13/05/2016

Os Filhos da Meia-Noite - Salman Rushdie

(Tradução: Donaldson Garschagen)

(Este livro
 Não. ................................................................................
.....|.....|.....ZZzzzZZzZzz.....|.....|.............|  Hummmmm, vejamos... ..........
................................................................ A história trata da... ...................Nope... AAAAaaaarghhhhh!.... |  |  | Calma. Ok. .................)
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Vixe, a Padma já está me fitando de soslaio com uma cara toda contorcida que denuncia claramente sua reprimenda implacável.

- Poxa, Padma, você ouviu a mesma história que eu, foi minha companheira de jornada; diga-me então como é que eu faço para resumir, em poucos parágrafos, o que Salim Sinai (pra quem preferir: Catarrento, Cara-suja, Buda, Farejador, Capitão) nos contou? E o desafio maior: como fazer com que meu relato esteja à altura da grandiosidade da história de Salim? Não sei nem como começar.

- Ué, comece do começo, que o resto se resolve.

- Do começo? Bom, acho que tudo começou com um lençol furado, certo? Começo por ele?

- Tá; é, pode ser. Apenas desembuche logo, pois ninguém tem tempo para esperar, não. Fora que ninguém vai ler suas impressões, só eu; e você sabe que sou uma crítica bastante generosa e razoável.

- Talvez você até seja razoável; mas não é nada paciente. O senhor Sinai teve muita tolerância contigo; falo mesmo. (...) Tudo bem, então tinha um lençol furado na Caxemira. Você já esteve na Caxemira? Não?  Nem eu, mas parece ser um lugar muito bonito...

- Mas e o lençol, Daniela? 

- Eita, Padma; mas será possível que não posso fazer nenhuma digressãozinha? Certo, certo. Bom, foi através de um lençol furado que o Dr. Aadam Aziz apaixonou-se pela, comoquechama, Nasim Ghani - futura Reverenda Mãe - e, com ela, deu início à linhagem que fora-lhe profetizada por Tai, como já bem sinalizava o patriarcal nariz do doutor. O casal Aziz teve cinco filhos, dentre os quais havia Mumtaz que, após casada com Ahmed Sinai, passou a chamar-se Amina Sinai. E em 15 de agosto de 1947, exatamente à meia-noite, nasceu o filho do casal Sinai: Salim Sinai, o contador de nossa extraordinária história. 

Salim pode até ser nosso protagonista, porém ele definitivamente não estava só: à meia-noite, houve joelhos e um nariz, um nariz e joelhos. Entre a meia-noite e uma da manhã do dia 15 de agosto de 1947, nasceram 1001 crianças, das quais 581 sobreviveram para constituir a futura Conferência dos Filhos da Meia-Noite (CFM). Tudo que elas quisessem ser, elas seriam; pois eram crianças especiais que, em virtude de alguma força sobrenatural ou mera coincidência, possuíam características, talentos ou faculdades que só podem ser descritos como miraculosos. 

Neste ponto, faz-se mandatório esclarecer que a conexão das nossas personagens com os acontecimentos narrados não ocorre apenas no campo literal. A verdade é que suas presenças e ações ligam-se à própria História ativo-literalmente, passivo-metaforicamente, ativo-metaforicamente e passivo-literalmente. Parece complicado? Pode até parecer, mas não é. 

Para assumir o posto daquele "começo" que Padma me sugeriu, eu escolhi o lençol furado que dera início à linhagem de Salim, contudo eu também dispunha de outra opção igualmente válida: o "começo" de uma linhagem paralela, o qual corresponde à colônia primeiramente portuguesa e posteriormente britânica chamada Bom Bahia. Essa colônia originou, oficialmente à meia-noite de 15 de agosto de 1947 - Pois é! Coincidência? -, às custas de sangues derramados e confundidos com mercurocromo, o país independente Índia, do qual depois nasceu a nação muçulmana Paquistão e mais outra, futuramente, chamada Bangladesh. Portanto, em certo sentido, as vidas da linhagem de Salim e de todos os filhos da meia-noite entrelaçam-se - literal, metafórica e indissoluvelmente - à história dessa linhagem paralela de nações. 

Você está familiarizado com a história da Índia? Um país que mais parece uma torre de babel, um caldeirão de dialetos, crenças religiosas e políticas? Numa nação como essa, talvez seja mais fácil acreditar que aquelas crianças da meia-noite realmente poderiam ser tudo que elas quisessem. Ou não? E se tomarmos a ligação metafórica, provoca-se ainda a pergunta: a Índia também poderia ser tudo que ela quisesse? Ela conseguiu? Eis as questões. De qualquer modo, conhecendo-se a história desse país durante o século XX, é possível antever, com pequena margem de erro, como transcorreu a jornada dos filhos da meia-noite e, em última instância, a de Salim Sinai e sua família.

No site Todo Prosa, li que Rushdie afirmara, em referência ao clássico Dom Quixote, que "uma obra literária não tem que ser apenas cômica, trágica, romântica ou histórico-política: se for concebida direito, pode ser muitas coisas ao mesmo tempo”. Sou obrigada a concordar com ele, pois Os Filhos da Meia-Noite consegue, de fato, ser tudo isso.
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- E que mais?

- Como assim "e que mais", Padma? É só isso aí. Já acabei.

- Mas, mas... Tem muito mais, Daniela! Você deixou de fora um tantão de coisas, menina. E as serpentes? E a escarradeira? E o Colibri? E a Jamila Cantora, ex-Macaca de Cobre? E a Mary Pereira, que mudou o destino do nariz e dos joelhos? E a Viúva? E o Sundarbans? A Purificação? A assustadora Emergência? A Bruxa Parvati? Shiva? E o orelhinha de abano? E o meu picles?! E euzinha??!!

- Padma, você acha mesmo que eu teria condições de incluir tudo aqui; 600 páginas em um post de blog que, como você mesma disse, ninguém vai ler? Claro que não.

- É, acho que você tem razão. Mas eu gostei mais do relato do meu Salim.

- Lógico. Até eu prefiro o dele. E, Padma, mudando de assunto: você acha que tudo que ele nos disse é verdade? Será que o Salim aumentou muitos pontos no relato do conto fantástico dele?

- No início, fiquei meio cabreira com algumas coisas, admito; mas depois fiquei pensando: faz diferença saber se tudo ocorreu exatamente como ele nos contou?

- Sábio questionamento, Padma. Sábio questionamento.

07/04/2016

In Other Words (In Altre Parole) - Jhumpa Lahiri

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.; tradução p/ inglês: Ann Goldstein)


- Então a Jhumpa Lahiri mudou-se de mala e cuia para a Itália, a fim de aprender o idioma italiano? Conte-me tudo! 

A premissa corresponde a uma experiência tão fascinante e imensamente invejada, que não consegui evitar que esse livro furasse a fila de futuras leituras. Por si só, a empreitada na qual Lahiri se mete prenuncia um rico relato, mas o caso reserva algumas particularidades que tornam tudo ainda mais interessante:

1. A decisão de Lahiri não foi (apenas) um mero ímpeto repentino de frivolidade. Ela esclarece que já estudava o italiano há 20 anos, impelida por uma paixão inexplicável (e não exatamente mútua, certo?) que surgira após visitar a Itália pela primeira vez, contudo frustrava-se com o pouco progresso em direção à plena fluência; questão que ela atribuía ao fato de estar continuamente imersa no inglês. A autora vale-se de várias metáforas (figura de linguagem recorrentemente explorada no livro) para tentar explicar essa frustração, como a de sentir-se nadando em um lago (o italiano) sem jamais abandonar as margens (o inglês), a fim de aventurar-se em sua travessia.

2. A decisão de mudar-se para a Itália (com esposo e filhos, inclusive) foi mais radical do que parece, pois Lahiri impôs que a nova rotina dela naquele país implicaria falar, escrever e ler exclusivamente em italiano, rigorosamente. Por dois anos, portanto, ela distanciou-se completamente do inglês; de maneira que o próprio relato de sua experiência e reflexões -- com direito a dois contos inclusos nesse livro -- foi escrito em italiano. Nem mesmo a tradução da obra para o inglês ela quis fazer, deixando-a por conta da tradutora Ann Goldstein. 

3. Como filha de indianos criada nos Estados Unidos, Lahiri confessa que nunca sentiu pertencer completamente a qualquer idioma; sendo bastante impactante a maneira com que ela expõe esse sentimento de deslocamento e falta de pertencimento relacionados ao dialeto. Nos Estados Unidos, por conta de sua aparência física, não era-lhe incomum ter de encarar pessoas surpresas com o fato de que ela, como esperado de uma americana ("-What?!"), dominava fluentemente o inglês; enquanto na Índia, os parentes presumiam que ela não sabia se expressar de modo algum em Bengali, idioma com o qual ela comunica-se com os pais.

Nesse contexto, portanto, o relato de uma pessoa que deliberadamente, sem um motivo lógico evidente, adota uma nova língua, na tentativa de criar sua genuína identidade, torna-se muito bonito e significativo, sobretudo quando ela compartilha que, a despeito de todo amor e dedicação ao idioma, também na Itália ela acabaria por enfrentar as semelhantes barreiras presentes nos EUA e Índia. "- Essa moça com fisionomia indiana, famosa escritora americana, fala italiano? Irreal." 

"No one, anywhere, assumes that I speak the languages that are a part of me."
"All my life I've tried to get away from the void of my origin. (...) Change seemed the only solution. Writing, I discovered a way of hiding in my characters, of escaping myself. Of undergoing one mutation after another."

4. E o mais intrigante e fascinante: como e por que uma escritora decide abrir mão da crucial ferramenta de seu ofício, aquela que ela domina plenamente; trocando-a por outra nova, intimidante e desafiadora? Do meu ponto de vista de mera leitora, me parece um ato assombroso de tremenda coragem e imprudência. Ao longo do livro, Lahiri tenta atribuir um sentido a essa aventura aparentemente insana, refletindo sobre quais seriam suas motivações; citando, por exemplo, que a sua imperfeição e os obstáculos de difícil transposição inerentes ao novo idioma atuavam como um paradoxal estímulo inspirador. 

Claro, há casos notórios de escritores que escreveram em suas segundas línguas, mas a própria Lahiri ressalta que a situação dela possui diferenças significativas. Por exemplo: 

- transcorreram-se décadas, após a mudança para França, até que Beckett começasse a escrever em francês;
- Nabokov aprendeu inglês durante a infância;
- Conrad pôde absorver a língua inglesa durante um tempo significativo dos seus trabalhos em alto-mar, antes de tornar-se um escritor anglófono.

 E Jhumpa Lahiri? Bom, bastou um mísero ano morando na Itália para que ela já "ousasse" escrever em italiano.
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Em certo trecho, a autora cita este interessante comentário de um amigo (tradução livre)"uma nova língua é quase uma nova vida, pois a gramática e a sintaxe nos remanejam a uma lógica e sensibilidade diversas." Achei essa ressalva super certeira, pois eu, por exemplo, sempre me sinto como um outro "eu" ao me expressar em inglês e imaginei que, para um escritor, isso pudesse ser ainda mais problemático. Lahiri, porém, desdobra essa falsa impressão de forma extraordinária ao afirmar que, ao incorporar o italiano à sua identidade, ela submetia-se a uma metamorfose que representa, sim, um processo violento, mas regenerador. Representa a morte, mas também a vida


Lahiri falando, em italiano, sobre seu livro.