30/04/2022

[alinhavando] Undoing the latches

Após encerrar as atividades no final de 2021, eis que, mais uma vez, resgato das cinzas o bloguinho. Para além de questões logísticas, a pausa resultou da concretização do que eu previra ano passado: meu pescoço travou linda e dolorosamente. Houve melhoras com a fisioterapia, porém sigo com dificuldades para permanecer sentada por longos períodos (e meu trabalho já me exige muitas horas à mesa); portanto é preciso cautela. A regra deste espaço sempre foi "só escrevo quando quero e sobre o que quero", de modo que apenas terei de acrescentar um "e se minhas condições físicas também quiserem." (Idade bateu demais.) Dessa maneira, hiatos sem postagens poderão tornar-se ainda mais longos, mas tudo bem. Por ora, estão publicadas no blog apenas algumas das postagens antigas. Aos poucos, republicarei outras, não todas. 

Ah, por que voltei? Hum... Talvez uma leitura deste ano tenha contribuído para a decisão. Marcelo, o narrador protagonista do livro Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas, durante seu rastreio de bartlebys, acabou por me lançar a pergunta: 
"— E a senhora, por que não escreve?
As mulheres, às vezes, são de uma lógica arrasadora. Olhou-me, surpresa com a pergunta, sorriu e me disse:
— O senhor está brincando comigo. E então diga-me: por que eu deveria escrever?"
To write or not to write, that is the question. (Na Internet de 2022, então, nem se fala.) Marcelo, soltarei por uns instantes a mão de meu querido Bartleby e retomarei a jornada da blogueira do sim. Yes, I'd rather not to write (groselhas). [*até o dia em que eu prefira não.]

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Na tentativa de me adaptar ao Instagram (devido à falta do blog), postei por lá um alinhavo, em vídeo curto, entre estes dois livros: Os Tais Caquinhos, de Natércia Pontes e o  Autobiography of Red (Autobiografia do Vermelho), de Anne Carson. Num exercício de aquecimento para a volta do blog, incluo uma versão em texto logo abaixo. No entanto, dadas as condições do meu pobre pescoço, antecipo a possibilidade de, a partir de agora, recorrer com maior frequência ao formato de vídeos no blog. A ver.

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"(...) Pedro Garfias (...) um homem que podia passar uma infinidade de tempo sem escrever uma única linha, porque procurava um adjetivo. Quando Buñuel o via, perguntava-lhe;
— Já encontrou aquele adjetivo?
— Não, continuo procurando - respondia Pedro Garfias, afastando-se pensativo.

(...)

A vida é horrorosa, disse a mim mesmo. Imediatamente, porém, pensei que aquilo já não mudava nada e que era melhor não perder tempo procurando adjetivos para a vida."

            — Enrique Vila-Matas; Bartleby e companhia. (Tradutoras: Maria Araújo/Josely Baptista)


Quando resenhistas falam/escrevem a respeito de Os tais caquinhos, de Natércia Pontes, é recorrente relatarem que o livro trata da vida de adolescentes que, durante a Fortaleza da década de 90, vivem num apartamento sujo, fedido, entulhado de lixo, repleto de baratas, sem comida. Bem menos recorrente nas resenhas — pra não dizer quase inexistente — é a preciosa informação de que a autora escolhe que a forma de sua narrativa reflita o espaço caótico e entulhado no qual as personagens vivem. Ou seja, assim como as personagens, o leitor também habitará um texto sujo e amontoado. Para efetivar essa decisão estilística, a autora lança mão de alguns recursos narrativos, dentre os quais estão os diversos capítulos curtos que, empilhados no sumário, parecem esboçar a imagem dos caquinhos do título, algo que também relaciona-se à fragmentação em que se encontram as personagens do livro. Em resenha na revista 451, Iara Machado Ribeiro comenta esse aspecto formal do texto, chamando atenção ainda ao uso sistemático da conjunção "e": "Com blocos de texto sem parágrafo, iniciados sempre por inusitados títulos, e o uso sistemático da conjunção “e”, o enredo e a forma do texto se encontram nessa estética do amontoamento, a obsessiva conservação das coisas que formam uma vida." Neste meu post, no entanto, desejo me deter num específico artifício de escrita eleito pela autora: o excesso de adjetivação. Natércia Pontes escreve um texto repleto de adjetivos, outra ferramenta na construção de uma forma que espelhe uma vida em escombros. Quase todos os substantivos estão colados a um adjetivo; por sinal, o mais comum são dois adjetivos para cada. Consegui localizar uma resenha que aborda esse específico procedimento, escrita por Julie Fank, para o Plural Curitiba: "A adjetivação kitsch entalhada nas descrições quase faz, vez ou outra, a história escorregar, mas, notadamente, forma e conteúdo se dissolvem na decadência encapsulada de uma família em pedaços. É como se cada descrição nos propusesse um reconhecimento do caco estirado no chão, somente nomeável a partir da análise da arcada dentária."  Por mais que eu compreenda a escolha estilística da autora — em teoria, pertinente e interessante —, é forçoso admitir que não consegui dar conta de tantos adjetivos, sendo "vômito verde e luminescente" o ponto de máxima irritação em que me dei por vencida e abandonei a leitura. Não deixa de ser curioso, pois, ao admitir minha dificuldade em ler esse texto, é como se eu desabafasse às personagens: sinto por vocês, mas terei de abandoná-las, uma vez que não consigo viver nesse espaço caótico e sujo.

Passado certo tempo, tive uma epifania que me trouxe de volta à memória o que Anne Carson escreveu a respeito de Stesichoros, logo no início do livro Autobiography of Red (Autobiografia do Vermelho), o qual li este ano, pouco antes de Os tais caquinhos. Stesichoros foi um poeta da antiguidade clássica grega que se destacou por justamente fazer adjetivos. Ao apresentá-lo, Carson nos convida a pensar por um instante acerca de adjetivos. O que seriam adjetivos? Nas palavras da canadense, nomes nomeiam o mundo, verbos ativam os nomes, contudo adjetivos vêm de outro lugar. Em grego, a palavra significa "colocado em cima" — olha os cacos de Natércia Pontes, seus diversos e curtos capítulos empilhados na obra — importado, estrangeiro;  e, em princípio, parecem tratar-se de acréscimos inofensivos. No entanto, esses pequenos mecanismos importados são responsáveis por conectar todas as coisas do mundo a um lugar de particularidade. Os adjetivos são as travas do ser. ("They are the latches of being") Ao retrabalhar os adjetivos em sua épica, Stesichoros começou a desfazer as travas, de modo a permitir que todas as coisas do mundo passassem a flutuar livres; livres para todas as diferentes possibilidades de ser. Ao rememorar esta passagem do livro de Anne Carson, voltei a refletir, atônita, sobre a obra de Natércia Pontes; percebendo que a proliferação de adjetivos dialoga não apenas com os cacos e a sujeira, mas também com o tempo e espaço daquele livro. Possivelmente apenas aqueles que viveram a adolescência na Fortaleza da década de 90 compreendam, porém, eu vivi esse tempo/espaço e, quando penso nele, a imagem e sensação que me tomam é precisamente a de uma vida presa numa particularidade. Ali, naquele meio, não era possível flutuar para agarrar qualquer uma das inúmeras possibilidades diferentes de ser. Na Fortaleza da década de 90, uma amarra bastante firme segurava os adolescentes —  a Daniela adolescente, que seja — a um único jeito de ser. É claro que cada experiência é diferente, no entanto, pelo menos até o ponto em que li Os tais caquinhos, sinto-me segura em afirmar que as personagens do livro, a protagonista em especial, sentiam-se presas a uma única forma de ser, soterradas pelos caquinhos da vida. Embora irritantes, o quanto cresceram pra mim os tais adjetivinhos da narrativa de Natércia Pontes... Se duvidar, é outra razão por que não consegui terminar o livro: não quero (não posso) voltar àquele modo de ser, àquele tempo e espaço, ainda que apenas via literatura. Farei como a personagem de Vila-Matas, incluída na epígrafe do post: não perderei tempo procurando adjetivos para minha vida. Flutuar! é a ordem do dia. 

13/11/2021

[off-topic] 저기 멀리서 바다가 들려

Em setembro, postei breves impressões sobre minha primeira assombrosa experiência com dramas coreanos e afirmo que, de lá pra cá, as coisas só pioraram. Ou melhoraram? Nem sei. Direi que melhoraram, pois a Coreia persiste proporcionando alegrias. Há novos dramas sobre os quais adoraria conversar; no entanto, agora venho escrever sobre alguns destaques encontrados quando finalmente explorei mais a sério o K-POP. Escrevi "mais a sério" porque, assim como os k-dramas, eu também já tinha tentado entrar de penetra na festa K-pop e falhado. Por tratar-se de um universo gigantesco e complexo, no passado pedi recomendações a conhecidas que manjam do assunto e, naquelas prévias ocasiões, só recebi dicas de Girl Bands. Com o parco conhecimento ora acumulado, tenho uma teoria do porquê não curti nada do que me recomendaram: a maioria das Girl Bands coreanas cantam Bubble Pop (~ pop fofinho) ou pop com pegada rap (algo, maaais ou menos, à la Nicki Minaj), e eu não costumo curtir esses sons. Enfim, nesta nova empreitada, segui meu caminho sozinha e finalmente consegui descobrir excelentes músicas pop/dançantes para correr, andar de bike, faxinar a casa, tomar banho, dançar; daí pensei que valeria a pena registrar algo deste momento. Apelarei para uma listinha sucinta.

[P.S.: sim, também estou lendo literatura coreana. Já providenciei três livros e, ~qualquer dia desses~, publicarei algo sobre eles.]

📻 VIREI ARMY?! OH NO.
→ O que é necessário pra ser Army? Há limite de idade? Aceitam vovó? Requer trabalho integral? Quanto eu precisaria investir nisso? Minhas escavações ainda não me deram respostas, contudo a verdade é que, sim, dei uma chance ao BTS e estou encantada, bem feito pra mim. ¯\_(ツ)_/¯ Na minha idade, é um tanto vexatório, reconheço. Mas dane-se, até porque afirmo, sem pestanejar, que os rapazes fazem um pop bastante honesto — opa, mais que honesto, com muitas canções ótimas. Inclusive, ousaria dizer que, quanto a Boy Bands, o BTS elevou o nível consideravelmente (seja em música, dança, qualidade das performances). (*Ressalva*:  P- Eu entendo de Boy Bands? R- Não.)

Bom, a apresentação deles no Tiny Desk (NPR), em 2020  [aliás, mal acreditei quando o You Tube me entregou o resultado na busca: "BTS na NPR?! Say what?!"] foi o que me rendeu de vez à banda — poxa, achei bem bacaninha. Além disso, suspeito de que o fato deles estarem mais velhos me ajuda a abandonar tolas resistências. Play! ↷


→ Não citarei todas as músicas de que gosto (há várias extraídas das playlists de hits e da escuta cuidadosa da discografia completa ↦ ainda estou em 2016), porém vale incluir umas coisas que jamais imaginei encontrar, e que adorei ("como assim isso é BTS?"). Três exemplos:

esta - Dis-Ease (2020) (refrão super delícia):

e esta - Trivia 起 : Just Dance (2018) (tem um beat firmezinha demais):

e mais esta - Ma City (2016) (Say la la la la la;그래 babe babe 이게 나의 city )

→ O que me divertiu bastante durante esta semana — a propósito, é o que me convenceu a deixar este arquivo no blog — foram as Lives que os membros realizam no site VLive, em especial aquelas com um integrante sozinho. Pra começar a conversa, o rei da porra toda (na minha opinião etc.®): Jeon Jung-kook, vulgo JKaaaaaaaayyy. Na moralzinha, esse maluco simplesmente liga a câmera e fica 1-2 horas falando bobagens aleatórias divertidíssimas com as fãs e/ou (o mais massa:) dando um mini show vestido de pijama (é da LV? menor ideia), com direito a covers e danças mega legais, tudo com um microfone na mão e a música tocando nas caixas de som (isso quando ele não fica enchendo a cara de vinho). Nesse sentido (e nessas lives, ao menos), me lembra o Thom Yorke (caaaalma:), quero dizer, é nítido o quanto ele se diverte e sente prazer em se apresentar para o público, em estar sob os holofotes. Sei lá; acredito que músicos que se apresentam assim — ou seja, sem o sorrisinho protocolar de quem está no palco a trabalho — permitem que haja uma efetiva troca de anima (termo emprestado do Yorke) entre artista e plateia, o que muito admiro. Ah, e quando ele apela para o site Papago, a fim de traduzir tanto o que as fãs escrevem nos comentários da Live, como também o que ele quer dizer pra elas? Puta merda, acho tão singelo, que meu cuore escapa pela boca. A partir dos pouquíssimos comentários das fãs lidos (devo chamar de stans? armies? ajudem a vó!), tenho a sensação de que a predileção por algum dos membros é desencorajada; porém não tem como resistir a esse moço. O Jung-kook me desperta tanto carinho, que só posso desejar que a carreira dele decole para voos ainda mais altos — potencial para carreira solo, ele tem. (*Por favor, não seja cancelado.*) Colo a live que, jizuiz, vi duas vezes nesta semana (ah; claro, a beleza dele não atrapalha nadinha):

 [**sugeriria ver ao menos a partir do ponto 50:45 da Live.]

Meu segundo destaque relacionado às Lives vai para Kim Tae-Hyung, V para as íntimas. Somente encontrei duas até agora, mas adoro o lance meio nonsense, meio lynchiano (calma, estou pensando naqueles vídeos curtinhos que o Lynch solta na internet). Em linhas gerais, o rapaz fica comendo em frente à câmera (um mukbang light, digamos) , com uma postura meio indiferente/desconectada, e é isso aí. Numa live na qual V come, enquanto deixa uma playlist tocando, caí na risada quando ele diz +- "não estão me ouvindo? não importa, essa live é sobre a música, curtam aí o som, enquanto eu como meu sushi". E vale reparar no gosto musical dele: Al Green, Etta James... Contudo Boyz II Men...? Err, embora tenha mesmo boas músicas para karaokê, é um grupo que me deixa meio ~desconfiada~:

Entrego o prêmio de consolação das lives ao Park Ji-min, muito bonitinho ao comentar, morrendo de vergonha, que a corrida lhe tem sido uma forma de aliviar o estresse (está certo!): Link aqui.

→ Impensável fechar o tópico BTS sem parabenizar o responsável pelas coreografias da banda: Sonsungdeuk. Tentei escolher uma coreô favorita, porém não consegui. Talvez a de Idol (?), com muitos passos que lembram os da Sherrie Silver, responsável pela coreô de This is America, do Gambino (meu passinho favorito entrou!). Oh, to be a teenager practicing BTS choreographies with my friends, at Centro Cultural de SP...


→ *O universo BTS definitivamente rende muito assunto que me instiga (a barreira/ponte do idioma — meu tema favorito nesse lance —, a fabulosa relação com as fãs, a estética, a música enquanto poderosa empreitada de negócio e até política pública econômica/diplomática (!) etc), portanto o grupo poderá retornar ao blog.


📻 A seguir, incluo meu solista favorito, uma das maiores glórias desse universo de músicas coreanas dançantes; com muitos trabalhos que seguem uma estética andrógina: TAEMIN! A música que mais ouvi foi Criminal (amo), no entanto colarei o mais recente clipe dele, música Advice, pois é maravilhoso — os passos da coreô! aaaahhhh! 

Por que Taemin não é um estrondoso sucesso mundial?! Ele tem tanta música pop massa, tanta performance incrível; realmente não entendo. Deve ser porque o planeta é habitado por tontas feito eu, que demoram a localizar a fonte do ouro.

*Key -  Não é um solista exatamente favorito, mas o último disco é muito bom, então o incluo. Minha música favorita é Yellow Tape (acho), entretanto opto por esta apresentação de Helium, pois o look e a coreografia são pura perfeição.

P.S.: ambos, Taemin e Key, fazem parte da boy band SHINee, igualmente excelente, gosto bastante.

📻 Este oitavo mini álbum do grupo Seventeen, intitulado Your Choice, é outra delicinha pop. Das seis músicas, só não curto a baladinha final (mas costumo detestar a maioria das baladinhas coreanas, sendo honesta — *exceção: SHINee/Taemin).  Música favorita: Anyone (mas ouvi Ready to Love pra caramba também).


📻 Conforme disse, infelizmente torço o nariz pra maioria das Girl Bands, porém, dentre as artistas solo, esbarro mais facilmente com músicas que me agradam e, até onde pude entender, quem manda nesse parquinho é a cantora Sunmi? Suponho que a música Pporappippam seja a mais famosa dela (ouvi até furar o disco), mas fixarei um achado recente (pra mim, pois a música é de 2013) - 24 hours(24시간이 모자라) (*saliento que necessito explorar melhor a discografia da Sunmi). 

Também tenho a LeeHi no páreo, outra formidável descoberta coreana mais recente (fico com Savior):

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Este papo vai longe (?), portanto até uma possível nova postagem. Bora dançar, Coreia!