20/05/2021

[alinhavando] Rows of (empty) houses, all bearing down on me

 
Quão patético é, nesta altura da vida, precisar que livros/filmes me digam o que se passa comigo? Reajo com vergonha e desprezo. Para apaziguar o constrangimento, segurarei, antes de prosseguir, a mão de Elias Canetti. Em seus diários (*não li; descobri com Inger Christensen), Canetti afirma sempre retornar ao quadro A Cegueira de Sansão, de Rembrandt, a fim de conhecer a si mesmo, defendendo que ninguém conhece os próprios sentimentos até que se esteja diante deles por intermédio do outro; instante em que o indivíduo reconhece e toma consciência daquilo que deveras sente. Se é assim, que seja.

Em prévia postagem, mencionei minha última intensa crise de choro, a qual atribuí, naquela oportunidade, à constatação de que havia me mudado para um lugar super barulhento. No entanto, quando vi a cena em que Fern, personagem de Frances McDormand no filme Nomadland, revisita o antigo e abandonado lar, uma ficha caiu: minha choradeira ocorreu no exato dia em que, pela última vez, fechei sozinha as portas do apartamento onde morei por dez anos, pronta para devolvê-lo pintado, limpo, vazio. Após o filme de Chloé Zhao, perdi a certeza quanto aos motivos da enxurrada de lágrimas. 

Calma; não há motivo para pânico, pois não usarei este post para fazer um piegas exercício de autoinvestigação e passar (mais) vexame com oversharing pra isso, disponho de meu travesseiro. Na verdade, me dei conta de que Nomadland é um ótimo ponto a partir do qual alinhavar alguns devaneios a respeito do extraordinário livro que li ano passado, a obra-prima* The Death of the Heart (1938), de Elizabeth Bowen. [* = Exagero? Bom, informo que Anne Carson (!) o incluiu em sua prateleira de recomendados na Strand (NY), então os desconfiados podem colar no aval dela.] A propósito, causa-me estranheza o pouco espaço ocupado, no blog, pelos livros de que mais gosto. Suspeito, agora, que a teoria de Canetti possa explicar isso; digo, seriam livros muito próximos, de maneira que escrever sobre eles traria o risco de um desnudamento público. Vai saber. 

No livro Unfinished Bussiness - Notes of a cronic re-reader, Vivian Gornick diz que a obra de Elizabeth Bowen aborda sobretudo as consequências de viver com as emoções salvaguardadas, aquilo que Gornick chama "viver com a tampa fechada". De fato, isso é válido para as personagens de The Death of the Heart, porém, no caso específico de Portia, a protagonista de dezesseis anos, trata-se especialmente de narrar aqueles eventos determinantes de uma vida, capazes de fechar pra sempre a tampa de alguém. Quando reflito acerca desse tema, retorna-me à memória um singelo conto que adoro, de Tchekov, chamado Ninharias da Vida (tradução: Tatiana Belinky). Nele, Aliocha, um garotinho de oito anos, fica chocado com o adulto que, na sua frente e sem qualquer cerimônia, revela a outra pessoa os segredos que Aliocha acabara de compartilhar. A pobre criança chora, gagueja, treme e se encolhe, horrorizada com o que vivenciara. Como o homem pôde ter feito aquilo, se havia prometido, com sua palavra de honra!, que jamais contaria nada a ninguém; é o que Aliocha se pergunta transtornado. Com a criança nesse estado, o narrador de Tchekov encerra:
"(...) antes disso, ele não sabia que neste mundo, além de peras, pasteizinhos e relógios caros, existem ainda muitas outras coisas, que não possuem nome na linguagem infantil."

                                                           - Anton Tchekov, Ninharias da Vida (Tradução: Tatiana Belinky) 

Então, é mais ou menos isso que ocorre no livro de Bowen; quero dizer, lemos as circunstâncias que fazem Portia dar-se conta de que, no mundo, existem muitas outras coisas além de peras e pasteizinhos. E o que diabos isso teria a ver com Nomadland, certo? De imediato, é claro, surge a hipótese de que Fern, após suas perdas, está evitando manter a tampa aberta por muito tempo em um mesmo lugar, para uma mesma pessoa. Contudo, largo essa saída fácil e resgato o retorno da protagonista de Nomadland à casa abandonada, com a intenção de apontar que uma das cenas chave da trajetória de Portia, aquela durante a qual ela confronta o que não entende (tal qual Aliocha, ao recriminar o moço X9: "Nikolai Ilitch! O senhor me deu sua palavra de honra!"), ocorre justamente numa casa abandonada, vazia — o que, logicamente, não é à toa. Quanto à descrição desse específico espaço escolhido por Bowen para narrar a crucial sequência, destaco este trecho:
"The rooms, many flights up, were a dead end: the emptiness, the feeling of dissolution came upstairs behind one, blocking the way down."

                                                                                 - Elizabeth Bowen, The Death of the Heart. 

De onde vem esse peso opressor de lugares vazios, abandonados? Como era a primeira vez que Portia entrava naquela casa, sequer podemos solucionar a charada com o enfadonho "ah, porque as memórias, não sei quê, não sei quê lá". Opa, espera; o querido Aliocha está me soprando uma resposta: esses espaços impõem a sensação de uma promessa quebrada. Quando Portia sai da casa, o desencanto começando a corroer-lhe o coração, ela questiona se aquele lugar voltaria a ser habitado. A despeito da vista pro mar e do passado de cenário feliz dos feriados de muitos, agora só parecia restar a rispidez com que as paredes espreitam quem ali entra. Embora já tenha conversado bastante com ela no último post, trarei Luiselli de volta, pois, em Papeles Falsos, a autora reflete brevemente a respeito de espaços vazios. Luiselli atesta o fascínio e desconcerto despertados por tais ambientes, comentando que a sensação de espreita (gaze) é a simples extensão da mente que se diverte preenchendo o recinto. Por outro lado, a autora interroga se a intolerância ao vazio corresponderia a uma má formação da mente humana, supondo que heideggerianos pretensiosos afirmariam tratar-se da mera expressão oncótica de uma condição ontológica mais profunda: o horror do vácuo expresso como a diversão ocular e o passatempo mental no preenchimento dos espaços. Apesar disso, Luiselli garante encontrar conforto no uso da imaginação para mobiliar ambientes vazios.


Regresso ao livro de Bowen, pois outros dois elementos de The Death of the Heart me interessam para o alinhavo com Nomadland.

(1) Até os dezesseis anos, Portia viveu pulando de hotel em hotel na Europa, alheia ao conceito de lar fixo.

Ou seja, Portia e Fern seguem caminhos opostos: enquanto uma abandona, a outra embarca na vida nômade. O narrador de Bowen considera que, somente numa casa onde se aprendeu a ser sozinho, uma pessoa cria um apego particular aos objetos. A relação estabelecida com eles, tocando-os e vendo-os diariamente, transforma-se em amor, abrindo caminho para a dor. O terno vínculo firmado com a repetição de dias vazios faz com que o indivíduo rememore o hábito como momentos de felicidade. É nesses termos que a narrativa ressalta que, a cada nova partida de hotel, Portia sentia trair algo, tomada por uma tristeza profunda. O narrador de Bowen assegura que são nossos sentimentos que constroem o lar necessário, de modo que o desejo de se conectar é o que faz pessoas andarilhas rapidamente firmarem raízes num lugar: onde  inconscientemente sentimos, vivemos. Muitas passagens de Nomadland fazem crer que Fern torna-se nômade sobretudo devido ao desejo de explorar o mundo, contudo até que ponto a perda do marido, da vida tal qual ela conhecia, a faz temer a criação de raízes, a construção de novos amores a partir de hábitos que potencialmente abririam espaço para novas dores? 

(2) Conhecemos Portia quando, uma vez órfã, ela vê-se obrigada a se mudar para a casa do meio-irmão; um lar cujos habitantes estão com as tampas fechadas há bastante tempo.

Curiosamente, a casa do irmão de Portia é linda e plenamente mobiliada, porém a narrativa de Bowen cria uma atmosfera tão peculiar em relação a esse espaço, que a protagonista (e nós mesmos, leitores) sentimos uma constrição muito similar àquela da casa vazia. As pessoas que lá moram, conforme pontualmente as descrevi, contribuem bastante pra isso, mas a velha criada da família fala algo a respeito dos móveis que chama muita atenção. Matchett diz à Portia que nada passa incólume aos objetos que, com o tempo, sabem mais e mais sobre tudo e todos que os cercam. Observar um móvel significa ser observado de volta. Assim, para quem prefere não ter um passado, Matchett garante que móveis podem representar um fardo tremendo. No final de Nomadland, Fern decide finalmente se desfazer dos antigos pertences mantidos num depósito; a aparente decisão de se livrar da presença, do olhar dos objetos que (mesmo à distância) denunciam um passado que, nas palavras da própria protagonista, já foram rememorados por tempo suficiente da vida:
"It's like my dad used to say: "what's remembered lives." I maybe spent too much of my life just remembering, Bob." — Nomadland (2020) 
Tinha prometido a mim mesma que não falaria mais de pandemia neste blog, mas acabo tentada a registrar uma última (?) divagação. Até que ponto a inquietação por estar tanto tempo dentro de casa também decorre da sensação de estarmos sendo observados, julgados constantemente por nossos próprios objetos? Em parte, talvez esta seja a razão por que temos de sair frequentemente de casa, a fim de que persista o desejo de estar nela. Sair para um passeio, e voltar, nos permite dobrar o olhar de superioridade dos móveis que nos encaram, nos confere o poder de efetivamente "ofendê-los" com um "Eu estou vivendo; você, não." Além disso, quando regressamos, trocamos de lugar com os móveis: eles param de nos contar as mesmas histórias do passado, e nós passamos a ser os contadores de novas histórias para eles, que assumem o papel de ouvintes. Aloprei? Pode ser, no entanto aproveito para encerrar com o conselho que Luiselli costumava ouvir de seu porteiro (muito antes de pandemia): "saia de casa com frequência, passe o máximo de noites em lugares diferentes, pois assim você se conhecerá melhor."

11/05/2021

[alinhavando] sobre janelas, bicicletas e gagueiras

Às vezes fico preocupada com o quanto você olha por essa janela, comentou, certa vez, minha mãe. Noutra ocasião, o desassossego a fez perguntar: no que tanto você pensa aí, afinal? Confrontada pela direta pergunta, me dei conta de que, na verdade, não penso em nada quando estou à janela. Por outro lado, é possível que eu esteja tão profundamente imersa em pensamentos que, ao ser chamada, perco o fio da meada, tal qual um mergulhador que emerge sem a adequada descompressão. No livro Des Histoires Vraies, Sophie Calle compartilha uma foto da vista de sua janela, explicando que aquela é a imagem mais fotografada por seus olhos, ou seja, é a imagem da vida dela. Talvez seja isso; digo, a cada volta à casa dos pais, descubro que alguma coisa da suposta imagem de minha vida (infância, adolescência) não está mais lá, foi substituída por algo novo que preciso assimilar, o que requer longos períodos contemplativos. Uma teoria, apenas. No primeiro episódio da série Joe Pera Talks with You, o singelo protagonista fala que jamais poderia vender a casa em que mora, pois ela tem os melhores lugares para pensar, dentre os quais inclui-se o lado da cama de onde é possível observar a vista da janela. Sendo um homem solitário habitante de um lugar frio, Joe reconhece ter bastante tempo livre para pensar em questões urgentes como "Qual o futuro dos jantares casuais?", portanto é essencial que a casa dele tenha um lugar perfeito para pensar. Suspeito de que Joe não ficaria intrigado com o tempo que passo à janela.

Esses devaneios sobre janelas retornaram-me devido ao recente vídeo em que Gilberto Gil exibe as lindas janelas de seu novo apartamento. Sem exagero, quando meus olhos capturaram aqueles janelões lindos, de frente para o mar de Copacabana, quase chorei. No breve vídeo, o músico diz algo que definitivamente atesta sua larga experiência de janeleiro: abrir uma janela não significa apenas deixar o exterior entrar, mas também abrir-se para si próprio. Gil ressalta que a janela dá o poder da interioridade exteriorizar, ou seja, a janela não apenas traz o exterior pra dentro, como também leva o interior pra fora. É, creio que Gil é mais um que não ficaria intrigado com o tempo que passo à janela.

A todas as pequenas desvantagens de meu novo apartamento (registrei algumas em post anterior), acrescento agora a ausência de uma janela perfeita para pensar em nada. Localizando-se de frente para a outra torre do condomínio, meu novo lar assemelha-se ao apartamento onde Valeria Luiselli morou em Nova York, conforme ela descreve no livro Papeles Falsos: de dia, as paredes e janelas dos vizinhos dominam a vista; de noite, os vidros das janelas refletem o interior do próprio apartamento. A autora defende que essa impossibilidade de ver o mundo externo, substituída, à noite, por nosso próprio reflexo nos vidros, corresponde a uma estratégia arquitetônica que pretende criar a ilusão de privacidade em cidades onde, efetivamente, as vistas são um constante convite à bisbilhotagem. Embora ciente de que espiar a vida dos outros é sempre arriscado, uma vez que as posses e felicidades alheias podem resultar, pelo irresistível ato da mera comparação, numa onda de tristeza, a autora se arrisca e depara-se com uma realidade amarga: os vizinhos levam vidas tão chatas quanto a dela. A parte mais divertida, achei, é quando ela teoriza que, porque todos têm um computador/celular, nada acontece na janela alheia. Para Luiselli, a invasão de nossas casas por esses aparelhos implicou na impossibilidade de vidas interessantes o suficiente para satisfazer um vizinho voyeur. Ela não toca no assunto, porém o faço eu: os malditos celulares tornaram-se nossas janelas pro mundo, e isso me entristece um bocado (em postagem prévia, tangenciei o tema, ao comparar nossa situação atual a uma cena do livro Frankenstein, alinhavando-a ao livro The Lonely City, de Olivia Laing). A propósito, Luiselli me fez perceber que, se duvidar, só mantenho a cortina fechada para que o vizinho não descubra que passo até doze horas do meu dia diante do computador. Que deprimente. [P.S.: por razões óbvias, evito manjadas ironias com o filme Janela Indiscreta.]

Sendo um pouquinho mais grata por aquilo que tenho, devo reconhecer que a janela do banheiro me oferece uma vista bastante digna. No livro Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki destaca os prazeres das antigas latrinas em estilo japonês, ao ar livre, considerando indescritível a sensação de contemplar o jardim pela janela e se perder em pensamentos. Então, enquanto cagavam e apreciavam o luar, poetas japoneses vislumbraram temas para seus haicais*; eu, enquanto tomo banho e aprecio as luzes da cidade, confabularei novas groselhas para este blog. [* = foi Tanizak quem falou, tenho nada a ver com isso.]

Valeria Luiselli exerceu grande papel na conversão desta corredora/andarilha numa ciclista mequetrefe. Destaco que não houve apostasia, pois todo dia ainda é um bom dia para correr/caminhar. Por sinal, essa historinha também começa com a bendita mudança de apartamento. Durante a separação dos itens para doação, a velha bicicleta que viveu encostada por dez anos na parede da cozinha pediu piedade: — Dani, me dá uma chance, confia em mim. Enquanto ponderava com a empoeirada magrela, lancei mão do manifesto de Luiselli a favor das bicicletas.

Luiselli alega que, ao contrário de caminhantes e corredores, o ciclista não está preso ao ritmo e modulações de mais ninguém, estando livre para entregar-se plenamente à solitude e ao doce fluxo dos próprios pensamentos. — Ressalto que ela parece ignorar que, em cidades brasileiras, um ciclista, mesmo trafegando numa ciclovia, corre o risco de ser assassinado por um motorista. Será que as coisas são diferentes no México? Acredito que ela tenha em mente cidades europeias; não sei. — Bom, ressalva feita, afirmo que seus argumentos sobre o quanto o ciclismo pode ser generoso com o ato de pensar me convenceram em definitivo e fizeram a velha bicicleta sobreviver às doações. Sobre duas rodas, Luiselli me garantiu que o ciclista consegue encontrar o ritmo perfeito para observar a cidade, pondo-se na posição simultânea de testemunha e agente. Lendo as palavras da autora, tive a impressão de que a bicicleta poderia me proporcionar prazer semelhante àquele de olhar por uma bela janela. Hoje, após alguns bons passeios, confirmo que Luiselli está certa: aquele que descobre o ciclismo como uma atividade sem finalidade específica sabe possuir uma estranha forma de liberdade comparável apenas àquela do pensamento ou da escrita. Quem não tem janela, pensa com bicicleta. So it goes. [P.S.: quanto tempo até que eu apareça no blog, escrevendo que caí da bike e quebrei todos os dentes? Se eu continuar procurando passarinhos; logo, logo.]

Para fechar esse ponto do alinhavo, uma última nota. Ignoro se atualmente ainda ocorre entre europeus, mas fiquei encantada quando li, no livro da dinamarquesa Inger Christensen e no do francês Raymond Radiguet, relatos de famílias que, na primeira metade do século XX, fizeram viagens intermunicipais de bicicleta. Ok, talvez não seja tão glamoroso quanto eu esteja idealizando (a canseira; o "detalhe" da guerra), porém imagine a vista dessa janela itinerante?! 


No último post sobre os diários de Alejandra Pizarnik, escrevi que a descoberta de uma suposta gagueira da poeta me pôs num estado reflexivo, e a razão, em parte, recai sobre uma passagem do livro de Luiselli. Antes, contudo, quero registrar uma cena do filme visto hoje, o Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami; a qual resgatou estes desvarios gagos. Numa conversa com o ("futuro") marido, a personagem de Binoche diz que a irmã, embora casada com um homem simplório e gago, julgava ter como marido o melhor homem do mundo, ouvindo o MMMMM-Marie como quem ouve uma canção de amor. O interlocutor de Binoche não se surpreende com o relato, compreendendo que o marido gago simplesmente se detém, agarra-se ao nome da amada. O golpe de misericórdia do filme é dado mediante a última fala de Binoche que, na tentativa de convencer o marido a dar-lhes uma chance, suplica: JJJ-James.

Pronto, voltemos à Luiselli, pois sozinha não consigo desenvolver estes pensamentos. Por intermédio da autora, conheci este poema de Ghérasim Luca, Passionément, no qual o eu lírico, gaguejando desde o primeiro verso, declara sua paixão: 

pas pas paspaspas pas 
pasppas ppas pas paspas 
le pas pas le faux pas le pas 
paspaspas le pas le mau 
le mauve le mauvais pas

(...) 

t'aime je t'aime passionnément 
je t'ai je t'aime passionné né 
je t'aime passionné 
je t'aime passionnément je t'aime 
je t'aime passio passionnément

(...)

Luiselli me conta que Luca foi um poeta romeno que teve de abandonar seu país e exilar-se na França, onde escreveu poemas gagos cheios de buracos. Luca habitava o francês, língua que era-lhe estrangeira, e a levava aos limites da sintaxe, ao outro lado da gramática. No ensaio, Luiselli recorda que, segundo Deleuze, quando a língua é tensionada a tal ponto em que a gagueira se inicia, significa que ela alcançou seus limites, passando a confrontar o silêncio. Depois dessa, como não ficar pensativa ao descobrir que uma poeta de quem se gosta pode ter sido gaga? E como não ficar desnorteada quando uma mulher apaixonada pronuncia (*importante: em meio a idas e vindas entre inglês, francês e italiano) o nome daquele que ama deste jeito: JJJ-James? (Ah, se eu te pego, Kiarostami.) É; a janela que busco é aquela que me permita mergulhar no silêncio.