplando um rebanho dessas vacas entre os arbustos ao redor me bastaram para esquecer (...)."
                                        - Michel Houellebecq; Serotonina (tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)

Por sua vez, a fabulosa protagonista de Tokarczuk acessa (ou tenta) a realidade que se desvenda a partir da observação de morcegos. Trecho lindo, lindo:
"Tenho muita vontade de saber como os morcegos veem o mundo; queria, ao menos uma vez, sobrevoar o planalto em seu corpo. Como todos parecemos aqui embaixo quando somos vistos por seus sentidos? Como sombras? Ou um feixe de vibrações, fonte de ruído?
À noitinha me sentava diante da casa e esperava até que aparecessem, voando um por um desde a casa dos professores, visitando-nos em seguida. Acenava delicadamente, cumprimentando-os. Essencialmente, tinha muito em comum com eles-- eu também enxergava o mundo em outras frequências, às avessas. Eu também preferia o crepúsculo. Não prestava para viver ao sol."
                               - Olga Tokarczuk; Sobre os ossos dos mortos (tradução: Olga Baginska-Shinzato)

Além disso, é importante ressaltar que tanto a polonesa quanto o francês incluem, em suas respectivas narrativas, descrições de cenas de horror relacionadas à crueldade cometida contra animais em fábricas de produção em massa: Tokarczuk escolhe casacos de pele de raposa; Houellebecq, uma nefasta granja.

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Visto que a ilustração na capa do livro da Rooney antecipa uma possível história de amor, avaliei que, antes de lê-lo, seria prudente me precaver e calcular bem os riscos. Somando 1= a Rooney é ovacionada como porta-voz dos millennials + 1= a internet garante que millennials não transam (links: x, x, x), cheguei à conclusão =2: Normal People não será gatilho pra mim, pobre vítima do celibato involuntário. Ah, a ingenuidade da leitora. Eis que transcorreram-se três meses desde o término da leitura, e eu permaneço #triggered! (😁) Por quê? Ora, porque o casal concebido por Rooney transa todo dia, toda hora. Os dois são pau pra toda obra (*trocadilho não intencional; acho). Ainda que a moça do livro demonstre um gosto por práticas masoquistas que não parece ser daquele tipo divertido; no geral, eu diria que sexo não é um problema na vida dos dois protagonistas de Normal People. Já a comunicação... Connell e Marianne convivem por cerca de uma década (esquema ioiô), no entanto praticamente se desconhecem.

Serotonina, um dos consolos literários ao qual apelei posteriormente, cumpre seu papel ao me apresentar um Gen-X fracassado na, digamos, seara amorosa. O alinhavo com o livro da Rooney surge em decorrência da fascinante (e cômica? sei lá) teoria do protagonista de Houellebecq a respeito do sexo: sexo é a solução para todos nossos problemas. Pelo menos, é o que o cara diz:
"(...) vão me acusar de dar uma importância excessiva ao sexo; não concordo. (...) a passagem pelo sexo, e por um sexo intenso, continua sendo obrigatória para que ocorra a fusão amorosa, nada pode acontecer sem ele (...) Poderia ter informado, com mais pertinência, que os dois já não transavam e que era este o núcleo do problema, (...) e Aymeric sabia, com sexo tudo pode ser solucionado, sem sexo nada tem mais jeito (...)"
                                        - Michel Houellebecq; Serotonina (tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)

Portanto este é o imbróglio no qual me meti:
- de um lado, uma autora millennial bola um casal djóvem dos anos 2000 que, embora altamente transante, não se comunica e se trumbica (entreguei minha geração?);
- do outro lado, um autor gen-x bola um protagonista quarentão que, em meio à disfunção erétil + prejuízo da libido provocadas por antidepressivo, defende que não há neurose conjugal que não possa ser resolvida com sexo;
- e a cerejinha no topo é a constatação de que, com transa ou sem transa, todas essas personagens estão na merda.

Não sei sair dessa. Talvez caiba o chatão discurso vazio "trata-se de achar o meio-termo: transar e conversar na medida", ou então a lógica "todo casal feliz transa, mas nem todo casal que transa é feliz". De todo jeito, essa conexão que se estabelece entre as narrativas desses dois autores ficou bem engraçada, sobretudo porque o livro do Houellebecq discute bastante  (de modo não explícito) as oposições entre gerações (apesar de destacar Boomers & Gen-X).

🧵🧵🧵🧵


Já que, aparentemente, transantes e não transantes estão mentalmente lascados, buscando respostas nos animais e recaindo em comportamentos infantis ao receber qualquer olhadinha algo ~diferenciada~, resta o quê? Apelar pra remedinhos e terapia? Não sei, mas a atual onda de livros (e séries?) protagonizados por pessoas se agarrando nessas boias sugere que essa é a leitura que os autores contemporâneos têm feito da realidade. Visto que o universo por onde circulo é menor do que uma bolinha de gude, não me atrevo a contribuir com análises generalizantes, contudo ousarei contribuir com uma versão editada de minha experiência — afinal, isto é um blog e, conforme bem coloca a protagonista de Houellebecq; "(...) voltemos ao meu tema, que sou eu mesmo, não que seja especialmente interessante, mas é o meu tema."

Em Dependency, terceiro livro da Trilogia Copenhagen escrita pela dinamarquesa Tove Ditlevsen, fui apresentada a Geert Jørgensen, um psiquiatra que eu adoraria chamar de meu, dado o tanto que ele se aproxima de uma verdadeira fada madrinha da vida real. Explico:👉 Na cena 01, a jovem personagem Tove (o livro funciona como autobiografia) está super ansiosa porque não sabe o que fazer a respeito de seu casamento. Embora estivesse interessada em outro homem, ela não consegue encontrar coragem para pedir divórcio, pois sente-se, em certa medida, endividada com o marido, um editor bem mais velho que a ajudara a alavancar sua carreira de escritora. Então, certo dia ela queixa-se de não estar se sentindo bem, possível problema cardíaco, e o marido diz que deve ser mera ansiedade, daí agenda-lhe uma consulta com o Dr. Jørgensen. Depois que Tove expõe tudo que a aflige, qual é a conduta do grande psiquiatra? De saída, ele confirma que encontrar-se dividida entre dois homens é de fato uma situação interessante e declara que Tove tem mais é que se divorciar, pois aquele casamento dela não faz o menor sentido. Ele explica que a encaminharia para um sanatório (calma, tá tudo bem), no qual Tove permaneceria relaxando durante o tempinho necessário para que ele, Jørgensen, resolvesse as coisas para ela do lado de fora. Bicho, quando a Tove sai da clínica, ela só precisa assinar a papelada do divórcio, e sem que pra isso tenha trocado um "ai" com o esposo. Puxa, um psiquiatra que não apenas lhe diz o que fazer, como o faz por você! O cara atende a prece da Fleabag* ( = "-Tell me what to do!") e ainda dobra a meta! UÁÁÁÁÁÁÁ Nem para aí, pois na cena 02 a fada madrinha Jørgensen salva Tove de um assombroso relacionamento tóxico® e abusivo® → não darei spoilers, mas asseguro que esses adjetivos repetidos ad infinitum pela galera da internet se aplicam demais ao caso desse livro, quase literalmente até. (*= a propósito: outra millennial transante que está na merda.)

Essa história de Dependency ocorre na década de 40, outros tempos etc.; obviamente estou ciente de que não posso esperar que um psiquiatra resolva meus problemas por mim. No livro da Rooney, por exemplo, a psicóloga manda a real do que Connell poderia esperar do processo: 
"O que podemos fazer aqui na terapia é tentar trabalhar seus sentimentos, pensamentos e comportamentos. Nós não podemos mudar suas circunstâncias, porém podemos mudar o modo como você responde às suas circunstâncias. Entende o que quero dizer?"
                                                                  - Sally Rooney, Normal People (tradução tabajara: minha)

A despeito dessa consciência, é difícil abandonar o desvairado anseio de que o profissional me arrume as coisas, e possivelmente essa é uma das razões por que hoje tenho de incluir um "ex-" na frente da palavra "terapeuta". Aliás, Serotonina me fez recordar um papo curioso que tive com ela numas das sessões. O narrador de Houellebecq comenta a original ideia, tida pelos donos de uma cafeteria, de adotar a expressão happy hour traduzida pro francês = heures hereuses. Já pensou se aprontássemos o mesmo por aqui? "Aê, galera, partiu pra happy hour pras horas felizes"? Aposto que, se a gente usasse essa tradução no dia a dia, eu não precisaria ter explicado à ex-terapeuta porque uma sessão de terapia às 20h de uma sexta-feira (quando os "normal people" estão na happy hour) me faz sentir ainda mais "anormal". Ah, e nem preciso acrescentar que, assim que a lamúria saiu da minha boca, me toquei de que a própria terapeuta ouvia uma neurótica falar groselha às 20h de uma sexta-feira da vida dela, né? O legal é que, na sessão seguinte, a primeira coisa que ela me fala é que, durante toda aquela semana, ela esteve pensando no meu comentário relacionado às tais horas felizes. Quer dizer: ¯\_(ツ)_/¯. Heures hereuses? Qu'est que c'est?

Na hora de dar adeus à terapeuta, invoquei a alegoria do tabagista, dizendo-lhe com ares de fingida sapiência que, enquanto o próprio fumante não deseja efetivamente parar de fumar, qualquer tratamento para largar o vício esta fadado ao fracasso. A obra da Tokarczuk, por seu turno, me alertou que talvez uma outra alegoria tivesse sido mais apropriada à minha situação. Inclusive, com a leitura do Lendo Tchekov, ótimo livro escrito pela Janet Malcolm, descobri que, no conto Kachtanka, o contista russo também já havia narrado a mesma parábola sobre alienação (termo adotado pela Malcolm) que aparece em Sobre os ossos dos mortos. Refiro-me àquela do cãozinho que, após salvo de uma situação de maus-tratos, abandona o novo lar para retornar ao mau dono.
"Depois olhou pra mim com tristeza -- posso dizer com sinceridade que mirou meus olhos profundamente -- e correu às pressas para a casa de Pé Grande.
Foi assim que a cadela voltou para a sua prisão." 
                               - Olga Tokarczuk; Sobre os ossos dos mortos (tradução: Olga Baginska-Shinzato)

É, suponho que meu hasta la vista, baby foi assim. Olhei a terapeuta com olhos de desculpas e voltei para a ordinária realidade que conheço bem e à qual já me habituei (é, e ela responderia que, se eu tivesse realmente me habituado, eu não a teria procurado. e depois diria que eu continuo querendo adivinhar o que ela está pensando. E depois, e depois, e depois...). Hum, taí, quem sabe a senhora Dusheiko não possa me ajudar? Astrologia, aqui vou eu!

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Estava prestes a passar a régua nesta postagem, quando me veio à memória The Sex has made me stupid, da Robots in Disguise, música que ouvi pra caramba durante a época em que ocorre a história narrada por Rooney. Trago-a pra cá, pois é perfeita para encerrar a primeira bobajada deste blog em 2020. Bora dançar, observar animais e suspirar com os olhares (e dotes vocais, é bom lembrar) do Adam Driver. E se não rolar transa, basta acionar o Doctor Manhattan Dildo®. 🎇Feliz ano novo!🎇