18/04/2021

[alinhavando] I love you most of all, my favorite vegetable


Compartilharei algo tão constrangedor que, de antemão, suplico clemência ao tribunal virtual. Posto isto, lá vai: tive um sonho erótico com um chef de cozinha. O motivo dessa presepada é o que eu mesma me pergunto. Na falta de outra explicação incontestável, abracei a teoria de que meu inconsciente decidiu seguir à risca o lema "tempos difíceis exigem medidas extremas". Quê? Quem é o tal chef? Nem morta eu digo! Que vergonha, meu deus. Mas ok, darei algumas pistas; quem pescar pescou (só não espalhe, por favor): 1. conheci a pessoa num desses programas gastronômicos da Netflix, 2. ela é super andrógina (a observo com a cabeça inclinada pra esquerda: sim, é homem total; a observo com a cabeça inclinada pra direita: pera, é mulher?!) e 3. ela se assemelha a personagens de anime. Daí, quem acompanha o blog (∅) já sabe o que aprontei a seguir: pedi socorro à estante, em busca de livros cujo tema fosse Comida X Sexo — *além de dois filminhos de entrada e sobremesa. O que mais uma leitora besta poderia fazer? (sei bem em quais outras opções você está pensando.) O resultado surpreendeu, sobretudo porque a singela experiência ratificou que sexo nunca é apenas sobre sexo, assim como comida nunca é apenas sobre comida. (é sobre isso! ®) Conclusão óbvia, mas é sempre do óbvio que esqueço. Portanto, embora eu tenha começado esta postagem falando de sexo e comida, acabarei percorrendo outros caminhos tortuosos. Vejamos aonde isso me levará.
"Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer (...). Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de "entrar em contato" íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades - e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro."

- Clarice Lispector; Temas que morrem 

🍑

O filme de entrada é Tampopo: Os brutos também comem spaghetti (1985; Jûzô Itami). Sim, finalmente assisti e valeu cada segundo. Itami faz uma espécie de colagem de sketches com abordagens variadas acerca de comida; as quais se interconectam pela jornada central da heroína em busca de cozinhar o lámen perfeito. As breves narrativas que mais especificamente relacionam comida e sexo são ótimas, dentre elas aquela famosa, na qual amantes usam a boca para "jogar sinuca" com uma gema de ovo. Outra: galera fica bajulando o pêssego de Me Chame pelo seu Nome, quando, em 1985, já havia um japonês tascando na telona uma vovó espremendo a fruta, hein. Porém, sendo uma tonta romântica, é claro que a cena de que mais gostei foi aquela em que o gângster, morrendo nos braços da amada (os mesmos amantes da gema), descreve as comidas deliciosas que não mais comerão juntos. Vá se lascar. MAS meu sketch favorito do filme é, sem dúvida, o da mãe que, imediatamente antes de morrer, consegue preparar um último jantar para a família:

"Comam, crianças; é a última comida que mamãe preparou!"


O moço que subiu o vídeo para o You Tube o intitulou "cena mais triste de Tampopo", contudo, quando a vi, precisei pausar o filme, de tanto que eu ria da fanfarronice. É uma sequência cujo perfeito tom tragicômico + crítico-afetuoso raramente se vê por aí. Ah, e mil parabéns para a atriz, que está perfeita. 

Para surpresa de ninguém, Itami encerra o filme aproximando sua câmera de uma mãe que amamenta o filho. Era o prenúncio de que o primeiro livro desta minha empreitada não permitiria que eu escapasse do binômio mãe-alimento. Claro que uma postagem de blog que começa combinando sonho + sexo + comida desembocaria em mães, né? Maldito Freud dos infernos!

🍆

"Amor erótico não relaciona-se apenas a sexo. Freud pensava que sexo sequer referia-se a sexo. Sexo é sempre carregado de desejo, anseio, medo, fantasia, nostalgia. Segundo Freud, nossas vidas eróticas         começam bastante cedo, durante a infância. Aqui, mais uma vez, uma busca pelo desejo. Todos nós desejamos voltar ao seio materno, à união com o corpo de nossas mães, voltar para dentro do útero."

- Podcast History of Ideas BBC 4, Episódio What is Love?



A adaptação cinematográfica do livro de Laura Esquivel, Como Água para Chocolate, deixou marcas profundas em minha memória. Quando a vi, eu era uma pré-adolescente sem nenhuma noção do que eram metáforas ou sexo, logo imagine o nível de minha perturbação: por que eles estão pelados juntos numa cama? e a cama pegando fogo, enquanto os dois ficam aí parados, como se nada estivesse acontecendo! por quê?! o que diabo é isso? Fiquei tão apalermada, que sequer atinei de abrir a boca para pedir que alguém me explicasse (não lembro se vi com amigas ou com minha mãe). Não revi o filme para confirmar se a cena transcorre assim, mas definitivamente é o trauma que minha memória guardou — fast forward ⏩ hoje estou aqui, querendo queimar pelada numa cama, juntinho com um chef de cozinha andrógino e personagem de anime. ¯\_(ツ)_/¯

O livro, por sua vez, eu nunca havia lido. Estava ciente da premissa de uma cozinheira que, involuntariamente, transfere suas emoções para a comida que prepara, contagiando a todos que a experimentam (a manjada relação da comida com afetos, memória). O que eu não esperava é que o livro correspondesse à narrativa de um amor que, em meio à Revolução Mexicana, é impedido de concretizar-se em sua plenitude, devido à intervenção de Mamãe Elena, aquela que, pra mim, já é uma das maiores vilãs literárias de todos os tempos. Aliás, a escolha da expressão "Mamãe Elena", remetendo às alcunhas militares que combinam posição hierárquica + nome, não soa gratuita; bem como não é gratuito o fato de Mamãe Elena não ter amamentado Tita (não é que ela apenas não amamentou; ela não se incumbiu, de forma alguma, da tarefa de alimentar a filha bebê). Um instante; noto que estou atropelando o raciocínio, sem nada explicar. Bom, Mamãe Elena era a generala dos de la Garza e, como tal, exige o cumprimento de uma velha tradição mexicana (real? ficcional?): a caçula da família jamais se casa, pois nasce para cuidar da mãe durante a velhice. A parada é mais sinistra, dado que Mamãe Elena não apenas proíbe que Tita se case com Pedro, como arquiteta que o mancebo se case com Rosaura, sua outra filha. E não é só isso! Mamãe Elena obriga Tita a preparar os pratos do casamento, Mamãe Elena acha que a filha a envenena com a comida que cozinha; Mamãe Elena critica tudo que Tita faz; ora, Mamãe Elena, mesmo depois de morta, aparece feito fantasminha para infernizar a vida de Tita. Droga; percebo que, por mais que me esforce, falharei em expressar a contento quem era essa personagem; de modo que apelarei para um velho meme caducado: só quem leu o livro sabe quem é Mamãe Elena, espantosa encarnação literária do arquétipo da mãe castradora.
"Nesse momento pensou no bom que seria ter a força de Mamãe Elena. Ela matava assim, de uma cutilada só, sem piedade. Bom, ainda que pensando bem, não. Com ela, tinha feito uma exceção, tinha começado a matá-la desde criança, pouco a pouco, e ainda não lhe dera o golpe final. (...) Indubitavelmente, tratando-se de partir, desmantelar, desmembrar, devastar, desjarretar, destruir, desbaratar ou desmamar alguma coisa, Mamãe Elena era mestra. (...) Ao lado da mãe, o que suas mãos tinham de fazer estava friamente determinado, não havia dúvida."

                                              - Laura Esquivel; Como Água para Chocolate (tradução: Olga Savary) 

Essa figura materna criada por Esquivel me remeteu a dois marcantes relatos envolvendo mãe e filha, ambos vividos e compartilhados por duas autoras que têm relacionamentos complicados com suas mães. No livro Dear friend, from my life I write to you, in your life; Yiyun Li conta que era bastante apegada a um casalzinho de hamsters, presente da irmã, e que, certo dia, eles desapareceram. O esquisito sumiço foi esclarecido quando sua mãe lhe confessa tê-los doado, simplesmente porque Li estaria obcecada demais pelos bichos, incapaz de demonstrar a mesma devoção aos pais. Já no livro The Odd Woman and the City, Vivian Gornick relata que, na infância, sua mãe sacara uma tesoura para cortar a parte de tecido que cobria o peito de um vestido que a autora muito queria usar para ir a uma festinha, momento de intensa ira em que acusava Gornick de ser uma filha sem coração. Pronto, acho que agora, sim, consegui expressar a que tipo de mãe me refiro.

Para retornar ao livro de Esquivel e trazer a comida de volta ao papo, resta destacar que, naquele contexto (Revolução Mexicana, mãe castradora), portanto, o prazer de preparar e comer um prato gostoso (o prazer de amar, de transar livremente) surge como o contraponto a cenários austeros e autoritários. A comida é a celebração da liberdade de desejar, de viver plenamente os desejos, de gozar, de sentir prazer na vida e pela vida. Opa!, suspeito de que Esquivel matou a charada do meu inusitado sonho, dado o atual momento histórico do país tropical onde, em fevereiro, não tem mais carnaval. Que coisa; e nem curto carnaval.

🍌

" Você parece uma criança com fome, a quem se ofereceu ravióli. "Não", você diz, "quero um bife". Minha cara, você está com fome, coma esse ravióli.

— Não estou tão faminta assim.

— Estamos famintos o tempo todo, Senhorita Hudson."


Filme: Quando o Coração Floresce (1955, David Lean)



Uma vez que não rola bacanal na festa de Babette, dei com os burros n'água ao escolher esse livro, porém fui presenteada com a batalha do ano: Blixen X Lebowitz: Comida é arte ou não é?! Este post já está longo demais para que eu comece a devanear sobre o caráter artístico da comida (sei lá se é; porém, nessa treta, aposto minhas fichas na Blixen); contudo serei vacilona e aproveitarei a deixa para trazer outra pista relacionada à identidade do chef onírico: o moço curte replicar, nos pratos que monta, pinturas famosas — certeza de que ele considera comida uma forma de arte.

Embora não haja sexo no livro de Blixen, sabe em que ambiente a autora decide narrar o grandioso banquete de Babette? Num fiorde da Noruega, entre os membros de uma seita eclesiástica devota que renunciava aos prazeres deste mundo. Ou seja, Blixen usa a comida como recurso narrativo similar àquele de Esquivel, conferindo-lhe a força capaz de se opor a um meio ascético e estéril. Achei fascinante, em especial, confrontar as reações ao banquete dos membros da seita com a do convidado externo; uma distinção sugestiva de que a relação com a comida - com a arte - é necessariamente uma via dupla: ao cruzar com uma obra de arte, é preciso estar com os sentidos abertos, a fim de se alcançar a graça. Talvez seja uma interpretação estapafúrdia, entretanto realmente me pego questionando se esta não seria a outra mensagem enviada por meu inconsciente na forma do peculiar sonho erótico; digo, ele tenta me lembrar de que deseja estar disponível para a graça ou, tomando emprestadas aquelas palavras (lá em cima) de Lispector, anseia entrar em contato íntimo com o que existe.
"(...) essa mulher está transformando um jantar no Café Anglais numa espécie de envolvimento amoroso daquela categoria nobre e romântica na qual a pessoa não mais distingue entre apetite ou saciedade, corporal e espiritual! 
(...)
"Não, nunca vou ser pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista, madames, nunca é pobre."

                                                    - Karen Blixen, A Festa de Babette (tradução: Cassio de Arantes Leite)

 🍩


Galera propagandeia o História do Olho como "um livro de altas putarias doidas" e, por azar, não me apareceu um leitor prestativo para alertar que não é exatamente isso e que vale a pena preparar-se emocionalmente antes da leitura. Concordo que avisos de gatilho são meio tontos, mas, neste caso, apenas defendo que o descompasso nos discursos de divulgação acerca do livro de Bataille não deveriam prosperar. Honestamente, fazia tempo que eu não terminava uma leitura num estado tão consciente do peso sobre meu peito.

Ano passado, li a Trilogia dos Gêmeos, da húngara Ágota Kristóf (grande favorito de 2020) e fiquei perplexa com o quanto livros que mal abordam diretamente a guerra permitiram que, afinal, eu me aproximasse do que efetivamente significa viver, não, sentir uma Guerra Mundial. Sim, acredito que aquela leitura foi o mais próximo que cheguei de tocar uma experiência de guerra, a qual usualmente me parece surreal em demasia, para que eu a capture. No entanto, eu fracassava ao tentar desvendar de que maneira a talentosa autora tinha conseguido tamanha façanha. Em busca de resposta, ainda em 2020 catei o Guerra Aérea e Literatura, de W. G. Sebald, que, embora tenha me auxiliado bastante, acabou revelando que o autor alemão tem tantas perguntas quanto eu, no que refere-se a como poderíamos escrever/narrar experiências traumáticas intensas, como as da Segunda Guerra. A esse respeito, Sebald disse algo (numa entrevista) que chamou minha atenção e que registrei em meus cadernos: "a única forma com a qual pode-se abordar essas coisas é obliquamente, tangencialmente por referência, em vez do confronto direto." Eis que agora, ao ler um "livro de putaria", travei contato com um texto que complementou e ampliou as reflexões que me foram proporcionadas por Kristóf e Sebald:
"De forma geral, não me detenho muito nessas recordações. Passados tantos anos, já perderam o poder de me afetar: o tempo neutralizou-as. Só puderam recobrar vida deformadas, irreconhecíveis e ganhando, no decorrer de sua transformação, um sentido obsceno."

                                                  - Georges Bataille; História do Olho (tradução: Eliane Robert Moraes) 

Pronto, a combinação das perspectivas de Sebald e Bataille é exatamente o que Kristóf me parece ter feito na escrita da Trilogia dos Gêmeos: ela evitou o confronto direto com a guerra; deformando a memória, tornando-a irreconhecível (inclusive, deformando a própria narrativa, deformando a realidade das próprias personagens). A propósito, não é o mesmo recurso usado pelo inconsciente, na conformação dos sonhos? Meu sonho erótico com o chef de cozinha não foi um mero sonho erótico. Curioso, não? Durante a leitura de livros cujos autores se valem desse artifício, o leitor não consegue delinear com clareza a memória original, mas os sentimentos atrelados a ela tornam-se intensamente vívidos. No caso do História do Olho, o texto puro é realmente uma sequência crescente de putarias pervertidas, algumas vezes até imorais, contudo a narrativa de Bataille, nem por um instante, deixa de reverberar sentimentos de dor, medo, angústia, sofrimento, desespero, melancolia, vazio > o possível olho do título, teorizo. Para quem discorda de que sexo nunca é apenas sobre sexo, eu sugeriria a leitura dessa obra.

Para abandonar o tom meio depressivo, ousarei pinçar (logo ali abaixo) uma bela passagem do História do Olho que, confesso, provavelmente alimentará meu inconsciente na criação de novos sonhos libidinosos; sobretudo porque, no momento, o único passeio que tenho me permitido fazer, e adorado, são justamente passeios de bicicleta. Já imaginou, bicicletar pelada na companhia de um chef de cozinha charmosinho? Eita, lembrei de que, Em Como Água para Chocolate, Esquivel bolou uma cena à altura: cavalgar pelada, queimando de tesão. E aí, Morfeu? Vai a cavalo ou de bicicleta? O trecho:

Georges Bataille, História do Olho

🍳

A sobremesa que fecha o post é o filme O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1989, Peter Greenaway). Em seus diários (caderno de 1955), Alejandra Pizarnik escreveu "Lo que yo quisiera es vivir mi vida diurna entre libros y papeles y pasar las noches junto a un cuerpo.", e Greenaway, nessa obra, atende os desejos da querida poeta. Puxa, amantes transando entre livros e comendo comidas maravilhosas, preparadas por um tremendo chef de cozinha. Massa, né? Talvez nem tanto, pois o filme aparenta alertar que é prudente cuidar do apetite, pois, caso o Ego perca controle da ânsia de tudo engolir, poderá morrer pela boca; literalmente.

"Ele está morto. Encheram-lhe a boca com as páginas arrancadas de seu livro favorito."

18/03/2021

Alejandra Pizarnik; Diarios - 22/08 a 01/09/1955

* Proposta do post: (1) anotar trechos, (2) devanear a partir das entradas de Pizarnik, (3) dar pitacos inúteis sobre o que ela discorre e/ou (4) estabelecer conexões. Uma conversa.

✒ Texto sinalizado com [📔], em verde + itálico entradas originais de Alejandra Pizarnik.


Cuaderno del 22 de Agosto al 
1 de Septiembre de 1955

📔 "Lunes pasado y presente vertido en la taza de un café bebido en el bar Florida. La mirada del OTRO que está frente a mí impide el saludable esparcimiento de mi incoherencia."

Talvez seja um deslize cometido por quem depende de dicionário, contudo, ainda que a tradução esteja errada, repare só: "saudável propagação de minha incoerência". Adorei. Bem que a internet, em seus primórdios, pôde ser utilizada, com mais segurança, para a propagação de nossas incoerências. Hoje, doida é quem continua propagando-as por aqui — exato, feito eu. Mas, conforme assinala Pizarnik, a propagação é saudável, e a internet está ao alcance tão fácil da mão... Ou encontro outro espaço ou deixo as incoerências se acumularem, o que possivelmente resultaria numa explosão (fatal?).

A poeta não explica, porém, de que forma a propagação de sua incoerência ocorre numa cafeteria; nem porque, exatamente, o olhar do outro a impede. Teorizo que transcorra como qualquer difusão. Para que aconteça, é necessário encontrar-se num meio cuja concentração de incoerência seja menor do que a de nosso interior (logo, se o local tem muita gente incoerente, não ocorre rs). Além disso, é preciso que nossa membrana esteja suficientemente permeável, estado encontrado quando escrevemos? Dançamos? Cantamos? Choramos as pitangas para a terapeuta? Meditamos? Tomamos um café, pensativas, numa cafeteria? Decerto o olhar do outro, citado por Pizarnik, afeta negativamente a permeabilidade da membrana.


📔 "Mi almita gime contra el sol, enemigo de la angustia auténtica. El sol, como buen canalla que es, haciendo dorar los objetos, impidiéndome darles el color que a mí se me ocurra. Sí. El sol nos engaña a todos. El sol es una vil ilusión de felicidad. Lo odio más que nunca."

Em postagem anterior, eu já tinha destacado esse sentimento da autora em relação ao sol; naquela ocasião, estabelecendo um paralelo com um trecho lindo de um conto do autor Bruno Schulz. Registro outra dessas entradas porque, dia desses, ouvi um comentário sobre o conto O Búfalo, de Clarice Lispector, que me remeteu à poesia da dupla Pizarnik + Sol. Li o conto de Lispector para entender melhor e dele transcrevo isto: "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado."

Mas num dia de 1955, o sol, com sua vil ilusão de felicidade, brilhava e dourava os objetos, e Pizarnik não pôde encontrar-se com sua própria tristeza. 


📔 "Es lo que pensaba cuando caminaba por los kioscos de libros del Cabildo. La plaza en que están instalados es pequeñita y miserable. Sólo tiene unos arbolillos filosos y míseros. (Me pregunto para qué los han puesto.) Para que haya verde. Para que haya creación. Miro un arbolillo y le prometo crear, crear y crear. Ser como la naturaleza, creadora como ella. (...) llamada. ¡He de crear! Es lo único importante en el mundo. Agregar algo. Dejar algo. En el kiosco veo un librito: Fausto de Goethe. ¿Qué importa que Goethe haya muerto? Allí está el testimonio de la realidad de su existencia. La muerte no puede contra él. Nada puede. Ni la guerra ni el avance atómico. Ni los burgueses en sus Cadillacs ni el portero que barre la vereda. ¡Oh, crear! ¡He de crear! Es lo único importante. Es lo único que queda. ¡Crear y nada más! ¡He de tapar el fracaso de mi vida con la belleza de mi obra! ¡Crear!"

Embora não seja filósofa, nem estudante de filosofia (manjo bulhufas, apesar da enorme curiosidade), ousarei lançar a pergunta: não é possível afirmar que essa visão da Pizarnik de 1955 é bastante platônica?! Li O Banquete dia desses e, bom, esse papo da poeta me catapultou direto para aquele discurso de Sócrates acerca do amor. Afinal, aqui Pizarnik expressa seu labor de amor, na medida em que sua natureza deseja perdurar, deseja eternizar-se e imortalizar-se mediante a procriação de seu espírito na beleza. Viajei? 


📔 El vendedor me habla. Dado mi acento, supone que soy europea. Me habla de «nuestra alta cultura». «Sí. Usted que es extranjera debe notarlo.» ¿Cómo explicarle que soy argentina? ¿Cómo explicarle mi extraño acento? ¿Por qué explicárselo? (..) edad; manifiesta la diferencia enorme entre una muchacha europea de diecinueve años y una argentina. ¡Qué inadaptada me siento!

Não sabia que ela falava espanhol com sotaque; o que avalio tenha contribuído para o recorrente tema da duplicidade, da cisão, em seus poemas. Por sinal, me dou conta de que nunca tentei localizar vídeos dela (imagem? som?) no You Tube. Deixe-me pesquisar rapidinho agora, volto já. <alguns minutos depois> É, parece não haver nada, porém encontrei um documentário (verei com calma depois - link: X), no qual consta um trecho em que Antonio Requemi (amigo) afirma que, embora se comentasse que Pizarnik fosse gaga; ela de fato não era; mas tão apenas arrastava a pronúncia da última sílaba das palavras. Essa informação sobre a autora me deixou pensativa. 


📔 "En la facultad encuentro a Susana Santalla. ¡Qué adorable es! Le digo de mi libro. Queda encantada. Me da su número de teléfono para que le avise cuando salga a la venta. Me asombra su cordialidad. Es perfecta. ¡Y esa alegría por algo que no entra en sus intereses!"

É tão raro encontrar pessoas que se alegram genuinamente, sem quaisquer interesses secundários, pelas conquistas de outra pessoa; que o assombro é inevitável.


📔 "Cuando caminaba hacia la escuela, un soplo de esperanza me inundó. Me vi caminando, sintiendo, mirando. Y me dije: ¡Soy feliz porque estoy viva! ¡Soy feliz de poder caminar y desplazarme hacia donde quiero! ¡Soy feliz porque no estoy muerta, porque soy joven, porque crearé belleza, porque debo a la vida mucho, porque siento que me llama algo muy grande!"

Desconcerta ler isso hoje, em 2021. (...) É, prefiro não comentar nada, somente deixar registrado.


📔 "¿Por qué no me ubico en un lugarcito tranquilo y me caso y tengo hijos y voy al cine, a una confitería, al teatro? ¿Por qué no acepto esta realidad? ¿Por qué sufro y me martirizo con los espectros de mi fantasía? ¿Por qué insisto en el llamado? ¿Por qué me analizo? ¿Por qué no me olvido de mi alma y no estrujo el pañuelito húmedo leyendo Cuerpos y almas? ¿Por qué no me visto con elegancia y paseo por Santa Fe del brazo de mi novio? ¡Ah! Sé que la vida es muy breve. Sé que no soy eterna. Pero, en realidad, no veo la muerte. La veo lejana. Digo cuarenta años pero no los veo. Veo un espacio inmenso. Veo millares de días. Sé que hay tiempo. Sé que amo mi alma. Me amo a mí. Amo mi cuerpo y lo besaría todo porque es mío. Amo mi rostro tan desconocido y extraño. Amo mis ojos sorprendentes. Amo mis manos infantiles. Amo mi letra tan clara. (¡Qué extraño que mi letra sea legible!)"

"Amo (...), amo (...), amo (...)" > Destaco para me convencer de que não me embananei ao postular que o espírito de Pizarnik é repleto de amor, nos moldes da definição platônica. 

Seria realmente mais tranquilo seguir a narrativa pronta, em vez de escrever uma narrativa própria? Um marido, uma casa, filhos, passeios de fim de semana com a família e..."pronto"? Sei não, Pizarnik; acho que tranquilidade é uma falácia. No máximo, dispomos de um tico de arbítrio para escolher o tipo de desassossego com o qual lidaremos na vida. E o legal é que fazemos a escolha como naqueles programas de TV onde, presos numa cabine à prova de som, somos obrigados a responder, de pronto, "sim" ou "não" às propostas que nos são apresentadas. Moleza viver, né?


📔 "Es muy tarde. Estoy excitada. Deseo un cuerpo junto al mío. ¡Cualquiera! Cualquier sexo, cualquier edad. ¡Eso es lo de menos! Basta un cuerpo a quien tocar y que me toque. ¡Mi sangre galopa! ¡Ah! Deseo fervientemente. Me disuelvo en deseos eróticos. Nada de amor. No. Nada de eso. ¡Sí! Lo que yo quisiera es vivir mi vida diurna entre libros y papeles y pasar las noches junto a un cuerpo. Ése es mi ideal. ¿Es lascivo? ¿Es lujurioso? ¿Es estúpido? ¿Es imposible? ¡¡¡Es mío!!! Y con eso basta. Pero ¿dónde conseguir ese ser? Tendría que ser alguien como yo, que desee lo mismo que yo. ¡No existe! ¡Sé que no existe! Mi locura es única. ¡Mi originalidad! ¡Mi extremismo! ¿Qué será de mí? ¡No lo sé! ¡Sólo sé que no puedo más! ¡Que me muero de impotencia!"

Estúpido?! De dia, entre livros e papéis; de noite, ao lado de um corpo sensual? Pô, Pizarnik, claro que não; bem que eu gostaria. Err, porém esse papo aí de "teria de ser alguém como eu" é um tanto narcisista demais, não? Freud deve ter levantado do túmulo, depois dessa. Para aproveitar o tema, no entanto, registro um casal que costumeiramente me desperta perguntas correlatas: Gisele Bündchen & Tom Brady.


📔 "Me doy cuenta que no puedo seguir estudiando en la facultad. La chica de quinto año me enumeró los pensadores que más se estudian: Aristóteles, S. Tomás, Kant, etc. ¿Cómo forzar mi mente hacia ellos? Se me ocurre seguir Letras. ¿Cómo esperar cinco años para analizar a Faulkner? ¿Y por qué analizarlo? ¿Por qué leer a Molière? ¿Por qué leer a Góngora? Me hacen llorar de hastío. Comparemos a Vallejo y a Góngora. Sí. Ya sé que son dos cosas muy distintas. ¡No! ¡No puedo! ¡No puedo! Recuerdo que cuando [ilegible] comenzó a analizar a Baudelaire, traté de leer Las flores del mal ¡y no pude! ¿Cómo leer a Hegel si una sola frase suya me hace sentir ratón o tizne arrebatado por el viento de los siglos?"

"Cinco anos para analisar Faulkner?" (😬😁) Turma das Letras e Filosofia, foi a Pizarnik que escreveu, eu somente transcrevi no meu diarinho. Talvez eu tenha lido isso em boa hora, pois cogito uma segunda graduação num desses dois cursos, entretanto sempre empaco na pergunta: não seria uma nova cagada na minha vida? Quando penso que significaria ter de estudar a obra de XVHUvhv NJONLNKN**, a de JOUHUH NHIUHIU** (**: nomes cortados pelo Departamento Jurídico do blog), nossa, sinto um fastio tremendo. Que autores me fariam estudar por cinco anos, a fim de poder analisá-los a contento? (...)


📔 "Sin embargo, debo estudiar para decir que estudio. De lo contrario no valdré nada. Mi madre quiere que estudie. Quiere que tenga un título. (Sonrío despreciativa.) ¡Qué me importan los títulos! Digo que quiero ser escritora. ¡Bah! Son cosas al margen dicen. ¡Al margen!"

Num cenário em que a educação tornou-se um mercado muito bem abocanhado pelo capitalismo, esse "estudar para dizer que estudo" rende reflexões interessantes, no entanto o departamento jurídico do blog recomendou que eu ficasse calada.


📔 "de un libro de Azorín. Me retracto públicamente por mi desprecio hacia él. Es muy bueno. Tan claro. Tan simpático y limpio. ¡Tiene una tortura espiritual tan elegante!"

"Tortura espiritual elegante." Outra expressão preciosa.


📔 "Mi sexo gime. Lo mando al diablo. Insiste. Insiste. ¡Qué molesto es! ¡Cómo lo odio! Sexo. Todo cae ante él. Fumo para ver si se calma. Produce un alegre cosquilleo que recorre mi cuerpo. Dan deseos de tocarlo, de mirarlo, de ver de dónde sale ese latir tan independiente de mi querer. ¡Es tan dueño de sí! Cruzo las piernas. Se calma un tanto. Sexo. El eterno sexo. Digo que lo odio, pero algo lo quiero ya que lo mimo tanto. ¡Al diablo! Hablo de él como si sería [sic] algo verdaderamente independiente de mí. Vuelve a aletear."

"Fumo pra ver se me acalmo, (...) Cruzo as pernas" hahahahaha, por essa, não esperava*. Mas, ó, aaaaacho que a galera do pompoarismo diria que, se cruzar direitinho, ~resolve~. (que baixaria, blogueira.) [* Eita, por que eu não esperava?! As poetas devem estar praguejando "nós também transamos, sua tonta!"]


📔 "Quisiera ser hombre para tener muchos bolsillos. Hasta podría tener siempre un libro en un bolsillo. La ropa femenina es muy molesta. ¡Tan ceñida e incómoda! No hay libertad para moverse, para correr, para nada. El hombre más humilde camina y parece el rey del universo. La mujer más ataviada camina y semeja un objeto que se utiliza los domingos."

A gente fala, mas a indústria da moda não nos ouve... 

📔 "Además hay leyes para la velocidad del paso. Si yo camino lentamente, mirando las esculturas de las viejas casas (cosa que aprendí a mirar) o el cielo o los rostros de los que pasan junto a mí, siento que atento contra algo. Me siguen, me hablan o me miran con asombro y reproche. Sí. La mujer tiene que caminar apurada indicando que su caminar tiene un fin. De lo contrario es una prostituta (hay también un «fin» [sic]) o una loca o una extravagante. Si ocurre algo, alguna aglomeración o un choque, y me acerco, compruebo que no hay una sola mujer. Hombres."

As recorrentes entradas no diário da poeta sobre as delícias de ser mulher numa sociedade machista e patriarcal chamam atenção. A impossibilidade de caminhar sem um propósito me pega principalmente em viagens. Nem sei quantas vezes fui importunada ou fui objeto de piada de homens, nas oportunidades em que banquei a flâneur. Lembrei daquele causo já compartilhado no blog, sobre os moços que fizeram questão de reduzir a velocidade do carro em que estavam, a fim de gritar pra mim "isso é hora de correr, sua imbecil?" Nessas ocasiões, mentalizo* um palavrão e toco a caminhada.  (*: a raiva maior, se duvidar, é causada pela falta de coragem de verbalizar, em alto e bom som, o xingamento; o ódio de ter de engolir o revide.)


📔 "Arturo me presentó a unos amigos suyos: «Ésta es Alejandra, la niña más dotada del mundo. Tiene todo lo que Dios puede conceder a un ser humano… y sin embargo, está siempre triste». (...) Uno de ellos dijo que mi tristeza se manifiesta más en los labios que en los ojos."

À primeira vista, confesso que me pareceu poético, porém logo me perguntei se essa "tristeza manifestada nos lábios" não seria uma versão daquela aporrinhação que mulheres escutam bastante de homens: "ãin, por que você não sorri mais? tão linda quando sorri."


📔 "Es terrible. Los libros de filosofía podrán ayudarme a pensar, pero me inclino a las obras de imaginación. Son más reales. De los ensayos e interpretaciones ni hay que hablar. Sencillamente, no debo leerlos."

Poxa, ensaio é legal, Pizarnik. Eu, pelo menos, curto bastante; desde que o/a ensaísta tenha uma escrita com a qual eu dialogue, é lógico. Aquele livro de ensaios da Jia Tolentino (Falso Espelho), por exemplo, super hypado recentemente, me pareceu tão sem graça, com tantas reflexões banais sobre a internet, que sequer me animei para terminar de ler o primeiro ensaio. Esse comentário da poeta também me fez lembrar da resistência que sinto ao tal "Non-Fiction November", basicamente uma leitura coletiva apenas (ou sobretudo) de livros de não-ficção, durante o mês de novembro; organizada por influenciadores literários gringos. Meu problema nem é com a proposta em si, mas com o subtexto que pesco no discurso de divulgação adotado pela galera: ~ "leitores, é hora de pararmos de ler livros de historinhas; leiamos livros de verdade, para finalmente aprendermos COISAS!" Puxa vida, não aguento.


📔 "Le pide «un sandwichito de salame sin corteza». Me estremezco de materialismo. ¡Salame! Hablar de literatura con un sándwich de salame en la mano. Y lo que más me choca es la falta de corteza. Un sándwich de salame «debe» tener corteza y ser tosco y crocante. De lo contrario, es como beber champagne mientras se come asado. ¡Oh, las pequeñas cositas!"

hahahahahha Xi, meio esnobe issaê, dona Pizarnik. (*amei*) Se ela souber que, enquanto leio os poemas dela, tomo coca zero e como uma porção de batata frita, estarei perdida. Além do mais, esse sanduba de salame harmoniza bem com algumas obras de latino-americanos: o Diário de Emilio Renzi (Piglia), o Deixa Comigo (Levrero).


📔 "Antes de la llegada de D. estuve oyendo un diálogo entre esas dos lesbianas que vienen todos los días. Hablaban de otra que las traiciona criticándolas y haciéndoles análisis psicológicos. Me asombra esa moralidad burguesa que manifestaban. En nada se diferenciaban de un vulgar matrimonio burgués. Quedé decepcionada."

Reitero: é a Pizarnik que escreveu, eu apenas transcrevo no diarinho; nada a declarar. Aliás, tenho sim. Perdão, é que acabo de notar uma conexão com certa birra progressiva que peguei daquela série Schitt's Creek. Preciso elaborar melhor, contudo ando me perguntando se ela não teria uma excessiva pegada  "all we are saying is give capitalism a chance". Ou: "heal the world, make it a better place, for the rich and the poor and the entire human race". Também me propus esta pergunta: Simply The Best, como trilha sonora de uma história de amor, não é meio estranho? Tipo, até ontem, essa não era uma música usada como trilha sonora por atletas olímpicos, por políticos em convenções partidárias, por coach de empresa, por gurus empreendedores? Ressignificaram* a música da Turner? Não entendo nada; mas o moço que interpreta o Patrick é tão fofinho, que relevo. Ah, mas que o romance David&Patrick é burguês, é sim; só não tenho certeza se isso é bom ou ruim. Nem bom, nem ruim? Sei lá. (*: quem ainda aguenta essa palavra, senhor? peço desculpas.)


📔 "Mi madre habla de enviarme a Francia. Mi tía me habla en francés. Recito un poema de Verlaine y canto la Balada de Guitry. Mi madre está orgullosa de mí, pues amenizo esta reunión familiar. Dice que vale la pena tenerme en casa, pues conmigo nadie se aburre. Entreveo su lucha respecto al famoso asunto del casamiento. Quiere convencerse. Quiere ver si puede convencerse. Quiere arrancarse las ideas burguesas. Sé que el éxito de su lucha depende de mí. Si estoy agradable, todo va bien. Si no… ¡Oh, soy una masa de contradicciones! Eres un ser humano, Alejandra. Iones negativos y positivos explotan en tu esfera."

A autora não escreve detalhes sobre a relação com a mãe (pelo menos até este caderno), no entanto entradas como essa (algo constantes; surgindo aqui, acolá) parecem revelar uma dinâmica complicada. No livro da Elena Garro (As Lembranças do Porvir - sim, de novo), encontrei uma frase que, embora simples, abarca um fato difícil de ser assimilado por muitos pais: "Ana costumava dizer: "os filhos são outras pessoas", assombrada de que seus filhos não fossem ela mesma." Por vezes, inclusive as filhas precisam tomar ciência e se convencer de que não são suas mães, de que não podem se responsabilizar pela felicidade de suas mães, à maneira da Pizarnik de 1955.


📔 "¿Qué haré hoy? Creo que volveré a Proust. Su mundo de princesas y duquesas es ideal para apartarse de esta masa llena de miedo y proyectos sangrientos."

Suspeitando de que 2021 será o ano em que lerei Proust, e a culpada será Pizarnik.