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18/04/2021

[alinhavando] I love you most of all, my favorite vegetable


Compartilharei algo tão constrangedor que, de antemão, suplico clemência ao tribunal virtual. Posto isto, lá vai: tive um sonho erótico com um chef de cozinha. O motivo dessa presepada, amigas e amigos, é o que eu mesma me pergunto. Na falta de outra explicação incontestável, abracei a teoria de que meu inconsciente decidiu seguir à risca o lema tempos difíceis exigem medidas extremas. Quê? Quem é o tal chef? Nem morta eu digo! Que vergonha, meu deus. Mas ok, darei algumas pistas; quem pescar pescou (só não espalhe, por favor): 1. conheci a pessoa num desses programas gastronômicos da Netflix, 2. ela é super andrógina (a observo com a cabeça inclinada pra esquerda: sim, é homem total; a observo com a cabeça inclinada pra direita: pera, é mulher?!) e 3. ela se assemelha a personagem de anime. Daí, quem acompanha o blog (∅) já sabe o que aprontei a seguir: pedi socorro à estante, em busca de livros cujo tema fosse Comida X Sexo — *além de dois filminhos de entrada e sobremesa. O que mais uma leitora besta poderia fazer? (sei bem em quais outras opções você está pensando.) O resultado surpreendeu, sobretudo porque a singela experiência ratificou que sexo nunca é apenas sobre sexo, assim como comida nunca é apenas sobre comida. (é sobre isso! ®) Conclusão óbvia, mas é sempre do óbvio que esqueço. Portanto, embora eu tenha começado esta postagem falando de sexo e comida, acabarei também percorrendo outros caminhos tortuosos. Vejamos aonde isso me levará.

"Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer (...). Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de "entrar em contato" íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades - e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro."

- Clarice Lispector; Temas que morrem 

🍑

O filme de entrada é Tampopo: Os brutos também comem spaghetti (1985; Jûzô Itami). Sim, finalmente assisti e valeu cada segundo. Itami faz uma espécie de colagem de sketches com abordagens variadas sobre comida; as quais se interconectam pela jornada central da heroína em busca de cozinhar o lámen perfeito. As breves narrativas que mais especificamente relacionam comida e sexo são ótimas, dentre elas aquela famosa, na qual amantes usam a boca para "jogar sinuca" com uma gema de ovo. Outra: galera fica bajulando o pêssego de Me Chame pelo seu Nome, quando, em 1985, já havia um japonês tascando na telona uma vovó espremendo a fruta, hein. Porém, sendo uma tonta romântica, é claro que a cena de que mais gostei foi aquela em que o gângster, morrendo nos braços da amada (os mesmos amantes da gema), descreve as comidas deliciosas que não mais comerão juntos. Vá se lascar. MAS meu sketch favorito do filme é, sem dúvida, o da mãe que, imediatamente antes de morrer, consegue preparar um último jantar para a família:

"Comam, crianças; é a última comida que mamãe preparou!"


O moço que subiu o vídeo para o You Tube o intitulou "cena mais triste de Tampopo", contudo, quando a vi, precisei pausar o filme, de tanto que ria da fanfarronice. É uma sequência cujo perfeito tom tragicômico/crítico-afetuoso raramente se vê por aí. Ah, e mil parabéns para a atriz, que está perfeita. Para surpresa de ninguém, Itami encerra o filme aproximando sua câmera de uma mãe que amamenta o filho. Era o prenúncio de que o primeiro livro desta minha empreitada não permitiria que eu escapasse do binômio mãe-alimento. Claro que uma postagem de blog que começa combinando sonho + sexo + comida desembocaria em mães, né? Maldito Freud dos infernos!

🍆

"Amor erótico não relaciona-se apenas a sexo. Freud pensava que sexo sequer referia-se a sexo. Sexo é sempre carregado de desejo, anseio, medo, fantasia, nostalgia. Segundo Freud, nossas vidas eróticas         começam bastante cedo, durante a infância. Aqui, mais uma vez, uma busca pelo desejo. Todos nós desejamos voltar ao seio materno, à união com o corpo de nossas mães, voltar para dentro do útero."

- Podcast History of Ideas BBC 4, Episódio What is Love?



A adaptação cinematográfica do livro de Laura Esquivel deixou marcas profundas em minha memória. Quando a vi, eu era uma pré-adolescente sem nenhuma noção do que eram metáforas ou sexo, logo imagine o nível de minha perturbação: por que eles estão pelados juntos numa cama? e a cama pegando fogo, enquanto os dois ficam aí parados, como se nada estivesse acontecendo! por quê?! o que diabo é isso? Fiquei tão apalermada, que sequer atinei de abrir a boca para pedir que alguém me explicasse (não lembro se vi com amigas ou com minha mãe). Não revi o filme para confirmar se a cena transcorre assim, mas definitivamente é o trauma que minha memória guardou — fast forward  hoje estou aqui, querendo queimar pelada numa cama, juntinho com um chef de cozinha andrógino e personagem de anime. ¯\_(ツ)_/¯ 

O livro, por sua vez, eu nunca havia lido. Estava ciente da premissa de uma cozinheira que, involuntariamente, transfere suas emoções para a comida que prepara, contagiando a todos que a experimentam (a manjada relação da comida com afetos, memória). O que eu não esperava é que o livro correspondesse à narrativa de um amor que, em meio à Revolução Mexicana, é impedido de concretizar-se em sua plenitude, devido à intervenção de Mamãe Elena, aquela que, pra mim, já é uma das maiores vilãs literárias de todos os tempos. Aliás, a escolha da expressão "Mamãe Elena", remetendo às alcunhas militares que combinam posição hierárquica + nome, não soa gratuita; bem como não é gratuito o fato de Mamãe Elena não ter amamentado Tita (não é que ela apenas não amamentou; ela não se incumbiu, de forma alguma, da tarefa de alimentar a filha, quando bebê). Um instante; noto que estou atropelando o raciocínio, sem nada explicar. Bom, Mamãe Elena era a generala dos de la Garza e, como tal, exige o cumprimento de uma velha tradição mexicana (real? ficcional?): a caçula da família jamais se casa, pois nasce para cuidar da mãe durante a velhice. A parada é mais sinistra, dado que Mamãe Elena não apenas proíbe que Tita se case com Pedro, como arquiteta que o mancebo se case com Rosaura, sua outra filha. E não é só isso! Mamãe Elena obriga Tita a preparar os pratos do casamento, Mamãe Elena acha que a filha a envenena com a comida que cozinha; Mamãe Elena critica tudo que Tita faz; ora, Mamãe Elena, até depois de morta, aparece feito fantasminha para infernizar a vida de Tita. Droga; percebo que, por mais que me esforce, falharei em expressar a contento quem era essa personagem; de modo que apelarei para um velho meme caducado: só quem leu o livro sabe quem é Mamãe Elena, espantosa encarnação literária do arquétipo da mãe castradora.
"Nesse momento pensou no bom que seria ter a força de Mamãe Elena. Ela matava assim, de uma cutilada só, sem piedade. Bom, ainda que pensando bem, não. Com ela, tinha feito uma exceção, tinha começado a matá-la desde criança, pouco a pouco, e ainda não lhe dera o golpe final. (...) Indubitavelmente, tratando-se de partir, desmantelar, desmembrar, devastar, desjarretar, destruir, desbaratar ou desmamar alguma coisa, Mamãe Elena era mestra. (...) Ao lado da mãe, o que suas mãos tinham de fazer estava friamente determinado, não havia dúvida."

                                              - Laura Esquivel; Como Água para Chocolate (tradução: Olga Savary) 

Essa figura materna criada por Esquivel me remeteu a dois marcantes relatos envolvendo mãe e filha, ambos vividos e compartilhados por duas autoras que têm relacionamentos complicados com suas mães. No livro Dear friend, from my life I write to you, in your life; Yiyun Li conta que era bastante apegada a um casalzinho de hamsters, presente da irmã, e que, certo dia, eles desapareceram. O esquisito sumiço foi esclarecido quando sua mãe lhe confessa simplesmente tê-los doado, porque Li estaria obcecada demais pelos bichos, incapaz de demonstrar a mesma devoção aos pais. Já no livro The Odd Woman and the City, Vivian Gornick relata que, na infância, sua mãe sacara uma tesoura para cortar a parte de tecido que cobria o peito de um vestido que a autora muito queria usar para ir a uma festinha, momento de intensa ira em que acusava Gornick de ser uma filha sem coração. Pronto, acho que agora, sim, consegui expressar a que tipo de mãe me refiro.

Para retornar ao livro de Esquivel e trazer a comida de volta ao papo, resta destacar que, naquele contexto (Revolução Mexicana, mãe castradora), portanto, o prazer de preparar e comer um prato gostoso (o prazer de amar, de transar livremente) surge como o contraponto a cenários austeros e autoritários. A comida é a celebração da liberdade de desejar, de viver plenamente os desejos, de gozar, de sentir prazer na vida e pela vida. Opa!, suspeito de que Esquivel matou a charada do meu inusitado sonho, dado o atual momento histórico do país tropical onde, em fevereiro, não tem mais carnaval. Que coisa; e nem curto carnaval.

🍌

" Você parece uma criança com fome, a quem se ofereceu ravióli. "Não", você diz, "quero um bife". Minha cara, você está com fome, coma esse ravióli.

— Não estou tão faminta assim.

— Estamos famintos o tempo todo, Senhorita Hudson."


Filme: Quando o Coração Floresce (1955, David Lean)



Uma vez que não rola bacanal na festa de Babette, dei com os burros n'água ao escolher esse livro, porém fui presenteada com a batalha do ano: Blixen X Lebowitz - Comida é arte ou não é?! Este post já está longo demais, para que eu comece a devanear sobre o caráter artístico da comida (sei lá se é; porém, nessa treta, aposto minhas fichas na Blixen); contudo serei vacilona e aproveitarei a deixa para trazer outra pista relacionada à identidade do chef onírico: o moço curte replicar, nos pratos que monta, pinturas famosas — certeza de que ele considera comida uma forma de arte. 

Embora não haja sexo no livro de Blixen, sabe em que ambiente a autora decide narrar o grandioso banquete de Babette? Num fiorde da Noruega, entre os membros de uma seita eclesiástica devota que renunciava aos prazeres deste mundo. Ou seja, Blixen usa a comida como recurso narrativo similar àquele de Esquivel, conferindo-lhe a força capaz de se opor a um meio ascético e estéril. Achei fascinante, em especial, confrontar as reações ao banquete dos membros da seita com a do convidado externo; uma distinção sugestiva de que a relação com a comida - com a arte - é necessariamente uma via dupla: ao cruzar com uma obra de arte, é preciso estar com os sentidos abertos, a fim de se alcançar a graça. Talvez seja uma interpretação estapafúrdia, entretanto realmente me pego questionando se esta não seria a outra mensagem enviada por meu inconsciente na forma do peculiar sonho erótico; digo, ele tenta me lembrar de que deseja estar disponível para a graça ou, tomando emprestadas aquelas palavras (lá em cima) de Lispector, anseia entrar em contato íntimo com o que existe.
"(...) essa mulher está transformando um jantar no Café Anglais numa espécie de envolvimento amoroso daquela categoria nobre e romântica na qual a pessoa não mais distingue entre apetite ou saciedade, corporal e espiritual! 
(...)
"Não, nunca vou ser pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista, madames, nunca é pobre."

                                                    - Karen Blixen, A Festa de Babette (tradução: Cassio de Arantes Leite)

 🍩



Galera propagandeia o História do Olho como "um livro de altas putarias doidase, por azar, não me apareceu um leitor prestativo para alertar que não é exatamente isso e que vale a pena preparar-se emocionalmente antes da leitura. Concordo que avisos de gatilho são meio tontos, mas, neste caso, apenas defendo que o descompasso nos discursos de divulgação acerca do livro de Bataille não deveriam prosperar. Honestamente, fazia tempo que eu não terminava uma leitura num estado tão consciente do peso sobre meu peito. 

Ano passado, li a Trilogia dos Gêmeos, da húngara Ágota Kristóf (grande favorito de 2020) e fiquei perplexa com o quanto livros que mal abordam diretamente a guerra permitiram que, afinal, eu me aproximasse do que efetivamente significa viver, não, sentir uma Guerra Mundial. Sim, acredito que aquela leitura foi o mais próximo que cheguei de tocar uma experiência de guerra, a qual usualmente me parece surreal em demasia, para que eu a capture. No entanto, eu fracassava ao tentar desvendar de que maneira a talentosa autora tinha conseguido tamanha façanha. Em busca de resposta, ainda em 2020 catei o Guerra Aérea e Literatura, de W. G. Sebald, que, embora tenha me auxiliado bastante, acabou revelando que o autor alemão tem tantas perguntas quanto eu, no que refere-se a como poderíamos escrever/narrar experiências traumáticas intensas, como as da segunda guerra. A esse respeito, Sebald disse algo (numa entrevista) que chamou minha atenção e que registrei em meus cadernos: "a única forma com a qual pode-se abordar essas coisas é obliquamente, tangencialmente por referência, em vez do confronto direto." Eis que agora, ao ler um "livro de putaria", travei contato com um texto que complementou e ampliou as reflexões que me foram proporcionadas por Kristóf e Sebald:
"De forma geral, não me detenho muito nessas recordações. Passados tantos anos, já perderam o poder de me afetar: o tempo neutralizou-as. Só puderam recobrar vida deformadas, irreconhecíveis e ganhando, no decorrer de sua transformação, um sentido obsceno."

                                                  - Georges Bataille; História do Olho (tradução: Eliane Robert Moraes) 

Pronto, a combinação das perspectivas de Sebald e Bataille é exatamente o que Kristóf me parece ter feito na escrita da Trilogia dos Gêmeos: ela evitou o confronto direto com a guerra; deformando a memória, tornando-a irreconhecível (inclusive, deformando a própria narrativa, deformando a realidade das próprias personagens). A propósito, não é o mesmo recurso usado pelo inconsciente, na conformação dos sonhos? Meu sonho erótico com o chef de cozinha não foi um mero sonho erótico. Curioso, não? Durante a leitura de livros cujos autores se valem desse artifício, o leitor não consegue delinear com clareza a memória original, mas os sentimentos atrelados a ela tornam-se intensamente vívidos. No caso do História do Olho, o texto puro é realmente uma sequência crescente de putarias pervertidas, algumas vezes até imorais, contudo a narrativa de Bataille, nem por um instante, deixa de reverberar sentimentos de dor, medo, angústia, sofrimento, desespero, melancolia, vazio > o possível olho do título, teorizo. Para quem discorda de que sexo nunca é apenas sobre sexo, eu sugeriria a leitura dessa obra.

Para abandonar o tom meio depressivo, ousarei pinçar uma bela passagem do História do Olho que, confesso, provavelmente alimentará meu inconsciente na criação de novos sonhos libidinosos; sobretudo porque, no momento, o único passeio que tenho me permitido fazer, e adorado, são justamente passeios de bicicleta. Já imaginou, bicicletar pelada na companhia de um chef de cozinha charmosinho? Eita, lembrei de que, Em Como Água para Chocolate, Esquivel bolou uma cena à altura: cavalgar pelada, queimando de tesão. E aí, Morfeu? Vai a cavalo ou de bicicleta? 

Georges Bataille, História do Olho

🍳

A sobremesa que fecha o post é o filme O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1989, Peter Greenaway). Em seus diários (caderno de 1955), Alejandra Pizarnik escreveu "Lo que yo quisiera es vivir mi vida diurna entre libros y papeles y pasar las noches junto a un cuerpo.", e Greenaway, nessa obra, atende os desejos da querida poeta. Puxa, amantes transando entre livros e comendo comidas maravilhosas, preparadas por um tremendo chef de cozinha. Massa, né? Talvez nem tanto, pois o filme aparenta alertar que é prudente cuidar do apetite, pois, caso o Ego perca controle da ânsia de tudo engolir, poderá morrer pela boca; literalmente.

"Ele está morto. Encheram-lhe a boca com as páginas arrancadas de seu livro favorito."