24/10/2016

O Fuzil de Caça - Yasushi Inoue

* (Link sobre o livro: info, sinopse etc.) (Editora Estação Liberdade / Tradução: Jefferson José Teixeira)


"Amar, ser amado: como são tristes nossos atos."
- Yasushi Inoue, O Fuzil de Caça.


Como mencionado na própria orelha da edição, a temática do livro - resumida de maneira rudimentar pela citação destacada acima - não é mesmo nenhuma grande novidade. Especificamente nesta obra de Inoue, ela é discutida a partir de uma relação extraconjugal que origina um complexo triângulo amoroso - também nada singular, correto? Só que, como igualmente referido pela orelha da edição, Yasushi Inoue parece conseguir, sim, atribuir originalidade a essa premissa através de uma forma e estética instigantes e engenhosas. A narrativa desenvolve-se mediante cartas redigidas por diferentes remetentes que, fortuitamente, caem nas mãos de um narrador personagem que somente revela-se no preâmbulo e epílogo. Além disso, a trama de O Fuzil de Caça é capaz de intrincar de modo interessante esse mote já tão familiar. 

Inclusive, pude montar com facilidade uma breve playlist (fim do post) de músicos que já cantaram lindamente a respeito dessa fatídica encruzilhada humana e, conforme os títulos das canções selecionadas sugerem, a conjunção usualmente preferida para construir a almejada união entre as possibilidades "amar"/"ser amado" é a "e". Contudo, suponho que esta pergunta seja válida: quantos de nós conseguem conciliar simultaneamente, na figura de uma mesma pessoa, essas duas perspectivas? Não seria mais realista e (possivelmente) confortante, no momento dessa confabulação, trocar aquele "e" pela conjunção "ou"? Amar "ou" ser amado? A citação do livro, não à toa, abriu mão inclusive de conjunção, preferindo uma vírgula. Ardiloso? Talvez seja, mas alerto que as reflexões propiciadas pelo livro prosseguem além desse ponto. Seria possível, ou até justo, contentar-se com uma das duas opções? Resgatando a música do Nat King Cole, parafraseando-a: aqueles que apenas amaram e aqueles que apenas foram amados aprenderam também algo maravilhoso ou frustraram-se ignorantes no meio do caminho? Trazendo, agora, essa discussão para o campo pessoal: encontrando-se na situação de poder escolher apenas uma dessas situações, você usufruiria do direito de escolha? Ficaria com qual? Preferiria abdicar das opções, caso não possam vir juntas no mesmo pacote? E aí?  (Admito que esse parágrafo exibiu uma sequência exagerada de pontos de interrogação, mas trata-se de um fenômeno corriqueiro. De boas leituras, costumo sair com várias perguntas cujas respostas não me vêm facilmente. Sendo assim, em vez de bater minha cabeça contra a parede, escolho jogar as inquirições no blog. ¯\_(ツ)_/¯)

A natureza japonesa, evidenciada aqui especialmente por montanhas, neve e mar, tem presença marcante no livro, interagindo com os sentimentos das personagens de modo semelhante ao que observei durante a leitura do Kawabata, aliás. A influência desse meio parece impor uma melancolia, solidão e tristeza mordazes, que contaminam até mesmo o leitor. No momento em que contemplei, no meio da leitura, o ambiente contrastante que me rodeava (quente, seco, árvores retorcidas, planície a perder de vista — cerrado brasileiro), veio-me subitamente a imagem contraposta da natureza do oeste americano no livro O Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy. Ambas as naturezas aparecem nas páginas desses dois autores de forma bela e poética, mas há diferenças pronunciáveis entre elas. Na obra de McCarthy, a natureza de tonalidade vermelha e quente é agente intermediária de uma violência notadamente rude, explícita e enérgica. Na obra de Inoue, por sua vez, a natureza reveste-se de uma tonalidade branca/azulada e fria, promovendo uma investida mais sutil sobre as personagens, confundindo-se com o afago de uma companheira que compartilha de seus descontentamentos. São naturezas opostas do ponto de vista geográfico e, percebo agora, literário.
"(...) A natureza ao meu redor se tinge subitamente com cores da tristeza uma ou duas vezes ao dia (...)" 



"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"



I used to wander all up and down
All up and down
Waiting for someone to love
A long time

A young man is allowed to yearn
But it took me so long to learn
That I needed not so much to be loved as to love





"To love - and be loved
That's what life's - all about
Keeps the stars - coming out
What makes a sad heart sing - the birds take wing"



"A girl needs to love and be loved"


"Llorare, al realizarse, mis sueños, pues, serán mis lagrimas, 
de felicidad, de amor, 
Siempre sola, presintiendo, que se acerca, invisible como el viento 
El amor, el amor, cuantos años van que se ha escondido así 
Y yo quiero amar, y ser amada"

14/10/2016

Vida e Proezas de Aléxis Zorbás - Nikos Kazantzákis

(Sobre o livro: info, sinopse etc.)  (Editora Grua; tradução: Marisa R. Donatiello e Silvia Ricardino)

◖(˘⌣˘)◗ ♫  Post com trilha sonora. Aperte o play: → 
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Senhores membros do júri leitor, a seguir, concederemos espaço para as alegações finais redigidas, respectivamente, pela acusação e defesa do livro Vida e Proezas de Aléxis Zorbás, escrito pelo autor grego Nikos Kazantzákis em 1946.

ACUSAÇÃO:

Senhores jurados leitores, não se deixem iludir pelas belas imagens e musiquinha da adaptação cinematográfica desta obra que foram exibidas como prova pela defesa. Por trás do cenário paradisíaco de Creta, das notas do santir e das singelas frases eventualmente proferidas pelo protagonista Zorbás, escondem-se significativos problemas dessa narrativa que merecem suas atenções críticas, pois são graves o bastante a ponto de estragarem substancial e categoricamente uma experiência de leitura que, de outro modo, poderia ser prazerosa.

Comecemos pela premissa: jovem intelectual de 35 anos, pessoa dos livros pouco experiente na vida (alter ego do Sr. Kazantzákis), vê-se atormentado por uma crise existencial sem saída evidente, até que encontra na figura de uma pessoa humilde - Zorbás, 65 anos -, dotada de inspiradora sabedoria acumulada pela rica experiência prática de vida, as respostas acalentadoras para suas angústias. Senhores jurados, sejam honestos e reflitam a respeito de quantas histórias desse tipo já cruzaram suas vidas como leitores ou mesmo como espectadores de TV e cinema. Francamente, senhores, essa trama já está mais do que manjada. Neste ano mesmo, no presente tribunal, nos dedicamos ao julgamento da obra do Sr. Tolstói que, através das personagens de Pierre e Karatáiev, explora essa exata premissa. E em 1865! 

Quanto aos ensinamentos de Zorbás, tão enaltecidos por sua suposta sabedoria grandiosa e esplêndida, não consigo identificar elementos que permitam comprovar tais alegações. Se considerarmos a elevada frequência com que o discurso desse protagonista flerta intimamente com a pieguice de livros ruins de autoajuda e, principalmente, que é possível resumi-lo plenamente através da expressão em latim Carpe Diem – entre nós desde antes de Cristo, senhores! -, como admitir que essa obra seja digna de seus preciosos tempos para leitura? Parece-me inconcebível.

Para finalizar, solicito máxima atenção para o que abordarei agora, pois trata-se da questão mais delicada e problemática desse livro. Em seu palavreado, o protagonista Zorbás manifesta, de forma reiterada, ideias explicitamente machistas e misóginas. Em 1946, é possível que a sociedade não tenha repudiado o tratamento reservado às mulheres por esse livro, contudo, setenta anos depois e em pleno século XXI, acredito que isso não possa mais ser admitido com tamanha benevolência. Segundo o tom da narrativa, prezado júri, - tomando a liberdade de parafraseá-la -, a mulher seria uma vaca vagabunda colocada no mundo pelo Diabo - e Deus! - para atormentar a paz dos homens de natureza elevada, os quais assumem a verdadeira representação da experiência humana na Terra. Mulheres seriam, ainda segundo a fala de Zorbás, umas miseráveis dignas de pena devido às suas supostas aspirações chinfrins e frívolas por um casamento, o qual só serve para aniquilar o homem. Simultaneamente, seriam vis e ambiciosas, uma vez que abririam as pernas para o mero chacoalhar da bolsinha de moedas. O destino fatídico e extremamente violento das duas personagens femininas secundárias – Madame Hortense e a Viúva - , ainda pior, parece apenas corroborar tais opiniões do protagonista. E toda a intelectualidade letrada do narrador personagem de nada serve para contradizer ou mesmo relativizar o discurso de Zorbás, uma vez que esse sujeito escolhe o silêncio e a mera observação. As passagens dessa natureza são inúmeras, prezado júri leitor, e apresento somente algumas como evidência:
"- Com os chifres do diabo vou fazer a mulher." - "Ele fez e nos danamos, Aléxis. Onde quer que você toque a mulher, estará tocando no chifre do diabo. Cuidado, meu filho!" 

"(...) aquela fogosa é como uma potranca: relincha quando vê um homem."
 

"(...) minha mulher sempre foi boa, obediente, pariu filhos homens e jamais levantou os olhos para me olhar na cara; (...)"
 

"Deixe as mulheres gritarem, são mulheres, não têm cérebro."
 

"Não veem nada, as vadias, só a mão que espalha o dinheiro."
 

"(...) a mulher não quer ser livre; a mulher é um ser humano, afinal? (...) Ela também é um ser humano, tanto quanto nós - e pior! No momento em que vê sua carteira, ela fica tonta, gruda em você, perde a liberdade e fica feliz com isso, porque por trás brilha sua carteira, sabe?"
Como se isso não bastasse, há ainda o tratamento grosseiro e aviltante concedido à população cretense, a qual surge nessas páginas como animais desprovidos de qualquer sentimento, moral ou ética.

Enfim, as evidências contra esse livro são diversas e consistentes, e tenho plena confiança de que a justa análise pelos senhores resultará em uma conclusão que não discordará de meu posicionamento. Obrigada.

 DEFESA:

Senhores jurados leitores, parece-me que a acusação chupou muito limão antes de comparecer ao presente julgamento. Estou realmente perplexa. Pois sabem o que eu recomendaria à nobre acusação? Justamente a leitura de Vida e Proezas de Aléxis Zorbás. Não a leitura superficial aparentemente já concedida, mas uma leitura permitindo-se imergir no verdadeiro espírito da obra e da alma de Zorbás.

Inicialmente, o desdém concedido pela acusação à ambientação da história na encantadora e paradisíaca ilha de Creta é incompreensível. Que tipo de azedume, senhores, resistiria ao mar de Creta; à areia fina com conchas e loendros floridos; à maresia, ao ar com cheiro de bagaço das caldeiras de aguardente; às figueiras, tamarindeiros, oliveiras, alfarrobeiras, limoeiros e laranjeiras, ao sol e à lua refletidos pelas ondas do oceano, à aldeia com suas pequenas casas caiadas e com solários, como crânios esbranquiçados enterrados na terra? Não duvidem, porque é exatamente para esse lugar que acabo de descrever que o autor grego os leva através da leitura desse livro. E sem que tenham de mexer um único fio de cabelo para isso! Não parece-lhes esplêndido?

Os leitores também não passam fome durante a viagem, pois a narrativa serve um farto e delicioso banquete mediterrâneo preparado por Zorbás; repleto de vinhos, queijos, azeitonas, romãs, pães, cebolas, queijos, figos secos, amêndoas, peixes... E todas essas delícias ainda são embaladas pelas harmoniosas e tocantes notas do santir de Zorbás – desde que ele esteja com a boa disposição que o instrumento exige, é verdade; pois a arte requer a plena dedicação do espírito. Não, senhores, a atitude da acusação em fazê-los desconsiderar tamanhos prazeres é inadmissível.

A imprudência da acusação em comparar aquilo que a narrativa pode nos ensinar – ou ajudar a refletir - a um mero livro ruim de autoajuda é igualmente bastante exagerada e equivocada. Observem esta imagem e texto, por favor:
A Mão de Deus - Rodin

          - O que está pensando?
          - Se fosse possível escapar!
          - E ir para onde? A mão de Deus está em toda a parte. Não há salvação. Lamenta isso?
          - Não. É possível que o amor seja a mais intensa alegria sobre a terra. É possível. Mas agora                     que estou vendo esta mão, eu gostaria de escapar.
          - Prefere a liberdade?
          - Sim.
          - E se só formos livres obedecendo à mão? E se a palavra "Deus" não tiver o sentido         
          descuidado que a multidão lhe dá?
          - Não entendo. - disse ela e afastou-se, assustada.

Os senhores avaliam que conseguiriam encontrar a formidável escultura de Rodin – A Mão de Deus – associada a esse diálogo em um livro qualquer de autoajuda? Eu presumo que não. Ademais, a redução das lições de Zorbás ao simples Carpe Diem apenas comprova a superficialidade da leitura realizada pela acusação. Nosso protagonista é capaz de demonstrar, através de simples, mas astuciosos, atos e colóquios, 1. PORQUE o famigerado Carpe Diem é tão importante, não devendo ser esquecido jamais; e, ainda, 2. COMO colocá-lo em prática. Costumeiramente, inclusive, não são as coisas mais simples que nos impõem as maiores dificuldades para aprendizado?

Além disso, a discussão proposta pela obra não restringe-se apenas àquela frase em latim, uma vez que aborda conceitos importantes e complexos como a liberdade, a morte, a religiosidade e, amplamente, nossa própria existência. Ao contrário do que seria mais fácil supor, o texto de Kazantzákis refuta admiravelmente a noção de que as religiões são o caminho impreterível para conquistarmos a felicidade e a resposta para nossas angústias existenciais. Duvido mais uma vez, senhores membros do júri, que isso seja o tipo de coisa facilmente encontrada em um livro qualquer de autoajuda. Pelo menos, não com a sensibilidade própria da prosa de Kazantzákis.

Quanto às acusações de que o texto é machista e misógino, esta defesa não ousará negá-las de maneira irresponsável, tendo em vista que as evidências são, de fato, bastante claras. Contudo, acreditamos que isso não seja razão para desqualificar completamente o valor dessa grande obra. Mediante arrazoada contextualização, a narrativa viabiliza um essencial debate e reflexão a respeito de como a mulher já foi e continua sendo tratada em nossa sociedade. Melhor do que ignorar um problema, fingindo que ele não existe, é encará-lo com a pertinente responsabilidade.

Por todo o exposto, estou convicta de que os senhores membros do júri chegarão a um entendimento concordante com nosso ponto de vista. Obrigada.

VEREDITO:

...
P.S.: Mas tenho certeza de uma coisa: adoro a ideia de poder dançar meus pensamentos desesperados. Como também já disse Thom Yorke ():

This dance 
Is like a weapon 
Of self-defense 
Against the present 
Present tense
(..)
As my world
Comes crashing down
I'll be dancing
Freaking out
Deaf, dumb, and blind

- Thom Yorke, The Present Tense.

Dança comigo?