09/02/2020

As Afinidades Eletivas - Goethe

Disclaimer e Créditos:
(1) As falas de Alberto Manguel são extraídas de sua obra Os Livros e os Dias (Companhia das Letras, Tradução: José Geraldo Couto);
(2) Os trechos de As Afinidades Eletivas são extraídos da edição que li: Companhia das Letras/Penguin Companhia, Tradução: Tercio Redondo.
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Daniela: Oi, Manguel. Tem um tempinho pra papear comigo sobre o livro As Afinidades Eletivas?


Alberto Manguel: Olá, Daniela. Claro que sim. A leitura, afinal, é uma conversa. Suspeito que você estabeleceu um diálogo com a obra de Goethe e que, agora, deseja emprestar realidade a essa ilusão através de uma conversa comigo. 


Daniela: É mais ou menos por aí, Manguel! 😉


Alberto Manguel: Bom, li pela primeira vez As Afinidades Eletivas – 25 anos atrás, pelo menos – depois de uma longa conversa com Bianciotti sobre La dispute, de Marivaux, que ele vira na produção de Lavelli e que eu perdera por não poder arcar com o preço do ingresso.


Daniela: #Quem.nunca deixou de ver um espetáculo devido à falta de grana, confere?  Mas admito que esta é a primeira vez que ouço falar nessa peça — o que diz mais sobre mim, do que sobre ela, óbvio. Qual é a sinopse?


Alberto Manguel: Como tantas outras peças de Marivaux, ela explora a natureza do amor: dois personagens aristocráticos desejam resolver a questão de quem tem mais tendência a ser infiel, o homem ou a mulher. Para chegar a uma conclusão, eles colocam quatro crianças em reclusão solitária, e cada uma fica aos cuidados de um casal de selvagens. Quando atingem a puberdade, elas se encontram. E os aristocratas, com distanciamento científico, podem observar e estudar seu comportamento.


Daniela: Que experimento bizarro. A hipótese e a metodologia têm toda pinta de peripécia do século XVIII. Suponho que deixar um bando de aristocratas com tempo livre nas mãos dá nisso, não é?


Alberto Manguel: Possivelmente. Porém, quando o experimento é concluído e os aristocratas estão prestes a fazer a travessia até a ilha onde as crianças são mantidas, eles param na cabeceira da ponte, e desce o pano.


Daniela: Eles amarelam no final?!


Alberto Manguel: Diria que eles hesitam, preferindo apenas observar, mas não experimentar.


Daniela: Entendi. Hum; se trouxermos essa premissa para o livro As Afinidades Eletivas, poderemos dizer que Goethe, por sua vez, obrigou suas personagens a levarem até o fim o experimento sobre o amor. O teste da validade da teoria química das afinidades eletivas, no campo das relações humanas amorosas, foi conduzido até as últimas consequências, de fato.


Alberto Manguel: Mas e você? Como chegou a este livro de Goethe?


Daniela: Por coincidência, também cheguei a partir de uma obra de ficção que, a meu ver, igualmente aborda a natureza do amor. Falo do filme Jules et Jim, do Truffaut (adaptação do romance homônimo de Henri-Pierre Roché). Já viu/leu?
Daniela: No filme, Jules, Jim e Catherine – as personagens nos vértices de um triângulo amoroso que estabelece interessante paralelo com o quadrado arquitetado por Goethe - leem justamente As Afinidades Eletivas (AAE); e, próximo ao final, Jim confessa a Catherine que conseguiu sacar "qual era a dela" graças às passagens grifadas por ela no livro compartilhado pelos três. Isso me deixou super curiosa pra ler a obra, sobretudo porque Catherine é uma personagem intrigante e relativamente difícil de ler. A propósito, é ela a responsável pela condução de ~experimentos~ práticos sobre o amor que, tal qual aquele de AAE, não dão lá muito certo. Quando se fala de amor, ao que parece, 3 e 4 são números capciosos. Se bem que, hoje, eu chutaria que inexiste número seguro no amor.


Alberto Manguel: Que um experimento esteja fadado ao fracasso não significa, por certo, que ele seja inútil. Inclusive está na própria natureza dos personagens de AAE que eles tenham de fracassar, e nesse fracasso repousa o sucesso do romance.


Daniela: A desgraça das personagens servindo ao deleite do leitor? 😁


Alberto Manguel: Mas AAE têm mesmo algo de enredo de telenovela que gira em torno de seus quatro personagens principais: os maduros Eduard e Charlotte, que


Daniela: EEEEEPA; alto lá, Manguel. Desculpe-me, porém sou obrigada a interrompê-lo. Sem dúvida Charlotte é uma pessoa madura; mas Eduard?! De jeito nenhum. A narrativa apresenta diversos elementos que denunciam a infantilidade dele. Acompanhe a listinha que compilei:
👉Eduard foi filho único,
👉ele casou-se pela primeira vez com uma mulher mais velha que o paparicava; ou seja, a primeira esposa assumiu a função de segunda mãe,
👉quando Charlotte resiste à ideia de convidar o Capitão para o castelo, o narrador afirma que aquela era a primeira vez que Eduard era contrariado — e bem vimos que ele rejeita o "não" como resposta,
👉ele é descrito como uma “alma inconstante”;
👉esta reveladora fala de Charlotte: "(...) pois, tendo ambos praticamente a mesma idade, tornei-me de fato mais velha por ser mulher, e você, como homem, conservou a juventude."

Daniela: Realmente encaro Eduard como um marmanjo que se comporta feito adolescente mala que não pode ser contrariado; cujas decisões são intempestivas e marcadamente passionais. Ele é um típico man-child.


Alberto Manguel: Bom, Goethe tinha a dizer o seguinte sobre o amor de Eduard por Ottilie: "Secretamente, ele havia se rendido por completo ao sentimento de sua paixão". Em certo sentido, isso é o equivalente emocional de uma auto-absorção disfarçada de paixão.


Daniela: THE SHADE! haha Concordo demais, Manguel.


Alberto Manguel:  E uma percepção de Charlotte que me deixou perplexo e encantado pode corroborar esse seu ponto de vista, pelo menos no que diz respeito à maturidade dela. Refiro-me ao trecho em que Charlotte discorre sobre "O Destino", quase no final do livro: “Há coisas a que o destino se opõe com grande tenacidade. É em vão que a razão e a virtude, as obrigações e tudo aquilo que é sagrado atravessam seu caminho: há de acontecer o que é justo para ele e que para nós parece injusto; ao fim e ao cabo, ele intervém decididamente, não importando a maneira como venhamos a nos portar." E então ela se dá conta da verdade, que soa como acusação: “Que estou a dizer? O destino quer simplesmente reconduzir a seu devido lugar meu próprio desejo, minha própria intenção, contra os quais agi de modo irrefletido. Não havia eu mesma pensado em Ottilie e Eduard como o mais acertado dos casais?"


Daniela: Abri aqui meu livro, Manguel, e realmente encontrei esse trecho grifado com a cor que reservo às questões chave nas narrativas que leio, porém acabo de constatar que eu não concedi o mesmo destaque para a virada no raciocínio de Charlotte ressaltada por você. Então... Caramba! Então, enquanto no filme de Truffaut os grifos numa edição de AAE permitem que Jim acesse pensamentos íntimos de Catherine; na minha vida real, aquilo que eu não grifei no livro permite que eu contemple um recôndito do meu inconsciente. Será assim?


Alberto Manguel: Você sabe o motivo por que ignorou esse trecho?


Daniela: Provavelmente o desconsiderei porque, para mim, ainda é mais cômodo continuar acreditando que o rumo das coisas está exclusivamente nas mãos de um suposto "Destino", e não nas minhas etc.


Alberto Manguel: Compreendo. Charlotte alega que o Destino conhece melhor do que ela suas próprias intenções.


Daniela: Pois é! E pensar que recentemente escrevi, em um post do meu blog, que eu tenho medo da palavra Destino. Que coisa, não?


Alberto Manguel: E que Destino é esse que é mais sábio que os protagonistas? Eduard e Charlotte nunca fogem dos encontros que o Destino lhes prepara (ainda que às vezes, como Charlotte, eles cheguem um pouco tarde). Eles simplesmente seguem o enredo: o destino como narrativa. De onde vem essa ideia?


Daniela: Olha, falou em destino, eu já penso nos oráculos das peças gregas, com aquelas previsões assustadoras.


Alberto Manguel: Sim; mas a ideia não vem do imaginário dos gregos. Essa ideia pertence à literatura, ou melhor, à leitura da literatura, quando o leitor reconhece o que lê como ficção e, entretanto, "suspende de bom grado a descrença" pelo bem da narrativa; é isso que queremos dizer com a inevitabilidade do enredo.


Daniela: Hum, compreendo-o, Manguel; porém, dado que não foi exatamente essa a leitura que fiz da obra, tomarei a liberdade de assinalar uma ressalva, pode ser? Alongarei-me um pouquinho, portanto já peço desculpas. Na minha percepção, a narrativa de Goethe constantemente instiga o leitor a duvidar desse "Destino", ao contrário de simplesmente aceitá-lo como um mero recurso interno do qual depende a própria ficção. Talvez por não ter suspendido a contento a descrença, senti que a narrativa me instigava a explorar o labirinto erguido por estes questionamentos:
1. Somos peças inertes, um mero joguete nas mãos de um dito "Destino", ou somos nós que delineamos nossos caminhos, a partir de nossas escolhas?
2. E, caso possamos tomar decisões que definirão nossa trajetória, a pergunta: temos de fato plena e irrestrita liberdade para fazê-lo?
3. Ou será que não há nem destino nem escolhas conscientes, mas apenas os caprichos de um Acaso que não se sujeita a qualquer controle?

Daniela: Confabulei que essa discussão — com o recorte específico dos relacionamentos amorosos, é lógico — seria a temática principal do livro, o qual me cutucou logo no comecinho, no instante em que Charlotte lançou esta pergunta para os dois sabichões: “(...) eu jamais identificaria uma escolha; percebo no máximo uma necessidade natural, pois no fim das contas trata-se de uma questão de oportunidades. A ocasião determina a relação, do mesmo modo que ela faz o ladrão. No caso dos corpos naturais que você menciona, parece-me que a escolha está nas mãos do químico responsável pela reunião desses seres. Postos em contato, Deus sabe seu destino." 

Daniela: Os diversos sinais que aparentam prenunciar o trágico fim das quatro personagens (refiro-me, por exemplo: 1. ao borrão na carta escrita por Charlotte, 2. o mesmo segundo nome de Eduard e Capitão, 3. a taça com as iniciais "E/O" que não quebra quando lançada ao chão etc) seriam, teorizo, meros elementos que apenas camuflam o relevante papel das escolhas feitas por cada uma das personagens. Por sinal, não é à toa que Charlotte tenha sido a personagem que faz essa reflexão, citada por você, a respeito de "Destino x Escolhas", uma vez que Eduard, Ottilie e Capitão comodamente obrigam-na a assumir a responsabilidade de decidir a vida de todos eles. Para os três bonachões, aconteceria aquilo que Charlotte decidisse, uma vez que nenhum deles tem cacife pra bancar sozinho uma decisão.


Alberto Manguel: Entendo. As próprias formulações pseudomatemáticas que Goethe põe na boca de Eduard para delinear o comportamento humano são fórmulas de consolação, suponho, que suscitam a ilusão de que não estamos vivendo na ambiguidade. Entretanto reforçarei que toda a negociação é conduzida entre as personagens e o leitor; o autor está ausente ou, no caso de Goethe, é meramente um mestre de cerimônias que comenta mas não emite opinião sobre o comportamento de seus personagens. O jovem Stephen Dedalus tem a dizer o seguinte, em Retrato do Artista quando Jovem, de Joyce; “O artista, como deus da criação, permanece dentro ou atrás ou além ou acima de sua obra, invisível, depurado da existência, indiferente, aparando as unhas.” Hoje, brincando com o hipertexto no parquinho pós-moderno, onde temos a ilusão de canalizar o enredo num número finito de caminhos, somos como Eduard e Charlotte e Ottilie e o Capitão; escolhemos possibilidades que o Destino (como um pai autoritário) já escolheu para nós.


Daniela: Tenso - e divertido! Esse papo me traz à memória aquela peça do Pirandello, a Seis personagens à procura de um autor; especificamente as passagens em que as personagens se exasperam enquanto tentam fazer o diretor compreender que, o que para ele é somente uma ilusão (criada por um autor), para elas é a única realidade, a qual "acontece agora, acontece sempre".


Alberto Manguel: Pois eu me lembrei ainda de Nathaniel Hawthorne, que registrou rapidamente esta ideia para um conto em um de seus assombrosos cadernos de anotações: “uma pessoa a escrever uma narrativa, e descobrindo que esta toma uma forma que contradiz suas intenções: que os personagens agem de modo diferente do que ele pensou: que fatos não previstos ocorrem; e que advém uma catástrofe que ele se empenha em vão em impedir. Ela pode lançar uma sombra sobre seu destino – pois ele fez de si próprio um dos personagens."


Daniela: Nossa, que medo → não tem jeito, esse é o sentimento que sempre aparece quando penso no assunto "Destino". Aliás, essa específica temática, juntamente a todo o dramalhão que encerra o livro (= "O&E - R.I.P. 🕇"), me remeteu bastante a Shakespeare. A patacoada Eduard & Ottilie emana fortes vibrações Romeo & Juliet (ainda que o Romeo de Goethe seja um marmanjo com barba na cara) e o lance de um suposto "destino escrito nas estrelas"/"ser humano agindo conforme sua natureza" é algo muito recorrente nas obras do bardo (até onde eu tenha percebido, nas peças que li). Poxa, em King Lear Shakespeare questiona até o papel da Astrologia em nossas ações e destinos! A prova tá na mão: "How long have you been a sectary astronomical?"


Alberto Manguel: Não me surpreende que tenha notado isso. Numa de suas muitas cartas a Wilhelm von Humboldt, Goethe sugeriu que as línguas nacionais refletem o caráter nacional, e que os escritores ingleses compartilham com os alemães as mesmas formas de pensar e a mesma percepção do que é precioso. Isso explicaria por que Shakespeare é parte da tradição alemã, embora não explique por que Goethe nunca se tornou parte da tradição inglesa.


Daniela: Sei. Não estou plenamente convicta, porém minha impressão é que Goethe também não é muito presente pelas bandas literárias brasileiras.


Alberto Manguel: É que Goethe precisa ser acolhido culturalmente: não livro por livro, mas sim mergulhando em sua vasta influência, em seu alcance oceânico, em suas ondas ressoantes, em suas vistas do mundo que alcançam o horizonte. "Vou goethizar vocês um bocado", disse-me um de meus professores. Nietzsche, em geral pouco generoso em seus elogios, escreveu em Humano Demasiado Humano: "Goethe não é apenas um ser humano grande e bom, mas uma civilização em si." Se é assim, As Afinidades Eletivas, escrito nos últimos anos de sua vida, pode ser lido como um manual de etiqueta da civilização goethiana.


Daniela: Fanboy detected! No entanto, já que você menciona o livro como um manual de etiqueta para civilizações, eu teria uma provocação pergunta a fazer: uma civilização precisa realmente ocupar-se com tantas obras e reformas?! Manguel, a galera desse livro simplesmente faz a alegria da turma dos engenheiros, arquitetos, paisagistas, mestres de obras, pedreiros...


Alberto Manguel: A paisagem física do romance de Goethe se torna a paisagem das emoções dos personagens; eles tentam domesticar a natureza assim como tentam planejar suas afinidades num verdadeiro diagrama. O jardim de Charlotte, por exemplo, é um símbolo fácil demais de seu experimento no mundo humano.


Daniela: Ah, saquei. É como disse o inglês amigo de Eduard: “(...) o prazer de criar e ordenar tudo aquilo”. Também estava em meus planos lançar uma pergunta sobre a marcante presença de árvores nas obras de Goethe, as quais são recorrentemente adotadas pelas personagens como forma de marcar não apenas a passagem do tempo, mas a delas próprias no mundo. Werther fez isso, e Eduard repetiu o recurso narrativo (refiro-me aos plátanos que ele plantou, coincidentemente, no dia em que Ottilie nasceu, lembra?) Feito uma completa tonta, eu estava supondo que isso era coisa do século XIX, até que, numa de minhas perambulações pelo meu bairro, esbarrei com isto aqui:

Daniela: Assim como o Eduard do século XIX, um brasileiro do século XXI plantou uma árvore e fez questão de registrar para todo mundo o feito. Eduard e Bernardo existiram, e duas árvores são a prova.


Alberto Manguel: Pois sabe que Goethe também tem sua própria árvore com simbologia similar? Um carvalho, pra ser mais preciso, sob cuja sombra ele se encontrava com sua amada Frau von Stein. Em 1939, porém, esse carvalho passou a lançar sombra sobre a lavanderia e a cozinha do campo de concentração de Buchenwald. A Lei de Proteção da Natureza do Terceiro Reich manteve o carvalho de pé.


Daniela: Estou perplexa, Manguel.


Alberto Manguel: Joseph Roth, inclusive, registrou um comentário repleto de raiva e ironia que parte o coração de qualquer um: "Até agora, nenhum interno do campo de concentração foi açoitado no carvalho sob o qual se sentavam Goethe e Frau von Stein, que ainda está vivo, graças à Lei de Proteção da Natureza. Certamente que não; eles têm sido açoitados em outros carvalhos, que não faltam nessa floresta."


Daniela: Confesso que não sei o que pensar sobre isso. Fatos da Segunda Guerra sempre me desnorteiam; me fazem perder o senso da realidade. Lamentável que Goethe, indiretamente, tenha se metido nesse horror.


Alberto Manguel: Mas pergunto se AAE está, anacronicamente, parodiando isso. Digo, será que se pode ler o romance como uma apoteose cínica da arte da jardinagem, a arte que floresceu no século XVII e se transformou numa ecologia corrompida - que poderia até ser chamada de visão suprematista da natureza - refletida, quase um século e meio depois, na preocupação de Hitler com "o modelo da natureza"?


Daniela: Puxa, será?! Pior que lembrei que jardins são espaços simbolicamente recorrentes e importantes na obra de Tchekov, porém, como Janet Malcolm assinala no livro Lendo Tchekov, os jardins dele são exatamente desse tipo organizadinho, áreas em que a natureza é domada. Nas palavras da autora: "Tchekov era mais um poeta da paisagem domesticada do que do sublime, mais atraído pelo encanto das sombras oferecidas por um velho jardim do que pela grandiloquência intocada da natureza em estado puro.". Um adendo, Manguel: nunca imaginei que, ao discutir um livro famoso por sua abordagem sobre o amor, eu falaria sobre a relação simbólica do ser humano com árvores, plantas e jardinagem. 😃🌳🌷


Alberto Manguel: É justo, contudo ainda é possível prosseguirmos nesse tema. Do diário de Ottilie, por exemplo, temos isto: "Ninguém caminha sob palmeiras impunemente, e o modo como a pessoa se comporta deve sem dúvida modificar-se num lugar onde elefantes e tigres fazem sua morada." Lembra dessa entrada? Acho a frase irônica, já que foi sob palmeiras (quando eu trabalhava para uma editora no Taiti nos anos 70) que decidi ser fiel a mim mesmo e assumir minha vida de leitor-escritor.


Daniela: Esse diário da Ottilie, "solto" no meio da história, é um recurso narrativo curioso. Há muitas pérolas ali.


Alberto Manguel: Tem alguma favorita?


Daniela: Nossa, várias! No entanto, esta é particularmente especial: "Não importando a maneira como estejamos postados, sempre nos imaginamos vendo alguma coisa. Creio que o homem sonha apenas para não cessar de ver. Poderíamos conceber a ideia de a nossa luz interior exteriorizar-se, de modo que não careceríamos de nenhuma outra." Definitivamente essa passagem do livro também me ajudou a compreender meu inconsciente, pois até aqui eu não entendia como ou por que eu havia escrito três postagens em meu blog a respeito do ato de observar: pessoas, arte, animais. Sem querer, bolei uma espécie de "Trilogia da Observação" e, graças à Ottilie, agora eu sei +- por que isso aconteceu.


Alberto Manguel: Ottilie faz uma descrição precisa da consciência humana, de sua terrível vigilância, semelhante à de Argus, dá ao romance como um todo o seu páthos: quatro personagens, o autor e, por extensão, o leitor estão constantemente conscientes de suas ações, e observam a si próprios avançar em direção ao fim sem ser capazes de se iludir ou de desviar o olhar.


Daniela: 



Alberto Manguel: 😉. A conversa está ótima, Daniela, porém tenho de ir.


Daniela: Puxa, mas ainda tinha tanta coisa pra discutirmos, Manguel! A questão Matrimônios x Divórcios, a hipocrisia das Lápides desprezadas x Criptas de Eduard/Ottilie, o bebê com a cara do Capitão e os olhos da Ottilie... Aliás, aproveitarei essa piadinha goethiana com a cara do bebê pra soltar uma última groselha: será que Bentinho vê a cara de Escobar no próprio filho apenas porque Capitu, na verdade, apenas pensava em Escobar enquanto transava com o marido? E ainda: se, enquanto transo com meu namorado, minha mente estiver entretida com fantasias eróticas envolvendo o Adam Driver, eu serei enquadrada na "Lei da Traição"?! Xi, e um bebê com a carinha do Adam Driver; já pensou? Que lindinho seria!(zero ironia)


Alberto Manguel: Daniela, sua pergunta é fascinante, entretanto realmente não tenho mais tempo. 


Daniela:  Ah, que pena. Mas beleza. Muito obrigada pelo papo tão legal.


Alberto Manguel: Também gostei de nossa conversa. Até o próximo livro.


Daniela:  Até, Manguel. Tchau.

06/01/2020

[alinhavando] That girl needs therapy, purely psychosomatic

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Goethe x Adam Driver/Kylo Ren/Ben Solo?! Creio que me superei nessa. O ponto de partida dessa proeza é a coleção de olhares categoria fatality® que o senhor Adam Driver, no papel de Kylo Ren, manda pra cima da Rey, interpretada por Daisy Ridley. Queria mesmo era ter incluído aqui um gif de boa qualidade com os olhares dele na sequência final do Episódio IX (- que interpretação, senhor Motorista Adão; obrigada demais), porém, como esse precioso material permanece indisponível no estoque da internet, colei apenas duas olhadelas do Episódio VIII (há várias totalmente excelentes). Enquanto apreciadora de filmes que privilegiam expressões corporais e faciais de atores, em detrimento de diálogos (♪ no alarms and no surprises, siiiiilence ♩; Club Silencio etc), afirmo que a performance de Driver em Star Wars representa um case de sucesso a ser seguido pelos profissionais da área. Por sinal, com esse exemplo, constatei uma vez mais que um ator talentoso pode operar belos milagres à custa de fracos roteiros. Bonito ver.

Neste período em que padeço de nova exacerbação da Adam Driver Fever Syndrome, leio, pela primeira vez, o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther (oportuno, hein?). Não finalizei a leitura, entretanto já acumulo assustadores indícios de que possivelmente eu seja a reencarnação do Werther no século XXI. Quanta coisa isso explicaria... Bom, dentre esses indícios, consta justamente o fato de que o mocinho Werther sabe do que eu falo, quando eu falo de olhares categoria fatality®. Mande aí por mim, Werther:
"Sim, seria preciso possuir o talento do maior poeta para traduzir a expressão dos seus gestos, a harmonia da sua voz e o fogo secreto de seu olhar. Não, nenhuma linguagem seria capaz de exprimir a ternura que anima seus olhos e suas atitudes. Tudo o que eu pudesse dizer seria grosseiro e rudimentar. (...)
Como a gente é criança! Quanto não creditamos a um simples olhar! Como a gente é criança!
 
                         - Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther (tradução: Marcelo Backes)
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Tive a feliz surpresa de encontrar, nos livros de Tokarczuk e Houellebecq, delicadas reverberações
do alinhavo que publiquei em 04/10/19 sobre a observação de animais.

Considerando-se o teor dos comentários a respeito de Houellebecq que eu havia previamente ouvido, confesso que jamais imaginei que Serotonina (minha primeira leitura do autor) teria um protagonista deprimido que alcança paz de espírito mediante a singela observação de vaquinhas. Especialmente aos críticos de plantão do escritor (😁), colo a tocante passagem:
"Fracassei na tentativa de desenvolver uma emoção estética real diante das paisagens alpinas, mas me afeiçoei às vacas, pois cruzava muitas vezes com um rebanho indo de um pasto para outro. (...) Amplas e majestosas, as vacas normandas eram, e a existência parecia ser mais que suficiente para elas; foi com essas vacas normandas que entendi porque os hindus consideravam sagrado esse animal. Durante os fins de semana solitários que passei em Clécy, dez minutos contemplando um rebanho dessas vacas entre os arbustos ao redor me bastaram para esquecer (...)."
                                        - Michel Houellebecq; Serotonina (tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)

Por sua vez, a fabulosa protagonista de Tokarczuk acessa (ou tenta) a realidade que se desvenda a partir da observação de morcegos. Trecho lindo, lindo:
"Tenho muita vontade de saber como os morcegos veem o mundo; queria, ao menos uma vez, sobrevoar o planalto em seu corpo. Como todos parecemos aqui embaixo quando somos vistos por seus sentidos? Como sombras? Ou um feixe de vibrações, fonte de ruído?
À noitinha me sentava diante da casa e esperava até que aparecessem, voando um por um desde a casa dos professores, visitando-nos em seguida. Acenava delicadamente, cumprimentando-os. Essencialmente, tinha muito em comum com eles-- eu também enxergava o mundo em outras frequências, às avessas. Eu também preferia o crepúsculo. Não prestava para viver ao sol."
                               - Olga Tokarczuk; Sobre os ossos dos mortos (tradução: Olga Baginska-Shinzato)

Além disso, é importante ressaltar que tanto a polonesa quanto o francês incluem, em suas respectivas narrativas, descrições de cenas de horror relacionadas à crueldade cometida contra animais em fábricas de produção em massa: Tokarczuk escolhe casacos de pele de raposa; Houellebecq, uma nefasta granja.

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Visto que a ilustração na capa do livro da Rooney antecipa uma possível história de amor, avaliei que, antes de lê-lo, seria prudente me precaver e calcular bem os riscos. Somando 1= a Rooney é ovacionada como porta-voz dos millennials + 1= a internet garante que millennials não transam (links: x, x, x), cheguei à conclusão =2: Normal People não será gatilho pra mim, pobre vítima do celibato involuntário. Ah, a ingenuidade da leitora. Eis que transcorreram-se três meses desde o término da leitura, e eu permaneço #triggered! (😁) Por quê? Ora, porque o casal concebido por Rooney transa todo dia, toda hora. Os dois são pau pra toda obra (*trocadilho não intencional; acho). Ainda que a moça do livro demonstre um gosto por práticas masoquistas que não parece ser daquele tipo divertido; no geral, eu diria que sexo não é um problema na vida dos dois protagonistas de Normal People. Já a comunicação... Connell e Marianne convivem por cerca de uma década (esquema ioiô), no entanto praticamente se desconhecem.

Serotonina, um dos consolos literários ao qual apelei posteriormente, cumpre seu papel ao me apresentar um Gen-X fracassado na, digamos, seara amorosa. O alinhavo com o livro da Rooney surge em decorrência da fascinante (e cômica? sei lá) teoria do protagonista de Houellebecq a respeito do sexo: sexo é a solução para todos nossos problemas. Pelo menos, é o que o cara diz:
"(...) vão me acusar de dar uma importância excessiva ao sexo; não concordo. (...) a passagem pelo sexo, e por um sexo intenso, continua sendo obrigatória para que ocorra a fusão amorosa, nada pode acontecer sem ele (...) Poderia ter informado, com mais pertinência, que os dois já não transavam e que era este o núcleo do problema, (...) e Aymeric sabia, com sexo tudo pode ser solucionado, sem sexo nada tem mais jeito (...)"
                                        - Michel Houellebecq; Serotonina (tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)

Portanto este é o imbróglio no qual me meti:
- de um lado, uma autora millennial bola um casal djóvem dos anos 2000 que, embora altamente transante, não se comunica e se trumbica (entreguei minha geração?);
- do outro lado, um autor gen-x bola um protagonista quarentão que, em meio à disfunção erétil + prejuízo da libido provocadas por antidepressivo, defende que não há neurose conjugal que não possa ser resolvida com sexo;
- e a cerejinha no topo é a constatação de que, com transa ou sem transa, todas essas personagens estão na merda.

Não sei sair dessa. Talvez caiba o chatão discurso vazio "trata-se de achar o meio-termo: transar e conversar na medida", ou então a lógica "todo casal feliz transa, mas nem todo casal que transa é feliz". De todo jeito, essa conexão que se estabelece entre as narrativas desses dois autores ficou bem engraçada, sobretudo porque o livro do Houellebecq discute bastante  (de modo não explícito) as oposições entre gerações (apesar de destacar Boomers & Gen-X).

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Já que, aparentemente, transantes e não transantes estão mentalmente lascados, buscando respostas nos animais e recaindo em comportamentos infantis ao receber qualquer olhadinha algo ~diferenciada~, resta o quê? Apelar pra remedinhos e terapia? Não sei, mas a atual onda de livros (e séries?) protagonizados por pessoas se agarrando nessas boias sugere que essa é a leitura que os autores contemporâneos têm feito da realidade. Visto que o universo por onde circulo é menor do que uma bolinha de gude, não me atrevo a contribuir com análises generalizantes, contudo ousarei contribuir com uma versão editada de minha experiência — afinal, isto é um blog e, conforme bem coloca a protagonista de Houellebecq; "(...) voltemos ao meu tema, que sou eu mesmo, não que seja especialmente interessante, mas é o meu tema."

Em Dependency, terceiro livro da Trilogia Copenhagen escrita pela dinamarquesa Tove Ditlevsen, fui apresentada a Geert Jørgensen, um psiquiatra que eu adoraria chamar de meu, dado o tanto que ele se aproxima de uma verdadeira fada madrinha da vida real. Explico:👉 Na cena 01, a jovem personagem Tove (o livro funciona como autobiografia) está super ansiosa porque não sabe o que fazer a respeito de seu casamento. Embora estivesse interessada em outro homem, ela não consegue encontrar coragem para pedir divórcio, pois sente-se, em certa medida, endividada com o marido, um editor bem mais velho que a ajudara a alavancar sua carreira de escritora. Então, certo dia ela queixa-se de não estar se sentindo bem, possível problema cardíaco, e o marido diz que deve ser mera ansiedade, daí agenda-lhe uma consulta com o Dr. Jørgensen. Depois que Tove expõe tudo que a aflige, qual é a conduta do grande psiquiatra? De saída, ele confirma que encontrar-se dividida entre dois homens é de fato uma situação interessante e declara que Tove tem mais é que se divorciar, pois aquele casamento dela não faz o menor sentido. Ele explica que a encaminharia para um sanatório (calma, tá tudo bem), no qual Tove permaneceria relaxando durante o tempinho necessário para que ele, Jørgensen, resolvesse as coisas para ela do lado de fora. Bicho, quando a Tove sai da clínica, ela só precisa assinar a papelada do divórcio, e sem que pra isso tenha trocado um "ai" com o esposo. Puxa, um psiquiatra que não apenas lhe diz o que fazer, como o faz por você! O cara atende a prece da Fleabag* ( = "-Tell me what to do!") e ainda dobra a meta! UÁÁÁÁÁÁÁ Nem para aí, pois na cena 02 a fada madrinha Jørgensen salva Tove de um assombroso relacionamento tóxico® e abusivo® → não darei spoilers, mas asseguro que esses adjetivos repetidos ad infinitum pela galera da internet se aplicam demais ao caso desse livro, quase literalmente até. (*= a propósito: outra millennial transante que está na merda.)

Essa história de Dependency ocorre na década de 40, outros tempos etc.; obviamente estou ciente de que não posso esperar que um psiquiatra resolva meus problemas por mim. No livro da Rooney, por exemplo, a psicóloga manda a real do que Connell poderia esperar do processo: 
"O que podemos fazer aqui na terapia é tentar trabalhar seus sentimentos, pensamentos e comportamentos. Nós não podemos mudar suas circunstâncias, porém podemos mudar o modo como você responde às suas circunstâncias. Entende o que quero dizer?"
                                                                  - Sally Rooney, Normal People (tradução tabajara: minha)

A despeito dessa consciência, é difícil abandonar o desvairado anseio de que o profissional me arrume as coisas, e possivelmente essa é uma das razões por que hoje tenho de incluir um "ex-" na frente da palavra "terapeuta". Aliás, Serotonina me fez recordar um papo curioso que tive com ela numas das sessões. O narrador de Houellebecq comenta a original ideia, tida pelos donos de uma cafeteria, de adotar a expressão happy hour traduzida pro francês = heures hereuses. Já pensou se aprontássemos o mesmo por aqui? "Aê, galera, partiu pra happy hour pras horas felizes"? Aposto que, se a gente usasse essa tradução no dia a dia, eu não precisaria ter explicado à ex-terapeuta porque uma sessão de terapia às 20h de uma sexta-feira (quando os "normal people" estão na happy hour) me faz sentir ainda mais "anormal". Ah, e nem preciso acrescentar que, assim que a lamúria saiu da minha boca, me toquei de que a própria terapeuta ouvia uma neurótica falar groselha às 20h de uma sexta-feira da vida dela, né? O legal é que, na sessão seguinte, a primeira coisa que ela me fala é que, durante toda aquela semana, ela esteve pensando no meu comentário relacionado às tais horas felizes. Quer dizer: ¯\_(ツ)_/¯. Heures hereuses? Qu'est que c'est?

Na hora de dar adeus à terapeuta, invoquei a alegoria do tabagista, dizendo-lhe com ares de fingida sapiência que, enquanto o próprio fumante não deseja efetivamente parar de fumar, qualquer tratamento para largar o vício esta fadado ao fracasso. A obra da Tokarczuk, por seu turno, me alertou que talvez uma outra alegoria tivesse sido mais apropriada à minha situação. Inclusive, com a leitura do Lendo Tchekov, ótimo livro escrito pela Janet Malcolm, descobri que, no conto Kachtanka, o contista russo também já havia narrado a mesma parábola sobre alienação (termo adotado pela Malcolm) que aparece em Sobre os ossos dos mortos. Refiro-me àquela do cãozinho que, após salvo de uma situação de maus-tratos, abandona o novo lar para retornar ao mau dono.
"Depois olhou pra mim com tristeza -- posso dizer com sinceridade que mirou meus olhos profundamente -- e correu às pressas para a casa de Pé Grande.
Foi assim que a cadela voltou para a sua prisão." 
                               - Olga Tokarczuk; Sobre os ossos dos mortos (tradução: Olga Baginska-Shinzato)

É, suponho que meu hasta la vista, baby foi assim. Olhei a terapeuta com olhos de desculpas e voltei para a ordinária realidade que conheço bem e à qual já me habituei (é, e ela responderia que, se eu tivesse realmente me habituado, eu não a teria procurado. e depois diria que eu continuo querendo adivinhar o que ela está pensando. E depois, e depois, e depois...). Hum, taí, quem sabe a senhora Dusheiko não possa me ajudar? Astrologia, aqui vou eu!

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Estava prestes a passar a régua nesta postagem, quando me veio à memória The Sex has made me stupid, da Robots in Disguise, música que ouvi pra caramba durante a época em que ocorre a história narrada por Rooney. Trago-a pra cá, pois é perfeita para encerrar a primeira bobajada deste blog em 2020. Bora dançar, observar animais e suspirar com os olhares (e dotes vocais, é bom lembrar) do Adam Driver. E se não rolar transa, basta acionar o Doctor Manhattan Dildo®. 🎇Feliz ano novo!🎇